Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2015
Teste de filosofia do 11º B (Fevereiro de 2015)

 

 

Eis um teste de filosofia do 11º ano de  escolaridade em Portugal, evitando as perguntas de escolha múltipla em que o aluno coloca um X na hipótese que supõe estar certa, em vez de definir conceitos ou explanar teorias por palavras suas.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B
11 de Fevereiro de 2015. Professor: Francisco Queiroz

 

.”.As categorias são conceitos que prescrevem leis a priori aos fenómenos e, portanto, à natureza como conjunto de todos s fenómenos…Deve, portanto, haver certamente, algo fora de nós a que corresponde esse fenómeno que chamamos matéria. Porém, na qualidade de fenómeno, não está fora de nós, mas em nós como um pensamento.» (Kant, Crítica da Razão Pura).

1) Explique estes pensamentos de Kant.
 

2)  Explique, como, segundo a gnosiologia de Kant, se formam o fenómeno SOBREIRO, o conceito empírico de SOBREIRO e o juízo a priori «Sete mais sete é igual a catorze»-

 

3) Relacione, justificando:

 

A) Realismo crítico de Descartes e obstáculo epistemológico em Gaston Bachelard.

B)Conjecturalismo e falsificacionismo de Popper e método hipotético-dedutivo.

C)Lei da contradição principal, por um lado, e ciências formais, empírico-formais e hermenêuticas, por outro lado. 

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE ESCRITO (COTADO PARA 20 VALORES)

1) As categorias são conceitos puros ou a priori, que constituem a «ossatura» do entendimento, o esqueleto do pensamento sobre os fenómenos. Dizer que elas impõem leis aos fenómenos significa dizer que estes - como por exemplo: espiga de trigo, planície, casa - são algo desconexos, espécie de imagens tridimensionais a flutuar na sensibilidade, que recebem «disciplina», leis, inteligibilidade, a partir do entendimento. Exemplo: o fenómeno árvore seria um conjunto de folhas justaposto a um conjunto de raízes e a um conjunto de ramos mas a categoria de unidade do entendimento liga essas diversas partes num todo e a categoria de realidade dá consistência «real» à árvore que vejo. (VALE TRÊS VALORES) O fenómeno matéria - por exemplo, a cadeira ou a janela que vejo ali - está em mim, não dentro do meu corpo físico, mas dentro da minha mente que transcende o meu corpo físico e engloba o mundo visível e palpável corresponde a um objecti incognoscível que é o númeno - note-se que não há cadeira-númeno, toda a cadeira é fenómeno. A cadeira, a mesa, o automóvel, o cão, a sala e outros fenómenos físicos são conjuntos de intuições empíricas, não são reais em si mesmas, são imagens tridimensionais que projecto e isto é idealismo transcendental de Kant (VALE TRÊS VALORES).

 

2) Segundo a gnoseologia de Kant, o fenómeno sobreiro forma-se na sensibilidade, no espaço exterior ao meu corpo físico, do seguinte modo: de '«fora» da sensibilidade, os númenos afectam esta fazendo nascer nela um caos de matéria (exemplo: madeira, ferro, areia, etc, em um magma) que as duas formas a priori da sensibilidade, o espaço (com figuras geométricas) e o tempo (com a duração, a sucessão e a simultaneidade) moldam, fazendo nascer um ou mais sobreiros. O entendimento, com as categorias de unidade, pluralidade, necessidade, confere consistência ao fenómeno sobreiro.

O  conceito de sobreiro forma-se no entendimento, faculdade que pensa mas não sente, do seguinte modo: a imaginação, situada entre a sensibilidade e o entendimento, transporta desde aquela a este as imagens de sobreiro e as categorias do entendimento de pluralidade e unidade recebem as diversas imagens e transformam-na numa só imagem abstracta, o conceito empírico de sobreiro.

 

O juízo «sete mais sete é igual a catorze» é sintético a priori, formado no entendimento com a ajuda das categorias de unidade, pluralidade, totalidade, necessidade e dos juízos puros categóricos, afirmativos e apodícticos, indo buscar à forma a priori do tempo as noções de sete e catorze (VALE QUATRO VALORES).

 

3)A)  O realismo crítico de Descartes sustenta que há um mundo real de matéria independente das mentes humanas e estas o captam de modo parcialmente ilusório: as cores, os sons, os sabores, a dureza, os sons (qualidades secundárias) não existem nas árvores, nas montanhas e em outros objectos fora de nós, só existem na nossa mente atingida, nos orgãos dos sentidos, por partículas vibratórias exteriores que nos fazem ver vermelha uma rosa que, de facto, é incolor; os tamanhos, as formas, a extensão são reais, são as qualidades primárias, reais, objectivas, dos corpos. O obstáculo epistemológico em Bachelard é todo o entrave ao conhecimento científico: a primeira impressão,  o realismo natural ( o mundo exterior como parece ser: o céu é azul, o mármore é frio, etc, o preconceito do senso comum, a falta de tecnologia apropriada (exemplo

Ora as cores, sons, cheiros, peso, sensação de duro ou mole, frio ou calor seriam para Descartes obstáculos epistemológicos porque são ilusões da mente. (VALE QUATRO VALORES).

 

3-B) O conjecturalismo é a teoria de Popper segundo a qual as teorias das ciências empíricas, as leis induzidas, não passam de suposições, de hipóteses falíveis, pois é impossível verificar todos os casos concretos correspondentes a dada lei ou tese. Assim, por exemplo, a tese de que o átomo de enxofre tem 16 electrões é uma mera hipótese e não uma verdade indiscutível. O falsificacionismo é a teoria de Popper segundo a qual uma teoria «científica» deve ser falsificada, posta em questão, através de testes experimentais rigorosos e de discussão racional, e ser aceite provisoriamente enquanto resistir a esses testes. O método hipotético-dedutivo baseia-se na indução amplificante, inferência que Popper não aceita como válida, e tem quatro fases: observação, hipótese, dedução da hipótese e confirmação ou não. (VALE TRÊS VALORES)

 

3-C)  A lei da contradição principal estabelece que um sistema de múltiplas contradições pode ser reduzido a uma só, agrupando num polo algumas dessas contradições e no outro as restantes. Assim, no campo das ciências, podemos dividi-las em formais a priori e não formais ou formais a posteriori:  de um lado, a matemática, a lógica formal e a dialéctica, ciências abstractas e lógicas, que não precisam dos factos empíricos, por isso são a priori; do outro lado, as ciências empírico-formais, como a química, a física e a biologia, que formulam leis necessárias, e as ciências hermenêuticas ou sociais, como a economia, a psicologia, a história, a antropologia, que formulam leis estatísticas e comportam interpretações altamente subjectivas (hermenêutica). (VALE TRÊS VALORES).

  

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 22:56
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