Sábado, 18 de Setembro de 2010
Sobre o vazio (Kénon) e o movimento local (Phorá) em Aristóteles

Uma das teses capitais de Aristóteles é a da inexistência do vazio (Kénon) absoluto, separado dos corpos. Kant opõe-se a Aristóteles ao conceber um espaço vazio, forma a priori da sensibilidade, sem corpos. Mas Berkeley permaneceu na linha de Aristóteles nesta questão. Aristóteles escreveu sobre o vazio, referindo o movimento local (Phorá), ou seja, o movimento de um corpo de um lugar para outro:

 

« Que não há vazio separado, tal como alguns afirmam, digamo-lo de novo. (...) E posto que se pensa que o vazio é causa do movimento local, mas não o é, de que será causa então?»

 

«Ademais, se fosse como um lugar desprovido de corpo, quando haja um vazio, para onde se deslocará um corpo que tenha sido introduzido nele? Não em todas as direcções do vazio, certamente. O mesmo argumento vale também para os que pensam que o lugar existe como algo separado para o qual se deslocam os corpos. Pois como poderia deslocar-se ou permanecer em repouso o que se tenha introduzido nele? O mesmo argumento pode aplicar-se ao "acima", ao "abaixo" e ao vazio, e com razão, posto que os que afirmam a existência do vazio fazem dele um lugar.» (Aristóteles, Física, Livro IV, 214b).

 

Por que razão não pode haver movimento no vazio, segundo Aristóteles? Porque o vazio seria destituído de matéria e só esta possibilita o movimento. As formas são imóveis - não as formas do composto, como a forma perecível do meu corpo ou daquela árvore e daquela nuvem, mas as formas específicas (eidos), eternas. Formas, afecções e lugar são imóveis como no texto abaixo se lê. A ciência, um conjunto de formas, e o calor, uma afecção ou acidente da substância, são imóveis:

 

«No que toca às formas, às afecções e ao lugar para o qual são movidas as coisas em movimento, estes são imóveis, como a ciência e o calor.» ( Física, Livro IV, 224b).

 

«Assim tampouco o movimento local exige a existência do vazio; porque os corpos podem simultaneamente substituir-se entre si, sem que haja que supor nenhuma extensão separada e àparte dos corpos que estão em movimento. E isto é evidente também nos movimentos dos contínuos, como por exemplo, nos dos líquidos.» (Aristóteles, Física, Livro IV, 214a; o negrito é de minha autoria).

 

Esta substituição dos corpos entre si, de que fala Aristóteles, parece compararar-se ao movimento operado na queda sucessiva, em cadeia, de milhares de peças de dominó encostadas umas às outras após a queda da primeira peça: este fenómeno explicaria o «movimento no espaço vazio» descrito por uma só peça de dominó. É que há milhares de corpos em potência, idênticos ao corpo que se move, contíguos a este, e a cada segundo, cada um desses corpos vai sendo actualizado e logo a seguir des-actualizado, à medida que o movimento se opera.  A modernidade do pensamento aristotélico é, por demais, evidente.

 

O vazio relativo não é um verdadeiro vazio. Por exemplo: o copo esvazia-se de água à medida que bebemos esta mas enche-se de ar que ocupa o lugar da água. Portanto, a noção do "pleno" em Parménides - tudo está cheio de ser, só o ser é - continua em Aristóteles mas não está presente, do mesmo modo, nos pitagóricos que postulavam que do vazio emergiu um ponto (o número um) nem nos atomistas, que admitiam os átomos a girar no vazio.

 

 www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

 (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 11:48
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