Sexta-feira, 19 de Abril de 2013
Equívocos no Filosofia 10º ano da Plátano Editora (Crítica de Manuais Escolares- XLIV)

No «Filosofia 10º ano», manual do professor, da Plátano Editora, para o ensino secundário em Portugal, editado em Março de 2013, cujo autor é Luís Rodrigues- tendo Álvaro Nunes como consultor científico - abundam definições equívocas.

 

O OBJECTIVISMO MORAL NÃO DEPENDE DE PONTOS DE VISTA COLECTIVOS?

 

Escreve Luís Rodrigues sobre o objectivismo moral:

 

«Os objectivistas acreditam que os juízos de valor podem ser verdadeiros ou falsos - têm valor de verdade - e que essa verdade ou falsidade não depende dos pontos de vista, de sentimentos ou de gostos, sejam estes individuais ou colectivos. Esse valor de verdade é independente da opinião ou do ponto de vista de cada pessoa ou de cada cultura. Assim se considerarmos os juízos «A eutanásia é moralmente errada» e «A eutanásia é moralmente correcta» temos, segundo os objectivistas, de reconhecer que um dos juízos é falso.» (Luís Rodrigues, Filosofia 10º ano, manual do professor, pag. 80, Plátano Editora).

 

Luís Rodrigues esquece ou ignora que a palavra objectivismo possui dois sentidos: verdade patente a todos, intra anima, isto é, dentro das mentes, intersubjectiva (exemplo: sete mais dois é igual a nove é um juízo objectivo mas depende das mentes, um retardado mental não conseguirá obter esta abstração); verdade extra anima, fora das mentes humanas, realidade em si mesma. Como é habitual, os partidários da filosofia analítica consideram unidimensionalmente o sentido de uma palavra, sem se aperceberem de outros sentidos que ela encerra.

 

Podemos  dizer que a teoria atómica não é objectivismo? A partir do momento em que se instituiu universalmente que o número de massa do hidrogénio é um e o do oxigénio é oito estamos perante verdades objectivas, no sentido sociológico: a maioria dos cientistas, dos académicos, dos editores, dos políticos decreta e toma isto como verdade e quase toda a gente o aceita. O objectivismo moral emana da opinião da larga maioria das pessoas numa comunidade regional, nacional ou mundial. Por exemplo, o juízo «É crime agredir fisicamente ou matar bebés» é objectivismo moral mas depende de sentimentos colectivos, ao contrário do que sustenta Rodrigues. Há sempre psicopatas capazes de torturar ou matar bebés, o que retira universalidade absoluta a esse juízo moral.

 

 

CONFUNDIR RELATIVISMO COM ABSOLUTISMO DA IDEOLOGIA DOMINANTE

 

Repetindo os equívocos de Peter Singer, Blackburn e outros adversários da dialética  hegeliana ou marxista sobre o que é relativismo, escreve Rodrigues:

 

«As convicções da maioria dos membros de uma sociedade são a autoridade suprema em questões morais. O relativismo cultural acerca de assuntos morais afirma que o código moral de cada indivíduo se deve subordinar ao código moral da sociedade em que vive e foi educado. Os juízos morais de cada indivíduo são verdadeiros se estiverem em conformidade com o que a sociedade - a maioria dos seus membros - a que pertence considera verdadeiro. »(Luís Rodrigues, Filosofia 10º ano, manual do professor, pag. 81, Plátano Editora)

 

Ora, o relativismo não defende nada disso. Apenas sustenta a pluraridade de pontos de vista - o que Nietzsche designou por perspectivismo, isto é, que a verdade é relativa às classes sociais e aos indivíduos, varia de classe a classe social, de grupo a grupo, de indivíduo a indivíduo. A instituição do casamento gay e lésbico, em França,  é um exemplo de relativismo, porque pressupõe que há várias verdades no campo sócio-sexual e não apenas a verdade da maioria heterossexual (absolutismo). A definição de relativismo que Luís Rodrigues dá é errónea: o relativismo é o espraiar das diferenças no seio de cada sociedade e não o afunilamento da submissão à ideologia dominante, ao sentir e pensar da maioria dos cidadãos. Tão mal pensam os "analíticos"! Entendem, erroneamente,  por relativismo o monolitismo, o absolutismo, à escala nacional. E entendem tanbém por relativismo a variação, a diversidade, à escala internacional, o que está certo. Enredam-se na incoerência.

 

 

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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2012
Desfazer uma confusão dos analíticos: não há libertismo incompatibilista

Os filósofos analíticos falam de quatro correntes essenciais de (meta) ética: determinismo radical, determinismo moderado (compatibilismo), libertismo (incompatibilismo) e indeterminismo. Mas se falam em determinismo radical e moderado, não deveriam falar em indeterminismo radical e indeterminismo moderado? 

 

A lógica, em particular o princípio do terceiro excluído («Uma coisa ou é A ou não A, descartando a terceira hipótese) impõe essa dualidade. O pensamento dos "analíticos" como Simon Blackburn, Michael Proudfoot e A.R.Lacey - e os seus espelhos reflectores em Portugal: João Branquinho, Sofia Miguens, Ricardo Santos, Desidério Murcho, Pedro Galvão, Luís Rodrigues, etc - é assimétrico. Eles não conseguem reduzir à grande dualidade primordial a diversidade das correntes num dado campo, neste caso o campo do livre-arbítrio e determinismo. A grande filosofia - refiro-me à dialética, que quase todos só conhecem parcelarmente - compadece-se de assimetrias empíricas, porque o mundo apresenta disformidades, irregularidades, mas, enquanto filosofia ordenadora do pensamento e propulsora deste para mais além, é simétrica.  Racionalidade é simetria do pensamento e simetria do devir social, astrofísico e biofísico: não há alto sem baixo, nem inverno sem verão, nem revolução sem contra-revolução, nem vida sem morte, etc.

 

O que é o libertismo, senão indeterminismo? Pois as correntes hão-de ser ou deterministas ou não deterministas, isto é, indeterministas. O libertismo não pode estar fora desse dualismo. Ou está num campo ou está noutro ou está em ambos (neste último caso é o princípio do quarto excluído que formulei em artigo deste blog de 31 de Agosto de 2011).

O que é o livre-arbítrio, senão indeterminismo?

 

E o determinismo moderado, o que é, senão uma combinação de determinismo (princípio segundo o qual «nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas geram sempre os mesmos efeitos») com indeterminismo (o livre-arbítrio que, nas mesmas circunstâncias, me leva a deliberar e agir de modos diferentes)?

 

Blackburn apresenta a doutrina de Kant sobre os dois "eu", numénico e fenoménico, como um exemplo do libertismo:

 

«III- Libertismo. Esta posição advoga que o compatibilismo é apenas uma fuga e que há uma noção mais substantiva e real de liberdade que pode ainda ser preservada em relação ao determinismo (e ao indeterminismo). Em Kant, enquanto o eu empírico ou fenoménico é determinado e não é livre, o eu numénico ou racional tem capacidade para agir racional e livremente. Mas, uma vez que o eu numénico existe fora das categorias do espaço e do tempo, esta liberdade tem aparentemente um valor duvidoso. Outras respostas libertistas incluem a sugestão de que o problema está mal colocado...» (Simon Blackburn, Dicionário de Filosofia, pag 256, Gradiva).

 

Não faz sentido falar em libertismo como incompatibilismo num universo em que se reconhece haver determinismo. O próprio Kant compatibiliza o eu numénico ou eu livre, capaz de se opor ao egoísmo e pugnar por ações «desinteressadas» e nobres, com o eu fenoménico ou eu animal, veículo das pulsões corporais e materiais (a avidez do dinheiro, o salvar a pele à custa dos outros, a gula, a luxúria, etc): ora manda um «eu», ora manda o outro «eu» em cada circunstância. Se a liberdade e o determinismo existem, em esferas diferentes, são compatíveis, do mesmo modo que os EUA e a URSS foram compatíveis de 1922 a 1991 enquanto houve União Soviética socialista burocrática: eram incompatíveis nas suas essências internas se as sobrepuséssemos - o capitalismo de livre-empresa e o capitalismo de estado «comunista» - mas coexistiam, compatibilizavam-se na cena mundial. Ora os confusos teóricos da "análise" admitem que libertismo coexiste com o determinismo físico do mundo:

 

«O libertismo não diz que não há acções determinadas - uma constipação é uma acção determinada por factores que escapam ao nosso controlo - mas somente que algumas acções não são o desfecho necessário de causas anteriores. Há acontecimentos que estão fora do nosso controlo, mas nem todos os acontecimentos estão fora do nosso controlo.» (Luís Rodrigues, Filosofia para a prova intermédia do 10º ano, pag. 31, Plátano Editora, o negrito é posto por mim).

 

Então se o libertismo admite que há ações submetidas ao determinismo, onde está o incompatibilismo?

 

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Domingo, 23 de Setembro de 2012
Questionar Luis Rodrigues: A ética não é filosofia da acção? (Crítica de manuais escolares- XLII)

 

Hierarquizar géneros e espécies, de forma correcta, não é apanágio da generalidade dos filósofos, nem da generalidade dos autores de manuais escolares, em particular dos intelectualmente míopes da «filosofia analítica». No seu manual escolar «Filosofia, 10º ano», Luís Rodrigues, estabelece a seguinte divisão dos campos da filosofia:

 

«1.2. Se há vários problemas filosóficos, há várias disciplinas filosóficas?

A resposta é sim. Cada disciplina filosófica tem os seus problemas específicos, embora haja problemas que podem interessar a mais do que uma área de filosofia. (...) Desde já, damos-lhe uma ajuda nomeando algumas disciplinas filosóficas importantes e os seus problemas fundamentais (..)

 

Filosofia da acção.

Disciplina cujo objecto de estudo é a acção, estudando o papel das crenças, dos motivos, das preferências e das intenções das nossas acções. (...)

 

 

Filosofia dos valores

Disciplina cujo objecto de estudo é a natureza dos valores. Eis algumas das suas questões. O que são valores? São objectivos ou subjectivos? (...).

 

Ética ou filosofia moral

Disciplina que procura responder ao problema de saber como devemos viver. Esta questão é habitualmente dividida em duas questões menos gerais: 1) Como distinguir uma acção correcta de uma moralmente incorrecta? . 2) O que devemos fazer da nossa vida para a tornar boa e valiosa? (...)

 

Filosofia da religião

(...)

 

Estética

(...)

 

Filosofia política

(...)

 

Filosofia do direito.

(...)

 

Filosofia do conhecimento.

(...)

 

Metafísica.

(....)

 

(Luís Rodrigues, Filosofia 10º ano, 1º volume, páginas 15-18, Plátano Editora).

 

Há erros nesta hierarquização. A ética é uma espécie dentro dos géneros filosofia da acção e filosofia da contemplação ou conhecimento puramente intelectual. E a ética é também um compartimento - uma espécie - dentro da casa que é a filosofia dos valores - um género. Não podem pois pôr-se no mesmo plano horizontal, ética e filosofia dos valores, ética e filosofia da acção como o faz Luís Rodrigues. É confusão de níveis. E qual é a relação entre filosofia dos valores e filosofia da acção? Qual se encontra, dialeticamente falando, mais elevada? Nada disto é esclarecido nesta enumeração simplista.

 

O pensamento dialético, de que Heráclito é formalmente o introdutor na filosofia ocidental antiga, a dialética que Platão anunciou e da qual se afastou não poucas  vezes, o pensamento dialético de que Aristóteles foi o maior representante na Antiguidade clássica ocidental, é ignorado. As mentes "analíticas" das universidades e liceus do nosso tempo limitam-se a compartimentar, de forma atabalhoada, os conceitos, e carecem da perspectiva angular do todo.

 

  

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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012
Luís Rodrigues e Luís Gottschalk não compreendem o idealismo de Kant (Crítica de Manuais Escolares- XL)

 

No seu manual para o ensino secundário, adotado em dezenas ou mesmo centenas de escolas em Portugal, Luís Rodrigues demonstra, à semelhança de Karl Popper, de Bertrand Russell e dos professores universitários portugueses e estrangeiros em geral, uma incompreensão fundamental da ontognosiologia de Kant. Escreve Rodrigues:

 

«Assim todo o conhecimento começa com a intuição sensível, ou seja, com a recepção de dados ou impressões sensíveis mediante duas formas com as quais a sensibilidade está equipada: o espaço e o tempo. Intuir é, portanto, receber dados empíricos, espacializando-os e temporalizando-os.»

 

«Exemplificando:

 

«Um automóvel passa frente à minha casa ao meio-dia, fazendo muito barulho e buzinando constantemente. O automóvel provoca em mim uma determinada impressão sensível. Eu recebo esta impressão sensível de uma determinada forma, isto é, espacializo-a e temporalizo-a porque me refiro ao barulho do automóvel como verificando-se em frente à minha casa (espacialização) e a uma determinada hora (temporalização). Assim, vê-se que a intuição sensível consiste em estabelecer uma relação espácio-temporal entre as impressões sensíveis (sensações) provenientes das coisas (por exemplo, do automóvel).» (Luís Rodrigues, Filosofia 11º ano, Plátano Editora, página 198, consultor, Luís Gottschalk; a letra a negrito é um sublinhado meu).

 

O erro de Luís Rodrigues é não perceber que o automóvel não é uma coisa exterior ao espírito humano mas uma construção dentro deste, um fenómeno cuja consistência é ideal-sensorial, ou seja, é um conjunto de intuições empíricas geradas no espaço que constitui a «mente exterior do sujeito». Rodrigues e Gottschalk interpretam Kant como se este fosse um realista ontológico - no caso: como se o automóvel existisse fora do espírito do sujeito e circulasse por uma rua exterior ao espírito humano- quando Kant é um idealista ontológico ou idealista transcendental, isto é, alguém que diz que os objetos materiais são conjuntos de sensações ou ideias forjadas na parte da minha mente que extravasa o meu corpo físico e engloba o universo inteiro.

 

Que diz Kant sobre a matéria que compreende, no caso que estamos a considerar, a chapa, o volante, o motor, os estofos, os pneus do automóvel? Que a matéria é uma simples representação, um conjunto de imagens e conceitos no nosso espírito:

 

«Com efeito, a matéria cuja unidade com a alma levanta tão grandes dificuldades não é outra coisa que uma simples forma ou um simples modo de representação de um objeto desconhecido, formado por aquela intuição que designamos por sentido externo. Deve, portanto, haver algo fora de nós a que corresponde esse fenómeno que chamamos matéria.» (Immanuel Kant, Crítica da razão pura, páginas 361-362, nota de rodapé, Fundação Calouste Gulbenkian; a letra a negrito é colocada por mim).

 

A matéria não é um «em si». Não é algo que exista independente de nós. O fenómeno (automóvel, casa, gato, etc) não está fora de nós, do nosso eu-espírito-cosmos: está somente fora do nosso corpo físico. Mas Rodrigues e Gottschalk apresentam-nos o automóvel, que é matéria, como coisa em si, independente de nós. É ainda um erro falar nas «impressões sensíveis (sensações) provenientes das coisas (por exemplo: o automóvel) », coisas estas que estariam fora de nós. Os objetos fora de nós (númenos) não nos enviam sensações: estas são produzidas na nossa sensibilidade, dentro de nós, sob o influxo de uma desconhecida excitação exterior emanada dos númenos, o que é diferente.

 

Este equívoco de supor que segundo a gnosiologia de Kant, há um objeto material fora de nós é geral no meio dos professores universitários e leva-me a interrogar: há verdadeiros filósofos nas cátedras universitárias de hoje ou apenas reprodutores, algo inábeis porque deformantes, da tradição filosófica?  

 

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Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009
O utilitarismo de Mill rege-se somente pelas consequências da acção? (Crítica de Manuais Escolares-XXXIV)

No Manual Filosofia-10º ano, de Luís Rodrigues, lê-se:

 

«Durante a visita a um museu, um dos visitantes apercebe-se de que dois funcionários estão a ter dificuldades em mudar de lugar um quadro muito famoso e valioso. Imediatamente, apressa-se a ajudá-los, mas infelizmente tropeça num tapete e choca com um dos funcionários derrubando-o. O quadro cai com estrondo e fica muito danificado.»

«O visitante agiu com boa intenção mas as consequências da acção foram desastrosas. Será que podemos considerar a sua acção moralmente correcta, pois agiu com boa intenção, ou devemos considerá-la como moralmente incorrecta porque as consequências foram más? »

 

«A resposta de Mill seria que a acção foi moralmente incorrecta. Porquê? Porque segundo a sua perspectiva consequencialista um acto deve ser julgado pelas suas consequências. Se as consequências forem boas, a acção é boa; se forem más a acção é má». (Luís Rodrigues, Filosofia 10º ano, volume 1º, Plátano Editora, pag 194).

 

Será que Mill classificaria como «acção moralmente má» a intervenção desafortunada do visitante e o consequente dano material do quadro? Suponho que não. Luís Rodrigues atribui a Mill uma interpretação que não lemos nos textos deste filósofo inglês.

 

A acção involuntária de danificar o quadro não foi moralmente má: foi materialmente má. Eticamente, o comportamento do visitante desastrado é irrepreensível. E Mill dava importância ao motivo, que neste caso prepondera sobre o resultado da acção. Não há só um princípio - o resultado prático - na avaliação moral da acção. Há princípios secundários a levar em conta: os motivos,  a intenção..

Stuart Mill escreveu:

 

«É uma estranha noção que o reconhecimento de um primeiro princípio é inconsistente com a admissão de princípios secundários. Informar um viajante sobre o seu destino final não implica proibir a utilização de marcos miliários e sinais pelo caminho. A proposição de que a felicidade é o fim e a meta da moralidade não significa que não tenha de ser estabelecida uma rota para esse objectivo, ou que as pessoas que o procuram não tenham de ser aconselhadas a tomar uma direcção em vez de outra.» (Stuart Mill, O utilitarismo, Gradiva, pag 73; o bold é nosso).

 

Se o utilitarismo visa maximizar o prazer dos agentes envolvidos na acção - e aparentemente estes são três: os dois empregados do museu e o visitante que os decidiu ajudar - então seria contra a moral utilitarista condenar o visitante, partindo do princípio que os empregados permanecem neutros quanto ao resultado da acção ( nem felizes, nem infelizes, conformados com a deterioração do quadro).

Reduzir o utilitarismo à tese de que «se as consequências forem boas, a acção é boa; se forem más a acção é má» é deturpar, em larga medida, o pensamento de Stuart Mill.

 

Nota: No Centro de Formação Margens do Guadiana, com sede na Escola Secundária com 3º Ciclo Diogo de Gouveia, R. Luís de Camões, 708-508 BEJA (telefone: 284 328 063), estão abertas as inscrições para a acção de formação para professores de filosofia (Grupo 410) «A teoria geral dos valores e a Ética, na perspectiva do método dialéctico», equivalente a dois créditos, 50 horas de duração (50HP), CCPFC/ACC 52326/08 CF. O formador é o autor deste blog.

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Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009
O relativismo afirma que as crenças da maioria são a verdade moral? (Crítica de Manuais de Filosofia- XXXIII)

Sobre o relativismo, escreve o manual português Filosofia 10º ano de Luís Rodrigues:

 

«3- O relativismo moral parece implicar que a acção dos reformadores morais é sempre incorrecta.

 

«O que é um reformador moral? Uma pessoa que tenta alterar significativamente o modo de pensar, de agir e de sentir de uma dada sociedade porque o considera moralmente errado nalguns aspectos importantes. Martin Luther King tentou por vía pacífica chamar a atenção para as deficiências morais de um código moral e jurídico que no sul dos EUA considerava moralmente aceitável que os negros fossem tratados como cidadãos de segunda classe. O mesmo fez Nelson Mandela na África do Sul. Como, segundo o relativismo, as crenças da maioria dos membros de uma sociedade são a verdade em matéria moral, como aquilo que é socialmente aprovado (o que significa aprovado pela generalidade dos membros de uma sociedade) é verdadeiro e deve ser seguido, então King comportou-se de forma moralmente errada.» (Luís Rodrigues, Filosofia 10º ano, volume I, pag 148, Plátano Editora; o negrito é por nós colocado).

 

Este manual, à semelhança de outros manuais e de «notáveis filósofos» da ética, navega nas águas da confusão conceptual.

 

O que é o relativismo ético? É a teoria segundo a qual os valores éticos - de bem e mal, correcto e incorrecto, justo e injusto - variam de grupo étnico a grupo étnico, de classe social a classe social, de contexto geográfico a contexto geográfico, de povo a povo, de época a época, de religião a religião.

 

Ora Luís Rodrigues afirma que segundo o relativismo as crenças da maioria são a verdade em matéria social. E que, por conseguinte, Luther King ao defender em 1964-1968 os direitos da minoria negra seria condenado pelo relativismo...

 

Confusão enorme! É justamente o oposto: um relativista diria que o racismo da elite dominante norte-americana nos anos 60 é uma perspectiva da verdade e que o anti-racismo e igualitarismo de Luther King e dos activistas negros é a outra perspectiva da verdade. A verdade tem, potencialmente, duas faces contrárias entre si, embora só possa estar numa delas ou se distribua desigualmente por ambas (70% de verdade numa, 30% na outra, por hipótese). Logo, o relativista - podendo alinhar com os racistas ou com os antiracistas - nunca entende, no seu íntimo, que só um dos lados possui 100% de verdade. Só o anti relativista acha que a maioria tem sempre razão...

 

Se o relativismo afirmasse, como sustenta Luís Rodrigues, que a maioria social tem sempre a razão ética e toda a razão, deixaria de ser relativismo, ou seja, visão holística diferenciada. Transformar-se-ia em absolutismo, isto é, anti holismo segmentador.

 

LUÍS RODRIGUES SEGUE O ERRO DE JAMES RACHELS

 

Luís Rodrigues, como aliás outros autores de manuais de filosofia em Portugal, segue, acriticamente, os erros dos «mestres» de língua inglesa - tal é o panorama actual desolador de uma grande parte dos professores de filosofia do ensino secundário, alguns com mestrados e doutoramentos.

 

Neste caso, o «mestre» é James Rachels que escreveu:

 

«2. Poderíamos decidir se as acções são certas ou erradas pela simples consulta dos padrões da nossa sociedade. O relativismo cultural propõe uma maneira simples para determinar o que está certo e o que está errado: tudo o que necessitamos é de perguntar se a acção está de acordo com o código da nossa sociedade. Suponhamos que em 1975 um residente na África do Sul se perguntava se a política de apartheid do seu país - um sistema rigidamente racista - era moralmente correcta. Tudo o que teria de fazer era perguntar se esta política se conformava com o código moral da sua sociedade. Em caso de resposta afirmativa, não haveria motivos de preocupação, pelo menos do ponto de vista moral.»

 

«....No entanto o relativismo cultural não se limita a impedir-nos de criticar os códigos de outras sociedades; não nos permite igualmente criticar a nossa».

 

(James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Gradiva, pag 41)

 

A confusão de Rachels é total: o relativismo moral impede-nos de criticar a nossa sociedade e os códigos das outras, isto é, impede-nos de relativizar a verdade? É óbvio que Rachels confunde relativismo com absolutismo de maioria sociológica. E é este Rachels um dos maiores teóricos mundiais da ética, como no-lo apresenta a indústria editorial? Deixem-nos rir de Rachels e do grotesco espectáculo das cátedras universitárias em filosofia, da distorção que o seu valor real (mínimo, a maioria das vezes) sofre sob o impacto dos media, dos prémios "equivalente a Nobel" (lembramos o premiado Thomas Nagel, tão pequenino no pensamento à beira de um Sartre ou de um Heidegger e de outros!)...

 

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Terça-feira, 28 de Outubro de 2008
Confundir a Indução com a Dedução (Crítica de Manuais Escolares- XXXII)

No Manual português «Filosofia 10º ano» de Luís Rodrigues lê-se:

 

«Um argumento indutivo é válido quando é improvável (ou muito pouco provável), mas não impossível que as suas premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa.»

Consideremos o seguinte argumento:

Todas as pessoas que comeram no restaurante Zodíaco ontem à noite ficaram doentes.

Logo, a comida estava estragada.

Trata-se de um bom argumento indutivo.» ( Filosofia, Volume 1, Luís Rodrigues, Plátano Editora, pag 54-55).

 

Crítica minha:  definir o raciocínio indutivo como aquele em que é bastante improvável que sendo as premissas verdadeiras a conclusão seja falsa é sinal de uma certa vacuidade intelectual; esta definição nebulosa também se pode aplicar ao raciocínio de analogia.

E o exemplo referente ao restaurante Zodíaco parece ser uma dedução e não uma indução. Vejamos o corpo total dessa dedução, desocultando a premissa oculta :

 

Todas as pessoas que ficam doentes após comer num restaurante é por ingerir comida estragada.

Todas as pessoas que comeram no restaurante Zodíaco ontem à noite ficaram doentes.

Logo, a comida estava estragada.

 

Vê-se pois, uma vez mais, que os manuais de filosofia no ensino secundário em Portugal - a maior parte dos quais gerados pelos parafilósofos analíticos da Sociedade Portuguesa de Filosofia, lobby poderoso no mundo editorial - abundam em erros que os professores criteriosos devem, inteligentemente, desmontar nas aulas. 

 

 

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Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008
Acções «causadas» e «não causadas», confusões de um manual de Filosofia (Crítica de manuais escolares-XXXI)

No manual português Filosofia 10º ano, de Luís Rodrigues, da Plátano Editora, manifesta-se uma confusão entre as noções de «acção causada» e de «acção não causada». Diz o manual:

 

«Transformar o indeterminismo em posição filosófica é defender que as acções livres são acções não causadas. Por mais que esta ideia possa parecer simpática ao defensor do livre-arbítrio, encerra vários problemas:

1- Acções não causadas são simplesmente algo que nos acontece, o que não parece coadunar-se com a noção de acção como algo que acontece por nossa iniciativa.

2- Acções não causadas ou imprevisíveis são acções que escapam ao nosso controlo, o que não parece coadunar-se com a ideia de livre-arbítrio, isto é, de que há acções que dependem da nossa vontade.

3- Se uma acção não é causada então propriamente não é da minha autoria e por ela não posso ser responsabilizado. Só somos responsáveis pelas acções que resultam da nossa vontade e não do acaso. »( Luis Rodrigues, Filosofia 10º ano, pag 90).

 

Luís Rodrigues, como aliás outros autores, adultera o conceito de acção não causada identificando-o com o de acção não causada por mim (sujeito). É subverter a semântica: ninguém pensa bem se distorcer o significado das palavras. A semântica (lógica informal) prevalece sobre a lógica formal.

 

Ora, afinal, ao contrário do que defendem Rodrigues e os seus amigos, são também causadas as acções geradas por outrém, ou pelo sistema de causas e efeitos invariáveis designado por determinismo, ou pelo destino. A queda de uma maçã é uma acção «incausada»? Ou é uma acção causada pela lei da gravidade e pela deterioração do pedúnculo da maçã?

Ao sustentar que há acções não causadas, Luís Rodrigues nega o princípio da razão suficiente formulado por Schopenhauer segundo o qual «nada acontece sem causa, sem uma razão que lhe dê origem.»

É óbvio que a principal fonte filosófica que informa Luís Rodrigues, Desidério Murcho, Aires Almeida, Pedro Galvão, Paula Mateus, Pedro Madeira, António Paulo Costa e outros autores de manuais é o tão famoso quanto confuso catedrático Simon Blackburn cuja definição de indeterminismo Luís Rodrigues cita:

 

INDETERMINISMO

Concepção segundo a qual alguns acontecimentos não têm causa: limitam-se a acontecer e nada há no estado prévio do mundo que os explique. Segundo a mecânica quântica, os acontecimentos quânticos têm esta propriedade.   (BLACKBURN, Simon, (1997.)  Dicionário de Filosofia, Lisboa, Gradiva, pag 226).

 

A mecânica quântica, segundo parece, não sustenta a inexistência de causas: afirma, sim, que as causas são livres, isto é, a mesma causa produz efeitos diversos, não sendo possível estabelecer regularidades exactas. Indetermismo não é, pois, a não existência de causas. É a não existência da série de causas A ligadas infalivelmente à série de efeitos B, isto, é, a negação do determinismo.

Inexistência de causas designa-se por acausalismo.

É também errónea a definição de determinismo dada por Luís Rodrigues:

 

«O determinismo é a doutrina segundo a qual todos os acontecimentos têm uma causa. Por outras palavras, tudo sem excepção é  resultado ou efeito de causas anteriores.» (Luis Rodrigues, Filosofia 10º ano, pag 88).

 

Isto corresponde ao conceito de causalismo. O princípio do determinismo é outro e formula-se assim: nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos.

Com tantas nuvens de confusão nos manuais de Filosofia adoptados em Portugal - e certificados por uma autoridade nacional! -  não é de estranhar que os professores e alunos deslizem, como aviões desgovernados, nos céus da Filosofia e se despenhem no pântano do pensamento caótico.

 

 

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