Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2016
Teste de Filosofia do 11º ano, turma C (Fevereiro de 2016)

 

 Eis um teste de filosofia fora do estereótipo dos testes que os autores dos manuais escolares da Porto Editora, Leya, Santillana, Areal Editores, etc, divulgam. .

 

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA C

1 de Fevereiro de 2016. Professor: Francisco Queiroz“.

 I

"As categorias são conceitos que prescrevem leis a priori aos fenómenos e, portanto, à natureza como conjunto de todos os fenómenos…O entendimento reduz à unidade o diverso das intuições empíricas.» (Kant, Crítica da Razão Pura)

 

1) Explique estes pensamentos de Kant.

2) Explique, como, segundo a gnosiologia de Kant, se formam o fenómeno MONTANHA, o conceito empírico de MONTANHA e o juízo a priori «Seis mais seis é igual a doze»

 

3) Relacione, justificando:

A) As sete relações filosóficas em David Hume e as formas a priori da sensibilidade e do entendimento na teoria de Kant.

B) O ser em Parménides e o ser em Hegel.

C) Ontologia de Descartes (as três res) e realismo crítico em Descartes.

D) Três tipos de conhecimento, segundo Bertrand Russel, e lei da tríade.

E) As ideias de «eu», «alma» e «substância» em David Hume, racionalismo e empirismo.

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

1) As categorias (unidade, pluralidade, totalidade, realidade, causa-efeito) existem no entendimento, são conceitos a priori, formais, e impõem leis, ordem aos fenómenos da natureza existentes na sensibilidade, segundo Kant. Por exemplo,  a categoria de realidade permite distinguir se estamos acordados ou a sonhar e, por isso, impõe que um automobilista guie bem o seu veículo sem o despistar, segundo leis de causa-efeito da condução. (VALE DOIS VALORES) O entendimento, com as  suas categorias, em especial a de unidade, transforma em uma imagem mental única, o conceito empírico (de rosa, por exemplo) os milhares de imagens (intuições empíricas vindas da sensibilidade; no caso, os milhares de rosas que vemos e produzimos no espaço a priori) (VALE DOIS VALORES).

 

B) O númeno afecta «do exterior» a sensibilidade e cria, nesta, um caos de matéria (madeira, terra, ferro, etc). Este caos é moldado pelo espaço que nele imprime figuras geométricas e pelo tempo que lhe confere duração, sucessão. Assim nasce o fenómeno montanha, na sensibilidade «externa», isto é, no espaço. O entendimento intervém na medida em que confere à montanha o carácter de substância, de divisibilidade (em partes: tufos de ervas, rochas, árvores, encostasm etc). São enviadas ao entendimento imagens de diferentes fenómenos montanha - com ou sem árvores, etc - e as categorias ou conceitos puros do entendimento como pluralidade, unidade e realidade misturam e tratam essas imagens empíricas transformando-as num só conceito empírico, o de montanha, abstraindo dos pormenores das montanhas particulares. O juízo a priori seis mais seis igual a doze forma-se do seguinte modo: as intuições puras de números seis e doze existem no tempo, isto é na sensibilidade a priori, são apresentadas às categorias de unidade, pluralidade e totalidade do entendimento e estas geram o dito juízo matemático a priori.(VALE QUATRO VALORES).

 

3) A) As sete relações filosóficas em David Hume são as estruturas a priori do espírito humano, as estruturas da tábua rasa, por assim dizer, e são as seguintes: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. É fácil ver que correspondem, de um modo geral, em Kant,  às formas a priori, da sensibilidade (espaço e tempo) e do entendimento (os conceitos a priori de unidade,pluralidade, totalidade; realidade, limitação, negaçao; substância e acidente, causa-efeito, comunidade; possibilidade-impossibilidade, necessidade-contingência) : a relação de causação em Hume equivale às categorias de causa-efeito e de necessidade em Kant;  as relações de espaço e tempo, em Hume, equivalem ao espaço e tempo puros que são as formas a priori da sensibilidade em Kant, etc (VALE DOIS VALORES).

 

3-B) Segundo Parménides de Eleia, a via da verdade, racional, estabelece que o ser é uno, imóvel, imutável, esférico, invisível, imperceptível, eterno, que não foi nem será porque é eternamente o mesmo e diz que «ser e pensar são um e o mesmo». A interpretação realista desta última frase é: o pensamento é idêntico ao ser, é espelho do ser material (realismo é doutrina que sustenta que o mundo de matéria é real em si mesmo). A interpretação idealista da mesma frase é: o ser é pensamento, nada existe fora da ideia absoluta que é o ser, e o mundo de matéria, com a mudança das estações do ano, o nascimento e a morte não passa de ilusão. A doutrina de Hegel define o ser como a ideia absoluta, o pensamento criador, extra humano, que está no princípio de tudo mas, ao contrário de Parménides, devém, coloca-se em movimento. Este ser desdobra-se em três fases, segundo a lei da tríade: fase lógica, Deus sozinho antes de criar o universo o espaço e o tempo (é a tese ou afirmação, o primeiro momento da tríade); fase da natureza, na qual Deus se aliena ou separa de si mesmo ao transformar-se em espaço, tempo, astros, pedras, montanhas, rios, plantas e deixa de pensar (é a antítese ou negação, o segundo momento da tríade); fase da humanidade ou do espírito, em que a ideia absoluta/Deus emerge com a aparição da espécie humana, que é Deus encarnado evoluindo em direção a si mesmo, por sucessivas formas de estado, desde o despótico mundo oriental até ao mundo cristão da Reforma protestante onde todos os homens são livres (é a síntese ou negação da negação) (VALE TRÊS VALORES).

 

3.C) A ontologia ou teoria do ser em Descartes é a seguinte: o ser principial é Deus-espírito (res divina) e o ser derivado é duplo, res cogitans ou pensamento humano e res extensa ou extensão, isto é, o comprimento, largura e altura dos corpos materiais exclunido o peso, a cor, o som, o grau de dureza, etc. Isto, em especial a res extensa, liga-se ao Realismo crítico que é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é. Descartes, realista crítico, sustentava que as qualidades secundárias, subjectivas, isto é, as cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores e que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos e uma matéria indeterminada. (VALE TRÊS VALORES). 

 

3-D)  Os três tipos de conhecimento segundo Bertrand Russell são: o saber-fazer, que é um conhecimento empírico-técnico, como andar de bicicleta, nadar, jogar futebol; o conhecimento por contacto, isto é, empírico directo, como ver uma planície alentejana, ouvir uma música dos Bubedanas, saborear gaspacho; o conhecimento proposicional, isto é, racional ou empírico-racional, como por exemplo, «A soma dos três ângulos internos de um triângulo é 180º», «Portugal entrou na Comunidade Económica Europeia em 1 de Janeiro de 1986». contrariando muitas vezes as percepções empíricas. A lei da tríade diz que um processo dialético se divide em três fases: a tese ou afirmação (neste caso pode ser o saber fazer, ausência de raciocínio) a antítese ou negação (neste caso pode ser o conhecimento proposicional, o máximo de raciocínio) e a síntese ou negação da negação (neste caso seria o conhecimento por contacto que mistura o empírico-instintivo da tese ao racional da antítese)(VALE DOIS VALORES)

 

3-E) As ideias de «eu», «alma» e «substância» são geradas pela imaginação e a memória que inventam a persistência, a continuidade dos objectos físicos ou psíquicos. Isto pode ser considerado  empirismo radical, doutrina segundo a qual as percepções empíricas são a fonte das nossas ideias e estas copiam aquelas e não se pode ir além da percepção sensorial imediata. Mas também pode ser considerado racionalismo, doutrina segundo a qual o raciocínio é a fonte principal dos nossos conhecimentos, marginalizando ou mesmo contrariando as percepções empíricas, porque a razão está a negar a evidência intuitiva de que «sou um eu», «tenho uma alma ou psique», «a substância X ou Y existe» (VALE DOIS VALORES).

 

 

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 06:30
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