Segunda-feira, 2 de Agosto de 2010
Imprecisões de José Gil sobre o «chico-espertismo» e as formas de «dobragem» da consciência individual

No seu livro "Em busca da identidade- o desnorte", José Gil, catedrático de filosofia, define, no contexto de Portugal, o chico-espertismo ou habilidade de contornar a lei ou mesmo violá-la subtilmente com fins egoístas. Mas, apesar das virtudes do livro em particular na denúncia da monstruosidade burocrática da avaliação de professores e outros funcionários públicos posta em marcha pelo governo social-democrata de José Sócrates, há nele uma pequena cratera de incoerência  sobre a idiossincrasia do português. Escreveu José Gil:


« O chico-espertismo não é, pois, um traço psicológico, um aspecto do carácter do português. Como vimos constitui um espírito e uma prática que se situa no cruzamento das técnicas do "cuidar de si", enquanto processo de subjectivação, e as tecnologias do poder. O chico esperto não é o mentiroso, o grande escroque, o corrupto que se coloca claramente fora da lei.»


«Pelo contrário, aproveita um espaço não preenchido pela lei para cometer um acto quase legal, mesmo quando implica pequenas trangressões das normas jurídicas». (José Gil, Em busca da identidade-o desnorte, Relógio d´´Agua, pag. 32; a letra negrita é de minha autoria).


Mas contradiz-se ao afirmar adiante:


«Muita gente, largamente "desenrascada" na vida, pratica quotidianamente o chico espertismo: este é co-extensivo à nossa relação com o outro, com as instituições, com o poder e mais, connosco próprios. É inerente à subjectividade portuguesa, tomando actualmente uma dimensão alargada que envenena profundamente as relações sociais no nosso país.» (José Gil, ibid).


Acima, Gil afirma que o chico espertismo não é um traço psicológico do carácter português, abaixo, sustenta que é ( «...é inerente à subjectividade portuguesa»). Há aqui uma incoerência.


Importa questionar o nosso catedrático afrancesado sobre o seguinte: não há chico espertismo em França e na Europa tecnologicamente mais rica? Não há centenas de milhar de alemães, que poderiam trabalhar, a viver do rendimento social garantido pelo Estado? E se há, isso não é manifestação de chico espertismo?


Parece-me que o "chico espertismo"  - que Lenine classificaria como o "oportunismo pequeno-burguês" na sua faceta quotidiana - existe em todas as sociedades e não é peculiar da sociedade portuguesa. Está, porventura, mais desenvolvido em Portugal, do que na Noruega, Suécia ou Dinamarca, sociais-democracias com melhor nível de vida e uma tradição protestante do cumprimento do dever mais enraízada, nas quais não é necessário ser chico esperto para desfrutar de uma vida razoavelmente boa no plano material-social.


VER TRÊS FORMAS DE DOBRAGEM ONDE SÓ HÁ DUAS


Ao referir-se à dobragem, conceito extraído de Foucault que significa a moldagem das consciências individuais a partir de normas sociais e valores coercivamente lançados de fora, José Gil distingue três modalidades:


«Há vários tipos de dobragem. Um deles diz respeito à força de singularização e de individuação, força vital apanhada pelas formas de poder e de saber que nos impõem uma individualidade determinada, apta a desempenhar as funções que lhe são atribuídas. Trata-se aqui, de facto, de um tipo de domínio do poder moderno sobre os indivíduos, fabricando subjectividades pré-concebidas - assim, por exemplo, acontece no trabalho imaterial dos "serviços" , tal como um lugar de "relações públicas"  de uma empresa, para a qual se exige um "perfil" psicológico e comportamental específico ou como um manequim a quem se pede um certo corpo, um certo estilo de inexpressividade, etc. A dobra da subjectivação interioriza nos indivíduos uma maneira de estar e de ser que atinge o cerne das suas vidas.»


«Um outro tipo de dobragem consiste em fixar para cada indivíduo uma identidade bem definida socialmente, quer dizer, pertencente a uma categoria definitiva. E, mais uma vez, é na relação dos indivíduos com o poder que este dobra a força da singularidade "individual" - que não é pessoal, psicológica, mas, pelo contrário, força de transformação, força impessoal de "ser múltiplo" (como diria Fernando Pessoa). Como exemplo dominante de subjectivação nas sociedades contemporâneas, pode-se a apontar a avaliação enquanto método universal de formação de identidades necessàrias à modernização.» (José Gil, Em busca da identidade- O desnorte, pags 24-25; a letra negrita é posta por mim).


Não se percebe a diferença entre os dois tipos de dobragem referidos por Gil neste texto: um diz respeito à "singularização" - o exemplo invocado é o do perfil exigido para ser "relações públicas" de una empresa ou manequim -  e o outro, segundo Gil, fixa "para cada indivíduo uma identidade bem definida socialmente, quer dizer, pertencente a uma categoria definitiva" - e o exemplo invocado é o da avaliação. Mas não são ambas as formas de dobragem o mesmo? Não têm um manequim ou um "relações públicas" uma identidade bem definida socialmente? E não são ambos sujeitos a uma avaliação?


Gil duplicou o que não é duplicável. Hiper-análise e hipo-síntese. Com a navalha de Ockham, reduzimos a uma só estas "duas" modalidades de dobragem.


José Gil refere ainda uma "terceira" modalidade de dobragem:


«Trata-se da relação de poder de influência (ou de poder) que o líder entretém com os cidadãos» (ibid, pag 26).


Assim onde há duas modalidades de "dobragem" / moldagem das consciências a partir de fora, Gil "vê" três.


 


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f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 09:54
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