Sábado, 14 de Janeiro de 2017
Breves reflexões de Janeiro de 2017

 

 

Eis algumas reflexões mais ou menos triviais que me ocorrem neste início de 2017.

 

A VERDADE NÃO ESTÁ AO ALCANCE DE TODOS .Husserl dizia que a verdade é uma ideia, perceptível embora em infinitas vivências. Nem toda a gente atinge a verdade em qualquer área: a lei da desigualdade entre os indivíduos e as mentes respectivas prevalece, como em tudo. O erro é muito mais frequente do que a descoberta da verdade. Não admira que a esmagadora maioria dos homens de ciência, dos filósofos e professores de filosofia não compreendam esta verdade: os planetas no seu movimento através dos 360º do Zodíaco ou circunferência celeste determinam todos os acontecimentos individuais e colectivas que se dão no planeta Terra. Falta-lhes inteligência holística e trabalho de investigação sobre milhares de factos históricos reais.

 

O PRAZER INTELECTUAL DA DESCOBERTA. É para mim um prazer enorme estudar comparativamente, durante tardes inteiras, meses e anos seguidos, tanto quanto a actividade lectiva mo permite,  muitos acidentes de avião, comboio, barco, automóvel, sob o ponto de vista astronómico e histórico e encontrar algumas leis astrológicas que explicam essas ocorrências. Vivo num outro universo, mais acima, ao decifrar parcialmente esses enigmas da ordem cósmica. Louvados os deuses que me inspiram nessa tarefa.

 

OS SINCRONISMOS FOMÉTICOS REGEM A HISTÓRIA. Vejamos exemplos. Em 12 e 13 de Janeiro de 2017, as ideias de MACEDO e CAVALEIRO estão em destaque: no dia 12, Baraona, do Museu Regional, encontra-me numa rua de Beja e elogia João Rocha, presidente da câmara de Beja, dizendo que este quer atrair à cidade através da construção de uma Escola EQUESTRE , CAVALEIROS tauromáquicos e alta burguesia ligada a esta área, um telejornal anuncia que Paulo Campos, ex presidente do INEM, acusa Paulo MACEDO, enquanto ministro da Saúde do governo PSD-CDS, de o ter pressionado a colocar num posto do INEM Helena Lalanda de Castro, irmã do arguido Paulo Lalanda de Castro, dono da Octopharma; no dia 13, um homem assassina a tiro a sua esposa, de 60 anos, em MACEDO de CAVALEIROS, a aluna Catarina MACEDO lê um texto sobre Kant na aula de filosofia, na ESDG.

 

O CASAMENTO, NA MEDIDA EM QUE ACORRENTA DUAS PESSOAS UMA Á OUTRA, PODE SER UMA CRIAÇÃO DO DIABO. Porque só o Diabo, se existe, usa correntes e acorrenta pessoas. Deus, o Puro Amor, deixa as pessoas livres. Os casamentos celebrados pelas igrejas católicas, protestantes, judaicas não são sacramentos divinos: são contratos para a concupiscência e o enriquecimento material, são formas de poder familiar e social.

 

O GRANDE OLHO ESPIÃO DA INTERNET .Se dantes eram os padres que conheciam no confessionário os segredos, as preferências dos fiéis, agora é o controlo íntimo, a espionagem das redes sociais, das tecnologias audiovisuais, que assegura estabilidade aos senhores do mundo.Temos a televisão, verdadeira sacerdotisa do controlo mental de massas, a ciência universitária encartada, o papa Francisco e o Banco Central Europeu, enfim, estamos bem formatados, como crentes ou como ateus, para a New World Order, o capitalismo global ou, segundo Daniel Estulín, o novo fascismo bonapartista imposto à escala mundial...

 

TRUMP TAMBÉM TEM RAZÃO. Na sua última entrevista Donald Trump disse algo como «nunca devíamos ter invadido, o Iraque, foi a pior decisão da nossa história». Refere-se à invasão do Iraque em Março de 2003. E está certo. George W. Bush, o criminoso presidente republicano de 2001 a 2009, fez a guerra do Iraque, relançou a Al-Qaeda e não votou Trump. Declarou ainda Trump que «a NATO é uma organização obsoleta». E está certo. Para nos libertarmos da ditadura financeira do euro da senhora Merkel, Trump, apesar de grande burguês, pode ser um aliado na luta contra a globalização, pelo regresso a um mundo dual de equilíbrios firmes. Sem esquecer, que é um reacionário no que toca à posição e aos direitos das mulheres, um representante do machismo boçal do grande construtor civil. E é bom que Trump se entenda com Putin, o presidente de uma Rússia atávica, reacionária, católico-ortodoxa, onde de 40 em 40 minutos a violência doméstica masculina mata uma mulher (cerca de 12 000 mulheres são mortas anualmente pelos seus parentes ou parceiros) e onde o Código Penal não prevê punições para os agressores das mulheres e dos homossexuais, excepto em caso de assassinato.

 

LISBOA É, PARA MUITOS, A ESCRAVIDÃO DO TRABALHO. Um jovem engenheiro bejense concluiu o curso em Lisboa e empregou-se numa empresa cuja sede é no centro da capital. Não conseguiu alugar casa:é hábito de muitos que dispõem de apartamentos alugarem quarto a turistas. Vive num quarto e gasta uma hora em transportes públicos para chegar ao emprego e outra hora para regressar ao quarto. São 10 horas diárias de trabalho e viagens em autocarros que exigem mudança de veículo ou num metropolitano superlotado que reduziu o número de carruagens - onde dantes eram 4 agora são 3. O engenheiro ganha cerca de 1000 euros limpos mais subsídio de refeição (5 euros por dia). Não tem tempo para desfrutar de cinemas, bares, discotecas, visitas a amigos. O trabalho é uma escravidão. Vives em Beja e, se tens emprego condigno e casa, ainda te queixas?

 

O GOVERNO PS ATENTA, POR MEIO DA SUPERVISÃO E DA UNIFORMIZAÇÃO, CONTRA A LIBERDADE PEDAGÓGICA DOS PROFESSORES . Encontro em Beja um sindicalista que me diz: «Já viste o escândalo da política do Ministério da Educação? Impõem a supervisão, a uniformização de métodos de avaliação e ensino. Os professores vão assistir às aulas uns dos outros. A Inspeção de Ensino vai investir contra a autonomia pedagógica de cada um, impondo fórmulas burocráticas comuns. Diz-se que é a equipa da antiga ministra de Sócrates Maria de Lurdes Rodrigues que tanto mal estar causou na classe docente,quem congeminou este controlo totalitário das aulas e dos conteúdos lecionados. Mas ensinar é diversificar e não uniformizar. Os professores deviam revoltar-se e agir em bloco dizendo não a esta política. A FENPROF está amordaçada pelo PCP: não protesta para manter a «geringonça». A descida da TSU é uma medida gravíssima porque tira 40 milhões de euros à Segurança Social e as nossas reformas serão afectadas por isso. O país está a endividar-se ao ritmo de 38 milhões de euros por dia. É insustentável, isto um dia colapsa. O governo de António Costa quer recapitalizar a Caixa Geral de Depósitos com os nossos impostos mas esconde as enormes dívidas de Joe Berardo e outros milionários à CGD - os amigos do PS. O Passos Coelho fez bem em aliar-se ao PCP e ao BE chumbando a descida da TSU. O presidente Marcelo leva o governo ao colo porque quer ter um segundo mandato. O Costa é habilidoso na imagem.»

 

TU NÃO PRECISAS DE MEDICAMENTOS CONTRA A DEPRESSÃO OU O SENTIMENTO DE SOLIDÃO: TENS O FACEBOOK. A tua família fictícia são as tuas dezenas ou centenas ou milhares de amigos do Facebook. Agradece a Mark Zukenberg, mais teu amigo que o papa. Mark, sem te conhecer, cuida de ti, põe-te em contacto com o vasto mundo humano. Avé Mark, bendito sejas. Dás-nos oportunidade de escrever, de vibrar com o facto de sermos lidos, ouvidos. Thank you, Mark.

 

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Terça-feira, 27 de Setembro de 2011
Heidegger: os entes são independentes da experiência mas a verdade não pode provar-se

 

Heidegger escreveu:

«Os entes são independentes da experiência, do saber e dos conceitos que os abrem e definem. » (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 203, Fondo de cultura económica; o negrito é colocado por mim).

 

Na doutrina de Kant, os entes cognoscíveis, isto é, os fenómenos - como por exemplo, árvore, mesa, corpo humano - não são independentes da experiência, nascem e vivem no seio desta, são construção da sujectividade. É o idealismo material de Kant. Mas Heidegger posiciona-se de maneira diferente. Os entes são independentes do conhecer humano. Mas este é barrado por um reposteiro e isso é a fenomenologia.

 

«Um cético não pode ser refutado, como tampouco pode ser "provado" o ser da verdade. O cético, se é facticamente, no modo de negação da verdade, tampouco necessita de ser refutado. Na medida em que é e compreende este seu ser, extinguiu no desespero do suicídio o "ser aí" (Dasein) e com ele a verdade. A verdade e a sua necessidade não podem provar-se, porque o "ser aí" não pode ser para si mesmo "objecto" de prova. Como não se provou que haja "verdades eternas", tampouco se provou que alguma vez tenha havido um céptico real - como crêem no fundo as refutações do ceptismo, apesar da tarefa que se propõem levar a cabo. « (Heidegger, ibid, pag 230).

 

Heidegger assegura que afirmar o ser (caso do dogmático) ou negar o ser (caso do cético) possui, em certo sentido, o mesmo grau de veracidade porque a verdade não se prova, não é objectiva, já que passa pelo crivo do "ser-aí" que é cada homem na sua circunstância. As Torres Gémeas de Nova Iorque, destruídas faticamente por aviões e bombas em 11 de Setembro de 2001, eram entes independentes do saber humano, entes diante dos olhos, mas nunca se saberá se poderiam existir sem haver humanidade, mentes humanas (realismo ontológico) ou se só podem existir indissociavelmente ligadas às mentes humanas (fenomenologia).

 

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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011
Aristóteles: o erro àcerca das essências só ocorre por acidente

 

Não há dúvida de que Aristóteles era um platónico «envergonhado». Postulava que as formas, como, por exemplo, azul, cavalo, homem, existiam desde a eternidade. Se existiam anteriormente às coisas materiais, constituíam um mundo inteligível similar ao de Platão - com a única diferença de que as formas em Platão eram singulares e únicas e em Aristóteles são singular-colectivas, anteriores aos objectos mas actualizáveis nestes. Senão atente-se nesta passagem:

 

«Mais exactamente, a verdade e a falsidade consistem nisto: a verdade em captar e enunciar a coisa (pois enunciar e afirmar não são o mesmo); enquanto que ignorá-la consiste em não a captar (já que não tem lugar o erro acerca do quê-é, a não ser acidentalmente) e o mesmo sobre as substâncias carentes de composição: não é possível, certamente, o erro acerca delas; e todas elas são em acto, não em potência, já que, se não fosse assim, gerar-se-iam e destruir-se-iam, mas o que é mesmo não se gera nem se destrói, pois teria que gerar-se a partir de outra coisa. Assim, pois, a respeito das coisas que são uma essência, e que são actos, não é possível errar, mas captá-las ou não» (Aristóteles, Metafísica, Livro IX, 1051 b, 20-30; o negrito é de minha autoria).

 

Que significa que o erro sobre a essência só pode ocorrer acidentalmente ? Vou dar um exemplo de como interpreto esta frase. Suponho que todos apreendem as essências de sete, dezanove e trinta e três. Mas, embora a generalidade das pessoas saiba que multiplicar o número-essência 7 pelo número-essência 19 dá como resultado o número-essência 153,  pode ocorrer que uma, por acidente, cometa o equívoco de considerar o número-essência 163 como resultado da multiplicação.

 

.As essências estão em acto em si mesmas e em potência para os objectos físicos que virão a surgir no tempo - esta é a leitura dialética da posição de Aristóteles. Ao dizer que «o que é mesmo não se gera nem se destrói» Aristóteles revela-se um platónico: a essência é eterna e imutável e tem de subsistir, em acto, fora dos objectos físicos, para além de existir nestes. No entanto, o Estagirita não crê no mundo inteligível de Platão acima do céu visível, com os arquétipos. Fez este mesmo mundo descer à imanência, imergir na matéria prima universal ou hylé.

 

 

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Sábado, 30 de Abril de 2011
Sobre a concepção de verdade em Bertrand Russel

 

Em «Os problemas da filosofia», Bertrand Russel escreveu:

 

«1. A teoria da verdade deve ser tal que admita o seu contrário, a falsidade. Alguns filósofos, e não poucos, deixaram de satisfazer adequadamente a esta primeira condição: construiram teorias segundo as quais todo o nosso pensar deveria ser verídico, o que os pôs nas maiores dificuldades para arranjar um lugar para a falsidade. A este respeito, deve diferir a teoria da crença da teoria da intimidade, já que no caso da intimidade não é necessário tomar em conta a existência de um contrário. » 

 

«2. Evidente parece que se não houvesse crença, nada poderia haver que fosse falso, nem tão-pouco haver verdade, no sentido em que a verdade é correlativa da falsidade. Se imaginarmos um mundo só de matéria, não haverá nele lugar para o falso; e, embora se contivessem nesse mundo aquilo a que podemos chamar "factos", não haveria nele verdade alguma, no sentido da palavra "verdade" em que esta última designa coisas da mesma espécie que as falsidades. O verdadeiro e o falso são, de facto, propriedades das crenças e das asserções; e, por isso, um mundo de pura matéria, não contendo crenças nem asserções, não teria verdades nem falsidades

 

«3. Cumpre, porém, observar em contraposição ao que acabamos de dizer aí que o verdadeiro e o falso de qualquer crença depende de algo exterior à crença

 (Bertrand Russell, Os problemas da filosofia, pag 186-187,Arménio Amado, Editor Sucessor, Coimbra, 1974; o negrito é colocado )

 

Há alguma confusão em Bertrand Russell sobre este tema. O verdadeiro e o falso não são apenas propriedade das crenças e das asserções. A verdade não se restringe ao juízo, à asserção, à afirmação ou negação de algo. A verdade está já contida, de forma originária ou embrionária, nas intuições intelectuais ou conceitos que compõem o juízo. O clarear da verdade será o juízo - definição de um conceito, asserção ligando dois ou mais conceitos- ou o raciocínio - articulação lógica e inferencial de dois ou mais juízos.

 

Mas há um anoitecer ou uma noite da verdade, anterior ao juízo,  que é as essências das coisas ou as próprias coisas,que são verdades em si mesmas, intuíveis. Exemplo: o número dois é um conceito - ou um arquétipo para os platónicos - automaticamente verdadeiro, sem dar lugar a falsidade. Se digo «Hoje há nuvens no céu» já há «grãos» de verdade nos conceitos de nuvem, céu e hoje, - e esses «grãos» não admitem nenhuma falsidade em si mesmos - mesmo que a afirmação seja falsa, no contexto histórico. Neste caso, a falsidade está na oposição entre a essência-frase e a existência-referente/ situação real.

 

Se identificarmos o termo verdade com realidade e o termo falsidade com irrealidade, é óbvio que não há terceira via, isto é, não há coisas que não são verdadeiras nem falsas.

 

A suspensão do juízo de existência é uma suspensão do conhecimento da verdade, mas não é, no plano eidológico, estar fora da dicotomia verdade-falsidade. No plano das essências, formas estáveis ou imóveis desligadas da existência, por posição ou por abstracção, não há falsidade: a matéria é tão real como a anti-matéria; o comunismo igualitário e portador de liberdades individuais é idealmente, eidéticamente, real, ainda que seja falso no plano existencial, isto é, impossível de colocar em prática. Dito de outro modo: há ideias que são verdades no plano ideal e mentiras, irrealidades, no plano existencial, físico-social.

 

A  verdade sofre  níveis  distintos de oposição:

 

A) No plano da essência ideal, como verdade-essência ou eidética, é sempre verdade, apesar de possuir contrários que não a anulam mas que com ela coexistem (exemplo: o belo ideal é real nesse plano, não é anulado pelo feio ideal, e vice-versa). É o reino do imutável, perene. 

 

B) No plano da existência ou essência materializada, como verdade ontológica, existencial, é em curtos períodos, ou mesmo a cada instante negada, alterada, ou falsificada pelo seu contrário eidético-ontológico ( exemplo: o político incorruptível cede a pressões de um lobby, isto é, deixa de ser incorruptível; a saúde dá lugar à doença, etc).

 

AS SENSAÇÕES ESTÃO FORA DO BINÓMIO VERDADE-FALSIDADE, COMO SUSTENTOU RUSSELL?
A noção de verdade não é unívoca, ainda que numerosos pensadores a tenham como tal.
Russell escreveu:

«Os dados-dos-sentidos reais não são verdadeiros nem falsos. Uma mancha de cor que eu vejo tão somente existe; não pertence à espécie daquelas coisas que são verdadeiras ou que são falsas. É verdade que essa mancha existe; verdade que tem uma certa forma, certo grau de luminosidade; verdade, ainda, que está cercada de certas outras cores. A própria mancha, porèm, como todas as outras coisas que pertencem ao mundo dos sentidos, é de natureza radicalmente diversa do que é verdadeiro e do que é falso, e por isso é a rigor impróprio o dizermos dela que é verdadeira. Assim, quaisquer verdades evidentes de si que possamos obter pelos sentidos devem ser diferentes dos dados sensíveis através dos quais as alcançamos.» (Bertrand Russel, Os problemas da filosofia, página 178; o destaque a negrito é da minha autoria).

Há aqui um erro: a mancha de cor, e os dados dos sentidos (sense data) em geral, são verdadeiros na tela da psique, isto é, na sua existência. Podem ser falsos na relação com outras essências, imersas na existência exterior, não psíquica, isto é, por exemplo: pode a côr vermelha da rosa ser apenas uma impressão psíquica e não haver vermelho “lá fora” no objecto físico rosa, desprovido de cores.

Se dissermos que a mancha de cor não é verdadeira, negamos a intuição sensorial, fonte primordial da verdade.Portanto, os dados dos sentidos são verdadeiros em si mesmos, podendo ser falsos na sua relação com o todo que os transcende. Ou seja: a verdade depende do contexto (mente, mundo dos objectos físicos, etc) em que se insere. A verdade não implica necessariamente a correspondência da percepção sensorial ou do pensamento com o mundo físico exterior: pode ser interna à própria crença, identificar-se com esta, especialmente ao tratar-se de crença empírica ou sensorial. Verdade e crença coincidem praticamente ao nível sensorial.

Há, portanto, três fontes de verdade:
1) Os orgãos dos sentidos.
2) A razão (incluindo a linguagem, o discurso).
3) O mundo exterior –independente, na concepção realista, do sujeito percipiente.A verdade como aletheia – desocultação - é simultaneamente dada pela coerência (empírico-racional) e pela correspondência entre a percepção e o pensamento, por um lado, e o (suposto) mundo exterior por outro.

Russell escreveu:

«Assim, embora a verdade e a falsidade sejam propriedades das nossas crenças, são não obstante propriedades extrínsecas, em um certo sentido; porque a condição de verdade da crença é algo que não envolve quaisquer crenças, ou (em geral) qualquer espírito, mas tão somente os objectos da crença. Um espírito que crê, crê veridicamente quando há um todo complexo correspondente, todo que não envolve o dito espírito mas unicamente os seus objectos. Esta correspondência garante a verdade; a sua ausência, pelo contrário, redunda em falsidade.Deste modo explicamos simultaneamente que as crenças: (a) dependam dos espíritos para a sua existência; (b) não dependam dos espíritos para a sua verdade.» (…)
«Assim uma crença é verdadeira quando há um facto correspondente à crença; e falsa, pelo contrário, quando não há facto correspondente.»«Comprovam-se por aí que os espíritos não criam a verdade ou a falsidade. Eles criam as crenças; porém, criadas as crenças, não está na alçada do espírito o fazê-las falsas ou verdadeiras, excepto no caso especial em que se referem a coisas porvindouras que estão no poder de realização da pessoa que nelas crê, como seja por exemplo, o fazer uma viagem. O que dá verdade à crença é sempre um facto, facto que não envolve de maneira alguma (excepto em casos especiais) o espírito da pessoa que tem a crença.»(Bertrand Russel, Os problemas da filosofia, página 198-199).
O que é um facto? É um dado consistente dos sentidos, adicionado ou não de uma interpretação teórica, justificado ou não racionalmente. Uma árvore diante de mim é um facto, mas uma ideia de árvore é um conceito, uma idealização do facto sensorial-corporal que é a árvore. O facto científico já não é um facto puro mas um facto-conceito, um facto teorizado. Neste texto, Russell distingue crença de facto mas, na realidade, o facto nem sequer é crença ou é uma crença sensorial ou racional-sensorial de tal forma sólida que parece destituído do carácter falível de qualquer crença.
A verdade é sempre a estrutura e a consistência existencial das coisas ou das ideias e teorias. Verdade significa existência: no plano puramente subjectivo ou no plano objectivo e físico. Uma verdade no plano subjectivo pode ser mentira no plano objectivo porque as leis de correspondência interior-psíquico / exterior-físico não funcionam neste ou naquele caso. Há assim a verdade-conceito e a verdade-imagem, subjectivas, a verdade-facto, independentemente de haver humanidade. ou verdade-percepção empírica sólida, objectiva. Assim, a verdade objectiva é dupla, reforçada: supõe, ou não, a existência de uma verdade subjectiva (ideia, teoria) e de uma verdade objectiva (que engloba o objecto físico ou facto exterior e os fios de correspondência com a verdade subjectiva).

Quando dizemos que uma coisa não é verdadeira nem falsa cometemos um paralogismo: não existe nada fora do valor verdadeiro/ falso; uma coisa só «não é» verdadeira nem falsa quando a tratamos de um ponto de vista sectorial, isto é, quando a circunscrevemos ao domínio em que é possível dizer, no imediato, se é verdade ou falsidade. Assim o fez o positivismo lógico ao postular que a metafísica, em particular juízos como “Deus existe e é o criador do universo e da vida” e “a reencarnação é um fenómeno metafísico generalizado e obedece à lei do carma”, não é verdadeira nem falsa mas “sem sentido”. Porém, de facto, a metafísica tem de ser verdadeira ou não verdadeira (falsa): o positivismo lógico não fez mais do que adiar a decisão, pô-la entre paréntesis, ao restringir o campo da verdade-falsidade à experiência possível.

Também Aristóteles ao garantir que a verdade se encontra no juízo e não no conceito, erra parcialmente. Aquilo que está “fora da dialéctica verdade-falsidade” é, para Aristóteles, as essências (eidos) ou formas comuns (exemplo: cavalo, nuvem, homem). Mas estas são, em si mesmas, a nosso ver, verdade –e segundo Aristóteles, são, sem ter como contrário a falsidade. Mera aparência.

 

As essências encontrar-se-iam, supostamente, fora do ringue onde se defrontam a verdade e a falsidade num lugar onde, aparentemente, não podem ser contestadas pela falsidade. De facto podem, porque é possível, por exemplo, imaginar a essência homem com um corpo exterior de homem e, por dentro, vasos sanguíneos e tecidos não de carne e ossos mas de palha e metal, e imaginar a essência nuvem como nuvem na aparência exterior e sala de um restaurante no interior. Portanto, até o conceito é lugar de verdade.

Verdade é realidade existencial subjectiva (irrealidade) ou objectiva. Devem ser, pois, distinguidas as duas faces da moeda da verdade: a interna e a externa, tendo esta , em princípio, um poder de sobreposição em relação à outra.

Se Russell diz que a côr verde não é verdadeira nem falsa por ser um dado dos sentidos, erra: para garantir a verdade não é necessária justificação racional, basta o testemunho indelével dos sentidos. É óbvio que, no caso das ciências, que se adentram na «gruta» metafísica do universo, das espécies biológicas, da composição invisível da matéria, etc, o testemunho dos sentidos é insuficiente para determinar a verdade e a construção racional-imaginária é indispensável. Temos, pois, a verdade a brotar de duas fontes: os sentidos e a razão-imaginação, conexionados como as duas pontas de um compasso por um ponto referencial que designamos de mundo exterior.

É possível extrinsecar a verdade da crença: nem toda a verdade, do ponto de vista humano, transubjectivo, é crença ( união do objectivo exterior ou do objectivo interior/ideal com o subjectivo) – por exemplo, não é crença a verdade do que foi o planeta Terra há 5 milhões de anos, verdade em si mesma, sem observador humano - mas numerosas crenças não são verdades objectivas.

A verdade objectiva, absolutamente independente da humanidade e dos sujeitos percipientes individuais, isto é, a verdade como não crença, é, pois, possível. Quando se descreve a Terra, ou os números como arquétipos em si, antes do aparecimento do homem está-se, talvez, a pressupor, inconscientemente, uma mente pré-humana, cósmica, no acto de apreender a paisagem da Terra com dinossauros ou glaciares muito extensos e sem seres humanos. Mas é legítimo sustentar que a verdade não pressupõe sempre a relação do pólo objectivo, exterior, físico e vital, com subjectividades ou com uma transubjectividade oculta.

 

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Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011
Heidegger: a consciência natural como diferença ôntico-ontológica

 

Heidegger escreveu:

 

«Ontológico significa levar a cabo a reunião do ente com a sua entidade. Ontológica é aquela essência que, segundo a sua natureza, se encontra em esta história desde o momento em que a suporta segundo o desocultamento do ente de cada momento. De acordo com isto, podemos dizer que a consciência é consciência ôntica na sua representação imediata do ente. Para ela, o ente é o objecto. Mas a representação do objecto representa, de maneira impensada,o objecto enquanto objecto. Já reuniu o objecto na sua objectividade e por isso é consciência ontológica. Mas como não pensa a objectividade como tal e sem embargo, já a representa, a consciência natural é ontológica, e sem embargo, ainda não o é. Dizemos que a consciência ôntica é pré-ontológica. Enquanto tal, a consciência natural ôntico-préontológica é, em estado latente, a diferença entre o onticamente verdadeiro e a verdade ontológica.» (Martin Heidegger, Caminos de Bosque, pag. 134, Alianza Editorial; o negrito é colocado por mim).

 

Este texto de Heidegger merece algumas reservas na sua claridade. Por que razão «a consciência natural é ontológica, e sem embargo, ainda não o é»? Heidegger sabe-o, sem dúvida, mas poderia precisar que a consciência natural é ontológica na sua constituição, mas ôntica no seu conteúdo, na sua função representativa. O ontológico é o verdadeiro profundo por desocultar, o objectivo, o fenómeno (no sentido heideggeriano) oculto sobre as aparências, o alicerce da casa.

 

O ôntico é o verdadeiro aparente. Exemplo: «Onticamente, a febre é um mal porque causa mal-estar térmico, suores, etc, e onticamente é verdadeiro que os medicamentos antipiréticos baixam e fazem desaparecer a febre; ontologicamente, a um nível mais profundo, a febre é bem, porque é um mecanismo de expulsão de toxinas, sais de ácido úrico, colesterol, através de suores, sebo, urinas carregadas, etc, e, portanto, um esforço libertador da doença, e os medicamentos antipiréticos são maus porque bloqueiam a febre, acção vital de defesa do organismo.»

 

Na acepção de Heidegger, entidade significa o ser: a entidade do ente é o ser. Mas haveria que distinguir o ser na sua dupla vertente de qualidade de existir e de estrutura ou essência geral unificada de todos os entes. São coisas distintas, ainda que indissociáveis.

 

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Terça-feira, 3 de Agosto de 2010
A verdade e o belo para Heidegger e para Hegel

 

Heidegger, em coerência com a sua fenomenologia - doutrina da correlação e da simultaneidade sujeito-objecto - sustentou que a verdade (em grego: aletheia, isto é, desocultação) não é o dado primordial, o ser, mas o acto que institui a descoberta do ser dos entes e do ser em geral.

Assim escreveu:

 

« A verdade só acontece de modo que ela se institui por si própria no combate e no espaço de jogo que se abrem. Porque a verdade é a reciprocidade adversa entre clareira e ocultação, faz por isso mesmo parte dela o que aqui se chama instituição (Einrichtung). Mas a verdade não existe de antemão, algures, nas estrelas, para ulteriormente se alojar em qualquer ente. Isto é já impossível porque, de facto, só a abertura do ente produz a possibilidade de um algures e de um lugar preenchido por algo de presente. Clareira de abertura e instituição no aberto co-pertencem-se. São uma e a mesma essência do acontecimento da verdade. Este é, de diversas maneiras, histórico.»

«Um modo essencial como a verdade se institui no ente que ela mesma abriu é o pôr-em-obra-da-verdade. Um outro modo como a verdade está presente é o acto de fundação de um Estado. Um outro modo como a verdade vem à luz é a proximidade do que, pura e simplesmente, não é um ente, mas antes o mais ente entre os entes. Ainda um modo como a verdade se funda é o sacrifício essencial. Ainda um outro modo como a verdade passa a ser é através do perguntar do pensar que, enquanto pensar do ser, designa este no seu ser-digno-de-pergunta. Pelo contrário: a ciência não é um acontecimento original da verdade, mas sim a exploração, de cada vez, de um domínio da verdade já aberto e, mais propriamente, mediante a apreensão e fundamentação do que de correcto, possível e necessário, se mostra no seu domínio. Sempre que, e na medida em que, uma ciência ultrapassa o correcto em direcção a uma verdade, a saber, um desvelamento (Enthüllung) essencial do ente como tal, ela é filosofia.» (Martin Heidegger, A origem da obra de arte, Edições 70, pag 49-50; a letra negrita é de minha autoria).

 

A verdade, em Heidegger, ou seja o acto de desocultação,  a abertura entre o Dasein ( ser aí, isto é, cada homem) e os objectos que preencherão o mundo ou porta aberta entre o homem e as coisas, desempenha pois a função da razão, portadora do real, na doutrina de Hegel. Mas, nesta, o verdadeiro é o em si, o pensamento divino, independentemente de haver ou não humanidade, sujeitos pensantes. O verdadeiro para Hegel é o racional, o ser absoluto, Deus e as suas derivações - natureza biofísica, humanidade. O verdadeiro está no começo, no meio e no fim. Para Heidegger o começo não é a verdade mas o ser: a verdade, embora originária, é ontologicamente posterior ao ser, pois ocorre ao abrir-se a flor que é o ente humano para o jardim que é o mundo.

 

O BELO NAS CONCEPÇÕES DE HEIDEGGER E HEGEL

 

Heidegger situa a beleza como um momento final do processo de instituição da verdade, isto é, de desocultação do ser, dando a impressão de perfilhar o objectivismo estético:

 

«A verdade é a desocultação (die Unverborgenheit) do ente como ente. A verdade é a verdade do Ser. A beleza não ocorre ao lado desta verdade. Se a verdade se põe em obra na obra, aparece. É este aparecer, enquanto ser da verdade na obra e como obra, que constitui a beleza. O belo pertence assim ao auto-acontecimento da verdade (das Sichereignen der Wahrheit). O belo não é somente relativo ao agrado (das Gefallen) e apenas como o seu respectivo objecto. Todavia, o belo reside na forma, mas apenas porque outrora a forma clareou a partir do ser, enquanto a entidade do ente. O ser aconteceu então como eidos. A idea insere-se na morfé. O sínolon, o todo unido da morfé e da hilé, a saber, o ergon é no modo de energéia. Este modo de presença torna-se a actualitas do ens actu. A actualitas torna-se realidade. A realidade converte-se em objectividade, e objectividade torna-se vivência (Erlebnis).» (Heidegger, A essência da obra de arte, pags 66-67).

 

Que significa dizer que a ideia se insere na morfé (forma), se a ideia é, ela mesma, uma forma? Significa que há vários níveis da forma que exprime uma dada qualidade ideal- esta tese é muito platónica, está expressa em «O banquete» e Heidegger retoma-a. Assim, o Belo como ideia, quase informal, desce à matéria através de uma forma (morfé) concreta. Questionável é o pensamento «A actualitas torna-se realidade. A realidade converte-se em objectividade»... Então a actualitas não é a realidade presente, em acto?  Pode conceber-se um acto - no sentido aristotélico do termo - que não seja realidade? Só se adoptarmos a concepção hegeliana de que só o real é racional podemos aceitar que tenham existência presente (actualitas) coisas irreais porque colocadas fora do espírito do tempo...Mas seria isso que Heidegger visava? Não é certo.

Ao dizer que "o belo reside na forma" Heidegger parece distanciar-se de Hegel cuja posição eu resumiria assim: o belo reside no ideal, mesmo sem forma, isto é, no arquétipo e na felicidade serena (eudaimonia em grego) que se extrai das e se plasma nas formas sensíveis da arte e da natureza. Hegel escreveu:

 

«É graças a isso ( nota minha: ao poder de a arte fazer a ponte entre o ideal e o mundo sensível) que o ideal permanece livre, encerrado em si e, assente sobre si mesmo no próprio seio do sensível, só de si extrai toda felicidade e alegria. Os ecos desta felicidade ressoam através de todas as manifestações do ideal pois, por múltiplas que sejam as formas em que ele aparece e por mais longe que se alarguem aquelas manifestações, sempre se reencontra a jamais perdida alma do ideal. Daí lhe vem a sua verdadeira beleza: pois que o belo só existe como unidade total e subjectiva, sujeito do ideal, subtraído ao estado de dispersão em que vivem as individualidades da vida real com seus fins e aspirações heterogéneas, concentra-se em si mesmo e ergue-se a uma totalidade e autonomia superiores. Pode, por conseguinte, dizer-se que o que, antes de tudo, caracteriza o ideal é a tranquilidade e a felicidade serena, é a satisfação e a fruição de que goza sem sair de si. Toda a representação artística do ideal nos surge como uma divindade gloriosa.» (Hegel, Estética, o Belo Artístico ou o Ideal, Guimarães Editores, 1964, págs 14-15; a letra negrita é posta por mim).

 

Parece-me certa a seguinte diferença entre as posições de Heidegger e Hegel: para Heidegger, o belo reside na forma, que o ser (essência universal, humana e transumana) moldou ou clareou, e suscita o agrado, que é exterior à essência do belo; para Hegel, o belo reside no ideal, seja este o sentimento ou a forma arquetípica, e na felicidade serena, no agrado experimentado pelo ser humano subjectivo. Há pois uma maior dimensão subjectiva do belo em Hegel do que em Heidegger. Escusado será dizer que considero a «Estética» de Hegel uma obra de qualidade superior a «A essência da obra de arte» de Heidegger.

 

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Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
A impossibilidade normativa de mentir compagina-se com o imperativo categórico em Kant?

A propósito da verdade como obrigatoriedade ética no dizer de cada um, escreveu Kant:

 

  

 

«Quem pois, mente, por mais bondosa que possa ser a sua disposição, deve responder pelas suas consequências, mesmo perante um tribunal civil, e por ela se penitenciar, por mais imprevistas que possam ser também essas consequências; porque a veracidade é um dever que tem de considerar-se como a base de todos os deveres a fundar num contrato e cuja lei, quando se lhe permite também a mínima excepção, se torna vacilante e inútil.»

 

«Ser verídico (honesto) em todas as declarações é, portanto, um mandamento sagrado da razão que ordena incondicionalmente e não admite limitação por quaisquer conveniências.» (Kant, Sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade, in A paz perpétua e outros opúsculos, pags 175-176, Edições 70, Lisboa; o bold é nosso).

 

  

 

Será a ética de Kant limpidamente uma ética formal? Não será a obrigação de dizer a verdade incondicionalmente um preceito de ética material?

 

 O imperativo categórico formulado por Kant «Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal», formulado na Crítica da Razão Prática, sofre uma distorsão, é invadido pelo lastro de granito da verdade - o ater-se aos factos e comunicá-lo - e é direccionado materialmente, perdendo o seu carácter formal.

 

 

 

Dizer sempre a verdade pode ir contra a lei moral estabelecida por cada um. Imaginemos um comandante militar que tem por imperativo categórico defender a pátria e a região que lhe está confiada: se acaba de ser informado que o inimigo tomou um quartel fundamental à defesa e está perigosamente próximo, pode não comunicar essa verdade ao destacamento de guerrilheiros sob o seu comando pois sabe que a desmoralização gerada por essa verdade levaria, provavelmente, à deserção de parte  dos seus homens e à derrota.

 

 

 

Kant, o «monstruoso» Kant, contradiz-se ao misturar princípios gerais de ética material, como o dizer a verdade, com o seu primeiro princípio da ética formal, o da liberdade «não egoísta» ou liberdade submissa à universalidade uniforme.

 

  

 

Nota: Está em risco de não se realizar, na Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja, por só haver 13 professores inscritos quando o mínimo exigido é de 20 inscritos, a acção de formação de professores de filosofia B4/2009- A Teoria Dos Valores, e a Ética, na Perspectiva do Método Dialéctico (50 horas) em que o formador é o autor deste blog. O horário das sessões é o seguinte: 10 de Outubro de 2009, 17, 24 e 31 de Outubro, (das 9.30 às 12.30 e das 14.30 às 17.30 horas em cada um destes dias); 5, 7, 14, 21 e 28 de Novembro de 2009 (das 9.30 às 12.30 e das 14.30 às 17.30 horas em cada um destes dias, excepto a 5 de Novembro; neste será das 17.30 às 19.30).

 

Se até 9 de Outubro, 7 professores de qualquer área de Portugal se inscreverem, a acção terá lugar. Se as 7 novas inscrições não surgirem, não haverá acção de Ética e Dialéctica neste país em que tão raras são as acções de formação de docentes de Filosofia...

 

 Inscrições no Centro de Formação de Associação de Escolas das Margens do Guadiana, entidade formadora: cfmguadiana@gmail.com

 

  

 

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Domingo, 30 de Setembro de 2007
Que é um argumento válido?

Vários manuais de lógica e de filosofia definem argumento válido de forma incompleta ou mesmo tautológica.

 

João Sàágua define assim argumento válido:

 

«Def 3. Argumento válido. Um argumento é válido se o conjunto das suas premissas tem como consequência a conclusão.»

«Tendo em consideração as explicações dadas acima sobre a verdade das frases e consequência, temos que um argumento pode ser válido com premissas e conclusão verdadeiras, com premissas falsas e conclusão verdadeira, e com premissas e conclusão falsas.»

(João Sàágua, Lógica para as Humanidades, Universidade Nova de Lisboa, Edições Colibri, 2001, pag 3).

 

Sem embargo de Sàágua ser um especialista em lógica proposicional parece-me bastante vaga esta definição de «argumento válido». Que significa «ter como consequência»?  Há a consequência acidental, que chega por conexão fortuita, e a consequência apodítica, por conexão essencial...

 

João Sàágua dá a seguinte definição:

 

«Def 2  Consequência (1ª versão) Um conjunto de frases tem como consequência uma frase se e só se, não é possível que as frases desse conjunto sejam todas simultaneamente verdadeiras e que a frase em questão seja falsa.» (J. Sàágua, ibid, pag 2).

 

Dou um exemplo com o seguinte argumento, no sentido de demonstrar que há consequências que não são dedutivamente válidas nem inválidas e, portanto, a consequência em geral não é condição imprescindível da validade de um argumento:

 

«Fui ao Algarve. Passei na A22.

«Cheguei a Armação de Pera.

«Logo, fui à praia, vi o mar azul».

 

Ir à praia é uma consequência necessária de ir a Armação de Pera? Ou uma consequência fortuita? É uma consequência fortuita. Posso ir a Armação de Pera e ficar à entrada da vila, junto à EN125, sem sequer ver a praia e o mar.

 

Este argumento é dedutivamente válido? Não me parece, ainda que a sua estrutura, feita de conjunções de proposições, não acarrete necessariamente invalidez. Sem dúvida, é um argumento indutivamente válido. Dedutivamente, é neutro, de validade indecisa - não é válido em acto.

 

A minha definição de argumento válido é: aquele em que a conclusão está contida de forma actual nas premissas consideradas de forma abstracta (argumento dedutivamente válido) ou em que a conclusão está contida potencialmente nas premissas consideradas de forma concreta, substancial ou empírico-ideal (argumento indutivamente válido).

Exemplo de argumento dedutivamente válido (mas material ou indutivamente inválido):

 

«As batatas são girassóis.»

«Os elefantes são batatas»

«Os elefantes são girassóis».

 

O esqueleto (validade formal) do argumento está correcto. É dedutivamente válido.

Exemplo de argumento indutivamente válido (mas dedutivamente inválido):

 

«Até hoje, biliões de seres humanos morreram sem completar 200 anos de idade.»

«No futuro, nenhum ser humano conseguirá completar 200 anos de vida».

 

O carácter dedutivo de um argumento implica sempre uma apoditicidade ou necessidade, real ou aparentemente real, lógica ou suposta por indução. Desidério Murcho, por exemplo, equivoca-se ao defender o seguinte:

 

«Também há argumentos dedutivos cuja validade não depende inteiramente da sua forma lógica. Os seguintes argumentos, por exemplo, são dedutivamente válidos:

 

A neve é branca.

A neve tem cor.

 

Kant era solteiro.

Logo, não era casado.

Contudo a validade destes argumentos não pode ser estabelecida recorrendo unicamente à forma lógica...» (Desidério Murcho, Pensar outra vez, filosofia, valor, verdade, Edições Quasi, V.N.Famalicão, 2006, pag 115-116).

 

É óbvio que o primeiro exemplo é válido recorrendo apenas à sua forma lógica, ao contrário do que sustenta Desidério Murcho. De facto, trazendo à luz a premissa maior, oculta, temos o seguinte silogismo:

 

O branco/a é uma côr.

A neve é branca.

A neve tem cor.

 

A validade deste argumento demonstra-se só pela sua estrutura formal:

 

A pertence a B.

C pertence a A.

Logo C pertence a B.             (A=branco; B=côr; C=neve)

 

O conceito de válido não pode dissociar-se completamente do conceito de verdadeiro: válido, no plano dedutivo, significa abstractamente ou formalmente verdadeiro ainda que, em muitos casos, se ligue a conteúdos empírico-ideais materialmente ou idealmente falsos.

 

 

O erro do texto de João Sáàgua, transcrito no início deste artigo, radica em não distinguir dois tipos de validade: formal-dedutiva e material-indutiva.  

 

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Nota: Na 5ª feira, 4 de Outubro de 2007, das 18.15 às 19.15 horas, haverá leitura e comentário (debate) de excertos de textos de Ludwig Wittgenstein, no anfiteatro da Escola Secundária Diogo de Gouveia, em Beja, organizado pelo grupo de professores de filosofia dessa escola. A entrada é livre.

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Sábado, 4 de Fevereiro de 2006
Verdade e validade em lógica, argumento e proposição (Crítica de Manuais Escolares-I)

Diversos autores em filosofia, em especial na lógica, dissociaram os conceitos de validade e verdade, de maneira antidialéctica. Ora a dialética repousa num primeiro pilar holístico, a lei do uno: no universo e no pensamento, tudo se relaciona e interpenetra, nada está isolado.

 

Vejamos um exemplo desta dissociação artificial num manual de Filosofia:

 

«Em lógica e filosofia chama-se válido a um argumento que tem certas propriedades , independentemente de as suas premissas serem verdadeiras ou falsas. O termo «validade» não se aplica a proposições.E os argumentos não podem ser verdadeiros nem falsos.»

«Os argumentos podem ser válidos ou inválidos, mas não podem ser verdadeiros nem falsos.»

« As proposições podem ser verdadeiras ou falsas, mas não podem ser válidas nem inválidas». (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, manual de Filosofia do 11º ano, Didáctica Editora, pag 18; o negrito é posto por nós).

 

Esta oposição entre verdade e validade estabelecida neste excerto de um manual de Filosofia para o ensino secundário em Portugal é, a nosso ver, errónea. É fruto da hiper-análise, isto é, a visão separada das coisas, sem a intuição da sua identidade essencial.

De facto dizer «É verdade que 2+5 =7» é o mesmo que dizer «É válido que 2+5=7». E dizer «é verdade que a Terra gira em torno do sol» é o mesmo que dizer «é válido que a Terra gira em torno do sol».

O que os autores do citado texto designam por validade pode ser designado como verdade formal, verdade a priori, num plano meramente lógico. Por exemplo a inferência lógica « se a >b e b>c , então a>c» é simultaneamente válida e verdadeira. Logo esta proposição é verdadeira e válida, ao contrário do que sustentam os autores acima dizendo que «as proposições não podem ser válidas nem inválidas».

 

A noção de validade é extraída da noção de verdade e nunca se liberta da determinação desta. Metaforicamente, talvez se pudesse dizer, numa certa perspectiva, que a verdade, em sentido ideal-material, é a carne com os ossos, e a validade, em sentido de verdade formal, lógica, é os ossos que subjazem à carne.

 

O que faltou definir no citado texto são as várias acepções do termo verdade: verdade material (obtida pela intuição empírica directa conjugada com o raciocínio); verdade ideal (obtida pelo raciocínio trabalhando sobre os conceitos empíricos armazenados na memória ou na imaginação, sem verificação prática; muitos autores também a designam como verdade material porque tem conteúdo concreto); verdade formal ou lógica pura ( que o manual citado designa por validade).

 

No mesmo manual de Filosofia, incorre-se no erro de dissociar argumento e proposição como se fossem conceitos absolutamente extrínsecos entre si:

 

«Como vimos, as premissas e a conclusão dos argumentos são proposições. Portanto, os argumentos contêm proposições e as proposições podem ser verdadeiras ou falsas. Mas isto é diferente de dizer que o próprio argumento é verdadeiro ou falso. Um argumento não pode ser verdadeiro nem falso.»

«Do facto de um argumento ser um conjunto de proposições não se segue que o próprio argumento é uma proposição. Um conjunto de pessoas não é uma pessoa.»

«Os argumentos não podem ser verdadeiros nem falsos porque não são proposições; e não são proposições porque nada afirmam sobre a realidade. Um argumento limita-se a estabelecer uma relação entre proposições que afirmam coisas sobre a realidade.»

«Não é necessário definir a noção de verdade. A noção normal, que usamos no dia-a-dia, é suficiente.»
(Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, manual de Filosofia do 11º ano, Didáctica Editora, pag 18; o negrito é posto por mim).

 

É evidente que um argumento pode ser verdadeiro ou falso, ao contrário do que no Manual acima transcrito se sustenta. Vejamos o seguinte exemplo: «As vacinas infectam o sangue humano porque são, em si mesmas, constituídas pelo pus de cavalos, macacos, bois e outros animais doentes».

Este argumento anti-vacinação exprime-se numa única proposição, que inclui dois juízos: tem, portanto, valor de verdade ou falsidade. É um argumento verdadeiro ou falso. A isso não se pode fugir. É também evidente que um argumento afirma algo sobre a realidade, ao contrário do que exprime o texto transcrito do citado Manual.

 

Nos casos em que argumento não é uma única proposição, é um conjunto de proposições encadeadas de forma lógica e também nesse caso será verdadeiro ou falso. Vejamos um exemplo de um argumento anti-capitalista: «O capitalismo baseia-se na apropriação pelos capitalistas, da mais-valia que os operários produzem. Essa apropriação, fundada na propriedade privada das fábricas, das terras, lojas e armazéns e bancos, gera desigualdades sociais. Para acabar com estas, é imprescindível suprimir a propriedade privada dos meios de produção e troca, isto é, instaurar a auto-gestão no quadro de um Estado operário».

 

Este argumento, composto por diversas proposições, cada uma delas verdadeira ou falsa, é verdadeiro ou é falso no seu todo. Não é possível suprimir a dicotomia de valores verdadeiro/ falso no todo - o argumento - existindo esse valor em cada uma das partes.

 

Os autores do Manual A Arte de Pensar confundem argumento (encadeamento de juízos e raciocínios visando provar ou refutar uma tese, uma ideia) com conexão lógica do raciocínio, isto é, com mecanismo formal estruturador do argumento. Confundem o bolo (o argumento) com a forma metálica em que foi produzido (o esqueleto formal do pensar) Esse é o risco de alguma filosofia "analítica": ver a árvore e não ver a floresta.

 

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