Sábado, 1 de Abril de 2017
Determinismo e indeterminismo: equívocos de Paul Davies

 

Paul Davies escreveu no seu excelente livro «Deus e a Nova Física»:

 

«Um agente livre é aquele que pode causar certos actos no mundo físico. Num universo indeterminista, ocorrem eventos que não têm causa. Mas poder-se-á ser responsável pelos actos a não ser que sejam "causados" por alguém? Os defensores do livre arbítrio afirmarão que que as actividades da pessoa são determinadas,  por exemplo, pelo seu carácter, inclinações, personalidade

«Suponhamos que um homem pacífico comete, repentinamente, um acto violento. O indeterminista diria: «Foi um acontecimento espontâneo, sem causa antecedente. Não se pode culpar o homem.» O determinista, por seu lado, declararia o homem responsável, mas confortar-se-ia com o facto de ele poder vir a ser reabilitado pela educação, persuasão, psicoterapia, drogas, que provocariam um comportamento diferente no futuro. » (Paul Davies, Deus e a Nova Física, Círculo de Leitores, 1989, pág. 171; o destaque a negrito é colocado por nós).

 

Ora o que sucede é exactamente o oposto do que diz Paul Davies. O que é o livre-arbítrio? É a escolha livre, ponderada, racional de um acto ou de valores sobrepondo-se ao determinismo biofísico.  O livre-arbítrio é uma parte do indeterminismo, da inexistência de necessidade, de relações constantes causa-efeito. Portanto dizer que «Os defensores do livre arbítrio afirmarão que as actividades da pessoa são determinadas, por exemplo, por exemplo, pelo seu carácter, inclinações, personalidade» constitui um erro: se são determinadas pelo carácter ou inclinações, o livre-arbítrio desaparece.

 

 

Por outro lado, dizer, a respeito de um crime hediondo praticado por um homem até então bem comportado que « o indeterminista diria: «Foi um acontecimento espontâneo, sem causa antecedente. Não se pode culpar o homem.» é errado, pelo menos no que toca a uma parte dos indeterministas. Se há indeterminismo,  maior é a responsabilidade de cada um, não há desculpas, o livre-arbítrio deveria ter-se exercido sobre a base da vigilância.

 

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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2017
Ontologia de Espinoza: fatalismo, Deus como a necessidade imanente à natureza biofísica

Baruch de Espinoza (24 de Novembro de 1632, Amsterdão — 21 de Fevereiro de 1677, Haia) foi um dos grandes pensadores do racionalismo do século XVII , originário uma família judaica portuguesa que fugiu de Portugal por causa da perseguição da Inquisição. Excluiu o livre-arbítrio da existência humana considerando esta determinada pelo desejo, pela necessidade de conservar o bem-estar de cada um.Em 27 de julho de 1656, a Sinagoga Portuguesa de Amsterdão excomungou Espinoza com o chérem, por este sustentar que «nem o entendimento nem a vontade pertencem à natureza de Deus» e que Deus é a lei infalível da natureza, a causa imanente de todas as coisas (panteísmo).

 

PROVIDENCIALISMO E FATALISMO

 

 Espinoza professou o Providencialismo, a doutrina de que a Divina Providência guia o destino de cada homem no sentido do bem espiritual mesmo através das dificuldades e fracasos que lhe envia:

 

 «O ódio há-de ser vencido pelo seu contrário, o amor, e todo aquele que se guia pela razão deseja também para os demais o bem que apetece para si mesmo (...) o varão de ânimo forte considera antes de tudo que todas as coisas se seguem da necessidade da natureza divina, e, portanto, sabe que tudo quanto pensa ser molesto e mau, e quanto lhe parece imoral, horrendo, injusto e desonroso, obedece a que a sua concepção das coisas é indistinta, mutilada e confusa; e, por esta causa, esforça-se sobretudo por conceber as coisas como são em si, e por apartar os obstáculos que se opõem ao verdadeiro conhecimento, tais como o ódio, a ira, a inveja, a irrisão, a soberba e os demais de este estilo, que comentámos anteriormente; e deste modo esforça-se quanto possível, como temos dito, por agir bem e estar alegre.»

(Spinoza, Ética, Alianza Editorial, Madrid, 2006, pp 366-367).

 

Espinoza elimina o livre-arbítrio e o acaso de tal modo que tudo o que sucede, acontece por necessidade, isto é, não poderia ser de outro modo. E como tudo está em Deus, este é a própria necessidade. Aqui Espinoza antecipa o hegelianismo que aprisiona Deus ao círculo do ser em si/ ser fora de si/ ser para si.

 

PROPOSIÇÃO XXIX

«Na natureza não há nada contingente mas em virtude da necessidade da natureza divina, tudo está destinado a existir e a agir de certa maneira

(Spinoza, Ética, Alianza Editorial, Madrid, 2006, pag 83).

 

 

O LIVRE-ARBÍTRIO NÃO EXISTE

Espinoza excluiu o livre-arbítrio da existência humama considerando esta determinada pelo desejo e pela necessidade da natureza. A afirmação de que a soma dos três ângulos internos de um triângulo perfaz 180º não é um acto de livre-arbítrio é uma imposição à alma da ideia de triângulo que o entendimento concebe. Volição é um acto de querer isto ou aquilo mas a volição não implica que haja livre-arbítrio. Escreveu:

                                                          

PROPOSIÇÃO XLVIII

«Não há na alma nenhuma vontade absoluta ou livre, mas a alma é determinada a querer isto ou aquilo por uma causa, que também é determinada por outra, e esta por sua vez por outra, e assim até ao infinito

(Spinoza, Ética, Alianza Editorial, Madrid, 2006, pág 176).

 

PROPOSIÇÃO XLVIII

«Na alma não se dá nenhuma volição, no sentido de afirmação ou negação, aparte aquela que está implícita na ideia enquanto é ideia

Demonstração: na alma (pela Proposição anterior) não há nenhuma faculdade absoluta de querer ou não querer, mas tão somente volições singulares, a saber: tal e qual afirmação, tal e qual negação. Sendo assim, concebamos uma volição singular, por exemplo um modo de pensar pelo que a alma afirme que os três ângulos de um triângulo valem dois rectos. Esta afirma implica o conceito, ou seja, a ideia de triângulo(...) Deste modo, esta afirmação pertence à essência da ideia de triângulo e não é outra coisa que ela mesma (...)

 

«Corolário: A vontade e o entendimento são um e o mesmo.

«Demonstração: A vontade e o entendimento não são senão as mesmas volições singulares (...) Ora bem: uma volição singular e uma ideia singular são um e o mesmo (pela Proposição anterior). Logo, a vontade e o entendimento são um e o mesmo.»

(Spinoza, Ética, Alianza Editorial, Madrid, 2006, pp 177-179; o negrito é posto por nós).

 

 

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Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2016
Teste de Filosofia do 10º ano de escolaridade (9 de Dezembro de 2016)

Centrado nos grandes temas da filosofia antiga (ontologia de Platão e Aristóteles, ética do taoísmo) na teoria da acção humana e dos valores, na lógica dialética, eis um teste de filosofia para o 10º ano de escolaridade, no Alentejo, região onde a profundidade da planície suscita a profundidade das ideias

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C

 

9 de Dezembro de 2016. Professor: Francisco Queiroz

I

“Na cosmologia de Aristóteles, há teleologia nos movimentos que ocorrem nos dois mundos que formam o cosmos. O realismo crítico é um racionalismo e não um empirismo. O fatalismo não é o mesmo que o determinismo biofísico com livre-arbítrio (vulgo determinismo moderado).”

 

1)Explique, concretamente este texto.

 

2)Relacione, justificando;

A) Essencialismo transcendente em Platão e Essencialismo imanente em Aristóteles

B) Proté Ousía, Hylé e Eidos, em Aristóteles, e três partes da alma, em Platão.

C) Esfera dos valores espirituais, esfera dos valores vitais, na teoria de Max Scheler e lei dos dois aspectos da contradição.

D).Ética de Aristóteles, Ética do Taoísmo e pragmatismo.. .

 

 

CORREÇÃO DO TESTE ESCRITO COTADO PARA 20 VALORES

 

 1) No cosmos de Aristóteles há dois mundos, o mundo sublunar, composto de quatro esferas concêntricas, a Terra (imóvel no centro) e as esferas de água,ar e fogo, no qual o movimento dos corpos não é circular e é teleológico, obedece a finalidades inteligentes, isto é, os corpos desejam voltar à origem do seu constituinte principal (exemplo: a pedra largada no ar cai porque o seu télos, finalidade, é voltar à «mãe», a Terra); o mundo celeste, composto de 54 esferas de cristal incorruptíveis com astros incrustados, 7 delas de planetas (Lua, Mercúrio, etc) e 47 de estrelas, que giram circularmente de modo teleológico, finalista,  já que estrelas e planetas, seres inteligentes, desejam alcançar, fora do cosmos, Deus, o pensamento puro, que se pensa a si mesmo e não se importa com o cosmos. Deus não é a causa formal (o modelo) do cosmos nem a causa eficiente (o construtor) do cosmos, mas apenas a causa final, o télos, do movimento dos astros inteligentes e das respectivas esferas. Ele nada faz mas suscita e atrai o movimento das estrelas.  (VALE TRÊS VALORES).O realismo crítico é a teoria que afirma que há um mundo material anterior às mentes humanas e independente destas que o captam de maneira distorcida. O realismo crítico em Descartes consiste em postular o seguinte: há um mundo de matéria exterior às mentes humanas, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, forma, tamanho, número, movimento. As cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da minha mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios de partículas exteriores já que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. .Assim, a rosa não é vermelha, é apenas forma e tamanho. O ramo de rosas é apenas formas, tamanho e um certo número de unidades, não tem cor, nem cheiro, nem peso. O mármore não é frio nem duro, o céu não tem cor. O realismo crítico é um racionalismo porque esta doutrina diz que só a razão é a fonte do verdadeiro conhecimento, desprezando muitas das percepções empíricas (neste caso, desprezando as cores, os sons, os cheiros , etc). Não é empirismo porque esta é a doutrina que sustenta que a fonte principal ou única dos nossos conhecimentos é a experiência sensorial, as percepções empíricas (o que vemos, tocamos, cheiramos, etc). Fatalismo  é a teoria segundo a qual tudo na vida está predestinado e os homens não dispõem de livre-arbítrio nem existe o acasoDeterminismo com livre-arbítrio (vulgo: determinismo radical) é a teoria segundo a qual, na natureza, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos e o homem dispõe de liberdade racional de escolha (livre-arbítrio) existindo ainda o factor acaso na natureza. Exemplo: um diabético sabe que ingerindo açúcar refinado a taxa de açúcar no seu sangue sobe para valores anormais, isto é o determinismo ou lei necessária biológica, mas pondera racionalmente e decide (livre-arbítrio) se  deve comer doces ou não. (VALE DOIS VALORES).

 

2)A) Essencialismo é toda a filosofia que sustenta que a essência ou forma fundamental dos entes e dos fenómenos precede a existência destes. As essências são as formas eternas e imutáveis tanto em Platão como em Aristóteles. Em Platão, elas são arquétipos de Bem, Belo, Justo, Número Um, Número Dois, Triângulo, Homem, etc, existentes no mundo Inteligível acima do céu visível, por isso são transcendentes, estão além (trans) do universo físico. Em Aristóteles, as essências são formas eternas inerentes ou imanentes aos objectos físicos - exemplo: a essência sobreiro está em todos os sobreiros reais, físicos, porque não há mundo inteligível- daí ser um essencialismo imanente (VALE TRÊS VALORES). 

 

2-B) A teoria hilemórfica (hyle é matéria-prima universal; morfos é forma) de Aristóteles sustenta que cada coisa individual ou primeira substância (proté ousía) como, por exemplo, este cavalo cinzento, se forma da união entre a forma eterna de cavalo (eidos)que existe algures e a hylé ou matéria-prima universal, indiferenciada, que não é água nem fogo nem ar, nem terra mas que passa a existir ao juntar-se à forma. A teoria de Platão sustenta que a alma se divide em três partes: o nous ou parte superior, razão intuitiva que capta os arquétipos ou formas puras e que, por isso, corresponde ao eidos ou essência em Aristóteles; a epitimya ou parte inferior da alma, a concupiscência, onde reinam os apetites carnais desordenados e que, por isso, fazemos corresponder à matéria prima universal ou hylé; a parte média da alma, o tumus, coragem e valentia militar que, tal como a proté ousía, é uma síntese. (VALE TRÊS VALORES)

 

C) A esfera dos valores espirituais, na concepção de Scheler, engloba os valores estéticos (belo e feio), éticos ( bom e mau, justo e injusto), jurídicos (legal, ilegal; justo, injusto), filosóficos (verdade e erro) científicos (verdade e erro por referência, isto é, na experiência, no pragmatismo). Há valor de coisa - por exemplo, o quadro Mona Lisa de Leonardo da Vinci - valor de função - no exemplo olhar o quadro, apreciar o sorriso de Mona Lisa - e valor de estado - no exemplo: a felicidade resultante dessa contemplação visual. A esfera ou modalidade dos valores vitais e sentimentais é a esfera anímica que inclui os valores do nobre e do vulgar, ciúme e ausência deste, orgulho e humildade, coragem e cobardia, sentimento de vitória ou de juventude, sentimento de derrota ou de velhice, etc. A lei dos dois aspectos da contradição sustenta que numa contradição (contrariedade) há dois aspectos, em regra desigualmente desenvolvidos, o principal e o secundário, que podem inverter posições passando o dominado a dominante. A relação pode ser percebida de muitas maneiras, como por exemplo: em uma pessoa é dominante a esfera dos valores vitais, vive centrada nos triunfos do desporto, nos valores do orgulho da pátria e da família mas em dado  momento dedica-se à arte (estética) e à filosofia, que pertencem à esfera dos valores espirituais e esta passa a ser dominante.(VALE TRÊS VALORES).

 

2-D) A ética de Aristóteles é a de que a virtude está no meio termo (mésotes): por exemplo, não se deve ser avarento nem gastar o dinheiro todo de uma vez, mas antes gastar e poupar equilibradamente; não se deve ser ditador tirânico nem anarquista anti poder, mas exercer a autoridade com prudência, etc. A ética do taoísmo consiste no não agir (não entrar na política nem nos altos negócios, não ter estudos universitários para não se corromper, etc) ser astucioso e louvar aquele que é mais forte que nós e um dia tirar-lhe o tapete, não lançar guerras, viver uma vida simples de camponês respeitando o Tao, isto é, o ritmo natural ondulatório do universo, a alternância verão-inverno, sementeira-colheita, etc.

O pragmatismo é a corrente que sustenta que se deve pôr de parte os altos princípios morais e metafísicos impossíveis de pôr em prática e agir de modo útil e eficaz no mundo empírico, buscar o lucro com realismo. Tanto a ética de Aristóteles como a ética taoísta são, de algum modo, pragmáticas, porque buscam a utilidade no modo de viver, têm bom senso. (VALE TRÊS VALORES).

 

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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2016
Um erro da filosofia analítica: extrinsecar determinismo moderado, de libertismo

 

A filosofia analítica, incapaz de hierarquizar dialeticamente os conceitos em géneros e espécies e subespécies, em muitas situações, comete o erro de separar libertismo de determinismo moderado. Esta última doutrina é a teoria segundo a qual há duas esferas de acção, a do determinismo biofísico, impossível de evitar - lei da gravidade, envelhecimento celular, sequência das estações do ano, sempre a mesma, etc. - e a do livre-arbítrio, que é a deliberação racional e a decisão livre dos seus actos feita por cada homem, podendo a esfera do livre-arbítrio contrariar a do determinismo, em certa medida.

 

Os filósofos analíticos como Simon Backburn inventaram, confusamente, o conceito de libertismo, opondo-o ao determinismo biofísico com livre-arbítrio, sem perceberem que libertismo é a parte de livre-arbítrio que há no determinismo moderado. Libertismo e exercício do livre-arbítrio é uma e a mesma coisa. Assim, o libertismo é género de duas espécies: o determinismo biofísico (exemplo: se me atirar ao vazio caio sempre para a Terra porque a lei da gravidade funciona a todo o instante) com livre-arbítrio humano; o indeterminismo biofísico (exemplo: a lei da gravidade pode deixar de funcionar quando me atiro ao vazio) com livre-arbítrio.

 

Os próprios filósofos analíticos não estão de acordo sobre a definição de libertismo embora todos o definam como um «incompatibilismo» - um chavão que revela irreflexão. Ben Dupré, por exemplo, escreve sobre os partidários do libertismo que considera extrínseco e alternativo ao determinismo moderado (determinismo com livre-arbítrio):

 

«Deterministas moderados - Aceitam que o determinismo é verdadeiro, mas negam que ele seja incompatível com o livre-arbítrio. O facto de termos podido agir de um modo diferente se o tivéssemos escolhido oferece uma noção satisfatória e suficiente de liberdade de acção (..)

«Libertários - Concordam que o determinismo é incompatível com o livre-arbítrio e, por conseguinte, rejeitam o determinismo. Sustentam que o livre-arbítrio é real e que as nossas escolhas e ações não são determinadas». (Ben Dupré, 50 Ideias de Filosofia que Precisa mesmo de saber, p.170, D. Quixote, 2011, adaptado e citado no Manual Essencial Filosofia do 10º ano, da Santilhana Editores, pag 100-101 o negrito é sublinhado por nós)

 

Mas como podem os libertários rejeitar o determinismo se ele existe na realidade? Por exemplo, um mendigo que sente o determinismo biológico da fome tem livre.arbítrio para assaltar ou deixar em paz um idoso que caminha numa rua solitária. A decisão que tomar enquadra-se no determinismo moderado - eu chamo-lhe determinismo biofísico aliado a livre-arbítrio - e igualmente no tal libertismo, que é a mesma coisa. Afinal os deterministas moderados « sustentam que o livre-arbítrio é real e que muitas das  nossas escolhas e ações não são determinadas». E o que significa ser «incompatível com»? O comunismo estalinista era incompatível com o capitalismo norte-americano? Intrinsecamente era incompatível, mas extrinsecamente eram compatíveis, coexistiam nos anos 1930 a 1953 no mesmo planeta. As confusões dos filósofos vulgares que imperam no mundo universitário são enormes...o termo incompatibilismo não os deixa discernir, não sabem pensá-lo dialeticamente.

 

Seja como for, não faz sentido considerar o libertismo como corrente autónoma face ao determinismo moderado pelo livre-arbítrio. Mas os autores de manuais escolares de filosofia em Portugal e respectivos supervisores, catedráticos, sem excepção, seguem esta errónea visão de Blackburn, e as perguntas que saem em provas de exame nacionál envolvendo o conceito de libertismo enfermam desta mesma míope conceptualização. A universidade vale pouco em matéria de clareza filosófica... é um conjunto de vaidades doutoradas. Os genuínos pensadores estão fora...

 

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Domingo, 1 de Maio de 2016
Imprecisões de Hannah Arendt

 

Hannah Arendt (nascida Johanna Arendt; Linden, Alemanha, 14 de outubro de 1906 – Nova Iorque, Estados Unidos, 4 de dezembro de 1975) filósofa política alemã de origem judaica, discípula de Heidegger  de cujo totalitarismo político se demarcou, possui diversos equívocos no seu pensamento, sem embargo da sua vasta cultura e de ser uma pensadora notável.

 

VONTADE COMO LIVRE-ARBÍTRIO OPÕE-SE A VONTADE COMO INÍCIO?

 

Escreveu a filósofa judia:

«Na minha discussão da Vontade mencionei repetidamente duas maneiras completamente diferentes de compreender essa faculdade: como uma faculdade de escolha entre objectos ou metas, o liberum arbitrium, que actua como árbitro entre fins dados e delibera livremente sobre os meios para os alcançar; e, por outro lado, como a nossa «faculdade de iniciar espontaneamente uma série no tempo» ou o «initium ut homo creatus est» de Agostinho, a capacidade do homem para iniciar porque ele próprio é um início».

(Hannah Arendt, A vida do Espírito, volume II-Querer, Instituto Piaget, páginas 174-175; o destaque a bold é posto por nós)

 

Há alguma falta de clareza nesta dicotomia estabelecida por Hannah Arendt: o livre-arbítrio inclui a «faculdade de iniciar espontaneamente algo no tempo.» Qualquer acto de livre-arbítrio é um início: se escolho, após demorada reflexão, frequentar um templo budista ou militar num partido político estou a usar a vontade como iniciadora de um processo. Portanto, o dilema que Arendt apresenta acima é um falso dilema: vontade com livre-arbítrio inclui vontade como força iniciadora, não se opõem entre si. O verdadeiro dilema, que Hannah Arendt não põe em relevo, ao menos nesta passagem, é o que opõe a vontade consciente, como livre-arbítrio, à vontade insconsciente, cega e transpessoal em Schopenhauer, que nos leva a criar o mundo fenoménico das árvores, rios e céus, e à vontade inconsciente como pulsão libidinal ou pulsão de Eros, em Freud, que nos leva a sexualizar tudo, isto é, a olhar as pessoas como objectos eróticos, em diferentes graus. 

 

A OMISSÃO DE SCHOPENHAUER, ARAUTO DA VONTADE  TRANSPESSOAL

 

Hannah Arendt discorre  sobre a Vontade, na história da filosofia, no seu livro «Vida do Espírito, II, Querer. E considera Heidegger superior a Schelling no aspecto em que este último teorizou a Vontade personificada ao passo que Heidegger sustentaria a Vontade não personificada. Escreve:

 

«Foi nesta região de pura especulação que apareceu a Vontade durante o curto período do Idealismo Alemão. "Na instância final e muito alta", declarou Schelling," não há outro ser além da Vontade. A Vontade é o Ser primordial, e todos os predicados se aplicam unicamente a ela - falta de fundamentação, eternidade, independência do tempo, auto-afirmação! Toda a filosofia se esforça apenas por encontrar esta mais alta expressão". E citando esta passagem no seu What is called Thinking?, Heidegger acrescenta imediatamente: «Então, os predicados que o pensamento metafísico atribuiu ao Ser, Schelling encontra-os na sua forma final, mais alta... mais perfeita no querer. No entanto, a Vontade neste querer não significa aqui uma capacidade da alma humana; a palavra "querer" designa aqui o Ser dos entes como um todo" (acrescentarei os itálicos). Não há dúvida que Heidegger tem razão; a Vontade de Schelling é uma entidade metafísica mas, ao contrário das mais comuns e mais antigas falácias metafísicas, é personificada. Num contexto diferente, e com maior precisão, o próprio Heidegger resume o signifivado deste Conceito personificado: a falsa "opinião (que facilmente) resulta daí é que a vontade humana é a origem da vontade-de-querer , enquanto pelo contrário, o homem está a ser querido pela Vontade-de-querer sem sequer experimentar a essência de um tal querer".

(Hannah Arendt, A vida do Espírito, volume II-Querer, Instituto Piaget, páginas 172-173; o destaque a bold é posto por nós)

 

Mas Arthur Schopenhauer teorizou a Vontade transpessoal como a criadora do mundo que é mera representação (idealismo gnoseológico, imaterialismo) e Hannah Arendt omite-o nesse campo. Porquê?

 

 

É INTELIGENTE TROÇAR DA ASTROLOGIA HISTÓRICA DETERMINISTA?

Escreveu Arendt:

«Os homens, para sempre tentados a levantar o véu do futuro - com a ajuda de computadores ou horóscopos ou os intestinos dos animais sacrificiais - têm um cadastro pior para mostrar nessas «ciências» do que em quase todos os outros empreendimentos científicos».

(Hannah Arendt, A vida do Espírito, volume II-Querer, Instituto Piaget, página 175; o destaque a bold é posto por nós)

 

Neste texto, Arendt equipara o estudo matemático-astronómico dos factos históricos (astrologia histórica, diferente de psico-astrologia) à leitura dos intestinos de animais sacrificados... É uma pura falácia de Hannah. E manifesta a ignorância desta sobre o Ser: porque este é os 360 graus do Zodíaco, o movimento dos planetas e a corporalidade terrestre que daí se desprende.

 

Uma qualidade comum a quase todos os filósofos e professores de filosofia é não saber que os planetas comandam inteiramente o destino de cada homem, planta, animal e pedaço de matéria inerte e que a astrologia histórico-social, enquanto colectora e sistematizadora de factos empíricos, é uma ciência, mais exacta que a história, porque a esta acrescenta a astronomia, mais exacta que a psicologia, a sociologia, a economia, a antropologia.

Se Hannan Arendt possuísse a inteligência holística, que lhe faltou como faltou a Descartes, a Kant, a Leibniz, a Husserl, a Merleau-Ponty, a Heidegger, a Sartre, a Nozick, a Zizeck e a quase todos os outros doutorados em filosofia, abriria um livro de Efemérides planetárias e folheando-o, interrogar-se-ia sobre o facto de Hitler ter subido ao poder em 30 de Janeiro de 1933, com Júpiter em 22º do signo de Virgem e se ter suicidado em 30 de Abril de 1945, com Júpiter em 17º de Virgem (só uma vez durante 10 ou 11 meses, em cada 12 anos, Júpiter desliza no signo de Virgem que vai de 150º a 180º da eclíptica; é significativo que Júpiter em Virgem tenha elevado Hitler ao poder em 1933 e o tenha feito descer do poder em 1945 ).

 

 

Troçar do determinismo astral nos actos humanos individuais e político-sociais é próprio de «burros» - e as universidades, tal como as bibliotecas de filosofia e ciências, estão cheias desse tipo de «burros» licenciados, mestres e doutorados. Aliás, a história da filosofia é predominantemente a história dos «burros» académicos que sempre negaram a predestinação astral, é uma mistura de obscuridade mental e luz.  Quanta vaidade a dos filósofos, ignorantes que presumem ser a vanguarda do pensamento humano, o juíz decisivo, quando, como Heideger ou Hannah Arendt, não conhecem sequer as posições planetárias ao longo da história e os factos sociais a que deram origem!  Uma faculdade de Filosofia sem cadeiras de Astrologia Histórica não é digna do nome de universidade (universitas, saber universal).

 

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Terça-feira, 19 de Novembro de 2013
Determinismo moderado? Ou libertismo moderado?

 

Os frágeis pensadores da filosofia analítica falam em determinismo duro e determinismo moderado .. e em libertismo.Mas porque não dividem o libertismo em moderado e duro? Se o fizessem, descobriam que determinismo moderado (pelo livre-arbítrio) é o mesmo que libertismo moderado (pelo determinismo).

 

«O caminho que sobe e o caminho que desce são um e o mesmo» dizia Heráclito. Note-se que há exercíios de preparação para exame nacional de filosofia, em manuais escolares, que exigem uma resposta certa entre quatro hipóteses, nos seguintes termos:

 

«Escolha a hipótese verdadeira no caso X:

 

A) Determinimo moderado

B) Libertismo

C)  Determinismo duro.

D)................. »

 

Trata-se, entre A) e B),  de uma disjunção incompleta ou falsa porque o determinismo moderado é a forma moderada do libertismo, está incluído neste: o livre-arbítrio exerce-se, prevalece, sobre as condições de determinismos biofísicos adversos. Exemplo: os ocupantes alemães da França em 1940, apontam-me uma arma e ameaçam matar-me se eu resistir mas eu, cidadão francês, posso juntar-me à resistência da France Libre de Jean Moulin e De Gaulle e atacar as patrulhas alemãs com granadas, está no meu livre-arbítrio fazê-lo. Kant e Sartre eram libertistas e, em simultâneo, deterministas moderados.

 

Os vesgos pensadores analíticos (Simon Blackburn, Peter Singer, Nigel Warburton, etc) não vêem o óbvio e esquartejam o campo das definições a torto e a direito...


 

 

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Terça-feira, 7 de Maio de 2013
Equívocos no manual «Essencial, Filosofia 10º ano» da Santilhana Constância (Crítica de Manuais Escolares -LIII)

O manual da Santilhana «Essencial Filosofia 10º ano» de Amândio Fontoura e Mafalda Afonso, tendo como consultora científica Custódia Martins , contém alguns erros teóricos, sem embargo de ser o mais barato no mercado português, de estar repleto de textos substanciais de filósofos consagrados e de não conter as quase sempre falaciosas perguntas de resposta de escolha múltipla que são apanágio dos superficiais.

 

O DETERMINISMO NÃO NEGA NECESSARIAMENTE A LIBERDADE DO HOMEM, LIMITA-A E FAVORECE-A

 

Afirma o manual:

 

«O determinismo nega veementemente a liberdade do homem, como se tudo estivesse organizado em torno de leis físicas e imutáveis. Defende que se o Homem está inserido num mundo físico, sujeito a leis e a relações de causa-efeito, não é excepção e dificilmente lhe consegue escapar e exercer livremente a sua vontade. Sugere mesmo que se o homem tem a aparente ilusão de que age livremente, tal deve-se somente ao facto de ainda não ter sido possível descobrir todas as leis que regem os vários níveis da realidade.» (Amândio Fontoura e Mafalda Afonso«Essencial Filosofia 10º ano», página 92, Santilhana Constância; o destaque a negrito é de minha autoria).


Ora, o determinismo biofísico não nega veementemente a liberdade do homem: a extensão do determinismo ao foro psico-espiritual humano das deliberações e decisões é que nega a liberdade humana. Certamente, determinismo e livre-arbítrio são contrários, mas compatíveis no ser humano e na relação entre este e a natureza biofísica circundante.

 

 O determinismo biofísico limita a liberdade humana - exemplo : «Não posso saltar em queda livre do terraço deste edifício de nove andares porque morreria segundo o determinismo da lei da gravidade e da fragilidade do corpo humano, sou obrigado a descer pelas escadas» - mas ao mesmo tempo favorece-a - exemplo: «Conheço a lei biológica, o determinismo que distingue os cogumelos venenosos  dos cogumelos comestíveis e selecciono estes últimos para confecionar o meu almoço».

Este manual, de modo similar a outros, não dá a única definição coerente e clara de determinismo: princípio segundo o qual nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos.

 

CONFUSÕES SOBRE FACTOS E VALORES

 

«Os valores são uma realidade diferente dos factos, acontecimentos objectivos que ocorrem diante de nós. Os factos incluem três categorias: a dos objectos, a dos acontecimentos e a dos seres. Um facto é tudo aquilo que é objectivo, quantificável e verificável. .Por exemplo: o telemóvel é um facto (objecto); o concerto de uma banda é um facto (acontecimento) e o Mosteiro da Batalha é um facto (ser). » (Amândio Foutoura e Mafalda Afonso, ibid, pág. 113) 

 

Perguntemo-nos, antes de mais, por que razão o telemóvel é designado por" objecto" e o mosteiro da Batalha por "ser". Acaso, o objecto não é um "ser"? Acaso o telemóvel não é um "ser" (melhor: um ente)? Acaso o mosteiro da Batalha não é um objecto de pedra esculpida? Há uma certa nebulosidade nesta distinção  conceptual.

 

UMA DISCUTÍVEL CLASSIFICAÇÃO DOS VALORES

 

Na página em que se refere à hierarquia de valores estabelecida por Max Scheler, afirmam os autores do manual:

 

«Podemos dizer que existem os seguintes valores:

 

infra-humanos -os valores da sensibilidade, como o agradável e o prazer, e os valores biológicos, como a saúde.

 

humanos - os valores eudemónicos, como a felicidade, e os valores económicos, como a prosperidade

 

espirituais - os valores noéticos, como a verdade, os valores estéticos, como a beleza, ou os valores sociais, como a coesão.» (Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, ibid, pag. 116)

 

Há nesta hierarquia, uma grande confusão. Por que razão a saúde é um valor infra-humano e a riqueza económica um valor humano? Não deveriam trocar de posição, ficando a saúde acima do poderio económico? É óbvio que deviam. A saúde é um valor humano e, na hierarquia de valores de Scheler, figura no segundo nível, a modalidade ou esfera dos valores vitais. O termo «valores eudemónicos» não parece adequado ao segundo nível que Amândio Fontoura e Mafalda Afonso nos propõem, nível que designam por "valores humanos", porque a eudaimonia é, no sentido aristotélico, a felicidade atingida pelo filósofo e por todo o homem que vive em paz psicológica, devendo, por isso, ser considerada um valor espiritual, superior.

 

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Quarta-feira, 24 de Abril de 2013
Equívocos no manual «Lições de Filosofia, 10º Ano» da Didáctica Editora ( Crítica de Manuais Escolares - XLIX)

 

O manual «Lições de Filosofia 10º ano» de Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, da Didáctica Editora,  incorre nos habituais erros da filosofia analítica sobre as correntes da acção humana no plano do livre-arbítrio, determinismo e indeterminismo. .

 

CONFUSÕES SOBRE LIBERTISMO E SEU SUPOSTO INCOMPATIBILISMO


 

Escrevem Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho:

 

«A teoria libertista combina duas teses: primeiro, que o determinismo é incompatível com o livre-arbítrio; segundo, que temos livre-arbítrio. Estas teses estão relacionadas: segundo o libertista, nem tudo está determinado precisamente porque temos livre-arbítrio» (Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 38, Didáctica Editora; o destaque a negrito é posto por mim).

 

 

Esta definição é uma incoerência, no seu conjunto: se nem tudo está determinado - ou seja, por exemplo, o movimento da água evaporando-se da superfície terrestre, condensando-se em nuvens e precipitando-se sobre a Terra é determinismo, o envelhecimento dos organismos vivos obedece a determinismos, etc - é porque temos livre-arbítrio, ou seja, há compatibilidade entre determinismo e livre-arbítrio. Se ambos existem, são compatíveis no quadro global da realidade. A compatibilidade é uma coexistência, não é necessariamente uma fusão ou interpenetração. Logo, é um erro dizer que o libertismo é um incompatibilismo - é um chavão, uma frase feita, sobre a qual não se opera reflexão.

 

E a definição de libertismo dada neste manual é, substancialmente, a mesma do compatibilismo ou determinismo moderado porque ambas admitem um livre-arbítrio e determinismo, e em ambas o livre-arbítrio pode agir contra o determinismo. Duplicação sob nomes diferentes, erro de raciocínio. É como dizer sobre uma dada estrada inclinada: «esta estrada que sobe não é a mesma estrada que desce».

 

Heráclito, do fundo dos séculos, ensina estes confusos «pensadores» analíticos: «o caminho que sobe e o caminho que desce são um e o mesmo». O caminho que sobe poderia ser o «libertismo» e o caminho que desce o «determinismo moderado». São, segundo estas definições, a mesma coisa, ora enfatizando verbalmente a liberdade, ora enfatizando o determinismo.

 

SOMOS SEMPRE CONSTRANGIDOS POR SITUAÇÕES ANTERIORES?

 

Lê-se neste manual:

«Comparemos as duas situações seguintes:

 

Situação 1. O João escolhe ficar em casa a estudar em vez de ir ao cinema.

Situação 2. O João é obrigado pelos seus pais a ficar em casa a estudar.

 

O determinista moderado defende que na situação 1 a acção do João é livre porque nada o obrigou a escolher uma coisa em vez de outra. Mas defende que na situação 2 a escolha de João não foi livre, porque foi obrigado pelos pais a ficar em casa. Contudo, a única diferença entre 1 e 2 é o tipo de constrangimento em causa. Na situação 2, o João é constrangido pelos pais. Na situação 1, é constrangido pelos acontecimentos anteriores.» (Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 42, Didáctica Editora).

 

Como se pode demonstrar que na situação 1 é constrangido pelos acontecimentos anteriores? Não pode. Sucede que, naquele momento, João acha que se vai aborrecer com o filme e por isso escolhe ficar em casa. É isto ser constrangido por acontecimentos anteriores?

 

É possível ainda argumentar contra a tese deste manual que «na situação 2 a escolha de João não foi livre, porque foi obrigado pelos pais a ficar em casa» com o pensamento de Sartre de que «nunca fomos tão livres como debaixo da ocupação alemã»  em 1940-1944 porque aí podíamos escolher sem meias tintas: resistir ao nazismo ou colaborar com ele. De facto, se João ficou em casa «obrigado» pelos pais foi porque não quis assumir a sua liberdade de rebeldia. Logo, a sua aceitação foi de livre vontade, derivou do exercício do livre-arbítrio porque, a menos que estivesse trancado no quarto e a chave da porta da parte de fora, preferiu a submissão do «animal doméstico». Podia ter saído de casa, desafiando a vontade dos pais. A sua decisão foi livre, apesar da condicionante. O mar da liberdade move-se sempre entre as rochas de condicionantes, mas a água flui, vai e vem, mesmo contornando as rochas ou submergindo-as.

 

ERROS NAS DEFINIÇÕES DE RELATIVISMO E OBJECTIVISMO

 

A definição de relativismo enferma do habitual erro da filosofia analítica:

 

«A tese central da teoria relativista é que os juízos de valor são relativos às sociedades. Quando uma sociedade condena ou aceita um determinado juízo de valor não pode estar enganada. Isto contrasta com os juízos de facto.» (Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 54, Didáctica Editora; o destaque a negrito é da minha autoria).

 

Esta definição é falsa e incoerente. A sociedade francesa, até há um mês atrás condenava, maioritariamente, e rejeitava, juridicamente, a legalização dos casamentos gays e lésbicos e a adopção de crianças por casais homossexuais. Era, portanto, «relativista» segundo, o raciocínio dos autores deste manual e «não podia estar enganada». .. Há dias, em 23 de Abril de 2013, por votação na Assembleia Nacional francesa, com 331 votos a favor (socialistas, comunistas e outra esquerda) e 225 votos contra (direitas), foi aprovada a lei autorizando o casamento de gays e lésbicas e a adopção por estes de crianças. Isto, sim, é relativismo, variação de posição/ verdade teórica, axiológica, jurídica. E nega a definição de relativismo dada acima segundo a qual «quando uma sociedade condena ou aceita um determinado juízo de valor não pode estar enganada.» Esta definição do manual  é absolutismo e não relativismo.

 

Por outro lado, Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho persistem em ignorar, por limitação de inteligências ou subserviência  face às cúpulas universitárias ou ambas as coisas, que relativismo é o mosaico de opiniões e ideias no seio de uma mesma sociedade. É relativismo haver ecologistas, comunistas, conservadores, sociais-democratas, católicos, ateus, agnósticos, benfiquistas, sportinguistas, portistas, etc, cada um com a sua ideologia e valores.

 

Sobre objectivismo escreve o manual:

 

«A tese central da teoria objectivista é que alguns juízos de valor são objectivos; o objectivismo não defende que todos os juízos de valor são objectivos. Isto significa que quando uma pessoa ou uma sociedade condena ou aceita um dado juízo de valor, pode estar enganada, tal como acontece com os juízos de facto.»

(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 57, Didáctica Editora; o destaque a negrito é da minha autoria).

 

Esta definição peca por vagueza. É tautológica: objectivismo é... juízos de valor objectivos. Não se diz com clareza o que é objectividade, que esta se divide em duas modalidades: extra anima e intra anima. Coitados, não sabem, não têm precisão no pensamento... A dialética é, para eles, uma estranheza.

 

Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho continuam petrificados nas suas erróneas definições, atrelados ao frágil pensamento de Thomas Nagel, John Searle, Peter Singer e outros, apesar de lerem este blog há anos e terem obrigação de rectificar os seus gritantes equívocos em filosofia. Nada a fazer.. O poder corrompe. Os mestres e doutorados nas universidades estabelecem, em regra, entre si um pacto de silêncio e aceitação dos erros uns dos outros.

 

Antes de tudo, «há que preservar a autoridade sobre os alunos, não pôr em dúvida as cátedras, e estar nas boas graças da opinião pública (im)pensante», dos editores e jornalistas, da classe dominante.  Assim pensam os antifilósofos, dominados por um pragmatismo estreito de ganhar dinheiro com manuais das grandes editoras e popularizar a superficial filosofia analítica que os faz "ser alguém" no mundo burguês dos títulos universitários e das certificações.

 

 

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Equívocos no manual do 10º ano de filosofia «Clube das ideias» da Areal Editores (Crítica de Manuais Escolares- XLVIII)

 

O manual «Clube das Ideias, Filosofia 10º ano» de Carlos Amorim e Catarina Pires, com revisão científica de Fernanda Henriques, da Areal Editores, mergulha nas confusões teóricas comuns a todos os manuais escolares inspirados na filosofia analítica . Uma delas é não perceber a distinção entre fatalismo e determinismo. Outra é não compreender o que é o determinismo moderado, baptizado de compatibilismo.

 

CONFUSÕES SOBRE O DETERMINISMO E O COMPATIBILISMO

 

 

Escrevem Carlos Amorim e Catarina Pires:

 

«Ao admitirem que o determinismo é verdadeiro, os compatibilistas aceitam a tese segundo a qual todas as nossas acções são consequências das leis da natureza e de acontecimentos precedentes remotos que não controlamos. Tudo o que acontece é efectivamente determinado por certos tipos de causas psicológicas internas

 

(Carlos Amorim e Catarina Pires, «Clube das Ideias, Filosofia 10º ano» , pag. 65, Areal Editores; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Não é verdade que os deterministas moderados «aceitam a tese segundo a qual  todas as nossas acções são consequências das leis da natureza e de acontecimentos precedentes remotos que não controlamos» . Os deterministas moderados - prefiro chamá-los defensores do determinismo biofísico associado a livre-arbítrio- são dualistas: o determinismo, isto é, a lei infalível segundo a qual as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos, abrange a natureza biofísica - o nosso estômago, as nossas veias e artérias, o céu e a terra, a agricultura, etc - mas não abrange a razão humana onde vive o livre-arbítrio.

 

Há, portanto, decisões e acções que escapam ao determinismo. Quando os autores escrevem que «tudo o que acontece é efectivamente determinado por certos tipos de causas psicológicas internas» entram em contradição com a primeira frase (.«..todas as nossas acções são consequências das leis da natureza ..») e não se dão conta, sequer, de que o livre-arbítrio é uma causa psicológica e racional interna. A definição de compatibilismo é, pois, uma névoa de confusão, neste manual.

 

DETERMINISMO NÃO É COACÇÃO?

 

 

Lê-se ainda no manual uma artificial distinção entre determinismo e coacção:

 

«A liberdade não supõe um acto sem causa, mas apenas que tenho controlo sobre alguns dos meus comportamentos. Um compatibilista defende que o contrário de livre não é causado(determinado) mas coagido(forçado).»

 

(Carlos Amorim e Catarina Pires, «Clube das Ideias, Filosofia 10º ano» , pag. 62, Areal Editores)

 

Há equívoco nesta formulação. O contrário de livre é determinado. E é também coagido. O determinismo é, sob certo aspecto, a coacção da natureza sobre o eu humano. Se estou quarenta e oito horas sem comer e sinto fraqueza ou fome, sou biologicamente coagido por um estado de desnutrição temporária. A coacção é um género que inclui o determinismo e uma parte do indeterminismo.

 

Note-se que o manual não dá qualquer destaque ao conceito de fatalismo porque o amalgama no conceito de determinismo radical. Isto é um erro, até porque há fatalismo que nem sequer assenta em leis deterministas.

.

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Sábado, 20 de Abril de 2013
Equívocos no manual do 10º ano «Razões de ser» da Porto Editora (Crítica de Manuais Escolares - XLVI)

 

O manual «Razões de Ser, Filosofia 10º ano» de António Correia Lopes, Pedro Galvão, e Paula Mateus, da Porto Editora apresenta diversas incorrecções teóricas. É inferior, em qualidade teórica, ao manual «Novos Contextos» de José Ferreira Borges, Marta Paiva e Orlando Tavares, da mesma editora, ainda que ambos estejam bem concebidos no plano gráfico.

 

A INCAPACIDADE DE DEFINIR CLARAMENTE DETERMINISMO E DE CRITICAR, NO ESSENCIAL, O «DILEMA DO DETERMINISMO»

 

Escrevem António Correia Lopes, Pedro Galvão, e Paula Mateus:

 

«Hoje, como o determinismo se revelou duvidoso, poucos filósofos se descreveriam como deterministas radicais. Ainda assim, muitos negam o livre-arbítrio porque pensam que a verdade do determinismo é irrelevante para a questão: quer o mundo seja determinista quer seja indeterminista, não somos agentes livres. O seu argumento, conhecido por dilema do determinismo, é o seguinte:

 

(1) - Ou o mundo é determinista ou é indeterminista.

(2) - Se o mundo é determinista, não temos livre-arbítrio.

(3) - Mas se o mundo é indeterminista, também não temos livre-arbítrio.

(4)- Logo, não temos livre-arbítrio.

 

É na premissa (3) que temos de nos concentrar. Por que razão havemos de crer que o indeterminismo, como nos diz esta premissa, é incompatível com a liberdade humana?

Vimos já como se pode argumentar que o determinismo exclui o livre-arbítrio. Se o determinismo é verdadeiro, as nossas acções não são livres porque resultam de factores que estão fora do nosso controlo: as leis da natureza e as circunstâncias anteriores à nossa existência.»

 (António Correia Lopes, Pedro Galvão, e Paula Mateus,  «Razões de Ser, Filosofia 10º ano» página 62, Porto Editora).

 

Os autores passam por cima da premissa (2) sem detectar que ela se baseia na falsa dicotomia «ou há determinismo ou há livre-arbítrio». O que é o determinismo? Não definem com clareza. Aceitam acriticamente o «argumento da consequência» de Peter van Ingwagen, que reproduzem na página 59 do manual:

 

«Se o determinismo é verdadeiro, então os nossos actos são consequência das leis da natureza e de acontecimentos situados no passado remoto. Mas o que aconteceu antes de termos nascido não depende de nós; tão-pouco as leis da natureza dependem de nós. Logo as consequências destas coisas (incluindo as nossas ações) também não dependem de nós.» ( Um ensaio sobre o livre-arbítrio, pag 16).

 

O erro de Peter van Inwagen, filósofo norte-americano, - e de António Correia Lopes, Pedro Galvão, e Paula Mateus, que o seguem, de forma acrítica - é considerar livre-arbítrio e determinismo como contrários excludentes (princípio do terceiro excluído) quando, de facto, são contrários coexistentes num termo intermédio: o determinismo limita-se ao mundo biofísico mas não penetra na esfera humana psíquica onde reina o livre-arbítrio, a razão que faz frente aos impulsos da natureza e delibera. Ambos,  o determinismo e o livre-arbítrio, coexistem no tecido do ser, o ser cósmico e o ser humano. Portanto, a premissa (2) do dilema do determinismo é uma falácia. Isto é ignorado pelos autores do manual. A filosofia analítica não conceptualiza a diferença entre contrários excludentes, incompatíveis, e contrários coexistentes, compatíveis.

 

O FALACIOSO SILOGISMO «MODUS PONENS» DO LIBERTISTA

Prossegue o manual:

 

«Vamos examinar agora as perspectivas que nos dizem que os agentes humanos têm uma vontade livre. Uma delas é o libertismo, que é também uma forma de incompatibilismo. Porém, em vez de afirmar o determinismo para negar o livre-arbítrio, que é a via escolhida pelo determinista radical, o libertista afirma o livre-arbítrio e nega o determinismo. Partindo do argumento da consequência, ele raciocina desta forma:

 

(1) Se o determinismo é verdadeiro, então não temos livre-arbítrio. 

(2) Temos livre-arbítrio.

(3) Logo, o determinismo não é verdadeiro.»

 

«O grande desafio que se coloca ao libertista é defender a premissa (2), o que implica descobrir uma forma de escapar ao dilema do determinismo.»

(António Correia Lopes, Pedro Galvão, e Paula Mateus,  «Razões de Ser, Filosofia 10º ano» páginas 62-63, Porto Editora)

 

 

A grande crítica que cabe fazer é à premissa (1). O erro deste silogismo condicional modus ponens está aí. O determinismo é verdadeiro em que região do ser? Na natureza biofísica. E o livre-arbítrio, onde vigora? No mundo psíquico e racional humano. Portanto, não podem excluir-se mutuamente, no quadro global. Há lugar para ambos. Os autores do manual não colocam assim a questão com esta clareza e arrastam uma nuvem de confusão raciocinante. Escapar ao dilema do determinismo? Mas é um falso dilema. É esta a mediocridade da filosofia analítica: pseudo dilemas, isto é, falácias de dicotomia, pseudo paradoxos como o de Russel, etc.

 

 

 

O ACASO NÃO CONTRIBUI PARA TORNAR AS ACÇÕES LIVRES?

 

Escrevem ainda os autores, a propósito de acções livres:

 

«Como devemos, então, conceber as acções livres? Estas têm de ser acontecimentos indeterminados, segundo o libertista. Mas os acontecimentos indeterminados parecem ser apenas aqueles que ocorrem em parte por acaso. E o acaso, como vimos, nada contribui para tornar uma acção realmente livre

(António Correia Lopes, Pedro Galvão, e Paula Mateus,  «Razões de Ser, Filosofia 10º ano» página 63, Porto Editora; o destaque a negrito é posto por mim).

 

 

É uma visão errónea: a acção livre comporta sempre uma certa dose de acaso psicológico, espiritual, interno ao agente. De facto, na essência da liberdade está o acaso, o não predestinado, o não determinado por um encadeamento rígido de causas e efeitos. O livre-arbítrio é uma estrutura psíquica mista de acaso e necessidade. Se não houvesse acaso nas escolhas racionais, não haveria livre-arbítrio.

 

  

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