Terça-feira, 28 de Outubro de 2014
Teste de filosofia do 11º B (Outubro de 2014)

 

Eis um teste de filosofia . Evitamos as perguntas de escolha múltipla que, por vezes, enfermam de um deformado espírito de «minúcia», baseado em falsas disjunções, carecido de ordem dialética.

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B
24 de Outubro de 2014. Professor: Francisco Queiroz

 I

“Alguns militares  são generais.

Gabriel Espírito Santo é general.

Gabriel Espírito Santo não é militar".
 

1-A) Indique, concretamente, três regras do silogismo formalmente válido que foram infringidas na construção deste silogismo.
1-B) Indique o modo e a figura deste silogismo

 

2) Construa o quadrado lógico das oposições à seguinte proposição:

«Os alentejanos exercitam-se no cante».


3) Explique, concretamente, o seguinte texto:
«O raciocínio de analogia  apoia-se na percepção empírica e na intuição inteligível e difere da dedução. O realismo crítico de Descartes é diferente do idealismo não solipsista subjectivo

 

4) Construa, tendo como primeira premissa a proposição «Se for ao aeroporto de Beja, viajo de avião»:
A) Um silogismo condicional modus ponens.
B) Um silogismo condicional modus tollens.

 

5) Disserte sobre o seguinte tema: «As falácias ad hominem, depois de por causa de, da generalização precipitada, ad misericordiam integram a lógica informal, não a lógica formal».

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE COTADO PARA UM TOTAL DE 20 VALORES

 

1-A) Foram violadas as seguintes regras do silogismo: de duas premissas afirmativas não pode extrair-se uma conclusão negativa; o termo médio (neste caso: general) tem de estar distribuído ao menos em uma das premissas, o que não sucede pois está sempre considerado no sentido de «alguns generais»; nenhum termo pode ter na conclusão maior extensão do que nas premissas, ora isso não sucede com o termo maior «militar» que na primeira premissa tem extensão particular («Alguns militares») e na conclusão apresenta extensão universal («Nenhum militar "). Note-se que o termo "Gabriel Espírito Santo" é universal porque apenas existe aquele Gabriel Espírito Santo no universo que estamos a considerar (VALE TRÊS VALORES).

 

1-B)  O modo do silogismo é IAE (VALE UM VALOR). A figura do silogismo é PP (2ª figura). (VALE UM VALOR)

 

2-A)            A                                         E

     

 

 

                    I                                          O

 

Prposição tipo A (universal afirmativa): Os alentejanos exercitam-se no cante.

Proposição tipo E (universal negativa): Os alentejanos não se exercitam no cante.

Proposição tipo I (particular afirmativa): Alguns alentejanos exercitam-se no cante.

Proposição tipo  O (particular negativa): Alguns alentejanos não se exercitam no cante.

 

A relação entre as proposições é a seguinte: A é contrária de E e viceversa; I é subcontrária de O e viceversa; I é subalterna de A; O é subalterna de E; A é contraditória de O e viceversa, I é contraditória de E e viversa.  (VALE DOIS VALORES)

 

3) O raciocínio de analogia é a inferência que estabelece uma semelhança de forma, função ou posição entre entes muito diferentes entre si. Exemplo: o homem é análogo a uma árvore, os pés equivalem às raízes. Isto implica realmente uma dose de imaginação superior. A percepção empírica (exemplo: ver uma árvore, ver um homem) é a captação directa das formas, cores, sons de um objecto físico nos prgãos sensoriais. A intuição inteligível é a captação instantânea de um objecto ou relação metafísica, sem raciocínio (exemplo: homem e árvore são erectos e possuem tronco, exprimem o mesmo arquétipo abstracto, a cruz).  A dedução  é a inferência que parte de uma premissa geral para chegar a uma conclusão geral ou particular. Exemplo: «Todas as árvores têm raízes, os pinheiros são árvores, logo os pinheiros têm raízes» (VALE TRÊS VALORES).

O realismo crítico de Descartes sustenta que há um mundo real fora das mentes humanas mas estas não o apreendem tal como é: o mundo exterior é composto de formas, tamanhos, movimentos, números e de uma matéria indeterminada (qualidades primárias, objectivas); as cores, sons, cheiros, sabores, sensações tácteis, calor e frio, prazer e dor só pertencem ao mundo interior do sujeito (qualidades secundárias), à sua psique, são causadas por movimentos de partículas exteriores que embatem nos olhos, nos ouvidos, etc, e fazem nascer cores, sons, etc. O idealismo não solipsita subjectivo é a doutrina que diz que o mundo material se reduz a ideias e sensações dentro das múltiplas mentes humanas e é uma ilusão subjectiva, todos o vêem de diversas maneiras, diferentes de pessoa a pessoa  (exemplo: todos vêem diferentes torres de menagem do castelo de Beja que, no entanto desaparece ao extinguir-se a mente - idealismo! ). Há uma diferença de grau entre o realismo crítico de Descartes («Há formas fora das mentes humanas») e o idealismo não solipsita («Todas as formas e todas as coisas são mentais, estão dentro das mentes humanas»). (VALE TRÊS VALORES).

 

4-A) Silogismo tipo modus ponens:

«Se for ao aeroporto de Beja, viajo de avião»

«Vou ao aeroporto de Beja».

«Logo, viajo de avião».  (VALE 1 VALOR).

 

Silogismo tipo modus tollens:

Se for ao aeroporto de Beja, viajo de avião».

«Não viajo de avião».

«Logo, não fui ao aeroporto de Beja». (VALE 2 VALORES)

 

4) Falácia é um erro ou vício de raciocínio na argumentação. A falácia ad hominem é o erro de raciocínio que desvia a argumentação racional para o campo do ataque pessoal ao adversário (exemplo: «Ele´ganhou o concurso para gestor de empresas, mas é gay, vamos impedi-lo de subir a gestor da empresa»). A falácia depois de por causa de é a que estabelece uma relação necessária de causa-efeito entre fenómenos que ocorrem simultaneamente por acaso. (Exemplo: Há uma semana vi um gato preto e uma hora depois bati com a moto em um muro; há 3 dias vi outro gato preto e a seguir perdi a carteira; logo, ver gatos pretos causa-me azares). A falácia da generalização precipitada é a que extrai uma conclusão geral de uma amostra particular insuficiente (exemplo: "ouvi três cantores magníficos da Amareleja, logo todos os habitantes da Amareleja são bons cantores"). A falácia ad misericordiam é  a que faz um apelo à misericórdia do interlocutor de modo a esbater ou apagar a racionalidade de uma decisão ( O aluno diz para o professor: «Sei que não tive nenhum teste com nota positiva ao longo do ano mas tenha piedade e dê-me nota de 10 valores senão o meu pai impede-me de gozar férias fora daqui»). Estas falácias integram a lógica informal ou material que é a lógica formal submetida aos factos e leis da natureza, ou seja, a lógica dos acontecimentos físicos, concretos. Lógica formal é a ordem abstracta do pensamento, das regras, abstraindo dos objectos naturais. O silogismo «As abelhas são cães/ os cães são elefantes/ Logo as abelhas são elefantes» possui lógica formal - o modo de raciocínio está correcto - mas não tem lógica material, é falso no seu conteúdo. (VALE QUATRO VALORES)

 

 

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Terça-feira, 21 de Outubro de 2014
Teste de filosofia do 11º A (Outubro de 2014)

 

Eis um teste de filosofia . Evitamos as perguntas de escolha múltipla que, por vezes, enfermam de um deformado espírito de «minúcia» -

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A
17 de Outubro de 2014. Professor: Francisco Queiroz

 

“Alguns bejenses são alentejanos.
Mariana Palma é alentejana.
Mariana Palma não é bejense.”

 

1-A) Indique, concretamente, três regras do silogismo formalmente válido que foram infringidas na construção deste silogismo.


1-B) Indique o modo e a figura deste silogismo.

 

2) Construa o quadrado lógico das oposições à seguinte proposição:

«Os habitantes de Moura gostam de festas populares».


3) Explique, concretamente, o seguinte texto:
«O raciocínio de analogia é mais imaginativo do que a indução amplificante necessitarista e do que a dedução. O realismo crítico de Descartes é diferente do idealismo não solipsista objectivo

 

4) Construa, tendo como primeira premissa a proposição «Se for a Serpa, almoço açorda de bacalhau»:


A) Um silogismo condicional modus ponens.


B) Um silogismo condicional modus tollens.

 

5) Disserte sobre o seguinte tema: «As falácias ad hominem, da petição de princípio, da generalização precipitada, do falso dilema integram a lógica informal, não a lógica formal».

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE COTADO PARA UM TOTAL DE 20 VALORES

 

1-A) Foram violadas as seguintes regras do silogismo: de duas premissas afirmativas não pode extrair-se uma conclusão negativa; o termo médio (neste caso: alentejano) tem de estar distribu+ido ao menos em uma das premissas, o que não sucede pois está sempre considerado no sentido de «alguns alentejanos»; nenhum termo pode ter na conclusão maior extensão do que nas premissas, ora isso não sucede com o termo maior «bejenses» que na primeira premissa tem extensão particular («Alguns bejenses») e na conclusão apresenta extensão universal («Nenhum bejense "). Note-se que o termo "Mariana Palma" é universal porque apenas existe aquela Mariana Palma no universo que estamos a considerar (VALE TRÊS VALORES).

 

1-B)  O modo do silogismo é IAE (VALE UM VALOR). A figura do silogismo é PP (2ª figura). (VALE UM VALOR)

 

2-A)            A                                         E

     

 

 

                    I                                          O

 

Prposição tipo A (universal afirmativa): Os habitantes de Moura gostam de festas populares.

Proposição tipo E (universal negativa): Os habitantes de Moura não gostam de festas populares.

Proposição tipo I (particular afirmativa): Alguns habitantes de Moura gostam de festas populares.

Proposição tipo  O (particular negativa): Alguns habitantes de Moura não gostam de festas populares.

 

A relação entre as proposições é a seguinte: A é contrária de E e viceversa; I é subcontrária de O e viceversa; I é subalterna de A; O é subalterna de E; A é contraditória de O e viceversa, I é contraditória de E e viversa.  (VALE DOIS VALORES)

 

3) O raciocínio de analogia é a inferência que estabelece uma senelhança de forma, função ou posição entre entes muito diferentes entre si. Exemplo: o homem é análogo a uma árvore, os pés equivalem às raízes, os braços aos ramos. Isto implica realmente uma dose de imaginação superior A indução amplificante é a generalizaçao de alguns exemplos empíricos segundo uma lei necessária, infalível. Exemplo. Verificamos 250 árvores implantadas no solo e todas tinham raízes, logo induzo que os milhões de árvores implantados no solo da Terra terão, necessariamente, raízes. A dedução  é a inferência que parte de uma premissa geral para chegar a uma conclusão geral ou particular. Exemplo: «Todas as árvores têm raízes, os pinheiros são árvores, logo os pinheiros têm raízes» (VALE TRÊS VALORES).

O realismo crítico de Descartes sustenta que há um mundo real fora das mentes humanas mas estas não o apreendem tal como é: o mundo exterior é composto de formas, tamanhos, movimentos, números e de uma matéria indeterminada (qualidades primárias, objectivas); as cores, sons, cheiros, sabores, sensações tácteis, calor e frio, prazer e dor só pertencem ao mundo interior do sujeito (qualidades secundárias), à sua psique, são causadas por movimentos de partículas exteriores que embatem nos olhos, nos ouvidos, etc, e fazem nascer cores, sons, etc. O idealismo não solipsita objectivo é a doutrina que diz que o mundo material se reduz a ideias e sensações dentro das múltiplas mentes humanas e é uma ilusão objectiva, todos o vêem da mesma maneira (exemplo: todos vêem a mesma torre do castelo de Beja que, no entanto desaparece ao extinguir-se a mente - idealismo! ). Há uma diferença de grau entre o realismo crítico de Descartes («Há formas fora das mentes humanas») e o idealismo não solipsita («Todas as formas e todas as coisas são mentais, estão dentro das mentes humanas»).- VALE TRÊS VALORES.

 

4-A) Silogismo tipo modus ponens:

«Se for a Serpa, almoço açorda de bacalhau»

«Vou a Serpa».

«Logo, almoço açorda de bacalhau».  (VALE  1 VALOR)

 

4-B) Silogismo tipo modus tollens:

«Se for a Serpa, almoço açorda de bacalhau».

«Não almocei açorda de bacalhau»-

«Logo, não fui a Serpa»   (VALE DOIS VALORE

 

5) A falácia ad hominem é aquela que desvia a argumentação racional para o campo do ataque pessoal ao adversário (exemplo: «Ele´ganhou o concurso para gestor de empresas, mas é gay, vamos impedi-lo de subir a gestor da empresa»). A falácia da petição de princípio é aquela em que a conclusão repete a premissa e viceversa (Exemplo: O cristianismo é a melhor religião porque é mais adequada, é a mais adequada porque é a melhor religião"). A falácia da generalização precipitada é a que extrai uma conclusão geral de uma amostra particular insuficiente (exemplo: "ouvi três cantores magníficos da Amareleja, logo todos os habitantes da Amareleja são bons cantores"). A falácia do falso dilema é a que coloca uma falsa alternativa entre duas vias ou dois entes, estando uma dentro da outra (exemplo: "Ou és homem ou és macho alentejano"). Estas falácias integram a lógica informal ou material que é a lógica formal submetida aos factos e leis da natureza, ou seja, a lógica dos acontecimentos físicos, concretos. Lógica formal é a ordem abstracta do pensamento, das regras, abstraindo dos objectos naturais. O silogismo «As abelhas são cães/ os cães são elefantes/ Logo as abelhas são elefantes» possui lógica formal - o modo de raciocínio está correcto - mas não tem lógica material, é falso no seu conteúdo. (VALE QUATRO VALORES)

 

 

 

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Terça-feira, 20 de Maio de 2014
Teste de filosofia do 11º B (Maio de 2014, 3º período)

 

Eis um teste de filosofia, para o terceiro período lectivo, para o 11º B. O teste centra-se na teoria do conhecimento (Hume, Descartes; idealismo, pragmatismo, fenomenologia) na ontologia  (Parménides, Pitágoras, David Hume, Descartes) na teleologia/ sentido da existência (Kierkegaard, Hegel). Evitaram-se as escorregadias questões de escolha múltipla que, em muitos casos, não permitem ao aluno exibir e desenvolver o seu saber filosófico.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B
16 de Maio de 2014. Professor: Francisco Queiroz

 


I

 

“A angústia é uma liberdade travada...Deus é, não existe, o homem existe, mas não é“ Kierkegaard

1-A) Explique estes pensamentos.

II

 

2) Disserte sobre o seguinte tema:

 

" O ser em Parménides, em Pitágoras e em David Hume".

 

III

 

 

3) Relacione, justificando:
A) Eu em Descartes e Eu em David Hume.

B) Realismo Crítico em Descartes e Conjecturalismo/falsificacionismo em Popper.

C) As três fases da Ideia Absoluta em Hegel e o Existencialismo de Kierkegaard.

D) Idealismo, Fenomenologia, Pragmatismo.

 

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE DE FILOSOFIA (COTADO PARA 20 VALORES)

 

1) A angústia é uma categoria da vida intermédia, entre a liberdade e a necessidade. Ao olharmos de cima um precipício, sentimos alguma angústia: desejo de voar (ser livre) e medo, ditado pela necessidade ou lei infalível de causa-efeito de morrer esmagados em consequência da queda. Por isso se diz que a angústia é uma liberdade bloqueada por si mesma devido a compreender os limites da possibilidade: queremos e não queremos porque receamos. (VALE UM VALOR E MEIO). "Deus é mas não existe" significa: Deus existe eternamente, fora do tempo, e como está fora das contingências da existência (nascer, crescer, tranalhar, morrer, etc) diz-se que não existe.». "O homem existe e não é" significa: o homem está em perpétuo devir, a existência é feita de mudanças, altos e baixos, por isso existe e deixa de existir, mas não é, se por é se entende ser eterno, sempre o mesmo (VALE UM VALOR E MEIO).

 

 

2)  O ser em Parménides é, não foi nem será. É uno, homogéneo, imóvel, incriado, invisível e imperceptível aos sentidos, esférico. Ser e pensar é um e o mesmo. A alteração das cores, a mutação, o nascimento e a morte são ilusões, reais só na aparência.

Ser é um termo ambíguo, polissémico: por um lado é o existir em geral; por outro lado é o existente, algo que existe, o essente, uma essência ou substância de carácter universal. Parménides usa o termo nos dois sentidos, de existência e de essência. Neste segundo sentido, pode interpretar-se como o cosmos esférico ou como o pensamento divino estruturante do cosmos (sentido hegeliano). Fica em aberto a questão de saber se Parménides era idealista ou realista crítico.

Em Pitágoras, o ser pode interpretar-se como: Deus, o supremo geómetra, o supremo arquitecto do cosmos; os quatro números figura essenciais - o um ou ponto, o dois ou recta, o três ou plano, o quatro ou tetraedro- que compõem todas as coisas materiais. 

O ser em David Hume é antropológico: percepções empíricas ou impressões dos sentidos, razão, imaginação mas não um «eu-substância» coeso como em Kant ou em Descartes. O ser do mundo exterior é inexistente (idealismo) ou duvidoso (cepticismo) e, portanto, é não-ser efectivo ou provável. (VALE QUATRO VALORES)

 

3) A) O "eu" em Descartes é uma substância: no essencial, é res cogitans, pensamento, e secundariamente, o corpo humano, res extensa (extensão dotada de formas, comprimento, largura e altura). Em David Hume, o "eu" não é substância, não existe sequer (idealismo) ou é duvidoso (cepticismo) tal como não existem ou são duvidosas as noções de "alma", "substância", "essência". No entanto, Hume discrimina sete relações filosóficas ou noções que, à falta de um "eu",  parecem ser estruturas a priori: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. (VALE TRÊS VALORES

 

B) O realismo crítico em Descartes consiste no seguinte:  há um mundo de matéria exterior às mentes humanas,  feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, forma, tamanho, número, movimento. As cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da minha mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios de partículas exteriores já que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. .Assim, a rosa não é vermelha, é apenas forma e tamanho. O ramo de rosas é apenas formas, tamanho e um certo número de unidades, não tem cor, nem cheiro, nem peso. O mármore não é frio nem duro, o céu não tem cor.

 

O princípio da falsificabilidade de Popper estabelece que as ciências são conjuntos de conjecturas (conjecturalismo), isto é, as suas leis ou teses são hipóteses, conjecturas potencialmente falsas, falsificáveis, refutáveis. Isso exige aplicar permanentemente o princípio da testabilidade: há que submeter a constantes testes experimentais as teses de uma ciência. Entre as várias teorias na mesma área científica ( exemplo: vacinar ou não vacinar na medicina preventiva; heliocentrismo versus geocentrismo na astrofísica) Popper defende que se deve escolher a mais verosímil, a que dá mais garantias, sublinhando que a ciência é uma aproximação incessante à verdade sem nunca abarcar o todo desta.

O que há de comum entre Descartes e Popper é o cepticismo como método de pesquisa da verdade e, por vezes, como horizonte final da investigação. Como é evidente, Popper não aceitou a hipótese cartesiana de Deus ser o garante da existência do mundo material porque a existência de Deus mão pode ser testada experimentalmente, não é falsificável. (VALE TRÊS VALORES).

 

C)- Hegel divide a história universal da ideia absoluta ou Deus em três fases:  a fase lógica ou do ser em si, na qual só existe um espírito, Deus, antes de criar o universo material o espaço e o tempo, espírito ou ideia absoluta que se limita a pensar (isto corresponde ao teísmo, doutrina segundo a qual há um ou vários deuses independentes da natureza física); a fase da natureza ou do ser fora de si em que Deus se aliena em matéria bruta, isto é, se transforma em astros, sol, montanhas, rios, rochas, plantas e animais não humanos (isto corresponde ao panteísmo, doutrina que sustenta que Deus é a natureza física e biológica); a fase da humanidade ou do ser para si, em que Deus renasce, como espírito livre, em forma de homens que lentamente, progridem em direcção à liberdade de espíriro que é regresso à primeira fase. (esta terceira fase corresponde ao panenteísmo, doutrina que afirma que Deus é tudo, a natureza material, a humanidade e é Ele mesmo como espírito transcendente). Este progresso exprime-se através de três formas de estado sucessivas- no início, o despotismo oriental, em que só um homem é livre, séculos depois o estado greco-romano, em que só alguns homens são livres e por último o estado do cristianismo reformado por Lutero em que todos os homens são livres de examinar a Bíblia sem a manipulação do clero católico romano, completado em 1789-1799 pela revolução francesa que implantou a democracia baseada na liberdade, igualdade e fraternidade. Hegel dizia «o Estado é tudo, o indivíduo é nada», é essencialista - a essência Deus planeia, à partida, a existência histórica, a natureza biofísica, os diversos tipos de sociedades humanas -  ao contrário do existencialista Kierkegaard que proclamava o primado do indivíduo sobre a massa, a sociedade, a imprevisibilidade da vida, e a não intervenção de Deus na história humana cheia de pecados.

 

Segundo Kierkegaard, filósofo existencialista cristão, há três estádios na existência humana: estético, ético e religioso. No estádio estético, o protótipo é o Don Juan, insaciável conquistador de mulheres que vive apenas o prazer do instante, e sente angústia se está apaixonado por uma mulher e teme não a conquistar. O desespero é posterior à angústia: é a frustração sobre algo que já não tem remédio ou que se esgotou. Ao cabo de conquistar e deixar centenas de mulheres, o Don Juan cai no desespero: afinal nada tem, o prazer efémero esvaiu-se. Dá então o salto ao ético: casa-se. No estado ético, o paradigma é do homem casado, fiel à esposa, cumpridor dos seus deveres familiares e sociais. Este estado relaciona-se com o essencialismo, doutrina que afirma que a essência, o  modelo do carácter ou do comportamento vem antes da existência e condiciona esta. A monotonia e a necessidade do eterno faz o homem saltar ao estádio religioso, em que Deus é o valor absoluto, apenas importa salvar a alma e os outros pouco ou nada contam. Abraão estava no estádio religioso, de puro misticismo, quando se dispunha a matar o filho Isaac porque «Deus lhe ordenou fazer isso». O estádio religioso é o do puro existencialismo, doutrina que afirma que a existência vive-se em liberdade e angústia sem fórmulas (essências) definidas, buscando um Deus que não está nas igrejas nem nos ritos oficiais. Neste estádio, o homem casado pode abandonar a mulher e os filhos se «Deus lhe exigir» retirar-se para um mosteiro a meditar ou para uma região subdesenvolvida a auxiliar gente esfomeada. A escolha a cada momento ante a alternativa é a pedra de toque do existencialismo.  (VALE QUATRO VALORES).

 

D)  O idealismo sustenta que o mundo material exterior se reduz a percepções empíricas e ideias, a matéria não existe em si mesma. A fenomenologia balança entre aceitar essa posição e a do realismo: para a fenomenologia o mundo de matéria existe fora do corpo físico do sujeito, mas não sabe se este mundo está dentro ou fora da mente (envolvente) do sujeito. Portanto, não se aventura na metafísica e nesse sentido é pragmática porque pragmatismo significa ater-se àquilo que é empírico e verificável e guiar-se pela utilidade das coisas (VALE TRÊS VALORES). 

 

 

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Segunda-feira, 24 de Março de 2014
Teste de Filosofia do 11º C (segundo período lectivo, Março de 2014)

 

Eis um teste de filosofia, o segundo do segundo período lectivo, para o 11º C. O teste centra-se na epistemologia e demonstra, em certa medida, que é possível relacionar autonomamente a filosofia com as diversas ciências - com a astrofísica (teoria da relatividade), com a química (relógio químico de Prigogine), com a medicina (anarquismo epistemológico de Feyerabend) - superando os néscios que dizem que «a filosofia não pode intervir na área das ciências» como se estas fossem textos sagrados. Evitaram-se as escorregadias questões de escolha múltipla que, em muitos casos, não permitem ao aluno exibir e desenvolver o seu saber filosófico.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA C
21 de Março de 2014. Professor: Francisco Queiroz

 

 

 
“O relógio químico (modelo de Bruxelas) exprime pelo menos duas leis da dialéctica. Em Kant, o entendimento é condicionado e faz a síntese do diverso da intuição empírica. Imre Lakatos equacionou as perspectivas internalista e externalista na validação das ciências e dividiu em três níveis cada Programa de Investigação Científica.“

 

1) Explique, concretamente, cada uma destas frases                                                       

 

II

 

2) Relacione, justificando:
2-A) Realismo crítico e teorias da relatividade geral e da relatividade especial de Einstein.
2-B) Yang/ Yin e quatro forças fundamentais da natureza.
2-C) Princípios da falsificabilidade e da testabilidade em Karl Popper e ciência normal/ciência extraordinária e incomensurabilidade dos paradigmas em Thomas Kuhn.
2-D) Anarquismo epistemológico em Paul Feyerabend e dúvida hiperbólica em Descartes

 

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE DE FILOSOFIA (COTADO PARA 20 VALORES)

 

1) O relógio químico também chamado bruselator ou modelo de Bruxelas, testado por uma equipa dirigida por Ilya Prigogine, é um modelo de comportamento das moléculas de um gás: supondo que há dois tipos de moléculas, umas azuis e outras vermelhas, movendo-se ao acaso, num caos, isso não conduz a uma distribuição irregular das moléculas, mas a uma alternância bem ordenada, o sistema ora é todo azul ora é todo vermelho. Isto revela a lei dialética dos dois aspectos da contradição: numa contradição há dois aspectos, sendo em regra um o dominante e o outro o dominado, podendo a situação inverter-se. Revela ainda a lei do uno: todas as moléculas, por diferentes que sejam entre si, comunicam entre si e mudam de cor ao mesmo tempo, formando um Uno, um Todo (VALE TRÊS VALORES). Para Kant, o entendimento é condicionado pela sensibilidade porque recebe dela os conteúdos materiais (as imagens de árvore, rio, voo de pássaro, incêndio, etc). O entendimento sintetiza através das categorias de totalidade, unidade, pluralidade e outras os diversos dados empíricos da sensibilidade, unificando estes sob a forma de conceitos empíricos. Exemplo: depois de receber dezenas ou centenas de imagens de galos (fenómenos), o entendimento abstrai dos pormenores destes e redu-los à unidade, formando o conceito empírico de galo.(VALE TRÊS VALORES). Imre Lakatos, epistemólogo, defendeu que a ciência se estrutura em Programas de Investigação Científica (PIC). Cada um destes tem três níveis: o núcleo duro, conjunto das teses imutáveis; o cinto protector, conjunto das teses revisíveis, que podem ser rectificadas ou substituídas; a heurística, conjunto dos métodos de investigação livre, teórica e prática, que pode confirmar ou anular o PIC. O internalismo, posição sustentada por Lakatos, é a doutrina segundo uma teoria já é ciência mesmo que confinada a um só cientista, o seu autor, desde que apresente coerência interna e a experimentação a confirme, ao passo que o externalismo diz que uma teoria só é ciência se obtiver o assentimento externo do resto da comunidade científica, do governo e ministério da ciência, das revistas da especialidade, dos fóruns televisivos, do grande público (VALE TRÊS VALORES).

 

 

 

2) A) A teoria da relatividade geral de Einstein diz que espaço e tempo são uma só realidade, o espaço-tempo, que o universo é esférico, fechado, ainda que um raio de luz possa girar em círculo infinitamente dentro dele dado que a luz encurva na proximidade de grandes massas. Não há, portanto, rectas e planos infinitos como na geometria euclidiana mas o espaço é ondulado, «torcido», e essa visão é realismo crítico já que esta doutrina afirma que há um mundo real de matéria mas os olhos humanos e o senso comum não o captam tal como ele é.  A teoria da relatividade especial sustenta, entre outras coisas, que um corpo que atinja a velocidade da luz (300 000 quilómetros por segundo) viaja para o passado, o que é realismo crítico, contrário ao realismo natural que afirma que é impossível viajar ao passado. (VALE TRÊS VALORES).

 

2) B) Yang significa dilatação, movimento, crescimento, som, fogo, verão, na filosofia do taoísmo. Yin significa contracção, repouso, diminuição, água, inverno. Das quatro forças fundamentais, duas são Yang porque expandem, são centrífugas: o electromagnetismo ( luz, microondas, raio X) e a força nuclear fraca que desagrega o núcleo do átomo e produz radioactividade. As outras duas forças fundamentais sáo Yin porque contraem, contrariam a expansão do universo: a gravidade  e a força nuclear forte que mantém unidos os protões no núcleo do átomo (VALE DOIS VALORES).

 

2) C) O princípio da falsificabilidade de Popper estabelece que as ciências são conjuntos de conjecturas, isto é, as suas leis ou teses são potencialmente falsas, falsificáveis. Isso exige aplicar permanentemente o princípio da testabilidade: há que submeter a constantes testes experimentais as teses de uma ciência. Entre as várias teorias na mesma área científica ( exemplo: vacinar ou não vacinar na medicina preventiva; heliocentrismo versus geocentrismo na astrofísica) Popper defende que se deve escolher a mais verosímil, a que dá mais garantias, sublinhando que a ciência é uma aproximação incessante à verdade sem nunca abarcar o todo desta.

Thomas Kuhn discorda da hierarquização das ciências segundo o seu grau de verdade e diz que os paradigmas (modelos teóricos ou teórico-práticos que vertebram as ciências e os mitos) são incomensuráveis, não podem comparar-se entre si. Sustenta o descontinuísmo na história das ciências: há longos períodos de lenta evolução ou estagnação do paradigma de uma ciência, chamado ciência normal, durante décadas ou séculos, subitamente as anomalias acumulam-se e originam um paradigma contrário, dito ciência extraordinária, que acabará por destronar a ciência normal e substitui-la mediante uma revolução epistemológica (VALE TRÊS VALORES).

 

2) D)- Anarquismo epistemológico de Feyerabend é a filosofia que nega autoridade às ciências institucionais dominantes - a medicina química ou alopática com as transfusões de sangue, vacinas, exames radiológicos, biópsias e outras «estupidezes»; a física quântica; a psiquiatria com recurso a drogas, etc  - e pretende derrubá-las e abrir campo a uma larga democracia de base, tal como a autogestão dos anarquistas, elevando ao mesmo estatuto que as ciências universitárias a medicina natural, a medicina hopi, a  ervanária, a acupunctura, a astrologia, os rituais religiosos eficazes na cura, a dança da chuva, etc.

A dúvida hiperbólica de Descartes formula-se assim: «Se quando durmo me parecem verdadeiros os sonhos que tenho, quem me garante que acordado não continuo a sonhar? Assim, duvido de tudo o que vejo e ouço, da existência do mundo exterior, dos deuses, das ciências e da existência do meu próprio corpo e espírito. Nenhuma certeza tenho.»

Feyerabend duvida da verdade das ciências oficiais, que considera uma emanação dos interesses materiais e do desejo de prestígio dos industriais e comerciantes, dos médicos, dos jornalistas, dos filósofos e cientistas e nesse ponto tem algo em comum com a dúvida de Descartes (VALE TRÊS VALORES).

 

 

 

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Domingo, 8 de Dezembro de 2013
Teste de filosofia do 11º ano, turma B, Dezembro de 2013

 

Eis um teste de filosofia sem perguntas de resposta múltipla que exigem responder com cruzes e não desenvolvem a capacidade discursiva escrita do aluno.

Agrupamento de Escolas nº 1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B
4 de Dezembro de 2013. Professor: Francisco Queiroz

 

I

1) Considere o seguinte silogismo:

 

«Nenhum urso é animal marinho».
«Esta foca é um animal marinho».
«Nenhuma foca é urso».

 

A) Indique, concretamente, duas regras da construção formalmente válida do silogismo que foram infringidas no silogismo acima.

 

B) Indique o modo e a figura do silogisno.

 

 

II

David Hume escreveu: «Aquela acção da imaginação pela qual consideramos o objecto ininterrupto e invariável ...» e Parménides escreveu: «Ser e pensar são um e o mesmo».

 

2) Interprete estes pensamentos conexionando-os com idealismo, realismo, empirismo e racionalismo.

 

 

3) Relacione, justificando:

 

A) A lei do salto qualitativo e os quatro passos gnosiológicos de Descartes desde a dúvida hiperbólica à demonstração do mundo.

 

B)  As sete relações filosóficas segundo Hume e lei da contradição principal.

 

C) As três formas de conhecimento, segundo Bertrand Russel, e princípio do terceiro excluído

 

D) Retórica, sofística e democracia.

 

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE, COTADO PARA 20 VALORES

 

1) A) Eis duas regras de validade infringidas no silogismo acima: a conclusão segue sempre a parte mais fraca, se uma premissa é particular a conclusão tem de ser particular (ora isso não sucede, porque a premissa «Esta foca...» é particular e a conclusão «Nenhuma foca...» é universal); nenhum termo pode ter na conclusão maior extensão do que nas premissas (ora o termo "foca" é particular na premissa e universal na conclusão). (VALE DOIS VALORES).

 

1) B) O modo do silogismo é EIE (E= proposição universal negativa; I= proposição particular afirmativa). A figura do silogismo é a 2ª : PP (termo médio como predicado em ambas as premissas). (VALE UM VALOR)

 

2) Hume quer dizer as percepções empíricas são como que fotos desligadas umas das outras, não são contínuas e é a imaginação que fornece a ideia de continuidade dos objectos, a invariabilidade, o filme das percepções. Assim não há a alma, nem o eu, nem a casa, nem a árvore, nem a montanha - são ideias da imaginação formadas a partir de percepções cuja origem se desconhece. Isto é idealismo: a matéria passa a ser um conjunto de percepções empíricas. Nesta medida, pode atribuir-se a Hume um certo racionalismo, pois o idealismo é um racionalismo: através do raciocínio deixa de se acreditar na existência independente do mundo de matéria. Em Parménides dá-se algo inverso e algo análogo a Hume: o inverso é o facto de que não há descontinuidades, a percepção empírica é ilusão, o pensar está a todo o instante centrado no ser uno, imóvel, invisível, esférico, eterno; o análogo é que a percepção sensorial não nos fornece o "ser". Ao empirismo de Hume (" as ideias nascem das impressões sensíveis e da imaginação") contrapõe-se o racionalismo de Parménides (" Só o pensar, o raciocínio e a intuição inteligível captam o ser"). São dois idealismos, numa certa interpretação; mas em Parménides pode tratar-se ainda, ao invés, de um realismo crítico, porque apesar de cores, sons, cheiros, formas mutáveis serem ilusões, a esfera do ser pode ter carácter material, pode ser formada por uma matéria imperceptível aos sentidos. (VALE QUATRO VALORES).

 

3) A) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos:

Dúvida hiperbólica ou Cepticismo Absoluto( «Uma vez que quando sonho tudo me parece real, como se estivesse acordado, e afinal os sentidos me enganam, duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo »).

Idealismo solipsista («No meio deste oceano de dúvidas, atinjo uma certeza fundamental: «Penso, logo existo» como mente, ainda que o meu corpo e todo o resto do mundo sejam falsos»). 

Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe). 4º 4º Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, de existe fora de mim»). Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é. Descartes, realista crítico, sustentava que as qualidades secundárias, isto é, as cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores e que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos.

A passagem de um a outro destes quatro passos confirma a lei do salto qualitativo que se enuncia assim: a acumulação, lenta e gradual, quantitativa, de um certo factor num fenómeno origina, em dado instante, um brusco salto de qualidade nesse fenómeno. Neste caso o acumular de reflexões levou Descartes a demonstrar Deus (salto qualitativo) e, a partir deste, o mundo exterior (novo salto qualitativo). (VALE QUATRO VALORES).

 

 

3) B) As sete relações filosóficas são capacidades da nossa mente, modos de interpretar as coisas, não existem no mundo exterior: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. Por exemplo, água e fogo não são contrários entre si fora da mente humana, real e objectivamente, mas são apenas contrários dentro desta que as coloca numa relação de contrariedade. A lei da contradição principal sustenta que um sistema de muitas contradições se pode reduzir a uma só grande contradição , a principal, composta de dois grandes blocos, deixando eventualmente na zona neutra uma ou outra contradição secundária. Neste caso posso aplicar assim, entre outros modos possíveis, a contradição principal: de um lado, as relações de tempo e lugar, que contextualizam o ente de modo especial, e do outro lado, todas as outras. (VALE TRÊS VALORES).

 

3) C) Os três tipos de conhecimento segundo Bertrand Russell são: o saber-fazer, que é um conhecimento empírico-técnico, como andar de bicicleta, nadar, jogar futebol; o conhecimento por contacto, isto é, empírico directo, como ver uma planície alentejana, ouvir uma música dos Bubedanas, saborear gaspacho; o conhecimento proposicional, isto é, racional ou empírico-racional, como por exemplo, «A soma dos três ângulos internos de um triângulo é 180º», «Portugal entrou na Comunidade Económica Europeia em 1 de Janeiro de 1986». O princípio do terceiro excluído estabelece o seguinte: uma coisa ou qualidade ou pertence ao grupo A ou ao grupo não-A, não havendo terceira hipótese. Apliquemo-lo: o conhecimento  é proposicional ou é não proposicional, e nesta segunda hipótese inclluem-se o saber-fazer e o conhecimento por contacto (VALE TRÊS VALORES).

 

 

3) D) A retórica é a arte de bem discursar oralmente - ou por escrito, de forma derivada - a um auditório, no sentido de impressionar e persuadir. Bem discursar não significa estar isento de sofismas (erros voluntários de raciocínio) e paralogismos (erros involuntários de raciocínio). A sofística é a filosofia e a retórica dos sofistas, pensadores gregos anti essencialistas que ensinavam retórica, direito, política, etc, com remuneração. Assentava no cepticismo, que duvida de tudo o que fôr além das percepções empíricas, no relativismo que diz que a verdade varia com os povos, as classes e grupos sociais, no subjectivismo que postula que a verdade varia de pessoa a pessoa, no pragmatismo, que prefere os resultados práticos, a utilidade da situação real aos ideais "inúteis" e metafísicos. A democracia, entendida como autogoverno do povo através do debate livre nas ruas e em assembleias populares, de uma das quais emerge um governo votado pelos cidadãos, implica retórica: uns agentes políticos discursarão explicando por que se deve nacionalizar ou municipalizar certos bens, outros discursarão por que se deve privatizar esses bens. No meio destes discursos, existe a sofística, a arte de convencer o auditório com "habilidades" discursivas. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

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Segunda-feira, 11 de Novembro de 2013
Teste de filosofia do 11º ano, turma C, Novembro de 2013

 

Eis um teste de filosofia sem perguntas de resposta múltipla que exigem responder com cruzes e não desenvolvem a capacidade discursiva escrita do aluno.  

Agrupamento de Escolas nº 1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA C
1 de Novembro de 2013.            Professor: Francisco Queiroz

 

1) Considere o seguinte silogismo:

 

«Algumas coisas belas são azuis.
«Os olhos da Catarina  são azuis».
«Os olhos da Catarina não são coisas belas».

 

Indique, concretamente, três regras da construção formalmente válida do silogismo que foram infringidas no silogismo acima.

 

2) Construa o quadrado lógico das oposições à proposição: «As mulheres de Castro Verde são independentes».

 

3) Relacione, justificando:

 A) Astúcia da razão, na doutrina de Hegel, e lei dialética dos 2 aspectos da contradição.

 

B) Ethos, Logos e Pathos, na retórica, e lei dialética da contradição principal.

 

C) Percepção empírica, Conceito empírico e pragmatismo.

 

4) Construa um silogismo condicional modus ponens e um silogismo modus tollens a partir da seguinte premissa: «Se reflectir, ultrapassarei o senso comum.»

 

5) Disserte livremente sobre o seguinte tema:

 

«As falácias e os argumentos não falaciosos: falácia depois de por causa de, falácia do homem de palha, argumento do apelo à ignorância, argumento/falácia ad populum, falácia da composição, falácia da divisão, argumento circular.

 

 

            CORRECÇÃO DO TESTE, COTADO PARA 20 VALORES

 

1) Eis três regras de validade infringidas no silogismo acima: o termo médio deve estar distribuído pelo menos uma vez (ora isso não sucede, sendo o termo médio «azuis»); nenhum termo pode ter na conclusão maior extensão do que nas premissas (ora o termo "coisas belas" é particular na premissa e universal na conclusão); duas premissas afirmativas não podem gerar uma conclusão negativa. (VALE DOIS VALORES).

 

2)     A         E

         

         I          O  

 

 

 

 

 A (proposição universal afirmativa),: As mulheres de Castro Verde são independentes.

 

 E  (proposição universal negativa):  As mulheres de Castro Verde não são independentes.

 

 I (proposição particular afirmativa): Algumas mulheres de Castro Verde são independentes.

 

 O (proposição particular megativa): Algumas mulheres de Castro Verde não são independentes. ( VALE DOIS VALORES)

 

  

3) a) A astúcia da razão, na doutrina de Hegel, é a manipulação das paixões dos grandes homens de Estado no sentido de os levar a conduzir o povo nesta ou naquela direcção. Exemplo: em 1799, a razão universal (Deus) usou a ambição e o carisma do general Napoleão Bonaparte para reduzir a cinzas a revolução popular iniciada em 1789 e, ao mesmo tempo, para impedir a restauração monárquica e criar a França burguesa do século XIX. Aplicando a lei dos dois aspectos da contradição que diz que em uma contradição  há dois aspectos, em regra desigualmente desenvolvidos, o principal e o secundário, à astúcia da razão, podemos dizer que Deus ou ideia absoluta é o aspecto dominante e os homens de Estado (Napoleão, Bismarck, Salazar, Álvaro Cunhal, etc) são o aspecto dominado, executam inconscientemente, através da sua paixão pela política, o que a ideia absoluta lhes pede. (VALE TRÊS VALORES).

 

 3) b ) Ethos é o carácter do orador na retórica ou arte de persuadir um público. Pathos é o sentimento colocado no discurso.Logos é o conteúdo intelectual, as ideias e raciocínios estruturantes do discurso. Segundo a lei da contradição principal, que resume a dois blocos a multiplicidade das contradições de um sistema, o Logos opõe-se ao bloco emocional formado pelo Ehos e pelo Pathos. (VALE TRÊS VALORES).

 

3) c) A percepção empírica é um conjunto ordenado de sensações e o conceito empírico é a ideia que se forma, por abstração,  a partir de percepções similares. O pragmatismo é a corrente filosófica de tonalidade empirista que preconiza ser prático e buscar a utilidade das coisas. Aparentemente o pragmatismo apoia-se nas percepções e conceitos empíricos. (VALE TRÊS VALORES)

 

4) Silogismo condicional tipo modus ponens:

 

Se reflectir, ultrapassarei o senso comum.

Reflecti.

Logo, ultrapassei o senso comum.

 

Silogismo tipo modus tollens.

 

Se reflectir, ultrapassarei o senso comum.

Não ultrapassei o senso comum.

Logo,não reflecti.     (VALE DOIS VALORES).

 

5)  As falácias são uma espécie dentro do género argumento:  são raciocínios incorrectos, equívocos, deliberados (sofismas) ou não (paralogismos). A falácia depois de por causa de é a que atribui uma relação necessária de causa efeito a dois fenómenos vizinhos por acaso. A falácia do homem de palha é a que falsifica o pensamento do nosso opositor de modo a assustar, como um espantalho assusta os pardais na horta, os que ouvem (exemplo: um homem disse «concordar com as nacionalizações de grandes empresas» e o adversário dele diz que «ele quer tirar a propriedade privada a toda a gente, sejam grandes, médios ou pequenos empresários»).  A falácia do apelo à ignorância é a que raciocina sobre um fundo desconhecido e o usa de forma tendenciosa (exemplo: Nunca ninguém viu Deus, logo Deus não existe). A falácia da divisão é a que atribui propriedades do todo a cada uma das partes (exemplo: «O povo alemão é rico, logo o mendigo alemão Hans, que dorme na rua, é rico»). A falácia da composição é a que generaliza precipitadamente atribuindo ao todo as características de uma parte (exemplo: «entre os animais, há muitos cavalos, logo todos os animais são cavalos»). O argumento ad populum é o que invoca a voz do povo ou o sentir maioritário da população (exemplo: «votamos em eleições porque a maioria do povo assim o quer, vacinamo-nos porque a população em geral o faz»). O argumento circular é aquele em que as premissas se fundam na conclusão, é um raciocínio em circuito fechado (exemplo: «Ela é bela porque é fisicamente agradável e é fisicamente agradável porque é bela») (VALE CINCO VALORES).

 

 

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Quinta-feira, 30 de Maio de 2013
Teste de filosofia do 11º ano (último do 3º período, em 2013)

Ao finalizar o ano lectivo de 2012-2013, eis um teste de filosofia do 11º ano de escolaridade que não vive da imitação do frágil modelo de perguntas de resposta múltipla com um "X" que a maioria dos professores de filosofia deste país, qual rebanho obediente, mecanicamente parece adoptar.

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

                     Professor: Francisco Queiroz     

28 de Maio de 2013

 

«Segundo Thomas Kuhn, os paradigmas científicos são participantes de revoluções epistemológicas mas incomensuráveis, posição que não coincide exactamente com o conjecturalismo de Karl Popper no qual existe a noção de falsificacionismo

 

1) Explique, concretamente, este texto.

 

 

2) Relacione, justificando:

A) O anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend, os mitos e a ciência holística.
B)  Angústia, desespero e estádio estético segundo Kierkegaard.
C) Espaço e tempo segundo Kant, espaço e tempo segundo Einstein.

 

3) Disserte, livremente, sobre os seguintes temas:

«A teleologia dos movimentos no universo segundo Aristóteles. O princípio da incerteza de Heisenberg. Relativismo nas concepções sobre os «buracos negros» do universo. A causa-efeito e a matéria na teoria de Kant»

 

CORRECÇÃO DO TESTE (COTADO PARA UM TOTAL DE 20 VALORES)

 I

1) Paradigma científico é um modelo teórico-prático assente, em regra, no determinismo, uma teoria acompanhada, em regra, por métodos de experimentação. Exemplos: o paradigma do átomo, com um núcleo interior e órbitas electrónicas; o paradigma da psicanálise dividindo a psique em inconsciente, subconsciente e consciente. A revolução epistemológica é a mudança brusca ou total de paradigma. Por exemplo,a teoria do universo geocêntrico, paradigma dominante ou ciência normal na Idade Média, durante séculos, revelou anomalias e foi contestada no século XVII por uma nova ciência, denominada ciência extraordinária, do modelo heliocêntrico defendido por Copèrnico e Galileu. A ciência extraordinária acabou por impor-se na comunidade científica e transformou-se em ciência normal. Os paradigmas são incomensuráveis: não pode medir-se qual deles é o verdadeiro ou o mais verdadeiro que o outro. O conjecturalismo de Karl Popper sustenta que as ciências empíricas não passam de conjuntos de conjecturas ou suposições (exemplo:o átomo de hidrogénio com um só electrão é uma suposição) e supõe o falsificacionismo, isto é, uma ciência precisa de ser submetida a testes de falsificabilidade - a experiências que buscam incoerências ou excepções nas suas leis - e só receberá o título de ciência enquanto não for desmentida por um conjunto de factos relevantes. Mas em Popper é possível hierarquizar as ciências mais plausíveis e demarcá-las das não ciências. (VALE TRÊS VALORES).

 

II

 

2-A) O anarquismo epistemológico de Feyerabend é a concepção segundo a qual todos os saberes devem ter,à partida, um estatuto igual e direitos iguais, à moda da democracia de base anarquista: o astrólogo deve ser tão ouvido e convidado a ir à televisão quanto o astrofísico universitário, o curador através das plantas deve figurar na mesa redonda radiofónica com os médicos alopatas. Ademais, não há um único método científico mas deve-se explorar a pluralidade de métodos e improvisar: se um doente de cancro não obtèm sucesso com a quimioterapia por que não experimentar a medicina natural, os cataplasmas de argila molhada ou a mordedura do escorpião aplicada por um técnico ? Para Feyerabend,  a universidade, o sistema de saúde, a indústria e a esfera política são  controlados por homens arrogantes e desonestos, ligados a interesses financeiros e mediáticos espúrios, que canalizam para os seus projectos e cargos dinheiros do Estado e eliminam as ciências antigas tradicionais que lhes fazem concorrência. O mito, ou história lendária dos primórdios da humanidade, com deuses, heróis e monstros, ligado a um pensamento holístico, isto é global, é mais importante que as ciências . Foram os mitos que lançaram as bases da cultura, são eles que levam as pessoas a invocar os deuses segundo ritos que funcionam, desde que contextualizados, como a dança da chuva, o exorcismo, etc, e superam as modernas psicologia e medicina farmacológica e as ciências especializadas. (VALE TRÊS VALORES).

 

2-B) A angústia é a liberdade travada, não pela necessidade mas por si mesma. É uma ansiedade que normalmente acompanha uma expectativa sobre o futuro. No estádio estético, o protótipo é o Don Juan, insaciável conquistador de mulheres que vive apenas o prazer do instante, e sente angústia se está apaixonado por uma mulher e teme não a conquistar. O desespero é posterior à angústia: é a frustração sobre algo que já não tem remédio ou que se esgotou. Ao cabo de conquistar e deixar centenas de mulheres, o Don Juan cai no desespero: afinal nada tem, o prazer efémero esvaiu-se. (VALE DOIS VALORES)

 

2-C) Espaço e tempo segundo Kant são as formas a priori da sensibilidade, as «paredes» desta. São ambos anteriores à matéria e aos objectos materiais (fenómenos) que se formam dentro do espaço ou sentido externo. Mas espaço e tempo são irreais, nada são fora do sujeito percipiente (idealismo transcendental de Kant). Segundo Einstein, existe o espaço-tempo é inseparável da matéria, não existe espaço vazio. O universo é esférico e fechado, os raios de luz descrevem curvas, ainda que possam circular infinitamente. O espaço-tempo é irregular, possui curvatura, não é plano e infinito como na geometria euclidiana,  encurva na proximidade de grandes massas de matéria, e este espaço-tempo é real em si mesmo, existe independentemente dos sujeitos (realismo ontológico). Em Einstein, o avanço do tempo (a «flecha do tempo», irreversível) seria ralentizado ou anulado à medida que um corpo viajasse a uma velocidade próxima da velocidade da luz ou mesmo atingisse esta. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

3) Teleologia é a ciência ou o estudo das finalidades, das causas finais (télos aitía). No mundo sub-lunar, composto por 4 esferas concêntricas e imóveis- Terra, ao centro, água, ar e fogo - os corpos deslocam-se com a intenção de regressar à sua origem. Exemplo:se atirarmos ao ar uma pedra (para a esfera do ar) ela cai porque deseja voltar à Terra, sua origem. No mundo celeste, composto por 54 esferas de cristal, 7 delas com um planeta incrustado e as outras 47 com constelações de estrelas incrustadas , o movimento é circular, perfeito e começou assim: a última estrela, da última esfera, mais próxima de Deus viu Este, que é o pensamento puro e desejou alcançá-lo, iniciando um movimento de rotação da esfera. As outras estrelas e planetas imitaram-na no desejo de alcançar Deus, o télos deste movimento celeste. (VALE DOIS VALORES). O princípio da incerteza de Heisenberg é indeterminista: afirma que é impossível conhecer em simultâneo a posição e a velocidade de um electrão. O simples facto de observamos ao microscópio electrónico interfere com o fluxo de electrões em análise. (VALE DOIS VALORES). Para muitos astrónomos, os buracos negros do universo eram restos do núcleo de estrelas que colapsaram sobre si mesmas mas Hawkins e Penrose, discípulos de Einstein, concebem os buracos negros como singularidades, lugares onde as leis da física conhecidas deixam de funcionar, portas de entrada de outros universos. Isto é relativismo - a verdade científica varia de época a época de cientista a cientista (VALE DOIS VALORES). Em Kant, a causa-efeito é uma das 12 categorias ou conceitos puros do entendimento, não está na matéria, e a matéria é um conjunto de sensações, irreais em si mesmas, existentes na sensibilidade, que desapareceriam caso o nosso espírito se extinguisse.(VALE TRÊS VALORES).

 

 

 

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Terça-feira, 12 de Março de 2013
Teste de filosofia do 11º ano de escolaridade (último do 2º período, 2013)

 

Final do segundo período lectivo em Portugal. Eis um teste centrado na teoria do conhecimento - que classifico, classicamente, como gnosiologia - e  na epistemologia ou reflexão filosófica sobre as ciências formais, empíricas naturais e hermenêuticas.

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO, TURMA A

  11 de Março de 2013        Professor: Francisco Queiroz
I

 

«As ideias adventícias, segundo Descartes, são parcialmente ilusórias. Na teoria de Kant, as categorias são formas puras do entendimento, e influenciam a construção quer dos juízos analíticos quer dos juízos sintéticos

 

1) Explique, concretamente, este texto.

 

2) Relacione, justificando:

 

A) A lei da luta de contrários, por um lado, as quatro forças fundamentais da natureza, o relógio químico e o binómio entropia/neguentropia (ponto de vista da ciência materialista dialéctica), por outro lado.

B) Explique como, segundo a gnosiologia de Kant, se formam o fenómeno SOBREIRO e o conceito empírico de SOBREIRO.

 

C) Espaço e tempo segundo Kant, espaço e tempo segundo David Hume, e espaço e tempo segundo o materialismo dialéctico.

 

III

 

3) Disserte, livremente, sobre o seguinte temas:

 

«Revisibilidade, falsificabilidade, testabilidade, indução, verificação e corroboração nas ciências empíricas – o ponto de vista de Karl Popper, filósofo do realismo, inspirado em David Hume, filósofo do idealismo

 

CORRECÇÃO DO TESTE, COTADO PARA UM TOTAL DE VALORES

 

1) Por ideias adventícias, Descartes entendia as sensações e percepções empíricas. Exemplo: ver uma jarra de flores, saborear gaspacho, ouvir música. Ora, as percepções empíricas serão parcialmente ilusórias segundo Descartes: as cores (exemplo:o vermelho da rosa), os cheiros (exemplo: o perfume da rosa), os sabores, a dureza e a moleza, o calor e o frio, são qualidades secundárias, isto é não existem na realidade objectiva, no mundo material exterior ao corpo humano, surgem apenas na mente como ilusão, resultando do embate nos orgãos sensoriais de «poeiras» exteriores emanadas dos objectos. No entanto, as ideias adventícias, na medida em que reflectem as formas, o tamanho e o movimento dos objectos exteriores, isto é, as qualidades primárias, não transmitem ilusão mas sim verdade. (VALE TRÊS VALORES) As categorias, em Kant,  são formas a priori ou puras do entendinento, isto é, mecanismos inatos do pensamento, anteriores a toda a experiência sensorial, como por exemplo, unidade, pluralidade e totalidade (categorias da quantidade), que unificam a diversidade dos dados empíricos (do fenómeno). Os juízos analíticos são as proposições em que o predicado não acrescenta nada de novo ao sujeito, como por exemplo, o juízo «A esfera é redonda». A categoria de Realidade entra, de certo modo, na construção deste juízo. Os juízos sintéticos são as proposições em que o predicado acrescenta um conteúdo novo ao sujeito, como por exemplo, «A esfera é vermelha».(VALE TRÊS VALORES)

 

 

2) A) A lei da luta de contrários é a seguinte: um  divide-se em dois, em cada ente há uma luta de contrários que constitui a essência e o motor de desenvolvimento desse ente ou fenómeno. Essa luta manifesta-se por exemplo na oposição entre a força nuclear forte, (yin, para dentro) interacção entre os quarks e os gluões que mantém coeso o núcleo de cada átomo, mantendo os protões unidos entre si, por serem compostos de quarks, e a força nuclear fraca, (yang, para fora)  que cinde as partículas e constitui, por exemplo, a radioactividade - ou desintegração de um núcleo instável de urânio com emissão de partículas alfa, beta, radiações electromagnéticas de alta frequência gama e poeiras. Manifesta-se ainda na luta entre o electromagnetismo (yang, para fora) que inclui a luz, as ondas de rádio e televisão,  microcondas, raios X, radar, baseado na transmissão dos fotões e a  gravidade ou força gravitacional (Yin, para dentro) força atractiva que mantém unido o sistema solar e evita a explosão das estrelas,   a mais fraca das quatro forças mas aquela que se exerce numa maior vastidão. A lei da luta de contrários manifesta-se na experiência do relógio químico: moléculas azuis e vermelhas de um gás rodando num caos, em vez de originarem moléculas de cor roxa, alternam entre si a cor do gás, que ora é azul ora é vermelho, de forma homogénea, a intervalos regulares. Isto prova que a entropia, estado de desorganização molecular teorizado pelo segundo princípio da termodinâmica, não é o fim dos processos naturais mas dá origem à neguentropia, um estado de ordem da natureza, que é capaz de auto organização. (VALE QUATRO VALORES). 

 

 

2) B) O fenómeno SOBREIRO forma-se na sensibilidade, uma das três partes do espírito humano, do seguinte modo: os númenos afectam, desde o exterior, a sensibilidade (isto é, o espaço e o tempo que rodeiam o corpo do sujeito) e fazem nascer nela um caos de sensações (cores, matéria, sons, etc). Esse caos é moldado pelo espaço (extensão e formas geométricas) e pelo tempo (duração, sucessão simultaneidade) e transforma-se num sobreiro, no fenómeno sobreiro,- uma imagem tridimensional, dir-se-ia hoje. O entendimento intervém na medida em que confere ao sobreiro o carácter de substância, de divisibilidade (em partes: pernas, tampo, etc).O conceito empírico de SOBREIRO forma-se no entendimento do seguinte modo: as imagens / intuições empíricas de sobreiro (as imagens dos diferentes sobreiros que vimos) sobem da sensibilidade ao entendimento, passando pela imaginação. O entendimento, munido de categorias ou conceitos puros como unidade, pluralidade, realidade, recebe as diversas imagens de sobreiro e redu-las a uma imagem abstracta única, o conceito de sobreiro, de base empírica. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) C) Em Kant, o espaço e o tempo são formas a priori da sensibilidade,  isto é são condições subjectivas da existência da matéria, não são reais em si mesmos, mas existem antes de todo e qualquer objecto - idealismo transcendental. Em David Hume, espaço (lugar) e tempo são relações filosóficas, não existem em si mesmos fora da mente do sujeito, mas, ao contrário de Kant, não existem antes dos objectos que são meras impressões de sensação e ideias. No materialismo dialético, espaço e tempo são dimensões, desdobramentos da matéria, que é real em si mesma, anterior à humanidade, o espaço sempre existiu e nunca se reduziu à dimensão de um ponto que concentrasse toda a matéria e energia existentes no universo como sustenta a discutível teoria do Big Bang do abade Lemaitre. (VALE TRÊS VALORES)

 

3) Popper sustentou o princípio da falsificabilidade: uma teoria científica deve ser considerada potencialmente falsa (falsificabilidade) e para isso ser sujeita a rigorosos testes experimentais (testabilidade) e à discussão racional já que a indução amplificante é inaceitável (por mais cisnes brancos que vejamos não podemos inferir a tese de que todos os cisnes do mundo são brancos, a verificação implicaria conhecer a totalidade dos cisnes vivos). Portanto, só pode corrobar-se (confirmar-se) este ou aquele caso. As ciências são conjuntos de conjecturas, suposições, e não devemos nunca presumir de que atingimos a verdade definitiva. Deve procurar-se as excepções e não a regra. Defendeu a revisibilidade - em qualquer momento se podem rever as teses e os métodos de uma ciência. depois de achar anomalias .Popper era realista, admitia que o mundo material é real e não invenção da nossa mente. Inspirou-se em Hume que subjectivizou a causação, o princípio do determinismo (a causa A produz sempre o efeito B). Hume era idealista, sustentava que os objectos materiais eram ideias assentes em impressões de sensação. (VALE TRÊS VALORES)

 

 

 

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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2013
Teste de filosofia do 11º ano (2º período, 2013)

 

Eis um teste de filosofia, o primeiro do segundo período lectivo, livre de perguntas de resposta múltipla com "X" que é típico da simplificação empobrecedora do pensamento, hoje muito em voga.

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A
18 de Fevereiro de 2013. Professor: Francisco Queiroz

 

I

««As sete relações filosóficas segundo Hume correspondem, de certo modo, às categorias segundo Kant mas as primeiras são a posteriori e as segundas são a priori.  Em Kant, o entendimento é condicionado, reduz à unidade o diverso das intuições empíricas e a razão é incondicionada e produz antinomias. »

 

1) Explique, concretamente, este texto.

II

 

2) Relacione, justificando:

 

A) Os quatro passos gnosiológicos de Descartes desde a dúvida hiperbólica e o conjunto res cogitans, res extensa e res infinita.

B) A formação do fenómeno MESA e a formação do conceito empírico de MESA, segundo a gnosiologia de Kant,.

 

C) Substância e acidente, em Aristóteles, e substância em David Hume.

 

III

 

3) Disserte, livremente, sobre os seguintes temas:
«O anti empirismo do paradoxo de Zenão, e o conhecimento proposicional segundo Russell. O ser em Hegel, nas suas três fases, e o ser em Parménides. »

 

 

 

 

CORRECÇÂO DO TESTE, COTADO PARA UM TOTAL DE 20 VALORES

 

1) As sete relações filosóficas são, segundo David Hume: identidade, semelhança, relações de tempo e de lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. É discutível saber se são noções a posteriori, ou seja, que surgem na experiência sensorial e não antes desta, ou se são formas a priori, isto é, estruturas vazias que estão antes da primeira experiência. As categorias, em Kant,  são formas a priori do entendinento, isto é, mecanismos inatos do pensamento, anteriores a toda a experiência sensorial, como por exemplo, unidade, pluralidade e totalidade (categorias da quantidade). Podemos fazer corresponder a relação filosófica de causação (determinismo), em Hume, à categoria de necessidade (lei infalível de causa-efeito)  em Kant. Também podemos estabelecer correspondência entre a relação filosófica de identidade e a categoria de inerência e subsistência (substância e acidente). (ESTAS FRASES VALEM TRÊS VALORES). Em Kant, o entendimento, faculdade que pensa e conhece os fenómenos, é condicionado pela sua estrutura interna (a tábua das categorias e a tábua dos juízos puros) e pela sensibilidade onde se desenham os fenómenos (árvores, aviões, montanhas, etc). Reduz à unidade a diversidade das intuições empíricas: exemplo, o conceito de casa, formado no entendimento, é um só e resume as diferentes casas que se formam e percepcionamos na sensibilidade exterior ao corpo. A razão é incondicionada porque é livre, não tem regras que a limitem, e pensa o mundo metafísico, incognoscível. As antinomias da razão são as teses contrárias que ela produz, balançando de uma a outra, porque não tem conhecimento: por exemplo, «Deus existe, Deus não existe», «O mundo é finito, o mundo é infinito». (VALE TRÊS VALORES).

 

2) A) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos:

Dúvida hiperbólica ( «Uma vez que quando sonho tudo me parece real, como se estivesse acordado, duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo »).

Idealismo solipsista («Penso, logo existo» como mente). Este passo liga-se à RES COGITANS ou SUBSTÂNCIA PENSANTE, que é o pensamento de todos e de cada um dos entes humanos. 

Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe). Neste passo, emerge a RES INFINITA, isto é, a SUBSTÂNCIA INFINITA que é Deus, o criador de todas as coisas. 

Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, de existe fora de mim»). Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é. Descartes, realista crítico, sustentava que as qualidades secundárias, isto é, as cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores e que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. Este último passo liga-se à RES EXTENSA, ou seja, EXTENSÂO, o espaço material dotado de comprimento, largura e altura. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) B) O fenómeno MESA forma-se na sensibilidade, uma das três partes do espírito humano, do seguinte modo: os númenos afectam, desde o exterior, a sensibilidade (isto é, o espaço e o tempo que rodeiam o corpo do sujeito) e fazem nascer nela um caos de sensações (cores, matéria, sons, etc). Esse caos é moldado pelo espaço (extensão e formas geométricas) e pelo tempo (duração, sucessão simultaneidade) e transforma-se numa mesa, no fenómeno mesa. O entendimento intervém na medida em que confere à mesa o carácter de substância, de divisibilidade (em partes: pernas, tampo, etc).

O conceito empírico de MESA forma-se no entendimento do seguinte modo: as imagens / intuições empíricas de mesa (as imagens das diferentes mesas que vimos) sobem da sensibilidade ao entendimento, passando pela imaginação. O entendimento, munido de categorias ou conceitos puros como unidade, pluralidade, realidade, recebe as diversas imagens de mesa e redu-las a uma imagem abstracta única, o conceito de mesa, de base empírica. (VALE TRÊS VALORES)

 

2) C) Substância, em Aristóteles, é, em primeira mão, o ente, o objecto material, o composto que resulta da união da essência ou forma da espécie (eidos) com a matéria-prima universal (hylé). Assim Sócrates é uma substância: une a forma comum homem à matéria prima informe, indeterminada e universal, e daí resulta este homem único, de nariz achatado, chamado Sócrates que não tem essência enquanto imdivíduo.

Substância, em David Hume, é uma ideia, a representação de um corpo supostamente exterior a nós, formada a partir de impressões de sensação (exemplo: a rosa que vejo e toco é só real na minha percepção) de impressões de reflexão . Em Aristóteles substância é uma coisa real material - realismo - em Hume substância é uma ideia - idealismo. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

3) O paradoxo de Zenão sustenta o seguinte: um corredor veloz, Aquiles, não consegue apanhar uma tartaruga que se move a uma certa distância à frente dele porque, em cada segundo, percorre metade da distância que o separa da tartaruga mas esta adianta-se um pouco nesse lapso de tempo, e embora Aquiles acabe por ficar colado a ela nunca a consegue atingir; assim se prova, racionalmente, que o movimento é ilusório. Isto é anti empirismo, ou seja, é racionalismo, porque nega as percepções empíricas, a imagem de Aquiles a ultrapassar a tartaruga. Isto é conhecimento proposicional, isto é, conhecimento teórico, como sustenta Bertrand Russell. (ESTAS FRASES VALEM DOIS VALORES). Hegel considerou o ser ou ideia absoluta como a essência da história universal: na primeira fase, a ideia absoluta (Deus) está sozinho e pensa em criar o universo, o espaço e o tempo; na segunda fase, a ideia absoluta aliena-se em matéria, em reino mineral, vegetal e animal; na terceira fase, a ideia absoluta renasce em forma de humanidade, que combina o espírito da primeira fase com a matéria da segunda fase, e progride em direção à liberdade. Em Hegel, o ser é móvel e transformável, passa a não-ser na segunda fase, ao contrário do ser teorizado pelo grego Parménides, imóvel e eterno, sem devir, uno, contínuo, contíguo, homogéneo, limitado como uma esfera, imutável e imperceptível aos sentidos, apenas perceptível à razão. (ESTAS FRASES VALEM DOIS VALORES).

 

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Sábado, 17 de Dezembro de 2011
Teste de Filosofia do 11º ano de escolaridade em Portugal.

 

Eis um modelo de teste de filosofia para o 11º ano de escolaridade para o final do primeiro período letivo, que me agrada bastante.

 

 

 

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

 

 

I

 

« As impressões podem dividir-se em duas categorias: as de sensação e as de reflexão. A primeira categoria surge originariamente na alma, a partir de causas desconhecidas. A segunda é, em grande parte derivada das nossas ideias, na seguinte ordem: primeiro uma impressão atinge os nossos sentidos e faz-nos perceber calor ou frio, sede ou fome, prazer ou dor de qualquer espécie. Desta impressão, a mente tira uma cópia…» David Hume (Tratado do Entendimento Humano)

 

 

 

1) É a teoria de David Hume um realismo gnosiológico? Ou outra corrente? Justifique, explicando, em particular, a expressão «a partir de causas desconhecidas».

 

 

 

2) Explique o que são as ideias, segundo David Hume, como se formam – em particular as ideias de “eu” e “substância”.

 

 

 

3) Exponha e problematize as sete relações filosóficas ou de conhecimento segundo Hume e o papel que desempenham.

 

 

 

4) Exponha os quatro passos do racionalismo de Descartes, que celebrizaram este filósofo, iniciados na dúvida hiperbólica, apontando alguma eventual incoerência..

 

 

 

5)Relacione, justificando:

 

A) Conhecimento por contato e conhecimento proposicional, segundo Ryle e Russel, e racionalismo/ empirismo.

 

B) Indução, por um lado, e falácias depois de por causa de, da composição e da derrapagem, por outro lado.

 

C) Lei do salto qualitativo e binómio percepção empírica/conceito.

 

 

 

6)Considere o silogismo :

 

«Alguns cubenses não são andaluzes».

 

«Os cubanos não são cubenses ».

 

«Os andaluzes não são cubanos».

 

 

A)Identifique o modo e a figura do silogismo. Justifique.

 

 

B)     Identifique e enuncie, em concreto, duas leis do silogismo regular formalmente válido que foram infringidas no silogismo acima.

 

 

 

 

 

 

CORREÇÃO DO TESTE (COTAÇÃO MÁXIMA. 20 VALORES)

 

1) A teoria de David Hume não é um realismo gnosiológico porque não postula existir um mundo de objetos materiais fora da nossa mente. Ou é  um idealismo similar ao de Kant e pioneiro em relação a este, uma vez que afirma que os objetos materiais como árvores, montanhas, animais, etc, são meras representações  em nós, de «causas desconhecidas» exteriores. Ou é  um ceticismo fenomenológico na linha de Pírron e Carnéades que se limita a descrever as aparências fazendo a epochê (suspensão do juízo) .

 

2) As ideias, segundo Hume, são junto com as impressões, as duas espécies de perceções que o espírito humano forma. Toda a ideia deriva de uma impressão, seja esta uma impressão sensível - exemplo: a ideia de maçã é uma cópia pálida das impressões sensíveis que são o objeto maçã, objeto esse não exterior ao espírito - ou seja uma impressão de reflexão- exemplo: a ideia de Deus é composta na base de impressões de reflexão e ideias como as de governante supremo, ser bondoso, criador, ser justo. Há ideias complexas e ideias simples. David Hume é um empirista:

«Não podemos formar uma ideia exata do gosto de um ananás, antes de realmente o saborearmos» (David Hume, Tratado do Entendimento Humano, pag 33, Fundação Calouste Gulbenkian).

 

«As ideias produzem as imagens de si mesmas em novas ideias; mas, como se supõe que as primeiras ideias derivaram de impressões, continua ainda a ser verdade que todas as nossas ideias simples procedem, mediata ou imediatamente, das impressões que lhes correspondem.» (David Hume, ibid, pag 35).

 

As ideias de "substância" e de "eu" derivam da ideia filosófica ou categoria de identidade, que supõe a permanência, a continuidade, e da relação filosófica de causação (determinismo, princípio segundo o qual as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos), entre outras. Não existe a substância, como por exemplo, maçã: a cor amarela, a forma redonda, o pedúnculo, o sabor açucarado são impressões sensíveis que se conjugam e, combinadas pela imaginação, fornecem a noção unitária ou ideia de substância maçã.

 

3)  David Hume escreveu:

     «Há sete espécies diferentes de relação filosófica: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. Podem dividir-se estas relações em duas classes: as que dependem inteiramente das ideias que comparamos entre si e as que podem variar sem qualquer mudança de ideias.» (David Hume, Tratado do Entendimento, Humano, pag 103).

      

Estas sete relações são categorias ou estruturas lógico-ontológicas que, diferentemente do realismo aristotélico, se situam na mente do sujeito, no espírito humano. Se não possuíssemos em nós, a priori, a relação de semelhança não conseguiríamos perceber que um pinheiro e um sobreiro são coisas semelhantes enquanto espécies do género árvore. Se não possuíssemos em nós a relação de tempo não distinguiríamos entre o ontem, o hoje e o amanhã. As três relações mais estáveis, segundo Hume são as de identidade, tempo e lugar e causação.

 

 

4) Os quatros passos gnosiológicos que celebrizaram Descartes a partir da dúvida hiperbólica são os seguintes:

 

1º CETICISMO ABSOLUTO - Se quando estou a dormir me parecem verdadeiros os meus sonhos, quem me garante que, acordado, não estarei a sonhar? Assim tudo se me afigura duvidoso, ilusório: o mundo que vejo, os outros, as teorias da matemática e das ciências, Deus, o meu corpo e eu mesmo.. Não tenho certeza de nada.

2º  IDEALISMO MONISTA E SOLIPSISTA - Neste mar de dúvidas, surge-me a primeira certeza, uma ideia evidente: «Eu penso, logo existo» (COGITO ERGO SUM). Existo, como mente, não como corpo. Assim, sou único e sou tudo.

IDEALISMO PLURALISTA - Se existo e tenho a perfeição de pensar, há-de existir alguém mais perfeito que eu que me colocou essa perfeição: Deus, um espírito sumamente bom e perfeito, fonte da criação.

4º  REALISMO CRÍTICO-  Se Deus existe e é infinitamente bom e verdadeiro, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e toco: assim, embora as cores, sons, cheiros, sabores, sensações de duro e mole, de calor e frio, não existam nos objetos fora de mim mas apenas no meu cérebro, há, fora de mim, um mundo de matéria indeterminada dotado de corpos extensos com as respetivas formas e tamanhos, números e movimentos. 

 

A problematização destes argumentos oferece múltiplas vias. Eis uma delas: se Deus é o garante da verdade por que razão admite que nos enganemos sobre cores, cheiros, sons, dureza dos objetos mas não nos deixa enganar sobre as formas, os tamanhos e os movimentos? Eis outra: como sei que só possuo um certo grau de perfeição e não a perfeição toda, a ponto de remeter o que me falta para a existência de um Deus criador?

 

5) a) O conhecimento por contato, segundo Ryle e Russell, é o conhecimento direto das coisas, por via sensorial - exemplo: conheço a ponte sobre o rio Guadiana ao olhá-la, junto dela, e ao atravessá-la -  e parece articular-se com empirismo, doutrina segundo a qual as nossas ideias são provenientes, direta ou indiretamente, das perceções sensoriais. O conhecimento proposicional - definição algo ambígua, porque há conhecimento proposicional por contato; exemplo: «Estou a ver a água do rio a correr, límpida...» - articular-se-ia com o o racionalismo, corrente segundo a qual as nossas ideias são provenientes na totalidade ou em grande parte da razão, do raciocínio, mas também se articularia com o empirismo como se vê no exemplo que acabo de dar.

 

B) As três falácias referidas representam formas de indução pouco sólida, isto é, partem de um ou vários dados empíricos e generalizam: a falácia depois de, por causa de, que associa com caráter determinista, de vículo necessário dois acontecimentos vizinhos por casualidade (exemplo: vi um gato preto e duas horas depois perdi o porta moedas, uma semana depois voltei a ver um gato preto e horas depois bateram-me no automóvel, ver um gato preto dá-me azar); a falácia de composição atribui ao todo uma qualidade da parte (exemplo: Luisão, jogador do Benfica, é muito alto, logo toda a equipa de futebol do Benfica é feita de jogadores muito altos); a falácia da derrapagem encadeia sucessivamente ideias que vão perdendo gradualmente o encadeamento lógico-material entre si, o que é visível na conclusão (exemplo: vou a Madrid e visito a Puerta del Sol; na Puerta del Sol, encontro uma dinamarquesa loira a quem falo; a dinamarquesa leva-me a uma discoteca e vai comigo para o hotel; no hotel entramos na sala do bar e há um apagão geral em Madrid; logo, se vou a Madrid há um apagão elétrico geral).

 

5) c)  A lei do salto qualitativo  estabelece que uma acumulação lenta e gradual de um aspeto num fenómeno ou ente gera, num dado instante, um salto de qualidade desse fenómeno ou ente. Vou acumulando percepções empíricas de pinheiros, faias, sobreiros, isto é, imagens visuais de árvores e em seguida dá-se o salto qualitativo - a imagem presente nos sentidos é substituída por uma imagem intelectual- forma-se em mim o conceito ou representação abstrata de árvore. 

 

6) a) Modo do silogismo (classificação deste com as letras A,E,I,O segundo a qualidade e a quantidade em cada uma das 3 proposições que o compõem): OEE. E significa proposição universal negativa e O significa proposição particular negativa.

        Figura do silogismo (classificação deste segundo a posição do termo médio nas premissas, como sujeito ou predicado): primeira figura.

 

6) B) De duas premissas negativas nada se pode concluir.         

A conclusão segue sempre a parte mais fraca: havendo uma premissa particular («Alguns cubenses...») a conclusão deverá ser particular e não universal como sucede («Os andaluzes não são...»).

 

 

 

 

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