Quarta-feira, 19 de Abril de 2017
O existencialismo hedonista de Osho

Eis algumas das teses fundamentais do filósofo Osho (11 de Dezembro de 1931/ 19 de Janeiro de 1990), um místico libertário que une a mística com uma aguda racionalidade prática, coincidente em larga medida com as visões de Nietzshe e Freud sobre o ser humano. O seu existencialismo é hedonista porque visa desfrutar o prazer da vida aqui  e agora, nomeadamente o prazer da sexualidade livre, rejeitando as religiões em geral, o clero e o seu conteúdo anti sexual e punitivo da humanidade.

 

É IMPOSSÍVEL APERFEIÇOARMO-NOS, ACEITEMO-NOS COMO SOMOS

Osho sustenta ser impossível modificar a nossa essência original. A educação e a censura social que recebemos apenas recalca pulsões primordiais em nós.

 

«Uma das verdades mais duras de reconhecer é que continuamos a ser os mesmos - seja o que for que façamos, continuamos a ser os mesmos. O "aperfeiçoamento" não existe. O ego fica todo desfeito porque vive através do aperfeiçoamento, da ideia do aperfeiçoamento, da ideia de chegar um dia a algum lado.(...)»

«No momento em que se aceita a si próprio, fica aberto, fica vulnerável, fica receptivo. No momento em que se aceita a si próprio, deixa de haver necessidade de qualquer futuro, porque deixa de haver necessidade de aperfeiçoar seja o que for. E então tudo é bom tal como é.»

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pag 105 ).

 

O AMOR É LIVRE, TRAZ A LIBERDADE, NÃO DEVE EXIGIR FIDELIDADE (LEALDADE) NEM CASAMENTO

 

Sendo o amor um sentimento irracional, total, que vem e desaparece sem que se conheçam as leis temporais que o regem, não pode ser cristalizado, aprisionado no casamento. Se o for, morre. O casamento na medida em que é uma argola, um instrumento de posse de outra pessoa rouba a liberdade e ser pessoa é ser livre.

 

«O amor é uma experiência perigosa, porque se é possuído por algo que é maior que você. E que é incontrolável, não o pode produzir por encomenda. Uma vez terminado, não há maneira de o trazer de volta, tudo o que pode fazer é fingir, é ser hipócrita. (...)

«O amor traz a liberdade. A lealdade traz a escravidão. Na aparência, são iguais; no seu âmago, são exactamente o oposto. A lealdade é representar: você foi educado para isso. O amor é rebelde: toda a sua beleza reside na sua rebeldia. Vem como uma brisa cheia de fragâncias, enche-lhe o coração e, de repente, onde havia um deserto, há agora um jardim cheio de flores. E você não sabe de onde vem e não sabe que não existe maneira de o fazer vir; vem sozinho e fica enquanto a existência o quiser.(...)

«O casamento conhece a lealdade, lealdade ao marido e, porque é formal, está nas suas mãos...mas não é nada comparável ao amor, nem sequer é uma gota de orvalho no mar que é o amor»

«Contudo, a sociedade sente-se muito contente com a lealdade porque pode confiar nela. O marido sabe que pode confiar em si, confiar que amanhã lhe será tão leal como hoje. O amor não é de fiar. E o fenómeno mais estranho é que o amor pressupõe confiança, mas não é de fiar. Naquele momento é total, mas o momento seguinte fica em aberto. Poderá crescer dentro de si, mas poderá igualmente evaporar-se de si. O marido quer uma mulher que seja sua escrava para toda a vida. Ele não pode ficar dependente do amor, tem de criar alguma coisa que se pareça com amor, mas fabricado pela mente do homem.» 

 (Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pp 100-101; o destaque a negrito é posto por nós).

 

«As pessoas não podem ser possuídas. Se tentar possuí-las, matá-las-á, elas tornar-se-ão coisas. Uma pessoa significa liberdade. O nosso relacionamento com os outros não é realmente um relacionamento "eu-tu", bem no fundo não passa de um relacionamento "eu-isso". O outro é apenas uma coisa a ser manipulada, a ser usada, a ser explorada. É por isso que o amor se torna cada vez mais impossível, porque o amor significa considerar o outro como uma pessoa, como um ser consciente, como uma forma de liberdade, como uma coisa tão valiosa como nós». (...)

«O marido existe para si próprio, a esposa existe para si própria. Uma pessoa existe para si própria: é isso que significa ser uma pessoa.» 

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pp 136-137; o destaque a negrito é posto por nós).

 

SER VERDADEIRO, AO MENOS COM O SER AMADO, COM A FAMÍLIA E AMIGOS

 

A mentira não compensa, distorce o ser de cada um - salvo raras excepções. claro. Osho disse:

 

«O amor é participação, por isso, pelo menos com os seres amados, não seja falso. Não estou a dizer para ser verdadeiro na praça pública, porque isso criaria problemas desnecessários neste preciso momento. Mas comece com o amante, depois com a família , depois com as pessoas que estão mais afastadas de si. A pouco e pouco aprenderá que ser verdadeiro é tão belo que estará disposto a perder tudo por causa disso.»

 

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pag 66; o destaque a negrito é posto por nós).

 

 

DEUS É O MAIS FRÁGIL E INSTANTÂNEO DE TODOS OS ENTES

Osho fala de Deus um pouco à maneira da gnose cátara em que o Deus da Luz, criador das almas, é impotente para agir sobre a matéria, sobre o mundo de matéria criado por Satã :

 

«Só uma mente poética pode compreender a possibilidade de Deus, porque Deus é o mais fraco e mais sensível dos seres. É por isso que é o altíssimo; é a flor suprema. Floresce, mas floresce apenas numa fração de segundo. Essa fração de segundo é conhecida como "o presente". Se deixa passar esse momento - e esse momento é tão pequeno que tem de estar muito intensamente atento - só então será capaz de o ver, de outro modo passar-lhe-á ao lado.  Está sempre em flor - floresce em cada momento; mas não o pode ver, a sua mente está atravancada com o passado e o futuro»

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pp 121-122; o destaque a negrito é posto por nós).

 

É fácil perceber que Deus, segundo Osho, não é o ente dos castigos e dos mandamentos do Velho e Novo Testamento, do Alcorão, do Bhagavad-Gita, etc. Nem expulsou Adão e Eva do Paraíso nem criou o Inferno porque senão seria maldoso. É o oposto do Deus de Kierkegaard que não se identifica com o estádio estético, com o viver o momento como um Don Juan conquistador de mulheres. O deus de Osho é Deus alegria, que desfaz os casamentos, as relações aborrecidas e põe a liberdade acima do amor.

 

DEIXEMO-NOS SER VULNERÁVEIS, A VIDA É UM FLUIR, NÃO HÁ NADA A ALCANÇAR, A VIDA É DEUS

 

Osho defende que se devem abandonar posturas rígidas que anunciam violência e sobranceria e ser vulneráveis. E viver a vida plenamente, na base da não violência, porque não há nenhum Deus além da natureza viva e da sua beleza (panteísmo).

«Lao Tse diz:

«Quando um homem nasce, é frágil e sensível; quando morre, fica insensível e rígido. Quando as coisas e as plantas estão vivas, são macias e maleáveis; quando estão mortas, são quebradiças e secas. Por conseguinte, a insensibilidade e a rigidez são as companheiras da morte; e a suavidade e a sensibilidade são as companheiras da vida

«Portanto, quando um exército é obstinado, perderá em batalha. Quando uma árvore é dura, será cortada. O grande e o forte pertencem à parte de baixo. O suave e o fraco pertencem à parte de cima.» 

«A vida é um rio, um fluir, uma continuidade sem princípio nem fim. Não vai a lado nenhum, está sempre aqui. Não vai de um lado qualquer a outro lado qualquer, vem sempre daqui para aqui. Para a vida, o único tempo é agora e o único lugar é aqui. Não há uma luta para alcançar, não há nada para alcançar.» (...)

«Pode viver a vida de duas maneiras: pode fluir com ela - e então também você será majestoso, terá uma graça, a graça da não-violência, sem conflito e sem luta. Então terá uma beleza infantil, semelhante à da flor, macia, delicada, incorrupta. Se flui com a vida, você é religioso. É isso que a religião significa para Lao Tsé e para mim».

«Habitualmente, religião significa uma luta com a vida, por Deus. Habitualmente, significa que Deus é a meta e a vida tem de ser negada e combatida. A vida tem de ser sacrificada e Deus tem de ser alcançado. Essa religião habitual não é nenhuma religião. Essa religião habitual é apenas parte da mente inferior, violenta e agressiva

«Não existe Deus para além da vida; a vida é Deus. Se nega a vida, nega Deus, se sacrifica a vida, sacrifica Deus. Em todos os sacrifícios, só Deus é sacrificado. George Gurdjieff costumava dizer - parece um paradoxo, mas é verdade - que todas as religiões são contra Deus. Se a vida é Deus, então negar, renunciar, sacrificar é ir contra Deus.»

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pp 111-112; o destaque a negrito é posto por nós).

 

PARA A EXISTÊNCIA, TUDO É IGUAL, NÃO HÁ SUPERIOR NEM INFERIOR, A VAIDADE É INÚTIL

 

A moral de Osho é naturalista e a sua filosofia, à semelhança do estoicismo de Marco Aurélio, destaca o carácter efémero e rápido da existência: podemos morrer a qualquer instante, a nossa importância familiar, social ou profissional desaparece de um momento para o outro.

 

«A palavra animal não é, em si mesma, má. Significa simplesmente estar vivo; deriva de anima. Qualquer um que esteja vivo é um animal. Mas ensinou-se ao homem: "Não sois animais; os animais estão muito abaixo de vós. Vós sois seres humanos". Deram-lhe uma falsa superioridade. A verdade é que a existência não acredita nem no superior mem no inferior. Para a existência, tudo é igual - as árvores, as aves, os animais, os seres humanos. Na existência, tudo se aceita absolutamente como é, não há condenação.»  

«Se aceitar a sua sexualidade sem quaisquer condições, se aceitar que o homem  e todos os seres que há no mundo são frágeis, porque a vida é um fio muito fino que se pode  quebrar a qualquer instante...Uma vez aceite isto, deixará cair imediatamente todo o falso ego - de ser Alexandre, o Grande, ou Mohamede Ali, o três vezes grande - basta compreender que todas as pessoas são belas na sua banalidade e que todas  as pessoas têm as suas fraquezas, que fazem parte da natureza humana, porque não somos feitos de aço...»                                                                                                         

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pag. 9; o destaque a negrito é posto por nós).

 

 

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Quarta-feira, 5 de Março de 2014
Equívocos em «O essencial em actividades» de Ser no Mundo 10º ano de Filosofia (Crítica de Manuais Escolares- LIV)

 

O livro  de exercícios "O essencial em actividades"  anexo ao manual de filosofia 10º ano "Ser no mundo"  de André Leonor e Filipe Ribeiro, da Areal Editores, é um espelho da confusão instalada pela filosofia analítica anglo-norte-americana entre as universidades e os professores de filosofia do ensino secundário. As famosas perguntas de escolha múltipla possuem, frequentemente, duas ou três respostas certas mas os autores deste manual acham que só há uma resposta certa para cada grupo das quatro respostas possíveis que elaboram...

 

O DETERMINISMO DIZ QUE O LIVRE-ARBÍTRIO É ILUSÃO?  QUE CONFUSÃO...

 

Vejamos a primeira questão do grupo I da ficha 02 deste manual de exercícios "Ser no mundo, 10º ano", centrada num texto de Durkheim:

 

 

"Quando desempenho a minha tarefa de irmão, de esposo ou de cidadão, quando executo os compromissos que tomei, cumpro deveres que estão definidos, para além de mim e dos meus actos, no direito e nos costumes. Mesmo quando eles estão de acordo com os meus sentimentos próprios e lhes sinto interiormente a realidade, esta não deixa de ser objectiva, pois não fui eu que os estabeleci, antes os recebi pela educação. (...)

«Estes tipos de conhecimento ou de pensamento não são só exteriores ao indivíduo, como dotados dum poder imperativo e coercivo en virtude do que lhe impõem, quer queira, quer não. Sem dúvida, quando a ela me conformo de boa vontade, esta coerção não se faz, ou faz-se pouco, sentir, por inútil.»

(..................................................................................................................................................)

(E.Durkheim, As regras do método sociológico, Presença , pp 29-31)

 

 

 

Grupo I

 

Relacione a frase destacada no texto com o argumento determinista de acordo com o qual o livre-arbítrio é ilusão.»

 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, O essencial em actividades, Filosofia 10º ano, Ser no Mundo, página 15)

 

Resposta dos autores: Segundo os defensores do determinismo, a liberdade do ser humano não passa de uma ilusão. Nos casos em que julgamos agir por vontade própria, esta liberdade apenas resulta de causas objectivas que desconhecemos.

Da mesma forma, na frase destacada no texto, mesmo quando julgamos agir de acordo com a nossa vontade, o móbil da acção não está no sujeito. (in "O essencial em actividades", pág. 60).

 

Crítica minha: É um erro dizer que, «segundo os defensores do determinismo, a liberdade do ser humano não passa de uma ilusão». Há defensores do determinismo, designados radicais, que sustentam que não há espaço para existir livre-arbítrio e há defensores do determinismo, baptizados de moderados ou compatibilistas - na equívoca classificação dos "analíticos" - que sustentam que há livre-arbítrio mais além da vasta rede do determinismo. O que André Leonor e Filipe Ribeiro deveriam dizer é: «segundo os defensores do fatalismo, e segundo os defensores  do "determinismo radical" a liberdade do ser humano não passa de uma ilusão», mas confundem determinismo, doutrina segundo a qual, nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos, com fatalismo, doutrina segundo a qual tudo está predestinado e não existe livre-arbítrio.

 

SÓ HÁ ACÇÃO HUMANA QUANDO HÁ VONTADE CONSCIENTE E DELIBERAÇÃO? SE ASSIM FOSSE OS HOMENS SERIAM ANJOS...

 

Prossigamos a análise do livro de exercícios da Areal Editores 10º ano de filosofia, na ficha 2:

 

 

Grupo II

 

«Na resposta a cada um dos itens de 1.1 a 1.4. , selecione a única opção correcta.

 

1.1. Consideramos que se trata de acção humana quando:

 

(A) O sujeito tem papel passivo naquilo que acontece.

(B)  Aquilo que sucede implica um movimento realizado por um ser humano, ainda que involuntariamente.

(C)  O que sucede resulta da decisão consciente, voluntária de um agente.

(D)  Algo é realizado por um ser humano.»

 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, O essencial em actividades, Filosofia 10º ano, Ser no Mundo, Areal Editores, página 16)

 

Resposta dos autores: Só a hipótese "C" está certa.

 

Crítica minha: As hipóteses B, C e D estão correctas. Existe acção humana voluntária e acção humana involuntária. Que é o homicídio involuntário senão uma acção humana? Se um condutor de um autocarro adormece ao volante e o autocarro se precipita por uma ravina, morrendo dezenas de passageiros, podemos dizer que não houve acção humana, nesse acontecimento, como sustentam Leonor e Ribeiro? É óbvio que houve. O motorista foi o agente dessa tragédia. Se não se tratasse de uma acção humana, os juízes não poderiam julgar o motorista. Restringir a acção humana aos actos que brotam de uma deliberação racional (livre-arbítrio) é considerar que o homem não pertence à animalidade - e isto está em paralelo com a estúpida noção de libertismo segundo a qual o homem decidiria como um anjo no céu, sem sofrer pressão alguma das suas células, do nível de açúcar no sangue, da pressão exterior económica, política, etc, da sociedade. Com que legitimidade vêm Leonor e Ribeiro impor, taxonomicamente, que uma explosão de fúria e violência de um homem num bar, após ser empurrado, não é uma acção humana só porque não foi deliberada, pensada, sujeita a livre-arbítrio?

 

CONDICIONANTES BIOLÓGICAS É CLARAMENTE DISTINTO DE CONDICIONANTES FÍSICAS?

 

 E prossegue a ficha 2 do livro de exercícios de André Leonor e Filipe Ribeiro:

 

«1.3  Analise as afirmações que se seguem sobre as condicionantes da acção humana. Selecione, em seguida a opção correcta:

 

A) As condicionantes biológicas estão associadas aos limites físicos de cada indivíduo, enquanto as psicológicas se referem a traços de personalidade.

 

B) As condicionantes físicas estão associadas aos limites físicos de cada indivíduo, enquanto as psicológicas se referem a traços de personalidade.

 

C) As condicionantes biológicas  estão associadas aos limites característicos da espécie humana, enquanto as psicológicas se referem às limitações do organismo humano.

 

D) As condicionantes físicas  estão associadas aos limites característicos da espécie humana, enquanto as psicológicas se referem às limitações do organismo humano.» 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, O essencial em actividades, Filosofia 10º ano, Ser no Mundo, página 17)

 

Resposta dos autores: A única resposta certa é a "B".

 

Crítica minha: Esta questão exprime uma grande miopia de raciocínio. É um exemplo de como não se devem fazer perguntas de escolha múltipla de respostas que quase nada diferem ou nada diferem entre si. Todas as respostas estão certas. A resposta "A" está certa: as condicionantes biológicas de um indivíduo - por exemplo, a capacidade respiratória reduzida de uma pessoa operada a um pulmão - ligam-se aos seus limites físicos -no exemplo: a pessoa dispor apenas de um pulmão, tendo-lhe sido amputado o outro. A resposta "B" também está certa: o físico identifica-se com o biológico, basicamente.

 

A resposta "C" também está certa, por muita surpresa que isso cause: é óbvio que as condicionantes biológicas  estão associadas aos limites característicos da espécie humana, -  a espécie humana não tem guelras , por isso cada homem não pode ter vida subaquática permanente - e, adoptando o ponto de vista behaviorista, que nega a subsistência de uma psique congénita em cada pessoa, é verdade que as condicionantes psicológicas se referem às limitações do organismo humano - por exemplo: a tristeza, a depressão estão ligadas, ao menos nos idosos, à falta de vitamina "D".

 

A resposta "D" está igualmente certa, pois é praticamente igual à "C".

 

O FAZER NÃO IMPLICA OBJECTIVOS DEFINIDOS E CONSCIENTES?

 

E eis outra deformada questão da ficha 2, Grupo 2, do manual que estamos a analisar:

 

«1.4 Analise as afirmações que se seguem acerca da distinção entre agir e fazer. Selecione, em seguida, a opção correcta.

 

A) O agir tem em vista um objectivo enquanto o fazer é voluntário.

 

B)  O agir não implica qualquer decisão, enquanto o fazer implica uma decisão consciente.

 

C) O fazer é exclusivo dos animais e o agir é exclusivo do ser humano.

 

D) O agir é voluntário, ao passo que o fazer não implica objectivos definidos e conscientes.»

 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, O essencial em actividades, Filosofia 10º ano, Ser no Mundo, Areal Editores, página 17).

 

Resposta dos autores: A única resposta correcta é a "D".

 

Crítica minha: Seria preciso definir cientificamente o que é fazer e o que é agir. É o fazer uma modalidade (espécie) do agir (género)? É o agir uma modalidade do fazer? São dois géneros mutuamente independentes?. Não há unanimidade sobre isto. Logo é arbitrário construir e avaliar perguntas com esta terminologia. A maioria dos autores de manuais dá como exemplos do  "agir"  actos como conversar (mas conversar não é fazer diálogo?), filosofar, viajar, escrever (mas escrever não é fazer um texto?), dizer mal de alguém ou reconciliar-se com alguém  e como exemplos do "fazer" actos como lavrar os campos, colher frutos das árvores, fabricar objectos com maquinaria, guiar automóvel, digerir comida (fazer a digestão), excretar resíduos, etc. O fazer teria um sentido mais prático, mais imerso no mundo material, do que o agir. Assim se diz: «Tenho de fazer dinheiro, a trabalhar» e não se diz : «Tenho de agir dinheiro, a trabalhar».

 

Quando André Leonor e Filipe Ribeiro apontam como resposta certa «O agir é voluntário, ao passo que o fazer não implica objectivos definidos e conscientes.» equivocam-se. Então, um carpinteiro que faz ou fabrica mesas não tem o objectivo definido de materializar o modelo que tinha em mente e de o vender por um preço compensador?  É óbvio que tem. A resposta "D" está (parcialmente) errónea.

 

Nenhuma das quatro respostas se pode considerar correcta sem se definir à partida, com clareza, agir e fazer.Para Lao Tsé, o filósofo chinês do taoísmo, agir e fazer é a mesma coisa, por isso usou o termo não-agir. 

 

O INTERCULTURALISMO IMPEDE O TOTAL DIÁLOGO COM VALORES INTOLERÁVEIS?

 

Na ficha 3, figura a seguinte questão:

 

1-4  Segundo o interculturalismo:

(A)  É possível universalizarem-se todos os valores.

 

(B)  Há lugar à constituição de valores transculturais.

 

(C) Os valores universalizáveis devem depender da cultura mais forte.

 

(D)  Devemos ter uma atitude de total diálogo com valores que nos são alheios, mesmo que não sejam toleráveis. »

 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, O essencial em actividades, Filosofia 10º ano, Ser no Mundo, Areal Editores, página 22).

 

Resposta dos autores: a única resposta certa é a "B".

 

 

Crítica minha: Se por interculturalismo entendermos a troca de ideias e informações entre diversas culturas e ideologias e a exposição dos valores de todas elas, isso implica um total diálogo com os valores alheios aos nossos. Se sou interculturalista, que me impede de dialogar com um nazi, com um estalinista, com um fundamentalista islâmico ou com um fundamentalista judeu? Há, portanto, duas respostas certas: a "B" e a "D" .

 

O JUÍZO ESTÉTICO NÃO É UM JUÍZO DE CONHECIMENTO?

 

Na ficha 6 do manual, está a seguinte questão do grupo II:

 

1.2  Analise as afirmações que se seguem sobre o juízo estético. Seleccione em seguida a opção correcta.

 

(A) O juízo estético resulta da avaliação dos críticos de arte.

 

(B) O  juízo estético não é um juízo de conhecimento nem obedece a normas morais.

 

(C)  O juízo estético é um juízo de valor que obecece a normas éticas.

 

(D) O juízo estético é um juízo de conhecimento. »

 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, O essencial em actividades, Filosofia 10º ano, Ser no Mundo, Areal Editores, página 44).

 

Resposta dos autores: a correcta é a afirmação "B".

Crítica minha: A resposta correcta é a "D". A resposta "B"  está errada. Então o juízo estético não é de conhecimento? Se assim fosse, não seria possível um júri de cinema dizer, com um mínimo de fundamento, que «12 anos escravo» ou «Gravidade» foram os melhores filmes do ano, nem se poderia dizer que o poeta A é superior, a versejar,  ao poeta B. O que é o conhecimento? É a apreensão, sensorial-intuitiva ou intelectual-racional,  de uma realidade material, ideal ou outra por uma mente. O juízo estético exprime o conhecimento da arte e da natureza física na sua vertente artística. É um juízo essencialmente sensorial mas constitui conhecimento.

 

Este tipo de perguntas, mal concebidas, fruto de mentes analíticas que vêem a árvore isolada mas não a floresta (hiper-análise),   conduzem a respostas ambíguas ou erróneas e só contribuem para confundir alunos e professores.  É isto o teor do "ensino da filosofia" dominante hoje em Portugal no ensino secundário e no sector universitário da filosofia analítica: definições unilaterais impostas ditatorialmente aos alunos (por que razão os alunos têm de distinguir actos humanos de actos do homem, uma vez que essa é versão particular de São Tomás de Aquino, se acto humano é, semanticamente, o mesmo que acto do homem?), incapacidade de pensar dialecticamente, erros notórios de lógica informal.

 

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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012
Ontologia e ética do taoísmo

 

Quais os traços da ontologia e da ética do taoísmo, tal como são expressos no «Livro do caminho» de Lao Tsé?
 
A Ontologia ou teoria do ser e do ente, base da ética, resume-se assim: o Tao, mistura de Não-Ser e Ser, é o fundo sem forma e o movimento estruturador das formas do universo, e traduz-se em uma onda com duas partes ou momentos, Yin (escuridão, frio, contração, azul, baixo, feminino, interior, matéria) e Yang (luz, calor,dilatação, vermelho, alto, masculino, exterior, espírito).
 
A ética do taoísmo resume-se assim: praticar o não agir ou quietismo- exemplo: um país grande não deve lançar guerras contra os outros, em particular contra os pequenos; uma pessoa não deve contrair empréstimos para fazer investimentos de risco nem ambicionar mais do que a sua situação natural lhe oferece - esconder do povo os negócios secretos do Estado, levar uma vida simples de camponês ou ecologista ligado ao ritmo natural do universo (Tao), ser astucioso com os inimigos fortes, adulando-os e fortalecendo-os, de modo a derrubá-los em momento posterior, desconfiar do ensino livresco que busca honras e afasta do Tao e praticar o ensino sem palavras 
 
Eis alguns poemas e excertos de poemas de Lao Tsé que demonstram isso:
 
 
XXXVII
«O Tao propriamente dito não age
 «e, no entanto, tudo se faz por seu intermédio.» (...)
«A profundidade sem nome
 é o que não tem desejo.
«É pelo sem desejo e pela quietude
«que o universo se rege por si próprio.»
(Lao Tsé, Tao Te King, Editorial Estampa, pag 49)
 
 XLVIII
«Aquele que se dedica ao estudo
cresce de dia para dia.
Aquele que consagra ao Tao
diminui de dia para dia. »
 
«Vai diminuindo sempre,
para chegar ao não-agir.  
Pelo não-agir,
nada há que se não faça.
 
«É pelo não fazer
que se ganha o universo.
Aquele que que quer fazer
não pode ganhar o universo.» (ibid, pag. 61)
 
 XLVII
 
«Sem passar a soleira da sua porta,
conhece-se o universo.
Sem olhar pela sua janela,
percebe-se a via do céu. »
 
«Quanto mais se caminha,
menos se conhece.»
 
«O santo conhece sem viajar,
«compreende sem olhar,
realiza sem agir.»  (ibid, pag. 60).
 
 
XXXVI
«Quem quer humilhar alguém
deve primeiro engrandecê-lo.
Quem quer enfraquecer alguém,
deve primeiro fortalecê-lo.
 
Quem quer eliminar alguém,
deve primeiro exaltá-lo.
Quem quer suplantar alguém
deve primeiro fazer-lhe concessões.
Tal é a visão subtil do mundo.» (ibid, pag 48)
 
 
XIX
«Rejeita a sabedoria e o conhecimento,
o povo tirará cem vezes mais proveito.
 
«Rejeita a bondade e a justiça,
o povo voltará à piedade filial e ao amor paternal.
«Rejeita a indústria e o seu lucro,
os ladrões desaparecerão.»
 
«Se estes três preceitos não forem suficientes,
ordena o que se segue:
«Distingue o simples e abraça o natural,
reduz o teu egoísmo
e refreia os teus desejos».
 
 XXXVIII
«A virtude suprema é sem virtude,
é por isso que ela é a virtude.
A virtude inferior não se afasta das virtudes,
é por isso que não é a virtude.
 
«Quem possui a virtude superior não age
e não tem objetivos.
Quem só possui a virtude inferior age
 e tem um objetivo.
 
«Depois da perda do Tao, vem a virtude.
Depois da perda da virtude, vem a bondade.
Depois da perda da bondade, vem a justiça.
Depois da perda da justiça vem o rito.
O rito é a aparência da fidelidade e da confiança,
mas é também a fonte da desordem.» (ibid, página 50)
 
«O Tao que se procura alcançar não é o próprio Tao;
o nome que se lhe quer dar não é o seu nome adequado.»
 
«Sem nome, representa a origem do universo;
com um nome, torna-se a mãe de todos os seres.
Pelo não-ser, atinjamos o seu segredo;
pelo ser, abordemos o seu acesso.
Não-Ser e Ser saindo de um fundo único só se diferenciam pelos seus nomes.
Esse fundo único chama-se Obscuridade.
Obscurecer esta obscuridade, eis a porta de toda a maravilha.»  (ibid, pag 13)
 
II
«Todos consideram o belo como belo,
é nisso que reside a sua fealdade.
Todos consideram o bem como bem,
é nisso que reside o seu mal.
 
«Porque o ser e o nada engendram-se.
O fácil e o difícil completam-se.
O antes e o depois sucedem-se».
 
«Por isso, o santo adota
a tática do não-agir,
e pratica o ensino sem palavra.
Todas as coisas do mundo surgem
sem que seja ele o autor. »
 
«Produz sem se apropriar,
age sem nada esperar,
acabada a sua obra, a ela não se prende,
e porque a ela não se prende,
a sua obra permanecerá.» (ibid, pag 14)
 

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