Terça-feira, 28 de Março de 2017
Teste de filosofia do 11º ano (21 de Março de 2017)

 

Eis um teste de filosofia, sem questões de escolha múltipla, o segundo teste do segundo período lectivo de uma turma do ensino secundário, no Baixo Alentejo, Portugal. 

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

21 de Março de 2017 Professor: Francisco Queiroz

I

” Para ver as coisas adequadas exige-se os instrumentos adequados. Para ver as longínquas galáxias necessita-se de telescópio. Para ver os deuses fazem falta homens adequadamente preparados para isso. As galáxias não desaparecem quando desaparecem os telescópios. Os deuses não desaparecem quando os homens perdem a faculdade de entrar em contacto com eles… Creio que estou de acordo com Börne quando diz que a história não é mais que o historiador que regista quanto sucedeu e que, desta forma, forja os acontecimentos, define-os, inclusivamente para aqueles que participaram neles.” (Paul Feyerabend, Diálogo sobre o Método)

 

1) Explique estes pensamentos de Feyerabend, interligando-os com as noções de ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO, INTELIGÊNCIA HOLÍSTICA, HOMO SAPIENS DOS TEMPOS DO MITO, IDEOLOGIA NA CIÊNCIA.

 

2)Explique, como, segundo a gnosiologia de Kant, se formam o fenómeno CORTIÇA o conceito empírico de CORTIÇA e o juízo a priori «Dezanove adicionado de dez perfaz vinte e nove».

      

3) Relacione, justificando:

 

A) Os três níveis de um Programa de Investigação Científica, segundo Imre Lakatos, por um lado, e os três tipos de ideias em Descartes, por outro lado

B) Indução amplificante, positivismo lógico, por um lado, e Princípio da falsificabilidade em Popper, conjectura e corroboração em Popper, por outro lado.

C) Realismo crítico na teoria de Einstein, epistemologia de Thomas Kuhn e princípio da incerteza de Heisenberg.

 

 CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA VINTE VALORES

 

1) Quando Feyerabend escreve no texto que « Para ver os deuses fazem falta homens adequadamente preparados para isso» está a referir-se à ausência de inteligência holística nos cientistas e universitários de hoje . A inteligência holística é a intuição e compreensão global do universo como um todo e pressupõe abarcar tanto a metafísica (os deuses, os universos paralelos) como a física e a biologia (os climas na terra, as rotações das colheitas, os ecossistemas). Pode haver ateus dotados de inteligência holística mas supõem um princípio uno atravessando e ligando todo o universo. Quando no texto Feyerabend diz que« estou de acordo com Börne quando diz que a história não é mais que o historiador que regista quanto sucedeu e que, desta forma, forja os acontecimentos, define-os» está a denunciar que a ciência histórica ensinada nas universidades está infectada pela ideologia subjectiva ou intersubjectiva do historiador.O anarquismo epistemológico de Feyerabend - anarquismo é ausência de hierarquia - diz que há múltiplos métodos válidos, incluindo os das ciências tradicionais que deveriam entrar as universidades e ter tanto estatuto  como as tecnociências que lá estão instaladas: a cura pelos cristais, a cura pelas pirâmides, a fitoterapia, o feng shui, a acupunctura, a astrologia, etc, são tão ou mais importantes que os raios laser, as cirurgias, as análises laboratoriais. Isto é o anarquismo epistemológico, a ausência de doutrinas-chefes: todas estão, em princípio, ao mesmo nível de poder social, não há um conjunto de ciências «superiores» que excluem as outras rotulando-as de «atrasadas, anticentíficas,  perigosas» e absorvem os financiamentos estatais e privados. Homens muito pouco honestos dominam as universidades e a investigação que nelas se faz: por exemplo o motor a água para automóveis inventado nos EUA em 1935 foi proibido de ser ensinado. Quanto ao facto de a ciência universitária estar misturada com ideologia e interesses de lucro de grandes empresas privadas há que acrescentar que, segundo Feyerabend, para os cientistas de hoje «a ciência é a nossa religião» o que significa que a mentalidade científica actual é dogmática, ideológica, como a teologia, acreditando em dogmas que não podem ser postos em causa, como por exemplo, « O Big Bang deu-se há 15 000 milhões de anos e foi o começo do universo», «as vacinas conferem imunidade», «os astros não comandam o comportamento humano».A inteligência do homo sapiens primitivo do mito é holística: ligado à natureza, percebendo o bater do relógio cósmico, o primitivo escuta o silêncio e rejeita uma civilização de tecnologia avançada em que milhares de automóveis atravessam a cada minuto as ruas de uma cidade, os túneis e viadutos, fazendo ruído e poluindo o ar com gases. Os homens do mito tinham uma medicina holística com a utilização de plantas curativas que purificam o sangue e qualquer orgão do corpo, e reflectida ainda na medicina dos séculos XVII-XIX que usava métodos tradicionais como medir as pulsações, ou utilizar as sanguessugas para chuparem sangue das pessoas e reduzir os riscos de AVC. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) Segundo a gnoseologia de Kant, o fenómeno cortiça forma-se na sensibilidade, no espaço exterior ao meu corpo físico, do seguinte modo: de «fora» da sensibilidade, os númenos afectam esta fazendo nascer nela um caos de matéria (exemplo: madeira, ferro, areia, etc, em um magma) que as duas formas a priori da sensibilidade, o espaço (com figuras geométricas) e o tempo (com a duração, a sucessão e a simultaneidade) moldam, fazendo nascer um ou mais fenómenos de cortiça. O entendimento, com as categorias de unidade, pluralidade, necessidade, confere consistência ao objecto/fenómeno cortiça. Não existe númeno cortiça, cortiça  é fenómeno na sua totalidade. O  conceito de cortiça forma-se no entendimento, faculdade que pensa mas não sente, do seguinte modo: a imaginação, situada entre a sensibilidade e o entendimento, transporta desde aquela a este as imagens de barco e as categorias do entendimento de pluralidade e unidade, realidade, recebem as diversas imagens e transformam-na numa só imagem abstracta, o conceito empírico de cortiça.

O juízo «dezanove adicionado de dez perfaz vinte e nove» forma-se no entendimento puro, na tábua dos juízos, após este receber as intuições puras de números 10, 19 e 29 que residem no tempo a priori, na sensibilidade, e transformá-las, pelas categorias de unidade, pluralidade, erc, em conceitos puros de 10, 19 e 29 (VALE QUATRO VALORES).

 

3-A) Imre Lakatos, epistemólogo húngaro, aceita igualmente a indução amplificante e defendeu que a ciência se estrutura em Programas de Investigação Científica (PIC). Cada um destes tem três níveis: o núcleo duro, conjunto das teses imutáveis; o cinto protector, conjunto das teses revisíveis, que podem ser rectificadas ou substituídas; a heurística, conjunto dos métodos de investigação livre, teórica e prática, que pode confirmar ou anular o PIC. Descartes defendeu haver ideias inatas (as ideias de círculo, triângulo, número, corpo, alma, Deus), a priori, indubitáveis como o núcleo duro. Defendeu haver ideias adventícias ou percepções empíricas (exemplo: rosa vermelha, vento quente, sabor doce) que não são absolutamente fiáveis como o cinto protector porque podem ser revistas. Defendeu também haver ideias factícias ou de imaginação livre (exemplo: um cavalo com orelhas de elefante) que podem assimilar-se à heurística ou pesquisa livre. (VALE QUATRO VALORES).

 

3-B) O positivismo lógico do círculo de Viena considera sem sentido a metafísica e afirmações desta como «Deus criou o Paraíso e o Inferno e pune os maus» porque não podem ser comprovadas empiricamente. Para este positivismo, só os factos empíricos ( exemplo: maçã, tornado, etc) e as suas relações lógico-matemáticas são verdade e a indução amplificante - generalização segundo uma lei necessária de alguns casos empíricos semelhantes entre si - é perfeitamente legítima. Karl Popper ao contrário de Kuhn, não acha que os paradigmas sejam incomensuráveis entre si, escolhe provisoriamente um em detrimento de outros, mas sustenta que as ciências empíricas ou empírico-formais não passam de conjuntos de conjecturas, hipóteses. Na linha de David Hume, Popper duvida da indução amplificante, achando que há sempre excepções a uma dada lei da natureza e considera ser impossível verificar essa lei pois teríamos de estudar centenas de milhar ou milhões de exemplos concretos. Popper diz que só é possível a corroboração ou confirmação de alguns exemplos através da testabilidade, isto é, realização de testes experimentais que se integram no princípio da falsificabilidade (todas as ciências são potencialmente falsas). No positivismo lógico, aceita-se a indução amplificante, geradora de teses, dogmas. Em Popper não há dogmas, certezas infalíveis, as teses da ciência são conjecturas ou hipóteses refutáveis (VALE QUATRO VALORES).

 

3-C) O realismo crítico é a teoria que afirma que há um mundo material anterior às mentes humanas e independente destas que o captam de maneira distorcida. O realismo crítico em Descartes consiste em postular o seguinte: há um mundo de matéria exterior às mentes humanas, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, forma, tamanho, número, movimento. As cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da minha mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios de partículas exteriores já que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. .Assim, a rosa não é vermelha, é apenas forma e tamanho. O ramo de rosas é apenas formas, tamanho e um certo número de unidades, não tem cor, nem cheiro, nem peso. O mármore não é frio nem duro, o céu não tem cor. Podemos dizer que a doutrina de Einstein é um realismo crítico na medida em que sustenta as seguintes teses, entre outras, contra-intuitivas, contra as aparências:

1) O espaço e o tempo não são realidades separadas, existe o espaço-tempo variável de lugar a lugar, não há um tempo absoluto universal.

 

2) O espaço-tempo não é feito de planos sobrepostos e linhas rectas como sustenta a geometria euclidiana e a física de Newton, é irregular e encurva na proximidade de grandes massas (exemplo: a esfera de metal deforma o lençol esticado, criando uma cova no centro).

 

3) A luz cuja velocidade é 300 000 quilómetros por segundo acompanha acurvatura do espaço tempo, não viaja em linha recta (um raio de luz lançado em direção a uma estrela tenderia a voltar à Terra dado que o universo é fechado) 

4) Quem viajasse a uma velocidade próxima da da luz envelheceria muito mais lentamente do que os habitantes da Terra;

 

5) A massa de um corpo aumenta com o aumento da sua velocidade de deslocação.

 

Kuhn defendeu incomensurabilidade dos paradigmas é a impossibilidade de medir exactamente o valor de cada doutrina científica e das suas rivais: não se pode dizer, por exemplo, que o heliocentrismo é melhor que o geocentrismo, em termos globais, ainda que se possa dizer que, neste ou naquele aspecto (exactidão/experimentação, fecundidadesimplicidade, etc) um deles é superior ao outro. É compatível com a teoria das revoluções científicas em Kuhn. Esta consiste em afirmar que as ciências se desenvolvem segundo a lei do salto de qualidade: durante décadas ou séculos uma ciência é aceite pela comunidade científica e designa-se por ciência normal mas vão-se acumulando lentamente anomalias até que surge um paradigma ou modelo teórico oposto, chamado ciência extraordinária que acaba por substituir a ciência até então dominante (revolução científica). O princípio da incerteza de Heisenberg estabelece ser impossível conhecer em simultâneo a velocidade e a posição de um electrão ou partícula do mesmo género microfísico: ou se conhece a velocidade ou se conhece a posição, o que sugere a nuvem electrónica, uma «fotografia» de um turbilhão.

 

Pode dizer-se que a teoria da curvatura do espaço tempo de Einstein  foi uma ciência extraordinária que se transformou por uma revolução científica, de acordo com Kuhn, em paradigma dominante (VALE QUATRO VALORES).

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 20:42
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