Terça-feira, 19 de Outubro de 2021
Tempo em Aristóteles (equívocos de Heidegger)

 

Com a pretensão de se apresentar como o criador da mais elaborada e filosófica doutrina do tempo, Martin Heidegger falsificou a teoria do tempo de Aristóteles. Também Kant falsificou a posição idealista de George Berkeley para atacar e superar este na opinião pública: Kant usou a frase de Berkeley de que «o espaço é impossível», descontextualizando-a, para ridicularizar o próprio Berkeley e classificá-lo de idealista dogmático, e para se apresentar com uma teoria original, quando ele mesmo, Kant, perfilhou a mesma tese idealista de Berkeley de que «o espaço é impossível em si mesmo», isto é, fora da mente humana. Os filósofos e os aspirantes a filósofos não escapam à vaidade de serem prestigiados, de "ficarem na história" e, com certa  frequência, adulteram as ideias dos seus opositores ou apropriam-se delas dando-lhes uma nova roupagem.

 

Sobre o tempo, Aristóteles é mais claro e mais profundo no seu livro Física do que Heidegger em O Ser e o Tempo, livro este que pretende ser uma réplica e uma superação da Física.

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Referindo-se aos que interpretam o tempo a partir do movimento dos ponteiros do relógio, Heidegger escreveu:

 

«O tempo é o numerado que se mostra no seguir, apresentando e numerando, o ponteiro peregrinante, de tal maneira que o apresentar se temporaliza na sua unidade extática com o reter e o estar na expetativa patentes no horizonte do anteriormente e do posteriormente. Mas isto não é outra coisa que a interpretação ontológico-existenciária a definição que Aristóteles dá do tempo: «Isto, a saber, é o tempo, o numerado no movimento com que se depara no horizonte do anteriormente e do posteriormente.» (Aristóteles, Física, Livro IV, 219b, 2).(...) A origem do tempo assim patente não constitui para Aristóteles nenhum problema.» (...)

«Toda a dilucidação posterior do conceito de tempo atém-se fundamentalmentre à definição aristotélica, quer dizer, faz do tempo um tema naquela forma em que se mostra no "cuidar de" , "olhando em redor". (...) Ao apresentar o móvel no seu movimento, diz-se: "agora aqui", "agora aqui" e assim sucessivamente. O numerado são os agoras. E estes mostram-se "em cada agora" como "em seguida já não"

«O tempo resulta compreendido como "um atrás do outro", como "fluxo" dos agoras, como "curso do tempo". (Martin Heidegger, El ser y el tiempo, pag 454, Fondo de Cultura Económica; o negrito é posto por mim).

 

Heidegger falsifica a posição de Aristóteles ao dizer que este descreve o tempo como uma linha contínua feita de agoras em contiguidade uns com os outros e que a sua concepção do tempo não constitui nenhum problema, é ingénua. É falso, como se pode ver pelas citações abaixo da Física de Aristóteles.  

 

ARISTÓTELES NEGA QUE O TEMPO SEJA FORMADO DE "AGORAS", AO CONTRÁRIO DO QUE DELE DIZ HEIDEGGER

 

Heidegger acusa Aristóteles de nivelar os momentos do tempo, dizendo:

 

«Na interpretação vulgar do tempo como sequência  de agoras falta assim a databilidade como também a  significatividade» :

«A constituição horizontal-extática da temporalidade, em que se fundam a databilidade e a significatividade do agora, resulta nivelada por obra desse encobrimento.» (Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 455).

 

Não se descortina como esta crítica possa atingir a textura da teoria aristotélica do tempo. Sem embargo de alguma oscilação de posição, Aristóteles não inclui o "agora" (nyn) ou instante no tempo: antes concebe o "agora" como um limite, indivisível, entre o passado e o futuro que constituem o fio do tempo. Portanto, Aristóteles defende a descontinuidade entre o agora e o passado e o agora e o futuro. Não se vê, com clareza, onde está o tal nivelamento do tempo em Aristóteles que Heidegger denuncia. O senso comum possui uma concepção atomística do tempo (este seria uma soma de agoras) mas não é essa a concepção de Aristóteles que torna o tempo semisubjetivo ou fenomenológico:

 

«Ademais, se o que nos permite dizer que uma coisa se moveu na totalidade do tempo AC, ou em qualquer outro tempo, é o facto de tomar o extremo desse tempo, a saber, um "agora" (pois o "agora" é o que delimita o tempo e o que se encontra entre dois "agoras" é tempo).» (Aristóteles, Fisica, Livro VI, 237a , 1-5).

 

«Assim, pois, enquanto limite, o agora não é tempo, mas um acidente deste; mas, enquanto numera, é número.» (Física, Livro VI, 220a, 20)»

 

Se o "agora" é um acidente do tempo, significa que não é a  essência deste. Há um movimento não local, não espacial, no tempo que o agora não incorpora, porque é estático. E prossegue Aristóteles:

 

«O "agora", considerado em si mesmo e primariamente, não em sentido derivado, quer dizer, como um lapso de tempo, é também necessariamente indivisível, e como tal é inerente a todo o tempo. Pois o "agora" é de algum modo o limite extremo do passado e nele não há nada de futuro, e é também o limite extremo do futuro e nele não há nada do passado; justamente por isso dizemos que é o limite de ambos. Quando se tiver demonstrado que é em si tal como o descrevemos, e que é um e o mesmo, ficará claro que o "agora" é indivisível.» (Aristóteles, Física, Livro VI, 233b, 30-35, 234 a, 1-59; o negrito é posto por mim).

 

O desmentido mais contundente da interpretação falaciosa de Heidegger sobre Aristóteles é dado por esta citação:

 

«Mas ainda que o tempo seja divisível, algumas das suas partes já foram, outras estão por vir, e nenhuma "é". O agora não é uma parte, pois uma parte é a medida do todo, e o todo tem que estar composto de partes, mas não parece que o tempo esteja composto de agoras. (...) Porque há que admitir que é tão impossível que os agoras sejam contíguos entre si, como um ponto o seja com outro ponto. Então se não se destruísse no seguinte agora, mas sim em outro, existiria simultaneamente com os infinitos agoras que há entre ambos, o que é impossível.» (Aristóteles, Física, Livro IV, 218 a, 5-10; 15-20; o negrito é posto por mim).

 

«O tempo não está composto de "agoras", nem uma linha de pontos, nem tampouco um movimento em ato de movimentos já cumpridos, pois quem afirme o anterior não faz senão supor que o movimento está composto de átomos de movimento, como se o tempo estivesse composto de "agoras" ou a magnitude de pontos.» (Aristóteles, Física, Livro VI, 241 a, 1-5; o negrito é posto por mim).

 

O tempo é contínuo, divisível até ao infinito e é número de movimento. É como uma linha, possui duração - o passado tem uma duração experienciada, enquanto há notícia dela, e o futuro possui uma duração ainda em potência -  e o agora é como um ponto que divide a linha do tempo. Ora uma linha não é, em rigor, um conjunto de pontos porque um ponto não possui extensão: do mesmo modo o tempo, que é duração, não é um conjunto de agoras, cada um dos quais não tem duração. Assim, para Aristóteles, o tempo é numeração movente entre os agoras - o agora é formalmente sempre o mesmo, o limite, mas substancialmente, no seu conteúdo, altera-se a cada fração de segundo - e não, como diz Heidegger, um fluxo formado de agoras.

 

Ao contrário do que diz Heidegger, apresentando Aristóteles como defensor do tempo como um "fluxo" de "agoras" ou instantes presentes, o tempo é como um segmento de reta entre dois agoras ou uma linha reta lançada para trás a partir do limite que é o agora .  

 

«O tempo é, pois, contínuo pelo agora e divide-se no agora, mas também sob este aspeto segue a deslocação e a coisa deslocada» (Física, Livro IV, 220a, 5-10).

 

Esta frase, para ser compatível com a tese de que o tempo não se compõe de agoras, pode ser interpretada neste sentido: o tempo é composto de passado e futuro, descontínuos entre si, um já morto (o passado) o outro ainda por nascer (o futuro) separados pelo agora que faz nascer o tempo, incessantemente. 

 

«O agora é a continuidade do tempo, como já dissemos, pois enlaça o tempo passado com o tempo futuro e é o limite do tempo ...(Física, )  

 

 Ocorre-me ser possível comparar o agora com as fotografias da fita de celulóide que a máquina de projeção cinematográfica faz correr e o tempo com o filme. As fotos ("agoras") delimitam o filme, que é movimento .

 

A Física de Aristóteles é rica em definições precisas:

«Entendo por "contínuo" o que é divisível em divisíveis sempre divisíveis; e se temos por assente que isto é a continuidade, então o tempo tem que ser necessariamente contínuo» (Física, Livro VI, 232b, 20-25).

 

UMA CONCEPÇÃO FENOMENOLÓGICA E UMA CONCEPÇÃO REALISTA EM ARISTÓTELES: TEMPO E ALMA SÃO INDISSOCIÁVEIS E TEMPO É A MEDIDA DO MOVIMENTO DA ESFERA

 

A meu ver, a concepção do tempo em Heidegger não constitui nenhum passo adiante em relação à concepção aristotélica do tempo, mal compreendida ou intencionalmente falsificada pelo filósofo alemão. Ora Heidegger escreveu:

 

«O tempo tornado público na medição do mesmo não se converte de maneira alguma em espaço por obra de datá-lo mediante relações métricas espaciais. » (Heidegger, El Ser y el Tiempo, Fondo de Cultura Económica, Madrid, pag 450).

 

Aristóteles não converteu o tempo em espaço. E Heidegger prossegue:

 

«"O tempo" não está "diante dos olhos" nem no "sujeito" nem no "objeto", nem "dentro" nem "fora", e "é" anterior a toda a subjetividade e objetividade representa a própria condição de possibilidade de este "anterior". Tem em geral "um ser"?  E se não tem, é um fantasma ou é mais que todo o ente possível? (...) Antes de tudo, trata-se de compreender que a temporalidade, enquanto horizontal-extática, temporaliza o que chamamos um tempo mundano, que constitui a intratemporalidade do "à mão" e do "diante dos olhos". Mas então estes entes nunca podem chamar-se "temporais" em sentido rigoroso. São intemporais, como todos os entes que não têm a forma de ser do "ser-aí", dêem-se, gerem-se e corrompam-se "realmente" ou subsistam "idealmente" .» (Heidegger, ibid, pag 452),

 

O que Heidegger nos oferece é uma interpretação do tempo inspirada nas doutrinas de Kant - o tempo é criado pelo sujeito, não existe fora dele - e de Bergson - há um tempo psicológico interno, duração pura, diferente do tempo dos relógios. A temporalidade existenciária, mecanismo oculto, obscuro e profundo do "ser", na doutrina de Heidegger, não é senão a forma a priori do tempo, na doutrina de Kant,  que «temporaliza» isto é introduz a "aparência empírica temporal" nos fenómenos: o café de há minutos atrás, a rosa ressequida de há cinco dias, etc. Heidegger admite que os objetos são intemporais, estão fora do tempo à maneira de arquétipos em Platão ou das essências eternas em Aristóteles situadas em nenhum lugar, ou de númenos em Kant.

 

Aristóteles parece ser mais preciso que Heidegger sobre a natureza do tempo. Começa por atribuir-lhe um ser próprio que não é a mudança visto que esta é um sair fora de si e o tempo não sai de si mesmo senão no "agora".

 

«Todas as coisas se geram e destroem no tempo. Por isso, enquanto alguns diziam que o tempo «era o mais sábio», o pitagórico Parón chamou-lhe com mais propriedade «o mais néscio», porque no tempo esquecemos. É claro, então, que o tempo tomado em si mesmo é mais causa de destruição do que de geração, como já se disse antes, porque a mudança é em si mesmo um sair fora de si, e o tempo só indirectamente é causa de geração e de ser. Um indício suficiente disso está no facto de que nada se gera se não se move de alguma maneira e actua enquanto que algo pode ser destruído sem que se mova e é sobretudo de esta destruição de que se costuma dizer que é obra do tempo. Mas o tempo não é a causa disto, mas dá-se o caso de que a mudança se produz no tempo.» (Física, Livro IV, 22b, 15-25).

 

A tese «o tempo só indiretamente é causa de geração e ser» é profunda e desafia o senso comum. Heidegger passou em claro isto, apostado que estava em liquidar a doutrina de Aristóteles. A concepção realista do tempo, em Aristóteles, não é um realismo ingénuo mas um realismo crítico nos umbrais da fenomenologia:

 

«É também digno de estudo o modo segundo o qual o tempo está em relação com a alma e por que razão se pensa que o tempo existe em todas as coisas, na terra, no mar e no céu. Acaso porque o tempo é uma propriedade ou um modo de ser do movimento, já que é o seu número, e todas essas coisas são movíveis, pois todas estão em lugar, e o tempo e o movimento estão juntos tanto em potência como em ato?»

 

«Quanto à primeira dificuldade, existiria ou não o tempo se existisse a alma? Porque se não puder haver alguém que numere tão pouco poderia haver algo que fosse numerado, e por consequência não poderia existir nenhum número, pois o número é o numerado ou o numerável. Mas se nada que não seja a alma, ou a inteligência da alma, pode numerar por natureza, resulta impossível a existência do tempo sem a existência da alma, a menos que seja aquilo que quando existe o tempo existe, como seria o caso se existisse se existisse um movimento sem que exista a alma; haveria, então, um antes e um depois no movimento, e o tempo seria estes enquanto numeráveis.» (Aristóteles, Física, Livro IV, 223 a, 15-30; o negrito é colocado por mim).

 

Neste pensamento acima Aristóteles esboçou as duas hipóteses: a fenomenológica, isto é, o tempo só existe se existir a alma que o concebe; a realista, o tempo existe como número do movimento (circular), isto é, objetivamente, mesmo que não exista a alma humana, a mente.

 

«Em sentido absoluto, o tempo é número de um movimento contínuo, não de uma qualquer classe de movimento.» (Física, 223 b, 1-5)

«.. então o movimento circular uniforme é a medida por excelência, porque o seu número é o mais conhecido. Nem a alteração nem o aumento nem a geração são uniformes, só a deslocação o é. Por isso pensa-se que o tempo é o movimento da esfera, porque por este são medidos os outros movimentos, e o tempo por este movimento.» (Física, 223 b, 15-25).

 

Aristóteles definiu o tempo como o número do movimento circular - e note-se que há números finitos e infinitos, pelo que a definição é muito rica - mas Heidegger nem isso conseguiu, remetendo a noção de tempo para o mecanismo obscuro do tempo originário situado no ser-aí (cada homem, na sua existência) - que equivale à alma, em Aristóteles, potência que numera - ou no ser em geral.  A vaidade de Heidegger, plasmada, ademais, na construção de um discurso difícil de perceber, e com ambiguidades importantes, impediu-o de reconhecer a inteligência  e a criatividade superiores de um filósofo que, vinte e três séculos antes, foi maior que ele: Aristóteles, talvez a maior inteligência de toda a história da filosofia.  

 

in Dicionário de Filosofia e Ontologia, de Francisco Queiroz, pags 461-466



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 18:08
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Domingo, 10 de Outubro de 2021
O fascismo médico da vacina impera em Itália

 O fascismo médico.farmacêutico foi adotado em Itália. Lemos na euronews sobre os protestos em Roma em 9 de Outubro de 2021 em defesa da liberdade de não ser infectado pela vacina do Covid:

 

«Acaba com confrontos a manifestação em Roma contra a exigência de um passaporte Covid-19 para trabalhar em Itália. A polícia usa canhões de água e gás lacrimogéneo para travar uma marcha que seguia a caminho do gabinete do primeiro-ministro, no Palácio Chigi. Os manifestantes tentaram também arrombar a sede da CGIL, a confederação sindical que aceitou a exigência do governo italiano.A partir da próxima sexta-feira, 15 de Outubro, é obrigatório apresentar o chamado "Passe Verde" em todas as empresas, públicas ou privadas. As multas são pesadas para patrões e trabalhadores. Os funcionários públicos arriscam mesmo ficar suspensos.O documento atesta que o portador já levou pelo menos uma dose de vacina da Covid-19, recuperou do vírus nos últimos seis meses, ou testou negativo nas últimas 48 horas.»

Citando a revista «Visão» :

«No centro da capital de Itália, os manifestantes contestaram a obrigação de apresentar, a partir de 15 de outubro de 2021, o passe sanitário, que inclui um certificado de vacinação, prova de recuperação após contrair covid-19 ou um teste negativo, em todos os locais de trabalho, isto depois de ter começado a ser exigido em agosto para museus, eventos desportivos e refeições em restaurantes.

 

«Há mais de três semanas, o chefe do Governo de Itália, Mario Draghi, anunciou a extensão da obrigação do passe sanitário a todos os locais de trabalho, passível de suspensão de salário para funcionários que se recusem a cumprir. A medida já era obrigatória para todo o pessoal médico e docente.

“Fomos ambos suspensos há dois meses”, disseram à agência France-Presse (AFP) Cosimo e Morena, enfermeiros na casa dos 40 anos, que contaram que têm problemas imunológicos e alérgicos e foram dispensados da vacinação pelo médico de família, mas continuaram suspensos do trabalho, sem remuneração.»

E a imprensa mundial vendida aos reptilianos de aparência humana classifica de extrema direita a oposição à vacinação, o que é uma mentira muito grave. O corpo é de cada um de nós, podemos e devemos recusar infectá-lo com alumínio, mercúrio, vírus Covid e detergentes químicos de cozinha incluídos na vacina. Eles não divulgam a toxicidade de que são feitas as vacinas porque milhões as recusariam. Em Portugal, o Dr. Fernando Nobre, ex presidente da AMI e candidato à presidência da república em 2006 e muitos outros médicos, enfermeiros e cidadãos diversos, são censurados ou alvo de destituições e processos judiciais em Portugal por se oporem e desmascararem a vacinação. Ao invés, o governador do Texas, o republicano Gregg Abbott, anunciou em 11 de Outubro que proibiu a exigência da vacina contra a covid-19 para qualquer entidade daquele estado do sul dos Estados Unidos, incluindo empresas privadas que forçavam os trabalhadores a receber a infeção da vacina.

 

A direita conservadora, em que se incluem Greg Abbott, Bolsonaro e Trump, mas não André Ventura, cúmplice de António Costa, Rui Rio, Jerónimo e Catarina Martins nesta matéria, defende as liberdades individuais ao passo que o centro-direita e as esquerdas participam nesta intoxicação mundial dos povos, nesta escravização dos povos à vacina que nos entra no sangue e lhe altera a composição.Os direitos à objeção de consciência e a dispor do seu próprio corpo sem maus tratos e torturas desaparecem ante as imposições pseudo científicas governamentais. Nem o Tribunal da Santa Inquisição chegou tão longe.

 

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 18:27
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Sábado, 9 de Outubro de 2021
Quem é Nossa Senhora?

Quem é Nossa Senhora, figura luminosa transcendente, Mãe de Jesus, no universo católico? Existe? É uma deusa ou mensageira de Deus de natureza maravilhosa absolutamente  estranha à dos humanos, como diz a igreja católica, ou é um ser belíssimo quase físico, ovniológico, de uma civilização extraterrestre energeticamente diferente do ser humano e superior a este? Em ambos os casos vincula-se a milagres de cura. 

 

No seu excelente livro «As outras Fátimas» escreve Joaquim Fernandes:

«Amélia da Natividade Rodrigues Fontes morava em Vilar Chão, concelho de Alfândega da Fé,. Tinha 16 anos quando caiu de cama com repugnantes sintomas. A perna direita adquirira um volume descomunal e o braço esquerdo engrossara de forma extraordinária. Em volta  da boca, uma horrível chaga de aspecto supurava sem cessar, e o pus nauseabundo escorria para os lábios, penetrando-lhe na boca  .»

«No dia 25 de Maio de 1946, a moribunda revelou ao padre da freguesia que «A Virgem Maria lhe tinha aparecido», o que levou o sacerdote a aconselhar-lhe que lhe  pedisse a cura para o seu terrível mal. No dia seguinte, a jovem declarava-se curada da perna direita. Um dia depois, era o braço esquerdo que sarava por sarado.Por fim a cura também a libertava da ferida que a envolvia,,,»

«A medicina tinha-se considerado impotente para debelar o mal que afligia Amélia, limitando-se a concordar que, inevitavelmente, ceifaria aquela vida juvenil.. se um milagre entretanto não sobreviesse. Para espanto de todos, «menos da miraculada que não lhe ignorava a causa» e o fez constatar «cumprindo ordens emanadas do céu».

Joaquim Fernandes, «As outras Fátimas», Manuscrito, pags. 168-169.

Não duvido que tais aparições ocorreram. Há muitos testemunhos de semelhantes fenómenos. Mas estarão essas apariçoes ligadas a ovnis que transportam a belíssima Virgem e faziam ruído de abelhas na proximidade de Esta Entidade como sucedeu em Fátima em 1917? Há uma história de alguém com doença grave que foi introduzido em um OVNI e ficou curado instantaneamente. 

A opinião do investigador britânico David Icke, tal como a das igrejas evangélicas cristãs que negam a transcendência e a assunção de Maria ao Paraíso, é diferente. Icke apresenta a Virgem Maria de modo negativo,   e os ovnis e osnis, de um modo geral, como meios de transporte de seres extraterrestres reptilianos que viveriam no interior da Terra ou viriam do espaço sideral para dominar e infectar a humanidade o que já sucederia através dos círculos iluminatti (Rainha Isabel e príncipe Carlos do Reino Unido, George W.Bush, Barack Obama, George Soros, Henry Kissinger, Angela Merkel, Bill e Melinda Gates, a Organização Mundial de Saúde, o Fundo Monetário Internacional, os grandes bancos, etc) .



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:56
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Quarta-feira, 6 de Outubro de 2021
As falácias do modus ponens e do modus tollens

A lógica proposicional é uma pseudo ciência. Considera formalmente errado o seguinte silogismo condicional modus ponens porque diz que «a segunda premissa não pode repetir o consequente, isto é, a segunda parte da premissa maior»:

«Se estou Lisboa visito a Torre de Belém.

«Visito a torre de Belém.

«Logo, estou em Lisboa.»

Que há de logicamente errado nisto? Nada. A torre de Belém está contida na cidade de Lisboa. Deveria pois o enunciado deste silogismo dizer que no caso do segundo termo (consequente) da premissa maior estar incluído no antecedente da mesma (como a espécie se inclui no respectivo género ou o indivíduo na respectiva espécie; exemplo: a torre de Belém é substância individual que faz parte da espécie Lisboa) é formalmente correcto repetir na segunda premissa o consequente da primeira premissa. E assim se confirma verdadeira em muitos casos a seguinte regra que se considera falácia na lógica proposicional:

 

P ⇒ Q

Q

∴ P

Também segundo a lógica proposicional em vigor é uma «falácia o seguinte silogismo modus tollens porque a premissa menor não contém uma negação»:

«Se sou espanhol, não sou português.

Sou português.»

Logo, não sou espanhol.»

Que vício há neste silogismo? Nenhum. Foi Aristóteles quem primeiro criou estas fórmulas? Se foi, errou. Está correta a seguinte fórmula, que aos alunos é ensinada como sendo «falácia», como se vê no exemplo acima:

P ⇒ ~Q

Q

∴ ~P

Assim, o modus ponens e o modus tollens só se distinguem pelo facto de o primeiro ter a premissa maior, inicial, em modo afirmativo e a conclusão em modo afirmativo e o segundo ter a premissa maior, inicial, em modo negativo e a conclusão em modo negativo.

Os exemplos concretos desmistificam esta lógica proposicional que é o vazio da filosofia, a anti filosofia refugiada no abstracto, decorada por milhões de alunos manipulados por professores superficiais, impensantes.

       www.filosofar.blogs.sapo.pt

          f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 20:26
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Segunda-feira, 4 de Outubro de 2021
Utilitarismo versus deontologismo (equívoco da filosofia analítica)

 

Habitualmente, designa-se o utilitarismo de Mill como uma doutrina ética consequencialista opondo-o à chamada ética deontológica que, para a generalidade dos autores, tem como expoente máximo a ética de Kant. Se meditarmos com profundidade, descobrimos que há um erro nesta divisão não dialéctica: consequência e dever não são contrários entre si, consequencialismo e deontologia não se opõem, complementam-se até numa mesma teoria.

 

Se Kant formulou o imperativo categórico como imperativo do dever (deón: corrente,  em grego), Mill formulou o imperativo da maximização altruísta do prazer assente no princípio da imparcialidade.

 

«No entanto, não parece que tenha de considerar-se a imparcialidade em si mesma como um dever, mas antes como um instrumento para outro dever; porquanto se admite que o favor e a preferência nem sempre são censuráveis, e, na realidade, os casos em que se condenam constituem mais uma excepção do que uma regra. »(John Stuart Mill, Utilitarismo, pag 74, Atlântida, Coimbra, 1961; o negrito é posto por mim).

 

A imparcialidade subordina-se à felicidade do maior número, na ética de Mill, ao contrário da ética de Kant em que a imparcialidade é um valor absoluto, por cima de todos, mesmo que gere infelicidade. Mill tem uma visão dialéctica - eivada de variação, movimento, consoante o tempo e a rede de correlações materiais, sociais, etc - ao passo que Kant tem uma visão antidialéctica, estática, rígida.

 

Mill escreveu sobre o princípio-dever dos utilitaristas:

 

«Porquanto este critério (utilitarista) não é o da maior felicidade do próprio agente mas o da maior soma de felicidade geral.»(John Stuart Mill, Utilitarismo, pag 27, Atlântida; o negrito é posto por mim).

 «Proceder como desejaríamos que procedessem connosco, e amar o próximo como a nós mesmos - eis o ideal de perfeição da moral utilitarista. Como meios para conseguir a mais exacta aproximação deste ideal, o utilitarismo exigiria, em primeiro lugar, que as leis e disposições sociais colocassem a felicidade, ou (como praticamente podemos chamar-lhe) o interesse, de cada indivíduo, tanto quanto possível em harmonia com o interesse da comunidade; e, em segundo lugar, que a educação e a opinião, que tão vasto poder têm sobre o carácter humano, usassem desse poder para incutir na mente de cada indivíduo uma associação indissolúvel entre a sua própria felicidade e o bem de todos» (ibid, pag. 34-35; o negrito é posto por mim).

 

Os deveres do utilitarismo de Stuart Mill são, portanto:

1) Assegurar o prazer e uma existência digna à maioria - se não for possível à totalidade - das pessoas envolvidas numa dada situação (princípio da maior felicidade), através de regras e preceitos e de uma solução "ad hoc" eficaz. fruto de uma análise adequada da situação concreta.

2) Difundir os bons princípios ou preceitos do amor e da solidariedade universal que agilizam o princípio da Maior Felicidade, entre os quais o de a felicidade de cada um não dever ser egoísta mas implicar-se em expandir a felicidade aos outros e dos outros .

 

No fundo, o dever do utilitarista é realizar a felicidade para o maior número de pessoas. Isso é deontologia, fundada no princípio do prazer.

 

A ética de Mill é, sem dúvida, uma ética deontológica hedonista, se por hedonismo entendemos a filosofia que identifica o bem com o prazer,e o mal com a dor, de um ou muitos indivíduos. A ética de Kant, tal como a dos estóicos, é uma ética deontológica não hedonista, isto é, ascética, justiceira e, por vezes, dolorista.

 

A ética de Kant é, ao contrário do que se diz, uma ética consequencialista: ela visa não apenas o método da acção mas a consequência desta, que é irradiar um conteúdo, indeterminado a priori, sobre toda a humanidade. Trata-se de um consequencialismo formal - «ou comem todos ou não há moralidade» em linguagem popular - que, em cada caso individual, se transforma em consequencialismo material ou substancial.

É, de facto, um pouco idiota supor que Kant não visava finalidades, consequências, nas máximas (princípios subjectivos de cada indivíduo) elevadas a lei moral. Não é pelo aspecto consequencialista que as éticas de Kant e Mill se distinguem, essencialmente.

in «Dicionário de Filosofia e Ontologia, Dialética e equívocos dos filósofos», de Francisco Queiroz, págs 503-504



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 20:36
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Sábado, 2 de Outubro de 2021
Incoerência de Popper : verdade versus aproximação à verdade

 

Popper era um céptico que dava uma no cravo e outra na ferradura, isto é, uma no cepticismo e outra no dogmatismo. Pregava um cepticismo pirrónico - não podemos estar certos de nada, além das aparências dos sentidos - e um dogmatismo simultâneo - exemplos: aceitamos provisoriamente que a tabela periódica dos elementos é verdadeira, que o evolucionismo de Darwin é verdadeiro, que a escatologia marxista de que o comunismo é o fim da história é falsa, etc. Escreveu:

 

«Estamos, pois, constantemente, em busca de uma teoria verdadeira (uma teoria verdadeira e relevante) ainda que não possamos nunca dar razões (razões positivas) para mostrar que encontrámos realmente a teoria verdadeira que buscávamos. Ao mesmo tempo, podemos ter boas razões - isto é, boas razões críticas - para pensar que aprendemos algo de importante: que progredimos em direcção à verdade.»  (Karl Popper, O realismo e o objectivo da ciência, Lisboa, Publicações Dom Quixote, pp 57)

 

Em termos simples, Popper dizia que a melhor teoria não é a verdadeira, porque a verdade é inatingível, mas a que mais se aproxima da verdade. Se não podemos nunca demonstrar que encontramos a verdade, como podemos falar de «progresso em direcção à verdade»? Não podemos. Seria preciso acreditar que tal tese, tal modelo é a verdade. Mas esta está encoberta por um nevoeiro invencível, de acordo com Popper.

 

Há em Popper a mesma incoerência que em Kant: este pensava o númeno ou coisa em si incognoscível - equivalente à verdade em Popper -  mas dizia ser impossível demonstrar que há númeno - tese equivalente ao cepticismo pirrónico de Popper.  É como um corredor de bicicleta que vê a meta e se aproxima dela mas diz que nunca lá consegue chegar porque não a vê nem conhece exactamente onde se situa.

 in «Dicionário de Filosofia e Ontologia, Dialética e equívocos dos filósofos», de Francisco Queiroz, pags 510-511



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 21:00
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Sexta-feira, 1 de Outubro de 2021
Sinarquia

 

Sinarquismo é um movimento político-económico de globalização e uma filosofia desenvolvida pelo mestre ocultista Saint-Yves d´ Alveydre (1842-1909) e, remotamente, pela Ordem do Templo, a Maçonaria e outras organizações iniciáticas antigas, que defende o estabelecimento de um governo mundial único, uma religião sincrética única e um padrão geral de direitos humanos tendo em vista o bem-estar da humanidade e a eliminação das guerras. Saint-Yves teorizou a existência de uma cidade subterrânea, Aghartha, que seria o centro do poder mundial onde viveria aquele que René Guenon, outro esoterista, descreveu como o «rei do mundo»:

«Convém todavia lembrar, quanto à organização geral do mundo, por Saint-Yves descrita com um luxo de detalhes fantásticos, o centro iniciático mundial da Missão da Índia; chama-lhe ele «Paradesa» ou Agartha.»

«Governada por uma trindade sinárquica, o Brahatma, “suporte de almas no espírito de Deus” e seus dois assessores, o Mahatma, “representando a Alma universal” e o Mahanga, “símbolo de toda a organização material do cosmos”, esta Cidade Santa, invisível a quem anda na terra, é o protótipo dos centros espirituais secundários que conhecem as diferentes tradições: Ishdankkaïr, Salem, Tebah. Sucedendo a um centro ainda mais antigo, Ayodhia, ela é sede dum soberano pontificado e de uma espécie de universidade reguladora da evolução da humanidade, da qual, a julgar por René Guénon (em o Rei do Mundo) seria proveniente, de forma caricatural, a Ideia dessa Grande Loja Branca cara aos teosofistas.»

«Esta Cidade Santa, ainda segundo Saint-Yves, existiria materialmente, embora de forma subterrânea, nos confins do Himalaia ou talvez nos altos vales do Chitral…»

(Jean Saunier, A sinarquia ou o velho sonho de uma sociedade nova, Edições 70, Lisboa, 1979, pág. 81)

O sinarquismo tem críticos acérrimos. como Daniel Estulín, que tem radiografado o percurso do clube sinarquista de Bilderberg, um grupo de homens dos mais poderosos do mundo, que reuniu pela primeira vez em 1954, sob o impulso da família real holandesa e da família Rockefeller no Hotel Bilderberg, em Oosterbeck, para analisar e influenciar a política mundial. Estulin  escreveu:

«A Revolução francesa, e o posterior período de Terror Jacobino (1789-1794) criou-se para evitar a qualquer preço que a França se convertesse no segundo país a adotar uma constituição, seguindo o exemplo da Revolução norte-americana. Foi dirigida a partir de Londres por Lord Shelburne e contou entre os seus principais defensores com o conde Joseph de Maistre, o principal teórico da revolução francesa e um importante teórico da Iluminação.»

«Por que razão Londres, inimigo tão declarado de Napoleão, desempenharia um papel tão relevante na criação do primeiro fascista moderno da história? Porque as guerras napoleónicas destruíram o continente europeu, deixando a Grã Bretanha como a única superpotência. As guerras napoleónicas também acabaram com as intenções dos líderes europeus que apoiavam a Revolução norte-americana e com a esperança de que na Europa surgisse um eficaz sistema de Estados-nação (…) O resultado de este processo de destruição foi um chefe de estado nietzschiano, Napoleão Bonaparte, o primeiro fascista moderno, a imagem da destruição pelo puro prazer de destruir». (…)

«No fim de contas, o sinarquismo não é mais do que a continuação da tradição de Napoleão Bonaparte. Hitler e Bush são dois exemplos actuais dessa loucura histórica.» (Daniel Estulin, Los secretos del Club de Bilderberg, Editorial Planeta, Barcelona, 2006, pp 217-218).

in «Dicionário de Filosofia e Ontologia, Dialética e equívocos dos filósofos», de Francisco Queiroz, págs 434-435.



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 21:24
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Quinta-feira, 30 de Setembro de 2021
Schopenhauer: a filosofia universitária corrompida

 

Arthur Schopenhauer é um dos filósofos que põe em causa as cátedras universitárias e muitos medíocres professores de filosofia que nelas imperam rodeados de auréolas de prestígio forjadas por métodos de propaganda falaciosa eficazes entre a massa estudantil:

 

«A enorme fama de Aristóteles, por exemplo, que depois se propagaria provavelmente como nenhuma outra, só começou duzentos anos depois da sua morte. Epicuro, cujo nome hoje em dia é conhecido do grande número, viveu em Atenas até à sua morte completamente ignorado (Sén. Ep 79). Bruno e Espinoza adquiriram importância e estima sómente dois séculos após a sua morte. Até David Hume, que escrevia de modo tão simples e tão popular, contava já 50 anos quando se começou a considerá-lo, se bem que tinha editado a sua obra tempos antes. Kant não foi célebre antes de ultrapassar os 60 anos.»

«Com os filósofos académicos dos nossos dias as coisas vão sem dúvida mais depressa. Não têm tempo a perder: é suficiente que um professor qualquer proclame, ante os colegas da universidade mais próxima, que a doutrina do seu companheiro constitui a culminação da sabedoria humana, finalmente conseguida. Em seguida converter-se-á num grande filósofo, passando a ocupar sem mais preâmbulos o lugar que lhe corresponde na história da filosofia, quer dizer, naquela que um terceiro colega está preparando para a próxima exposição. Este, sem se perturbar minimamente, acrescenta os valiosos nomes dos seus colegas, bem remunerados, e na cúspide da celebridade, aos imortais nomes dos mártires da verdade de todos os séculos.» (Arthur Schopenhauer, Sobre la Filosofía de la Universidad, págs. 62-63)

 

São as universidades, com toda a clareza, o centro deste jogo que os interesses jogam com a filosofia. Só por elas se pôde deixar de lado os trabalhos de Kant e puderam estes ser arrinconados, apesar de ter inaugurado uma nova época em todo o mundo, pelas patranhas de um Fichte, que em seguida os colegas da sua ralé voltaram a pôr a um canto. Isto jamais teria podido ocorrer ante um público verdadeiramente filosófico, quer dizer, ante um público que busque a filosofia em virtude dela mesma, sem albergar nenhuma outra intenção. Ante esse público, sempre extraordinariamente reduzido, formado pelas mentes que verdadeiramente pensam, que se acham sinceramente impressionadas pela natureza enigmática da nossa existência. Só por causa das universidades foi possível todo o escândalo filosófico de estes últimos cinquenta anos, porque nelas se encontra um público de estudantes que aceita credulamente tudo o que o senhor professor lhe apetece dizer.”(ibid, pag. 109)

in «Dicionário de Filosofia e Ontologia», de Francisco Queiroz, pags 496-497



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 21:27
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Segunda-feira, 27 de Setembro de 2021
Sobredeterminação e subdeterminação, em Althusser e em Carnap

 

Louis Althusser, (16 de Outubro de 1918, Bir Mourad Rais, Argélia; 22 de Outubro de 1990, La Verrière, França), filósofo marxista francês, designa por sobredeterminação a posição dominante no seio da desigualdade entre os dois polos da mesma contrariedade, isto é, o facto de um dos polos ou aspectos ser dominante e sobredeterminar o outro, o dominado.  Assim, na contrariedade União Europeia/Portugal a Europa é o polo sobredeterminado, isto é, dominante sobre Portugal.

Inversamente, subdeterminação designa a posição de submissão do polo dominado, a sua fraca influência no devir da contradição, em certo momento.

 

Referindo-se à tese da ultima instância (factor preponderante numa dada  evolução histórica) na teoria de Marx, que não é sempre o factor económico mas, muitas vezes, o factor político, religioso ou outro, Althusser escreveu (o negrito não é dele) designando a contrariedade por contradição:

 

«Estas teses sobre a última instância, o todo estruturado com dominante, a sobredeterminação, a desigualdade da contradição, tinham um primeiro objectivo imediato que orientava o seu enunciado: reconhecer e marcar o lugar e a função da teoria no movimento operário marxista, não só tomando em consideração a célebre frase de Lenine: «sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário», mas entrando mais em pormenor para demarcar a teoria de confusões, mistificações e manipulações.» (...)

«Como pensar esta transferência da contradição principal do imperialismo para o elo mais fraco, e correlativamente, como pensar a estagnação da luta de classes nos países onde parecia triunfar, sem a categoria leninista do desenvolvimento desigual que reenvia à desigualdade na contradição, e à sua sobre e sub- determinação? Insisto propositadamente na subdeterminação, porque alguns, facilmente, aceitaram que se acrescente um pequeno suplemento à determinação, não suportaram a ideia da subdeterminação, isto é, dum limiar de determinação, que uma vez não franqueado faz com que abortem revoluções., movimentos revolucionários estagnem ou desapareçam, permite que o imperialismo apodreça continuando a desenvolver-se, etc.»

(Louis Althusser, Posições, Defesa da tese de Amiens, Livros Horizonte, Lisboa, 1977, pag. 151).

Assim, em época normal, nas sociedades capitalistas, a contradição entre o económico e o político tem, na sua superfície visível, a seguinte sobredeterminação: o aspecto económico é dominante – milhões de pessoas trabalham diariamente em ritmo normal nas fábricas, armazéns, escritórios, escolas, campos, etc – e sobredetermina o aspecto político, que é dominado – apenas algumas centenas de deputados e alguns milhares de presidentes de câmara municipal, vereadores e dirigentes de partidos políticos decidem coisas.

No entanto, se uma revolução se estende por toda a sociedade, com milhões de pessoas a parar o trabalho nas empresas e escritórios e a sair à rua com reivindicações políticas, o aspecto económico fica subdeterminado e o político sobredeterminado.

Há, no entanto, quem argumente que, mesmo nos períodos de funcionamento económico normal do capitalismo, a instância política (o Estado) sobredetermina, ininterruptamente, a instância económica.

 

Rudolf Carnap, (Ronsdorf, 18 de Maio de 1891; Santa Mónica, 14 de Setembro de 1970) um dos expoentes da filosofia analítica, entende por sobredeterminação o excesso de interpretação das nossas vivências, o excesso de conhecimentos utilizados para resolver um problema.

 

«A natureza lógica do conteúdo teórico das nossas vivências, que se mostra no facto de determinadas partes constituintes serem, por referência a outras, dispensáveis, designa-se como sobredeterminação. Na Matemática, costumamos chamar sobredeterminado a um problema quando são fornecidos mais dados do que os logicamente exigíveis para a resolução do problema, de tal modo que (pelo menos) um dos dados é dispensável por referência aos outros, isto é, pode ser derivado construtivamente a partir dos outros (através de cálculo ou através de construção geométrica). Neste sentido, as nossas vivências são (cognitivamente) sobredeterminadas. Nós vivenciamos mais do que aquilo que seria necessário para a obtenção dos conhecimentos alcançáveis»

(Rudolf Carnap, Pseudoproblemas na Filosofia, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, pag. 23)

in «Dicionário de Filosofia e Ontologia», de Francisco Queiroz, pags 437-439

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 23:16
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Sábado, 25 de Setembro de 2021
Idealismo de Kant não é o mesmo de Hegel

Escreveu Paul Kleinman, filósofo que cresceu em White Plains, em Nova Iorque, e reside atualmente nesta cidade, formado na Universidade de Wisconsin em 2009 em Arte e Comunicação:

«À semelhança de Kant, Hegel era um idealista e acreditava que a mente só tem acesso a ideias sobre como o mundo parece ser e que não somos capazes de apreender completamente o que o mundo é» (Paul Kleinman, Filosofia, tudo o que precisa de saber, Jacarandá, pág 108).

Kleinman não se apercebeu da diferença essencial entre as teorias destes dois filósofos alemães. O idealismo de Hegel é um realismo racionalista, é um ideal-realismo. Hegel não duvidava que a natureza física é exterior ao «eu» cognoscente do sujeito: as árvores e os mares existem mesmo (realismo) e existiam antes de haver humanidade, na fase do Ser fora de Si, a segunda fase da Ideia Absoluta ou Deus. Mas Kant, esse sim, era um verdadeiro idealista, no sentido de idealismo material: as árvores e os mares e todos os objectos físicos são fenómenos, criações da mente do sujeito e desapareceriam se esta se apagasse.



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 22:30
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