Segunda-feira, 12 de Julho de 2010
José Gil ou um filósofo bajulador do poder

No seu livro «Portugal hoje - o Medo de Existir»  José Gil, talvez o mais proeminente dos catedráticos de filosofia do establishment português, desenhou o  retrato do povo português e do seu actual modo de viver. O livro tem diversas teses interessantes a par de outras de duvidosa veracidade.


 


AFINAL, OS PORTUGUESES GOSTAM OU NÃO DE SI MESMOS?


 


Ao diagnosticar o individualismo típico do português, que se espelha no "chico-espertismo", tema do seu último livro «Em busca da identidade- o desnorte» José Gil escreveu:


«Resumindo, se a colectividade nacional não apresenta coesão é porque os portugueses não gostam um dos outros. E não gostam uns dos outros porque não gostam de si próprios - e reciprocamente. Daí a permanente tónica que agora se põe na necessidade de adquirir "autoestima", "confiança em si", etc. Ou seja, de deixarmos de nos queixar para andar para a frente."(José Gil, Portugal, Hoje: o Medo de Existir, pag 90; a letra negrita é posta por mim).


Dito de outro modo (Gil não usa estes termos): os portugueses são um povo "essencialista", amarrados a essências que precedem o existir - a religião católica e o sentimento inconsciente de que "sexo livre é pecado", o fado e a inevitabilidade do destino, a pátria lusa no extremo ocidental da Europa, etc - e falta-lhes trocar o sentimento reflexivo de autolimitação e miserabilismo pela acção confiante e não receosa da crítica dos outros. É difícil não concordar com José Gil nestas pinceladas que plasmam a idiossincrasia portuguesa.


O que me parece ser um paralogismo é o seguinte pensamento: «os portugueses não gostam uns dos outros. E não gostam uns dos outros porque não gostam de si próprios.»  Este laço necessário que Gil estabelece entre o gostar dos outros e o gostar de si mesmo  é muito discutível.


Os portugueses não gostam de si mesmos?  Então como se explica a expansão marítima do século XV, a constituição e manutenção do império colonial só desfeito com a revolução dos cravos de 1974-1975, a resistência como «cantinho luso» independente face à Espanha desde o século XII? Isso não é gostar de si mesmo, enquanto povo?


Que os portugueses não gostem uns dos outros, é indiscutível- essa é uma lei geral que se aplica a todos os povos. Ninguém ama ninguém individualizado, concreto, de forma estável e contínua. Há séculos Pascal, o fino psicólogo, escreveu:


«E se me amam por causa do meu bom senso, da minha memória, amam-me a mim? Não, porque eu posso perder essas qualidades sem me perder a mim mesmo. Onde está então esse eu, se não está nem no corpo nem na alma? E como amar o corpo ou a alma senão por essas qualidades que não são o que faz o eu, pois são perecíveis? Porque se amaria a substância da alma de uma pessoa abstractamente e quaisquer qualidades que aí estivessem? Isso não pode ser, e seria injusto. Nunca se ama, portanto, ninguém, mas somente qualidades.» (Blaise Pascal, Pensamentos)


Também José Gil não ama ninguém, além de si mesmo. Obviamente, ama - "amar" de forma derivada, interesseira - os familiares ou os amigos e alunos universitários, os seus leitores, porque o favorecem, lhe trazem reconhecimento, dinheiro, convívio social. E todos somos assim. Nenhum dos meus leitores me ama: quando muito,  aprecia ou ama as ideias, os raciocínios que aqui exponho, porque os considera zonas iluminadas da razão e se arma com elas para enfrentar a ignorância e os contraditores e triunfar social e profissionalmente. Mesmo a leitora deste blog que, eventualmente, eu ame, é por ter uns olhos negros sublimes, uns seios perfeitos e um corpo jovem, um espírito vivo e arguto - se ela perdesse essas qualidades eu deixaria de a amar...


Mas o amor a si mesmo é indicutível: a frase «os portugueses não gostam dos outros porque não gostam de si mesmos» é falsa. Decerto, cada pessoa detesta certos aspectos em si mesma - o homem que detesta ser baixo, ou calvo, ou assalariado, a rapariga que não gosta do seu nariz ou da tendência a corar ao ser interpelada, etc -  mas se se mantém viva, se quer ascender profissional e socialmente, competindo com os outros, superando-os ou ignorando-os, ama-se a si mesma.


Portanto, a identificação essencial do Eu com ou o Outro, operada por Gil, («Não me amo a mim, não amo o outro e viceversa») é equívoca. O Eu só engloba na sua essência o Outro como arquétipo e como percepção empírica. Em tudo o mais, na fisicalidade e na realidade social, o Outro é exterior e oposto ao Eu e o amor do Eu a si mesmo exige não amar, ser indiferente, ostracizar ou até odiar o Outro incarnado em pessoas. Isto não é dito por José Gil. Não o considero, obviamente, entre «os 25 melhores pensadores mundiais» como há anos o classificou o «Nouvel Observateur» (que sabem os jornalistas, da filosofia profunda ?). Gil escreve bastante bem, emerge à tona das águas cinzentas dos catedráticos de filosofia em Portugal, mas não me dei conta que tenha um pensamento rigorosamente original e genuíno criador de novas teses.


 


O GESTO REVOLUCIONÁRIO DE MANUEL PINHO NO PARLAMENTO EM JULHO DE 2009 E A BAJULAÇÃO DO PODER POR JOSÉ GIL


 


Numa entrevista incorporada neste livro «Portugal - o medo de existir» , escrito durante a governação de Santana Lopes em 2004, José Gil flagelou a prudência apriorística e inibidora como um traço negativo do carácter português:


 


«JOSÉ GIL - Pois não. A verdadeira prudência seria uma estratégia para medir e modular a acção, à medida que ela se desenrola. Mas nós não queremos agir. Porque a sociedade portuguesa, ao contrário de outras, é fechada, não tem canais de ar, respirações possíveis. É uma sociedade suavemente paranóica. As pessoas estão demasiado conscientes de si próprias, o que é um horror. Conscientes da imagem que possam produzir, da sua presença como imagem nos outros. Isso é paralisante.»


«PERGUNTA - Damos muita importância à nossa imagem?


«JOSÉ GIL - É uma obsessão. Estamos sempre a falar de auto-estima, esse termo horroso.» (ibid, pag. 146)


Em 2 de Julho de 2009, o ministro da Economia do governo socialista, Manuel


Pinho, durante uma discussão acesa no parlamento, desenhou com os dedos o símbolo de cornos, a rejeitar as alegações do deputado comunista Bernardino Soares. O gesto, captado pelas câmaras de televisão, foi transformado em escândalo. Mas, em si, o gesto não é mau.


Hora depois, o filósofo institucional José Gil, no telejornal de Mário Crespo na SIC, esteve uns bons 10 ou 15 minutos a lançar anátemas sobre o gesto de simbolizar cornos feitos por Manuel Pinho, mais ou menos nestes termos:


«É um gesto vergonhoso... Mostra a arrogância de um ministro, o desprezo pelo parlamento e pelos portugueses em geral. É inaceitável esta postura. »


Os comentários de José Gil assumiram um tom de bajulação do "politicamente correcto", isto é, do discurso prudente, a tal prudência que, na citação acima, ele criticava. Ao condenar Manuel Pinho, Gil foi a voz da elite dominante, estandartizada, que quer a democracia parlamentar como um tabuleiro de xadrez onde todos respeitam as regras e ninguém sai fora da norma modelo, seja no conteúdo, seja nas formas.


O gesto de Manuel Pinho foi revolucionário, sublime, na categoria do sublime terrível de que falava Kant. Na verdade o gesto de cornos de Pinho mostrou que:


A)  A luta de classes está presente no parlamento e pode e deve extravasá-lo.


B)  O parlamento não é um templo sacrossanto, do qual as "emoções vulgares"  devam estar excluídos.


C)  O PCP também merece levar uma reprimenda enérgica pitoresca, até porque é um partido burguês para operários, um partido de grandes hipócritas que, de vez em quando, defende interesses populares. Um desses hipócritas, com um carácter de inquisidor Torquemada, era, nem mais nem menos, o famoso José Saramago - só quem o conheceu de perto sabe desta faceta deste anti democrata por essência. Não significa que o PCP não seja necessário para contestar a vaga neoliberal que varre a Europa e o mundo... 


D)  A prudência de quem «está demasiado consciente de si próprio», apolínea, na linguagem de Nietzsche, deve dar lugar, periodicamente, à imprudência nas formas, à lava dionisíaca da paixão na acção. Não era aliás isso o que José Gil preconizava na citação acima?


E) O português autêntico, tradicional, puro, sabe mandar à m... e sabe fazer cornos aos que o denigrem e ofendem. Não é um robô de boas maneiras, possui um pathos que o faz indignar-se e romper o verniz.


 


Gil, o filósofo da moda em Portugal, nunca ousou criticar explicita e publicamente - ao menos que eu saiba - o mundialismo normalizador e o grupo de Bilderberg, ao qual se ligaram, aberta ou tacitamente,  o seu émulo Manuel Maria Carrilho e a nata dos comentadores políticos televisivos em Portugal (António Costa, Pacheco Pereira, Lobo Xavier, Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Sousa Tavares, Ricardo Costa, etc). É um filósofo - um pequeno filósofo, diga se - do sistema universitário, que, aparentemente, quer acertar o relógio de Portugal com o da Europa mais evoluída economica e tecnologicamente.


www.filosofar.blogs.sapo.pt


f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 


 


 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 15:40
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2 comentários:
De f.limpo.queiroz a 13 de Julho de 2010 às 16:30

É óbvio que gostam. E o facto de terem aguentado a ditadura de Salazar deveu-se, em parte, à necessidade de segurança pessoal muito premente na 1ª República de 1910-1926 onde o rebentamento de bombas e os atentados à integridade física eram semanais senão mesmo quase quotidianos.


De procurar a 13 de Julho de 2010 às 15:02
Claro que os portugueses gostam de si mesmos.


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