Terça-feira, 14 de Março de 2017
Teste de filosofia do 11º ano de escolaridade (10 de Março de 2017)

 

Eis um teste de filosofia, sem questões de escolha múltipla, o segundo teste do segundo período lectivo de uma turma do ensino secundário, no Baixo Alentejo, Portugal. 

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja, Escola Secundária Diogo de Gouveia,

Beja,

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B

10 de Março de 2017. Professor: Francisco Queiroz

I

“Se se aprecia a ciência pelos seus resultados, dever-se-ia apreciar os mitos cem vezes mais já que as suas conquistas foram incomparavelmente maiores: os inventores dos mitos…livres do jugo da especializaçãoderam início à cultura, enquanto que os cientistas apenas modificaram esta» (Paul Feyerabend)

 

1) Explique estes pensamentos de Paul Feyerabend, interligando-os com os conceitos de ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO, IDEOLOGIA E CIÊNCIA UNIVERSITÁRIA e outros deste filósofo.

 

2) Explique, como, segundo a gnosiologia de Kant, se formam o fenómeno BARCO, o conceito empírico de BARCO e o juízo a priori «Todos os pontos da circunferência estão à mesma distância do centro ».

      

3) Relacione, justificando:

 

A) Incomensurabilidade dos paradigmas em Thomas Kuhn, de um lado, e conjecturas científicas e corroboração em vez de verificação, em Karl Popper, de outro lado.

 

B) Positivismo lógico do círculo de Viena, e três níveis de um Programa de Investigação Científica segundo Lakatos.

 

C) Realismo crítico e  na teoria de Albert Einstein e ultra-objecto em Bachelard.

 

CORREÇÃO DO TESTE DE AVALIAÇÃO COM COTAÇÃO GLOBAL DE 20 VALORES

 

1) Os homens do mito deram início à cultura porque, por exemplo, inventaram uma cura de plantas para cada doença ao passo que os cientistas do século XXI apenas modificaram essa cura, criando um composto químico, com base nessas plantas e em minerais. Os primitivos descobriram uma ciência dos astros (fases da lua, conjunção de Marte com Júpiter ou Saturno, eetc) ao passo que os astrónomos de hoje apenas a modificaram usando telescópios e outros instrumentos. A inteligência do cientista do século XX-XXI é, para Feyerabend, fragmentária, de um racionalismo deficiente porque não apreende a realidade como um todo físico e metafísico. Isso é o que significa estar sob o jugo da especialização: ter um saber parcelar, como o médico de rins que só sabe deste orgão e não sabe nada de dietética, acupunctura, astrologia, fitoterapia, história social e política, geografia, etc. Para Feyerabend, a dança da chuva feita por povos indígenas do México funciona desde que feita no seu contexto natural invocando os deuses com sinceridade e com o ritualismo apropriado, mas para o cientista universitário actual é «mera estupidez», «crença anticientífica». Embora incorporando forças irracionais, o mito tem uma concepção mais racional, holística, do cosmos do que a ciência especializada que «só vê a árvore e não vê a floresta».

O anarquismo epistemológico de Feyerabend - anarquismo é ausência de hierarquia - diz que há múltiplos métodos válidos, incluindo os das ciências tradicionais que deveriam entrar as universidades e ter tanto estatuto  como as tecnociências que lá estão instaladas: a cura pelos cristais, a cura pelas pirâmides, a fitoterapia, o feng shui, a acupunctura, a astrologia, etc, são tão ou mais importantes que os raios laser, as cirurgias, as análises laboratoriais. Isto é o anarquismo epistemológico, a ausência de doutrinas-chefes: todas estão, em princípio, ao mesmo nível de poder social, não há um conjunto de ciências «superiores» que excluem as outras rotulando-as de «atrasadas, anticentíficas,  perigosas» e absorvem os financiamentos estatais e privados. Quanto ao facto de a ciência universitária estar misturada com ideologia há que dizer que, segundo Feyerabend, para os cientistas de hoje «a ciência é a nossa religião» o que significa que a mentalidade científica actual é dogmática, ideológica, como a teologia, acreditando em dogmas que não podem ser postos em causa, como por exemplo, « O Big Bang deu-se há 15 000 milhões de anos e foi o começo do universo», «as vacinas conferem imunidade», «os astros não comandam o comportamento humano». Os cientistas de hoje são os bispos e papas da nova religião da ciência. As ciências actuais nasceram com o emergir da burguesia industrial e financeira actual e por isso estão impregnadas de ideologia - sistema de ideias e valores de uma classe social- neste caso, a burguesia. A ciência e a tecnologia do automóvel como veículo de transporte individual ou familiar insere-se na ideologia individualista da burguesia: «Enriquece, compra um carro próprio, viaja livremente». Feyerabend recusou o «critério de demarcação» invocado por Popper que dizia, por exemplo, que a biologia molecular e a física quântica eram ciências e a astrologia era pseudo-ciência...

A inteligência do homo sapiens primitivo do mito é holística: ligado à natureza, percebendo o bater do relógio cósmico, o primitivo escuta o silêncio e rejeita uma civilização de tecnologia avançada em que milhares de automóveis atravessam a cada minuto as ruas de uma cidade, os túneis e viadutos, fazendo ruído e poluindo o ar com gases. Os homens do mito tinham uma medicina holística com a utilização de plantas curativas que purificam o sangue e qualquer orgão do corpo, e reflectida ainda na medicina dos séculos XVII-XIX que usava métodos tradicionais como medir as pulsações, ou utilizar as sanguessugas para chuparem sangue das pessoas e reduzir os riscos de AVC.  Feyerabend opõe-se de certo modo à medicina actual, cheia de análises, biópsias e radiografias que classifica como «estupidez». (VALE CINCO VALORES).

 

2) Segundo a gnoseologia de Kant, o fenómeno barco forma-se na sensibilidade, no espaço exterior ao meu corpo físico, do seguinte modo: de '«fora» da sensibilidade, os númenos afectam esta fazendo nascer nela um caos de matéria (exemplo: madeira, ferro, areia, etc, em um magma) que as duas formas a priori da sensibilidade, o espaço (com figuras geométricas) e o tempo (com a duração, a sucessão e a simultaneidade) moldam, fazendo nascer um ou mais fenómenos de barcos. O entendimento, com as categorias de unidade, pluralidade, necessidade, confere consistência ao fenómeno barco. Não existe númeno barco, galo é fenómeno na sua totalidade. O  conceito de barco forma-se no entendimento, faculdade que pensa mas não sente, do seguinte modo: a imaginação, situada entre a sensibilidade e o entendimento, transporta desde aquela a este as imagens de barco e as categorias do entendimento de pluralidade e unidade, realidade, recebem as diversas imagens e transformam-na numa só imagem abstracta, o conceito empírico de barco.

O juízo «todos os pontos da circunferência estão à mesma distância do centro» forma-se no entendimento, na tábua dos juízos, após este ir buscar a intuição pura de circunferência que se encontra no espaço a priori e transformá-la, pelas categorias de unidade, pluralidade, erc, num conceito puro de circunferência (VALE TRÊS VALORES).

 

3.A) A incomensurabilidade dos paradigmas é a impossibilidade de medir exactamente o valor de cada doutrina científica e das suas rivais: não se pode dizer, por exemplo, que o heliocentrismo é melhor que o geocentrismo, em termos globais, ainda que se possa dizer que, neste ou naquele aspecto (exactidão/experimentação, fecundidade, simplicidade, etc) um deles é superior ao outro. É compatível com a teoria das revoluções científicas em Kuhn. Esta consiste em afirmar que as ciências se desenvolvem segundo a lei do salto de qualidade: durante décadas ou séculos uma ciência é aceite pela comunidade científica e designa-se por ciência normal mas vão-se acumulando lentamente anomalias até que surge um paradigma ou modelo teórico oposto, chamado ciência extraordinária que acaba por substituir a ciência até então dominante (revolução científica) .Karl Popper ao contrário de Kuhn, não acha que os paradigmas sejam incomensuráveis entre si, escolhe provisoriamente um em detrimento de outros, mas sustenta que as ciências empíricas ou empírico-formais não passam de conjuntos de conjecturas, hipóteses. Na linha de David Hume, Popper duvida da indução amplificante, achando que há sempre excepções a uma dada lei da natureza e considera ser impossível verificar essa lei pois teríamos de estudar centenas de milhar ou milhões de exemplos concretos. Popper diz que só é possível a corroboração ou confirmação de alguns exemplos através da testabilidade, isto é, realização de testes experimentais que se integram no princípio da falsificabilidade (todas as ciências são potencialmente falsas). Tanto Popper como Kuhn revelam um certo grau de ceticismo sobre as teses das ciências.(VALE QUATRO VALORES)

 

3-B) O positivismo lógico do círculo de Viena considera sem sentido a metafísica e afirmações desta como «Deus criou o Paraíso e o Inferno e pune os maus» porque não podem ser comprovadas empiricamente. Para este positivismo, só os factos empíricos ( exemplo: maçã, tornado, etc) e as suas relações lógico-matemáticas são verdade e a indução amplificante - generalização segundo uma lei necessária de alguns casos empíricos semelhantes entre si - é perfeitamente legítima. Imre Lakatos, epistemólogo húngaro, aceita igualmente a indução amplificante e defendeu que a ciência se estrutura em Programas de Investigação Científica (PIC). Cada um destes tem três níveis: o núcleo duro, conjunto das teses imutáveis; o cinto protector, conjunto das teses revisíveis, que podem ser rectificadas ou substituídas; a heurística, conjunto dos métodos de investigação livre, teórica e prática, que pode confirmar ou anular o PIC. (VALE QUATRO VALORES)

 

3-C) O realismo crítico é a teoria que afirma que há um mundo material anterior às mentes humanas e independente destas que o captam de maneira distorcida. O realismo crítico em Descartes consiste em postular o seguinte: há um mundo de matéria exterior às mentes humanas, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, forma, tamanho, número, movimento. As cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da minha mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios de partículas exteriores já que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. .Assim, a rosa não é vermelha, é apenas forma e tamanho. O ramo de rosas é apenas formas, tamanho e um certo número de unidades, não tem cor, nem cheiro, nem peso. O mármore não é frio nem duro, o céu não tem cor. Podemos dizer que a doutrina de Einstein é um realismo crítico na medida em que sustenta as seguintes teses, entre outras, contra-intuitivas, contra as aparências:

1) O espaço e o tempo não são realidades separadas, existe o espaço-tempo variável de lugar a lugar, não há um tempo absoluto universal.

 

2) O espaço-tempo não é feito de planos sobrepostos e linhas rectas como sustenta a geometria euclidiana e a física de Newton, é irregular e encurva na proximidade de grandes massas (exemplo: a esfera de metal deforma o lençol esticado, criando uma cova no centro).

 

3) A luz cuja velocidade é 300 000 quilómetros por segundo acompanha a curvatura do espaço tempo, não viaja em linha recta (um raio de luz lançado em direção a uma estrela tenderia a voltar à Terra dado que o universo é fechado) 

4) Quem viajasse a uma velocidade próxima da da luz envelheceria muito mais lentamente do que os habitantes da Terra;

 

5) A massa de um corpo aumenta com o aumento da sua velocidade de deslocação.

 

O ultra-objecto de Bachelard é o objecto ideal construído racionalmente com base em dados empíricos indirectos como, por exemplo, os quanta, o quark e o Big Bang. A curvatura do espaço-tempo, na teoria de Einstein, é um ultra-objecto.(VALE QUATRO VALORES).

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 18:03
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Agosto 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


posts recentes

Posições de Júpiter em Ma...

Deleuze e Guattari: as tr...

Júpiter em 17º de Balança...

Astrología y accidentes a...

O idealismo é contra a au...

La guerra civil de España...

Breves reflexões de Julho...

Áreas 21º-24º de Carangu...

Ponto 27º 37´/ 27º 44´ de...

Equívocos no Exame Nacion...

arquivos

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds