Segunda-feira, 27 de Março de 2017
Teste de filosofia do 10º ano turma C (17 de Março de 2017)

 

 

Sem perguntas de escolha múltipla que, em muitos casos, unilateralizam a percepção filosófica, eis um teste de filosofia concebido no Baixo Alentejo, Portugal, região de planícies pensantes.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C

17 de Março de 2017. Professor: Francisco Queiroz

I

“Os totalitarismos de direita e o totalitarismo de esquerda rejeitam o Estado de direito democrático, invocando diferentes argumentos. O realismo crítico é uma modalidade dentro do racionalismo. O contratualismo de Thomas Hobbes é diferente do contratualismo de John Locke.”

                                                                                                         

1)Explique, concretamente este texto.

 

2)Construa um diálogo sobre a propriedade das empresas e o tipo de Estado ideal e a liberdade de aborto voluntário e de casamento de gays e lésbicas, entre um anarquista, um socialista democrático e um conservador.

 

3)Relacione, justificando:

A) Alegoria da caverna de Platão, metafísica e estética

B) Multiculturalismo e imperativo categórico em Kant.

C) As quatro causas aristotélicas de um ente e a teleologia no movimento de estrelas e planetas no cosmos de Aristóteles.

 

CORREÇÃO DO TESTE COM COTAÇÃO MÁXIMA DE 20 VALORES

 

1)  O totalitarismo, de direita (caso da ditaduras de Hitler e Mussolini, assentes no grande patronato e no partido) ou de esquerda (ditadura de Estaline ou de Kim Il Sung na Coreia do Norte, assentes na burocracia colectivista) é todo o regime que suprime a autogestão e a democracia parlamentar, regime de liberdade de imprensa, greve, religião, associação política e sindical e impõe uma ditadura brutal de partido único, baseado na ideia de que «o Estado é tudo, o indivíduo é nada». Detenção arbitrária e por longos períodos de cidadãos sem culpa formada, assassínios e torturas cometidos pelas polícias políticas são o pão nosso de cada dia dos regimes totalitários, que podem ser teocráticos ou não (VALE TRÊS VALORES). Realismo crítico é a teoria segundo a qual a matéria é real e exterior às nossas mentes mas estas não espelham como ela é. O realismo crítico de Descartes é a teoria qiue sustenta que há um mundo real de matéria exterior às mentes humanas composto de uma matéria indeterminada, sem peso nem dureza/moleza, apenas formado de figuras geométricas, movimento, números (qualidades primárias, objetivas), sendo subjectivas, isto é exclusivamente mentais, as cores, os cheiros, os sabores, as sensações do tacto, o calor e frio (qualidades secundárias, subjectivas). O realismo crítico na medida em que  despreza parte das intuições empíricas (cores, sons, etc.) a favor da razão abstracta é uma corrente dentro do racionalismo, doutrina que afirma que a razão é o principal orgão de conhecimento dissipando ou subalternizando as impressões sensoriais (VALE TRÊS VALORES). Contratualismo é a filosofia geral que postula que o Estado se constitui mediante um contrato entre diferentes classes e segmentos sociais de uma nação. O contratualismo de Thomas Hobbes que considera que «o homem é o lobo do homem» no estado de natureza, estipula que deve haver um poder arbitral, o do rei, e por isso uma monarquia absolutista antiparlamentar. O contratualismo de John Locke estabelece que deve haver um sistema parlamentar baseado em eleições livres pluripartidárias e liberdade de imprensa e associação e que o governo deve sair do parlamento, isto é, assentar na «soberania popular». (VALE DOIS VALORES).

 

2) Anarquista: «A propriedade das fábricas e de todas as empresas deve ser dos trabalhadores. Instituímos a autogestão, isto é, a assembleia geral de todos os operários, engenheiros e contabilistas toma decisões sobre salários, investimentos, vendas, etc. O patrão desaparece e desaparece o Estado de democracia parlamentar que não é mais que ditadura disfarçada dos capitalistas. Defendo o casamento livre de gays e lésbicas e o direito a abortar livremente para as mulheres».

 

Socialista democrático/ social-democrata: «A propriedade da grande maioria das empresas deve ser privada, isto é, estar na mão dos patrões que, em certos casos, devem aceitar a cogestão. Mas há empresas de sectores fundamentais - siderurgia, electricidade, televisão, etc - que devem estar na mão do Estado democrático. Este deve impor impostos progressivos aos capitalistas de modo a ter serviço nacional de saúde e escolaridade pública gratuita até ao final do curso universitário. Defendo a democracia parlamentar e o casamento de gays e lésbicas e a liberdade de aborto sem punição».

 

 Conservador: «A propriedade das empresas deve ser privada pois os empresários são os criadores de emprego os motores primeiros da economia. Os subsídios de desemprego e o rendimento social de inserção deviam acabar ou ser reduzidos para estimular o mercado de trabalho. Defendo as privatizações, a democracia parlamentar, a liberdade de imprensa. Mas a democracia não deve permitir o aborto livre, o casamento de gays e lésbicas, a eutanásia: deve ser guiada por bons princípios religiosos, cristãos.» (VALE QUATRO VALORES).

 

3-A) A alegoria da caverna, criada por Platão para explicar a dualidade do conhecimento humano, estabelece que havia um grupo de prisioneiros presos desde a nascença no interior de uma caverna que só podiam ver sombras de pessoas e objectos projectadas no fundo da parede da caverna e ignoravam a existência do mundo exterior (doxa ou opinião, conhecimento das aparências). Um dia, um dos presos liberta-se das correntes e ascende o exterior da caverna e fica deslumbrado ao ver os prados verdes, o céu azul, as flores multicolores, etc. Volta à caverna e conta aos companheiros presos o que viu mas estes não acreditam e ameaçam-no. Este mundo exterior simboliza a Metafísica que é o reino, real ou imaginário, de entidades invisíveis, incognoscíveis ou sobrenaturais como, por exemplo, deuses, demónios, almas humanas no «além», paraíso, infernos, buracos negros ou singularidades onde o espaço-tempo desaparece, etc. A beleza da paisagem exterior é, subjectivamente, um sentimento estético, sendo estética a ciência do belo e do feio, do sublime e do horrível (VALE TRÊS VALORES).

 

3.B) Multiculturalismo é a filosofia que sustenta a absoluta igualdade ou equidade das diferentes etnias religiosas, raciais, culturais, no seio de uma mesma sociedade. Por exemplo, os chineses, os árabes, os negros africanos a viver em Portugal devem poder realizar livremente as suas festas tradicionais, ter direitos e deveres idênticos aos dos portugueses autóctones, e poder ascender a qualquer cargo político, ir de burka para a escola (no caso de alunas islâmicas), etc. Ora o imperativo categórico é a verdadeira lei moral para Kant baseada na equidade: «age como se quisesses que a tua ação fosse lei universal da natureza». (VALE DOIS VALORES).

 

3-C) As quatro causas de um ente segundo Aristóteles são: causa formal, a forma, que coincide con o to tí essencial (no caso da estátua: a forma); causa material, ou matéria de que é feita que, de forma imperfeita, corresponde ao tó on ou existência (no caso da estátua, o mármore); causa eficiente, o agente que gerou esse ente (no caso da estátua, o escultor); causa final, a finalidade desse ente, para que serve (no caso da estátua, a ornamentação de um jardim ou de uma praça, o relembrar de uma personagem).No cosmos de Aristóteles há dois mundos, o mundo sublunar, composto de quatro esferas concêntricas, a Terra (imóvel no centro) e as esferas de água,ar e fogo, no qual o movimento dos corpos não é circular e é teleológico, obedece a finalidades inteligentes, isto é, os corpos desejam voltar à origem do seu constituinte principal (exemplo: a pedra largada no ar cai porque o seu télos, finalidade, é voltar à «mãe», a Terra); o mundo celeste, composto de 54 esferas de cristal incorruptíveis com astros incrustados, 7 delas de planetas (Lua, Mercúrio, etc) e 47 de estrelas, que giram circularmente de modo teleológico, finalista,  já que estrelas e planetas, seres inteligentes, desejam alcançar, fora do cosmos, Deus, o pensamento puro, que se pensa a si mesmo e não se importa com o cosmos. Deus não é a causa formal (o modelo) do cosmos nem a causa eficiente (o construtor) do cosmos, mas apenas a causa final, o télos, do movimento dos astros inteligentes e das respectivas esferas. Ele nada faz mas suscita e atrai o movimento das estrelas.  Das quatro causas a que melhor se relaciona com a teleologia dos movimentos celestes é a causa final.(VALE TRÊS VALORES). 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 11:39
link do post | comentar | favorito (1)
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Abril 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
14
15

18
20
22

24
28
29

30


posts recentes

Francisco George, ao serv...

Área 5º-9º de Gémeos: Pin...

Área 4º-6º de Gémeos: Ame...

Área 17º-18º de Gémeos: P...

Área 17º-18º de Gémeos: q...

Áreas 16º-17º de Gémeos ...

Área 4º-6º do signo de Gé...

Áreas 29º de Touro e 0º-1...

Área 9º-13º de Gémeos: go...

Área 11º-14º do signo de...

arquivos

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds