Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2017
Teste de filosofia do 10º ano (14 de Fevereiro de 2017)

 

 Eis um teste de filosofia do ensino secundário em Portugal, a contra-corrente do modelo simplista da filosofia analítica hegemónico entre os docentes de filosofia. Os conteúdos deste teste de filosofia referentes a alquimia, cabala e princípio das correspondências macrocosmos-microcosmos integram-se na rubrica «Os grandes temas da filosofia» e são relativos a uma visita de estudo ao centro histórico de  Sevilha em que se faz hermenêutica de monumentos antigos e seus pormenores artísticos.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C

14 de Fevereiro de 2017. Professor: Francisco Queiroz

I

“A filosofia da alquimia, que aceita a ideia de Adão Kadmon ser o antepassado dos humanos e as noções de pleroma, kenoma e hebdómada, sustenta a divisa «solve e coagula» e a existência de três princípios/ substâncias do universo material. Na Grande Obra Alquímica, que traduz a lei dialética do devir, há quatro fases correspondendo uma ave a cada uma. O axis mundis dos primitivos implica percepção empírica, conceito empírico e intuição inteligível e liga entre si vários mundos.”

                                                                                                         

  1. Explique, concretamente este texto.

 1) Relacione, justificando:

 A)Seis ou mais esferas da árvore cabalística dos Sefirós, as respectivas qualidades, e planetas, por um lado, e emanacionismo.

 B) Oito direções do espaço, respectivas áreas de vida e elementos ou partes da natureza na filosofia do Feng Shui, por um lado, e lei da contradição principal, por outro lado.

 

C) Vontade autónoma e vontade heterónoma e dois eus na moral de Kant, por um lado, hedonismo em Stuart Mill, por outro lado.

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

 1) A filosofia da alquimia, doutrina esotérica, hermética que sustenta o processo da Grande Obra ou criação laboratorial da pedra filosofal que concederia a imortalidade ao homem, dotando-o de um corpo astral desmaterializado como o mítico Adão Kadmon (metade homem e metade mulher), defende que há três princípios/ substâncias originárias do universo, o enxofre ou homem vermelho (princípio masculino), sólido, o mercúrio filosófico ou mulher branca (princípio feminino), volátil, e o sal, neutro. A divisa «solve e coagula» significa dissolver o enxofre, sólido, e coagular o mercúrio líquido ou gasoso que se esparge pelas esferas celestes de forma a obter o equilíbrio e a pedra filosofal, ou lapis vermelho. O pleroma é o mundo divino, da luz, o mundo dos éons ou dos arquétipos perfeitos, o kenoma é o vazio, das trevas e da matéria exterior ao pleroma, a hebdómada é o mundo das sete esferas planetárias que tem a Terra no centro, criado por Deus ou pelo demiurgo (deus inferior) no seio do kenoma para alojar Adão que, ao sair do Éden atraído por Lúcifer, se materializou e perdeu Sofia, a sua metade espiritual  (VALE QUATRO VALORES).As quatro fases da Grande Obra Alquímica que visa produzir o elixir da longa vida ou pedra filosofal em laboratório são: nigredo, ou fase negra, da putrefação da matéria transformada no laboratório a que corresponde o corvo; albedo, ou fase branca de separação das impurezas, a ave é o cisne; citredo, ou fase multicolor, de alguma dominancia do amarelo limão, a ave é o pavão; rubedo, ou fase vermelha na qual se dá a produção da pedra filosofal cuja ave é a fénix. A lei do uno sustenta que tudo se relaciona e isso exemplifica-se no facto de estas quatro fases da Grande Obra estarem ligadas entre si num processo de continuidade. (VALE TRÊS VALORES). O axis mundis ou eixo do mundo ou pilar cósmico liga, nas cosmologias dos povos primitivos, três mundos, o mundo subterrâneo dos mortos ao mundo terreno dos vivos e este ao céu dos deuses, na vertical do lugar, a partir do umbigo do mundo, que é, muitas vezes, o centro da aldeia ou da cidade. A percepção empírica, isto é, o acto da visão, da audição, do tacto, etc, mostra-nos um pau comprido na vertical ou um pilar de pedra ou uma árvore ou uma montanha, o conceito empírico é a ideia formada com a abstração das percepções empíricas - exemplo: fecho os olhos e penso na árvore como axis mundis - e a intuição inteligível é a ideia metafísica,instantânea - exemplo: «ver» como que num flash o axis mundi lá no alto dos céus a tocar o corpo de um deus» (VALE TRÊS VALORES).

 

2-A) A árvore das Sefirós (Esferas) é o diagrama do universo, segundo a Cabala (ensinamento secreto) judaica, uma «heresia» do judaísmo como religião de massas. Essa árvore de 10 esferas, que são 10 qualidades que emanam de Deus (emanacionismo),  é composta de um triângulo  em cima, onde a presença de Deus é directa, expressa  nas sefirós Kéther- Chokmah- Binah, dois triângulos invertidos debaixo deste, onde já não há a presença directa de Deus mas sim dos arcanjos e dos anjos,  e um ponto isolado no fundo.

                               KÉTHER (Coroa)

                                Planeta: Úrano

                                Esfera nº 1

                                 Cor : Indefinida

 

BINAH:                                               CHOCKMAH

Esfera nº 3                                          Esfera nº 2

Inteligência                                          Sabedoria

Feminina                                              Masculina

Saturno                                                Neptuno

Cor Negra                                           Cor iridescente

 

GUEVURAH                                          CHESED

Esfera nº 5                                             Esfera nº 4

Justiça                                                    Misericórdia

Marte                                                       Júpiter

Cor: Vermelho                                        Cor Azul

 

                                     THIPHERET

                                      Esfera nº 6.

                                      Beleza.

                                      Sol.

                                      Cor: amarelo ouro.

                                      (VALE TRÊS VALORES)

 

 O emanacionismo é a teoria segundo a qual a criação emana, brota como água a jorrar de uma fonte, do princípio único (a bica da fonte) de tal modo que a radiação vai enfraquecendo à medida que se afasta da fonte: o universo é como uma escadaria em direção à matéria pura, muito afastada da fonte que é o espírito. A árvore da Cabala revela isso mesmo: Malkut, o Reino Material, é a última, directamente oposta a Kéther, Coroa, que tem a presença de Deus. (VALE TRÊS VALORES).

 

2) O Feng Shuei é uma filosofia chinesa geocósmica, holística, que sustenta a correspondência entre pontos cardeais (N,S,E,O) e os quatro pontos colaterais (NE,SE, SO, NO), as áreas de vida social e pessoal, alguns animais e cores.

 

NORTE. TERRA.  Tartaruga negra. A profissão, os negócios. Audição. Inverno. Meia noite, velho Yi ( máximo Yin ou máxima escuridão e frio).

NORDESTE. MONTANHA. Área de estudos e vida escolar.

ESTE, TROVÃO. Dragão verde. Crescimento, família. Cor verde. Visão. Nascer do sol. Jovem Yang.

SUDESTE. VENTO, MADEIRA. Dinheiro, riqueza material.

SUL.FOGO. Fénix. Fama. Fala. Cor vermelha. Verão. meio dia, velho Yang (máximo Yang ou máxima luz e calor).

SUDOESTE.TERRA. Sudoeste (ou Centro, segundo algumas interpretações). Serpente. Cor: amarelo. Fim do verão. Casamento, amores.  Sabor. Meio da tarde. Igual proporção de Yang e Yin.

OESTE. ÁGUA., Lago. Oeste. Tigre branco. A criatividade, os filhos. O olfato. Outono. Cor branca. Pôr do sol. Jovem yin (algum frio e humidade). 

NOROESTE.  CÉU. Os protectores, os amigos influentes.

 O princípio das correspondências microcosmo-microcosmo da filosofia hermética sustenta que o que está em baixo é como o que está em cima, há uma analogia entre o microcosmo ou pequeno universo e o macrocosmo ou grande universo. Assim sucede com o FengShuei: por exemplo, o Norte (macrocosmos) corresponde à profissão da pessoa (microcosmos) e à Tartaruga Negra (microcosmos), etc. A lei da contradição principal estabelece que um sistema de múltiplas contradições (em rigor: contrariedades) é redutível a uma só grande contradição, chamada principal, agrupando num dos polos algunas contradiçoes, e no outro as restantes. Assim podemos determinar a seguinte contradição principal: de um lado, o Este e o Sul, ambos Yang, e os respectivos pontos colaterais Sudeste e Sudoeste; do outro lado, o Oeste e o Norte, ambos Yang e os pontos colaterais Nordeste e Noroeste. (VALE TRÊS VALORES)

 

C) A vontade autónoma reside no eu numénico, ou eu racional, na doutrina de Kant, e permite  a cada pessoa universalizar a sua máxima ou princípio subjetivo, agir de acordo com o imperativo categórico que cada um gera no seu eu racional: trata cada ser humano como um fim em si mesmo, alguém digno de respeito, e nunca como um meio para chegares a fins egoístas. . A vontade heterónoma situa-se no eu fenoménico ou eu empírico e é governada por interesses materiais, instintos e paixões contrárias ao eu racional. O hedonismo é a teoria que identifica o prazer com o bem e a dor com o mal, Stuart Mill defende a felicidade para a maioria dos envolvidos numa dada situação e isso não coincide com o imperativo categórico de Kant que contempla todos por igual e não busca necessariamente o prazer.  O princípio moral de Mill tem algo de imperativo hipotético (o prazer) e algo de imperativo categórico (o serviço aos outros). VALE TRÊS VALORES).

 

 

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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2017
Teste de Filosofia do 10º ano (3 de Fevereiro de 2017)

 

Eis um teste de filosofia do 10º ano de escolaridade do início do segundo período lectivo, em Portugal. Os conteúdos deste teste de filosofia referentes a alquimia, cabala e princípio das correspondências macrocosmos-microcosmos integram-se na rubrica «Os grandes temas da filosofia» e são relativos a uma visita de estudo ao centro histórico de  Sevilha em que se faz hermenêutica de monumentos antigos e seus pormenores artísticos. Os manuais escolares do 10º ano não têm praticamente textos de filosofia esotérica e holístico-científica: autores como Mircea Elíade, historiador das religiões, Edgar Morin, Paul Feyerabend, Jules Evola, Gerson Scholen, Jean Hani, são censurados, ignorados pelos académicos da filosofia analítica que estão na mó de cima na época filosoficamente impensante que atravessamos.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA A

3 de Fevereiro de 2017. Professor: Francisco Queiroz

I

“A filosofia da alquimia, que aceita as noções de pleroma, kenoma e hebdómada, sustenta a divisa «solve e coagula» e a existência de três princípios/ substâncias do universo material. Na Grande Obra Alquímica, que traduz a lei dialética do uno, há quatro fases correspondendo uma ave a cada uma.  A esfera dos valores espirituais em Max Scheler e a esfera dos valores do santo e do profano podem ter algo a ver com a cosmisação do espaço e o axis mundis dos povos primitivos."

 

1) Explique, concretamente este texto.

 

2) Relacione, justificando: 

A) Seis ou mais esferas da árvore cabalística dos Sefirós, as respectivas qualidades, e planetas, por um lado, e quatro arquês em Pitágoras de Samos, por outro lado.

 

B) Oito direções do espaço, respectivas áreas de vida e elementos ou partes da natureza na filosofia do Feng Shui e princípio das correspondências macrocosmos-microcosmos.

 

C) Máxima e imperativo categórico em Kant e o princípio moral do utilitarismo em Stuart Mill. 

 

 CORREÇÃO DO TESTE,  COTADO MAXIMAMENTE PARA 20 VALORES

 

1) A filosofia da alquimia, doutrina esotérica, hermética que sustenta o processo da Grande Obra ou criação laboratorial da pedra filosofal que concederia a imortalidade ao homem, dotando-o de um corpo astral desmaterializado como o mítico Adão Kadmon (metade homem e metade mulher), defende que há três princípios/ substâncias originárias do universo, o enxofre ou homem vermelho (princípio masculino), sólido, o mercúrio filosófico ou mulher branca (princípio feminino), volátil, e o sal, neutro. A divisa «solve e coagula» significa dissolver o enxofre, sólido, e coagular o mercúrio líquido ou gasoso que se esparge pelas esferas celestes de forma a obter o equilíbrio e a pedra filosofal, ou lapis vermelho. O pleroma é o mundo divino, da luz, o mundo dos éons ou dos arquétipos perfeitos, o kenoma é o vazio, das trevas e da matéria exterior ao pleroma, a hebdómada é o mundo das sete esferas planetárias que tem a Terra no centro, criado por Deus ou pelo demiurgo (deus inferior) no seio do kenoma para alojar Adão que, ao sair do Éden atraído por Lúcifer, se materializou e perdeu Sofia, a sua metade espiritual  (VALE TRÊS VALORES).As quatro fases da Grande Obra Alquímica que visa produzir o elixir da longa vida ou pedra filosofal em laboratório são: nigredo, ou fase negra, da putrefação da matéria transformada no laboratório a que corresponde o corvo; albedo, ou fase branca de separação das impurezas, a ave é o cisne; citredo, ou fase multicolor, de alguma dominancia do amarelo limão, a ave é o pavão; rubedo, ou fase vermelha na qual se dá a produção da pedra filosofal cuja ave é a fénix. A lei do uno sustenta que tudo se relaciona e isso exemplifica-se no facto de estas quatro fases da Grande Obra estarem ligadas entre si num processo de continuidade. (VALE TRÊS VALORES). A esfera dos valores espirituais em Max Scheller engloba os valores éticos (bem e mal), estéticos (belo e feio) jurídicos (legal, ilegal) de verdade filosófica (real, irreal, etc.) e científica (certo e errado na matemática, etc) e a esfera dos valores do santo e do profano ( Deus ou deuses versus matéria como essência da vida). A cosmisação do espaço é a transformação de um território caótico ou homologo ao caos num cosmos, isto é, num pequeno mundo organizado. Os povos antigos determinavam, nesse terreno, o Centro, o «umbigo do mundo», um lugar sagrado - e aqui entram os valores do divino, do santo e também éticos- onde situavam a pedra angular e erigiam o axis mundis, cruzando duas linhas perpendiculares no solo, uma norte-sul outra este-oeste. Assim a aldeia ficava dividida em quatro partes.A partir do Centro, elevava-se o axis mundi, um poste, ou um pilar ou uma árvore que ligava o mundo subterrâneo dos mortos ao mundo terrestre dos vivos e ao céu dos deuses.  (VALE QUATRO VALORES).

 

2-A) A árvore das Sefirós (Esferas) é o diagrama do universo, segundo a Cabala (ensinamento secreto) judaica, uma «heresia» do judaísmo como religião de massas. Essa árvore de 10 esferas, que são 10 qualidades que emanam de Deus (emanacionismo),  é composta de um triângulo  em cima, onde a presença de Deus é directa, expressa  nas sefirós Kéther- Chokmah- Binah, dois triângulos invertidos debaixo deste, onde já não há a presença directa de Deus mas sim dos arcanjos e dos anjos,  e um ponto isolado no fundo.

                               KÉTHER (Coroa)

                                Planeta: Úrano

                                Esfera nº 1

                                 Cor : Indefinida

 

BINAH:                                               CHOCKMAH

Esfera nº 3                                          Esfera nº 2

Inteligência                                          Sabedoria

Feminina                                              Masculina

Saturno                                                Neptuno

Cor Negra                                           Cor iridescente

 

GUEVURAH                                          CHESED

Esfera nº 5                                             Esfera nº 4

Justiça                                                    Misericórdia

Marte                                                       Júpiter

Cor: Vermelho                                        Cor Azul

 

                                     THIPHERET

                                      Esfera nº 6.

                                      Beleza.

                                      Sol.

                                      Cor: amarelo ouro.

                                      (VALE TRÊS VALORES)

 

A cosmogonia de Pitágoras de Samos diz que o universo se formou a partir de  quatro números-figuras arquetípicos: do vazio surge um ponto que simboliza o número um; o ponto divide-se em dois, gerando a linha recta, que é o número dois; da recta sai um ponto que ao projectar-se através de infinitas rectas sobre a recta original gera um plano, que é o número três; do plano sai um ponto que prpjectando-se segundo três rectas sobre o plano gerando a pirâmide de três lados ou tetraedro, que é o número quatro. A gematria é a atribuição a cada letra de um número (por exemplo A= 1, B=2, C=3, N=40, Z=400) . Tanto a cosmogonia de Pitágoras como a gematria  consideram os números como essências dos entes.

Podemos relacionar a árvore da Cabala, que sustenta haver DEZ esferas ou Séfirós com a teoria de Pitágoras que venerava o DEZ como número de Deus já que é a soma dos quatro arkhés (1+2+3+4=10). (VALE TRÊS VALORES).

 

 2) O Feng Shuei é uma filosofia chinesa geocósmica, holística, que sustenta a correspondência entre pontos cardeais (N,S,E,O) e os quatro pontos colaterais (NE,SE, SO, NO), as áreas de vida social e pessoal, alguns animais e cores.

 

NORTE. TERRA.  Tartaruga negra. A profissão, os negócios. Audição. Inverno. Meia noite, velho Yi ( máximo Yin ou máxima escuridão e frio).

NORDESTE. MONTANHA. Área de estudos e vida escolar.

ESTE, TROVÃO. Dragão verde. Crescimento, família. Cor verde. Visão. Nascer do sol. Jovem Yang.

SUDESTE. VENTO, MADEIRA. Dinheiro, riqueza material.

SUL.FOGO. Fénix. Fama. Fala. Cor vermelha. Verão. meio dia, velho Yang (máximo Yang ou máxima luz e calor).

SUDOESTE.TERRA. Sudoeste (ou Centro, segundo algumas interpretações). Serpente. Cor: amarelo. Fim do verão. Casamento, amores.  Sabor. Meio da tarde. Igual proporção de Yang e Yin.

OESTE. ÁGUA., Lago. Oeste. Tigre branco. A criatividade, os filhos. O olfato. Outono. Cor branca. Pôr do sol. Jovem yin (algum frio e humidade). 

NOROESTE.  CÉU. Os protectores, os amigos influentes.

    O princípio das correspondências microcosmo-microcosmo da filosofia hermética sustenta que o que está em baixo é como o que está em cima, há uma analogia entre o microcosmo ou pequeno universo e o macrocosmo ou grande universo. Assim sucede com o FengShuei: por exemplo, o Norte (macrocosmos) corresponde à profissão da pessoa (microcosmos) e à Tartaruga Negra (microcosmos), etc. (VALE TRÊS VALORES)

 

C) O imperativo categórico ou verdadeira lei moral, em Kant, postula: «Age como se quisesses que a tua ação fosse uma lei universal da natureza». Resulta da universalização da máxima, da aplicação equitativa do princípio subjectivo moral de cada um ou máxima. Exemplo: se a minha máxima é «Combato a vacinação obrigatória porque as vacinas infectam o organismo» o meu imperativo categórico será «Vou difundir a ideia de que a vacinação é nociva e não me vacinarei nem as minhas filhas, quaiquer que sejam as sanções contra mim.» O princípio moral de Stuart Mill é, em cada situação, promover a felicidade da maioria das pessoas, mesmo sacrificando a minoria. Em regra, isto opõe-se ao imperativo categórico de Kant que é absolutamente equitativo e trata por igual todos os indivíduos. (VALE QUATRO  VALORES)

 

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Sábado, 20 de Fevereiro de 2016
Teste de Filosofia do 10º ano, turma A (Fevereiro de 2016)

 

Eis um teste de filosofia fora do estereótipo dos testes que os autores dos manuais escolares da Porto Editora, Leya, Santillana, Areal Editores, etc, divulgam. E sem questões de escolha múltipla que, frequentemente, são incorrectamente concebidas por quem não domína o método dialético e desliza para a horizontalidade da filosofia analítica vulgar. Os conteúdos deste teste de filosofia referentes a alquimia, cabala e princípio das correspondências macrocosmos-microcosmos integram-se na rubrica «Os grandes temas da filosofia» e são relativos a uma visita de estudo ao centro histórico de  Sevilha em que se fez hermenêutica de monumentos antigos e seus pormenores artísticos.

 

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA A

11 de Fevereiro de 2016. Professor: Francisco Queiroz.

 I

"A filosofia da alquimia, que aceita as noções de pleroma, kenoma e hebdómada, sustenta a divisa «solve e coagula» e a existência de três princípios/ substâncias do universo material. Na Grande Obra Alquímica, que traduz a lei dialética do uno, há quatro fases correspondendo uma ave a cada uma. O princípio das correspondências macrocosmo-microcosmos foi usado na construção da catedral medieval."

 

1)Explique, concretamente este texto.

 

2) Relacione, justificando:

A) Seis esferas da árvore cabalística dos Sefirós, as respectivas qualidades, cores e planetas associados a cada uma, e a planta do templo cristão medieval.


B) Lei da luta de contrários, por um lado, e taoísmo, Adão Kadmon, e binómio realismo/idealismo, binómio ética deontológica/ ética teleológica por outro lado.


C) Vontade autónoma/ vontade heterónoma, eu fenoménico e eu numénico em Kant, por um lado, e três partes da alma na teoria de Platão, por outro lado.


D)  Máxima e imperativo categórico em Kant e o princípio moral do utilitarismo em Stuart Mill

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

1) A filosofia da alquimia, doutrina esotérica, hermética que sustenta o processo da Grande Obra ou criação laboratorial da pedra filosofal que concederia a imortalidade ao homem, dotando-o de um corpo astral desmaterializado como o mítico Adão Kadmon (metade homem e metade mulher), defende que há três princípios/ substâncias originárias do universo, o enxofre ou homem vermelho (princípio masculino), sólido, o mercúrio filosófico ou mulher branca (princípio feminino), volátil, e o sal, neutro. A divisa «solve e coagula» significa dissolver o enxofre, sólido, e coagular o mercúrio líquido ou gasoso que se esparge pelas esferas celestes de forma a obter o equilíbrio e a pedra filosofal, ou lapis vermelho. O pleroma é o mundo divino, da luz, o mundo dos éons ou dos arquétipos perfeitos, o kenoma é o vazio, das trevas e da matéria exterior ao pleroma, a hebdómada é o mundo das sete esferas planetárias que tem a Terra no centro, criado por Deus ou pelo demiurgo (deus inferior) no seio do kenoma para alojar Adão que, ao sair do Éden atraído por Lúcifer, se materializou e perdeu Sofia, a sua metade espiritual  (VALE QUATRO VALORES). As quatro fases da Grande Obra Alquímica que visa produzir o elixir da longa vida ou pedra filosofal em laboratório são: nigredo, ou fase negra, da putrefação da matéria transformada no laboratório a que corresponde o corvo; albedo, ou fase branca de separação das impurezas, a ave é o cisne; citredo, ou fase multicolor, de alguma dominancia do amarelo limão, a ave é o pavão; rubedo, ou fase vermelha na qual se dá a produção da pedra filosofal cuja ave é a fénix. A lei do uno sustenta que tudo se relaciona e isso exemplifica-se no facto de estas quatro fases da Grande Obra estarem ligadas entre si num processo de continuidade. (VALE TRÊS VALORES). O princípio das correspondências microcosmo-microcosmo da filosofia hermética sustenta que o que está em baixo é como o que está em cima, há uma analogia entre o microcosmo ou pequeno universo e o macrocosmo ou grande universo. Assim, o templo cristão da idade média obedeceu a essa lei: o macrocosmos seria um corpo gigantesco de Cristo de braços abertos que atravessaria o universo inteiro e o templo a construir seria um macrocosmos que imitaria, em forma de cruz, esse corpo macrocósmicos. A abside do templo, orientada a Este, ponto cardeal onde nasce o Sol (Cristo é o Sol espiritual) equivale à cabeça, o transepto aos braços abertos, o altar ao coração, as naves ao tronco e pernas de Cristo. (VALE DOIS VALORES).

 

2-A) A árvore das Sefirós (Esferas) é o diagrama do universo, segundo a Cabala (ensinamento secreto) judaica, uma «heresia» do judaísmo como religião de massas. Essa árvore de 10 esferas, que são 10 qualidades manifestas de Deus, é composta de um hexágono em cima, um triângulo debaixo deste e um ponto isolado no fundo. Podemos aplicar este diagrama à planta em cruz da catedral cristã fazendo coincidir Kéther, a primeira Sefiró, com a abside do templo, Binan e Guevurah com a extremidade esquerda do transepto, Hockman e Chesed com a extremidade direita do transpeto, Tiferet com o altar no pilar central.

 

                               KÉTHER (Coroa)

                                Planeta: Úrano

                                Esfera nº 1

                                 Cor : Indefinida

 

BINAH:                                               CHOCKMAH

Esfera nº 3                                          Esfera nº 2

Inteligência                                          Sabedoria

Feminina                                              Masculina

Saturno                                                Neptuno

Cor Negra                                           Cor iridescente

 

GUEVURAH                                          CHESED

Esfera nº 5                                             Esfera nº 4

Justiça                                                    Misericórdia

Marte                                                       Júpiter

Cor: Vermelho                                        Cor Azul

 

                                     THIPHERET

                                      Esfera nº 6.

                                      Beleza.

                                      Sol.

                                      Cor: amarelo ouro.

                                      (VALE TRÊS VALORES)

 

2. B)  A lei da luta de contrários sustenta que a essência e o motor de desenvolvimento de cada fenómeno ou ente é uma luta de contrários. No taoísmo, antiga filosofia chinesa, o Tao ou mãe do universo divide-se numa luta entre o Yang e o Yin, o fluxo da onda (Yang) e o refluxo desta (Yin), a luz do dia (Yang) e a escuridão da noite (Yin), a diástole (Yang) e a sístole (Yin), o crescimento (Yang) e o decréscimo (Yin), o masculino (Yang) e o feminino (Yin), o vermelho e o laranja (Yang) o azul e o violeta (Yin), o verão e o calor (Yang), o inverno e o frio (Yin). O Adão Kadmon, antepassado mítico do homem, é uma luta de contrários: a sua metade direita é masculina, a sua metade esquerda é feminina. O realismo e o idealismo são contrários: o primeiro afirma que há um mundo de matéria, real em si mesmo, fora das nossas mentes e anterior a elas, ao passo que o idealismo diz que o mundo material é uma ilusão fora do corpo, é apenas percepções e ideias da nossa mente. As éticas deontológicas são, supostamente, não hedónicas, põem o dever à frente do prazer. ao passo que as éticas ditas teleológicas (télos significa finalidade) colocam o prazer, finalidade da acção, à frente do dever.(VALE QUATRO VALORES)

 

2-C) A vontade autónoma reside no eu numénico, ou eu racional, na doutrina de Kant, e permite  a cada pessoa universalizar a sua máxima ou princípio subjetivo, agir de acordo com o imperativo categórico que cada um gera no seu eu racional: trata cada ser humano como um fim em si mesmo, alguém digno de respeito, e nunca como um meio para chegares a fins egoístas. Isto liga-se ao Nous ou parte superior, racional, da alma humana, em Platão, que contempla os arquétipos e dirige os filósofos.reis que vivem colectivamente, sem ouro nem prata, numa casa do Estado e fazem as leis. Também se liga ao Tumus ou parte intermédia da alma que representa o valor militar dos guerreiros, auxiliares dos filósofos-reis. A vontade heterónoma situa-se no eu fenoménico ou eu empírico e é governada por interesses materiais, instintos e paixões contrárias ao eu racional e exprime à parte inferior da alma humana, a epythimia ou concupiscência, sede dos prazeres egoístas de enriquecer materialmente com ouro e prata, comer requintadamente, desfrutar vida luxuosa, etc. (VALE TRÊS VALORES).

 

2-D- O imperativo categórico ou verdadeira lei moral postula: «Age como se quisesses que a tua ação fosse uma lei universal da natureza». Resulta da universalização da máxima, da aplicação equitativa do princípio subjectivo moral de cada um ou máxima. Exemplo: se a minha máxima é «Combato a vacinação obrigatória porque as vacinas infectam o organismo» o meu imperativo categórico será «Vou difundir a ideia de que a vacinação é nociva e não me vacinarei nem as minhas filhas, quaiquer que sejam as sanções contra mim.» O princípio moral de Stuart Mill é, em cada situação, promover a felicidade da maioria das pessoas, mesmo sacrificando a minoria. Em regra, isto opõe-se ao imperativo categórico de Kant que é absolutamente equitativo e trata por igual todos os indivíduos. (VALE UM VALOR)

 

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Terça-feira, 24 de Março de 2015
Teste de filosofia do 10º B (Março de 2015)

 

Eis um teste de filosofia do 10º ano de  escolaridade em Portugal, evitando as perguntas de escolha múltipla em que o aluno coloca um X na hipótese que supõe estar certa e fica dispensado de explanar as suas ideias num corpo discursivo coerente.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA B
17 de Março de 2015. Professor: Francisco Queiroz

 

I

“A autogestão nas empresas, a cogestão e a nacionalização de empresas são valores ético-políticos e económicos aceites ou rejeitados como valores supremos por uma ou outra de três correntes como o comunismo leninista, o anarquismo e o socialismo reformista. Karl Marx defendeu que ao longo da história cinco tipo de instrumentos de produção (tecnologia) produzem uns quatro ou cinco tipos de Estado, ética, cultura, organização social e religiosa, e isso exprime a  lei dos dois aspectos da contradição

1) Explique, concretamente este texto. 

 

2) Relacione, justificando:

 

A) Quatro correntes ético-políticas (três de direita e uma do centro), por um lado, e democracia parlamentar ou burguesa e Estado social, por outro lado.
B) O imperativo categórico em Kant, por um lado, multiculturalismo e totalitarismo por outro lado.
C) Adão Kadmon, três princípios da alquimia, hebdómada.

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE ESCRITO (COTADO PARA 20 VALORES)

1)«A autogestão nas empresas é o regime em que as fábricas, as explorações agrícolas, os hipermercados, as empresas de transportes são propriedade dos trabalhadores e não do Estado nem de patrões ou sociedades privadas: semanal ou mensalmente reune a assembleia de todos os operátrios, engenheiros e técnicos de contas da empresa e decide, democraticamente, os investimentos a fazer, a escala de salários, a repartição dos lucros, os horários de trabalho, etc. A autogestão é um valor central da doutrina anarquista que é contra o capitalismo privado e contra o capitalismo de estado marxista~leninista, anarquismo que defende a extinção do Estado, do exército profissional e das polícias e que promove a luta de rua (acção directa) e a greve geral revolucionária contra a democracia parlamentar ou burguesa. A cogestão nas empresas é o regime em que estas são propriedade privada de patrões mas estes incluem um representante da comissão de trabalhadores ou do sindicato na gestão da empresa concertando com estes os ritmos de trabalho, a escala de salários, etc. A cogestão é um valor central da doutrina da social-democracia ou socialismo reformista, isto é do capitalismo de centro-esquerda, corrente que defende a democracia parlamentar, as liberdades de greve, imprensa e manifestação de rua, a liberdade sexual e religiosa, os impostos progressivos sobre os ricos, o rendimento mínimo garantido e o subsídio de desemprego para todos os necessitados, o ensino secundário e universitário público gratuitos, o serviço nacional de saúde. O socialismo tem forte componente maçónica e defende uma economia de mercado, uma economia capitalista. A nacionalização é um valor central da doutrina comunista marxista-leninista que defende uma revolução política e social em que as fábricas e terras são nacionalizadas, isto é, passam das mãos de capitalistas privadas para o Estado gerido pelo partido comunista em nome do povo (ditadura do proletariado, sem eleições livres porque estas trariam o capitalismo de volta). Em democracia parlamentar, os comunistas concorrem às eleições, apesar de considerarem que os partidos vencedores - socialistas, liberais ou conservadores - ganham por serem subsidiados pela alta finança e grandes industriais, já que no parlamento apresentarão propostas de lei contra o fascismo clássico e a favor da classe operária (VALE SEIS VALORES). Karl Marx defendeu que a infraestrutura ou base económica, em especial o seu instrumento de produção principal em cada época, gera a superestrutura (Estado, religião, escola, cultura) correspondente: o machado de pedra obrigou os homens a adoptarem o comunismo primitivo, um regime anarquista nas tribos, de propriedade colectiva dos meios de produção; a invenção do machado de ferro e arado de ponta de ferro levou à prática da agricultura e à divisão social entre escravos e esclavagistas e ao surgimento do Estado da escravatura, máquina de opressão; a invenção do moinho de água, na Idade Média, converteu os escravos em servos da gleba que trabalham metade da semana gratuitamente para os seus senhores, é o Estado feudal; a invenção da máquina a vapor e do martelo mecânico no século XVIII gera a revolução industrial, os camponeses são transformados em operários fabris ao serviço da nova classe, a burguesia industrial, que constrói o Estado democrático burguês, assente no capitalismo. Depois, segundo os neomarxistas, a electrónica, a aviação, a electricidade e as grandes tecnologias actuais geram a necessidade do Estado socialista operário, suprimindo os capitalistas. A lei dos dois aspectos diz que numa contradição há dois aspectos e, em regra, um é dominante e o outro dominado, podendo inverter-se as posições: neste caso, o instrumento de produção é o dominante e o Estado e restante superestrutura, o dominado e, por vezes, o Estado, a religião e a política sobrepõem-se à produção como sucede no caso das revoluções e guerras. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) A) Das três correntes de direita política, liberais, conservadores e fascistas/monárquicos absolutistas, só esta última não defende a democracia parlamentar ou burguesa. Os fascistas querem um Estado nacional, uma ditadura de partido único, defensor de um capitalismo controlado de alta burguesia, sem direito às greves, à imprensa livre e ao lock-out, um Estado defensor dos valores tradicionais (masculinidade do homem, feminilidade e espírito de dona de casa na mulher; perseguição e punição de gays e lésbicas; respeito às igrejas católica, protestante ou islâmica e proibição do divórcio nos casamentos religiosos), um Estado totalitário profundamente anticomunista, antimaçónico e antiberal, xenófobo, isto é, expulsando imigrantes estrangeiros. Menos à direita estão os conservadores, que defendem uma democracia parlamentar (regime de eleições livres de parlamentos, com muitos partidos a concorrer), liberdade sindical, de imprensa e de greve mas opõem-se a impostos progressivos sobre os ricos, ao casamento de gays e lésbicas, à legalização das drogas leves. Os conservadores defendem os valores tradicionais da família, do respeito a Deus e são contra o aborto livre. À esquerda dos conservadores, mas ainda no campo da direita, estão os liberais, que defendem o capitalismo privado puro, poucos ou nenhuns impostos sobre os capitalistas, o fim do serviço nacional de saúde e do ensino universitário gratuitos, a privatização de quase todas as empresas públicas (correios, comboios, aviação, minas, siderurgia, etc), o quase desaparecimento do subsídio de desemprego e do rendimento mínimo garantido, a liberdade de os patrões despedirem os empregados sem os indemnizar. Os liberais, também com grande influência da maçonaria no seu seio, defendem a globalização da economia e a sinarquia, o governo mundial único numa base pluralista. Ao centro, figuram os centristas, também defensores da democracia parlamentar ou burguesa, com mais preocupações sociais, que se opõem ao capitalismo selvagem de liberais e conservadores e também ao comunismo, ao anarquismo e ao socialismo reformista embora sejam vizinhos deste último. Ao contrário dos liberais e conservadores, os centristas já defendem o Estado social, um Estado capitalista que confere protecção básica aos mais pobres, dando-lhes saúde gratuita nos hospistais, refeições gratuitas e outros apoios. John Rawls foi, nos EUA, o teórico desta corrente. Advogava que as leis deviam ser debatidas e votadas por grandes comunidades segundo uma democracia de base a coberto de um véu de ignorância sobre a profissão e a riqueza de cada um dos participantes no debate, na posição original. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) B) O imperativo categórico é uma lei moral autónoma, variável de pessoa a pessoa, mas com equidade universal, sem interesses egoístas: «Age de modo que a tua acção seja como uma lei universal da natureza», isto é, faz o bem sem olhar a quem e nem mesmo a ti mesmo ou pune a todos, por espírito justo, sem olhar a quem. O multiculturalismo é a posição que diz que num país todas as comunidades - os nacionais de origem, os emigrantes africanos, latino-americanos, do leste, etc - devem estar em pé de igualdade ante o Estado e a lei: nas escolas devem ensinar-se as diversas línguas e culturas, qualquer imigrante se pode candidatar a presidente da república, deputado nacional ou autarca local, etc. O totalitarismo, ideologia que diz que o Estado é tudo e o indivíduo é nada e deve haver uma ditadura de partido único sem eleições livres nem imprensa livre - é contra o multiculturalismo (VALE TRÊS VALORES).

 

2)C) O Adão Kadmon era, segundo relatos alquímicos, o Adão primitivo, dotado de um corpo astral, que atravessava as pedras e a matéria, hermafrodita - metade mulher (Sofia), metade homem (Adão), com duas cabeças em algumas representações, correspondente ao arcano XXI do Tarot - que viveria no Paraíso Terrestre, no limite entre o Pleroma (Mundo da Luz divina) e o Kenoma (Mundo do Vazio, das trevas exteriores). Adão quis sair do Paraíso, atraído por Lúcifer que fora exilado no Inferno, e perdeu o seu corpo luminoso, materializando-se. Deus apiedou-se dele e colocou-o na Terra, onde viveu sujeito à lei do envelhecimento e da morte com a sua nova companheira, Eva, rodeado de sete esferas planetárias ou mundo da hebdómada. A alquimia fala de três princípios: o enxofre, sólido, ou princípio masculino, o «homem vermelho»; o mercúrio filosófico, líquido ou gasoso, volátil, princípio feminino ou «mulher branca» - equivale à Sofia do corpo adâmico; o sal ou neutro . O objectivo da alquimia é produzir o lapis, a pedra filosofal, que permitiria ao homem recuperar o corpo glorioso do primitivo Adão.(VALE TRÊS VALORES)

 

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Quinta-feira, 21 de Junho de 2012
Equívocos na prova 714 de Exame nacional de filosofia de 20 de Junho de 2012

 

O exame nacional de filosofia em Portugal (Prova 714/ 1ª fase) , de 20 de Junho de 2012, possui um certo número de equívocos importantes. Nem a Sociedade Portuguesa de Filosofia nem a Associação de Professores de Filosofia detectaram os erros que, aqui, passo a explanar. O essencial no ensino da filosofia não é preparar os alunos para exame, como defendem os burocratas cinzentos, licenciados, mestres ou doutorados na disciplina,  mas sim pôr os alunos a pensar em profundidade, o que implica fornecer-lhes, de forma rica e sintética, uma vasta gama de conceitos e teorias sem censuras científicas, religiosas, políticas, etc.  

 

Não conheço, por exemplo, nenhum professor de filosofia, além de mim, que ponha em causa o dogma da vacinação e forneça textos e videos críticos sobre esse tema,  o que prova que o ensino da filosofia  nas escolas é, quase todo, uma mera extensão das ciências oficiais e não uma crítica inteligente destas. Quantos são os professores de filosofia que sabem contrapor à medicina alopática, com a sua teoria causal bacteriana e viral das doenças, a concepção neo-hipocrática holística de que as múltiplas doenças locais são manifestação de uma só doença geral, a toxe-sangue-linfa (doutrina da unicidade das doenças) e de que um mesmo alimento são (exemplo: maçãs, uvas,etc) é ´capaz de curar doenças distintas em diferentes orgãos do corpo(unicidade da terapia alimentar)? Muitíssimo poucos... A incultura epistemológica reina entre os utilizadores dos «inspectores de circunstâncias», das «derivações», que vivem na casa vazia de uma lógica formal...

 

Aliás, os patrões das grandes editoras escolares não autorizam manuais de filosofia com textos contra a vacinação porque são amigos de médicos alopatas e querem estar nas boas graças dos políticos ligados às multinacionais farmacêuticas. Assim se condiciona e limita o campo filosófico, vergando-o aos lobbies do dinheiro...

 

Basta ver como os manuais escolares enfatizam os textos e a teoria de Karl Popper, um filósofo de segunda classe, inócuo para as ciências ideologicamente dominantes, e omitem, quase sempre por completo, os textos e a teoria de Paul Feyerabend. O servilismo dos manuais escolares escritos por membros da Sociedade Portuguesa de Filosofia (Desidério Murcho, Aires Almeida, Pedro Galvão, Luís Rodrigues, Pedro Madeira, etc) face à medicina alopática, à historiografia oficial liberal , etc, é confrangedor e obedece ao princípio positivista lógico: «nós em filosofia só tratamos da análise da linguagem e da ética, as questões científicas da medicina, astronomia, biologia, etc ficam a vosso cargo, ó cientistas, escrevam e façam o que quiserem, nós não incomodamos».

 

 

DETERMINISMO NÃO É EXATAMENTE O MESMO QUE DETERMINISMO EXCLUENTE DO LIVRE-ARBÍTRIO 

 

 

Vejamos algumas questões de estrutura ou correção oficial erróneas na prova 714 (versão 1) de exame nacional de filosofia de Junho de 2012.

 

GRUPO 1. 1.

 

Leia o texto seguinte do filósofo Espinosa acerca do problema do livre-arbítrio.

 

 

Texto A

 

Uma pedra recebe de uma causa exterior que a empurra uma certa quantidade de movimento,

 pela qual continuará necessariamente a mover-se depois da paragem da impulsão externa. [...]

 Imaginai agora, por favor, que a pedra, enquanto está em movimento, sabe e pensa que é

 ela que faz todo o esforço possível para continuar em movimento. Esta pedra, seguramente, […]

 acreditará ser livre e perseverar no seu movimento pela única razão de o desejar. Assim é esta

 liberdade humana que todos os homens se vangloriam de ter e que consiste somente nisto, que os

 homens são conscientes dos seus desejos e ignorantes das causas que os determinam.

 

Spinoza, «Lettre àSchuller», in Oeuvres Complètes, Paris, Gallimard, 1954

 

 

 

Identifique a tese defendida no texto.

 

Justifique a resposta, a partir do texto.

 

 

 

Cenário de resposta:

 

A resposta integra os seguintes aspetos, ou outros considerados relevantes e adequados:

 

– identificação da tese defendida no texto como sendo a tese do determinismo;

 

– interpretação do exemplo e da conclusão do texto – aplicação do argumento da causalidade e da tese

 

da negação do livre-arbítrio.

 

 

 

Crítica minha:  Existe aqui uma confusão. A tese que Spinoza exprime não é a do determinismo em geral , princípio da conexão necessária e uniforme de causas e efeitos, mas sim a do determinismo sem livre-arbítrio a rodeá-lo, isto é, aquilo que os manuais designam como determinismo radical. O que Spinoza nega no texto é a possibilidade real de os homens interferirem nas ações em que estão lançados por causas que lhe são estranhas e o que Spinoza realça é a ilusão em que os homens vivem de possuirem livre-arbítrio.  No texto não está presente, de modo explícito,  a tese do determinismo associado ou compatibilizado com livre-arbítrio, isto é, aquilo que os manuais e Blackburn designam por determinismo moderado . Logo, dizer que a tese do texto é o determinismo é uma resposta vaga, parcialmente errónea. A resposta correcta seria: determinismo excluente do livre arbítrio (vulgo determinismo radical). 

 

A ANÁLISE SEM VISÃO DE SÍNTESE DEFORMA, ISOLA, FRAGMENTA, O QUE NÃO PODE SER ISOLADO

 

 

 

Vejamos a segunda  pergunta  do grupo I:

 

2.

 

 

Leia o texto seguinte.

 

Texto B

 

Quando Kant propõe […], enquanto princípio fundamental da moral, a lei «Age de modo que

 a tua regra de conduta possa ser adotada como lei por todos os seres racionais», reconhece

 virtualmente que o interesse coletivo da humanidade, ou, pelo menos, o interesse indiscriminado

 da humanidade, tem de estar na mente do agente quando este determina conscienciosamente a

 moralidade do ato. Caso contráio, Kant estaria [a] usar palavras vazias, pois nem sequer se pode

 defender plausivelmente que mesmo uma regra de absoluto egoísmo não poderia ser adotada por

 todos os seres racionais, isto é, que a natureza das coisas coloca um obstáculo insuperável à sua

 adoção. Para dar algum significado ao princípio de Kant, o sentido a atribuir-lhe tem de ser o de que

 devemos moldar a nossa conduta segundo uma regra que todos os seres racionais possam adotar

 com benefício para o seu interesse coletivo.

  

John Stuart Mill,Utilitarismo, Porto, Porto Editora, 2005

 

 

 

Na resposta a cada um dos itens de2.1. a 2.4., selecione a única opção adequada ao sentido do texto.

 

Escreva, na folha de respostas, o número do item e a letra que identifica a opção escolhida.

 

 

2.1.

 

 

Segundo Stuart Mill, Kant verdadeiramente valoriza:

 

(A)as circunstâncias da ação.

 

(B)o interesse da humanidade.

 

(C)o imperativo categórico.

 

(D)um imperativo hipotético.

 

 

Crítica: Os critérios  de correção dizem que a resposta certa é a B, o interesse da humanidade. Está certo mas não pode considerar-se menos certa a resposta C) , o imperativo categórico, que manda que se considere cada pessoa como um fim em si e não um meio da ação do sujeito. Portanto, há duas respostas certas e não uma. A análise sem uma concomitante visão de síntese deforma, isola e fragmenta o que não pode ser isolado, fazendo ver só árvore sem ver a floresta. 

 

MILL VALORIZA A INTENÇÃO NA AÇÃO MORAL, AO CONTRÁRIO DO QUE SUPÕEM OS AUTORES DA PROVA

 

Analisemos outra questão de escolha múltipla, o tipo de questão em que é habitual os autores, que carecem de uma visão dialética de síntese, escorregarem.

 

2.3.

 

Stuart Mill defende que uma ação tem valor moral

 

(A)sempre que o agente renuncia ao prazer.

(B)quando a intenção do agente é boa.

(C)sempre que resulta de uma vontade boa.

(D)quando dela resulta um maior bem comum.


 

Crítica minha: os critérios de correção sustentam que só a  hipótese D está correcta. Na verdade, a hipótese B está igualmente correcta porque Mill, ao contrário do que supõem os autores da prova, valoriza a intenção do agente.  Em "Utilitarismo", Mill dá o exemplo de um homem que salva um seu inimigo de morrer afogado a fim de o torturar com requintes sádicos e considera que essa ação de salvamento é moralmente má porque a intenção do agente é má. Isto prova que, em certas ações, a intenção é mais importante que o resultado prático, segundo Mill. A moral deste é deontológica, ao invés do que dizem as mentes «quadradas» dos «analíticos».  É uma deontologia, não da universalidade abstracta, mas das maiorias particulares e concretas em cada situação.

 

 

Os vesgos parafilósofos analíticos dividem a ética em três grandes correntes: ética das virtudes de Aristóteles, ética deontológica de Kant e ética consequencialista de Mill. Não se dão conta da unidade essencial destas três correntes: são todas deontológicas.  

 

A NÃO DISTINÇÃO ENTRE VALIDADE DEDUTIVA E VALIDADE INDUTIVA E AS AMBIGUIDADES QUE ISSO GERA

 

Vejamos o grupo II da prova de exame (versão 1).

 

 

2.2.

 

 

 

Num raciocínio indutivo forte, a verdade

 

 

(A)da conclusão é garantida pela verdade das premissas.

 

 

(B)das premissas torna provável a validade da conclusão.

 

 

(C)da conclusão é garantida pela validade das premissas.

 

 

(D)das premissas torna provável a verdade da conclusão.

 

 

Crítica minha: Os critérios de correção indicam que só a resposta D é correcta, o que é uma estupidez : a resposta A está também certa (exemplo: a verdade da permissa "o Sol nasce diariamente desde há milhões de anos no horizonte terrestre", garante a verdade da conclusão  "logo, hoje mais uma vez o Sol tinha de nascer no horizonte")  e a resposta B está também correcta. Note-se que se pode falar em validade formal dedutiva e em validade indutiva, substancial mas o texto e os critérios de correção não esclarecem esta distinção...Por isso, há mais que uma resposta certa.

 

DA NÃO DISTINÇÃO ENTRE IMPRESSÕES DE SENSAÇÃO E IMPRESSÕES DE REFLEXÃO, EM HUME

 

 

 

Vejamos uma questão do grupo IV da prova 714.

 

 

GRUPO IV

 

1.

 

Leia o texto seguinte.

 

Texto E

 

 

[…] Quando analisamos os nossos pensamentos ou ideias, por mais complexos ou sublimes que

 possam ser, sempre constatamos que eles se decompõem em ideias simples copiadas de alguma

 sensação ou sentimento precedente. Mesmo quanto àquelas ideias que, à primeira vista, parecem

 mais distantes dessa origem, constata-se, após um exame mais apurado, que dela são derivadas.

 A ideia de Deus, no sentido de um Ser infinitamente inteligente, sábio e bondos, deriva da reflexão

sobre as operações da nossa própria mente e de aumentar sem limites aquelas qualidades de

bondade e de sabedoria.

 

 

David Hume, «Investigação sobre o Entendimento Humano», in

 

Tratados Filosóficos I, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002

 

  

1.1.Nomeie os tipos de perceção da mente, segundo Hume.

 

 

1.2.Explicite, a partir do texto, a origem da ideia de Deus na filosofia de Hume.

 

2.Confronte as ideias expressas no texto de Hume com o racionalismo de Descartes.

 

Na sua resposta, deve abordar, pela ordem que entender, os seguintes aspetos:

 

 

inatismo;

 

valor da ideia de Deus.

 

  

Cenário de resposta

 

A resposta integra os seguintes aspetos, ou outros considerados relevantes e adequados:

 

– relação entre as impressões e as ideias e entre as ideias simples e as ideias complexas;

 

– identificação da ideia de Deus como ideia complexa que tem por base ideias simples que a mente e

 

a vontade compõem e potenciam.»

 

 

Crítica minha: nos critérios de correção não se faz a distinção entre impressões de sensação e impressões de reflexão, ambas elas tipos de percepção da mente, distinção capital na gnosiologia de Hume. Se não houvesse impressões de reflexão como os sentimentos de bondade, de respeito por todos os seres humanos, etc, seria impossível formar a ideia de Deus.

 

Verifica-se, por conseguinte, analisando o teor deste exame 714, que as provas de exame nacional de filosofia em Portugal continuam a ser elaboradas por intelectuais de segunda e terceira categorias, destituídos de racionalidade holística e de poder de análise rigorosa. Há muita falta de imaginação, rigor e criatividade na elaboração destas provas, reflexo do ensino burocrático que a grande maioria dos professores do ensino secundário e universitário ministra. 

 

Os burocratas da filosofia, pequenos Stalines do formalismo lógico, chegam ao ponto de dizer que «o programa de filosofia do 10º ano não permite que se fale nos três mundos de Platão nem nos conceitos de tó on e tó tí nem na teoria das quatro causas de Aristóteles nem no taoísmo e dualismo Yin-Yang, nem na tese do microcosmos como espelho do macrocosmos»... Na sua ânsia de atacar-nos,  aos que somos criativos e cultos no ensino da filosofia, os «stalino»-analíticos confundem deliberadamente o programa (conjunto de linhas gerais) com os conteúdos que cada professor pode e deve livremente explanar e argumentam, falaciosamente, que «Platão, Aristóteles, Hegel, a teoria dos valores de Max Scheler, realismo/idealismo, estão fora do programa» só porque este não os menciona explicitamente. O que eles não sabem é quase nada de filosofia, não pensam, e mordem-se de inveja dos que sabem, dos que pensam...

 

O grande caos mental da filosofia analítica, iniciado com a tese paradoxal de Bertrand Russel de que «há classes que são membros, isto é, partes, de si mesmas, como a classe dos objetos abstratos», não cessa de aumentar e contamina os "filósofos de cátedra", os professores do secundário e os alunos - excepto os inteligentes, que resistem.

Platão dizia que o povo não é filósofo e isso aplica-se ao povo dos professores de filosofia que é ainda uma pequena multidão, pouco destacada intelectualmente, da multidão em geral.

 

Uma pequena multidão de professores demasiado uniforme, portadora de um horizonte totalitário de «não sair do programa, uniformizar», «agnóstica», politicamente demoliberal (numa democracia sequestrada), epistemológica e cosmologicamente totalitária, rejeitando, por princípio, a astrologia determinista histórico-social e as «ciências herméticas» (Cabala, I Ching, antroposofia de Rudolf Steiner, medicinas sagradas tradicionais, etc), socialmente empenhada na ascensão através de mestrados e doutoramentos que lhe dêem prestígio e vantagens económicas. As universidades, mesmo as estatais, parecem estar a transformar-se em prostitutas que, a troco de dinheiro, vendem mestrados e doutoramentos a qualquer professor/ licenciado medianamente inteligente.

 

Assim, a estratégia dos que amam a verdade, dos autênticos filósofos, passa por denunciar as actuais universidades, ocupadas por catedráticos e professores auxiliares sem qualidades superiores de inteligência e de saber erudito e sem coragem para afrontar a tecnociência e os interesses económicos e políticos das burguesias e burocracias dominantes.

 

E criticar, com paciência e clareza racional, a esmagadora maioria dos professores do ensino secundário que repetem os mesmos clichés confusos do tipo «o utilitarismo é um consequencialismo», «as éticas de Mill e de Aristóteles não são deontológicas», «o determinismo duro, o determinismo moderado, o libertismo e o indeterminismo são as quatro correntes sobre a questão do livre-arbítrio e da acção humana», «o libertismo é um incompatibilismo», «o relativismo é incompatível com o objectivismo», etc. É uma grande maioria, relativamente impensante, de professores, medianos e medíocres.

 

Destes, alguns, anti-racionalistas confessos, porque o curto raio (ratio) de alcance do seu pensamento não lhes permite atingir e compreender a posição dos planetas no Zodíaco e correlacionar com os factos terrestres sociais e biofísicos - refiro, entre outros, Carlos Pires («Dúvida Metódica»), Sérgio Lagoa, Tiago Pita, Valter Boita, Vítor Guerreiro, Aires Almeida, Carlos Alberto Gaspar, Rolando Almeida, Olívia Macedo, António Gomes, Luis Mendes, Isabel Versos, Rui Areal - destilam sarcasmos e falácias ad hominem contra este blog e o seu autor, o que me diverte bastante, mas não me desvia da luta pela claridade do pensamento filosófico e pela verdade. Doa a quem doer.

 

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Sexta-feira, 30 de Março de 2012
Questionar Irene Borges-Duarte: em Kant, o "quê" da acção está fora da ética?

 

Citando  a fórmula do imperativo categórico de Kant «Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa sempre valer ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal.», Irene Borges-Duarte, professora da Universidade de Évora, tece as seguintes considerações:

 

 «Pode haver maior "formalismo" que o que este princípio ético, aqui reproduzido na fórmula crítica mais pregnante, enuncia? (...)

«Em primeiro lugar: a forma verbal do imperativo obriga a um compromisso. Estranho compromisso com...coisa nenhuma. Nesta formulação, parece faltar toda a matéria a que se aplique, toda a referência a objetos, a situações, a qualquer tipo de mediações com a realidade da vida. Não é uma norma de prudência, de justiça ou de equidade ante uma solicitação ou causa prévia. Não deixa supor que a acção, de que é nela questão, tenha um qualquer motivo, que a peça ou impulse. O compromisso que é exigido não é, com efeito, o de um "quê", mas de um "como" (so, dass...) "de tal modo que..". Ao deixar em aberto a questão do "quê" , a lei geral de todo o agir, a que qualquer máxima subjetiva deve subordinar-se formalmente, parece abandonar o agente a uma real desorientação na esfera do fáctico e vivencial. Na verdade, nem se indica uma meta a perseguir, nem se codifica o que deva ser feito, nem se desenha uma doutrina, cujos claros ditames possam ser seguidos. »

 

( Irene Borges-Duarte, O homem como fim em si? De Kant a Heidegger e Jonas, in Revista Portuguesa de Filosofia, volume 61, pág. 844-845; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Compromisso com coisa nenhuma? Não. Discordo de Irene Borges-Duarte.  Há, de facto, um compromisso não explícito na fórmula do imperativo categórico acima explanada, um compromisso duplo: compromisso com a máxima, ou seja, com o princípio moral concreto, subjetivo, que norteia cada pessoa; compromisso com a humanidade em geral, através da equidade (universalizar a regra de tratar os outros, por exemplo: não favorecer os filhos dos ricos em relação aos filhos dos pobres, mas tratar todos por igual, no premiar ou no castigar).

 

Também não é fundado sustentar que o imperativo categórico "não é uma norma de prudência, de justiça ou de equidade ante uma solicitação ou causa prévia". O imperativo categórico é, devido à sua circularidade formal - o sujeito como centro da circunferência composta por todos os outros membros da humanidade - uma norma de justiça e de equidade ante a causa prévia que é a existência de uma máxima em cada sujeito (exemplos: «A minha máxima é produzir filmes sobre espécies animais em risco e mostrá-los aos alunos», «A minha máxima é procurar informar-me e informar alguns sobre a emigração») e de um público universal, que é o alvo e paciente do imperativo categórico. 

 

Não é também defensável dizer que no imperativo kantiano «nem se indica uma meta a perseguir, nem se codifica o que deva ser feito». A meta é a humanidade, o reino dos fins, que é o conjunto de todos os seres humanos postos numa base igualitária de direitos e deveres. O código é: universalizar a máxima ou lei moral subjetiva, fazê-la incidir sobre todos os homens do mesmo modo que sobre si mesmo.

 

Escreveu ainda a catedrática da Universidade de Évora:

 

«Voltamos, pois, ao já dito: "ética" é a forma, não a matéria da ação, é o "como", não o "quê".  (Irene Borges-Duarte, O homem como fim em si? De Kant a Heidegger e Jonas, in Revista Portuguesa de Filosofia, volume 61, pág. 847).

 

Não é uma formulação correcta, dialéctica, esta que Irene Borges-Duarte explana. Dialética significa: um divide-se em dois. Para Kant, a ética é a forma universalista do imperativo categórico adicionada do conteúdo material de cada máxima pessoal. Por exemplo, a ética do indivíduo A é: «Defendo que todas as pessoas devem ter o direito a usar uma arma de fogo de defesa pessoal, já que a minha máxima sempre foi essa, a de ter uma arma em casa.». A ética do indivíduo B é: «Defendo que todos os cidadãos comuns, não membros dos corpos militares e policiais, não devem ter direito a possuir armas de fogo de defesa pessoal, do mesmo modo que eu não possuo estas.»

 

Se a ética não englobasse a matéria da acção, seria a mesma em todos os indivíduos e o imperativo categórico perderia o seu carácter autónomo, variável de pessoa a pessoa autora da lei moral. A máxima, isto é, a peculiaridade de cada um nos valores e ideias directrizes da acção (causa formal, na perspectiva aristotélica), é um dos ingredientes da ética kantiana, é uma das torres do imperativo categórico, sendo as outras duas torres a universalização equitativa (causa eficiente) e a humanidade em geral (causa final, no sentido aristotélico). 

 

A FALÁCIA DO "TEM DE SER" DIFERENTE DO "DEVO FAZER" 

 

Irene Borges Duarte salienta ainda uma suposta diferença entre "dever" ou "devo fazer» e "ter de ser" como se este último fosse extrínseco ao "dever", o que é uma falácia:

 

«A segunda questão a atender consiste, justamente, em que Kant vai investir a expressão do "dever" imperativo, anteriormente enunciado, e que ele próprio no contexto pragmático das máximas de uso quotidiano, considera ser habitualmente "hipotético", num categórico ter de, cuja obrigatoriedade parece mais próxima de determinismo natural - a necessária sequência de tal efeito a tal causa - que da livre intervenção da vontade. (...) A mesma força constringente da "natureza" da nossa razão ordena e obriga, num caso, a agir (domínio práxico), no outro a conhecer (domínio teórico) algo como objecto da experiência. Mas em ambos casos, tem de ser assim!»

«.. O dever-ser torna-se de assertórico em categórico. " Tem de se poder querer que uma máxima da nossa acção se torne uma lei universal: tal é o canon para julgar moralmente em geral, o critério do juízo moral (...)

«O dever obriga pois como um ter de ser: converte-se num " não poder não querer" o fim adequado à pura racionalidade. Só desse modo, a razão pura se afirma, assim, como intrinsecamente prática.» (Irene Borges-Duarte, O homem como fim em si? De Kant a Heidegger e Jonas, in Revista Portuguesa de Filosofia, volume 61, pág. 846-847; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Em todo o dever há um ter de ser, que é o seu aspecto imperativo ou prescritivo, e um "ser quê", que é o seu aspecto descritivo ou conteudal. Separar o "dever" do "ter de ser" só pode ser feito neste sentido de separar a ordem dada, do conteúdo informativo dessa ordem. É isso que Irene Borges-Duarte não clarifica. O dever não se converte num "não poder não querer": ele já é, na sua génese, um "não poder não querer".

Na verdade, dizer, por exemplo, ao ver uma situação de atropelamento «Tens de ligar já ao 112 para vir buscar aquele ferido que está ali na estada, caído e inanimado» é o mesmo que dizer «Deves ligar já ao 112 para vir buscar aquele ferido que está ali na estada, caído e inanimado». Não há diferença entre o ter de e o deves, enquanto imperativo.

 

Não me parece correcta a asserção acima explanada: «A mesma força constringente da "natureza" da nossa razão ordena e obriga, num caso, a agir (domínio práxico), no outro a conhecer (domínio teórico) algo como objecto da experiência. Mas em ambos casos, tem de ser assim!» ». O conhecer, como objecto da experiência, não é um mecanismo formal necessário, é uma apreensão da máxima isto é do princípio subjectivo moral existente em cada indivíduo. Ora este princípio é contingente, é variável de pessoa a pessoa e repousa no sentimento ou na racionalidade senciente - tese que Kant não perfilha nem desenvolve, o que põe em evidência a fraqueza da sua doutrina, como muito bem apontou no século XX Max Scheler, o grande teórico alemão da ética material de valores a priori. Por conseguinte, em ambos os casos não tem que ser assim, ao contrário do que diz Irene Borges-Duarte. A razão não prescreve a máxima, recebe-a e universaliza-a. A máxima não tem que ser assim, é uma escolha (sentimental) de cada indivíduo.

 

Por outro lado, - aspecto que Irene Borges-Duarte não aborda - o "tem de ser" não é exclusivo do imperativo categórico: está presente no imperativo hipotético, ao qual subjaz o determinismo natural que condiciona o corpo e o conforto material de que necessita. Exemplo do imperativo hipotético do vendedor de enciclopédias: «Tens de vender o maior número de enciclopédias possível às pessoas porque tens as prestações da casa e do carro e a alimentação a pagar, para sobreviveres, e tens de persuadir as pessoas de que necessitam de comprar essas enciclopédias, mesmo que o conteúdo destas não ofereça a qualidade necessária e de nada sirva aos compradores, que são para ti meios de enriqueceres e sobreviveres.»

 


 

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Domingo, 30 de Janeiro de 2011
Incoerências no imperativo categórico de Kant

Kant formula de três maneiras o imperativo categórico ou imperativo universal do dever e desliza equivocamente entre as várias definições que são inconsistentes entre si. Escreve:

 

«O imperativo categórico é portanto só um único, que é este: Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal.»(...)

«O imperativo universal do dever poderia também exprimir-se assim: Age como se a máxima da tua acção se devesse tornar, pela tua vontade, em lei universal da natureza(Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, pag 59, Edições 70)

«O imperativo prático será pois o seguinte: Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio.» (ibid, pag 69)

 

Estas três formulações são inconsistentes entre si. A segunda é absolutamente democrática e igualitarista porque a lei universal da natureza não distingue ricos de pobres, negros de brancos e amarelos: a todos impõe a fome e a sede no curso de algumas horas do dia, a todos impõe o nascimento, o crescimento e a morte, e doenças diversas que não respeitam o indivíduo como um fim em si. A terceira fórmula não é democrática e igualitarista na sua aplicação, uma vez que sendo os indivíduos diferentes entre si e tendo sensibilidades que se opõem mutuamente, respeitar todos como um fim em si significa desenhar uma acção irregular, apoiando alguns mais do que outros, e em muitos casos é mesmo uma fórmula impossível de aplicar. Exemplo: se o Estado, baseado num imperativo universal de "servir o povo através de obras públicas" - aqui a primeira e a segunda fórmula do imperativo valem- expropria terrenos rurais onde há vivendas de famílias a fim de construir uma auto estrada, não trata como um fim em si essas famílias porque lhes impõe uma expropriação contra vontade destas.

 

Logo a terceira fórmula do imperativo, que exige desigualdade entre os indivíduos, um tratamento diferenciado, individualizado, está a ser espezinhada pelas duas fórmulas iniciais. Do mesmo modo, um pai que distribui desigualmente os seus apoios económicos aos filhos, dando, por exemplo, a um o triplo do dinheiro que dá a cada um dos outros porque o beneficiado é pobre e ganha muito menor salário do que os outros viola o princípio da imparcialidade que a primeira e. sobretudo, a segunda fórmula do imperativo categórico supõem.

 

Kant é pois, equívoco, sofístico, quando escreve:

 

«As três maneiras indicadas de apresentar o princípio da moralidade são no fundo apenas outras tantas fórmulas dessa mesma lei, cada uma das quais reúne em si, por si mesma, as outras. (...) (pag 79)

«O princípio : Age a respeito de todo o ser racional (de ti mesmo e de outrem) de tal modo que ele na tua máxima valha simultaneamente como fim em si, é assim no fundo idêntico ao princípio: Age segundo uma máxima que contenha universalmente em si a sua própria validade para todo o ser racional. » (ibid, pag 81; o negrito é de minha autoria).

 

Note-se o deslizar conceptual falacioso de Kant: a primeira fórmula do imperativo é, como vimos no início deste artigo, «Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal.» e não como aqui (pag 81) acima se explana: «Age segundo uma máxima que contenha universalmente em si a sua própria validade para todo o ser racional. » A validade universal para mim mesmo, subjectiva e autónoma, virada «para dentro», contida na primeira fórmula, não coincide com a validade universal para cada um dos outros, heterónoma, virada «para fora», contida na terceira fórmula.

 

Na primeira fórmula do imperativo categórico não está contida a premissa de considerar cada pessoa como um fim em si mesma mas sim a premissa de eu, sujeito, me considerar um legislador universal: o fim é a perfeição da minha equidade racional e não cada pessoa de cada um dos outros.

 

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Sexta-feira, 26 de Março de 2010
Será a maximização do prazer em Mill o imperativo categórico reduzido em Kant?

O imperativo categórico é frequentemente interpretado como um igualitarismo indiferenciado, unidimensional – tratar a todos da mesma maneira – quando, em muitos casos, é um igualitarismo diferenciado, um misto de igualdade e diferenciação – tratar a todos com um mesmo espírito fraternal mas de modos diferentes segundo a posição de cada um. Por exemplo, se alguém tem como imperativo categórico «Deves tratar toda a gente com cortesia», em Portugal aplicará esse imperativo tratando um médico por «senhor doutor», um operário por «senhor» e uma criança por «tu», isto é, estabelecerá matizes diferenciados no trato. Portugal é um país de velhas hierarquias onde a igualdade está ausente. No entanto, na Suécia, poderá aplicar esse imperativo de forma mais igualitário tratando por “tu” quer o médico, quer o operário quer a criança. O imperativo categórico de trato cortês na Suécia é mais categórico que o de trato cortês em Portugal?

 

Para distinguir a ética kantiana da ética utilitarista de Stuart Mill, Luís Rodrigues dá o seguinte exemplo no seu manual de filosofia para o 10º ano de escolaridade em Portugal:

 

«Um grupo de pioneiros atravessava o Oeste americano quando o comboio em que viajavam foi atacado por índios. Um pequeno número conseguiu escapar e, perseguido por índios, refugiou-se num pequeno bosque. Quando alguns índios tentavam encontrá-los, um bebé começou a gemer e a dar sinais de que iria chorar. Imediatamente, a mãe sufocou-o sacrificando-o para que o resto do grupo não fosse detectado pelos índios e destinado a uma morte certa.»

«Recorrer à ética kantiana para avaliar a moralidade desta acção conduz-nos a uma resposta aparentemente evidente: estando a ética kantiana centrada na ideia de dever e na crença de que há deveres categóricos, absolutos e incondicionais, como «Nunca deves matar ninguém» e «Deves dizer sempre a verdade» então concluiremos que a acção da mãe foi moralmente incorrecta. Podemos imaginar que a mãe do desafortunado bebé oscilou entre o dever de não matar um ser querido e inocente e o dever de ajudar e salvaguardar os outros membros do grupo.» (Luís Rodrigues, Filosofia,10º ano, Plátano Editora, Pág. 190).

 

Este exemplo visa esclarecer que foi a ética utilitarista de Stuart Mill – - agir favorecendo a felicidade do maior número de pessoas ainda que prejudicando alguns -– e não a ética kantiana, que norteou a atitude da mãe infanticida.

Note-se que se a moral kantiana assenta em pressupostos como «Nunca deves matar ninguém» e «Deves dizer sempre a verdade», como diz Luís Rodrigues,  é uma ética material e não formal, pois estas regras têm um conteúdo material. Como é que um soldado ou um polícia que cumpre o seu dever pode cumprir este imperativo categórico de «nunca mates ninguém»? Só por alta percentagem de sorte ou por uma vontade ferreamente pacifista não disparará e não matará ninguém durante anos e anos nessa função.

 

A meu ver, a atitude desta mãe que escapava dos índios obedece ao seguinte imperativo misto, kantiano na primeira parte, utilitarista na segunda, por ela formulado: «Age de modo que a tua acção proteja sempre os interesses de preservação da vida de todos ou, caso tal não seja possível, os interesses de preservação da vida da maioria de pessoas implicadas numa dada situação mesmo que uma minoria de pessoas sofra com essa acção.»

Isto não é um imperativo categórico puro? Não. É um híbrido.de imperativo categórico e imperativo hipotético conforme ao dever, pois está dotado de universalidade, na forma inicial, e de generalidade não universal, na segunda forma. Poder-se-ia pensar que o utilitarismo de Stuart Mill seria uma das modalidades possíveis do imperativo categórico em Kant, isto é, um imperativo categórico reduzido, mas em rigor não é assim.

 

O imperativo categórico de Kant pode ser concebido segundo duas ordens de universalidade, facto que Kant parece não ter explicitado claramente: a universalidade a partir do sujeito, isto é, o centro da circunferência; a universalidade a partir do objecto, incluindo «os outros sujeitos» que para mim são objecto, e aí a circunferência desfaz-se e transforma-se numa elipse ou numa parábola ou numa curva absolutamente irregular dotada de vários centros.

Na primeira forma de universalidade encontra-se a fórmula primeira do imperativo categórico:

 

«Mas é melhor, no juízo moral, proceder sempre segundo o método rigoroso e basear-se sempre na fórmula universal do imperativo categórico: Age segundo a máxima que possa simultaneamente fazer-se a si mesma lei universal.» (Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Edições 70, Pág. 62)»

 

Na segunda forma de universalidade, tecida a partir do universo dos “objectos”, fragmentado, com seres humanos divergentes ou antagónicos entre si, desfaz-se a primeira fórmula:

 

«O imperativo prático será pois o seguinte: Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como um fim e nunca simplesmente como meio (Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Edições 70, Págs. 69)»

 

Esta segunda fórmula implica a aceitação da pluralidade de comportamentos, atitudes, valores de cada um e, sem dúvida, está na base do personalismo cristão e maçónico que constitui o conteúdo da filosofia dos Direitos Humanos Universais consagrada no século XX. Mas, de algum modo, destrói a imparcialidade da primeira fórmula do imperativo categórico – agir como lei universal da natureza – porque exige a diferenciação, muitas vezes contraditória com a lei geral.

Usar a humanidade como um fim, é uma impossibilidade, em inúmeros casos concretos: o polícia que não disparar sobre o terrorista que está a ponto de fazer explodir a bomba que matará dezenas de pessoas não considera essas pessoas como fins em si mas considera o terrorista como um fim em si. Aqui a humanidade fragmentou-se e há que escolher segundo a generalidade: prevalece o interesse da maioria.

 

Ora existe, de facto, uma contradição entre a forma – a intenção do agente e o modo a priorico da acção - e a “matéria” – os seres humanos que vão ser alvo dessa acção.

Um exemplo seria o do capitão de um barco que se afunda com 50 pessoas das quais tem de escolher 30 para entrarem no bote salva-vidas, deixando afogar-se as 20 restantes por falta de meios. Como há-de por em prática o imperativo categórico de proteger a vida e a saúde de todos os tripulantes do seu barco? Não pode. Abandona a universalidade e contenta-se com a regra da maioria (generalidade) ou mesmo da minoria (particularidade). Neste caso, algumas pessoas estão a ser usadas como um meio para salvar as outras que são fins em si mesmas.

Não se cumpre a universalidade dos pontos da circunferência equidistantes do centro, beneficiários por igual deste, ainda que exista uma intenção de universalidade do capitão (o centro da circunferência) ao mandar inserir todas as crianças e respectivas mães no bote salva vidas, deixando perecer a maioria dos homens. A sua máxima é: «Salvar todos, em primeiro lugar as crianças e as respectivas mães, porque as primeiras são os seres com maior potencial de vida e maior grau de inocência.»

 

Kant admite aliás que há acções nas quais não cabe o imperativo categórico:

 

«Algumas acções são de tal ordem que a sua máxima nem sequer se pode pensar sem contradição como lei universal da natureza, muito menos ainda se pode querer que devam ser tal.» (Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Edições 70, Págs.62)»

 

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Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
A impossibilidade normativa de mentir compagina-se com o imperativo categórico em Kant?

A propósito da verdade como obrigatoriedade ética no dizer de cada um, escreveu Kant:

 

  

 

«Quem pois, mente, por mais bondosa que possa ser a sua disposição, deve responder pelas suas consequências, mesmo perante um tribunal civil, e por ela se penitenciar, por mais imprevistas que possam ser também essas consequências; porque a veracidade é um dever que tem de considerar-se como a base de todos os deveres a fundar num contrato e cuja lei, quando se lhe permite também a mínima excepção, se torna vacilante e inútil.»

 

«Ser verídico (honesto) em todas as declarações é, portanto, um mandamento sagrado da razão que ordena incondicionalmente e não admite limitação por quaisquer conveniências.» (Kant, Sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade, in A paz perpétua e outros opúsculos, pags 175-176, Edições 70, Lisboa; o bold é nosso).

 

  

 

Será a ética de Kant limpidamente uma ética formal? Não será a obrigação de dizer a verdade incondicionalmente um preceito de ética material?

 

 O imperativo categórico formulado por Kant «Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal», formulado na Crítica da Razão Prática, sofre uma distorsão, é invadido pelo lastro de granito da verdade - o ater-se aos factos e comunicá-lo - e é direccionado materialmente, perdendo o seu carácter formal.

 

 

 

Dizer sempre a verdade pode ir contra a lei moral estabelecida por cada um. Imaginemos um comandante militar que tem por imperativo categórico defender a pátria e a região que lhe está confiada: se acaba de ser informado que o inimigo tomou um quartel fundamental à defesa e está perigosamente próximo, pode não comunicar essa verdade ao destacamento de guerrilheiros sob o seu comando pois sabe que a desmoralização gerada por essa verdade levaria, provavelmente, à deserção de parte  dos seus homens e à derrota.

 

 

 

Kant, o «monstruoso» Kant, contradiz-se ao misturar princípios gerais de ética material, como o dizer a verdade, com o seu primeiro princípio da ética formal, o da liberdade «não egoísta» ou liberdade submissa à universalidade uniforme.

 

  

 

Nota: Está em risco de não se realizar, na Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja, por só haver 13 professores inscritos quando o mínimo exigido é de 20 inscritos, a acção de formação de professores de filosofia B4/2009- A Teoria Dos Valores, e a Ética, na Perspectiva do Método Dialéctico (50 horas) em que o formador é o autor deste blog. O horário das sessões é o seguinte: 10 de Outubro de 2009, 17, 24 e 31 de Outubro, (das 9.30 às 12.30 e das 14.30 às 17.30 horas em cada um destes dias); 5, 7, 14, 21 e 28 de Novembro de 2009 (das 9.30 às 12.30 e das 14.30 às 17.30 horas em cada um destes dias, excepto a 5 de Novembro; neste será das 17.30 às 19.30).

 

Se até 9 de Outubro, 7 professores de qualquer área de Portugal se inscreverem, a acção terá lugar. Se as 7 novas inscrições não surgirem, não haverá acção de Ética e Dialéctica neste país em que tão raras são as acções de formação de docentes de Filosofia...

 

 Inscrições no Centro de Formação de Associação de Escolas das Margens do Guadiana, entidade formadora: cfmguadiana@gmail.com

 

  

 

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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009
Pode o imperativo categórico justificar o terrorismo anti sistema?

Pode o imperativo categórico teorizado por Kant justificar a actividade terrorista anti sistema político-social? A meu ver, e no ver de outros, pode. No que teoriza como imperativo categórico, Kant postula fórmulas inconsistentes entre si.

O imperativo categórico idealizado por Kant é formal, isto é, abstracto, e autónomo, ou seja, variável de pessoa para pessoa, não imposto de fora à consciência. Ele diz: «Age como se quisesses que a tua acção fosse lei universal da natureza». Em termos populares: «Fazer o bem, sem olhar a quem; aplicar a lei, doa a quem doer».

 

Escreveu Adela Cortina:

«A priori, una moral universalista carece de límites, ya que desde el imperativo categórico todo puede ponerse en cuéstion; por tanto, también la acción política queda subordinada al juicio moral. Pero esta moralización del mundo político, puede favorecer actitudes terroristas, porque el terrorista, que se autocomprende como defensor último de la justicia, quererá realizar la libertad mediante la violencia directa: apelando a principios universales, practicará el "terror de la virtud"» (Adela Cortina, Ética sin moral, Editorial Tecnos, Madrid, 2008, pag 150).

 

Um terrorista da ETA pode matar guardas civis a partir do seguinte imperativo categórico por ele formulado: «Agirei como se quisesse que fosse lei universal o direito de todos os povos à autodeterminação, logo combaterei, com armas, pela independência do País Vasco, neutralizando ou executando todos os que se opuserem a isso, sejam guardas civis, juízes, deputados, governantes, ou até meus vizinhos, amigos e familiares.»

É isto um imperativo categórico? É, na medida em que se universaliza uma máxima, princípio moral subjectivo.

 

Kant escreveu:

«A lei moral é santa (inviolável). O homem não é certamente assaz santo, mas a humanidade deve ser para ele santa na sua pessoa. Em toda a criação, tudo o que se quiser e sobre que se tem algum poder pode também utilizar-se simplesmente como meio; unicamente o homem e, com ele, toda a criatura racional é fim em si mesmo». (Emanuel Kant, Crítica da Razão prática, Edições 70, pag 103)

 

A humanidade não é cada homem singular: é o conjunto de todos os homens. Por isso a santidade da humanidade, fim em si, sobrepõe-se à santidade de cada homem, fim em si. O terrorista não está moralmente inibido de matar alguns ao exercer a sua lei moral que «respeita a humanidade oprimida», isto é, a humanidade em geral, do mesmo modo que o soldado mata no campo de batalha guiado pelo imperativo categórico de «defender a pátria, mesmo à custa do sacrifício pessoal da vida».

 

Parece certo que Kant condenava o terrorismo, no seu imperativo categórico particular, gizado na mente de Emanuel Kant. Mas o princípio do imperativo categórico na sua primeira fórmula de universalizar a máxima de cada um, legado pelo filósofo pode ser aplicado com liberdade, até para fundar a acção terrorista, uma vez que é desprovido de conteúdo empírico.

 

Note-se que as fórmulas do imperativo categórico são inconsistentes entre si. A fórmula «Age como se a máxima da tua acção se devesse tornar, pela tua vontade, em lei universal da natureza» (Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, pag 59) é, em muitos casos incompatível com a fórmula «Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio.» (Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, pag 69). Esta última fórmula não é autónoma, mas heterónoma, porque nos força a considerar todas as pessoas como fins roubando-nos o poder de legislar moralmente.

 

Exemplo: um polícia dos grupos de operações especiais que tem por imperativo categórico «Age no sentido de defenderes todos os cidadãos honestos e pacíficos face ao crime organizado» ao abater a tiro um sequestrador armado que aponta a arma a um refém, deixa este livre ao considerá-lo como um fim mas não trata o sequestrador como um fim mas como um meio, a tal ponto que lhe rouba a vida. Viola, pois, o imperativo categórico na modalidade «Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio.»

 

 

Nota: No Centro de Formação Margens do Guadiana, com sede na Escola Secundária com 3º Ciclo Diogo de Gouveia, R. Luís de Camões, 708-508 BEJA (telefone: 284 328 063), estão abertas as inscrições para a acção de formação para professores de filosofia (Grupo 410) «A teoria geral dos valores e a Ética, na perspectiva do método dialéctico», equivalente a dois créditos, 50 horas de duração (50HP), CCPFC/ACC 52326/08 CF. O formador é o autor deste blog.

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