Terça-feira, 24 de Março de 2015
Teste de filosofia do 10º B (Março de 2015)

 

Eis um teste de filosofia do 10º ano de  escolaridade em Portugal, evitando as perguntas de escolha múltipla em que o aluno coloca um X na hipótese que supõe estar certa e fica dispensado de explanar as suas ideias num corpo discursivo coerente.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA B
17 de Março de 2015. Professor: Francisco Queiroz

 

I

“A autogestão nas empresas, a cogestão e a nacionalização de empresas são valores ético-políticos e económicos aceites ou rejeitados como valores supremos por uma ou outra de três correntes como o comunismo leninista, o anarquismo e o socialismo reformista. Karl Marx defendeu que ao longo da história cinco tipo de instrumentos de produção (tecnologia) produzem uns quatro ou cinco tipos de Estado, ética, cultura, organização social e religiosa, e isso exprime a  lei dos dois aspectos da contradição

1) Explique, concretamente este texto. 

 

2) Relacione, justificando:

 

A) Quatro correntes ético-políticas (três de direita e uma do centro), por um lado, e democracia parlamentar ou burguesa e Estado social, por outro lado.
B) O imperativo categórico em Kant, por um lado, multiculturalismo e totalitarismo por outro lado.
C) Adão Kadmon, três princípios da alquimia, hebdómada.

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE ESCRITO (COTADO PARA 20 VALORES)

1)«A autogestão nas empresas é o regime em que as fábricas, as explorações agrícolas, os hipermercados, as empresas de transportes são propriedade dos trabalhadores e não do Estado nem de patrões ou sociedades privadas: semanal ou mensalmente reune a assembleia de todos os operátrios, engenheiros e técnicos de contas da empresa e decide, democraticamente, os investimentos a fazer, a escala de salários, a repartição dos lucros, os horários de trabalho, etc. A autogestão é um valor central da doutrina anarquista que é contra o capitalismo privado e contra o capitalismo de estado marxista~leninista, anarquismo que defende a extinção do Estado, do exército profissional e das polícias e que promove a luta de rua (acção directa) e a greve geral revolucionária contra a democracia parlamentar ou burguesa. A cogestão nas empresas é o regime em que estas são propriedade privada de patrões mas estes incluem um representante da comissão de trabalhadores ou do sindicato na gestão da empresa concertando com estes os ritmos de trabalho, a escala de salários, etc. A cogestão é um valor central da doutrina da social-democracia ou socialismo reformista, isto é do capitalismo de centro-esquerda, corrente que defende a democracia parlamentar, as liberdades de greve, imprensa e manifestação de rua, a liberdade sexual e religiosa, os impostos progressivos sobre os ricos, o rendimento mínimo garantido e o subsídio de desemprego para todos os necessitados, o ensino secundário e universitário público gratuitos, o serviço nacional de saúde. O socialismo tem forte componente maçónica e defende uma economia de mercado, uma economia capitalista. A nacionalização é um valor central da doutrina comunista marxista-leninista que defende uma revolução política e social em que as fábricas e terras são nacionalizadas, isto é, passam das mãos de capitalistas privadas para o Estado gerido pelo partido comunista em nome do povo (ditadura do proletariado, sem eleições livres porque estas trariam o capitalismo de volta). Em democracia parlamentar, os comunistas concorrem às eleições, apesar de considerarem que os partidos vencedores - socialistas, liberais ou conservadores - ganham por serem subsidiados pela alta finança e grandes industriais, já que no parlamento apresentarão propostas de lei contra o fascismo clássico e a favor da classe operária (VALE SEIS VALORES). Karl Marx defendeu que a infraestrutura ou base económica, em especial o seu instrumento de produção principal em cada época, gera a superestrutura (Estado, religião, escola, cultura) correspondente: o machado de pedra obrigou os homens a adoptarem o comunismo primitivo, um regime anarquista nas tribos, de propriedade colectiva dos meios de produção; a invenção do machado de ferro e arado de ponta de ferro levou à prática da agricultura e à divisão social entre escravos e esclavagistas e ao surgimento do Estado da escravatura, máquina de opressão; a invenção do moinho de água, na Idade Média, converteu os escravos em servos da gleba que trabalham metade da semana gratuitamente para os seus senhores, é o Estado feudal; a invenção da máquina a vapor e do martelo mecânico no século XVIII gera a revolução industrial, os camponeses são transformados em operários fabris ao serviço da nova classe, a burguesia industrial, que constrói o Estado democrático burguês, assente no capitalismo. Depois, segundo os neomarxistas, a electrónica, a aviação, a electricidade e as grandes tecnologias actuais geram a necessidade do Estado socialista operário, suprimindo os capitalistas. A lei dos dois aspectos diz que numa contradição há dois aspectos e, em regra, um é dominante e o outro dominado, podendo inverter-se as posições: neste caso, o instrumento de produção é o dominante e o Estado e restante superestrutura, o dominado e, por vezes, o Estado, a religião e a política sobrepõem-se à produção como sucede no caso das revoluções e guerras. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) A) Das três correntes de direita política, liberais, conservadores e fascistas/monárquicos absolutistas, só esta última não defende a democracia parlamentar ou burguesa. Os fascistas querem um Estado nacional, uma ditadura de partido único, defensor de um capitalismo controlado de alta burguesia, sem direito às greves, à imprensa livre e ao lock-out, um Estado defensor dos valores tradicionais (masculinidade do homem, feminilidade e espírito de dona de casa na mulher; perseguição e punição de gays e lésbicas; respeito às igrejas católica, protestante ou islâmica e proibição do divórcio nos casamentos religiosos), um Estado totalitário profundamente anticomunista, antimaçónico e antiberal, xenófobo, isto é, expulsando imigrantes estrangeiros. Menos à direita estão os conservadores, que defendem uma democracia parlamentar (regime de eleições livres de parlamentos, com muitos partidos a concorrer), liberdade sindical, de imprensa e de greve mas opõem-se a impostos progressivos sobre os ricos, ao casamento de gays e lésbicas, à legalização das drogas leves. Os conservadores defendem os valores tradicionais da família, do respeito a Deus e são contra o aborto livre. À esquerda dos conservadores, mas ainda no campo da direita, estão os liberais, que defendem o capitalismo privado puro, poucos ou nenhuns impostos sobre os capitalistas, o fim do serviço nacional de saúde e do ensino universitário gratuitos, a privatização de quase todas as empresas públicas (correios, comboios, aviação, minas, siderurgia, etc), o quase desaparecimento do subsídio de desemprego e do rendimento mínimo garantido, a liberdade de os patrões despedirem os empregados sem os indemnizar. Os liberais, também com grande influência da maçonaria no seu seio, defendem a globalização da economia e a sinarquia, o governo mundial único numa base pluralista. Ao centro, figuram os centristas, também defensores da democracia parlamentar ou burguesa, com mais preocupações sociais, que se opõem ao capitalismo selvagem de liberais e conservadores e também ao comunismo, ao anarquismo e ao socialismo reformista embora sejam vizinhos deste último. Ao contrário dos liberais e conservadores, os centristas já defendem o Estado social, um Estado capitalista que confere protecção básica aos mais pobres, dando-lhes saúde gratuita nos hospistais, refeições gratuitas e outros apoios. John Rawls foi, nos EUA, o teórico desta corrente. Advogava que as leis deviam ser debatidas e votadas por grandes comunidades segundo uma democracia de base a coberto de um véu de ignorância sobre a profissão e a riqueza de cada um dos participantes no debate, na posição original. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) B) O imperativo categórico é uma lei moral autónoma, variável de pessoa a pessoa, mas com equidade universal, sem interesses egoístas: «Age de modo que a tua acção seja como uma lei universal da natureza», isto é, faz o bem sem olhar a quem e nem mesmo a ti mesmo ou pune a todos, por espírito justo, sem olhar a quem. O multiculturalismo é a posição que diz que num país todas as comunidades - os nacionais de origem, os emigrantes africanos, latino-americanos, do leste, etc - devem estar em pé de igualdade ante o Estado e a lei: nas escolas devem ensinar-se as diversas línguas e culturas, qualquer imigrante se pode candidatar a presidente da república, deputado nacional ou autarca local, etc. O totalitarismo, ideologia que diz que o Estado é tudo e o indivíduo é nada e deve haver uma ditadura de partido único sem eleições livres nem imprensa livre - é contra o multiculturalismo (VALE TRÊS VALORES).

 

2)C) O Adão Kadmon era, segundo relatos alquímicos, o Adão primitivo, dotado de um corpo astral, que atravessava as pedras e a matéria, hermafrodita - metade mulher (Sofia), metade homem (Adão), com duas cabeças em algumas representações, correspondente ao arcano XXI do Tarot - que viveria no Paraíso Terrestre, no limite entre o Pleroma (Mundo da Luz divina) e o Kenoma (Mundo do Vazio, das trevas exteriores). Adão quis sair do Paraíso, atraído por Lúcifer que fora exilado no Inferno, e perdeu o seu corpo luminoso, materializando-se. Deus apiedou-se dele e colocou-o na Terra, onde viveu sujeito à lei do envelhecimento e da morte com a sua nova companheira, Eva, rodeado de sete esferas planetárias ou mundo da hebdómada. A alquimia fala de três princípios: o enxofre, sólido, ou princípio masculino, o «homem vermelho»; o mercúrio filosófico, líquido ou gasoso, volátil, princípio feminino ou «mulher branca» - equivale à Sofia do corpo adâmico; o sal ou neutro . O objectivo da alquimia é produzir o lapis, a pedra filosofal, que permitiria ao homem recuperar o corpo glorioso do primitivo Adão.(VALE TRÊS VALORES)

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 00:27
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