Terça-feira, 30 de Maio de 2017
Teste de filosofia do 10º ano de escolaridade (26 de Maio de 2017)

 

Contrariamente à nossa posição habitual de não fazer perguntas de escolha múltipla nos testes de filosofia às quais se responde com uma simples cruz, construímos, por razões de disciplina comunitária, uma matriz comum solicitada pela Inspeção Geral de Ensino, e construímos um teste em que entra este tipo de perguntas. Este teste centra-se nos valores religiosos, opção escolhida pelos alunos desta turma em alternativa aos valores estéticos.

 

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C

26 de Maio de 2017 Professor: Francisco Queiroz

 

GRUPO I (10 pontos x 5, 50 PONTOS)

Em cada questão, indique a única resposta correcta de entre 4 hipóteses.

 

1) A corrente que sustenta que todos os emigrantes da Ásia e África devem ser expulsos de um país europeu é a do:

A) Etnocentrismo relativista.

B) Multiculturalismo.

C) Etnocentrismo absolutista.

D) Relativismo.

 

2) Na psicanálise de Freud o id é:

A) O polícia da consciência. 

B) O super-ego.

C) O ego.  

D) Os instintos e desejos inconscientes.

 

3) A filosofia de Osho:

A) Defende a validade das diferentes religiões.

B) Acredita no valor benéfico dos sacerdotes.

C) Diz que o bem e o mal não existem.

D) Sustenta que o casamento torna as pessoas infelizes.

 

4) O panenteísmo sustenta que

A) Deus está só acima da natureza física.

B) Deus e deuses não existem.

C) Deus é unicamente a natureza material, biofísica.

D) Deus é unicamente a natureza material, biofísica mais um espírito universal acima desta.

 

5)Na religião egípcia:

A)Acredita-se na reencarnação de todos os seres.

B) O céu é masculino e a terra é feminina.

C) O céu é feminino e a terra é masculina.

D) Seth não matou Osíris, os deuses são todos amigos.

 

GRUPO II (2x50 pontos)

1)Explique concretamente o seguinte texto:

 

«O budismo admite a lei do karma, o nirvana e os dharmas na origem do eu e aponta três pecados capitais A teoria da História de Hegel consiste em três etapas e na última comporta três formas de estado».

 

2)Explique os três estádios da existência humana segundo Kierkegaard.

 

GRUPO III (50 pontos)

 

1) Explique concretamente o seguinte texto:

«Entre o materialismo e o espiritualismo há o ideomaterialismo. A ontologia tem três correntes principais: o realismo, o idealismo e a fenomenologia. De um modo geral, a ciência afasta-se da mística

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 200 PONTOS (20 VALORES)

 

GRUPO I (50 PONTOS)

 

1-C)......................................10 PONTOS

2-D).......................................10 PONTOS

3-D).......................................10 PONTOS

4-D)........................................10 PONTOS

5-C).........................................10 PONTOS

 

GRUPO II (100  PONTOS)

1) O budismo, religião que veio reformar o hinduísmo com o seu sistema de 4 castas de pessoas, é um espiritualismo ateísta na medida em que admite que não há deuses eternos mas espíritos eternos (o Atman, o espírito superior de cada indivíduo) que reencarnam em sucessivos corpos segundo a lei do karma que diz o seguinte, grosso modo: se fores bom e justo nesta vida reencarnarás mum sábio, numa pessoa saudável com muito boa sorte, se fores mau e injusto nesta vida reencarnarás num cego de nascença, num boi ou num escorpião. O nirvana é o estado de extinção do eu, das paixões egoístas e poderá abranger o mundo das formas puras, extraterrestre, e o mundo das não formas onde há divindades imersas em meditação desde há séculos. Os dharmas são qualidades psicofísicas, predicados sem sujeito, como por exemplo, memória, sensações visuais, auditivas, tácteis, inteligência, consciência, etc, que flutuam no cosmos e se juntam, por acaso, formando um «eu» de cada invidíduo que encarna no mundo terrestre. Os três pecados capitais do budismo são: ódio, avareza e vaidade (VALE TRINTA PONTOS). Para Hegel, a essência da história é Deus ou Ideia Absoluta que se desenvolve segundo um percurso circular    desdobrando-se em três fases, segundo a lei da tríade: fase lógica, Deus sozinho antes de criar o universo o espaço e o tempo (é a tese ou afirmação, o primeiro momento da tríade); fase da natureza ou do ser fora de si, na qual Deus se aliena ou separa de si mesmo ao transformar-se em espaço, tempo, astros, pedras, montanhas, rios, plantas e deixa de pensar (é a antítese ou negação, o segundo momento da tríade, panteísmo, Deus é a natureza ); fase da humanidade ou do espírito ou do ser para si, em que a ideia absoluta/Deus emerge com a aparição da espécie humana, que é Deus encarnado evoluindo em direção a si mesmo, por sucessivas formas de estado, desde o despótico mundo oriental (um só homem livre, o faraó ou o imperador oriental) passando pelo mundo greco-romano (alguns homens são livres, os escravos e os servos não) até ao mundo cristão da Reforma protestante onde todos os homens são livres porque Lutero, no século XVI, apelou à tradução da bíblia de latim para alemão, de modo a torná-la compreensível ao povo, e à revolta contra a corrupta igreja romana com seu papa e bispos (esta fase da humanidade é a síntese ou negação da negação, panenteísmo, Deus é espírito isolado e é tudo, natureza e humanidade) (VALE 40 PONTOS).

 

2)Segundo Kierkegaard, filósofo existencialista cristão, há três estádios na existência humana: estético, ético e religioso. No estádio estético, o protótipo é o Don Juan, insaciável conquistador de mulheres que vive apenas o prazer do instante, e sente angústia se está apaixonado por uma mulher e teme não a conquistar. O desespero é posterior à angústia: é a frustração sobre algo que já não tem remédio ou que se esgotou. Ao cabo de conquistar e deixar centenas de mulheres, o Don Juan cai no desespero: afinal nada tem, o prazer efémero esvaiu-se. Dá então o salto ao ético: casa-se. No estado ético, o paradigma é do homem casado, fiel à esposa, cumpridor dos seus deveres familiares e sociais. Este estado relaciona-se com o essencialismo, doutrina que afirma que a essência, o modelo do carácter ou do comportamento vem antes da existência e condiciona esta. A monotonia e a necessidade do eterno faz o homem saltar ao estádio religioso, em que Deus é o valor absoluto, apenas importa salvar a alma e os outros pouco ou nada contam. Abraão estava no estádio religioso, de puro misticismo, quando se dispunha a matar o filho Isaac porque «Deus lhe ordenou fazer isso». O estádio religioso é o do puro existencialismo, doutrina que afirma que a existência vive-se em liberdade e angústia sem fórmulas (essências) definidas, buscando um Deus que não está nas igrejas nem nos ritos oficiais. Neste estádio, o homem casado pode abandonar a mulher e os filhos se «Deus lhe exigir» retirar-se para um mosteiro a meditar ou para uma região subdesenvolvida a auxiliar gente esfomeada. A escolha a cada momento ante a alternativa é a pedra de toque do existencialismo. Kierkegaard acentuava a noção de angústia, essa liberdade bloqueada, essa intranquilidade que surge antes ou durante muitos actos decisivos (exemplo: a angústia do aluno antes de saber a nota do teste, a angústia da mãe antes do parto, etc). Kierkegaard situa o paradoxo no interior do estado religioso e diz que se deve amar e seguir a vontade de Deus apesar de não compreendermos esta. (VALE TRINTA PONTOS).

 

GRUPO III

1) Entre o materialismo, doutrina que diz que a matéria física é eterna, incriada e origem de todo o universo, sendo até o pensamento uma forma subtil de matéria, não havendo Deus nem deuses nem espíritos desencarnados, e o espiritualismo, doutrina que diz que o universo procede do Espírito (um ou vários deuses ou almas eternas) e que a matéria deriva do espírito, há o ideomaterialismo,também chamado dualismo, que diz que os princípios simultâneos do universo são dois, o Espírito e a Matéria (VALE 20 PONTOS). A ontologia ou teoria do ser e dos entes divide-se em: realismo (o mundo material existe para além das mentes humanas); idealismo (o mundo material é um conjunto de sensações, só existe dentro das mentes humanas); fenomenologia (não sabemos se o mundo material subsiste por si mesmo fora de nós). (VALE 20 PONTOS). A mística é um estado subjectivo de alma, um sentimento humano de que se está intimamente unido a Deus ou deuses, de que se «vê» a Virgem Maria, anjos, etc, e isso é rejeitado pela ciência que busca leis objectivas, factos comprováveis por toda a gente (VALE 10 PONTOS).

 

 

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Quarta-feira, 19 de Abril de 2017
O existencialismo hedonista de Osho

Eis algumas das teses fundamentais do filósofo Osho (11 de Dezembro de 1931/ 19 de Janeiro de 1990), um místico libertário que une a mística com uma aguda racionalidade prática, coincidente em larga medida com as visões de Nietzshe e Freud sobre o ser humano. O seu existencialismo é hedonista porque visa desfrutar o prazer da vida aqui  e agora, nomeadamente o prazer da sexualidade livre, rejeitando as religiões em geral, o clero e o seu conteúdo anti sexual e punitivo da humanidade.

 

É IMPOSSÍVEL APERFEIÇOARMO-NOS, ACEITEMO-NOS COMO SOMOS

Osho sustenta ser impossível modificar a nossa essência original. A educação e a censura social que recebemos apenas recalca pulsões primordiais em nós.

 

«Uma das verdades mais duras de reconhecer é que continuamos a ser os mesmos - seja o que for que façamos, continuamos a ser os mesmos. O "aperfeiçoamento" não existe. O ego fica todo desfeito porque vive através do aperfeiçoamento, da ideia do aperfeiçoamento, da ideia de chegar um dia a algum lado.(...)»

«No momento em que se aceita a si próprio, fica aberto, fica vulnerável, fica receptivo. No momento em que se aceita a si próprio, deixa de haver necessidade de qualquer futuro, porque deixa de haver necessidade de aperfeiçoar seja o que for. E então tudo é bom tal como é.»

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pag 105 ).

 

O AMOR É LIVRE, TRAZ A LIBERDADE, NÃO DEVE EXIGIR FIDELIDADE (LEALDADE) NEM CASAMENTO

 

Sendo o amor um sentimento irracional, total, que vem e desaparece sem que se conheçam as leis temporais que o regem, não pode ser cristalizado, aprisionado no casamento. Se o for, morre. O casamento na medida em que é uma argola, um instrumento de posse de outra pessoa rouba a liberdade e ser pessoa é ser livre.

 

«O amor é uma experiência perigosa, porque se é possuído por algo que é maior que você. E que é incontrolável, não o pode produzir por encomenda. Uma vez terminado, não há maneira de o trazer de volta, tudo o que pode fazer é fingir, é ser hipócrita. (...)

«O amor traz a liberdade. A lealdade traz a escravidão. Na aparência, são iguais; no seu âmago, são exactamente o oposto. A lealdade é representar: você foi educado para isso. O amor é rebelde: toda a sua beleza reside na sua rebeldia. Vem como uma brisa cheia de fragâncias, enche-lhe o coração e, de repente, onde havia um deserto, há agora um jardim cheio de flores. E você não sabe de onde vem e não sabe que não existe maneira de o fazer vir; vem sozinho e fica enquanto a existência o quiser.(...)

«O casamento conhece a lealdade, lealdade ao marido e, porque é formal, está nas suas mãos...mas não é nada comparável ao amor, nem sequer é uma gota de orvalho no mar que é o amor»

«Contudo, a sociedade sente-se muito contente com a lealdade porque pode confiar nela. O marido sabe que pode confiar em si, confiar que amanhã lhe será tão leal como hoje. O amor não é de fiar. E o fenómeno mais estranho é que o amor pressupõe confiança, mas não é de fiar. Naquele momento é total, mas o momento seguinte fica em aberto. Poderá crescer dentro de si, mas poderá igualmente evaporar-se de si. O marido quer uma mulher que seja sua escrava para toda a vida. Ele não pode ficar dependente do amor, tem de criar alguma coisa que se pareça com amor, mas fabricado pela mente do homem.» 

 (Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pp 100-101; o destaque a negrito é posto por nós).

 

«As pessoas não podem ser possuídas. Se tentar possuí-las, matá-las-á, elas tornar-se-ão coisas. Uma pessoa significa liberdade. O nosso relacionamento com os outros não é realmente um relacionamento "eu-tu", bem no fundo não passa de um relacionamento "eu-isso". O outro é apenas uma coisa a ser manipulada, a ser usada, a ser explorada. É por isso que o amor se torna cada vez mais impossível, porque o amor significa considerar o outro como uma pessoa, como um ser consciente, como uma forma de liberdade, como uma coisa tão valiosa como nós». (...)

«O marido existe para si próprio, a esposa existe para si própria. Uma pessoa existe para si própria: é isso que significa ser uma pessoa.» 

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pp 136-137; o destaque a negrito é posto por nós).

 

SER VERDADEIRO, AO MENOS COM O SER AMADO, COM A FAMÍLIA E AMIGOS

 

A mentira não compensa, distorce o ser de cada um - salvo raras excepções. claro. Osho disse:

 

«O amor é participação, por isso, pelo menos com os seres amados, não seja falso. Não estou a dizer para ser verdadeiro na praça pública, porque isso criaria problemas desnecessários neste preciso momento. Mas comece com o amante, depois com a família , depois com as pessoas que estão mais afastadas de si. A pouco e pouco aprenderá que ser verdadeiro é tão belo que estará disposto a perder tudo por causa disso.»

 

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pag 66; o destaque a negrito é posto por nós).

 

 

DEUS É O MAIS FRÁGIL E INSTANTÂNEO DE TODOS OS ENTES

Osho fala de Deus um pouco à maneira da gnose cátara em que o Deus da Luz, criador das almas, é impotente para agir sobre a matéria, sobre o mundo de matéria criado por Satã :

 

«Só uma mente poética pode compreender a possibilidade de Deus, porque Deus é o mais fraco e mais sensível dos seres. É por isso que é o altíssimo; é a flor suprema. Floresce, mas floresce apenas numa fração de segundo. Essa fração de segundo é conhecida como "o presente". Se deixa passar esse momento - e esse momento é tão pequeno que tem de estar muito intensamente atento - só então será capaz de o ver, de outro modo passar-lhe-á ao lado.  Está sempre em flor - floresce em cada momento; mas não o pode ver, a sua mente está atravancada com o passado e o futuro»

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pp 121-122; o destaque a negrito é posto por nós).

 

É fácil perceber que Deus, segundo Osho, não é o ente dos castigos e dos mandamentos do Velho e Novo Testamento, do Alcorão, do Bhagavad-Gita, etc. Nem expulsou Adão e Eva do Paraíso nem criou o Inferno porque senão seria maldoso. É o oposto do Deus de Kierkegaard que não se identifica com o estádio estético, com o viver o momento como um Don Juan conquistador de mulheres. O deus de Osho é Deus alegria, que desfaz os casamentos, as relações aborrecidas e põe a liberdade acima do amor.

 

DEIXEMO-NOS SER VULNERÁVEIS, A VIDA É UM FLUIR, NÃO HÁ NADA A ALCANÇAR, A VIDA É DEUS

 

Osho defende que se devem abandonar posturas rígidas que anunciam violência e sobranceria e ser vulneráveis. E viver a vida plenamente, na base da não violência, porque não há nenhum Deus além da natureza viva e da sua beleza (panteísmo).

«Lao Tse diz:

«Quando um homem nasce, é frágil e sensível; quando morre, fica insensível e rígido. Quando as coisas e as plantas estão vivas, são macias e maleáveis; quando estão mortas, são quebradiças e secas. Por conseguinte, a insensibilidade e a rigidez são as companheiras da morte; e a suavidade e a sensibilidade são as companheiras da vida

«Portanto, quando um exército é obstinado, perderá em batalha. Quando uma árvore é dura, será cortada. O grande e o forte pertencem à parte de baixo. O suave e o fraco pertencem à parte de cima.» 

«A vida é um rio, um fluir, uma continuidade sem princípio nem fim. Não vai a lado nenhum, está sempre aqui. Não vai de um lado qualquer a outro lado qualquer, vem sempre daqui para aqui. Para a vida, o único tempo é agora e o único lugar é aqui. Não há uma luta para alcançar, não há nada para alcançar.» (...)

«Pode viver a vida de duas maneiras: pode fluir com ela - e então também você será majestoso, terá uma graça, a graça da não-violência, sem conflito e sem luta. Então terá uma beleza infantil, semelhante à da flor, macia, delicada, incorrupta. Se flui com a vida, você é religioso. É isso que a religião significa para Lao Tsé e para mim».

«Habitualmente, religião significa uma luta com a vida, por Deus. Habitualmente, significa que Deus é a meta e a vida tem de ser negada e combatida. A vida tem de ser sacrificada e Deus tem de ser alcançado. Essa religião habitual não é nenhuma religião. Essa religião habitual é apenas parte da mente inferior, violenta e agressiva

«Não existe Deus para além da vida; a vida é Deus. Se nega a vida, nega Deus, se sacrifica a vida, sacrifica Deus. Em todos os sacrifícios, só Deus é sacrificado. George Gurdjieff costumava dizer - parece um paradoxo, mas é verdade - que todas as religiões são contra Deus. Se a vida é Deus, então negar, renunciar, sacrificar é ir contra Deus.»

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pp 111-112; o destaque a negrito é posto por nós).

 

PARA A EXISTÊNCIA, TUDO É IGUAL, NÃO HÁ SUPERIOR NEM INFERIOR, A VAIDADE É INÚTIL

 

A moral de Osho é naturalista e a sua filosofia, à semelhança do estoicismo de Marco Aurélio, destaca o carácter efémero e rápido da existência: podemos morrer a qualquer instante, a nossa importância familiar, social ou profissional desaparece de um momento para o outro.

 

«A palavra animal não é, em si mesma, má. Significa simplesmente estar vivo; deriva de anima. Qualquer um que esteja vivo é um animal. Mas ensinou-se ao homem: "Não sois animais; os animais estão muito abaixo de vós. Vós sois seres humanos". Deram-lhe uma falsa superioridade. A verdade é que a existência não acredita nem no superior mem no inferior. Para a existência, tudo é igual - as árvores, as aves, os animais, os seres humanos. Na existência, tudo se aceita absolutamente como é, não há condenação.»  

«Se aceitar a sua sexualidade sem quaisquer condições, se aceitar que o homem  e todos os seres que há no mundo são frágeis, porque a vida é um fio muito fino que se pode  quebrar a qualquer instante...Uma vez aceite isto, deixará cair imediatamente todo o falso ego - de ser Alexandre, o Grande, ou Mohamede Ali, o três vezes grande - basta compreender que todas as pessoas são belas na sua banalidade e que todas  as pessoas têm as suas fraquezas, que fazem parte da natureza humana, porque não somos feitos de aço...»                                                                                                         

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pag. 9; o destaque a negrito é posto por nós).

 

 

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Domingo, 16 de Abril de 2017
Osho: a infelicidade nasce de se ter ideais perfecionistas

Osho (1931-1990), o filósofo indiano perseguido por diversas religiões e Estados que reflectem o poder destas, disse que já somos perfeitos tal como somos e que nada há a melhorar. Assim, suprime-se a dualidade, fonte da luta, e vive-se integralmente o presente, o aqui e o agora.

 

 «O homem cria a sua própria confusão só porque está sempre a rejeitar-se a si próprio, a condenar-se a si próprio, a não se aceitar a si próprio. Cria-se assim um encadeamento de confusões, de caos interior e de infelicidade. Porque razão não se aceita tal como é? O que se passa? Toda a existência o aceita tal como é, mas você não » (.....)

 
«Por causa do ideal condena-se a si próprio. Todas as ideologias e todos os ideais são condenatórios, porque criam uma imagem na mente. E enquanto continuar a comparar-se a essa imagem, sentirá sempre que lhe falta qualquer coisa, que alguma coisa lhe falta.»
«Nada está a faltar nem nada está a falhar. Você é perfeito na medida em que haja qualquer possibilidade de perfeição.» (...)

 

«O obstáculo aparece através do ideal. Como pode você sentir prazer? Está cheio de cólera e primeiro, a cólera tem de desaparecer. Como pode voce ser ditoso? Está cheio de sexualidade e, primeiro, o sexo tem de desaparecer. Como pode você ser como os deuses celebrando este momento? Está cheio de tanta cupidez, tanta paixão, tanta raiva e, primeiro, tudo isso deve desaparecer. Depois será como os deuses.»

(Osho, "Intimidade, confiar em si próprio e no outro", Editora Pergaminho, 2002, pp 82-83; o destaque a bold é posto por nós).

 

É óbvio que os ideais têm um lado positivo: os direitos humanos universais, a proteção da vida de cada um contra a guerra, a mutilação, a fome, etc, são um ideais que balizam e defendem milhões de seres humanos contra a tirania e o arbítrio. Note-se que a filosofia do abandono das preocupações e da auto aceitação de Osho opõe-se à lei da atração universal segundo a qual se deve pensar de modo optimista no que se deseja intensamente e tentar materializar o desejo.

 

 

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Sábado, 12 de Novembro de 2016
Breves reflexões de Novembro de 2016

 

Eis algumas breves reflexões neste Novembro de 2016 que vão surgindo, sem nada de especial, do pulmão metálico do outono.

 

POR QUE RAZÃO OS HOMENS QUEREM IR PARA DENTRO DAS MULHERES? Porque se sentem inseguros, insatisfeitos, incompletos. Elas são a casa, eles são o hóspede. A casa não faz mal ao hóspede, salvo raras excepções de desabamento ou inundação, mas o hóspede, faz com frequência, mal à casa esburacando paredes, partindo vidros de janelas, avariando portas.

 

O AMOR ENTRE OS APAIXONADOS, CORRESPONDIDO, É FANTÁSTICO. E tudo pode acabar de um momento para o outro, porque assenta em chamas, em labaredas vivas.

 

SINCRONISMO ONTOFONÉTICO- Em 10 e 11 de Novembro de 2016, as ideias de FORTE DE PENICHE E MARTELO estão em destaque: no dia 10, passam 103 anos sobre o nascimento de Álvaro Cunhal, secretário-geral do PCP, partido de símbolo foice e MARTELO, que protagonizou com 9 camaradas a célebre fuga do FORTE prisão política de PENICHE em 3 de Janeiro de 1960, 17 HAMMERskins ( pele de MARTELO, em inglês) são ouvidos por um juíz em Portugal por suspeitas de racismo e conspiração fascista organizada; no dia 11, é dia de São MARTINHO (evoca: MARTE, MARTELO), o vice-presidente da câmara de PENICHE, Jorge Amador (CDU), declara que o município quer continuar a dar parecer a futuras soluções para o FORTE DE PENICHE, que, por pressão do PCP, BE e ala esquerda do PS, foi retirado da lista de monumentos históricos a concessionar a privados.

 

OSHO DISSE: «Ouça! O Reino está dentro de você! Portanto, todos os templos são inúteis, porque você é o templo. Você é a igreja! O Vaticano é inútil, Roma é só um fardo; não há mais necessidade de ir a Meca, a Medina, de ir a Girnar ou a Kashi. Você é o templo, o templo vivo de Deus! Ele está dentro de você. Qual é então a necessidade de um padre, de um mediador?» (Bagwan Shree Rajneesh, A semente de mostarda, pag 47).

 

E SE OS PLANETAS FOREM DEUSES E DEUS? Muitas vezes penso que Deus ou os deuses espíritos não podem intervir neste mundo de matéria e de instintos reptilianos dominadores ou assassinos inerentes aos seres humanos na quase totalidade. Assim, Saturno é um implacável deus da frustração, do dinheiro ou da queda na materialidade e não é possível evitar os seus efeitos na vida de cada ser humano nem com a lei da atração que, supostamente, alteraria o destino de cada um. Jesus e os Eons do Pleroma ou mundo da Luz estão para lá da esfera de Saturno, a sétima esfera, e não parece que possam evitar o mal e o peso das sete esferas onde também há planetas-deuses bons como Vénus e Júpiter

 

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Sexta-feira, 29 de Julho de 2016
O ateísmo espiritualista de Osho

Osho ou Bhagwan Shree Rajneesh (Kuchwada, Índia 11 de Dezembro de 1931- Puna, Índia, 19 de Janeiro de 1990) filósofo e místico indiano, defende que Deus nunca existiu, que a reencarnação é lei geral da existência, que a sexualidade é a energia libertadora mais poderosa  e que o homem que se apercebe disso e medita racionalmente atinge o estado de um Buda ou iluminado:


 «É absolutamente necessário que Deus esteja morto. Mas eu quero que compreenda o meu ponto de vista. Foi bom Friederich Nietzsche ter declarado que Deus estava morto. Eu declaro que ele nunca nasceu. É uma ficção criada, uma invenção, não uma descoberta (..)
«Eu quero destruir todos os sistemas de crenças, todas as teologias, todas as religiões. (…) A verdadeira medicina não é um sistema de crenças; a verdadeira medicina é a meditação (Osho, A conspiração de Deus, Editora Pergaminho, pp. 50-51).

E acrescenta:

«O padre sabe perfeitamente que Deus não existe. Ele é a única pessoa que o sabe perfeitamente. Mas é a sua profissão; ele vive de explorar as pessoas. Por isso, persiste em afirmar que Deus existe. Deus é o seu negócio. E quando é uma questão de negócio, é uma questão de subsistência. »

«E há milhões de padres, pertencentes a diferentes religiões. Há diferentes tipos de padres em cada país, mas todos eles exploram as pessoas a oferecer-lhes consolo. "Este casamento vai ser ótimo." E todos os casamentos são uma tragédia. Eu nunca vi um casamento que fosse uma comédia. »

«As pessoas só podem ser felizes se não forem casadas- Assim têm uma certa liberdade. É a partir desta liberdade que decidem permanecer juntas, não a partir de um contrato ou negócio qualquer, ou por serem forçadas pela sociedade. Não por causa de nenhuma lei - mas por causa de amor. - estão juntas apenas por amor e quando o amor falha...»

«E tudo falha, lembre-se. É ficção dos poetas que o amor é eterno. Não, o amor que você conhece não é eterno, e o amor que os poetas conhecem não é eterno; desvanece-se. Mantém-se se os amantes não se encontrarem.»

 

(Osho, A conspiração de Deus, Editora Pergaminho, pp. 276-277; o negrito é posto por nós).

 

O CASAMENTO ABERTO OU O FIM DA MONOGAMIA

Osho ataca todas as religiões na medida em que pregam a repressão sexual («Não cometas adultério», «Não penses em outras mulheres ou homens mas apenas no teu cônjugue», «Não vestirá o homem de mulher nem a mulher de homem») fechando as pessoas no casamento monogâmico que traz o sentimento de posse, o ciúme, a raiva no seio do casal.

 

«Se a sociedade fosse governada por gente inteligente - e não por gente que apenas deseja explorar - que procurasse satisfazera sua natureza até ao limite possível, o ciúme não existiria. A esposa compreenderia que, de vez em quando, o seu marido precisasse de outra mulher, "exatamente como eu também preciso de outro homem", E isso é perfeitamente natural. Somos todos seres humanos.»
 «Onde está o mal de mudarmos de parceiro de ténis todos os dias? Há motivos para ciúmes? Claro que não.» (...)

 

«Quando não há ciúme não há raiva (...) Não acha que isso permitirá que a amizade cresça entre duas pessoas?» Um homem que conceda liberdade à sua esposa, uma esposa que conceda liberdade ao seu marido, isso implica a existência de uma grande amizade, de uma grande intimidade.»
 «A mulher pode dizer ao marido como era o outro homem. O marido pode descrever à mulher como eram as coisas com a outra mulher. Não precisam de esconder. A amizade torna possível este tipo de proximidade e intimidade. Porém as sociedades do passado nunca quiseram que isso acontecesse. Queriam que as pessoas vivessem na rotina: unir uma mulher e um homem para sempre é iniciar uma peregrinação em direção ao tédio consumado. Estas pessoas entediadas, sofredoras não podem revoltar-se. Não podem atingir o clímax da inteligência: o tédio não pára de destruir qualquer espécie de possibilidade.» (OSHO, O livro do sexo, Pergaminho, pp. 208-209).

 

Osho critica não só o casamento por interesse material, difundido na Índia, como o sexo animal puro fácil que impera no Ocidente do «amor ivre»:

«O amor confia sempre ou então chega à conclusão de que a confiança não é possível e parte de uma maneira agradável; sem lutas nem conflitos. O sexo cria o ciúme; encontre, descubra o amor. Não faça do sexo a questão principal - porque não o é.»
«A Índia perdeu esssa possibilidade com os casamentos de conveniência; o Ocidente está a perdê-la devido ao "amor livre". »

«A Índia perdeu a capacidade de amar, porque os pais eram muito calculistas e menipuladores. Não permitiam que os seus filhos conhecessem o amor: isso é perigoso, ninguém sabe no que vai resultar. Foram muito espertos e, devido a essa esperteza, a Índia desperdiçou a sua possibilidade de amar.»«No Ocidente, as pessoas estão todas muito revoltadas, são demasiado jovens; não são espertas - são demasiado jovens e acriançadas. Tornaram o sexo uma coisa livre, disponível em todos os cantos e esquinas; não há necessidade de ir muito longe para descobrir o amor, basta gozá-lo e terminar num instante seguinte.»

 

«Através do sexo, o Ocidente está a perder-se; através do casamento, perdeu-se o Oriente. Mas, se estiver alerta, não precisa de ser oriental nem ocidental.» (OSHO, O livro do sexo, pp 236-237; o negrito é colocado por nós)

 

 

A NATUREZA BISSEXUAL DE TODOS OS SERES HUMANOS

 

Osho proclamou a bissexualidade psíquica como natureza de todos os seres humanos. Portanto, há que aceitar a diversidade dos comportamentos sexuais, com toda a liberdade, e rejeitar todas as religiões e os respectivos deuses na medida em que estas reprimem ou condicionam a sexualidade livre e espontânea e castram psiquicamente homens e mulheres.

 

«O Tantra diz que todos os homens e mulheres são bissexuais. Um homem não é simplesmente um homem. Á sua maneira, é também uma mulher. O mesmo se aplica à mulher. No seu íntimo, esconde-se um homem. Donde, todo o indivíduo, homem ou mulher, é bissexual. O oposto está escondido na camada mais profunda.»
 «Na meditação profunda, dá-se um orgasmo sexual - não com alguém exterior a si, mas com o seu pólo interior oposto. É ali que se encontram: o seu lado feminino e o seu lado masculino. Esse encontro é espiritual e não físico. O yin e o yang interpenetram-se» (Osho, O livro do sexo, pág. 213).

 

 

A CONSCIÊNCIA INDIVIDUAL É IMORTAL, DEUS NÃO EXISTE

 

Mas o ateísmo de Osho pressupõe a imortalidade da consciência humana

 

«A morte não destrói nada. Os cinco elementos do corpo são reabsorvidos de volta para a sua origem, e quanto à consciência há duas hipóteses: se não conheceu meditação, irá passar para outro ventre; se conheceu a meditação, se conheceu a sua eternidade, passará para o cosmos e desaparecerá na vastidão da existência. E esse desaparecimento é o momento alto da vida, em que se unifica com a sua origem, em que regressa e desaparece nela. »
«A religião autêntica não precisa de nenhum Deus, não precisa de nenhum padre. Não se esqueça: basta que explore o seu mundo interior.
«Essa exploração é o que eu chamo Zen. Em sânscrito chama-se dhyran; em chinês chama-se ch´an; em japonês chama-se zen. Mas é a mesma palavra. Dirigir-se ao seu interior, alcançar o ponto a partir do qual pode olhar, uma porta que se abre para o cosmos divino. Nesse ponto, você é um buda» (Osho, A conspiração de Deus, Pergaminho, pp. 279-280, o negrito é adicionado por nós).

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 18:30
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