Quinta-feira, 1 de Maio de 2014
Equívocos no Manual «Essencial, Filosofia 11º» da Santillana - Crítica de Manuais Escolares LVIII)

 

Algumas imprecisões impregnam o livro do professor Essencial, Filosofia 11º ,de Amândio Fontoura, Mafalda Afonso e Maria de Fátima Vasconcelos, Santillana, sem embargo de me parecer ser o melhor para o ensino secundário, em rigor conceptual, no mercado português, neste momento .

 

A SENSAÇÃO NÃO É UNICAMENTE EXTERNA

 

Diz o manual:  

 

«A experiência pode ser externa ou interna: a externa refere-se à sensação, ou seja à forma como apreendemos as impressões fornecidas pela experiência sensível» (Amândio Fontoura, Mafalda Afonso e Maria de Fátima Vasconcelos, Essencial, Filosofia 11º, Santillana Editores, pag 199).

 

Crítica minha:há sensações internas, como por exemplo, o prazer e a dor, as cenestesias (sensações interiores de calor e frio, de circulação, de batimentos do coração, etc) ; a sensação não é a forma como apreendemos as impressões, é essas mesmas impressões. A sensação é a impressão resultante de estímulos exteriores, em regra.

 

EQUÍVOCA DEFINIÇÃO DO PRINCÍPIO DO DETERMINISMO

O manual define assim os princípios da causalidade e do determinismo:

«O princípio da causalidade afirma que tudo tem de ter uma causa e, nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos.»

«O princípio do determinismo afirma que os fenómenos naturais são determinados por outros fenómenos que os precedem e originam.» (ibid, pág. 23).

 

Há confusão nestas definições. O princípio do determinismo enuncia-se assim: «nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos.»

 

NO OBJECTIVISMO, NEM SEMPRE O OBJECTO DETERMINA O SUJEITO

 

Diz ainda o manual:

 

«O que é o objectivismo?

Para o objectivismo é o objecto que determina o sujeito; o sujeito apenas recebe as características do objecto, fazendo uma mera reprodução destas em si.

 

«Platão pode ser considerado um objectivista, uma vez que a sua Teoria das Ideias defende que estas são realidades objectivas; o reino objectivo das ideias é onde assenta o conhecimento.»

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso e Maria de Fátima Vasconcelos, Essencial, Filosofia 11º, Santillana Editores, pag 210)

 

Nem todo o objectivismo implica a preponderância do objecto sobre o sujeito. A definição dada  pelo manual de objectivismo como uma aceitação passiva das propriedades do objecto exterior pelo sujeito (reprodução) não se aplica ao racionalismo ou realismo crítico das ciências onde, segundo Bachelard, "nada é dado, tudo é construído": as ideias de  átomo com o seu núcleo e as órbitas electrónicas ou de Big Bang são  objectivas porque  partilhadas por centenas de milhar de pessoas no mundo inteiro, mas são, de certo modo, subjectivas porque criação do sujeito, da mente científica, não estão patentes aos sentidos de toda a gente.

 

Em sentido físico, a árvore que está diante de nós ou a Torre de Belém, em Lisboa, é  muito mais objectiva (objectivismo extra anima) do que a explosão do Big Bang há 15 000 milhões de anos (objectivismo intra anima ou intersubjectivismo) Na verdade, só alguns átomos são visíveis ao microscópio electrónico, os outros são descrições da imaginação e razão científicas, tal como o Big Bang que ninguém fotografou ou filmou.

 

Objectivismo é uma noção que pertence ao género sociológico: assenta no número de pessoas que coincidem na visão ou compreensão do mundo ou de um dado aspecto da natureza. A definição correcta é: objectivismo é a doutrina segundo a qual a totalidade das pessoas ou a grande maioria das pessoas de um país ou continente interpreta ou conhece da mesma maneira a realidade exterior ou interior. .  Há dois tipos de objectivismo:

 

A) Extra anima. Exemplo: o Mosteiro dos Jerónimos é uma realidade objectiva, exterior e consensual.

B) Intra anima. Exemplo: a tabela periódica dos elementos que atribui ao Hélio o número atómico 2 e ao Silício o número atómico 14. É uma realidade verosímil na matéria exterior, mas é realidade ideal, no interior das mentes.

 

O manual não aprofunda esta questão.

 

INCOMPREENSÃO PARCELAR SOBRE O IDEALISMO

Lê-se no manual:

 

«O idealismo é a posição que sustenta que não há coisas reais independentes da consciência. Segundo esta perspectiva, toda a realidade está encerrada na consciência do sujeito; as coisas são somente conteúdos da consciência; apenas os conteúdos da consciência são reais.»

 

«Berkeley (1685-1753) representa na Filosofia essa forma de abordar o problema, manifestando que o ser das coisas consiste em ser percebidas, o ser das coisas esgota-se no seu ser percebido. Ser é ser percebido - esse es percipi.» (Amândio Fontoura, Mafalda Afonso e Maria de Fátima Vasconcelos, Essencial, Filosofia 11º, Santillana Editores, pag 211).

 

Ora, existe idealismo sustentador de que há coisas reais fora da consciência: é o caso do idealismo de Kant. Este postula que os númenos «Deus» , «mundo como totalidade», objectos metafísicos, são independentes das mentes humanas. O facto de o manual, à semelhança de todos os outros, não indicar David Hume e Kant como idealistas revela a nebulosidade gnosiológica sobre o que é idealismo, a incompreensão de que Berkeley, Hume e Kant militaram na mesma barricada ontológica do idealismo material, sem embargo das diferenças conceptuais (teísmo, agnosticismo, etc) ou terminológicas entre eles.

UMA ERRADA DEFINIÇÃO DA FALÁCIA DO FALSO DILEMA

 

Escreve o manual:

«O que é uma falácia do falso dilema?

«A falácia do falso dilema reduz todas as alternativas possíveis apenas a duas. Apresentam-se duas opções, geralmente opostas e injustas, e a pessoa terá de optar por uma delas no dilema que lhe é colocado.

Por exemplo, um aluno vai estudar para uma universidade no estrangeiro. O pai pondera a situação e comenta um pouco contrafeito:

«- Ou compramos um apartamento ou vais para uma residencial».(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso e Maria de Fátima Vasconcelos, Essencial, Filosofia 11º, Santillana Editores, pag 139).

O exemplo aqui dado  é de um verdadeiro dilema, não de um falso dilema. Apresentam-se duas opções que se excluem mutuamente e há que optar por uma delas. Não importa que haja outras alternativas. Falso dilema é aquele em que um dos termos da disjunção está contido no outro. Exemplo:

«Ou és bejense ou és alentejano».

Ora, os bejenses fazem parte do conjunto dos alentejanos, pelo que se trata de um falso dilema.

Outro exemplo:

«Ou conduzes um automóvel ou praticas uma acção». Ora, conduzir um automóvel já é praticar uma acção. Trata-se, pois, de um falso dilema.

 

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Terça-feira, 7 de Maio de 2013
Equívocos no manual «Essencial, Filosofia 10º ano» da Santilhana Constância (Crítica de Manuais Escolares -LIII)

O manual da Santilhana «Essencial Filosofia 10º ano» de Amândio Fontoura e Mafalda Afonso, tendo como consultora científica Custódia Martins , contém alguns erros teóricos, sem embargo de ser o mais barato no mercado português, de estar repleto de textos substanciais de filósofos consagrados e de não conter as quase sempre falaciosas perguntas de resposta de escolha múltipla que são apanágio dos superficiais.

 

O DETERMINISMO NÃO NEGA NECESSARIAMENTE A LIBERDADE DO HOMEM, LIMITA-A E FAVORECE-A

 

Afirma o manual:

 

«O determinismo nega veementemente a liberdade do homem, como se tudo estivesse organizado em torno de leis físicas e imutáveis. Defende que se o Homem está inserido num mundo físico, sujeito a leis e a relações de causa-efeito, não é excepção e dificilmente lhe consegue escapar e exercer livremente a sua vontade. Sugere mesmo que se o homem tem a aparente ilusão de que age livremente, tal deve-se somente ao facto de ainda não ter sido possível descobrir todas as leis que regem os vários níveis da realidade.» (Amândio Fontoura e Mafalda Afonso«Essencial Filosofia 10º ano», página 92, Santilhana Constância; o destaque a negrito é de minha autoria).


Ora, o determinismo biofísico não nega veementemente a liberdade do homem: a extensão do determinismo ao foro psico-espiritual humano das deliberações e decisões é que nega a liberdade humana. Certamente, determinismo e livre-arbítrio são contrários, mas compatíveis no ser humano e na relação entre este e a natureza biofísica circundante.

 

 O determinismo biofísico limita a liberdade humana - exemplo : «Não posso saltar em queda livre do terraço deste edifício de nove andares porque morreria segundo o determinismo da lei da gravidade e da fragilidade do corpo humano, sou obrigado a descer pelas escadas» - mas ao mesmo tempo favorece-a - exemplo: «Conheço a lei biológica, o determinismo que distingue os cogumelos venenosos  dos cogumelos comestíveis e selecciono estes últimos para confecionar o meu almoço».

Este manual, de modo similar a outros, não dá a única definição coerente e clara de determinismo: princípio segundo o qual nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos.

 

CONFUSÕES SOBRE FACTOS E VALORES

 

«Os valores são uma realidade diferente dos factos, acontecimentos objectivos que ocorrem diante de nós. Os factos incluem três categorias: a dos objectos, a dos acontecimentos e a dos seres. Um facto é tudo aquilo que é objectivo, quantificável e verificável. .Por exemplo: o telemóvel é um facto (objecto); o concerto de uma banda é um facto (acontecimento) e o Mosteiro da Batalha é um facto (ser). » (Amândio Foutoura e Mafalda Afonso, ibid, pág. 113) 

 

Perguntemo-nos, antes de mais, por que razão o telemóvel é designado por" objecto" e o mosteiro da Batalha por "ser". Acaso, o objecto não é um "ser"? Acaso o telemóvel não é um "ser" (melhor: um ente)? Acaso o mosteiro da Batalha não é um objecto de pedra esculpida? Há uma certa nebulosidade nesta distinção  conceptual.

 

UMA DISCUTÍVEL CLASSIFICAÇÃO DOS VALORES

 

Na página em que se refere à hierarquia de valores estabelecida por Max Scheler, afirmam os autores do manual:

 

«Podemos dizer que existem os seguintes valores:

 

infra-humanos -os valores da sensibilidade, como o agradável e o prazer, e os valores biológicos, como a saúde.

 

humanos - os valores eudemónicos, como a felicidade, e os valores económicos, como a prosperidade

 

espirituais - os valores noéticos, como a verdade, os valores estéticos, como a beleza, ou os valores sociais, como a coesão.» (Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, ibid, pag. 116)

 

Há nesta hierarquia, uma grande confusão. Por que razão a saúde é um valor infra-humano e a riqueza económica um valor humano? Não deveriam trocar de posição, ficando a saúde acima do poderio económico? É óbvio que deviam. A saúde é um valor humano e, na hierarquia de valores de Scheler, figura no segundo nível, a modalidade ou esfera dos valores vitais. O termo «valores eudemónicos» não parece adequado ao segundo nível que Amândio Fontoura e Mafalda Afonso nos propõem, nível que designam por "valores humanos", porque a eudaimonia é, no sentido aristotélico, a felicidade atingida pelo filósofo e por todo o homem que vive em paz psicológica, devendo, por isso, ser considerada um valor espiritual, superior.

 

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Quinta-feira, 3 de Abril de 2008
Paralogismos no "Este Amor pelo Saber-11º Ano de Filosofia" (Crítica de Manuais Escolares XXVI)

Apesar de servir para leccionar o programa de Filosofia do 11º ano de escolaridade em Portugal, o manual da editora A Folha Cultural «Este Amor pelo Saber», de Amândio Fontoura, Mafalda Afonso e Maria de Fátima Gomes, com supervisão de Alexandre Franco de Sá, inclui alguns erros teóricos que vamos explicitar.

 

EM KANT, OS DADOS DA SENSIBILIDADE NÃO APARECEM À RAZÃO, E A SENSIBILIDADE NÃO É "POSSIBILITADA" POR UMA FORMA A PRIORI

 

A gnosiologia de Kant é um dos pontos fracos deste livro cujos autores, como aliás 99% dos autores de manuais de filosofia, não compreendem a fundo o pensamento do filósofo alemão de Konisberg. Que diremos, no entanto, se nem o próprio Bertrand Russell era capaz de perceber o idealismo transcendental de Kant a quem classificava de filósofo "confuso"?

 

«Para Kant, os conceitos puros do entendimento devem organizar a experiência, tornando possível que os dados da sensibilidade apareçam à razão.»  (Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 176).

 

Há aqui um equívoco: os dados da sensibilidade nunca aparecem à razão (Versnunft) , faculdade metafísica voltada para os númenos incognoscíveis - no sistema ontognosiológico de Kant - mas aparecem apenas ao entendimento (Verstand), faculdade intelectual que pensa o mundo físico com os seus objectos (fenómenos, como por exemplo, cadeiras, nuvens, planícies, corpos animais, etc).

 

Lê-se ainda no referido manual:

 

«A sensibilidade é então possibilitada, segundo Kant, pelo facto de a matéria das sensações ser organizada por uma forma a priori que possibilita as próprias sensações. Por exemplo, quando vemos uma mesa e, depois, uma cadeira que esteja perto dela, estes dois objectos não podem ser vistos senão enquadrados numa estrutura que permite o seu aparecimento. Esta estrutura é o espaço comum que eles ocupam...»

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 175).

 

O equívoco da primeira frase é o seguinte: dizer que a sensibilidade é possibilitada por uma acção da forma a priori que consiste em organizar a matéria das sensações. Não. Há aqui brumas da confusão. A sensibilidade é as duas formas a priori (espaço e tempo puros), não é possibilitada por estas, não é um momento ou estrutura posterior a estas. A sensibilidade pura possibilita, sim, os objectos empíricos, materiais.

 

O IDEALISMO NÃO ENCERRA, NECESSARIAMENTE, TODA A REALIDADE NA CONSCIÊNCIA

 

Eis como o manual define idealismo:

 

«O idealismo: esta posição sustenta que não há coisas reais independentes da consciência. Segundo esta perspectiva, toda a realidade está encerrada na consciência do sujeito; as coisas são somente conteúdos da consciência; apenas os conteúdos da consciência são reais.»

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 182; parte do bold é nosso).

 

Esta é uma definição parcialmente errónea de idealismo. Senão, vejamos: em Kant, os númenos ou coisas em si são coisas reais independentes da consciência e não são, sequer, conteúdos da consciência. Por outro lado, os conteúdos da consciência designados por fenómenos não são autenticamente reais. A doutrina de Kant é um idealismo transcendental e não encaixa mesmo nada na definição de idealismo dada no manual...

 

HÁ  SUBJECTIVISMO COMPATÍVEL COM OBJECTOS INDEPENDENTES DA CONSCIÊNCIA

 

A definição de subjectivismo delineada neste manual é:

 

«O subjectivismo: nesta concepção, o fundamento do conhecimento está no sujeito; os princípios do conhecimento humano residem no sujeito, do qual depende a verdade do conhecimento, uma vez que este conhece de acordo com o conjunto das leis que lhe são inerentes. Nesta concepção, é o sujeito que produz o objecto, não havendo objectos independentes da consciência, pois todos são produto do pensamento.»

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 182; parte do bold é nosso).

 

As águas sulfurosas da confusão conceptual são borbulhantes, neste texto. Confunde-se subjectivismo (percepção subjectiva da realidade interior ou exterior) com idealismo. A esmagadora maioria dos subjectivistas - Salvador Dali, Picasso, Mozart, e praticamente todos os artistas, escritores e intelectuais, além de muita gente simples do povo  eram subjectivistas- acreditam na existência de objectos independentes do pensamento humano, simplesmente interpretam-nos de forma singular e intimista.

 

HÁ OBJECTIVISMO EM QUE O OBJECTO NÃO DETERMINA O SUJEITO

 

Eis como o manual define objectivismo:

 

«O objectivismo: segundo esta concepção, é o objecto que determina o sujeito ; o sujeito apenas recebe as características do objecto, fazendo uma mera reprodução destas em si ».

 

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 182; parte do bold é nosso).

 

É uma definição bastante imperfeita e sectorial de objectivismo. Na verdade, existe objectivismo sem existir sujeito ou sujeitos: é a teoria defendida por exemplo por Sartre em "O ser e o nada" ou por Alfredo Reis segundo a qual a consciência é ser material, não constitui um espelho ou uma caixa de ressonância psíquica àparte da matéria. E, segundo a concepção realista, há milhões de anos, antes de haver humanidade, havia objectivismo - realidades objectivas, em si mesmas, como a Terra e o sistema solar - sem haver sujeito.

 

AO DEFINIR REALISMO, NÃO BASTA DIZER QUE SUPÕE OBJECTOS REAIS FORA DA CONSCIÊNCIA

 

«O realismo é a posição epistemológica segundo a qual há objectos reais independentes da consciência..

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 182; parte do bold é nosso).

 

É uma definição insuficiente, esfumada entre azuis de imprecisão: também o idealismo transcendental de Kant sustenta que há objectos reais - os númenos - fora da consciência....Falta algo mais, de essencial, para definir realismo gnosiológico: a alusão à materialidade dos objectos.

 

A INCAPACIDADE DE DEFINIR FENOMENOLOGIA

 

Sobre fenomenologia, diz o manual:

 

«Para a fenomenologia, conhecer é aquilo que tem lugar quando um sujeito apreende um objecto e cabe-lhe clarificar o que significa ser o objecto de conhecimento, ser sujeito cognoscente, e o que resulta desta relação que é o conhecimento (...) O sujeito desloca-se da sua esfera para a esfera do objecto, de modo a apreender as características do objecto - que está fora do sujeito e possui características diferentes...»

 

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 163).

 

Esta é uma interpretação realista, inspirada num texto de Nikolai Hartman, que perverte a essência da fenomenologia. Não explica o que esta é. Aliás, nenhum manual de filosofia para o ensino secundário em Portugal sabe explicar, com clareza, o que é fenomenologia (perdão: o manual que redigi sabe, mas não foi publicado...). As teses de Heidegger da verdade como desocultação do ser, opõem-se àquela definição do manual, que nada mais é que a teoria da verdade como correspondência.

 

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