Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2014
Teste de Filosofia do 11º B (Dezembro de 2014)

 

 

.Mais um teste de Filosofia do 10º ano da escolaridade, em final do primeiro período lectivo do ensino secundário em Portugal. Sem perguntas  de escolha múltipla que, habitualmente, espelham a pobreza do pensamento (anti-dialéctico) de uma grande parte dos docentes e dos autores dos manuais escolares.

 

Agrupamento de Escolas nº 1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B
5 de Dezembro de 2014.            Professor: Francisco Queiroz

 

I

 

“Algum idealismo é realismo crítico”.
 “A fenomenologia é realismo crítico”.
“ O idealismo não é fenomenologia”.


1-A) Indique, concretamente, três regras do silogismo formalmente válido que foram infringidas na construção deste silogismo.

 

1-B) Com base nas definições respectivas, mostre como ambas as premissas deste silogismo estão erradas no seu conteúdo, isto é, estão materialmente erradas.

 

2) Exponha os quatro passos gnoseológicos que celebrizaram Descartes a partir da dúvida hiperbólica, defina e aplique a lei da contradição principal a este conjunto.

3) Relacione, justificando:

A) As ideias de eu e substância, por um lado, e as sete relações filosóficas, na doutrina de David Hume.

B) Ethos, pathos e logos na retórica e lei da tríade.

 

C)  Falácia ad ignorantiam e ontologia cartesiana.

 

4) Interprete o seguinte texto e mostre dois sentidos possíveis para o termo “ser”:

 

«Não tens de temer que alguma vez consigam demonstrar que o Ser não é e, por isso, afasta o teu espírito da via da opinião. Um só caminho nos fica – o Ser é! Existem miríades de sinais demonstrativos de que o Ser é, incriado, imperceptível, perfeito, imóvel e eterno, não sendo lícito afirmar que o Ser foi ou que será…. Ser e pensar é um e o mesmo.» (PARMÉNIDES)

 

 CORRECÇÃO DO TESTE COTADO PARA VINTE VALORES

 

1-A) Eis três regras do silogismo formalmente válido que foram violadas: o termo médio (neste caso: realismo crítico) tem de ser tomado pelo menos uma vez, universalmente, e não o está em nenhuma das premissas deste silogismo; nenhum termo pode ter na conclusão maior extensão do que nas premissas, ora o termo idealismo é universal na conclusão e particular na primeira premissa (algum idealismo); de duas premissas afirmativas não se pode extrair uma conclusão negativa. (VALE DOIS VALORES ).

 

1-B) O idealismo ontológico é a doutrina segundo a qual o mundo de matéria é um conjunto de ideias ou sensações a flutuar na mente de um ou vários sujeitos e por isso não se inclui no realismo, doutrina que diz que o mundo de matéria é real em si mesmo e exterior às mentes humanas. O realismo crítico defende que a matéria exterior é real em si mesmo mas não a percepcionamos sem deformação (exemplo: vemos uma rosa vermelha, mas o vermelho só está na nossa mente não na rosa). (VALE UM VALOR E MEIO). O idealismo, corrente ontognoseológica da matéria como irrealidade, não é fenomenologia (como ontologia, em sentido heideggeriano) porque esta é céptica sobre a irrealidade e a realidade da matéria, estabelecendo apenas a correlação eu-mundo exterior como certeza (VALE UM VALOR E MEIO).

 

2) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos:

 

Dúvida hiperbólica ou Cepticismo Absoluto («Uma vez que quando sonho tudo me parece real, como se estivesse acordado, e afinal os sentidos me enganam, duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo »).

 

Idealismo solipsista («No meio deste oceano de dúvidas, atinjo uma certeza fundamental: «Penso, logo existo» como mente, ainda que o meu corpo e todo o resto do mundo sejam falsos»).

 

Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe»).

 

Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, de existe fora de mim»). Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é. Descartes, realista crítico, sustentava que as qualidades secundárias, isto é, as cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores e que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos.

 

A lei da contradição principal estabelece que um sistema de múltiplas contradições se pode reduzir a uma só grande contradição, constituída por dois grandes blocos ou pólos. Neste caso, a contradição principal pode ser concebida de várias maneiras: num pólo, a dúvida absoluta (1º passo)  e no outro polo o conjunto idealismo solipsista/ idealismo não solipsista/ realismo crítico que possuem certo grau de certeza em comum; em um polo os dois idealismos (2º e 3º passos) e no outro polo o realismo crítico (4º passo) ficando o cepticismo absoluto na zona intermédia ou neutra; em um polo os passos não realistas (1º, 2º e 3º) e no outro polo o realismo crítico  (VALE QUATRO VALORES).

 

3-A) O  "eu" em David Hume não é uma realidade, mas uma ideia ilusória, uma vez que somos apenas uma corrente de percepções empíricas a que a memória e a imaginação atribuem um núcleo invariável chamado «eu». Do mesmo modo, a   substância (exemplos: as substâncias cadeira ou nuvem) é uma ideia fabricada pela nossa imaginação servindo-se das sete relações filosóficas que são disposições sensório-intelectuais da mente humana: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. A ideia de permanência, de continuidade entre as percepções empíricas forja as ideias de eu e de substância.

Portanto, em David Hume, o "eu" não é substância, não existe sequer (idealismo) ou é duvidoso (cepticismo) tal como não existem ou são duvidosas as noções de "alma", "substância", "essência".    (VALE TRÊS VALORES). 

 

3-B) O ethos é o carácter do orador, ligado ao seu currículo (exemplo: «Sou antifascista, passei quatro anos preso por resistir à ditadura»). O logos é a racionalidade do discurso (exemplo: «Aplique-se um imposto extraordinário às grandes empresas de modo a aumentar as prestações sociais aos pobres e aos desempregados»). O pathos é o sentimento, a paixão colocada no discurso (exemplo: «Vamos a eles, que nos roubam e exploram!»).

A lei da tríade diz que um processo dialético se divide em três fases: a tese ou afirmação (que pode ser o pathos, neste caso: irracional) , a antítese ou negação (que pode ser o logos - racionalidade!)  e a síntese ou negação da negação, um intermédio, um resumo das duas anteriores (que pode ser o ethos, mistura de racional e irracional) (VALE DOIS VALORES).

 

3-C) A ontologia ou teoria do ser em geral de Descartes defende que há três substâncias: a res divina (Deus) que criou as outras duas; a res cogitans ou pensamento humano ; a res extensa ou mundo material na sua dimensão geométrica de figuras com comprimento, largura e altura. A falácia ad ignoratiam é o erro ou truque de raciocínio que consiste em extrair do «nevoeiro» da dúvida os contornos nítidos de um dogma, argumentando que este não foi refutado. Neste caso pode aplicar-se assim a falácia: uma vez que ninguém demonstrou que a res divina (Deus) não existe, esta existe. (VALE TRÊS VALORES)

 

4) Há um número infinitamente grande (miríades) de sinais que demonstram que o Ser - essência esférica do universo - não foi criado por ninguém, não foi nem será porque é eternamente o mesmo, sem alterações. Por isso devemos afastarmo-nos da via da opinião que é a interpretação realista ingénua ou realista natural do mundo segundo a qual as coisas são e deixam de ser, os homens nascem, crescem, envelhecem e morrem, as cores do céu se alteram conforme a hora do dia, etc. O Ser é perfeito e invisível, inaudível, por isso só pode ser apreendido pelo pensanento racional - daí que ser e pensar sejam um e o mesmo. O ser pode ser ideia ou pode ser algo material, o texto não é esclarecedor. O ser em Parménides é, não foi nem será. É impossível dizer que o Ser não é, ou seja, dizer que o ser não existe ou sofre transformações já que  é uno, eterno homogéneo, imóvel, incriado, invisível e imperceptível aos sentidos, esférico. Ser e pensar é um e o mesmo. A alteração das cores, a mutação, o nascimento e a morte são ilusões, reais só na aparência. Dois sentidos do Ser são: existência infinita no tempo; essência ou forma geral do universo. (VALE TRÊS VALORES). 

 

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 00:20
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