Quarta-feira, 11 de Dezembro de 2013
Teste de filosofia do 10º ano, turma A, Dezembro de 2013

 

Eis um teste de filosofia sem perguntas de resposta múltipla que exigem responder com cruzes e não desenvolvem a capacidade discursiva escrita do aluno.

Agrupamento de Escolas nº 1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA A
11 de Dezembro de 2013. Professor: Francisco Queiroz

 

I

“ Aparentemente, o imperativo categórico, segundo Kant, reveste-se de multiculturalismo e não de etnocentrismo absolutista.  Há quem conteste a divisão das éticas em deontológicas e teleológicas. O livre-arbítrio e o determinismo biofísico são compatíveis».

 

1) Explique concretamente este texto.

 

2) Relacione, justificando:
A)    Nous e epithymia em Platão e os dois eus na moral de Kant.
B)    Esfera dos valores vitais e sentimentais e esfera dos valores espirituais em Max Scheler.
C)    Demiurgo em Platão, Deus em Aristóteles e Essência em ambos os filósofos.
D)    Lei da contradição principal na dialética e princípio do terceiro excluído.

 

 

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE, COTADO PARA 20 VALORES

 

1) O imperativo categórico é a verdadeira lei moral segundo Kant e formula-se assim: «Age como se quisesses que a tua máxima fosse lei universal da natureza». Dito de outro modo: trata a todos igualmente e põe-te no mesmo plano que eles. Isto parece corresponder ao multiculturalismo, doutrina que sustenta que, no interior de uma mesma comunidade nacional ou supra-nacional, as diferentes etnias (povos, grupos que falam a mesma língua e têm a mesma religião ou costumes sociais) devem ter direitos e oportunidades iguais. O etnocentismo absolutista, doutrina que afirma a supremacia incontestada de uma etnia e escraviza ou elimina outras etnias - caso do nazismo, ao eliminar judeus e ciganos - não deriva do imperativo categórico (VALE TRÊS VALORES). Há quem não concorde com a divisão das éticas, teorias do bem e do mal no comportamento, em deontológicas , isto é, centradas no dever (déon) e teleológicas, isto é, centradas na finalidade (télos)da acção. (VALE DOIS VALORES). O livre-arbítrio é a capacidade de escolher racionalmente. livremente, os seus valores, as suas acções e o determinismo biofísico é a lei geral da natureza segundo a qual as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos, nas mesmas circunstâncias - por exemplo, as sementes de maçã originam sempre macieiras e não pinheiros, a lei da gravidade faz sempre cair para a Terra um corpo inerte largado no ar. Livre-arbítrio conjuga-se com determinismo biofísico (VALE DOIS VALORES).

 

2) A)Nous é a razão intuitiva ou superior em Platão. Apreende o Bem, o Belo, o Justo e outros arquétipos. Equivale ao eu numénico ou racional na teoria de Kant, uma vez que este eu superior está livre da subordinação aos instintos egoístas, aos interesses materiais particulares. Epytimia é a concupiscência, o leque dos instintos inferiores ligados ao ventre: comer, beber, possuir ouro e prata e terrenos ou lojas e oficinas, etc. Equivale ao eu fenoménico ou eu empírico/ corporal na doutrina de  Kant, já que este eu exprime os apetites do corpo e fabrica o imperativo hipotético (VALE TRÊS VALORES)

 

2) B) A esfera dos valores vitais e sentimentais, segundo Max Scheler, alberga uma imensidão de valores anímicos, psíquicos ou psicofísicos: o nobre e o vulgar, os sentimentos de juventude, de velhice, de vitória, de derrota, a paixão amorosa, o ciúme, a inveja, o orgulho, a coragem, a cobardia, etc. A esfera dos valores espirituais opõe-se-lhe na medida em que alberga valores intelectuais ou afectivo-intelectuais: os valores estéticos (belo feio, sublime horrível), os valores éticos (bom, mau, justo, injusto), os valores de verdade (filosofia e, de forma derivada, as ciências) (VALE TRÊS VALORES).

 

2) C) O demiurgo é, na doutrina de Platão, o deus arquitecto que, com a ajuda dos deuses do Olimpo, faz imprimir na matéria caótica (chorá) as formas similares aos arquétipos. É, pois, um deus activo, modelador. O Deus de Aristóteles é pensamento puro, está imóvel, além do universo, não se preocupa com este e é causa indirecta do movimento circular das estrelas e planetas e respectivas esferas de cristal: os astros desejam alcançar. As essências em Platão existem no mundo inteligível, acima do céu visível: são eternas, imóveis, perfeitas, sem matéria, espirituais. Em Aristóteles, as essências existem nas coisas sensíveis e não há mundo inteligível separado: a essência de sobreiro é a forma pura e eterna que há em todos os sobreiros físicos, a essência de belo está na rosa bela, na mulher bela e em todos os objectos belos..(VALE QUATRO VALORES).

 

2) D) A lei da contradição principal estabelece que, num sistema de múltiplas contradições, se podem destacar dois grandes blocos que constituem a contradição principal, deixando, ou não de fora, em zona neutra, uma ou várias entidades. Por exemplo: na segunda volta das eleições presidenciais, o candidato presidencial do centro-esquerda reune em torno  de si o bloco dos socialistas, comunistas, ecologistas, republicanos de esquerda, anarquistas possibilistas, etc e o candidato presidencial do centro-direita encabeça o bloco dos conservadores, neofascistas moderados, liberais e centristas. O princípio do terceiro excluído é parecido porque forma dois campos: o de uma coisa ou qualidade ser A ou não A, sem haver terceira hipótese. Exemplo: na segunda volta das presidenciais, ou votas no candidato de centro-esquerda ou não votas no candidato de centro-esquerda, não havendo a terceira hipótese. (VALE TRÊS VALORES):

 

 

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Quarta-feira, 11 de Julho de 2012
Crítica de Max Scheler à redução fenomenológica de Husserl

 

O fenomenólogo alemão Max Scheler (22 de Agosto de 1874- 19 de Maio de 1928), na linha das correntes vitalistas e não representacionistas, critica o conhecimento como uma apreensão racional-intelectual, visto unicamente como um aclarar da água turva de modo a ver o fundo do tanque:

 

«O problema da produção técnica das disposições afectivas e intelectuais necessárias para o conhecimento filosófico das essências é conhecido de todos os metafísicos, desde Buda, Platão, e Santo Agostinho até ao "esforço doloroso" de Bergson a fim de intuir a "durée" e até à teoria da "redução fenomenológica" de Husserl, que significa um problema epistemotécnico da atitude filosófica específica no saber e no conhecimento, em Husserl mascarado simplesmente sob uma aparente metodologia lógica e até aqui resolvido do modo mais deficiente. A técnica interna do saber filosófico e metafísico é justamente um problema de índole completamente peculiar e independente e não deve confundir-se com a técnica do conhecimento científico positivo nem os restantes procedimentos psicoténicos para outros "fins". Na dita técnica trata-se sempre de uma coisa: de produzir por meio de um acto de exclusão dos actos e impulsos que dão o momento de realidade dos objectos (a realidade é sempre, em simultâneo, o sumo e último "principium singularisationis") uma pura contemplatio das genuínas ideias e fenómenos primários e - na correspondência entre umas e outros - da "essência" livre de existência. Mas estes actos e impulsos são sempre de natureza dinâmica impulsiva - como reconheceram em comum Berkeley, Maine de Biran, Bouterweck, o Schelling do último período, Schopenhauer, W.Dilthey, Bergson, Frischeisen-Köhler, E.Jaensch, M.Scheler. Só como "resistência" oposta à atenção dinâmica impulsiva se dá a realidade em todos os modos da percepção e da recordação. Ora bem, estes actos a excluir, e não um mero procedimento lógico para "prescindir" dos modos da existência ou para "pôr entre parentesis" a existência como crê E.Husserl são, mesmo assim as raízes positivas de aquela vontade de domínio e aquela valoração do domínio que, como vimos, são em simultâneo uma das raízes psicológicas da ciência positiva e da técnica do domínio.»

(Max Scheler, Sociología del Saber, pag. 163-164, Editorial Leviatán, Buenos Aires, 1991; o destaque a negrito é de minha autoria).

 

A crítica de Scheler a Husserl aqui contida é a de que este reduziria o conhecimento a uma técnica de eliminação de pormenores empíricos singulares dos entes, separando a "essência" da existência, o que é impossível, segundo Scheler. A redução fenomenológica não é senão, a meu ver, a teoria do conceito como abstração das percepções empíricas similares entre si, formulada por Aristóteles. E esse tecnicismo que é a redução fenomenológica (Exemplo: «vejo vários pinheiros de ramagem a oscilar ao vento e abstraio das diferenças entre eles e isolo na minha mente, por redução, a essência de pinheiro») seria não uma atitude neutra mas assentaria em postulados metafísicos não explícitos e questionáveis, numa vontade de domínio, mais ou menos subjectiva.

 

Parece, pois, haver duas vias na fenomenologia: uma delas, a de Scheler e Heidegger, filiada em Schopenhauer e Kant, criadora, existencialista que defende o conhecimento como explosão da matéria das sensações com formação posterior da forma; a outra, a de Husserl, reprodutora, essencialista estática, espelhamento ou desvelação de um arquétipo ou forma essencial que existe desde o início encoberto ou mal entrevisto por uma cortina sensorial, de percepções empíricas ou imagens da memória. No entanto, há que analisar bem os textos de Husserl, como salientou Merleau-Ponty, e detectar se este superou a «redução fenomenológica» nalgum deles.

 

  

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Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011
Testes de filosofia criativos para o 10º ano de escolaridade em Portugal (final do primeiro período letivo)


 

Eis dois testes de filosofia para o 10º ano de escolaridade em Portugal, de final de primeiro período letivo, feitos com criatividade e riqueza de conteúdos, longe do simplismo monótono dos testes dos professores medianos que imitam os manuais de filosofia vigentes em Portugal.  Todos estes últimos são muito limitados pela inércia do pensamento e pela «filosofia analítica» em voga (Oxford Dictionary of Philosophy, Routledge Dictionary of Philosophy, etc) cujas definições erróneas - do tipo «o libertismo é um incompatibilismo», «o relativismo não pode ser objetivista» ou «o subjetivismo contradiz-se» - e cujo vício lógico-formalista impedem a amplitude do pensamento livre, profundo e criador.  

 

 

Escola Secundária com 3º ciclo Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA A

 

Dezembro de 2011          Professor: Francisco Queiroz

 

 

I

 

“O realismo gnosiológico liga-se, sobretudo, à ideia de transcendência e o idealismo gnosiológico à ideia de imanência. Os juízos de valor assentam quase sempre na intersubjetividade e levam muitas vezes ao relativismo ou mesmo ao ceticismo.»

 

 

1) Explique, concretamente, cada uma destas frases.

 

                                                                       II

 

 

“Entendi ser injusta uma cena em que duas raparigas agrediam uma terceira, enchi-me de coragem e intervim libertando a vítima, depois fui apreciar os quadros do Museu Regional de Beja, fiz um teste de matemática na escola, almocei frango assado e agradeci à Divindade sob um sol agradável.”

 

 

2), Identifique, nos termos a negrito deste texto, as quatro esferas de valores segundo Max Scheler e ainda valores de coisa e valores de função.

 

 

 

3) Relacione, justificando:

 

A) Imperativo categórico e imperativo hipotético em Kant e duas partes da alma humana segundo Platão.

 

B) Princípio lógico do terceiro excluído e lei dialética da contradição principal.

 

C) Hierarquia dos valores, ideologia e teleologia.

 

 

4) Disserte sobre o seguinte tema:

 

“A teoria das quatro causas e a teoria do ato e da potência de Aristóteles aplicada a:

 

 A) A acção voluntária de marcar uma grande penalidade contra a equipa adversária num jogo de futebol.  

 

 

5) Disserte sobre os seguinte tema:

 

a)- É compatível a existência dos arquétipos e da reminiscência da teoria de Platão com o livre-arbítrio? Justifique.

 

b)- Onde há maior grau de liberdade humana: no determinismo com livre-arbítrio ou no indeterminismo com livre-arbítrio ou no fatalismo? Justifique.

 

 

 

CORREÇÃO DO TESTE (COTAÇÃO MÁXIMA: 20 VALORES)

                                                                       

1)  (NOTA: A FRASE VALE 2 VALORES). O realismo gnosiológico é a corrente que sustenta que há um mundo material exterior ás mentes humanas e, portanto, é transcendente a estas, ao passo que o idealismo gnosiológico é a corrente que sustenta que o mundo material está contido dentro da minha imensa mente cósmica e é irreal, desaparece se eu me extinguir, logo é imanente a mim. (A FRASE SEGUINTE VALE 3 VALORES).Os juízos de valor, isto é, as proposições que opinam com base no belo e no feio, no justo e injusto, no bem e no mal assentam quase sempre na intersubjetividade ou modo de pensar comum a várias subjetividades e conduzem muitas vezes ao relativismo, doutrina que afirma que os valores e a verdade variam de pessoa a pessoa, de povo a povo, de classe a classe social, de época a época, e ao ceticismo, doutrina que duvida das teorias científicas, religiosas, políticas, etc, e mesmo da existência dos entes ausentes ou invisíveis. 

 

 2)  (NOTA: VALE DOIS VALORES). «Entendi ser injusta» é valor de função espiritual , isto é, um modo de perceber os valores éticos (justo e injusto) que, segundo Scheller, integra a esfera dos valores espirituais. «Enchi-me de coragem e intervim » é valor de função vital sendo o meu corpo um valor de coisa - a esfera dos valores vitais é a que se centra no anímico, no estado da alma, englobando o nobre e o vulgar, o excelente e o ruim, o sentir-se corajoso ou cobarde, jovem ou velho, vencedor ou vencido, etc. «Fui apreciar» é valor de função espiritual-estética, «os quadros do Museu Regional de Beja» é valor de coisa e pertence à esfera dos valores espirituais, que engloba a estética. «Fiz um teste de Matemática» é valor de função espiritual-científica, já que a ciência se centra nos valores de verdadeiro e falso, num sentido utilitário. «Almocei» é valor de função sensível e «frango assado» é valor de coisa, situada na esfera dos valores sensíveis. «Agradeci à divindade» é valor de função da esfera do santo e do profano, «sob um sol agradável» é valor de coisa da esfera dos valores sensíveis. 

 

3) A) (VALE 2 VALORES) O imperativo categórico ou verdadeira lei moral segundo Kant - age como se quisesses que a tua ação fosse uma lei universal, isto é. aplicável imparcialmente a todos e sem te beneficiar a ti em exclusivo - equivale ao Nous, ou inteligência filosófica em Platão, que é a parte racional e superior da alma humana. O imperativo hipotético ou falsa lei moral segundo Kant - age beneficiando-te antes de mais a ti mesmo ou a ti e alguns amigos, secundarizando ou prejudicando outras pessoas - e equivale à epithimya ou concupiscência, isto é, à parte inferior da alma, aos instintos de comer, beber, possuir riquezas, devaneios sexuais egoístas, etc.

 

3) B) (VALE 2 VALORES) O princípio do terceiro excluído afirma que cada coisa ou qualidade é ou não é, pertence ao grupo A ou ao grupo não A, cria dois campos, e é similar à lei da contradição principal porque esta reduz a dois polos fundamentais as múltiplas contradições de um sistema. Exemplo: a contradição principal na II Guerra Mundial foi a que opôs os Aliados (Grã-Bretanha, EUA, Canadá, França livre, Brasil, etc) ao Eixo (Alemanha, Itália, Japão) havendo alguns países neutrais como Portugal, Espanha, Suíça, polos fora da contradição principal (esta deveria chamar-se, em rigor, contrariedade principal, de acordo com a terminologia aristotélica)..

 

4) A) (VALE 2 VALORES) Hierarquia de valores é a escala de valores, desde os mais elevados aos mais baixos ou contravalores. Em cada ideologia, isto é, sistema de ideias e valores de um dado grupo social ou povo há uma hierarquia de valores e uma teleologia ou estudo das finalidades dos processos naturais ou das finalidades dos valores. Exemplo: na ideologia burguesa, a hierarquia de valores coloca como valor supremo o direito a enriquecer através da acumulação de capitais como empresário ou investidor na bolsa em regime liberal, e põe como contravalores o comunismo, o anarquismo coletivista, a expropriação dos capitalistas e o fim da economia livre de mercado e tem por teleologia os valores do crescimento económico e de uma vida de prazer e conforto material material em liberdade.

 

4) a)(VALE 2 VALORES) A ação voluntária de marcar uma grande penalidade tem como causa formal - neste caso uma sucessão de formas- a corrida do jogador para a bola e o pontapé nesta rumo à baliza. Como causa material, a chuteira do jogador e a bola de couro. Como causa eficiente, o jogador que remata. Como causa final, marcar golo. Em ato, é o remate, em potência é a bola entrar ou não entrar na baliza.

 

5) a) (VALE 2 VALORES) O livre-arbítrio ou liberdade racional de deliberar como agir é compatível com os arquétipos de Bem, Belo, Justo, Número e outras formas espirituais puras existentes, segundo Platão, num mundo inteligível acima do céu visível. Podemos ou não inspirar-nos nos arquétipos. ao desenvolver ações terrenas - e isso é livre-arbítrio. As reminiscências são lembranças vagas dos arquétipos e são compatíveis com o livre-arbítrio.

 

5) b) (VALE 2 VALORES) O maior grau de liberdade, aparentemente, existe no determinismo com livre-arbítrio (os manuais chamam-lhe: determinismo moderado), doutrina segundo a qual a natureza se rege por leis necessárias, fixas e inflexíveis (as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos) e temos liberdade para escolher este ou aquele determinismo, cujos efeitos conhecemos. Em seguida, com menor grau de liberdade, porque não conhecemos os seus contornos, vem o indeterminismo com livre-arbítrio (alguns manuais chamam-lhe libertismo...) isto é a doutrina segundo a qual a natureza não tem leis fixas e absolutamente previsíveis (exemplo: ao partir um ovo de galinha, não é certo encontrar clara e gema dentro, posso encontrar um trevo ou uma pérola) e sou livre de escolher. No fatalismo, doutrina segundo a qual os acontecimentos estão predestinados desde a mais remota antiguidade, não há livre-arbítrio.

 

NOTA: Há respostas alternativas a estas em algumas perguntas. O professor corretor deve ser flexível na captação de outras vias de racionalidade sugeridas por alguns alunos. Os conteúdos filosóficos deste teste estão todos contidos potencialmente no programa de filosofia, basta discerni-los,  trazê-los à superfície. Na rubrica «O que é a filosofia» é possível a um professor dotado de visão holística e de rigor concetual ensinar a teoria de Platão (arquétipos, Mundos do Mesmo, do Semelhante e do Outro, reminiscência, participação, etc) princípios da lógica e leis da dialética, as teorias do ato e da potência de Aristóteles,etc.

Vejamos um segundo teste.  

 Escola Secundária com 3º ciclo Diogo de Gouveia, Beja

 

 

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA D

 

Dezembro de 2011           Professor: Francisco Queiroz

 

I

 

“ A hierarquia de valores implica sempre o preferir e o postergar de valores. A lei dialética do uno parece relacionar-se mais com o tó on de Aristóteles mas a lei do devir parece ligar-se mais ao tó tí. Os juízos de valor levam muitas vezes ao relativismo ou mesmo ao ceticismo.»

 

 

1) Explique, concretamente, cada uma destas frases.

 

                                                                II

 

“ Estive a contemplar e apreciar um quadro de Picasso, depois bebi um sumo de laranja, senti-me animado com um telefonema em que me prometiam emprego por eu ter altas classificações em informática e agradeci à Divindade no meio de um campo sob um sol agradável.”

 

 

2), Identifique, nos termos a negrito deste texto, as quatro esferas de valores segundo Max Scheler e ainda valores de coisa e valores de função.

 

 

 

3) Relacione, justificando:

 

 

A) Dualismo antropológico e moral em Kant e duas partes da alma humana segundo Platão.

 

B) Realismo e idealismo gnosiológico.

 

C) Arquétipo em Platão, metafísica e conceito noético ou metaempírico.

 

 

4) Disserte sobre o seguinte tema:

 

A teoria das quatro causas e a teoria do ato e da potência de Aristóteles aplicada a:

 

 

A) A escola Diogo de Gouveia.

 

B)  A acção voluntária de recolher alimentos a favor dos mais carenciados.

 

 

5)Disserte sobre os seguinte tema:

 

 

A)- Poderia haver valores éticos, estéticos e científicos se não houvesse livre-arbítrio? Justifique.

 

 B)- Onde há maior grau de liberdade humana: no determinismo com livre-arbítrio ou no indeterminismo com livre-arbítrio ou no fatalismo? Justifique.

  

 

 

CORREÇÃO DO TESTE (COTAÇÃO MÁXIMA: 20 VALORES)

 

1) A) (A FRASE SEGUINTE VALE 1 VALOR) A hierarquia dos valores, isto é, o escalonamento ou escala destes de cima a baixo, implica o preferir, isto é, adotar alguns, e o postergar, isto é, o rejeitar ou colocar em último lugar de outros (exemplo: se prefiro a honestidade estou a postergar a desonestidade). (AS FRASES SEGUINTES VALEM 2 VALORES, NO TODO) A lei dialética do uno sustenta que no universo todas as coisas estão ligadas entre si fazendo um imenso Um ou Uno e o tó on, isto é, o ente, o que existe, referido por Aristóteles, é uma qualidade universal de todas as coisas, algo que as une, uma existência comum. A lei do devir sustenta que tudo está em devir ou incessante mudança e isso parece ligar-se ao tó tí, isto é, ao quê é, à forma ou essência particular, ao aspeto definidor (exemplo: o tó tí da semente, isto é, a sua forma distintiva, transforma-se no to tí da árvore, etc).(A FRASE SEGUINTE VALE DOIS VALORES). Os juízos de valor, isto é, as proposições fundadas nas noções de belo/feio, justo/injusto, bom/mau, levam muitas vezes ao relativismo, doutrina que constata que os valores variam de pessoa a pessoa, de classe a classe social, de povo a povo, de época a época, etc, e ao ceticismo, doutrina que duvida das teorias científicas, religiosas, políticas, etc, e de tudo o que esteja ausente à observação direta.

 

2) ( VALE 3 VALORES) "Estive a contemplar e apreciar" é valor de função estética ou valor de perceber o belo (esfera dos valores espirituais), "um quadro de Picasso" é valor de coisa, segundo a teoria de Max Scheler. «Bebi um sumo de laranja" é valor de função sensível (esfera dos valores sensíveis). «Senti-me animado com um telefonema» é valor de estado vital (estado de alma refere-se à esfera dos valores vitais) sendo o telefonema um valor de função vital, porque me anima, e de função espiritual, porque me comunica intelectualmente o valor de verdadeiro contido na informação de eu "ter altas classificações em informática" (estas representam um valor espiritual-científico de coisa). "Agradeci à divindade" é um valor de função da esfera do santo e do profano , "sob um sol agradável"é um valor de função e de coisa da esfera dos valores sensíveis.

 

3) A) (VALE DOIS VALORES) Dualismo antropológico e moral em Kant significa a divisão do ser humano (antropos) , feita por este filósofo, em dois polos, no plano moral: o eu numénico ou racional, gerador do imperativo categórico ou verdadeira lei moral, baseado na equidade universal e na ausência de egoísmo, e o eu fenoménico ou corporal, gerador do imperativo hipotético ou falsa lei moral, baseado no interesse egoísta do sujeito e na falta de equidade. O primeiro, numénico, equivale ao Nous, ou parte superior e racional da alma que contempla os arquétipos, segundo Platão, o segundo, fenoménico, equivale à Epithimya ou concupiscência, parte inferior da alma.

 

3) B) (VALE DOIS VALORES) O realismo gnosiológico sustenta que o mundo material é real em si mesmo e transcendente às mentes humanas. Ao invés, o idealismo gnosiológico sustenta que o mundo material está contido dentro da única ou das múltiplas mentes humanas, não sendo real em si mesmo.

 

3) C) (VALE DOIS VALORES) Arquétipo, em Platão, é uma forma espiritual eterna, imutável, imóvel e perfeita, situada acima do ceu visível, que serve de modelo aos entes do mundo terrestre: os arquétipos de Bem, Belo, Justo, Igual, Número Dois, etc. Conceito noético ou metaempírico é a ideia, formalmente subjetiva, que a mente humana forma de arquétipo, a representação deste no Nous ou inteligência superior. Tanto o arquétipo como o conceito noético que dele temos são metafísicos, visto que metafísica é a região dos objetos invisíveis e impalpáveis que transcendem a esfera dos sentidos e a natureza física percetível.

 

4) A) (VALE 2 VALORES)  A teoria das quatro causas, de Aristóteles, aplicada à Escola Secundária Diogo de Gouveia, em Beja, resulta assim: a causa formal é a forma do edifício escolar, incluindo as salas, laboratórios, etc; a causa material é a matéria usada na construção, isto é, tijolo, ferro, cimento, mármore, telha, plástico, alumínio, etc; a causa eficiente é quem fabricou a escola, isto é, o onjunto dos pedreiros, carpinteiros, eletricistas, canalizadores, arquitetos, engenheiros, empreiteiros; a causa final é o desenvolvimento dos conhecimentos cientíicos e humanísticos e das habilidades técnicas dos alunos, a sua certificação e a constituição de um polo de saber irradiante, em que os professores são peça fundamental. A teoria do ato e da potência aplicada é a seguinte: a escola é uma escola secundária em ato ou realidade presente e é uma universidade ou qualquer outra coisa em potência, isto é, no futuro previsível.

 

4) B) (VALE UM VALOR) A ação de recolha de alimentos a favor dos carenciados tem como causa formal os gestos sucessivos de agarrar alimentos e transportá-los (gestos são formas moventes). Como causa material, tem os alimentos e os corpos dos que os carregam. Como causa eficiente, os doadores dos alimentos e os voluntários que os levam. Como causa final, alimentar as pessoas carenciadas.

 

5) A) (VALE DOIS VALORES) O livre-arbítrio ou liberdade racional de deliberar como agir é compatível com os valores éticos de bem e de mal, justo e injusto, com os valores estéticos de belo e feio, sublime e horrível, e com os valores científicos de verdadeiro, falso e verosímil. Livre-arbítrio é uma faculdade racional e valores são qualidades ou essências exteriores a essa faculdade racional.

 

5)B) (VALE 2 VALORES) O maior grau de liberdade, aparentemente, existe no determinismo com livre-arbítrio (os manuais chamam-lhe: determinismo moderado), doutrina segundo a qual a natureza se rege por leis necessárias, fixas e inflexíveis (as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos) e temos liberdade para escolher este ou aquele determinismo, cujos efeitos conhecemos. Em seguida, com menor grau de liberdade, porque não conhecemos os seus contornos, vem o indeterminismo com livre-arbítrio (alguns manuais chamam-lhe libertismo...) isto é a doutrina segundo a qual a natureza não tem leis fixas e absolutamente previsíveis (exemplo: ao partir um ovo de galinha, não é certo encontrar clara e gema dentro, posso encontrar um trevo ou uma pérola) e sou livre de escolher. No fatalismo, doutrina segundo a qual os acontecimentos estão predestinados desde a mais remota antiguidade, não há livre-arbítrio.  

 

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Quinta-feira, 30 de Junho de 2011
Simon Blackburn: pobreza na definição de Valor

 

A definição de valor dada por Simon Blackburn no seu "Oxford Dictionary of Philosophy» é a seguinte:

 

«valor    Reconhecer um certo aspecto das coisas como um valor consiste em tê-lo em conta na tomada de decisões ou, por outras palavras, em estar inclinado a usá-lo como um elemento a ter em consideração na escolha e na orientação que damos a nós próprios e aos outros. Os que vêem os valores como subjectivos  consideram esta situação em termos de uma posição pessoal, adoptada como uma espécie de escolha e imune ao argumento racional (embora, muitas vezes, e curiosamente, merecedora de um certo tipo de respeito). Os que concebem os valores como algo objectivo supõem que, por alguma razão - exigências da racionalidade, da natureza humana, de Deus ou de outra autoridade - a escolha pode ser orientada e corrigida a partir de um ponto de vista independente »  (Simon Blackburn, Dicionário de Filosofia, Gradiva, pag 450).

 

 

Esta definição peca por ser vaga. Se reconheço que não posso ultrapassar um automóvel naquela curva apertada numa lomba, sem visibilidade do lado de lá, será a curva da estrada um valor, uma vez que determina a minha escolha da atitude enquanto condutor do meu veículo? Ou a curva é um suporte objectivo do meu valor de circular a alta velocidade na estrada? "Valor é um aspecto das coisas que nos obriga a decidir"... eis uma pobre definição de valor, esta, de Blackburn.

 

A meu ver, valor é uma qualidade ética, política, estética, científica, material, etc, que se compõe de uma ou duas dimensões: um "em si" e um "para nós". Cada valor possui ou gera um contra-valor diametralmente oposto formando uma bipolaridade axial, segundo a preferência de cada indivíduo ou comunidade. Assim, a beleza de um corpo é um valor em si e um valor para os que admiram e desejam esse corpo. O contra-valor do belo é o feio. O fio de cobre é um valor em si mesmo (um valor de bens, diria Max Scheler) e um valor para nós (o preço, a utilidade de que se reveste neste momento para as nossas casas e eletrodomésticos, etc).

 

Blackburn é intelectualmente muito pobre se comparado com Max Scheler, por exemplo. Há filósofos ditos não analíticos como Max Scheler que têm um poder de análise muito superior a filósofos analíticos como Simon Blackburn e outros. Fazem-nos sorrir aqueles que hoje se proclamam «analíticos» , como se esta palavra os salvaguardasse do erro, e revelam escassa capacidade de análise, isto é, miopia intelectual.

 

Scheler escreveu sobre os valores de forma muito mais clara e precisa do que Blackburn. Em matéria de clareza de pensamento, Scheler não fica abaixo de Marin Heidegger, talvez mesmo supere este. Cito algumas passagens de "Ética" do filósofo alemão falecido em 1928:

 

«Em primeiro lugar, cabe aqui o facto essencial de que todos os valores - éticos, estéticos, etc - se cindem em valores positivos e negativos (como pretendemos dizer por causa da simplicidade). Isso pertence à essência dos valores e é verdade independentemente do que nós possamos sentir exactamente as peculiares antíteses de valores (quer dizer, os valores positivos e negativos) como belo-feio, bom-mau, agradável-desagradável». (Max Scheler, Ética, Caparrós Editores, pag 145; o negrito é colocado por mim)

 

«Por outro lado, tão pouco há-de afirmar-se que a "superioridade" de um valor "signifique" unicamente que é o valor "que foi preferido". Pois, ainda que a superioridade de um valor seja dada "no" preferir, sem embargo essa superioridade é uma relação inserida na essência dos próprios valores respectivos. Por isso é algo absolutamente invariável a "hierarquia dos valores", enquanto que, em princípio, as "regras de preferência" variam ainda na história (variação que é muito distinta da apreensão de novos valores).» (Scheler, ibid, pag 153; o negrito é posto por mim).

 

«A beleza de uma paisagem ou de um tipo humano e o embelezamento do meu olhar nessa beleza são vivências claramente distintas, das quais a primeira é a base da segunda. A beleza não é um influxo vivido que a paisagem (desprovida de valor) exerce, mas é a sua beleza que actua, e essa sua acção transforma-se na mudança de um estado sentimental.» (Scheler, ibid, pag 349).

 

 

Não será, talvez por acaso, que não se encontra traduzida em português em edição acessível ao grande público a «Ética - novo ensaio de fundamentação de um personalismo ético» de Max Scheler: é uma obra demasiado profunda para as cabeças superficiais de muitos doutorados em filosofia que povoam as nossas universidades, cada vez mais pobres em pensamento, à medida que multiplicam os mestrados e doutoramentos em filosofia que fazem sobreviver, economicamente, a instituição.

 

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Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009
Organismo, Individuo, Yo Corporal, Yo Psíquico, Contorno, Mundo y Persona en la teoría de Max Scheler

El término "contorno" designa, al menos, tres cosas distintas: la línea formada por el límite de una superficie o figura dibujada; el territorio o conjunto de lugares y cuerpos físicos que rodean a otro; el conjunto de ideas, fuerzas, sentimientos que desde los otros, desde la esfera psico-social, involucran a un individuo.

En la filosofía de Max Scheler, contorno tiene un doble significado: la parte del cuerpo físico del individuo dada por su percepción exterior, en conjunto con los otros cuerpos humanos y cuerpos inorgánicos exteriores más cercanos que constituyen el mundo operante, influyente directamente, sobre el organismo; las fuerzas psico-sociales - las personas de los otros, los Yos psíquicos - que envuelven al individuo en un modo más próximo. Aténtese en el siguiente texto de Max Scheler, uno de los más complejos de su Ética en el que distingue, no siempre de forma meridianamente clara, los conceptos de individuo, organismo, persona, Yo corporal, Yo psíquico o alma, contorno, mundo, mundo exterior:

 

 «Nótese bien el sentido propio de la distinción contorno-individuo (o lo que hace las veces de tal individuo, por ejemplo: hombre, mongol, etc) Esta distinción nada tiene que ver con aquella "yo"- "mundo exterior" de la esfera psíquica y física. La distinción "individuo-contorno" es indiferente al punto de vista psicofísico; de aquí que todo individuo tiene, a su vez, en su contorno psíquico y en si mismo un elemento "psíquico" y "físico". Pertenece al primero todo aquello psíquico ajeno que vive como operando sobre sí, sin que esto quiera decir que ha de ser percibido; todos los sentimientos y pensamientos que el individuo no vive como "suyos", individuales, es decir, con el sello especial de su individualidad, una esfera que coincide con todo aquello que puede ser explicado por el principio de asociación - cosa que no puede demostrarse aquí - . Al contorno físico del individuo pertenece su organismo en cuanto le es dado en el fenómeno de la percepción exterior - dentro del medio y provisto de sus notas de valor positivas y negativas. Por lo tanto, la diferenciación de un cuerpo orgánico con los cuerpos que le rodean nada tiene que ver con la oposición individuo-contorno. Pues esa diferencia existe dentro de la esfera de los objetos de la percepción exterior y divide sus fenómenos - según la relación de dependencia respecto a los cuerpos orgánicos o inorgánicos - en físicos, en un sentido amplio, y fisiológicos. (Nada tiene que ver tampoco esa diferenciación con la relación real de alma a alma). Ni menos tampoco tiene que ver con la relación del yo psíquico, inmediatamente vivido, y la esfera de la vitalidad y el yo corporal, - asiento de todas las sensaciones orgánicas y tendencias instintivas: tal, por ejemplo, "tengo hambre" -. Pues, en este caso, esta diferenciación se realiza dentro de la esfera de la percepción íntima y divide los fenómenos de esta en fenómenos de la Psicología pura y fisiológica, fenómenos puramente anímicos y fenómenos del "sentido íntimo"  - según que dependan del yo y del yo corporal  - (Véase para esto mi trabajo Uber Selbsttäuschungen). Empero, el organismo como unidad de forma nos es dado en total independencia, tanto de la percepción exterior cuanto de la percepción interior, como un todo y como un contenido inmediatamente intuitivo y materialmente idéntico (no sólo merced a la constante coordinación de los fenómenos de la percepción exterior e interior del mismo “organismo”.) Y esa unidad del organismo es la que representa la contraposición esencial al "contorno". Al "organismo" como unidad formal - no al organismo corpóreo - se contrapone la "persona" (a su vez como unidad de los actos, indiferente psicofísicamente, véase para esto la Segunda parte). Desde el punto de vista del objeto, empero, se contrapone a la "persona", no un "contorno", sino un "mundo" de cuyos elementos una selección tan sólo representa el "contorno", selección importante para la unidad corporal y vivida como operante en ésta. Tenemos así las siguientes antítesis que se han de separar con todo rigor:

 

1.      Persona-Mundo.

 

2.      Organismo-Contorno.

 

3.      Yo-Mundo exterior.

 

4.      Organismo corporal-Cuerpos inorgánicos.

 

5.      Alma- Yo corporal». (Max Scheler, Ética, Pág 220-221; nota de pie de página; la netra negrita es introducida por nosotros). 

 

Que críticas hay a plantear a nuestro querido Max Scheler?

 

 

 

Hay, al menos una, contradicción inconsistente en estas antítesis. Scheler sostiene la oposición organismo-contorno pero es una contradictio in adjecto: el contorno comporta la parte del organismo físico dada en la percepción exterior (las manos y la nariz y el rostro que veo en el espejo y toco, los brazos, las piernas, el tronco). Entonces, la oposición planteada en 2 no es entre organismo y contorno sino entre organismo psíquico y físico interior, a un lado,  y contorno, incluyendo el organismo fisico exterior, el Yo corporal en su faceta exterior, a otro lado.

 

 

Otra cuestión que importa aclarar es la oposición Persona-Mundo. Scheler escribió:

 

«No podemos emplear la palabra "persona" en todos los casos en que corrientemente admitimos yoidad, animación o incluso conciencia del valor y de la existencia del propio yo (conciencia del propio valor, conciencia de sí mismo). La animación, por ejemplo, es propia de los animales, quienes poseen incluso una yoidad del tipo que sea. (…) Mas tampoco el "hombre" en cuanto hombre define el círculo de seres para los que vale el concepto de persona. Sino que es sólo a un determinado grado de la existencia humana al que se aplica este concepto.» (Max Scheler, Ética, Pág. 621)

 

«1ºToda objetivación psicológica es idèntica a la despersonalización. 2º La persona es dada siempre como el realizador de actos intencionales que están ligados por la unidad de un sentido. Por consiguiente, nada tiene que ver el ser psíquico con el ser personal.» (Ética, Caparrós, Pág. 623; la letra negrita es añadida por nosotros).

 

 

Persona incluye a la capa superior de la yoidad y al espíritu extra persona individual, que es una región del no yo que  penetra mutuamente al Yo en múltiples  seres humanos. Ese espíritu es mundo, por supuesto no mundo físico, sino mundo de esencias ideales, de conexión de afectos, que transciende la yoidad. La transmisión del saber ético, artístico, filosófico, religioso en las familias, las comunidades vecinales, en los colegios, en libros, en la radiotelevisión, iglesias, etc, es una manifestación del espíritu, ese oceano de esencias personales y transpersonales. El loco, por ejemplo, no es persona. El niño no es aún persona. El animal mamífero no humano no es persona. aunque posee yoidad corporal y psíquica. De ahí que es algo probemática la oposición persona-mundo diseñada por Scheler: no debería ser antes la antítesis persona-mundo exterior?

 

Pues cuando se habla de mundo interior ¿está este incluido o no en la esfera de la persona? Me parece que sí, al menos en parte. Pero estos textos de Scheler no aclaran esta cuestión.

 

Además en estes textos parece que Scheler identifica individuo con organismo. Pero a nosotros se nos antoja que el individuo es más amplio que organismo porque además de contener esto engloba la persona, el espíritu individuado.

 

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Domingo, 13 de Dezembro de 2009
Concretividade, Talidade ou Determinabilidade não é o mesmo que Posição

Concretividade, na linguagem de Scheler, designa o mesmo que talidade na filosofia de Zubiri e que determinabilidade na filosofia de Hegel. Em Hegel, o termo concreto adquire, ademais, o sentido de unidade ou síntese das diversas determinações  dos concretos parcelares isto é um sentido não de tal qualidade mas de tais qualidades em bloco, como unidade estrutural do fenómeno.

 

 A concretividade ou concrecção é a qualidade ou o conjunto de qualidades que essencializam ou individuam, caracterizam algo. Por exemplo, a concretividade de uma rosa é: tal tipo de pétalas, tal cheiro, tais espinhos, tal cor, etc; A concretividade de Portugal continental é: país no extremo ocidental da Europa, com 89 000 quilómetros quadrados, de forma aproximadamente rectangular, com orla marítima a oeste e a sul, tendo Lisboa e Porto como cidades principais, etc.

  

Scheler escreveu:

 

«Quien afirma un pensar concreto o un querer concreto, supone sin más el totum de la personalidad, pues de otro modo se trataría unicamente de esencias abstractas de actos. Empero, la concretividad pertenece a la esencia, no a la posición misma de la realidad.»  (Max Scheler, Ética, Caparrós Editores, Pág 529; a letra negrita é nossa).

  

Por que razão diz Scheler que a concretividade pertence à essência e não à posição?

 

Porque entende por posição a ontologia, a teoria do ser, que cada um adopta. Por exemplo, o realismo ontológico é uma posição que sustenta que o universo material está «ali fora» e é independente da minha e das outras consciências humanas mas o idealismo defende uma posição diversa. Ora a eidologia, a teoria da essência (eidos), não é uma posição entre outras nem um conjunto de posições. É metaposicional, no sentido scheleriano do termo.

 

Assim tanto materialistas como espiritualistas têm a mesma descrição eidética, essencial, de Deus  - ser espiritual, infinito, autosubsistente, omnipresente, omnisciente, etc - mas uma diferente posição ontológica: os materialistas dizem que a essência Deus não existe, a não ser na imaginação dos crentes, e os espiritualistas asseguram que a essência Deus é um ser realmente existente.

 

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Sábado, 12 de Dezembro de 2009
O protótipo, o exemplar, a contrafigura e o caudilho na teoria de Scheler

Ao lermos Scheler, perguntamo-nos se não terá sido da vasta e rica obra deste que Carl Gustav Jung terá extraído as noções de arquétipo do inconsciente colectivo e do inconsciente individual.

  

Scheler distinguiu entre protótipo - por exemplo: o modelo de Pai, o modelo de Sábio - exemplar - por exemplo: o pai concreto, de nome X, que mais se aproxima do modelo; -  e contrafigura - por exemplo: o modelo de anti Pai, isto é, o pai que não assume autoridade moral e física mas que se torna um joguete na mão dos filhos, um simples camarada destes; o sábio anti universitário que diz que as universidades nada valem. O protótipo ou modelo não é um caudilho isto é um condutor de homens mergulhado na acidentalidade e na imperfeição da existência.

  

«En todos los "movimiento" reactivos de valores, por ejemplo, en el protestantismo, la Contrarreforma, el romanticismo, hay siempre la tendencia a crear simples contrafiguras de un ideal dominante: el "alma bella" del romanticismo es, así, una contrafigura del burgués del siglo XVIII, odiado y valorado como “filisteo”. En estos casos continúa existiendo la dependencia del ideal dominante. Las contrafiguras continúan teniendo una estructura semejante a la de los prototipos.»

 

(Max Scheler, Ética, Caparrós, Pág 735-736, nota de al pie de página).

 

 

«En el rebaño y en la masa, hay animales guías pero no prototipos. Un conocimiento no estimativo del objeto que sirve de prototipo (o de la persona prototipo) no da a éste, de ninguna manera, la condición de prototipo. Aquí también los valores están dados en principio antes que la imagen o el contenido significativo. El “padre”, la “madre”, el “tío”, el “príncipe”, etc, son en primer lugar, personas valiosas, con una cualidad determinada, y su elemento representativo y significativo no hace más que agruparse en torno de ese su núcleo de valor. (...) La conciencia de prototipo es enteramente prelogica y anterior a la aprehensión de esferas electivas sólo posibles  (Max Scheler, Ética, Caparrós, Pág 738 ).

  

O conhecimento do protótipo - Deus, Pai, Mãe, Amante, Irmão, Sábio, Conquistador, etc - é intuitivo e dá-se antes da formação do raciocínio lógico que arrasta consigo os mecanismos do juízo e do conceito.

 

 

O protótipo ou modelo não é um caudilho: ao contrário deste, o modelo não coage ou não conduz imperativa e sociologicamente, suscita a paixão da alma por um valor estético, moral, filosófico, científico ou religioso que se tem como perfeito.

 

« El caudillo puede ser un salvador o puede ser un demagogo sin escrúpulos; puede ser un conductor en sentido positivo valioso o un seductor, puede ser un caudillo de una liga virtuosa o de una banda de facinerosos. En la medida en que busca conducir y cuenta con un número de seguidores, es "caudillo" en sentido sociológico.»

 

«Muy distinto es el concepto de modelo. El "modelo" supone en sentido inmanente y permanente un concepto de valor. Todos consideran a su modelo, en la medida en que tienen uno y lo siguen, como lo bueno, lo perfecto, lo que debe ser.» (Max Scheler, in Scheler (1874-1928), Antonio Pintor-Ramos, Ediciones del Orto, Madrid, Págs. 72-73)

  

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Scheler: Kant não distingue intuição moral de querer moral

Na sua crítica a Kant, muito bem explanada em «Ética, Novo Ensaio de Fundamentação de um Personalismo Ético», Scheler faz ressaltar que Kant não distingue entre a intuição e o querer moral:

 

«A conexão de essências diz tão só que de todo o mal deve ser culpada, em geral, alguma pessoa autónoma; mas não é forçoso que seja aquela pessoa individual a cuja acção vai ligado o mal. A forma de transmissão, heterónoma para o indivíduo, do valor de um acto pessoal anterior e autónomo, fica excluída de antemão unicamente no giro subjectivista que Kant deu ao seu conceito de autonomia, segundo o qual a intuição e o querer moral não se distinguem, e o sentido das palavras bom e mau fica reduzido a uma lei normativa que a pessoa racional dá a si mesma ("autolegislação").» (Max Scheler, Ética, Caparrós Editores, Pág. 644).

 

 

Para Scheler há uma conexão de essências objectiva -  por exemplo: é um mal matar alguém à traição, em geral, e é um bem salvar alguém de morrer afogado, em geral -  que é prévia ao acto de querer e que se dá na intuição sentimental de valor. O subjectivismo de Kant consiste em não estabelecer essências objectivas de bem e de mal, de acto bom e de acto mau, mas em fazer derivar bem e mal do tipo de querer que há em cada indivíduo: se é um querer «idealista» , «racional», universalizante no propósito, desligado de egoísmos pessoais, gera um acto bom (assim, por exemplo, o militante da ETA que assassinasse um político espanholista realizaria o bem por agir segundo um "querer transpessoal", por uma causa; Kant recusava legitimar o assassínio mas está implícito na sua ética como uma possibilidade aceitável); se é um querer "egoísta", "materialista", "interessado", visando satisfazer o agente da acção, gera um acto mau (assim, dar um jantar de caridade gratuito a pessoas carenciadas para ser elogiado na televisão é um acto mau, ainda que mate a fome a centenas de pessoas).

 

 

Há, pois, em Kant, uma confusão entre o querer e o conteúdo ideal de valor no indivíduo. O valor deveria preceder ontologicamente o querer e resistir a este mas assim não é teorizado por Kant que subordina o valor à forma do querer e não a essências "materiais" a priori.

 

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Sábado, 5 de Dezembro de 2009
Max Scheler: El cristianismo se opone a la filantropía universal socialista

El cristianismo se opone al socialismo: el primero, brota de la teología, de la revelación bíblica de la vida de Jesús Cristo, y del sentimiento natural de compasión de unos hombres hacía los otros, y el segundo emana  de un ideal racional de igualdad y fraternidad entre todos los hombres y de un sentimiento de compasión. El cristianismo, al menos en versión católica, se opone, en general, al matrimonio homosexual, al divorcio y al aborto libre y preconiza una discreta sumisión de la hembra al varón en el matrimonio; el socialismo establece el matrimonio homosexual, no se opone al divorcio y favorece el aborto libre, la emancipación de la mujer respecto al hombre, incluso la plena igualdad de la mujer con el hombre en el matrimonio heterosexual.  Max Scheler vio muy bien esta distinción al escribir:

 

 

 

«Nietzschze no advirtió que el amor en sentido cristiano está referido siempre, de manera primaria y exclusiva, al sí mismo espiritual ideal del hombre y a su característica de miembro del reino de Díos. Esto tuvo como consecuencia que Nietzschze pudiese identificar la idea cristiana del amor con otra totalmente distinta, que surge en un suelo histórico y psicológico muy distinto y que se funda en valoraciones que también nosotros, con Nietzschze, enraizadas en el resentimiento. Me refiero a la idea y al movimiento de la moderna filantropía universal, del "humanitarismo", "amor a la humanidad" o, dicho plásticamente, "amor a todo cuanto tiene rostro humano". Quien no se quede en el sonido de las palabras y penetre en su significado y atmósfera espiritual al pasar del amor cristiano a la filantropía universal, respirará inmediatamente un aire espiritual distinto. Primeramente la filantropía moderna es un concepto polémico, de protesta, en todos los sentidos. Protesta contra el amor de Díos y por tanto también contra esa unidad y armonía cristianas entre el amor de díos, el amor a uno mismo y el amor al prójimo, tal como lo expresa el "mandamiento básico" del evangelio. El amor debe dirigirse no a lo "divino" en el hombre, sino al hombre en cuanto "hombre", en tanto que puede ser reconocido como miembro de la especie humana, al ser "que tiene rostro humano". Así como esta idea reduce "por arriba" el amor y lo confina al genero humano desligado de todas las fuerzas y valores superiores, así también lo reduce "por abajo", excluyendo de él a los restantes seres animados, al conjunto del mundo.» (Max Scheler, Vom Umsturz der Werte. Abhanlungen und Aufsätze, Vol. III, 1955, citado en Scheller  (1874-1928), Antonio Pintor-Ramos, Ediciones del Orto, Madrid, Págs. 77-78; la letra negrita es añadida por nosotros).

 

 

 

El cristianismo, en su versión catolica más conservadora, puede sostener un régimen de tipo nacional fascista - es el caso de los regimenes portugués de Salazar (1932-1974),  español de Franco (1939-1975) y de la República francesa de Vichy (1940-1944) - porque carece de suficiente insumisión antifascista y el socialismo, en su versión marxista o marxizante - caso del marxismo leninismo o del socialismo estatal tercermundista - puede sostener un régimen de tipo social fascista, o burocrático totalitario - caso de la Rusia de Lenin y Stalin, del régimen de Cuba, de las dictaduras de  Corea del Norte y China- porque carece de suficiente personalismo y sentido de libertad individual frente al colectivo.

 

La ala izquierda del cristianismo, no marxista, y la ala derecha, social-demócrata reformista, del socialismo, convergen en muchas posiciones filosóficas y político-sociales. En verdad, no se puede hablar de un marxismo cristiano o de un cristianismo marxista, puesto que son antagónicos en sus principios: el marxismo es un humanismo colectivista, no individualista, anti teísta; el cristianismo es un teísmo y un humanismo individualista, excepción hecha al nacional-catolicismo fascista.

 

 

Intentando distinguir el amor cristiano como um sentimiento personal, concreto, del amor socialista o de ideal colectivista en tanto que amor impersonal, Scheler escribió:

 

 

«Así, por ejemplo, el amor (en el sentido cristiano) es absolutamente amor individual, lo mismo si es amor a uno mismo que si es amor a un extraño, el llamado "amor al prójimo", mas no es amor a alguién como miembro, por ejemplo, de la clase obrera o como "defensor" o "representante" de un colectivo. El "sentimiento social" en la clase obrera nada tiene que ver con el "amor al prójimo"; éste alcanza también al "obrero", pero unicamente como individuo humano.» (Max Scheler, Ética, Caparrós, Pág 170, nota de pie de página; la letra negrita es añadida por nosotros).

 

Nos podemos preguntar si el amor impersonal plasmado en la teoría de los Derechos Humanos Universales - derechos iguales para todos, excepción hecha a casos especiales de niños, discapacitados y otros - no es condición sine qua non para la irrupción del amor personal, en un modo generalizado... Pero Scheler es categórico: no hay amor a entidades abstractas como la clase social, la nación o la humanidad,  solo hay amor al individuo. El amor como acto parece ser una suerte de nominalismo o existencialismo, aunque el valor del Amor y los valores éticos y estéticos son esencias objetivas comunes a todos los individuos.

 

  

 

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Sábado, 14 de Novembro de 2009
Sobre o Belo, na conceptualização de Max Scheler

Max Scheler (1874-1928), um dos melhores filósofo da ética, de entre os que conheço - de facto, muito superior em inteligência e produção teórica aos actuais James Rachels, Peter Singer, Richard Hare, Michael Smith e outros - hierarquizou os valores em quatro grandes modalidades, cada uma das quais desdobrando-se em valor de coisa, valor de função e valor de estado: os valores sensíveis hedónicos do agradável e desagradável, e os valores por referência do útil-inútil, os valores vitais (nobreza -vulgaridade, excelência-ruindade, e respectivos estados de autoconfiança-desânimo, juventude-velhice, etc), os valores espirituais (belo-feio, justo-injusto, verdadeiro-falso) e os valores do santo e do profano ( amor pessoal supra-individual ou ausência dele, e estados sentimentais religiosos ou arreligiosos de "felicidade" e "desespero").

 

Por exemplo, o valor conhecimento filosófico, centrado na pura descoberta da verdade, baseia-se em valor de coisas (exemplo: livros e artigos escritos de filosofia) , valor de função (apreensão pela inteligência intuitiva, explanação pela inteligência discursiva) e valor de estado sentimental (alegria espiritual por se ter clarificado o pensamento, tristeza espiritual por se ter escrito uma tese parcialmente equívoca tempos atrás. etc).

 

Sobre  a modalidade dos valores espirituais, escreveu Scheler:

 

«Distínguese de los valores vitales, como nueva modalidad, el reino de los "valores espirituales". Incluyen ya en el modo de ser dados una separación e independencia frente a la esfera total del cuerpo y el contorno, y se manifiestan como unidad también en que en ellos se da la clara evidencia de que los valores vitales "deben" sacrificarse ante ellos. Los actos y funciones en que los aprehendemos son funciones del percibir sentimental espiritual y actos de preferir, amar y odiar espirituales, que se diferencian de las funciones y actos vitales sinónimos, tanto fenomenológicamente, como también por sus leyes peculiares (irreductibles a cualquier tipo de leyes "biológicas")»

 

« Estos valores son de las siguientes principales clases: 1º Los valores de lo "bello" y lo "feo", y el reino completo de los valores puramente estéticos. Los valores de lo justo e "injusto", objetos que constituyen "valores"  y son totalmente distintos de lo "recto" y "no recto", es decir, conforme o no a una ley; (...) Y 3º "Los valores del "puro conocimiento de la verdad", tal como pretende realizarlos la filosofía (en contraposición a la "ciencia" positiva, que va guiada en tal conocimiento por el fin de dominar los fenómenos). Según esto, los "valores de la ciencia" son valores por referencia respecto a los valores del conocimiento.»

 

(Max Scheler, Ética, Caparrós Editores, Págs. 176-177; o negrito é nosso) 

 

O problema que este excelente texto de Scheler levanta é o seguinte: pode confinar-se todo o reino dos valores estéticos ao mundo espiritual? Belo e feio podem dissociar-se do agradável e do desagradável, que constituem o fundamento do primeiro reino inferior dos valores?

 

Se contemplo uma jovem mulher de 20 ou 25 anos, que me atrai sensualmente e a quem classifico de "bela" - chamemos-lhe Débora ou Elisabete, ou outro nome- o meu sentido do belo vem do mundo espiritual ou do mundo sensível? Ou virá ainda do mundo intermédio vital?  Presumo que Scheler diria que a atracção proviria do mundo espiritual, o que me leva a qualificá-lo como um platónico refinado do século XX. Mas o valor do agradável que se manifesta no homem ao perceber empiricamente a jovem mulher, mesmo sem a ter ouvido proferir uma palavra, não conterá já o valor do belo como valor físico?

 

Regresso, pois, à tese que sustento de que há pelo menos duas fontes do Belo (kálon,  em grego), dois reinos do belo e do feio, ambos tendo em comum a proporção: as formas do mundo espiritual: as formas do mundo físico, onde a libido e as hormonas serpenteiam.

 

Ademais, segundo Scheler, os valores são dados por funções:  as funções de ver, ouvir, saborear, tactear, são funções do perceber afectivo sensivel; ora, como pode o belo ser exterior a estas funções, em especial à visão, e ser dado apenas na função do perceber sentimental espiritual?

 

É certo que há belezas sensuais femininas que inquietam, porque trazem as chamas de um inferno hormonal, e outras belezas femininas espirituais que tranquilizam, não inquietam hormonalmente. Procederão ambas do reino dos valores espirituais?

 

Nota- É de salientar que nenhum dos manuais de filosofia adoptados em Portugal no ensino secundário (10º e 11º ano de escolaridade) expõe a ética material de valores de Max Scheler - nem sequer o breve resumo de 4 modalidades de valor que expus acima. Há uma feroz censura sobre esta ética personalista cristã de tonalidades gnósticas exercida pelos adeptos da filosofia analítica, uma pleiade de doutorados e mestres mais ou menos medíocres que já se apoderou de posições chave no panorama editorial em Portugal, nos EUA, Grã Bretanha, etc. A censura patenteia-se igualmente, por exemplo, no Compendio de Ética de Peter Singer editado pela Alianza Editorial, de Madrid, que em 726 páginas faz apenas uma única referência à teoria de Max Scheler, misturada com as de Franz Brentano e Nicolai Hartman, sem a explicar verdadeiramente (pag 225), em artigo de J.B. Schneewind. Os parafilósofos ou sofistas analíticos temem os filósofos de síntese como Scheler, Hartman, Heidegger, Zubiri, etc. Bertrand Russell, um democrata no plano político, censurou a filosofia de Heidegger, na sua História da Filosofia Ocidental, omitindo-a por completo... Cuidado com estes cultores da lógica e da análise proposicional! Os seus inspectores de circunstâncias e as suas derivações lógicas sugerem campos de concentração rodeados de arame farpado donde é proibido sair...

 

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