Segunda-feira, 11 de Setembro de 2017
O sublime moral para Schopenhauer

 

A noção de sublime como algo grandioso que reduz cada indivíduo que o experimenta a um ser insignificante é comum a Kant (Königsberg, 23 de Abril de 1724; Königsberg, 12 de Fevereiro de 1804) e ao seu discípulo Schopenhauer (Danzig, 22 de Fevereiro de 1788- Frankfurt, 21 de Setembro de 1860), ambos idealistas, filósofos que reduzem o mundo material a um conjunto de percepções e conceitos empíricos irreais por si mesmos.

 

Kant identificou três categorias do sublime: o sublime magnífico (exemplo: um palácio de paredes revestidas a oiro e pedras preciosas); o sublime nobre (exemplo: uma catedral gótica vazia de decorações, simples e espiritual); o sublime terrível (exemplo: rios de lava escorrendo de um vulcão, a visão do inferno povoado de demónios e almas humanas a arder como em 13 de Julho de 1917 a Virgem Maria terá, supostamente, dado aos 3 pastorinhos de Fátima). Escreveu Schopenhauer:

 

«Muitos dos objectos da nossa intuição provocam o sentimento do sublime, pelo facto de que, por causa da sua grande extensão, da sua grande antiguidade, da sua longa duração, nós sentimo-nos, perante eles, reduzidos a nada e absorvemo-nos apesar de tudo no gozo de os contemplar: a esta categoria pertencem as montanhas muito altas, as pirâmides do Egipto, as ruínas colossais da antiguidade.»

 

«A nossa teoria do sublime aplica-se igualmente ao domínio moral, particularmente àquilo que se chama um carácter sublime. Aqui, ainda, o sublime resulta do facto de a vontade não se deixar atingir de modo nenhum pelos objectos que parecem destinados a abalá-la, mas pelo contrário, o conhecimento conserva sempre a supremacia. Um homem com tal carácter considerará, portanto, os homens de uma maneira objectiva, sem ter em conta as relações que eles podem ter com a sua própria vontade; ele notará, por exemplo, os seus vícios, mesmo o ódio e a injustiça em relação a si, sem ser por isso tentado a detestá-los por sua vez; verá a felicidade deles sem a conceber com inveja; reconhecerá as suas boas qualidades, sem, contudo, querer entrar mais na sua intimidade; perceberá a beleza das mulheres, mas não as desejará. » (Arthur Schopenhauer,O mundo como vontade e representação, Editora Rés, pp 270-271, o bold é posto por nós).

 

Isto corresponde, pelo menos aparentemente, ao estado de ataraxia (ausência de paixões de amor ou ódio, de ressentimentos e desejos de vingança e de poder sobre os outros) dos antigos filósofos gregos estóicos e epicuristas.

 

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Domingo, 1 de Maio de 2016
Imprecisões de Hannah Arendt

 

Hannah Arendt (nascida Johanna Arendt; Linden, Alemanha, 14 de outubro de 1906 – Nova Iorque, Estados Unidos, 4 de dezembro de 1975) filósofa política alemã de origem judaica, discípula de Heidegger  de cujo totalitarismo político se demarcou, possui diversos equívocos no seu pensamento, sem embargo da sua vasta cultura e de ser uma pensadora notável.

 

VONTADE COMO LIVRE-ARBÍTRIO OPÕE-SE A VONTADE COMO INÍCIO?

 

Escreveu a filósofa judia:

«Na minha discussão da Vontade mencionei repetidamente duas maneiras completamente diferentes de compreender essa faculdade: como uma faculdade de escolha entre objectos ou metas, o liberum arbitrium, que actua como árbitro entre fins dados e delibera livremente sobre os meios para os alcançar; e, por outro lado, como a nossa «faculdade de iniciar espontaneamente uma série no tempo» ou o «initium ut homo creatus est» de Agostinho, a capacidade do homem para iniciar porque ele próprio é um início».

(Hannah Arendt, A vida do Espírito, volume II-Querer, Instituto Piaget, páginas 174-175; o destaque a bold é posto por nós)

 

Há alguma falta de clareza nesta dicotomia estabelecida por Hannah Arendt: o livre-arbítrio inclui a «faculdade de iniciar espontaneamente algo no tempo.» Qualquer acto de livre-arbítrio é um início: se escolho, após demorada reflexão, frequentar um templo budista ou militar num partido político estou a usar a vontade como iniciadora de um processo. Portanto, o dilema que Arendt apresenta acima é um falso dilema: vontade com livre-arbítrio inclui vontade como força iniciadora, não se opõem entre si. O verdadeiro dilema, que Hannah Arendt não põe em relevo, ao menos nesta passagem, é o que opõe a vontade consciente, como livre-arbítrio, à vontade insconsciente, cega e transpessoal em Schopenhauer, que nos leva a criar o mundo fenoménico das árvores, rios e céus, e à vontade inconsciente como pulsão libidinal ou pulsão de Eros, em Freud, que nos leva a sexualizar tudo, isto é, a olhar as pessoas como objectos eróticos, em diferentes graus. 

 

A OMISSÃO DE SCHOPENHAUER, ARAUTO DA VONTADE  TRANSPESSOAL

 

Hannah Arendt discorre  sobre a Vontade, na história da filosofia, no seu livro «Vida do Espírito, II, Querer. E considera Heidegger superior a Schelling no aspecto em que este último teorizou a Vontade personificada ao passo que Heidegger sustentaria a Vontade não personificada. Escreve:

 

«Foi nesta região de pura especulação que apareceu a Vontade durante o curto período do Idealismo Alemão. "Na instância final e muito alta", declarou Schelling," não há outro ser além da Vontade. A Vontade é o Ser primordial, e todos os predicados se aplicam unicamente a ela - falta de fundamentação, eternidade, independência do tempo, auto-afirmação! Toda a filosofia se esforça apenas por encontrar esta mais alta expressão". E citando esta passagem no seu What is called Thinking?, Heidegger acrescenta imediatamente: «Então, os predicados que o pensamento metafísico atribuiu ao Ser, Schelling encontra-os na sua forma final, mais alta... mais perfeita no querer. No entanto, a Vontade neste querer não significa aqui uma capacidade da alma humana; a palavra "querer" designa aqui o Ser dos entes como um todo" (acrescentarei os itálicos). Não há dúvida que Heidegger tem razão; a Vontade de Schelling é uma entidade metafísica mas, ao contrário das mais comuns e mais antigas falácias metafísicas, é personificada. Num contexto diferente, e com maior precisão, o próprio Heidegger resume o signifivado deste Conceito personificado: a falsa "opinião (que facilmente) resulta daí é que a vontade humana é a origem da vontade-de-querer , enquanto pelo contrário, o homem está a ser querido pela Vontade-de-querer sem sequer experimentar a essência de um tal querer".

(Hannah Arendt, A vida do Espírito, volume II-Querer, Instituto Piaget, páginas 172-173; o destaque a bold é posto por nós)

 

Mas Arthur Schopenhauer teorizou a Vontade transpessoal como a criadora do mundo que é mera representação (idealismo gnoseológico, imaterialismo) e Hannah Arendt omite-o nesse campo. Porquê?

 

 

É INTELIGENTE TROÇAR DA ASTROLOGIA HISTÓRICA DETERMINISTA?

Escreveu Arendt:

«Os homens, para sempre tentados a levantar o véu do futuro - com a ajuda de computadores ou horóscopos ou os intestinos dos animais sacrificiais - têm um cadastro pior para mostrar nessas «ciências» do que em quase todos os outros empreendimentos científicos».

(Hannah Arendt, A vida do Espírito, volume II-Querer, Instituto Piaget, página 175; o destaque a bold é posto por nós)

 

Neste texto, Arendt equipara o estudo matemático-astronómico dos factos históricos (astrologia histórica, diferente de psico-astrologia) à leitura dos intestinos de animais sacrificados... É uma pura falácia de Hannah. E manifesta a ignorância desta sobre o Ser: porque este é os 360 graus do Zodíaco, o movimento dos planetas e a corporalidade terrestre que daí se desprende.

 

Uma qualidade comum a quase todos os filósofos e professores de filosofia é não saber que os planetas comandam inteiramente o destino de cada homem, planta, animal e pedaço de matéria inerte e que a astrologia histórico-social, enquanto colectora e sistematizadora de factos empíricos, é uma ciência, mais exacta que a história, porque a esta acrescenta a astronomia, mais exacta que a psicologia, a sociologia, a economia, a antropologia.

Se Hannan Arendt possuísse a inteligência holística, que lhe faltou como faltou a Descartes, a Kant, a Leibniz, a Husserl, a Merleau-Ponty, a Heidegger, a Sartre, a Nozick, a Zizeck e a quase todos os outros doutorados em filosofia, abriria um livro de Efemérides planetárias e folheando-o, interrogar-se-ia sobre o facto de Hitler ter subido ao poder em 30 de Janeiro de 1933, com Júpiter em 22º do signo de Virgem e se ter suicidado em 30 de Abril de 1945, com Júpiter em 17º de Virgem (só uma vez durante 10 ou 11 meses, em cada 12 anos, Júpiter desliza no signo de Virgem que vai de 150º a 180º da eclíptica; é significativo que Júpiter em Virgem tenha elevado Hitler ao poder em 1933 e o tenha feito descer do poder em 1945 ).

 

 

Troçar do determinismo astral nos actos humanos individuais e político-sociais é próprio de «burros» - e as universidades, tal como as bibliotecas de filosofia e ciências, estão cheias desse tipo de «burros» licenciados, mestres e doutorados. Aliás, a história da filosofia é predominantemente a história dos «burros» académicos que sempre negaram a predestinação astral, é uma mistura de obscuridade mental e luz.  Quanta vaidade a dos filósofos, ignorantes que presumem ser a vanguarda do pensamento humano, o juíz decisivo, quando, como Heideger ou Hannah Arendt, não conhecem sequer as posições planetárias ao longo da história e os factos sociais a que deram origem!  Uma faculdade de Filosofia sem cadeiras de Astrologia Histórica não é digna do nome de universidade (universitas, saber universal).

 

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Quarta-feira, 28 de Março de 2012
Heidegger acusou, sem base, Kant de encobrir o «ser no mundo» do sujeito

 

«O Ser e o Tempo», essa "bíblia" da fenomenologia, escrita por Heidegger, é um livro de dupla face: nele, ideias e raciocínios brilhantes juntam-se a paralogismos e equívocos de que o grande público, e mesmos os especialistas em Heidegger, não se dão conta. Escreveu Heidegger:

 

« Antes de tudo, há que advertir que Kant usa o termo "existência" para designar a forma de ser que na presente investigação se chama "ser diante dos olhos". (...)

«O simples facto de que Kant peça uma prova da "existência das coisas fora de mim" mostra que põe o ponto de apoio do problema no sujeito, no "em mim". Consequentemente, desenvolve-se a própria prova partindo da mudança dada empíricamente em mim. »

«Pois só em mim é experimentado o tempo que suporta a prova. O tempo é quem dá o apoio para o salto demonstrativo do "fora de mim". (...)

«O que prova Kant - concedida a legitimidade da prova e da sua base - é o necessário "ser diante dos olhos juntamente" um ente mutável e um ente permanente. Mas a coordenação dos entes "diante dos olhos" nem sequer quer dizer já "o ser diante dos olhos juntamente" um sujeito e um objeto. E uma vez provado isto, continuaria encoberto o ontologicamente decisivo: a estrutura fundamental do "sujeito", do "ser aí"  como "ser no mundo". O "ser diante dos olhos juntamente" o físico e o psíquico é ôntica e ontologicamente em toda a linha distinto do fenómeno do "ser no mundo"».

(Heidegger, El Ser y el tiempo, pag. 224-225, Fondo de Cultura Económica) 

 

Contrariamente ao que Heidegger afirma, Kant não ocultou a estrutura do sujeito como "ser no mundo". Kant sustentou que o sujeito é o criador ou co-criador do mundo fenoménico, das paisagens terrestres e celestes e seus objetos materiais, e que não existe um dualismo ontológico rigoroso entre sujeito e objeto fenoménico:

 

«Esta hipótese de união entre duas substâncias, a pensante e a extensa, tem por fundamento um dualismo grosseiro e transforma estas substâncias, que são meras representações do sujeito pensante, em coisas subsistindo por si. Pode-se, pois, demolir a falsa concepção da influência física, mostrando que o fundamento da sua prova é nulo e fictício.»

«O famoso problema do que pensa e do que é extenso acabaria assim, se fizermos abstração de tudo o que é imaginário, simplesmente em saber como é possível num sujeito pensante em geral, uma intuição externa, ou seja, a intuição do espaço ( do que o preenche, a figura e o movimento). A esta questão não é possível a homem algum encontrar uma resposta e nunca se poderá preencher essa lacuna do nosso saber, mas somente indicar que se atribuem os fenómenos externos a um objeto transcendental...» (Kant, Crítica da Razão Pura, páginas 367-368, nota de rodapé, Fundação Calouste Gulbenkian; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Como este excerto denota, Kant não considerou o sujeito como um espectador do mundo entendido como "ser diante dos olhos" (concepção realista, dualista) mas antes como um criador do mundo, um "ser no mundo" em sentido heideggeriano.

 

Também não parece que a existência da mudança - da sucessão e dos seus correlatos duração e da simultaneidade, características do tempo, segundo Kant - constituissem, para Kant, meios de prova de um mundo exterior, como sustenta Heidegger. O facto de, na concepção de Kant, o tempo ser o sentido interno e o espaço o sentido externo não faz com que o tempo seja o trampolim de prova do "mundo exterior". Este, como mundo exterior ao corpo físico - distinção que Heidegger, Russel e outros não fazem, o que prova a  inépcia destes ao estudar a gnosiologia de Kant - está dado automaticamente na intuição pura de espaço e não carece de prova. Quanto ao verdadeiro mundo exterior ao espaço e ao espírito humano em geral, é impossível de demonstrar a sua existência ainda que a razão o idealize composto de númenos (Deus, alma imortal, mundo como totalidade).

 

Heidegger nunca compreendeu integralmente Kant, tal como a generalidade dos filósofos contemporâneos. Excetuarei Hegel e Schopenhauer e algum outro. Nem Heidegger, nem Bertrand Russel, nem Witgenstein, nem os catedráticos que hoje lecionam nas universidades mais prestigiadas entenderam, a fundo, o pensamento kantiano. Nenhum destes, nem mesmo Heidegger, clarificou o duplo sentido que Kant atribui às expressões análogas "fora de nós"  e "mundo exterior":

 

1) O espaço está fora do nosso corpo mas dentro do nosso espírito, do vasto sector deste denominado sensibilidade, um «salão» imenso onde cabe a natureza visível, audível e palpável, feita de montanhas, céus, árvores, corpos de animais e humanos, isto é, fenómenos.

 

2) Os númenos ou coisas em si estão, presumivelmente, fora do nosso corpo e do nosso espírito envolvente e constituem o verdadeiro mundo exterior. ,

 

O «Ser e o Tempo» de Heidegger é, por conseguinte, um livro com erros importantes no plano da ontognosiologia, em especial da ontognosiologia de Kant, mas o estilo retórico e emaranhado de Heidegger, sem embargo da originalidade intelectual deste, subjuga o público vulgar e os académicos, que, mais ou menos acríticos,  fingem compreender os paralogismos do grande filósofo alemão do século XX. Sou, presumivelmente, um dos únicos a gritar:«O rei (Heidegger), supostamente vestido com um fato invisível (de sapiência retórica), vai nú!».

   

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Domingo, 15 de Janeiro de 2012
Schopenhauer: as diferenças entre o homem e a mulher e como o Eros manipula o génio protetor de cada indivíduo

 

Arthur Schopenhauer (22 de Fevereiro de 1788- 21 de Setembro de 1860) foi um representante do idealismo volitivo, uma corrente que sustenta que o mundo material é meramente mental, é projeção da vontade (volição) associada à mente e é imanência a esta. Foi um dos raros filósofos que compreenderam integralmente a doutrina de Kant - ao contrário de Russell, Sartre, Heidegger e a generalidade dos académicos de hoje -  e foi um crítico implacável de Hegel.

 

Porém, na análise psicológica dos sexos e do amor, adotou uma teoria similar à da astúcia da razão engendrada por Hegel (os estadistas e outros atores da história como regicidas, generais, etc, executam nas ações que levam a cabo por impulso ou «livre-arbítrio», sem se darem conta, a vontade da razão universal) ao teorizar o génio da espécie. Este  é a força do instinto de Eros, impessoal, que domina e manipula os indivíduos como marionetas. Antes de tudo, como um pilar da sua antropologia, Schopenhauer sustentou que o amor do homem é, por natureza, polígamo e o da mulher, por natureza, monógamo: 

 

«Em primeiro lugar, deve notar-se que o homem é, por temperamento, propenso à inconstância no amor e a mulher à fidelidade. O amor de um homem declina de um modo sensível, a partir do instante em que foi satisfeito; parece que todas as mulheres têm mais atrativos do que a possui; aspira à mudança. O amor da mulher, pelo contrário, aumenta a partir desse momento. É essa uma consequência do fim da natureza, dirigido para a conservação e, por conseguinte, para o aumento, o mais considerável possível, da espécie. O homem, de facto, pode facilmente gerar mais de cem filhos num ano, se tiver outras tantas mulheres à disposição; a mulher, pelo contrário, ainda que tivesse o mesmo número de maridos não podia dar à luz mais do que um filho por ano,  excetuando os gémeos. Por isso, o homem anda sempre à procura de outras mulheres, enquanto a mulher se conserva fielmente dedicada a um só homem, porque a natureza a impele instintivamente e sem reflexão a conservar junto de si aquele que deve alimentar e proteger a pequena família futura. Daí resulta que a fidelidade no casamento é artificial para o homem e natural na mulher, e portanto o adultério da mulher por virtude das consequências que acarreta, e por ser contra a natureza, é muito mais imperdoável que o do homem.»(Schopenhauer, Metafísica do amor, páginas 38-39, Inquérito; o negrito é posto por mim. )

 

Esta concepção, que é a da tradição esotérica - o homem é Yang, movimento, luz, exterioridade, dilatação, fogo e ar; a mulher é Yin, repouso, sombra, interioridade, contração, água e terra - é rejeitada pelos movimentos feministas e pelo igualitarismo sexual hoje dominante no mundo.

 

A FINALIDADE DA ATRAÇÃO ERÓTICA E DO CASAMENTO É A PROCRIAÇÃO

 

 

É o instinto genésico, instinto da espécie que atravessa o indivíduo,  o guia na atração sexual, diz Schopenhauer. E por isso as mulheres preferem os homens de 30 a 35 anos aos rapazes de 20:

 

«Não podemos naturalmente enumerar com tanta exatidão as considerações inconscientes às quais se liga a inclinação das mulheres. Eis o que se pode afirmar de um modo geral. É a idade dos 30 aos 35 anos que elas preferem a qualquer outra, mesmo à dos jovens, que contudo representam a flor da beleza feminina. A causa é serem dirigidas não pelo gosto, mas pelo instinto, que reconhece nesses anos o apogeu da força geradora. Em geral, dão pouca importância à beleza, principalmente à do rosto; como se elas se encarregassem, por si sós, de a transmitirem à criança. É acima de tudo a coragem e a força do homem que lhes conquista o coração, porque estas qualidades são penhor duma geração de crianças robustas, e parecem assegurar-lhes, no futuro, um protetor corajoso.»

 

««A estupidez não prejudica os homens junto das mulheres; o espírito superior, ou mesmo o génio, pela sua desproporção, têm muitas vezes um efeito desfavorável. Vê-se frequentemente um homem feio, estúpido e grosseiro suplantar junto das mulheres um outro bem feito, espirituoso, delicado. Vêem-se igualmente casamentos de inclinação entre pessoas tão diferentes quanto é possível no ponto de vista do espírito: ele por exemplo, brutal, robusto e estúpido; ela, meiga, impressionável, pensando delicadamente, instruída, requintada, etc; ou, então, ele muito sábio, cheio de talento, e ela, uma pateta (...)» «A razão disso é que as considerações que predominam aqui nada têm de intelectual e dizem respeito ao instinto. No casamento, o que se tem em vista não é um colóquio cheio de espírito, é a criação dos filhos; o casamento é um laço dos corações e não das cabeças. Quando uma mulher afirma que está enamorada do espírito de um homem, é uma pretensão vã e ridícula, ou a exaltação de um ser degenerado. Os homens, por sua vez, no amor instintivo, não são determinados pelas qualidades de caráter da mulher.» (Schopenhauer, páginas 41-44, ibid; o negrito é acentuado por mim).

 

Assim, a procriação é a finalidade inconsciente da união erótica entre homem e mulher e do casamento. O instinto da espécie é uma inteligência animal que perpassa em todos os exemplares do género humano.

 

AMAR AQUILO QUE FALTA, POR ORDEM DO GÉNIO DA ESPÉCIE

 

A visão de Schopenhauer é dialética, baseada no mais alto grau da contradição - que não é a colatarealidade, nem a relatividade posicional mas a contrariedade.

 

«Todos amam precisamente o que lhes falta. (..) É assim que o homem mais viril procurará a mulher mais feminina, e vice-versa. (..) Há casos excecionais em que um homem se pode apaixonar por uma mulher decididamente feia: de acordo com a lei da concordância dos sexos, isto dá-se quando o conjunto dos defeitos e das irregularidades físicas da mulher são, justamente, a antítese e, por conseguinte, o corretivo dos do homem. Neste caso, a paixão atinge geralmente um grau extraordinário.»

«O indivíduo obedece em tudo isto, sem que o perceba, a uma ordem superior, à da espécie: daí a importância que liga a certas coisas que, como indivíduo, poderiam e deveriam ser-lhe indiferentes. » (Schopenhauer, Metafísica do Amor, páginas 44-49; o negrito é posto por mim)

 

Schopenhauer põe em relevo a luta entre o manipulador génio da espécie, o Cupido que atinge solteiros e casados e faz e desfaz relações amorosas e sociais, e o génio protetor de cada indivíduo:

 

«O génio da espécie está  sempre em guerra com os génios protetores os indivíduos, é o seu perseguidor e inimigo, sempre pronto a destruir sem piedade a felicidade pessoal, para alcançar os seus fins(...)

 

«Os casamentos de amor são concluídos no interesse da espécie e não em proveito do indivíduo. Os indivíduos imaginam, é certo, que trabalham para a própria felicidade; mas o verdadeiro fim é-lhes estranho, visto que não é outro senão a procriação dum ser que só é possível por meio deles. Obedecendo ambos ao mesmo impulso, devem naturalmente procurar entender-se o melhor possível.» (Schopenhauer, Ibid, pág. 62)

 A VONTADE DE VIVER

 

A vontade de viver, imortalmente no seio da espécie, vontade comum a religiosos, agnósticos e ateus, é, segundo Schopenhauer, a chave do comportamento humano, em particular no campo do amor sexual e do casamento. Não é apenas uma vontade de viver num mundo que nos é dado de fora: essa vontade é a criadora do mundo, mundo este que é um conjunto de representações e ilusões. As árvores só existem porque nós as projetamos e não são independentes de nós, a beleza daquela mulher ou a fealdade de outra é criação da vontade de viver que anima o nosso ser.

 

 

«O homem prova assim que a espécie lhe importa mais do que o indivíduo, e que vive mais diretamente naquela do que neste. Porque é então que o enamorado fica suspenso, num absoluto abandono, dos olhos daquela a quem escolheu? Porque está pronto a fazer por ela todos os sacrifícios? - Porque é a parte imortal do seu ser que suspira por ela, enquanto todos os seus outros desejos só se referem ao ser fugidio e mortal. Esta aspiração viva, fervorosa, dirigida para uma certa mulher, é pois um penhor da indestrutibilidade da essência do nosso ser e da sua continuidade na espécie». (..)

«Essa essência oculta é justamente o que está no fundo da nossa consciência e lhe forma o nódulo central, o que é mesmo mais imediato que essa consciência; e, na sua qualidade de "coisa em si", liberta do "principium individuationis", essa essência é absolutamente idêntica em todos os indivíduos, quer existam simultaneamente, quer se sucedam. É a isso que eu chamo, por outras palavras, "vontade de viver", isto é, essa aspiração premente à vida e à duração.»

 (Schopenhauer, ibid, pág. 65-66).

 

Aparentemente muito distante de Hegel, Schopenhauer não escapa ao traço nivelador do século XIX quando admite que a essência de cada homem é, principalmente, o princípio da espécie, a vontade de viver coletiva, e não o princípio da individuação que é fonte do egoísmo pessoal.

 

 

A INTELIGÊNCIA ABSTRATA DO HOMEM E A INTELIGÊNCIA CONCRETA E IMEDIATISTA DA MULHER

 

 

O senso prático na mulher é mais intenso do que no homem, segundo Schopenhauer. Mas senso prático não significa sempre bom senso. Significa que a mulher está mais atenta aos pormenores visíveis do quotidiano - elas reparam mais nas unhas ou nos sapatos que o homem usa do que nós nos correspondentes adereços delas; e compram, certamente, géneros mais baratos e de melhor qualidade nas lojas do que se fossem os maridos a fazê-lo. A mulher é capaz de gozar mais o momento do que o homem e, por isso, de ser mais alegre.

 

«Quanto mais nobre e perfeita é uma coisa, tanto mais lenta e tardiamente se desenvolve. A razão e a inteligência do homem só atingem pleno desenvolvimento aos vinte e oito anos; na mulher a maturidade do espírito dá-se aos dezoito anos. Por isso, só tem uma razão de dezoito anos, estritamente medida. É esse o motivo por que as mulheres são toda a vida verdadeiras crianças. Só vêem o que têm diante dos olhos, agarram-se ao presente, tomando a aparência pela realidade e preferindo as ninharias às coisas mais importantes.»

«O que distingue o homem do animal é a razão; confinado no presente, lembra-se do passado e pensa no futuro: daí a sua prudência, os seus cuidados, as suas frequentes apreensões. A razão débil da mulher não sofre dessas vantagens nem desses inconvenientes; sofre duma miopia intelectual que lhe permite, ver de uma maneira penetrante as coisas próximas; mas o seu horizonte é limitado, escapa-se-lhe o que está distante. Daí resulta que tudo quanto não é imediato, o passado e o futuro, atuam mais fracamente na mulher do que em nós: daí também a tendência muito mais frequente para a prodigalidade, e que por vezes toca as raias da demência.»

 

«No seu íntimo, as mulheres entendem que os homens são feitos para ganhar dinheiro e elas para o gastar; e se o não podem fazer durante a vida do marido, desforram-se depois da morte dele.» (...)

 

 «Em circunstâncias difíceis é preciso não desdenhar recorrer, como outrora os Germanos, aos conselhos das mulheres, porque elas têm uma maneira de conceber as coisas totalmente diferentes da nossa. ´Vão direitas ao fim, pelo caminho mais curto, porque fixam geralmente os olhares no que têm mais à mão. Nós, pelo contrário, não vemos o que nos salta aos olhos, e vamos procurar muito mais longe; precisamos que nos levem a uma maneira de ver mais simples e mais rápida. Acrescente-se ainda que as mulheres têm decididamente um espírito mais ponderado, e só vêem nas coisas o que nelas há realmente; ao passo que nós, impelidos pelas paixões excitadas, aumentamos os objetos e representamos quimeras.»

«As próprias aptidões naturais explicam a piedade, a humanidade, a simpatia que as mulheres testemunham aos desgraçados, ao passo que são inferiores aos homens no que respeita à equidade, à retidão e à escrupulosa probidade. Devido à fraqueza da sua razão, tudo o que é presente, visível e imediato, exerce sobre elas um domínio contra o qual não conseguiriam estabelecer as abstrações, nem as máximas estabelecidas, nem as resoluções enérgicas, nem consideração alguma do passado ou do futuro, do que está afastado ou ausente. Possuem da virtude as primeiras e principais qualidades, mas faltam-lhe as secundárias e acessórias...

 «Assim a injustiça é o defeito capital dos temperamentos femininos. Isto resulta da falta de bom senso e de reflexão que apontamos; e o que agrava ainda este defeito, é que a natureza, recusando-lhes a força, deu-lhes a astúcia para lhes proteger a fraqueza; daí a sua instintiva velhacaria e a invencível tendência para a mentira.» (...)

«Deste defeito fundamental nascem a falsidade, a infidelidade, a traição, a ingratidão, etc.»

(Schopenhauer, Ensaio acerca das mulheres, in Metafísica do amor, páginas 74-77; o negrito é posto por mim).

 

Este texto de Schopenhauer, extraordinariamente interessante e polémico, faz estremecer de indignação o universo feminino libertário e demo-liberal atual que faz passar as ideias de que «as mulheres são mais inteligentes do que os homens» e de que «quase não houve mulheres filósofas consagradas nos séculos que transcorreram porque a educação literária e a escolaridade eram praticamente só reservadas aos homens.»

 

 

 

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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011
Schopenhauer: a vontade, herdada do pai, o intelecto, herdado da mãe

 

Schopenhauer admitiu que, na herança genética recebida em cada indivíduo, o pai transmistiu certas faculdades, como a vontade, e a mãe transmitiu outras, como o intelecto. 

 

«A componente desarmónica, desigual e oscilante da maioria dos homens se poderia talvez deduzir do facto de que o indivíduo não tem uma origem simples mas recebe a vontade do pai e o intelecto da mãe. Quanto mais heterogéneos e desproporcionados eram entre si ambos os progenitores, maior será aquela desarmonia, essa desavença interna.»

 

 (Arthur Schopenhauer, El mundo como voluntad y representación, Complementos, pag 580, Editorial Trotta, Madrid; o negrito é da minha autoria).

 

«O sanguinário tirano e defensor fidei Henrique VIII de Inglaterra teve por filha do seu primeiro matrimónio a rainha Maria, destacada pela sua afectação de virtude e crueldade, que recebeu o sobrenome de bloody Mary pelas suas numerosas queimas de herejes.» (ibid, pag 573).

 

«Se houvesse de falar de casos em que um filho altamente dotado não tivesse uma mãe intelectualmente destacada, tal coisa poderia explicar-se pelo facto de que a sua mãe teria tido, por sua vez, um pai fleumático, pelo que o seu cérebro inusualmente desenvolvido não teria sido adequadamente excitado pela energia do fluxo sanguíneo (..) Não obstante, o seu sistema nervoso e cerebral, sumamente desenvolvido, ter-se-ia transmitido ao filho, ao que se haveria juntado um pai vital e apaixonado, com um ritmo cardíaco enérgico; e deste modo teria aparecido aqui a outra condição somática de uma grande força de espírito.» (ibid, páginas 579-580; o negrito é posto por mim).

 

Para Schopenhauer a vontade é, pois, masculina, e o intelecto é feminino, no plano ontogenético. Talvez isto seja demasiado dicotómico. Se invocarmos a lei da participação mútua dos contrários ( Yang, dilatação, luz, opõe-se a Yin, contracção, escuridão, mas no Yang há um pouco de Yin e viceversa), a vontade possui um pouco de intelecto e este contém um pouco de vontade.

 

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Schopenhauer: ideia difere de conceito e a história é o individual e contingente

 

Schopenhauer estabeleceu uma diferença entre a ideia, que em Platão é um singular, copiável de forma degradada, e o conceito que, em Aristóteles, é essência (dispersível) ou género supra-essencial, isto é, uma forma que se multiplica sem degradação. O conceito-forma está em todas as coisas concretas que lhe correspondem - Aristóteles chega a dizer que não há esfera fora das esferas de bronze, ferro e outras existentes - mas a ideia não.

 

Em Schopenhauer, nem a ideia nem o conceito guiam o desenvolvimento histórico concreto, à maneira da doutrina de Hegel que estabelece degraus que as sociedades vão percorrendo: mundo oriental (só um homem livre), mudo greco-romano (alguns homens livres) mundo cristão transformado pela reforma luterana e pela revolução francesa (todos os homens são livres), eis o travejamento hegeliano da história. Schopenhauer não embarca nesta hierarquização dos estados da história, insiste no individual e imprevisível.

 

«Sendo a matéria da arte a ideia e a da ciência o conceito vemos que ambos se ocupam do que existe sempre e sempre da mesma maneira, não do que agora é e agora não é, agora é assim e agora é de outra forma: por isso ambos têm a ver com aquilo que Platão estabeleceu como o objecto exclusivo do verdadeiro saber. A matéria da história é, ao contrário, o individual na sua individualidade e contingência, o que é uma vez e logo não volta a ser,  as combinações efémeras de um mundo humano que se move como as nuvens com o vento,e que com frequência se transformam completamente devido ao mais pequeno acidente. Desse ponto de vista, a matéria da história apresenta-se-nos como um objecto quase nada digno de uma séria e esforçada consideração por parte do espírito humano; um espírito humano que, precisamente porque é tão perecível, deveria escolher para seu estudo o imperecível» (Arthur Schopenhauer, El mundo como voluntad y representación, Complementos, pag 493, Editorial Trotta, Madrid).

 

Schopenhauer é, pois, uma das fontes do existencialismo, doutrina segundo a qual o rio da existência humana de cada um escolhe, caprichosamente ou não, o leito da essência. As nossas acções ou actos-existência fazem o nosso carácter-essência e não o inverso.


 

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Domingo, 18 de Setembro de 2011
Schopenhauer: tudo é belo enquanto não interferir connosco

 

A tese de Schopenhauer sobre a beleza  das coisas consiste em que esta só existe enquanto o ser humano possui uma relação impessoal, distanciada, desprendida, com essas mesmas coisas. Neste ponto, coincide com a estética de Kant: o desinteresse é a mola propulsora da apreensão do belo. Escreveu o filósofo alemão:

 

«Ao jovem, cujo intelecto intuitivo actua ainda com uma fresca energia, a natureza apresenta-se-lhe, amiúde, com uma completa objectividade e, por isso, com perfeita beleza. Mas o prazer dessa visão é perturbado às vezes pela entristecedora reflexão de que os objectos que tão belos se lhe apresentam não têm uma relação pessoal com ele em virtude da qual pudesse interessar-se ou alegrar-se com eles: com efeito, ele espera que a sua vida tenha a forma de uma interessante novela.»

(...)Tudo é belo enquanto não interferir connosco (Não falamos aqui da paixão amorosa mas do prazer estético). A vida nunca é bela, só o são as imagens da vida no espelho da arte ou da poesia que a transfigura; sobretudo na juventude, quando ainda não a conhecemos. » (Arthur Schopenhauer, El mundo como voluntad y representación, Complementos, pag 420-421, Editorial Trotta, Madrid)

 

 Isto exprime e reforça a teoria do distanciamento físico e, sobretudo, económico-laboral-comercial como base para a fruição da beleza: ao longe e não utilitário  é belo, ao perto, ao pormenor e utilitário é feio, quase poderia dizer-se.

 As relações de dominação, de extracção de lucro sobre certas coisas, de vizinhança permanente, diminuem ou fazem desaparecer a intuição do belo nessas coisas: operários que fabricam alheiras ou hamburgers não acharão, provavelmente, belos estes alimentos, ao contrário dos clientes de restaurantes que solicitam pratos com esses alimentos.  

 

 

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Sábado, 17 de Setembro de 2011
Schopenhauer: a matéria não é um «em si», é a «visibilidade da vontade»

 

Schopenhauer, (22 de Fevereiro de 1788- 21 de Setembro de 1860), filósofo idealista volitivo, rejeitou o materialismo e «o naturalismo que o originou ». Segundo ele, o mundo físico é um conjunto de ideias e imagens produzidas pelo nosso eu. Mas, ao contrário de Kant, que acentua o carácter ontológico (númeno) e imaginativo-lógico (formas a priori) da génese do conhecimento,  Schopenhauer sublinha o carácter volitivo ou bulesiológico do conhecimento (este deriva da vontade de viver).  Escreveu:

 

«A iniludível falsidade do materialismo consiste antes de tudo em que parte de uma petitio principii que, examinada mais de perto, se mostra inclusive como uma protón pseudos (primeiro erro)  a saber: a suposição de que a matéria é algo estrita e incondicionalmente dado que existe independentemente do conhecimento do sujeito, ou seja, propriamente uma coisa em si. O materialismo atribui à matéria (e com ela também aos seus pressupostos, o tempo e o espaço) uma existência absoluta, quer dizer, independente do sujeito que a percebe: este é o seu erro fundamental.» (Arthur Schopenhauer, El mundo como voluntad y representación, Complementos, pag 356, Editorial Trotta, Madrid; a ltra negrita é posta por mim).

 

«Pois na realidade a matéria não é, para o nosso conhecimento mais do que o veículo das qualidades e forças naturais que se apresentam como seus acidentes; e precisamente porque reduzi estes à vontade, é que chamo à matéria a mera visibilidade da vontade. Mas, despojada de todas essas qualidades, a matéria fica algo sem propriedades, no caput mortuum da natureza com o que honradamente nada há a fazer.» (ibid, pag 359; o negrito é colocado por mim).

 

Note-se que esta vontade em Schopenhauer não é a vontade livre associada ao livre-arbítrio mas uma vontade inconsciente da natureza inerente ao eu, uma força imperiosa ou necessária, que age dentro do eu englobante do universo. A vontade cria o mundo visível, audível e palpável. Por isso, Schopenhauer denomina a matéria que compõe o mundo de "visibilidade da vontade". Fazemos parte e estamos submetidos a essa Vontade de viver, verdadeira máquina de filmar-projectar que inventa e projecta na tela dos nossos sentidos o filme imaginário de um mundo que não é real, com a sua Nova Iorque, a sua Londres, a sua Amazónia, os seus cinco continentes terrestres, a galáxia e o resto do universo. A filosofia de Schopenhauer é um vitalismo idealista, não um materialismo, versão do género realismo,nem um ideomaterialismo tipo doutrina de Hegel.

 

A SUPERIORIDADE DO IDEALISMO, DA AUTOCONSCIÊNCIA, SOBRE O MATERIALISMO ENTENDIDO COMO REALISMO

 

E acentuando a sua matriz idealista - o mundo é ideia dentro da minha enorme mente, nasce e permanece nesta - Schopenhauer referindo-se à filosofia escreve:

 

«...Demonstrei a insuficiência do materialismo, enquanto é, como ali se disse, a filosofia de um sujeito que, nas suas contas se esquece de si mesmo. Mas todas estas verdades se baseiam em que tudo o que é objectivo, tudo o que é externo, ao ser sempre meramente percebido ou conhecido, continua a ser algo mediato ou secundário, pelo que nunca pode converter-se na razão explicativa última das coisas ou no ponto de partida da filosofia. Esta exige necessariamente como ponto de começo o estritamente imediato: mas só é tal o dado à autoconsciência, o interno, o subjectivo. Daí que seja um mérito tão eminente de Descartes o ter sido o primeiro em tomar a autoconsciência como ponto de partida da filosofia. Por esse caminho prosseguiram a partir de então, cada um à sua maneira, os autênticos filósofos, antes de todos Locke, Berkeley e Kant; e como resultado das suas investigações cheguei eu a ter o cuidado e a servir-me, não de um mas dos dois diferentes dados de conhecimento imediato que há na autoconsciência: a representação e a vontade, a aplicação de ambas em combinação permite avançar em filosofia tanto como quando em um problema algébrico se dão duas magnitudes conhecidas em lugar de uma.» (Schopenhauer, ibid, pag 356; o negrito é posto por mim).

 

 

Sem dúvida, Schopenhauer utiliza o termo materialismo não no sentido de ateísmo e protologia da matéria no universo mas no sentido de realismo, exterioridade da matéria a uma e a todas as mentes humanas.

 

AMBIGUIDADE NO SENTIDO DADO AO TERMO «MATERIALISMO» E REDUÇÃO DESTE A ATOMISMO

 

E acusa o materialismo de desembocar em atomismo, com o argumento algo paradoxal de que ignora por completo o intelecto:

 

«Mas o materialismo ignora por completo o intelecto como condição de todo o objecto e do conjunto dos fenómenos. A sua intenção é reduzir todo o qualitativo ao meramente quantitativo, incluindo as qualidades dentro da mera forma em oposição à verdadeira matéria: de esta só admite, dentro das qualidades empíricas, o peso, posto que já aparece em si mesmo como algo quantitativo, como a única medida da quantidade de matéria. Esse caminho condu-lo necessariamente à ficção dos átomos, que se convertem no material com que pensa construir as enigmáticas manifestações de todas as forças originárias.» (ibid, pag 357; o negrito é posto por mim)

 

Este materialismo atomista, quase insubstancialista, de que Schopenhauer fala é um realismo crítico, que faz das cores, sons, cheiros, sabores percepções subjectivas do sujeito e não qualidades objectivas exteriores. É obtido, ao contrário do que sugere o filósofo alemão, através do exercício do intelecto - razão e imaginação - contra os dados empíricos. Aproxima-se, pois, do idealismo. Dizer que o materialismo ignora por completo o intelecto não é adequado. Não posso concordar com Schopenhauer neste ponto

 

. Além disso, a concepção atomista - a matéria é composta de átomos, elementos infinitamente pequenos que giram no vazio e se combinam entre si - não é necessariamente uma concepção materialista (no sentido de realista, isto é matéria fora das mentes humanas). O idealismo (no sentido de imaterialismo, isto é, a matéria não é um em si fora das mentes humanas) é compatível com o atomismo.

 

 

 

 

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Domingo, 5 de Agosto de 2007
Filósofos e professores de Filosofia, na óptica de Schopenhauer

Schopenhauer sustenta que os catedráticos de filosofia não são, em regra, autênticos filósofos porque estão obrigados a representar o papel de «sábios», com respostas para tudo, e isso impede-os de levar a cabo a investigação livre da verdadeira filosofia, desprendida de interesses económicos e de prestígios institucionais:

 

 «Descobrimos aqui em primeiro lugar que, desde sempre, muito poucos foram os filósofos que foram também professores de filosofia e, proporcionalmente, ainda menos os professores de filosofia que foram também filósofos. Podíamos dizer por consequência que, do mesmo modo que os corpos idioeléctricos não são condutores de electricidade, os filósofos não são professores de filosofia. Em verdade, para o que pensa por si mesmo esta tarefa estorva-o mais do que qualquer outra. Pois a cátedra de filosofia é de certo modo um confessionário público, onde um faz a sua profissão de fé coram populo (em presença do povo). Ademais, em ordem à aquisição autêntica de uma compreensão fundamental e profunda, quer dizer, em ordem a chegar a ser de verdade sábio, quase não há nada que seja mais contraproducente que a obrigação perpétua de parecer sábio, esse alardear de supostos conhecimentos ante uns alunos ávidos de aprender, esse ter à mão respostas para todas as perguntas imagináveis» (Arthur Schopenhauer, Sobre la Filosofía de Universidad, Editorial Tecnos, Madrid, pag. 46-47).

 

E mostra que há uma rede de solidariedades pessoais entre os professores catedráticos e os agregados que cria um corrupto aparelho de propaganda de prestígios e índices de saber aparente:

 

«Con los filósofos académicos de nuestros días las cosas van sin duda más aprisa. No tienen tiempo que perder: es suficiente que un profesor cualquiera proclame, ante los colegas importantes de la universidad más próxima, que la doctrina de su compañero constituye la culminación de la sabiduría humana, finalmente lograda. Enseguida se convertirá en un grande filósofo, pasando a ocupar sin más preámbulos el lugar que le corresponde en la historia de la filosofía, es decir, en la que un tercer colega está preparando para la próxima exposición» (Schopenhauer, ibid, pag 63)

 

O que vale o saber universitário institucional dos catedráticos, agregados e outros? Muito menos do que aquilo que aparenta. A entrada para o cargo de catedrático faz-se por cooptação: são os poucos que já lá estão que decidem sobre o valor da tese de doutoramento e, em regra, não permitirão que esta derrube as torres de prestígio que construiram para si mesmos...

 

Aliás, não são os melhores professores de filosofia quem faz os programas de filosofia, os testes nacionais de exame, os manuais. São aqueles que, mercê do seu activismo teórico  - em muitos casos marcado por inépcia - e da sua capacidade de promoção mediática - ora porque se constituiram em associação ou sociedade de professores de filosofia, ora porque contactaram na hora certa o editor X ou Y ou o funcionário do Ministério da Educação ligado ao Departamento de programas ou de avaliação de exames - conseguem conquistar lugares-chave. E em Portugal, um país de clientelas seculares, onde a «cunha» e o telefonema simpático que abre uma porta do poder ao "esperto" são comuns, mais se acentua o triunfo dos incompetentes que passam por «filósofos inovadores».

 

Como obstar a isto? É quase impossível. Só através de um largo movimento de crítica pensante, que inclui a publicação em papel ou na internet de numerosos artigos mostrando as falácias e insuficiências teóricas dos autores dos programas, manuais e exames nacionais de filosofia, é possível reduzir ou mesmo apagar a deletéria influência dos medíocres e dos pseudo-pensadores (licenciados, mestres e doutores) que, pretensamente críticos e organizados em rede, possuem no número vasto dos seus adeptos e iniciativas «filosóficas» a arma para triunfarem socialmente.

 

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Terça-feira, 2 de Janeiro de 2007
A História da Filosofia no Ensino da Filosofia

Desde há mais de uma década, procura impor-se, em Portugal como noutros países do mundo, uma corrente revisionista do ensino da filosofia que visa expurgar deste ou reduzir nele a uma ínfima dimensão, a história da filosofia. Desidério Murcho, um dos arautos desta corrente, escreveu no seu blog «www.pensologosou.no.sapo.pt» um artigo «O que é a Filosofia?» no qual diz o seguinte:

 

«Nas nossas escolas confunde-se filosofia com história da filosofia e esta última com história das ideias. Uma vez mais, esta confusão parece resultar da ideia de que a filosofia "morreu"; logo, só resta fazer a sua história. Isto é de tal forma subterrâneo que as pessoas não sabem distinguir filosofia de história da filosofia, havendo até quem afirme, com sabor a Hegel, que a filosofia consiste na sua história. É impressionante a quantidade de coisas que se inventam para fugir à filosofia; parece que a filosofia incomoda muita gente.

«A filosofia ocupa-se de problemas, teorias e argumentos. A história da filosofia não se ocupa do estudo dos problemas, teorias e argumentos da filosofia, a não ser como meio e não como fim em si. Para um estudante de filosofia, a história da filosofia é um meio para compreender melhor o que determinado filósofo queria realmente dizer; para compreender melhor determinado problema, teoria ou argumento. Mas é apenas um meio. O fim é perguntar-se se o filósofo tem razão, depois de ter compreendido o que ele queria dizer. Haverá boas razões para pensar que sim? Ou melhores razões para pensar que não? Estudar filosofia é aprender a pensar pela sua própria cabeça nos grandes problemas e argumentos da filosofia, e ter uma atitude crítica em relação às grandes teorias que os filósofos inventaram para tentar resolver esses problemas. » (Desidério Murcho; o negrito é da nossa autoria).

 

 

Desmontemos alguns dos sofismas do pseudopensador Desidério:

 

1) Desidério Murcho opõe, sofisticamente, filosofia a história da filosofia. Segundo ele, ensinar, por exemplo, que Platão sustentava a existência de três mundos - o dos Arquétipos ou do Mesmo; o do Tempo, dos Números Móveis e dos movimentos planetários ou do Semelhante; o da Matéria Física ou do Outro- é «fazer história da Filosofia, mas não filosofia». Destituído da racionalidade holística que é apanágio dos verdadeiros filósofos, Desidério Murcho não compreende sequer que a história da Filosofia é uma exposição de raciocínios e teses de filosofias geradas pelos filósofos A,B,C,D, e que, portanto, é, na sua essência, filosofia ou um mosaico de filosofias.

 

Pode não ser a filosofia que o aluno deseje mas é filosofia. Pela parte que me toca, na qualidade de professor de Filosofia no ensino secundário, exponho, em regra, aos meus alunos do 11º ano, as bases da teoria de Platão dos três mundos, e da teoria de Pitágoras dos quatro números figuras (um, o ponto; dois, a recta; três, o plano; quatro, o sólido), isto é, dou história da filosofia, que é, simultaneamente, filosofia. Mas não me cinjo a perguntas de memorização nos testes. Elaboro perguntas filosóficas - como por exemplo: Relacione o papel do número nas teorias de Platão e Pitágoras - a partir das quais emergem os alunos criativos e genuinamente filosóficos e toda a turma é solicitada à reflexão filosófica.

 

A concepção dialéctica é isto: a história da filosofia contém em certa medida o seu contrário, a filosofia, e viceversa.

Os professores que, seguindo Desidério Murcho e os apologistas do vácuo filosófico, não dão teses da história da filosofia e tentam apagar esta em nome da «liberdade de filosofar» conduzem, em regra, os alunos ao analfabetismo filosófico. Abolir a história da filosofia do ensino da filosofia é regressar à idade das cavernas.

 

É como se os arquitectos do século XXI decidissem derrubar o templo de Diana de Évora, o Mosteiro dos Jerónimos, as catedrais góticas, o Alhambra de Granada e todos os monumentos clássicos do mundo inteiro em nome da liberdade de «descobrir e criar a verdadeira arquitectura». Se as diversas ciências fizessem o mesmo, isto é, se a física não ensinasse as leis de Boyle e Gay-Lussac, a lei da gravitação universal de Newton, o modelo de átomo de Bohr, que aprenderiam os alunos, como se desenvolveriam intelectualmente em tempo útil nas escolas?

 

2) Não há contradição nenhuma entre ensinar filosofia e ensinar história da filosofia - a não ser, claro, nas mentes confusas de Desidério Murcho e do seu grupo de «iluminados». O ensino da filosofia compõe-se de duas vertentes: história da filosofia (ou história das ideias filosóficas, que é o mesmo) e heurística (arte de pensar e descobrir a verdade por si mesmo). Os professores inteligentes e competentes sabem combinar estas duas vertentes nas suas aulas (a tradição e a criação inovadora). A história da filosofia está dentro da filosofia embora não esgote a extensão desta. Não são mutuamente extrínsecas entre si.

 

Ao invés do que sugere Desidério, estudar as ideias de Platão, Guilherme de Ockam, Nicolau de Cusa, Leibniz ou Schopenhauer não impede ninguém de filosofar, de pensar pela sua própria cabeça, antes pelo contrário, estimula a verve filosófica de cada aluno. Existe o risco da memorização na avaliação? Sim, mas a memória é necessária à inteligência criativa e não é má, em si mesma. Há um risco ainda maior nos que optam por abolir a tradição filosófica: o do vacuismo anti historicista e conteudal, susceptível de produzir alunos «livres» e ignorantes, porque não solicitados aos desafios do pensamento consagrado historicamente.

 

Aristóteles escreveu, por exemplo:

´

«O agora é a continuidade do tempo, como já dissemos, pois enlaça o tempo passado com o tempo futuro e é o limite do tempo, já que é começo de um tempo e fim de outro. Mas isto não é evidente como é o ponto, que permanece. O agora divide potencialmente, e enquanto divide é sempre distinto, mas enquanto une é sempre o mesmo, como no caso das linhas matemáticas. Porque no pensamento o ponto nem sempre é uno e o mesmo...»  (Aristóteles, Física Livro IV, 222 a)

É antifilosófico estudar isto? De que tem medo Desidério Murcho, senão do pensamento profundo de Aristóteles que o ultrapassa infinitamente, como ultrapassa a grande maioria dos catedráticos de filosofia contemporâneos?

 

3) Não é verdade que a história da filosofia seja apenas um meio para os estudantes compreenderem os problemas filosóficos. É um meio e também um fim porque há correntes - lembro o estruturalismo - que recusam dissociar o conteúdo filosófico do contexto social, político, cultural e religioso em que foi gerado. É também um fim do ensino da Filosofia saber, por exemplo, que o «cogito» de Descartes foi formulado no século XVII no contexto da Contra Reforma e que o «imperativo categórico» de Kant se estruturou nos alvores da revolução burguesa em França de 1789-1795.

 

Só um pseudopensador antidialéctico como Desidério Murcho, que reduz a slogans superficiais e populistas a sua crítica à filosofia genuína, opõe filosofia a história da filosofia. Separa a reflexão, atitude por excelência filosófica, do seu conteúdo ou produto, tal como Descartes separou o cogito (EU PENSANTE) das ideias pensadas. Mecanicismo...

 

O sofisma de Desidério formula-se assim:

 

«A história da filosofia não é filosofia».

«Os professores do secundário ensinam, em regra, história da filosofia,

«Logo, os professores do secundário não ensinam filosofia».

 

E refuta-se deste modo:

 

«A história da filosofia é, em parte não filosofia (história) e em parte filosofia.»

«Os professores do secundário ensinam história da filosofia».

«Os professores do secundário ensinam filosofia, sobretudo aqueles que insistem na heurística adicionada à transmissão da filosofia tradicional».

 

Desidério não é um pensador genuíno, profundo, ainda que a sua produção de artigos, livros e entrevistas seja abundante e o seu trabalho como tradutor de livros de filosofia seja notável. De facto, é um sofista "analítico", um antifilósofo cujas teses e artigos são abundantes em paralogismos que temos posto a nú noutros artigos deste blog. Quase reduz a filosofia à argumentação retórica, não compreendendo sequer que há uma vertente de rigor científico no interior da filosofia que ele não domina e teme - daí o seu «ódio» ao hegelianismo e ao positivismo e a outras correntes.

 

No entanto, o seu activismo jornalístico de homem do marketing «filosófico» - escreve um pouco de tudo em toda a parte, com a insustentável leveza do «não ser» dos cronistas sociais, aproveita o elogio do Eduardo Prado Coelho, ou de outro catedrático, a amizade de editores de filosofia com fraco critério de qualidade para espalhar, em livros, artigos de jornais e revista, as «suas» teses- conferiram-lhe uma projecção que o elevará ao doutoramento no Kingston College ou no Brasil («para inglês e brasileiro ver»).

 

Assim, se somará a uma plêiade de catedráticos mais ou menos incompetentes e arrogantes, «bispos» da igreja «filosófica» que se consubstancia nas cátedras de filosofia institucional em Portugal, Reino Unido e noutros países.

Enquanto nós, talvez os genuínos filósofos, meditamos e produzimos teses, na sombra da pirâmide do conhecimento, sem a vertigem do sucesso fácil a que Desidério acedeu.

 

Nota: Por muito que pareça o contrário, a nossa crítica a Desidério Murcho não é de carácter pessoal. Ele é  decerto, uma pessoa estimável, melhor que muitos catedráticos de Filosofia entronizados nas suas vaidades. Criticamos, sim, as suas ideias e o modelo de Universidade que representa.

 

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