Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009
Thomas Nagel confunde determinismo com fatalismo

No seu livro «What Does it All Mean?», de 1987,  o laureado Thomas Nagel comete alguns erros de raciocínio como o de atribuir significados contraditórios entre si ao termo determinismo. Vacila nas definições, contradiz-se, sem dar por isso. 

Escreve Nagel:

 

«Escolher o pêssego continua a ser para ti uma possibilidade em aberto até ao momento em que de facto escolhes bolo de chocolate. A tua escolha não está determinada à partida.»

«Algumas coisas que acontecem estão determinadas à partida. Por exemplo, parece estar determinado que o Sol se levantará amanhã a uma certa hora. O Sol não se levantar amanhã e continuar a noite não é uma possibilidade em aberto. Tal não é possível porque apenas poderia acontecer se a Terra parasse de rodar, ou se o Sol deixasse de existir, e não se passa nada na nossa galáxia que pudesse fazer com que alguma destas coisas acontecesse». (Thomas Nagel, Que Quer dizer tudo isto? Uma Iniciação à Filosofia, Gradiva, pag. 48).

 

Nesta passagem, Nagel interpreta determinismo como princípio segundo o qual nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas (neste caso: a rotação da Terra em torno do seu eixo) produzem sempre os mesmos efeitos ( neste caso: o nascer do Sol, entre as 5 e as 8 horas de cada dia). Embora não o defina explicitamente assim.

Noutra passagem escreve Nagel:

 

«Algumas pessoas pensam que nunca é possível fazermos qualquer coisa diferente daquilo que de facto fazemos(...)  Mas afirmam que, em cada caso, as circunstâncias que existem antes de agirmos determinam as nossas acções e tornam-nas inevitáveis. O total das experiências, desejos e conhecimentos de uma pessoa, a sua constituição hereditária, as circunstâncias sociais e a natureza da escolha com que a pessoa se defronta, em conjunto com outros factores dos quais pode não ter conhecimento, combinam-se todos para fazerem com que uma acção particular seja inevitável nessas circunstâncias.»

«Essa perspectiva chama-se determinismo.» (Thomas Nagel, Que quer dizer tudo isto? Uma iniciação à Filosofia, Gradiva, pag 49)

 

Nesta passagem Nagel chama determinismo àquilo que deveria designar como convergência de determinismos vários culminando em fatalismo.

 

A fraqueza de Nagel está em confundir determinismo com fatalismo, teoria segundo a qual todos os acontecimentos estão predestinados, podendo ou não, encadear-se uns nos outros segundo o determinismo. O determinismo é sempre coexistente com o factor acaso («livre-arbítrio» da natureza) que introduz uma certa diferenciação nos efeitos produzidos pelas mesmas causas.

 

Por exemplo, dar uma certa quantidade de veneno a um cão provoca-lhe a morte mas dar a mesma quantidade de veneno a outro cão pode fazer adoecer gravemente este, sem o matar, e o animal recuperar a saúde passados dias ou semanas. Assim, o determinismo exerceu-se nos dois casos, produziu um efeito genericamente similar, mas diferente na particularidade.

Determinismo é não fatalismo, apesar de tomar a aparência de um fatalismo parcial ou mesmo global.

 

 

Nota: No Centro de Formação Margens do Guadiana, com sede na Escola Secundária com 3º Ciclo Diogo de Gouveia, R. Luís de Camões, 708-508 BEJA (telefone: 284 328 063), estão abertas as inscrições para a acção de formação para professores de filosofia (Grupo 410) «A teoria geral dos valores e a Ética, na perspectiva do método dialéctico», equivalente a dois créditos,50 horas de duração (50HP), CCPFC/ACC 52326/08 CF. O formador é o autor deste blog.

 

 

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publicado por Francisco Limpo Queiroz às 17:42
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