Terça-feira, 13 de Dezembro de 2016
Teste de Filosofia do 11º ano de escolaridade (6 de Dezembro de 2016)

 

Eis um teste de filosofia do 11º ano de escolaridade, o último do primeiro período lectivo.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

6 de Dezembro de 2016. Professor: Francisco Queiroz

I

“Alguns diretores de cinema são norte-americanos.

Alguns norte-americanos são racistas.

Os racistas não são directores de cinema.».

1-A) Indique, concretamente, três regras do silogismo formalmente válido que foram infringidas na construção deste silogismo.

1-B) Indique o modo e a figura deste silogismo.

II

“Um só caminho nos fica – o Ser é! Existem milhares de sinais de sinais demonstrativos de que o Ser é incriado…Ser e Pensar é um e o mesmo”(Parménides de Eleia).

 

2-A) Explique o que é o Ser segundo Parménides, com base no texto e em outras fontes, e relacione Ser com realismo, idealismo e fenomenologia.

 

3)Relacione, justificando:

A) Ser fora de si e ser para si, em Hegel, e lei do salto qualitativo.

B) Espírito de um Povo, Espírito do Mundo e Holismo, em Hegel

C) Percepção Empírica, Conceito, Juízo e Intuição Inteligível.

D) Falácia depois de por causa de e indução amplificante.

E) Idealismo, Realismo Crítico e os quatro passos gnoseológicos do raciocínio de Descartes.

 

CORREÇÃO DO TESTE DE AVALIAÇÃO COTADO PARA 20 VALORES

 

I

A) Três regras infringidas da validade do silogismo acima foram: de duas permissas afirmativas não se pode extrair uma conclusão negativa; nenhum termo pode ter maior extensão na conclusão do que nas premissas (alguns racistas na permissa menor/ os racistas  na conclusão); o termo médio (norte-americanos ) tem de ser tomado pelo menos uma vez universalmente e está tomado apenas no sentido de «alguns» e não de «todos». (VALE TRÊS VALORES).

 

1-B) O modo do silogismo é IIE, a figura é PS (predicado e predicado refere-se à  posição do termo médio nas premissas) ou 3ª figura.(VALE UM VALOR).

 

2)  A ontologia de Parménides de Eleia diz que a única realidade é o ser, um ente uno, imóvel, imutável, esférico, invisível, imperceptível, eterno, que não foi nem será porque é eternamente o mesmo e diz que «ser e pensar são um e o mesmo». A mudança das cores, o nascimento, o crescimento, o decrescimento e a morte, a sucessão das estações do ano e todas as mudanças são aparências, ainda que o ser possa estar subjacente a elas, escondido atrás delasA interpretação realista desta  frase «ser e pensar são um e o mesmo». é: o pensamento é idêntico ao ser, é espelho do ser material ( e aqui podemos «ler» o ser como realismo, doutrina que sustenta que o mundo de matéria é real em si mesmo). A interpretação idealista da mesma frase é: o ser é pensamento, nada existe fora da ideia absoluta que é o ser, e o mundo de matéria, com a mudança das estações do ano, o nascimento e a morte não passa de ilusão (idealismo é a teoria que afirma que o mundo material é irreal é como um sonho dentro da minha ou das nossas imensas mentes). A fenomenologia é a doutrina céptica no seu fundo que afirma que a mente humana e a matéria são correlatas não se sabendo se o mundo material existe em si mesmo ou não. (VALE QUATRO VALORES)

 

 3-A) Para Parménides, o ser é invisível, imóvel, imutável, exclui as aparências empíricas. O ser é significa a sua eternidade e imutabilidade: não principiou, não acabará. Para Hegel, o ser é invisível e visível consoante as épocas, é mutável, inclui as aparências empíricas (o verde das árvores, o calor do sol, etc) e   desdobra-se em três fases, segundo a lei da tríade: fase lógica, Deus sozinho antes de criar o universo o espaço e o tempo (é a tese ou afirmação, o primeiro momento da tríade); fase da natureza ou do ser fora de si, na qual Deus se aliena ou separa de si mesmo ao transformar-se em espaço, tempo, astros, pedras, montanhas, rios, plantas e deixa de pensar (é a antítese ou negação, o segundo momento da tríade); fase da humanidade ou do espírito ou do ser para si, em que a ideia absoluta/Deus emerge com a aparição da espécie humana, que é Deus encarnado evoluindo em direção a si mesmo, por sucessivas formas de estado, desde o despótico mundo oriental (um só homem livre, o faraó ou o imperador oriental) passando pelo mundo greco-romano (alguns homens são livres, os escravos e os servos não) até ao mundo cristão da Reforma protestante onde todos os homens são livres (é a síntese ou negação da negação). A lei do salto qualitativo postula que a acumulação lenta e gradual em quantidade de um dado aspecto de um fenómeno leva a um salto brusco ou nítido de qualidade nesse fenómeno. Podemos dizer que na fase do ser fora de si foram surgindo, uma a uma, as espécies vivas de plantas e animais (acumulação em quantidade, lenta) até que com o aparecimento do homem se deu o salto de qualidade. (VALE TRÊS VALORES).

 

3-B) Espírito de um povo é o conjunto da sua filosofia, dos seus mitos, da sua organização política e social, do seu direito, arte, religião, literatura, folclore. O espírito do povo português inclui catolicismo com devoção a Fátima, chico-espertismo individualista (fuga aos impostos, etc.) ao passo que o espírito do povo sueco inclui protestantismo, amor à natureza florestal, trabalho em equipa descentralizada.  O espírito do mundo é a soma dos espíritos de todos os povos do mundo e isso é holismo, visão de conjunto que lê as partes a partir do todo (VALE DOIS VALORES).

 

3-C) Percepção empírica é um conjunto organizado de sensações que, em regra, serve de base ao conceito, isto é, ideia de uma coisa ou classe de coisas (ver muitos cavalos leva à formação do conceito de cavalos). Juízo é uma afirmação ou negação, ligando entre si por um verbo dois ou mais conceitos. Intuição inteligível é a captação instantânea de uma realidade ou irrealidade invisível, metafísica ou cisfísica (VALE DOIS VALORES).

 

3-D) A falácia depois de por causa de é o erro de raciocínio  que atribui uma relação necessária de causa efeito a dois fenómenos vizinhos por acaso (exemplo: «Há 10 dias vi um gato preto e caí da bicicleta, há 5 dias vi outro gato preto e perdi a carteira, ontem vi um gato preto e o meu telemóvel avariou, logo ver gatos pretos dá-me azar). A indução amplificante é a generalização de alguns exemplos empíricos similares segundo uma lei infalível (Ex: Depois  de 1000 experiências, induzimos que os corpos largados no ar caem para a Terra). Ambas generalizam. (VALE DOIS VALORES).

 

3-E) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos, racionalismo esse que é uma forma de radicalidade filosófica. O idealismo, doutrina que postula que a matéria é irreal, não passa de conjunto de sensações ou ideias, está presente no segundo e no terceiro passos, e o realismo crítico, que afirma que vemos de forma distorcida o mundo real exterior, está no quarto passo:

 

Dúvida hiperbólica ou Cepticismo Absoluto( «Uma vez que quando sonho tudo me parece real, como se estivesse acordado, e afinal os sentidos me enganam, duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo »).

 

Idealismo solipsista («No meio deste oceano de dúvidas, atinjo uma certeza fundamental: «Penso, logo existo» como mente, ainda que o meu corpo e todo o resto do mundo sejam falsos»).

 

3º Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe).

 

Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, de figuras, tamanhos, números, movimentos, existe fora de mim»). Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é. Descartes, realista crítico, sustentava que as qualidades secundárias, subjectivas, isto é, as cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores e que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos e uma matéria indeterminada. (VALE TRÊS VALORES).

 

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Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2014
Teste de Filosofia do 11º B (Dezembro de 2014)

 

 

.Mais um teste de Filosofia do 10º ano da escolaridade, em final do primeiro período lectivo do ensino secundário em Portugal. Sem perguntas  de escolha múltipla que, habitualmente, espelham a pobreza do pensamento (anti-dialéctico) de uma grande parte dos docentes e dos autores dos manuais escolares.

 

Agrupamento de Escolas nº 1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B
5 de Dezembro de 2014.            Professor: Francisco Queiroz

 

I

 

“Algum idealismo é realismo crítico”.
 “A fenomenologia é realismo crítico”.
“ O idealismo não é fenomenologia”.


1-A) Indique, concretamente, três regras do silogismo formalmente válido que foram infringidas na construção deste silogismo.

 

1-B) Com base nas definições respectivas, mostre como ambas as premissas deste silogismo estão erradas no seu conteúdo, isto é, estão materialmente erradas.

 

2) Exponha os quatro passos gnoseológicos que celebrizaram Descartes a partir da dúvida hiperbólica, defina e aplique a lei da contradição principal a este conjunto.

3) Relacione, justificando:

A) As ideias de eu e substância, por um lado, e as sete relações filosóficas, na doutrina de David Hume.

B) Ethos, pathos e logos na retórica e lei da tríade.

 

C)  Falácia ad ignorantiam e ontologia cartesiana.

 

4) Interprete o seguinte texto e mostre dois sentidos possíveis para o termo “ser”:

 

«Não tens de temer que alguma vez consigam demonstrar que o Ser não é e, por isso, afasta o teu espírito da via da opinião. Um só caminho nos fica – o Ser é! Existem miríades de sinais demonstrativos de que o Ser é, incriado, imperceptível, perfeito, imóvel e eterno, não sendo lícito afirmar que o Ser foi ou que será…. Ser e pensar é um e o mesmo.» (PARMÉNIDES)

 

 CORRECÇÃO DO TESTE COTADO PARA VINTE VALORES

 

1-A) Eis três regras do silogismo formalmente válido que foram violadas: o termo médio (neste caso: realismo crítico) tem de ser tomado pelo menos uma vez, universalmente, e não o está em nenhuma das premissas deste silogismo; nenhum termo pode ter na conclusão maior extensão do que nas premissas, ora o termo idealismo é universal na conclusão e particular na primeira premissa (algum idealismo); de duas premissas afirmativas não se pode extrair uma conclusão negativa. (VALE DOIS VALORES ).

 

1-B) O idealismo ontológico é a doutrina segundo a qual o mundo de matéria é um conjunto de ideias ou sensações a flutuar na mente de um ou vários sujeitos e por isso não se inclui no realismo, doutrina que diz que o mundo de matéria é real em si mesmo e exterior às mentes humanas. O realismo crítico defende que a matéria exterior é real em si mesmo mas não a percepcionamos sem deformação (exemplo: vemos uma rosa vermelha, mas o vermelho só está na nossa mente não na rosa). (VALE UM VALOR E MEIO). O idealismo, corrente ontognoseológica da matéria como irrealidade, não é fenomenologia (como ontologia, em sentido heideggeriano) porque esta é céptica sobre a irrealidade e a realidade da matéria, estabelecendo apenas a correlação eu-mundo exterior como certeza (VALE UM VALOR E MEIO).

 

2) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos:

 

Dúvida hiperbólica ou Cepticismo Absoluto («Uma vez que quando sonho tudo me parece real, como se estivesse acordado, e afinal os sentidos me enganam, duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo »).

 

Idealismo solipsista («No meio deste oceano de dúvidas, atinjo uma certeza fundamental: «Penso, logo existo» como mente, ainda que o meu corpo e todo o resto do mundo sejam falsos»).

 

Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe»).

 

Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, de existe fora de mim»). Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é. Descartes, realista crítico, sustentava que as qualidades secundárias, isto é, as cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores e que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos.

 

A lei da contradição principal estabelece que um sistema de múltiplas contradições se pode reduzir a uma só grande contradição, constituída por dois grandes blocos ou pólos. Neste caso, a contradição principal pode ser concebida de várias maneiras: num pólo, a dúvida absoluta (1º passo)  e no outro polo o conjunto idealismo solipsista/ idealismo não solipsista/ realismo crítico que possuem certo grau de certeza em comum; em um polo os dois idealismos (2º e 3º passos) e no outro polo o realismo crítico (4º passo) ficando o cepticismo absoluto na zona intermédia ou neutra; em um polo os passos não realistas (1º, 2º e 3º) e no outro polo o realismo crítico  (VALE QUATRO VALORES).

 

3-A) O  "eu" em David Hume não é uma realidade, mas uma ideia ilusória, uma vez que somos apenas uma corrente de percepções empíricas a que a memória e a imaginação atribuem um núcleo invariável chamado «eu». Do mesmo modo, a   substância (exemplos: as substâncias cadeira ou nuvem) é uma ideia fabricada pela nossa imaginação servindo-se das sete relações filosóficas que são disposições sensório-intelectuais da mente humana: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. A ideia de permanência, de continuidade entre as percepções empíricas forja as ideias de eu e de substância.

Portanto, em David Hume, o "eu" não é substância, não existe sequer (idealismo) ou é duvidoso (cepticismo) tal como não existem ou são duvidosas as noções de "alma", "substância", "essência".    (VALE TRÊS VALORES). 

 

3-B) O ethos é o carácter do orador, ligado ao seu currículo (exemplo: «Sou antifascista, passei quatro anos preso por resistir à ditadura»). O logos é a racionalidade do discurso (exemplo: «Aplique-se um imposto extraordinário às grandes empresas de modo a aumentar as prestações sociais aos pobres e aos desempregados»). O pathos é o sentimento, a paixão colocada no discurso (exemplo: «Vamos a eles, que nos roubam e exploram!»).

A lei da tríade diz que um processo dialético se divide em três fases: a tese ou afirmação (que pode ser o pathos, neste caso: irracional) , a antítese ou negação (que pode ser o logos - racionalidade!)  e a síntese ou negação da negação, um intermédio, um resumo das duas anteriores (que pode ser o ethos, mistura de racional e irracional) (VALE DOIS VALORES).

 

3-C) A ontologia ou teoria do ser em geral de Descartes defende que há três substâncias: a res divina (Deus) que criou as outras duas; a res cogitans ou pensamento humano ; a res extensa ou mundo material na sua dimensão geométrica de figuras com comprimento, largura e altura. A falácia ad ignoratiam é o erro ou truque de raciocínio que consiste em extrair do «nevoeiro» da dúvida os contornos nítidos de um dogma, argumentando que este não foi refutado. Neste caso pode aplicar-se assim a falácia: uma vez que ninguém demonstrou que a res divina (Deus) não existe, esta existe. (VALE TRÊS VALORES)

 

4) Há um número infinitamente grande (miríades) de sinais que demonstram que o Ser - essência esférica do universo - não foi criado por ninguém, não foi nem será porque é eternamente o mesmo, sem alterações. Por isso devemos afastarmo-nos da via da opinião que é a interpretação realista ingénua ou realista natural do mundo segundo a qual as coisas são e deixam de ser, os homens nascem, crescem, envelhecem e morrem, as cores do céu se alteram conforme a hora do dia, etc. O Ser é perfeito e invisível, inaudível, por isso só pode ser apreendido pelo pensanento racional - daí que ser e pensar sejam um e o mesmo. O ser pode ser ideia ou pode ser algo material, o texto não é esclarecedor. O ser em Parménides é, não foi nem será. É impossível dizer que o Ser não é, ou seja, dizer que o ser não existe ou sofre transformações já que  é uno, eterno homogéneo, imóvel, incriado, invisível e imperceptível aos sentidos, esférico. Ser e pensar é um e o mesmo. A alteração das cores, a mutação, o nascimento e a morte são ilusões, reais só na aparência. Dois sentidos do Ser são: existência infinita no tempo; essência ou forma geral do universo. (VALE TRÊS VALORES). 

 

 

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Sábado, 8 de Fevereiro de 2014
Teste de filosofia do 11º C, Fevereiro de 2014

 

Eis um teste de filosofia, o primeiro do segundo período lectivo.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA C
7 de Fevereiro de 2014.         Professor: Francisco Queiroz

 

Os juízos matemáticos são todos sintéticos…O próprio homem é fenómeno…Compreendo por idealismo transcendental de todos os fenómenos a doutrina que os considera, globalmente, simples representações e não coisas em si… O entendimento faz a síntese do diverso da intuição empírica… ” (Kant, Crítica da Razão Pura)

 

1-A) Explique, concretamente, cada uma destas frases de Kant.

 

1-B) Explique como, segundo a doutrina de Kant, se formam o fenómeno ÁRVORE e o conceito empírico de ÁRVORE.

 

II

 

2) Relacione, justificando:

 

2-A) Empirismo/racionalismo e doutrina de Parménides sobre o ser.

 

2-B) Método hipotético-dedutivo das ciências e teoria de Popper sobre as ciências.

 

2-C) Três tipos de substâncias na ontologia de Descartes e três tipos de ideias na gnosiologia de Descartes.

 

2-D) Argumento dedutivamente válido e argumento sólido.

 

2-E) Fenomenologia, idealismo solipsista, realismo crítico e lei do salto de qualidade.

 

 

CORREÇÃO DO TESTE (COTADO PARA UM TOTAL DE 20 VALORES)

 

 

1-A) Ao dizer que os juízos matemáticos são todos sintéticos, Kant pretendia significar que o predicado desses juízos acrescenta algo novo ao sujeito. Exemplo: «Sete vezes sete é igual a quarenta e nove» - o predicado «é 49» adiciona um novo conhecimento ao sujeito «7 vezes 7». Todo o homem é fenómeno significa que o corpo humano, a figura do rosto, o tamanho dos membros são fenómenos, ou seja, objectos empíricos que nada são em si mesmos porque são criados na sensibilidade, no espaço ou sentido externo, e desaparecem com a extinção do espírito humano. O idealismo transcendental considera que os fenómenos (exemplo: cadeiras, casas, árvores) são apenas representações, isto é, percepções empíricas, imagens, conceitos, mas não são coisas reais em si mesmas. A coisa em si é o númeno, objecto metafísico sem matéria nem forma. O entendimento, função que pensa os fenómenos, reduz à unidade, a um resumo, o diverso, as múltiplas intuições empíricas. Exemplo: depois de a sensibilidade ver centenas de rosas que ela mesma cria em si mesma, o entendimento recebe as imagens da sensibilidade e, munido de categorias ou conceitos puros como «unidade», «pluralidade», «totalidade», constrói uma única rosa intelectual, um conceito empírico de rosa, abstraindo de pormenores como a cor, o perfume, etc. (VALE CINCO  VALORES)

 

1-B) O númeno afecta «do exterior» a sensibilidade e cria, nesta, um caos de matéria (madeira, terra, ferro, etc). Este caos é moldado pelo espaço que nele imprime figuras geométricas e pelo tempo que lhe confere duração, sucessão. Assim nasce o fenómeno árvore, na sensibilidade «externa», isto é, no espaço. O entendimento intervém na medida em que confere à árvore o carácter de substância, de divisibilidade (em partes: tronco, raízes, ramos, etc). São enviadas ao entendimento imagens de diferentes fenómenos árvore - sobreiros, pinheiros, faias, macieiras, etc - e as categorias ou conceitos puros do entendimento como pluralidade, unidade e realidade misturam e tratam essas imagens empíricas transformando-as num só conceito empírico, o de árvore, abstraindo dos pormenores das árvores particulares. (VALE TRÊS VALORES)

 

2)  A) Em Parménides  a percepção empírica é ilusão, o pensar está a todo o instante centrado no ser uno, imóvel, homogéneo, imprincipial, invisível, esférico, eterno. É portanto, uma teoria  racionalista, que não dá crédito às percepções empíricas mas sim ao raciocínio ("Só o pensar, o raciocínio e a intuição inteligível captam o ser"). Esse racionalismo pode ser um realismo crítico  -  a esfera do ser pode ter carácter material, pode ser formada por uma matéria imperceptível aos sentidos - ou um idealismo crítico como em Kant.   No empirismo, as ideias nascem das impressões sensíveis e imitam a forma destas, o que não corresponde à via da verdade de Parménides.  (VALE TRÊS  VALORES)

 

2) B) O método hipotético-dedutivo decompõe-se em quatro etapas: observação, hipótese (indução amplificante), dedução da hipótese e experimentação que confirma ou desmente a hipótese. Karl Popper opõe-se à indução amplificante, pois sustenta que a observação de casos particulares, por muito numerosos que sejam, não autoriza a formular leis gerais universais. Para Popper, as ciências empíricas são conjuntos de conjecturas, suposições, que podem ser temporariamente aceites enquanto não forem refutadas  pelo debate de ideias e pelos testes experimentais que não verificam as leis mas apenas corroboram, isto é, confirmam exemplos. O princípio da falsificabilidade estabelece que só pode merecer o título de "ciência" provisória a doutrina que se exponha a testes e propicie a sua auto-destruição ou rectificação. O conhecimento é uma perpétua aproximação à verdade, que nunca se atinge por completo. (VALE DOIS VALORES)

 

2) C) Descartes admitia três tipos de ideias: adventícias, factícias e inatas. E três substâncias ontológicas: a res divina (Deus), a res cogitans (o pensamento humano) e a res extensa (o espaço com as figuras geométricas). Pode-se fazer corresponder a res divina Deus às ideias inatas porque estas são absolutamente seguras: as ideias de corpo, alma, Deus, figuras geométricas, números. 

Por ideias adventícias, Descartes entendia as sensações e percepções empíricas. Exemplo: ver uma jarra de flores, saborear gaspacho, ouvir música. Ora, as percepções empíricas serão parcialmente ilusórias segundo Descartes: as cores (exemplo:o vermelho da rosa), os cheiros (exemplo: o perfume da rosa), os sabores, a dureza e a moleza, o calor e o frio, são qualidades secundárias, isto é não existem na realidade objectiva, no mundo material exterior ao corpo humano, surgem apenas na mente como ilusão, resultando do embate nos orgãos sensoriais de «poeiras» exteriores emanadas dos objectos. No entanto, as ideias adventícias, na medida em que reflectem as formas, o tamanho e o movimento dos objectos exteriores, isto é, as qualidades primárias, não transmitem ilusão mas sim verdade. Pode-se fazer corresponder as ideias adventícias à rex extensa.

Por ideias factícias, entende-se as ficções da imaginação (exemplo: uma sereia, um elefante com patas de leão, etc). Podemos fazê-las corresponder à res cogitans. (VALE TRÊS VALORES)

 

2) D) Argumento ou raciocínio dedutivamente válido é aquele que não apresenta incoerência formal nem falibilidade, isto é, o que, por via da razão, passa de uma premissa geral para uma conclusão particular implícita nas premissas ou para uma conclusão geral necessária (exemplo: «dois mais dez é igual a doze, doze mais cinco é dezassete, logo dois mais dez mais cinco é igual a dezassete»). Argumento sólido é aquele que ou é dedutivamente válido ou é indutivamente válido e possui lógica material- um exemplo, deste último caso: «A dieta de maçãs, consistindo em ingerir de um a três quilos de maçã por dia, já melhorou mais de dois milhões de doentes de reumatismo e úlcera gástrica, por conseguinte Joaquim e Ausenda melhorarão das suas doenças reumáticas se  praticarem essa dieta». O argumento dedutivamente válido, no plano formal, «As batatas são aviões, os sobreiros são batatas, logo os sobreiros são aviões» não é sólido porque viola a lógica material.(VALE UM VALOR)

 

2) E) A fenomenologia é um cepticismo moderado: cingindo-se aos fenómenos - o que é visível, o que se manifesta- ela não se pronuncia a favor do idealismo ontológico nem do realismo ontológico. O idealismo solipsista afirma que o mundo de matéria é irreal e interior a uma única mente, a minha. O realismo crítico sustenta que o mundo de matéria é real, exterior às mentes humanas, mas estas captam-no de forma distorcida (exemplo: a cores violeta, amarela e castanha não existem no mundo exterior, são fabricadas na minha mente). A lei do salto de qualidade diz que a acumulação lenta e gradual, em quantidade, (devir) de um aspecto num fenómeno leva a uma mudança qualitativa repentina nesse fenómeno. Aplicando esta lei, podemos dizer que uma acumulação de raciocínios e ideias pode levar alguém a passar do realismo crítico para o idealismo solipsista ou viceversa. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2013
Teste de filosofia do 11º ano (2º período, 2013)

 

Eis um teste de filosofia, o primeiro do segundo período lectivo, livre de perguntas de resposta múltipla com "X" que é típico da simplificação empobrecedora do pensamento, hoje muito em voga.

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A
18 de Fevereiro de 2013. Professor: Francisco Queiroz

 

I

««As sete relações filosóficas segundo Hume correspondem, de certo modo, às categorias segundo Kant mas as primeiras são a posteriori e as segundas são a priori.  Em Kant, o entendimento é condicionado, reduz à unidade o diverso das intuições empíricas e a razão é incondicionada e produz antinomias. »

 

1) Explique, concretamente, este texto.

II

 

2) Relacione, justificando:

 

A) Os quatro passos gnosiológicos de Descartes desde a dúvida hiperbólica e o conjunto res cogitans, res extensa e res infinita.

B) A formação do fenómeno MESA e a formação do conceito empírico de MESA, segundo a gnosiologia de Kant,.

 

C) Substância e acidente, em Aristóteles, e substância em David Hume.

 

III

 

3) Disserte, livremente, sobre os seguintes temas:
«O anti empirismo do paradoxo de Zenão, e o conhecimento proposicional segundo Russell. O ser em Hegel, nas suas três fases, e o ser em Parménides. »

 

 

 

 

CORRECÇÂO DO TESTE, COTADO PARA UM TOTAL DE 20 VALORES

 

1) As sete relações filosóficas são, segundo David Hume: identidade, semelhança, relações de tempo e de lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. É discutível saber se são noções a posteriori, ou seja, que surgem na experiência sensorial e não antes desta, ou se são formas a priori, isto é, estruturas vazias que estão antes da primeira experiência. As categorias, em Kant,  são formas a priori do entendinento, isto é, mecanismos inatos do pensamento, anteriores a toda a experiência sensorial, como por exemplo, unidade, pluralidade e totalidade (categorias da quantidade). Podemos fazer corresponder a relação filosófica de causação (determinismo), em Hume, à categoria de necessidade (lei infalível de causa-efeito)  em Kant. Também podemos estabelecer correspondência entre a relação filosófica de identidade e a categoria de inerência e subsistência (substância e acidente). (ESTAS FRASES VALEM TRÊS VALORES). Em Kant, o entendimento, faculdade que pensa e conhece os fenómenos, é condicionado pela sua estrutura interna (a tábua das categorias e a tábua dos juízos puros) e pela sensibilidade onde se desenham os fenómenos (árvores, aviões, montanhas, etc). Reduz à unidade a diversidade das intuições empíricas: exemplo, o conceito de casa, formado no entendimento, é um só e resume as diferentes casas que se formam e percepcionamos na sensibilidade exterior ao corpo. A razão é incondicionada porque é livre, não tem regras que a limitem, e pensa o mundo metafísico, incognoscível. As antinomias da razão são as teses contrárias que ela produz, balançando de uma a outra, porque não tem conhecimento: por exemplo, «Deus existe, Deus não existe», «O mundo é finito, o mundo é infinito». (VALE TRÊS VALORES).

 

2) A) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos:

Dúvida hiperbólica ( «Uma vez que quando sonho tudo me parece real, como se estivesse acordado, duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo »).

Idealismo solipsista («Penso, logo existo» como mente). Este passo liga-se à RES COGITANS ou SUBSTÂNCIA PENSANTE, que é o pensamento de todos e de cada um dos entes humanos. 

Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe). Neste passo, emerge a RES INFINITA, isto é, a SUBSTÂNCIA INFINITA que é Deus, o criador de todas as coisas. 

Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, de existe fora de mim»). Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é. Descartes, realista crítico, sustentava que as qualidades secundárias, isto é, as cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores e que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. Este último passo liga-se à RES EXTENSA, ou seja, EXTENSÂO, o espaço material dotado de comprimento, largura e altura. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) B) O fenómeno MESA forma-se na sensibilidade, uma das três partes do espírito humano, do seguinte modo: os númenos afectam, desde o exterior, a sensibilidade (isto é, o espaço e o tempo que rodeiam o corpo do sujeito) e fazem nascer nela um caos de sensações (cores, matéria, sons, etc). Esse caos é moldado pelo espaço (extensão e formas geométricas) e pelo tempo (duração, sucessão simultaneidade) e transforma-se numa mesa, no fenómeno mesa. O entendimento intervém na medida em que confere à mesa o carácter de substância, de divisibilidade (em partes: pernas, tampo, etc).

O conceito empírico de MESA forma-se no entendimento do seguinte modo: as imagens / intuições empíricas de mesa (as imagens das diferentes mesas que vimos) sobem da sensibilidade ao entendimento, passando pela imaginação. O entendimento, munido de categorias ou conceitos puros como unidade, pluralidade, realidade, recebe as diversas imagens de mesa e redu-las a uma imagem abstracta única, o conceito de mesa, de base empírica. (VALE TRÊS VALORES)

 

2) C) Substância, em Aristóteles, é, em primeira mão, o ente, o objecto material, o composto que resulta da união da essência ou forma da espécie (eidos) com a matéria-prima universal (hylé). Assim Sócrates é uma substância: une a forma comum homem à matéria prima informe, indeterminada e universal, e daí resulta este homem único, de nariz achatado, chamado Sócrates que não tem essência enquanto imdivíduo.

Substância, em David Hume, é uma ideia, a representação de um corpo supostamente exterior a nós, formada a partir de impressões de sensação (exemplo: a rosa que vejo e toco é só real na minha percepção) de impressões de reflexão . Em Aristóteles substância é uma coisa real material - realismo - em Hume substância é uma ideia - idealismo. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

3) O paradoxo de Zenão sustenta o seguinte: um corredor veloz, Aquiles, não consegue apanhar uma tartaruga que se move a uma certa distância à frente dele porque, em cada segundo, percorre metade da distância que o separa da tartaruga mas esta adianta-se um pouco nesse lapso de tempo, e embora Aquiles acabe por ficar colado a ela nunca a consegue atingir; assim se prova, racionalmente, que o movimento é ilusório. Isto é anti empirismo, ou seja, é racionalismo, porque nega as percepções empíricas, a imagem de Aquiles a ultrapassar a tartaruga. Isto é conhecimento proposicional, isto é, conhecimento teórico, como sustenta Bertrand Russell. (ESTAS FRASES VALEM DOIS VALORES). Hegel considerou o ser ou ideia absoluta como a essência da história universal: na primeira fase, a ideia absoluta (Deus) está sozinho e pensa em criar o universo, o espaço e o tempo; na segunda fase, a ideia absoluta aliena-se em matéria, em reino mineral, vegetal e animal; na terceira fase, a ideia absoluta renasce em forma de humanidade, que combina o espírito da primeira fase com a matéria da segunda fase, e progride em direção à liberdade. Em Hegel, o ser é móvel e transformável, passa a não-ser na segunda fase, ao contrário do ser teorizado pelo grego Parménides, imóvel e eterno, sem devir, uno, contínuo, contíguo, homogéneo, limitado como uma esfera, imutável e imperceptível aos sentidos, apenas perceptível à razão. (ESTAS FRASES VALEM DOIS VALORES).

 

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Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011
Sobre a analogia do uno e do ente: os dois sentidos de uno e os dois sentidos de ente

Aristóteles postulou, na «Metafísica", a analogia do uno e do ente. Analogia significa uma semelhança entre formas ou funções de dois ou mais entes, substantivos ou não, bastante diferentes entre si. Por exemplo, o homem é análogo a uma árvore: os pés são análogos às raízes, as pernas ao tronco de madeira, os braços aos ramos, a cabeça à copa de folhas. O que é ou ente assemelha-se ao uno, são análogos: o uno indeterminado não é espécie dentro do género ser, ainda que este abarque uma vastíssima extensão do uno determinado. Se ser é entendido como puro existir indeterminado coincide absolutamente com o uno indeterminado, isto é, enquanto matéria, isto é, substrato indeterminado da forma, e engloba o uno determinado (limitado por uma forma) e o múltiplo (o uno indeterminado retalhado por várias formas).

 

O uno determinado e o ente determinado são, em certo sentido, no estrato das formas, dois círculos que se interpenetram. No substrato da matéria, o uno e o ser (puro) coincidem em absoluto e são infinitos, falando em termos espaciais. Há uma zona do ente determinado que é una, e outra zona que não é una mas múltipla, do ponto de vista da forma- ainda que a dialética sublinhe que a multiplicidade está incluída numa unidade superior, que é a matéria do existir.

 

Assim temos dois sentidos da palavra uno: o uno da forma que é vencido, dissolvido, pelo aparecimento da multiplicidade; o uno da matéria abstracta, do conteúdo indeterminado do todo, e este uno é verdadeiramente invencível, imóvel, ubíquo, infinito. O uno da matéria abstracta - que não é matéria densa, nem energia, etc, mas sim substrato geral do mundo físico, do pensamento, etc - coincide completamente com o ser, o ente. É aqui que se centra a noologia de Parménides: «o ser é, uno, imóvel..» No entanto, a finitude do ser proclamada por Parménides já indica confusão entre o ser como existir (qualidade universal, insubstancial) e o ser como ente-essência esférica (substância).

 

Num outro sentido, o uno determinado - por exemplo, o uno do universo - abarca o ente A e o  ente não A - por exemplo, a matéria e a não matéria (energia) Sobre o "espaço" infinito do ser indeterminado/ uno indeterminado inscrevem-se  quatro círculos: o do ente determinado (exemplo: a flora do planeta Terra), o do  ente não determinado (exemplo: a não flora do planeta Terra, ou seja, a fauna, a humanidade, os planetas, a galáxia, etc) o do uno determinado (exemplo: uma árvore) e o do múltiplo (exemplo: um milhão de árvores).

 

A ideia de uno obtém-se independentemente da forma. Não é a forma/contorno exterior que faz reconhecer o uno mas a matéria interior a esse contorno, a textura, o conteúdo. É a matéria que dá a ideia do uno e a forma a do múltiplo.

 

 

 

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Terça-feira, 16 de Novembro de 2010
Confusões de Ferrater Mora sobre o Em Si e o Fenómeno

De um modo geral, a grande maioria das correntes filosóficas distingue entre o em si , a realidade em si mesma, independentemente de eu e nós existirmos ou não, e o para-mim ou para nós, isto é, o fenómeno, aquilo que aparece. Por exemplo: uma pessoa em si, com as suas crises de melancolia oculta, os seus desejos suicidas que ninguém pressente, pode ser muito diferente enquanto fenómeno, isto é, aparência para nós: amável, educada, sorridente, optimista. Kant distingue entre a coisa em si ou númeno (a ideia ou objecto metafísico incognoscível: Deus, alma, liberdade) e a coisa para nós ou fenómeno ( exemplo: a árvore, a nuvem, o corpo físico).

 

 

 

Ferrater Mora hierarquiza assim as posições entre o em si, o fenómeno e a consciência cognoscente:

 

«Em geral, estas posições adoptadas até ao presente podem ser esquematizadas do seguinte modo . 1) posição exclusiva do em si (Parménides); 2) posição exclusiva do fenómeno (Berkeley); 3) o em si e o fenómeno existem separadamente e entre eles não há senão o nada (Parménides, ao formular a doutrina da opinião); 4) o em si e o fenómeno estão unidos pelo demiurgo (Platão); 5) divisão do em si numa multiplicidade (Demócrito); 6) afirmação do em si e da sua incognoscibilidade teórica (Kant).»

 

(José Ferrater Mora , Dicionário de Filosofia , Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1991, pags. 157-158)

 

 

 

Há várias confusões nesta classificação, algo desgarrada, de Ferrater Mora:

 

A)     A posição idealista, imaterialista, de Berkeley (2) não é exclusiva do fenómeno, mas exclusiva da consciência cognoscente que absorve em si o fenómeno («as árvores e todo o cosmos estão dentro da minha gigantesca mente») e do em si , isto é, Deus e os diversos espíritos;

 

B)     A divisão do em si numa multiplicidade não está só em Demócrito (os átomos são, de facto, múltiplos) mas até em Berkeley ( o em si: Deus e os espíritos) e em Kant (o em si: os númenos).

 

C)    O em si e o fenómeno em Platão só estão unidos pelo demiurgo no momento da criação do universo dos fenómenos. Posteriormente, a sua união faz-se pela participação da forma dos fenómenos (sensíveis) nas Formas ou Modelos eternos do inteligível.

 

D)    A posição de Kant não é apenas a da incognoscibilidade do em si mas também a existência do fenómeno dentro da consciência cognoscente (posição similar à de Berkeley).

 

 

 

Como se deveria desdobrar de forma correcta o leque das teorias sobre o triângulo em si, fenómeno, consciência cognoscente?

 

Por exemplo, do seguinte modo: o em si está no fenómeno e ambos fora da consciência cognoscente (realismos natural e crítico/epistemológico); o em si está, incognoscível, atrás do fenómeno e ambos fora da consciência cognoscente (realismo fenomenista); o fenómeno, material, está dentro da consciência e o em si imaterial fora desta, metafísico (idealismos de Kant e Berkeley); o em si material é incognoscível e ignora-se se está dentro ou fora da consciência, e é, como o fenómeno, correlato a esta (fenomenologia).

 

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Segunda-feira, 2 de Agosto de 2010
Equívocos de Nietzsche sobre as filosofias de Parménides e Zenão de Eleia

Sem embargo de ser um filósofo genial, Friederich Nietzsche (1844-1900) manifestou lacunas importantes sobre a filosofia antiga - ele, que se considerava um agente de ressurreição de um certo helenismo aristocrático, contra-revolucionário!

Além de um ataque néscio, infundado à astrologia, ou melhor, à ideia de que as revoluções planetárias no céu determinam a vida humana e biológica na terra, - ideia que hoje em dia a esmagadora maioria dos filósofos consagrados rejeita por ignorância dos princípios da astronomia- Nietzsche produziu uma obtusa interpretação das teses da escola eleática de Parménides e Zenão. Escreveu:

 

«Assim que se admite que o conteúdo empiricamente dado das nossas representações, buscando neste mundo sensível,  é uma veritas aeterna, chega-se a contradições. Se existe um movimento absoluto, não há mais espaço; se existe o espaço absoluto, não há movimento; se há um ser absoluto, não há multiplicidade; se existe a multiplicidade absoluta, não há mais unidade.» (...)

«No entanto, Parménides e Zenão sustentam a verdade e o valor universal dos conceitos e rejeitam o mundo sensível enquanto o oposto dos conceitos verdadeiros e universalmente válidos, como se fosse uma objectivação do que é ilogicamente, do que é ilógico e contraditório. Em todas as demonstrações que fazem, partem do pressuposto absolutamente indemonstrável, ou mesmo improvável, de possuirmos na faculdade conceptual o decisivo critério àcerca do ser e do não ser, isto é, àcerca da realidade objectiva e do seu contrário (Friederich Nietzsche, A filosofia na idade trágica dos gregos, Edições 70, pág 73; o negrito é posto por mim).

 

Não se percebem os supostos paradoxos delineados por Nietzsche: por que razão havendo espaço absoluto não pode haver movimento?  Porque razão o ser absoluto exclui a multiplicidade, se a característica de ser não é, em si mesma, una nem múltipla ou é ambas as coisas? Falta de claridade nestas pseudo aporias...

Por outro lado, Nietzschze lança a errónea afirmação de que «Parménides e Zenão sustentam o valor universal dos conceitos.». Isto é nuvem de confusão. Ambos os filósofos eleáticos negaram, no plano do ser (einai), os conceitos universais de nascimento e morte, múltiplo, movimento, aumento e diminuição, infinito, devir e outros.

 

Parménides afirmou: «Sem o Ser, tal como foi enunciado, não poderíamos pensar, não havendo nada fora do Ser, considerando que a Necessidade o ordenou uno e imóvel. Por este motivo, as coisas são simples nomes atribuídos pelos mortais, na sua incredulidade. Nascimento e morte, Ser e Não-Ser, mutabilidade e alteração das cores maravilhosas!» (Parménides, Fragmentos, da Natureza, in Filosofia grega pré-socrática, Pinharanda Gomes, Guimarães Editores, pag 222; a letra negrita é minha).

 

Zenão escreveu:« Se o ser fosse adicionado a outra coisa, não a tornaria maior, porque nenhuma coisa pode ser maior pela adição de infinito, de onde se segue que o aumento é nulo. Mas, se for subtraído a outra coisa esta não fica menor; tal como a anterior não fica maior. Assim se demonstra que nem o aumento nem a diminuição têm qualquer significado.» (Zenão, Fragmentos, in Filosofia grega pré-socrática, Pinharanda Gomes, Guimarães Editores, pag 232; a letra negrita é minha).

 

Constata-se, nas citações acima, que os conceitos universais de nascimento e morte, mudança do ser ao não ser e vice-versa, aumento e diminuição são rejeitados por Parménides e Zenão de Eleia na sua aplicação ao Ser.

 

Nietzsche supõe que Parménides e Zenão pensavam exclusivamente por conceitos. Parece ignorar uma fonte fundamental do pensamento: a intuição noética ou inteligível que fornece a noção do uno primordial, do devir, da luta de contrários e que desempenha, por assim dizer, o papel da «sensação» no plano do espírito racional.

 

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Terça-feira, 23 de Março de 2010
A ambígua interpretação de Nietzsche sobre o ser de Parménides

Nietzsche abordou a filosofia de Parménides de um modo algo equívoco, sem o suficiente grau de análise, isto é, sem apreender todas as faces do poliedro gerado pela palavra grega ser (einai). Escreveu:

 

«Na filosofia de Parménides, preanuncia-se o tema da ontologia. A experiência não lhe ofereceu em lado algum um ser, como ele o imaginava, mas, em virtude de o ter podido pensar, concluiu que podia existir: conclusão esta que se baseia no pressuposto de que nós temos um órgão de conhecimento que penetra na essência das coisas e é independente da experiência. Segundo Parménides, a matéria do nosso pensamento nem sequer se encontra na intuição, mas é trazida de outro lado, de um mundo extra-sensível, ao qual temos directamente acesso pelo pensamento. Só que Aristóteles, contra todas as conclusões idênticas, já realçara que a existência nunca faz parte da essência, que a existência nunca pertence à natureza das coisas. «Por isso, não se pode deduzir do conceito de “ser” – cuja essentia é precisamente o ser – a existentia do ser. A verdade lógica dessa antinomia do “ser” e do “não-ser” é absolutamente vazia, quando não pode ser dado o objecto que serve de fundamento, a intuição, a partir do qual esta antinomia é deduzida por abstracção; (…)

«Mas logo que se busca o conteúdo da verdade lógica da oposição – “o que é, é; o que não é, não é! – não se encontra, de facto, uma única realidade que seja estritamente conforme a essa oposição; posso muito bem dizer de uma árvore “ela é”, quando a comparo com todas as outras coisas, que “chega a ser” quando a comparo com ela mesma num outro momento, ou que “ela não é”, por exemplo, “ainda não é uma árvore” quando a observo em estado de arbusto. As palavras não passam de símbolos para as relações das coisas entre si e connosco, nunca afloram algures a verdade absoluta; e a palavra “ser” só designa a relação mais geral que liga todas as coisas entre si, como a palavra “não-ser”. Mas se é impossível demonstrar até a existência das coisas, a relação das coisas entre si, o que se designa por “ser” e por “não-ser”, não pode sequer fazer-nos avançar um passo para a região da verdade.» (…)

«É absolutamente impossível ao sujeito pretender ver ou conhecer algo para além de si mesmo, tão impossível que o conhecimento e o ser são as duas esferas que mais se opõem.» (Nietzsche, A filosofia na idade trágica dos gregos, Edições 70, Págs 70-71; a letra negrita é posta por mim).

 

Quando, ao referir-se ao ser, escreve que «a existência nunca pertence à natureza das coisas. Por isso, não se pode deduzir do conceito de “ser” – cuja essentia é precisamente o ser – a existentia do ser»  Nietzsche equivoca-se: a essência do ser não é "o ser" mas sim um objecto uno, imóvel, ingénito, imutável, esférico, homogéneo, eterno, como se deprende de um texto abaixo.  A palavra ser tem o duplo significado de existência, enquanto verbo, e de essência, enquanto substantivo.

Ao dizer que «a verdade lógica dessa antinomia do “ser” e do “não-ser” é absolutamente vazia, quando não pode ser dado o objecto que serve de fundamento, a intuição, a partir do qual esta antinomia é deduzida por abstracção» Nietzsche está a copiar Hegel que sustentou que no modo mais abstracto, sem possuir qualidade nenhuma  (exemplo: espírito, matéria, natureza física, humanidade, etc,) o ser é tão vago que se confunde com o não ser. É o ser como existência abstracta, não o ser como essência. Nietzshze ignora aqui a definição essencialista de ser dada por Parménides como algo de "uno, imóvel, imutável, eterno, esférico" a qual, obviamente, é oposta à de não-ser, como algo de "múltiplo, móvel, mutável, perecível, não esférico". Dispara, pois, sem acertar no alvo.

 

Não é também verdade em toda a sua extensão a frase de Nietzschze «As palavras não passam de símbolos para as relações das coisas entre si e connosco, nunca afloram algures a verdade absoluta». Há palavras que são mais que símbolos: são portas de contacto imediato, toques na "pele" do ser das coisas, são partes fonéticas ou gráficas, pseudópodes dos próprios seres. As palavras «Portugal» e «Brasil», por exemplo, são, para os respectivos povos, nomeação do ser, motores afectivos e cognitivos, não símbolos, mas «carne» de seres colectivos.

Há, pois, uma interpretação existencial do termo ser e uma interpretação essencial do mesmo termo – distinção que Nietzsche não faz, com clareza, optando por esta última interpretação, essencialista.

Nietzschze comete, no início do texto acima, um erro ao considerar que o “ser” em Parménides só pode ser interpretado como essência, como objecto.

 

Parménides escreveu dando um sentido diferente à palavra ser, isto é, o sentido de existir, constituir realidade:

«O que pode dizer-se e pensar-se deve ser (einai). Isto é o que te ordeno que consideres. Afasto-te, pois, desta primeira via de investigaçãoe depois daquela pela qual os homens ignorantes vagueiam bicéfalos; pois a impotência guia no seu peito o pensamento vacilante; são arrastados, cegos e surdos simultâneo, estupefactos, pessoas sem juízo, para quem o ser e o não ser são considerados como o mesmo e não o mesmo e para quem o caminho de todas as coisas é regressivo.

«Pois nunca se provará que sejam os não-entes (mé éonta). (Parménides in Simplício, Física 117, 4, fragmento 6).

 

 

Neste texto, Parménides faz coincidir o pensamento e a linguagem com o ser (existir) isto é, a essência, pensada e dizível, deve possuir existência, opõe a existência à não existência e critica os dialécticos, como Heraclito, que proclamam que «as coisas são e não são» e que «há um eterno retorno nas coisas».

 

Em outra passagem, Parménides delineia a essência do ente ou ser como objecto:

«..O ente (éon) é ingénito e imperecível, pois é completo, imóvel e sem fim. Não foi no passado, nem será, pois é agora todo em simultâneo, uno contínuo. » (Parménides in Simplício, Física 145, 1, fragmento 8).

«Mas porque o seu limite é o último, é completo em toda a parter, semelhante à massa de uma esfera bem redonda, igual em força a partir do centro por todas as partes; pois não é necessário que seja maior nem menor aqui ou ali.» (Parménides in Simplício, Física 146, 15, fragmento 8).

 

Para Parménides, o ser como ente – algo que é - é a totalidade das essências, das coisas, o invólucro que tudo abarca e interpenetra- daí o facto de possuir esfericidade. Não está num mundo aparte – de onde se infere isso? – mas é a unidade subjacente à multiplicidade do mundo das aparências, dos fenómenos, que é mistura de ser (o uno, o imóvel, o contínuo, o imutável) e de não-ser (o múltiplo, o móvel, o descontínuo, o mutável). O ente é o próprio cosmos sob o aspecto da unidade e da eternidade.

 

Nietzchze não distingue, pois, de forma explícita e cristalina, as duas interpretações de ser em Parménides:

1)      Como existência geral: é.

2)      Como essência geral do cosmos: uno, ingénito, imperecível, imóvel, contínuo, esférico.

O facto de o ser se deixar apreender pelo pensamento não significa, ao contrário do que sugere Nietzshze, que o ser seja ideia, pensamento, essência metafísica, Deus ou númeno. Não. O ser poderá constituir o invólucro físico uno e imóvel de todos os entes que se agitam e compõem o cosmos. Seria então o lado formal-global, indiviso, do cosmos.

 

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Domingo, 7 de Fevereiro de 2010
Wittgenstein e a falácia de negar a marcha do tempo

Wittgenstein, o grande pioneiro da moderna filosofia analítica, na linha de Parménides e de Zenão de Eleia, talvez os verdadeiros fundadores da filosofia analítica, negou realidade ao devir do tempo, isto é, ao movimento inerente a este:

 

«6.3611  Não podemos comparar um processo com a «marcha do tempo» - que nem sequer existe – mas apenas com um outro processo (tal como a marcha do cronómetro). »

«Assim só é possível descrever a passagem do tempo apoiando-nos em um outro processo». (ibid, pag 134). (Ludwigg Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosófico; Investigações Filosóficas, Fundação Calouste Gulbenkian, Gulbenkian, Lisboa, 1987, pag 134; a letra negrita é posta por mim).

 

Wittgenstein já se aproximara, tangencialmente, da definição certa de tempo ao escrever:

«Espaço, tempo e cor (coloração) são as formas dos objectos.» (Ludwigg Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosófico; Investigações Filosóficas, Fundação Calouste Gulbenkian, Gulbenkian, Lisboa, 1987, pag 33; o negrito é posto por mim).

 

O tempo não é a forma do objecto mas a duração e a sucessão das formas do objecto, isto é, a permanência (stásis, em grego) e alteração (alloíosis, em grego) destas. Se isolarmos a forma do objecto num dado instante não temos o tempo, mas o quid (o quê é, a forma), a essência do objecto, num fragmento do tempo, mas não temos o tempo no seu fluir, no seu todo. No primeiro pensamento acima exposto, Wittgenstein fez isso: isolou o tempo como forma do objecto num dado momento mas retirou-lhe o fluxo, a coluna vertebral, a sucessão e, por isso, caiu no erro de dizer que "a marcha do tempo não existe". O mesmo erro daquele que, observando entre as mãos as milhares de fotos na fita de celulóide de um filme afirma que «o filme não existe, é uma ilusão.» Ora, o filme existe e transporta realidade. O tempo não é a forma, enquantofilosofia analítica , mas a existência da forma.

 

Mais: a marcha dos ponteiros no cronómetro é tempo, é um dos múltiplos aspectos da marcha do tempo, uma vez que é transformação das formas geométricas - os ângulos - realizadas pelos ponteiros do relógio ou indicadas por números nos relógios digitais. E também a marcha aparente do sol no céu e a rotação aparente da esfera celeste são tempo uma vez que alteram a forma da luz, dos campos electromagnéticos, dos objectos físicos num dado lugar e em todos os lugares. O relógio é apenas, juntamente com o movimento dos astros na esfera celeste, o meio mais fácil de o tempo se exprimir mas há muitas outras formas: as alterações imperceptíveis na nossa pele que vão fazendo surgir rugas e outras formas corporais, o crescimento das plantas e animais, etc, são tempo e indiciam o tempo.

 A filosofia analítica tem este poder mágico de isolar determinações essenciais de um fenómeno para captá-las e, com isso, a par de obter belíssimas «fotografias» do pensamento, acaba, com frequência, por fragmentar o fluxo daquele e da realidade, que inclui pensamento, sentimento, sensação.

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Domingo, 28 de Junho de 2009
R.M.Hare se equivoca sobre los sentidos que Platón atribuyó a «Es»

Richard M.Hare atribuye a Platón una incapacidad de distinguir entre el «es» que significa existencia y el «es» que significa predicación, es decir, pertenencia a una esencia.

 

«El falso objecto de creencia "no es" lo que pretende ser; y Platón, debido a que no distinguió en un principio entre el "es" que significa lo mismo que "existe" (como en «el Imperio Britanico ya no es») y el «es» que expresa predicación (la cópula, como «él es alto») se encuentra en un aprieto de si cuando tenemos falsas creencias, estamos viendo o captando lo que “no es”, y por consiguiente si, cuando hacemos esto, no tenemos en absoluto cosa alguna en la mente. Pero si no tenemos nada delante de la mente, ¿cómo podemos estar creyendo algo? El resultado parece ser paradójico, que no podemos tener falsa creencia.» (, R.M.Hare, Platón, Alianza Editorial, pag 61; el bold es nuestro).

 

En la República de Platon se aborda el enunciado verdadero como el que designa lo que es:

«Sócrates- ¿No existirá, pues, un enunciado verdadero y un enunciado falso?

Hermógenes- Desde luego.

Sócrates-¿ Y no sería verdadero el que designa las realidades como son y falso el que las designa como no son?

Hermógenes- Sí.

Sócrates- ¿ Es portanto posible decir en un enunciado lo que es y lo que no es?

Hermógenes- Ciertamente.

(Platón, Crátilo, in Apologia de Sócrates, Ménon, Crátilo, Alianza Editorial, pag 130) 

 

Designar las realidades como son es función de los verbos ser, pertenecer y otros («es», «fue», «será», «pertenece a», etc) que predican, exprimen una relación entre el sujeto y un otro objecto o calidad, exprimen un como - el «es» aqui tiene sin duda, un significado de cópula, que une el sujeto a una otra entidad, especie o género. Y la cópula el el eje de la verdad de la proposición.

 Decir lo que es, es decir la verdad. Verdadero es decir lo que es. Y esto es esencia y existencia.

 Para Platón, el «es» designa la forma estable, sin movimiento - esencia que existe al máximo grado - y la pertenencia a esa esencia (género o especie). Y el «no es» designa el movimiento y la no pertenencia a la forma inmutable.

 

En La República, Platón escribió:

 

«-Luego si la ciencia tiene por objecto el ser, y la ignorancia el no-ser, es preciso buscar, respecto a lo que ocupa el medio entre el ser y el no-ser, una manera de conocer que sea intermediaria entre la ciencia y la ignorancia, suponiendo que la haya.

- Sin duda.

- ¿ Sostendremos que hay algo llamado opinión?

- Y ¿como no?

- ¿ Es una facultad distinta de la ciencia, o bien la misma?

- Es distinta.

(...)

-La ciencia, ¿no tiene por objecto lo que existe para conorcelo como existe?

-Sí.»

(Platón, La República o El Estado, 477-478, Austral, pag 250-251; el bold es nuestro)

 

Que es el ser, de que Platón habla? Es lo que es, lo que existe. Es esencia o forma en su existencia suprasensible ( el Bien, el Bello, el Triangulo, el Justo, el Círculo, etc).

 

En el fondo, ser significa forma y no-ser significa sin forma. La ignorancia es lo que no tiene forma, el no ser. Por eso, la ignorancia «no es»: se traduce en una existencia negativa sin esencia, un movimiento de los sentidos, de la sin razón. El hecho de que el error «no es» no significa que no exista error - porque el error está en la opinión - sino que no existe en la region de la verdad, el suprasensible, el contenido que vehicula. En el ser, la esencia-forma pesa más que la existencia-lugar, es decir, «el es» menta más la forma que el lugar, aunque abarca ambos. En el no-ser, la existencia-lugar pesa más que lo sin forma, es decir, el no ser expresa más el lugar que la no forma, aunque se compone de ambos. Son contradictorios.

 

Sin duda, al revés de lo que postula R.M.Hare, Platón distinguió entre «es» (predicación, inclusión o exclusión de A en B) y «lo que es» (ser, existencia de formas). Imposible que no lo hiciera. Además, Pármenides había ya hecho esa distinción:  «El ser es...no fue en el pasado, y no será, pues es ahora todo a la vez, uno, continuo » , postulado ontológico-existencial puro. Y atribuye forma esférica al ser (postulado esencial) :«Pero, puesto que su límite es el último, es completo por doquier, semejante a la masa de una esfera bien redonda, igual em fuerza a partir del centro por todas partes » (Fragmento 8, v.42, Simplício, Fís 146, 15). Entonces «es» significa, para Parménides, dos cosas distintas, la primeira un verbo, la segunda un sustantivo:

 

1) Existe.

2) Esfera llena, continua, inmóvil, no generada, inmutable, indestructible, inteligible.

 

Si la ciencia tiene por objecto lo que existe, - «lo que es» - para conocerlo «cómo existe» - «cómo es» -  este modo supone el «es» predicado. El cómo necesita el puente del «es» entre la substancia individual y su espécie o género. El sustantivo necesita el verbo. Platón conocia los dos sentidos del término «es».

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 14:20
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