Sexta-feira, 23 de Outubro de 2015
Equívocos de Aristóteles sobre o Uno (universal) e a Substância (singular)

 

.Para Aristóteles os universais são: o uno (tó hen), o que é (tó ón) e os géneros (por exemplo: animal, ser vivo, planta). A essência (eidos) não é um universal mas algo comum (koinos) a múltiplas coisas. Escreveu, de forma pouco clara e mesmo incoerente:

 

«E posto que “uno se diz do mesmo modo que “algo que é” e a substância do que é uno é una e as coisas cuja substância é numericamente una são algo numericamente uno, é evidente que não podem ser substância das coisas nem “uno nem algo que é e tão pouco pode sê-lo aquilo em que consiste ser elemento ou ser-princípio- (…) Com efeito a substância (ousía)não se dá em nenhuma outra coisa que em si mesma, e naquilo que a tem e de que é substância. Ademais o que é uno não pode estar ao mesmo tempo em muitos sítios, ao passo que o comum se dá simultaneamente em muitos sítios.»

 

«.Assim, pois, resulta evidente que nenhum universal existe separado fora das coisas singulares. Sem embargo, os que afirmam que as Formas existem deste modo, em certo sentido têm razão ao separá-las, se é que são substâncias, mas em certo sentido não têm razão, já que denominam «Forma» ao uno que abarca uma multiplicidade.(...) .Assim, pois, é claro que nenhuma das coisas que se dizem universalmente é substância e que nenhuma substância se compõe de substâncias»(Aristóteles, Metafísica, Livro VII, capítulo XVI, 1040b, 15-30; 1041b, 3).

 

Aristóteles enferma de incoerência: por um lado, afirma que os universais (uno, algo que é) não existem na substância ou coisa singular (exemplo: esta casa, este cão, esta planície); por outro lado afirma que nenhum universal existe separado fora das coisas singulares, ou seja, o “uno” e “o que é” não existem fora de cada casa, de cada cão, de cada homem, etc.

 

Dizer que o uno não pode estar simultaneamente em muitos sítios ao passo que a essência, a forma comum a um dado grupo de objectos (por exemplo: a essência árvore) está em muitos sítios ao mesmo tempo é interpretar uno como mundo de arquétipos – estes são irrepetíveis, únicos, àparte.

 

Mas a ideia dialética de uno como unidade universal de todas as coisas, físicas ou não físicas, está ausente em Aristóteles, que confunde uno com princípio-arquétipo.

 

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Sexta-feira, 16 de Outubro de 2015
Incoerência de Aristóteles sobre o Uno e sobre Algo que é

 

 No Livro X de Metafísica, capítulo segundo, Aristóteles sustentou que o uno não é substância mas sim um predicado:

 

«Devemos investigar,,, o que é a unidade e como há-de entender-se: se o uno em si é uma certa substância, como disseram primeiro os Pitagóricos e Platão depois,  ou se mais precisamente há alguma natureza que lhe serve de serve de sujeito e como convém explicá-lo para maior clareza, e mais precisamente segundo o parecer dos filósofos da natureza. Alguns destes com efeito, afirmam que o Uno é a Amizade, outro que é o ar, outro que é o Ilimitado. Pois bem, se - como se disse nos tratados  sobre a substância e acerca do que é - nenhum universal pode ser substância, se considerado em si mesmo: não pode ser substância a modo de unidade separada da pluralidade (já que é algo comum) é evidente que tão pouco pode sê-lo o uno: com efeito «algo que é» e «uno» são os predicados mais universais. Por conseguinte, nem os géneros são naturezas e substâncias separadas das demais coisas, nem «uno» pode ser um género, pelas mesmas causas pelas quais tão pouco pode sê-lo «o que é» e a substância.»(Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1053 b 10-20; o destaque a bold é posto por nós).

 

Aristóteles equivoca-se:  «algo que é» constitui um sujeito, abstrato, não determinado,  e não um predicado. Este último seria: «X é algo». Equivoca-se ainda ao dizer que «uno não pode ser género». Há dois sentidos da palavra uno, diferentes na extensão: o uno ou todo universal, de limites inimagináveis ou quase, e o uno ou todo de um género (exemplo: o uno de animal que engloba os leões, as serpentes, os peixes, etc.) o uno ou o todo de uma espécie (exemplo: o uno da espécie homem que engloba Beatriz, Francisco, Kelly, Pedro, etc) e o uno da proté ousía ou substância primeira, singular (exemplo: Lisboa é uma unidade, o mosteiro da Batalha é uma unidade).

 

Mais adiante, Aristóteles contradiz-se de novo ao transformar o uno em sujeito, em substante, como branco:

 

«Mais precisamente,  nas cores o uno é uma cor, por exemplo, o branco, e os demais parecem gerar-se sucessivamente a partir dele e do negro e o negro é a privação do branco como o é também da luz a obscuridade (esta é, com efeito, privação da luz) de modo que se as coisas que são fossem cores, as coisas que são constituíriam um certo número, de quê?, evidentemente de cores, e o uno seria «algo que é uno» por exemplo o branco.» (Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1053 b 25.30; o destaque a bold é de minha autoria).  

 

Ora se o uno é o branco trata-se de uma substância segunda, de uma espécie, que se sobreleva às outras espécies (amarelo, azul, vermelho, etc) dentro do género cor. O branco tanto pode ser predicado como sujeito e aqui é, claramente, sujeito como no juízo: «O branco é a cor mãe de todas as cores». Assim o uno é simultaneamente sujeito e predicado conforme os juízos como sucede no juízo «O homem (um uno humano) é um animal (um uno não estritamente humano, pois engloba gato, cão, cavalo, etc).». Qualquer substância, isto é, qualquer ente concreto sujeito de um juízo - por exemplo: o mosteiro dos Jerónimos, o Alentejo, a indústria vidreira - é, de per si, um uno. E também cada cor - o amarelo, o laranja, etc - é um uno e pode ser sujeito - exemplo: «O tom amarelo da porta é agradável» - ou predicado - exemplo: «O ouro é amarelo».

 

 

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Segunda-feira, 23 de Setembro de 2013
Questionar Hegel: a diversidade é inessencial na coisa?

 

Hegel postulou que o ser, entendido como Ideia absoluta, Deus-Espírito, se desdobra em três fases: em si, fora de si e para si. Mas na «Fenomenologia do Espírito» coloca frequentemente os processos do devir em termos de dualidade, de ser em si e para si e ser para outro. Escreve:

 

«A coisa é um uno, reflectido em si; é para si mas também é para outro, e é tanto um outro para sí como é para outro. A coisa é, segundo isto, para si e também para outro, um ser duplicado e diferenciado, mas é também um uno, ainda que o ser um contradiga esta sua diversidade; a consciência deveria, pois, assumir de novo esta unificação, mantendo-a afastada da coisa. Deveria, portamto, dizer que a coisa, enquanto é para si, não é para outro.» (Hegel,Fenomenología del espíritu, pag 78, Fondo de Cultura Económica, México).

 

O que aqui parece estar pensado é o seguinte: a coisa é um, una, no primeiro momento - exemplo:a árvore isolada é uma unidade - e, em um segundo momento,  estalece relações com os outros - exemplo: a árvore liga-se ao solo, às outras árvores, ao vento, ao céu - e é para estes outros, e, num terceiro momento, a consciência capta a coisa e o mundo dos outros que a envolve - no exemplo: a consciência humana vê e pensa a árvore em si e no seu contexto ambiental. Temos aqui a tese, a antítese e a síntese.

 

A DIVERSIDADE OU MULTIPLICIDADE NÃO FAZ PARTE DA ESSÊNCIA DO OBJECTO?

 

Hegel escreveu sobre a determinabilidade ou forma específica/ singular de uma coisa: , o tó ti e o tó tí en einai de Aristóteles:

 

«Esta determinabilidade, que constitui o carácter essencial da coisa e a distingue de todas as outras determina-se agora de modo que a coisa se acha assim em contraposição a outras mas deve manter-se nisso para si. (...)

 

«De facto, a determinação do objecto tal como se tem manifestado não contém nada mais que isto: o dito objecto deve ter uma propriedade essencial, que constitui o seu simples ser para si , mas deve ter também nele, nesta simplicidade, a diversidade, que apesar de não ser necessária, não constitua a determinabilidade essencial. Mas esta é uma distinção que já só reside nas palavras; o não essencial, que deve ser ao mesmo tempo necessário, supera-se a si mesmo ou é aquilo que acaba de ser chamado à negação de si mesmo»(Hegel, Fenomenología del espíritu, paginas 78- 79, Fondo de Cultura Económica, México; o destaque a negrito é colocado por mim).

 

Hegel ilude, nestas passagens, que a essência da coisa é unidade e diversidade interna. E coloca toda a diversidade na rede de relações externas da coisa, o que é insuficiente. Eis um erro de um grande pensador dialético: apresentar a essência da coisa como o Um, o Uno, - o ser para si -  e a relação com os outros, necessária, isto é imprescindível, como o múltiplo, a diversidade.

 

Mas como não perceber que o Um, a essência, se compõe de múltiplas partes, isto é, de diversidade?  Por exemplo, a essência de uma determinada mulher é Una, é Um, mas é diversa, pois inclui lábios carnudos, olhos grandes, seios altos, anca estreita, etc. Aqui a diversidade não é inessencial, mas essencial, ao contrário do que escreveu Hegel.

 

 

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Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011
Aristóteles interpreta Platão: o Grande e o Pequeno não seriam Formas mas Princípios imanentes à matéria

 

Aristóteles compara do seguinte modo o platonismo ao pitagorismo: 

 

« Platão afirma ademais, que entre as coisas sensíveis e as Formas existem as Realidades Matemáticas, distintas das coisas sensíveis por serem eternas e imóveis, e das Formas porque há muitas semelhantes,enquanto que cada forma é somente uma e ela mesma. E posto que as Formas são causas do resto, pensou que os elementos de aquelas são os elementos de todas as coisas que são , que o Grande e o Pequeno são princípios enquanto matéria e que o Uno o é enquanto substância. Com efeito, a partir de aqueles, por participação no Uno, as Formas são os Números. E quanto a que o Uno é, por seu lado, substância, e não se diz que é uno sendo outra coisa, pronunciou-se de modo muito próximo aos Pitagóricos, e igual a estes a respeito de os Números serem causa da substância das demais coisas.

 

«Sem embargo, é próprio dele ter posto uma Díade em vez de entender o Ilimitado como uno, assim como haver afirmado que o Ilimitado se compõe do Grande e do Pequeno e ademais distingue-se em que ele situa os Números fora das coisas sensíveis, enquanto que aqueles que afirmam que os Números se identificam com as próprias coisas, e, portanto, não situam as realidades matemáticas entre as Formas e o sensível. O situar, de modo diferente dos pitagóricos, o Uno e as Números fora das coisas e a introdução das Formas surgiu como consequência de que a sua investigação se manteve ao nível dos conceitos.» (Aristóteles, Metafísica, Livro I, 987 b, 15-30; o negrito é posto por mim).

 

 

Neste texto, Aristóteles além de distinguir Platão de Pitágoras quanto à natureza respectivamente transcendente (platonismo) ou imanente (pitagorismo) dos Números, afirma que, na doutrina de Platão, o Grande e o Pequeno compõem o Ilimitado, isto é, o espaço vazio material (a Chora) que Platão teorizava como oposto ao mundo inteligível das Formas ou Arquétipos. A matéria seria dual, não una, ao contrário do mundo das Formas, Uno primordialmente e em simultâneo e de forma derivada, múltiplo. Aparentemente, a dimensão ou extensão - isto é, o Grande e o Pequeno - constituem a essência primordial, imanente, da matéria. Terá Descartes ido beber aqui a ideia da extensão como a natureza do mundo material?

 

A frase algo enigmática «a partir de aqueles (Grande e Pequeno) as Formas são Números» parece-me significar o seguinte: os Números, como intermédio, entre o singular único ( exemplo: o Belo, o Triângulo, o Cubo) e as coisas materiais multiplicam as imitações da Forma (teoria da participação) de maneira a que estas configurem as coisas. Esta configuração das coisas faz-se através da Díada do Grande e do Pequeno, dois princípios aparentemente residentes na matéria indiferenciada que espera receber a imagem das Formas através dos Números.

 

Se o Igual, o Maior e o Menor são arquétipos, formas do mundo inteligível, não deveriam igualmente o Grande e o Pequeno figurar nesse mundo? Sim, a menos que Grande e Pequeno designem quantidades definidas, aprisionadas na matéria  - exemplo: homem com estatura de 160 centímetros é pequeno, com estatura de 170 a 175 centímetros  é moderamente grande, com estatura de 200 a 220 centímetros é muito grande - e não tenham o carácter abstracto e perene das Formas.

 

 

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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010
Sobre o "ser", "o que é"/ "ente" e o "uno"

Aristóteles manteve na "Metafísica", a diferença entre  "ser" (einai, em grego) e "o que é/ ente" (tó ón, em grego) e estabeleceu como primeira a analogia do ente com o uno (tó hen):

 

«Pois, ainda que não sejam o mesmo, são distintos, ambos os termos são intercambiáveis: com efeito, o uno (to hén) é, à sua maneira, algo que é, e "o que é" (to ón) é algo uno (tó hén).»  (Aristóteles, Metafísica, Livro XI, 1061 b, 15-20).

 

O que é, é algo que é - um sujeito indefinido: algo - e por conseguinte tem de ser uno, tem de ter um contorno exterior dentro do qual está. Ora o ser (einai) não é, necessariamente, uno: é ser, existir, indeterminado no que toca à forma. Aristóteles conceptualizou bem ao não estabelecer a analogia ser-uno mas sim ente/ o que é- uno. Subtileza...

 

No meu ponto de vista, diferente do pensamento aristotélico e parmenídeo,o ser não é exclusivamente uno nem exclusivamente múltiplo, em si mesmo. Uno e múltiplo são formas do ser cujo conteúdo primordial é o uno infinito sem forma: pura "matéria" ou "argamassa"  espiritual, material ou vital que recebe as formas ou que envolve e preenche as concavidades destas.

 

Heidegger sublinhou a diferença entre o ser e o ente, acusando a filosofia tradicional de ter esquecido o ser a favor do ente e de pensar o tempo como um ente. Mas o próprio Heidegger não é, em regra, suficientemente claro a distinguir duas acepções da palavra "ser" que nos seus textos permanece indistinta: 

 

A) O ser como existir, puro e simples. Matéria sem forma. "O ser é". Não me consta que alguma vez Heidegger tenha definido o "ser" como "matéria sem forma", tal como o faço.

B)  O ser como estrutura de entes, interconexão de essências diversas. Neste caso é uma rede de formas, assentes sobre "matéria"  física, vital ou espiritual.

 

Heidegger não é mais preciso que Aristóteles ao explanar os sentidos do termo "ser": simplesmente, envereda por caminhos platónicos e kantianos que, depois, reformula.  

 

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Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009
Sofismas no diálogo «Parménides ou das Ideias» de Platão-II

O diálogo platónico «Parménides ou das Ideias» é uma das obras mais importantes de Platão como modelo do discurso sofístico em que Platão embarca, até certo ponto, inconscientemente. Desmontemos alguns trechos desse diálogo:

 

 

 

O UNO NÃO SE DIVIDE AO APLICAR-SE A MUITAS COISAS E É SEPARÁVEL DO SER, AO INVÉS DO QUE DIZ PLATÃO

 

 

 

Depois de assegurar a Aristóteles que «o uno está ligado a todas as partes do ser», a personagem Parménides prossegue assim o diálogo:  

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Mas, sendo uno, encontrar-se-á integralmente em muitas coisas? Reflecte bem.

 

 

 

ARISTÓTELES

 

Já reflecti e vejo que é impossível.

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Se não se encontra nelas integralmente, encontra-se dividido, pois não pode estar presente ao mesmo tempo, em todas as partes do ser, senão dividindo-se.

 

 

 

ARISTÓTELES

 

Claro.

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Além disso, o que está dividido forma, necessariamente, tantos seres quantas as partes que contém.

 

 

 

ARISTÓTELES

 

Necessariamente.

 

 

 

PARMÉNIDES

 

«Enganámo-nos, portanto, quando há pouco dissemos que o ser está repartido numa infinidade de partes, pois não pode repartir-se em maior número de partes que o uno, mas sim em tantas partes como ele, porque o ser não pode separar-se do uno, nem o uno do ser, e ambos andam sempre a par.

 

 

 

ARISTÓTELES

 

Claríssimo.

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Portanto, o uno, repartido pelo ser, é também múltiplo e infinito em número.

 

 

 

ARISTÓTELES

 

Evidentemente.

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Portanto, não é apenas o «ser uno» que é múltiplo, mas também o é, necessariamente, o «uno», dividido pelo «ser». (Platão, Parménides ou Das Ideias, Editorial Inquérito; a letra negrita é posta por nós).

 

 

 

 

Em todo este diálogo, Platão joga com uma falácia anfibológica: usa o termo «uno» com dois sentidos diferentes, ora como essência pura, isto é adjectivo, ora como substantivo adjectivado, isto é, «ser uno». Portanto, o ser uno é múltiplo, mas o uno, qualidade pura, nunca é múltiplo, senão deixaria de ser uno.

 

Ao afirmar que «o uno, repartido pelo ser, é também múltiplo e infinito em número» a personagem Parménides sofisma a questão: o «uno repartido pelo ser» não é o uno puro, a qualidade uno em si mesma, mas é, sim, o ser uno - ou seja, um mosaico de partes -  e este “ser uno”, de facto, é múltiplo e poderá ser infinito em número de partes .

 

  

 

Ao dizer que «o ser não pode separar-se do uno, nem o uno do ser, e ambos andam sempre a par» Platão produz realmente um sofisma de que nem o filósofo real Aristóteles – não a personagem deste diálogo – se conseguiu libertar na sua «Metafísica».

 

Então o uno não pode separar-se do ser? Que falsidade!  O não-ser é uno e está relativamente separado do ser por um «contorno». Este uno que envolve o não ser está fora do ser. Uno é uma forma englobante e ser é um conteúdo englobado ou um misto forma-conteúdo. São distintos, em certa medida.

 

 

 

O UNO PODE DAR-SE INTEGRALMENTE AO MESMO TEMPO EM MUITAS COISAS, AO INVÉS DO QUE DIZ “PARMÉNIDES”

 

 

 

Outro ponto relevante do diálogo é o seguinte:

 

 

 

PARMÉNIDES

 

«Mas, sendo uno, encontrar-se-á integralmente ao mesmo tempo em muitas coisas? Reflecte bem.

 

 

 

ARISTÓTELES

 

Já reflecti e vejo que é impossível.

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Se não se encontra nela integralmente, encontra-se dividido, pois não pode estar presente, ao mesmo tempo, em todas as partes do ser, senão dividindo-se.» (Platão, Parménides ou Das Ideias, pag 67-68; a letra negrita é acrescentada por nós).

 

 

 

Isto é pura sofística. Desmontemo-la: há três termos em questão, o uno, o seu contrário, isto é, o múltiplo, e o intermédio, isto é, o ser, onde se dão os dois primeiros em simultâneo. Portanto, o uno não pode dar-se ao mesmo tempo no múltiplo mas pode dar-se ao mesmo tempo que o múltiplo num aglomerado ou multidão de coisas, isto é, no ser. Sendo o uno uma qualidade, não espacial, e não uma substância extensa, pode multiplicar-se e existir em milhões de coisas em simultâneo: é como Deus, goza do dom da ubiquidade sem se dividir nem diminuir de intensidade.

 

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Sábado, 28 de Novembro de 2009
A concepção do «Instante» no diálogo «Parménides ou das Ideias», de Platão

No «Parménides ou das Ideias», diálogo platónico semeado de escolhos e reentrâncias sofísticas que fazem naufragar o barco da razão filosófica, Platão avança a teorização do instante como o lugar ou momento intemporal da mudança das coisas. O instantâneo ou instante (em grego: exaíphnés) é uma mudança que ocorre fora do tempo porque é um presente fugaz e o tempo compõe-se de passado, presente e futuro. Aristóteles escreveria na Física:

 

«"Instantaneamente" (em grego: exaíphnés) significa um sair fora de si em um tempo imperceptível e toda a mudança é por natureza um sair fora de si»

 

«Todas as coisas se geram e destroem no tempo. (…) Mas o tempo não é a causa disto, mas dá-se o caso de que a mudança se produz no tempo.» (Aristóteles, Física, Livro IV, 224 a).

 

 

 

Vejamos um excerto do diálogo construído por Platão, no qual não se afirma que «o instante não está no espaço» mas sim que não pertence nem ao tempo, nem ao repouso nem ao movimento:

 

 

 

«PARMÉNIDES

 

Não estamos numa coisa estranha quando mudamos ?

 

 

 

ARISTÓTELES

 

A que coisa te referes ?

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Refiro-me ao instante, pois realmente o instante representa o ponto em que mudamos, passando de uma maneira de ser a outra. Com efeito: enquanto o repouso continua sendo repouso, não se produz mudança; enquanto o movimento continua sendo movimento, não se produz mutação. Mas essa estranha coisa a que chamamos instante está entre o repouso e o movimento, sem existir no tempo, e nele acaba e começa a mudança, quer do movimento ao repouso, quer do repouso ao movimento.

 

 

 

ARISTÓTELES

 

É possível que assim seja.

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Se assim é, se o uno está em repouso e em movimento, passa de um estado a outro, pois essa é a única maneira de estar em ambos os casos. Se muda, muda no instante; e, quando muda, não é no tempo, nem no movimento, nem no repouso.

 

 

 

ARISTÓTELES

 

Com efeito.

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Dar-se-á o mesmo com as outras mudanças? Quando o uno passa do ser para o não ser, ou do não ser para o ser, diremos que se encontra num estado intermédio entre certas formas de movimento e de repouso, que não é nem ser nem não-ser, que não nasce nem morre?

 

 

 

ARISTÓTELES

 

Provavelmente.

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Pela mesma razão, quando passa da unidade à pluralidade e ao invés, o uno não é uno nem múltiplo; não se divide nem se reúne. Analogamente, quando passa do semelhante ao dissemelhante, e do dissemelhante ao semelhante, não é semelhante nem dissemelhante: não se assemelha nem desassemelha. E também quando passa do pequeno ao grande e ao igual, e inversamente, não é grande nem pequeno, nem igual, nem aumenta, nem diminui, nem se iguala.

 

 

 

ARISTÓTELES

 

Assim parece.»

 

 

 

(Platão, Parménides ou das Ideias, Editorial Inquérito, Págs. 111-112; a letra negrita é posta por nós).

 

 

 

A concepção de Platão sobre o instante, neste trecho, necessita de clarificação: “Parménides” qualifica o instante como um intermédio entre repouso e movimento, ser e não ser, intermédio que não estaria no tempo. Mas então o tempo não é feito de instantes? Neste diálogo, Platão reduz o instante ao salto qualitativo entre dois estados do ser – repouso e movimento - e retira-lhe a qualidade de vértebra da coluna vertebral do tempo. Há, pois, um instante atemporal, uma duração fora do tempo, que corresponde ao salto de qualidade. Será o instante a eternidade? Ou será o pólo exactamente oposto – o infinitamente pequeno em duração– à incomensurável eternidade – a duração infinita?

 

  

 

Ao sustentar que «essa estranha coisa a que chamamos instante está entre o repouso e o movimento, sem existir no tempo, e nele acaba e começa a mudança, quer do movimento ao repouso, quer do repouso ao movimento» Platão reduz a mudança a uma só modalidade: a mudança brusca, o salto de qualidade. E a mudança quantitativa, o fluxo contínuo como as águas de um rio onde só a quantidade mas não a qualidade muda a cada instante? O movimento é uma mudança contínua de posição ou seja, matematicamente, uma mudança  de quantidade de lugar - admitindo que cada lugar em que o corpo se encontra se pode designar por uma quantidade relativamente a um ponto de referência - se não mesmo de qualidade.

 

 

 

A par deste rasgo filosófico original sobre a natureza do instante, como hiato ontológico, a personagem “Parménides” continua a discorrer de forma sofística ao dizer: «Pela mesma razão, quando passa da unidade à pluralidade e ao invés, o uno não é uno nem múltiplo; não se divide nem se reúne. O uno não passa da unidade à multiplicidade».

 

Ora, ao invés do que Platão escreve na primeira parte desta frase acima, o uno é sempre o mesmo, como qualidade . O universo uno, a célula una ou o cubo uno, sim, podem passar da unidade à multiplicidade: o universo pode dividir-se em vários, a célula una pode dividir-se em duas, o cubo uno pode ser cortado em várias fatias. As coisas unas, podem ser invadida pela multiplicidade sem deixar de ser unas no contorno exterior ou podem fragmentar-se, originando várias. O que passa da unidade à multiplicidade não é o uno mas a coisa una onde se dá a qualidade “uno”. Exemplo: o universo exclusivamente feito de água (caos) na cosmogonia de Tales de Mileto é uno e dá lugar a um universo múltiplo composto de astros, plantas, minerais, animais (cosmos) e este universo hierarquizado voltará a ser caos. Os contrários são irredutíveis entre si, como muito bem salientara Platão no “Fédon”: uno e múltiplo nunca se convertem um no outro, as coisas em que ocorrem é que passam do uno ao múltiplo e viceversa.

 

  

 

Marcante é a tese de Platão de que no instante (da mudança qualitativa), a coisa deixa de possuir forma, deixa o campo do ser e do não ser, o campo do repouso e do movimento, violando, na aparência, o princípio do terceiro excluído. É talvez a concepção de que o instante - de ruptura, dizemos - é um momento de caos entre dois estados «cósmicos» da coisa.

 

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Domingo, 12 de Julho de 2009
O Uno é predicado, como sustenta Aristóteles?

Aristóteles criticou Platão e os Pitagóricos por considerarem o Uno como uma substância, isto é, algo que subsiste por si, de modo individualizado. Segundo Aristóteles, o Uno não é substância nem é género (um grupo que engloba várias espécies de substâncias individuais; por exemplo: género animal, género figura geométrica, género cor) mas sim um predicado universal .

 

«Devemos investigar, do ponto de vista da substância (ousía) e da natureza, que tipo de realidade possui o Uno de acordo com o tratamento que fizemos na Discussão das Aporias, o que é a unidade e como há-de entender-se; se o uno, em si, é uma certa substância, como disseram os Pitagóricos primeiro e Platão depois, ou se, mais precisamente, há alguma natureza que lhe serve de sujeito, e como convém explicar isso para maior claridade, e mais precisamente segundo o proceder dos filósofos da natureza. Algum destes, com efeito, afirma que o Uno é Amizade, outro afirma que é o ar, ouro que é o Indeterminado (apeiron). Pois bem, se - como se disse nos tratados acerca da substância e acerca do que é - nenhum universal pode ser substância, se considerado em si mesmo não pode ser substância ao modo de unidade separada da pluralidade (já que é algo comum), é evidente que tampouco pode sê-lo o «uno»: com efeito, «algo que é» e «uno» são os predicados mais universais. Por conseguinte, nem os géneros são naturezas e substâncias separadas das demais coisas, nem «uno» pode ser um género, pelas mesmas causas pelas quais tampouco pode sê-lo «o que é» e a substância. »(Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1053b; o bold é nosso). (…) 

 

Mas contradiz-se Aristóteles ao afirmar o seguinte:

 

«Mais precisamente, nas cores, o uno é uma cor, por exemplo, o branco, e as demais parecem gerar-se sucessivamente a partir dele e do negro, e o negro é privação do branco, como o é também da luz a obscuridade (esta é, com efeito, privação da luz) de modo que se as coisas que são fossem cores, as coisas que são constituiriam um certo número, mas de quê?  Evidentemente, de cores, e o uno seria algo que é uno, por exemplo, o branco.» (...)

«E igualmente, no caso dos sons, as coisas que são constituiríam um certo número de letras e o «uno» seria uma letra vocal»

(Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1053b, 1054a; o bold é nosso).

 

«É pois evidente que em cada género, o uno é uma certa natureza, e que o uno não é substância de nenhuma delas, mas que, assim como no caso das cores há-de buscar-se o uno, como tal, em certa cor que é una, assim também o uno, como tal, no caso da substância, há-de buscar-se em certa substância que é una.» (Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1054a; o bold é nosso).

 

O branco não é uma substância, para Aristóteles, mas um acidente, uma qualidade. Aristóteles achava impossível o branco existir em si mesmo: só existe na camisa branca, na parede branca e noutros objectos brancos, ou na mente do homem por abstracção. No entanto, branco é uma essência - uma qualidade comum a vários entes, neste caso, a vários acidentes ou particularidades acessórias das coisas - e ao conceber branco como fonte das cores, isto é como essência primordial em relação às essências de azul, amarelo, vermelho, verde, roxo e outras cores, Aristóteles está a adoptar uma posição idêntica à de Platão: preenche com um conteúdo substancial a forma vazia do Uno. De facto, o Uno é aqui concebido como essência (branco), ou seja, componente principal da substância ou conteúdo do acidente. É concebido como um sujeito eidético, um suporte de todas as cores, não apenas um predicado.

 

Uno é uma definição formal - por isso, é um universal acima dos géneros, isto é, uma determinação comum a tudo o que existe e se pensa: Deus é uno, a Terra é una, o calor é uno, o verde é uno, a árvore em geral é una, esta amendoeira é una, este «agora» é uno. Ao postular que uno é branco e não amarelo ou azul, Aristóteles rompe esse formalismo e transforma-o em essencialismo primigénio: «o uno é a essência primeira dentro de cada género». Certamente branco é duplamente uno, se aceitarmos que é a união de todas as cores - essencialismo primigénio- , mas nem por isso azul ou amarelo deixam de ser, em si mesmos, algo que é uno. Aristóteles admite que a espécie branco é «uno» mas nega que o género côr seja uno, ao afirmar acima «que nem «uno» pode ser um género, pelas mesmas causas pelas quais tampouco pode sê-lo «o que é» e a substância. » (Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1053b). Isto é, em rigor, uma incoerência: acentua o significado de uno como espécie matriz de outras espécies - sentido intensivo - e e nega-o como género,aglomerado de  espécies - sentido extensivo e holístico.

 

O Uno não é somente predicado, como diz Aristóteles. É a própria substância do ponto de vista formal, é o contorno geral de cada substância e o conteúdo dela enquanto indeterminado. O Uno é, pois, sujeito e predicado.

 

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Domingo, 14 de Dezembro de 2008
Essência versus existência, quê-é versus o que é /uno, na «Metafísica»

 A distinção entre existência, por um lado, e essência (forma específica) e forma individualizada, por outro lado, está bem patente na Metafísica de Aristóteles: «o que é» e «o uno», isto é, o ser (existência), é o mais universal e divide-se em múltiplos géneros, cada uma das quais é um quê-é (essência).

 

«…O uno não é algo diverso do que é.  Ademais a substância (ousía) de cada coisa é una não acidentalmente, do mesmo modo que é também “algo que é”. Por conseguinte, há tantas espécies “do que é” quantas há do “uno”, e estudar o “quê” destas – quero dizer, por exemplo, do “mesmo”, do “semelhante” e outras coisas deste tipo – corresponde a uma ciência que genericamente é a mesma. (Aristóteles, Metafísica, livro IV, 1003b)

 

Aristóteles criticou Parménides por este usar o termo «ser» em um único sentido:

 

«A Parménides, podem-se levantar as mesmas objecções…As suas premissas são falsas porque supõe que “ser” só se diz em sentido absoluto, sendo que tem muitos sentidos. (…) Porque o ser do branco é distinto daquilo que o recebe, ainda que branco não exista separadamente, fora do que é branco; pois o branco e aquilo a que pertence não se distinguem por estar separados mas pelo seu ser. Isto é o que Parménides não viu.» (Aristóteles, Física, Livro I, 186a).

 

Branco e objecto branco – por exemplo, lençol – distinguem-se pelo seu ser, diz Aristóteles. Mas segundo Parménides, o ser de branco e de lençol branco é o mesmo – tanto branco como lençol branco se encontram, enquanto qualidades ou coisas determinadas, enquanto  formas,  fora do ser que lhes subjaz. Se Aristóteles diz que a distinção se faz pelo ser é porque hierarquiza este em vários níveis – por exemplo: o branco é o nível acidental, o lençol é o nível substancial - ou considera que a essência branco e a essência lençol são seres distintos – e neste caso recusa conferir realidade ao «ser em geral» de Parménides, limitando-se ao ser determinado, isto é, ao ser agarrado à essência, indissociável desta e, portanto, múltiplo, porque muitas são as essências.

 

 

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