Segunda-feira, 5 de Julho de 2010
Incoerências de Rachels sobre Doutrinas Materialistas da Mente e Fenomenismo

O livro "Problemas da Filosofia" de James Rachels (1941-2003), um dos mais prestigiados académicos da filosofia institucional no plano internacional, foi editado em 2009 pela Gradiva. O livro é um caleidoscópio de confusões teóricas, de falácias, algumas das quais me proponho desmontar aqui.


 


UMA CONFUSA DIVISÃO DAS "TEORIAS MATERIALISTAS"  DA MENTE: BEHAVIORISMO, IDENTIDADE MENTE-CÈREBRO E FUNCIONALISMO


 


Rachels divide as teorias materialistas da mente em três: behaviorismo, identidade mente-cérebro e funcionalismo.


Sobre o behaviorismo escreveu:


«A primeira teoria materialista: behaviorismo...»


«Watson e Skinner eram behavioristas metodológicos. Não negavam a existência de estados  mentais provados; disseram apenas que esses estados são irrelevantes para a ciência. Os estados mentais internos não contam para causar o comportamento e assim podem ser ignorados para efeitos científicos.» (James Rachels, Problemas da Filosofia, Gradiva, 2009, pag 118).


E referindo-se à teoria das localizações cerebrais do médico canadiano Penfield, que faz corresponder a cada ponto do cérebro uma dada imagem ou sentimento, escreveu:


«A segunda teoria materialista: identidade mente-cérebro.»


«Assim, enquanto os seus pacientes estavam plenamente conscientes Penfield usou uma sonda eléctrica para lhes estimular o cérebro. Um paciente disse que estava sentado numa estação ferroviária.Outro disse que estava a puxar um pau da boca de um cão. (...) Também foram relatados  sentimentos de medo e solidão. Em cada caso, era possível repetir a experiência, voltando a estimular o mesmo ponto do cérebro.» (James Rachels, Problemas de Filosofia, pags 122-123; a letra negrita é minha).


Aborda ainda o funcionalismo ou doutrina da interdependência e cooperação das diversas partes de um todo classificando-o como.. materialismo:


«Uma terceira teoria: funcionalismo.»


«Segundo o Funcionalismo, sentir dor é um estado idêntico à actuação de qualquer aspecto de um sistema que desempenhe essa função - que ligue esses tipos de inputs, outputs e relação com outros estados mentais. Para nós, portanto, uma espécie de dor pode ser um disparo de neurónios, enquanto que para um extraterrestre uma espécie de dor pode ser um mecanismo interno diferente. O carácter físico do mecanismo não interessa. Tudo o que interessa é que o mecanismo desempenhe a função apropriada.» (James Rachels, Problemas da Filosofia, pag. 130; a letra negrita é posta por mim).


 


Contestemos o vidro fosco das imprecisões de Rachels:


1) O behaviorismo não é, necessariamente, um materialismo. Qual é o traço essencial do materialismo?  É sustentar que o espírito ou não existe ou é o reflexo transitório da actividade material e dos processos biológicos com origem na matéria. O que o behaviorismo de Watson faz é reduzir o espírito ao instinto, a um sistema de reacções instintivas, vitais, que não são matéria mas radicam nela ou exprimem-se através dela. O behaviorismo é, ao menos numa versão, um vitalismo, corrente distinta do materialismo. É um pragmatismo: a verdade reduz-se ao que é visível, palpável, experienciável com objectividade. É um actualismo ergónico: a verdade reduz-se ao acto, ao acontecimento presente, à acção que executamos (ergon é trabalho, na língua grega). Isto parece ser materialismo mas pode ir além deste: vitalismo, energetismo. Conceitos que escapam ao estreito horizonte filosófico de Rachels que pensa mal, de forma antidialéctica, e a "preto e branco".


2) Quanto ao funcionalismo ser classificado, genericamente, como uma teoria materialista é perfeita idiotice. O funcionalismo diz respeito à articulação das partes de um sistema, neste caso da mente ou do corpo-mente, não à consistência ontológica - matéria, espírito, energia...- da mente.


O próprio Rachels reconhece que há um funcionalismo não materialista ( ele diz não fisicalista, sem perceber que fisicalismo não é o mesmo que materialismo):


«Devo acrescentar que, em rigor, o mecanismo não tem que ser físico. O Funcionalismo não fisicalista é uma possibilidade: os acontecimentos mentais podem não ser físicos desde que desempenhem o papel causal apropriado dentro de todo o sistema. No entanto, vou ignorar esta possibilidade e presumir que a versão mais razoável do funcionalismo é uma forma de materialismo.» (Rachels, Problemas de Filosofia, Pag. 130)


Se reconhece que há vários tipos de funcionalismo, por que razão insiste em incluir o funcionalismo, designação que pertence a vários géneros ( espiritualismo, materialismo, hilemorfismo, etc) no armário do materialismo?


3) A teoria das localizações cerebrais isto é, da identidade mente-cérebro,


tem uma versão materialista mas também uma versão hilemorfista, perspectiva que o pobre Rachels não encarou: as áreas do cérebro podem não ser causa mas concausa das representações mentais juntamente com as formas puras dos espíritos, das ideias, residentes fora da matéria, havendo pois sincronia entre o que está em baixo e o que está em cima.


4) Basicamente, há duas teorias materialistas da mente:


A) A da mente como emanação do corpo físico e do mundo material envolvente, que sustenta que os fenómenos mentais são meros agregados de átomos materiais, organizados de forma muito subtil, escapando às leis da matéria densa, A mente resulta da interacção  da matéria do cérebro e do sistema nervoso e o mundo material exterior, sem que haja localizações cerebrais de pensamentos e sentimentos..


B)  A da mente como resultado e cúpula reflectora das diversas partes do cérebro, por sua vez accionadas por estímulos do mundo exterior material.  Sustenta que os fenómenos mentais são agregados que nascem  do estímulo eléctrico ou electromagnético de determinadas áreas materiais do cérebro, segundo um sistema exacto e genético de correspondências.


 


INCAPACIDADE DE DISTINGUIR IDEALISMO DE FENOMENISMO E INCOERÊNCIA NA DEFINIÇÃO DESTE


Rachels não sabe distinguir o idealismo do fenomenismo e afirma, num primeiro momento, que ambos negam a materialidade do mundo exterior.


«À maior parte das pessoas de hoje o idealismo parece absurdo porque nega a existência de objectos físicos» (Rachels, Problemas da Filosofia, pág. 217)


«À primeira vista não parece que o Fenomenismo seja melhor do que o Idealismo, já que também nega a existência de objectos físicos. Porém, o Fenomenismo não nega que os objectos físicos existam; simplesmente, oferece uma análise surpreendente daquilo que são - agregados de dados dos sentidos.» (Rachels, Problemas da Filosofia, pág. 220; a letra negrita é posta por mim)


Ora isto não é rigorosamente assim. Note-se  a incoerência de Rachels, o baloiçar do seu débil pensamento em violação flagrante da lógica: afirma que «o fenomenismo nega a existência de objectos físicos» e, logo de seguida, diz o inverso.


Há um fenomenismo - doutrina que limita o conhecimento aos fenómenos, ou seja ao que aparece, aos entes visíveis e concretos - que é realista e não nega a existência de coisas físicas reais.


O fenomenismo puro é, na sua raíz, cepticismo: suspensão do juízo de facto ou de valor sobre os aspectos invisíveis e inexperienciáveis das coisas. Impossibilidade de ir com segurança para além do fenómeno que é objecto dado pelos sentidos ou conjunto de sensações figurando um objecto.


 


AS UNIVERSIDADES INSTITUCIONAIS USURPADAS PELOS FILODOXOS


O título deste livro de Rachels («Problemas da Filosofia») é o mesmo de um famoso livro de Bertrand Russell publicado décadas antes deste. E, contudo, Russell é claramente superior em inteligência a Rachels e muito mais preciso na escrita. Surpreendente é que, na contracapa do livro de Rachels publicado pela Gradiva, se classifique este de «filósofo de primeira linha». È um marketing desonesto. É vender gato por lebre, O facto de Rachels, um filósofo de terceira categoria, extremamente confuso, medíocre, ter atingido o estrelato e ver as suas obras publicadas em diversas línguas espelha bem o estado de degradação da filosofia institucional universitária e dá razão às críticas de Scopenhauer à universidade, no século XIX. Esta, em especial na área da filosofia, confere doutoramentos e mestrados a indivíduos que não têm verdadeira inteligência filosófica mas que, mercê de um trabalho sistemático de produção de textos, conferências, aulas,  recobertos do verniz da erudição, se alçam a «professores doutores». A universidade está, quase toda, na mão dos filodoxos, dos antifilósofos, dos eruditos de segunda e terceira categoria, que leram muito, deram muitas entrevistas, publicaram ou traduziram muitos livros mas não pensam com clareza luminosa.


www.filosofar.blogs.sapo.pt


f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 21:36
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