Terça-feira, 28 de Março de 2017
Teste de filosofia do 11º ano (21 de Março de 2017)

 

Eis um teste de filosofia, sem questões de escolha múltipla, o segundo teste do segundo período lectivo de uma turma do ensino secundário, no Baixo Alentejo, Portugal. 

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

21 de Março de 2017 Professor: Francisco Queiroz

I

” Para ver as coisas adequadas exige-se os instrumentos adequados. Para ver as longínquas galáxias necessita-se de telescópio. Para ver os deuses fazem falta homens adequadamente preparados para isso. As galáxias não desaparecem quando desaparecem os telescópios. Os deuses não desaparecem quando os homens perdem a faculdade de entrar em contacto com eles… Creio que estou de acordo com Börne quando diz que a história não é mais que o historiador que regista quanto sucedeu e que, desta forma, forja os acontecimentos, define-os, inclusivamente para aqueles que participaram neles.” (Paul Feyerabend, Diálogo sobre o Método)

 

1) Explique estes pensamentos de Feyerabend, interligando-os com as noções de ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO, INTELIGÊNCIA HOLÍSTICA, HOMO SAPIENS DOS TEMPOS DO MITO, IDEOLOGIA NA CIÊNCIA.

 

2)Explique, como, segundo a gnosiologia de Kant, se formam o fenómeno CORTIÇA o conceito empírico de CORTIÇA e o juízo a priori «Dezanove adicionado de dez perfaz vinte e nove».

      

3) Relacione, justificando:

 

A) Os três níveis de um Programa de Investigação Científica, segundo Imre Lakatos, por um lado, e os três tipos de ideias em Descartes, por outro lado

B) Indução amplificante, positivismo lógico, por um lado, e Princípio da falsificabilidade em Popper, conjectura e corroboração em Popper, por outro lado.

C) Realismo crítico na teoria de Einstein, epistemologia de Thomas Kuhn e princípio da incerteza de Heisenberg.

 

 CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA VINTE VALORES

 

1) Quando Feyerabend escreve no texto que « Para ver os deuses fazem falta homens adequadamente preparados para isso» está a referir-se à ausência de inteligência holística nos cientistas e universitários de hoje . A inteligência holística é a intuição e compreensão global do universo como um todo e pressupõe abarcar tanto a metafísica (os deuses, os universos paralelos) como a física e a biologia (os climas na terra, as rotações das colheitas, os ecossistemas). Pode haver ateus dotados de inteligência holística mas supõem um princípio uno atravessando e ligando todo o universo. Quando no texto Feyerabend diz que« estou de acordo com Börne quando diz que a história não é mais que o historiador que regista quanto sucedeu e que, desta forma, forja os acontecimentos, define-os» está a denunciar que a ciência histórica ensinada nas universidades está infectada pela ideologia subjectiva ou intersubjectiva do historiador.O anarquismo epistemológico de Feyerabend - anarquismo é ausência de hierarquia - diz que há múltiplos métodos válidos, incluindo os das ciências tradicionais que deveriam entrar as universidades e ter tanto estatuto  como as tecnociências que lá estão instaladas: a cura pelos cristais, a cura pelas pirâmides, a fitoterapia, o feng shui, a acupunctura, a astrologia, etc, são tão ou mais importantes que os raios laser, as cirurgias, as análises laboratoriais. Isto é o anarquismo epistemológico, a ausência de doutrinas-chefes: todas estão, em princípio, ao mesmo nível de poder social, não há um conjunto de ciências «superiores» que excluem as outras rotulando-as de «atrasadas, anticentíficas,  perigosas» e absorvem os financiamentos estatais e privados. Homens muito pouco honestos dominam as universidades e a investigação que nelas se faz: por exemplo o motor a água para automóveis inventado nos EUA em 1935 foi proibido de ser ensinado. Quanto ao facto de a ciência universitária estar misturada com ideologia e interesses de lucro de grandes empresas privadas há que acrescentar que, segundo Feyerabend, para os cientistas de hoje «a ciência é a nossa religião» o que significa que a mentalidade científica actual é dogmática, ideológica, como a teologia, acreditando em dogmas que não podem ser postos em causa, como por exemplo, « O Big Bang deu-se há 15 000 milhões de anos e foi o começo do universo», «as vacinas conferem imunidade», «os astros não comandam o comportamento humano».A inteligência do homo sapiens primitivo do mito é holística: ligado à natureza, percebendo o bater do relógio cósmico, o primitivo escuta o silêncio e rejeita uma civilização de tecnologia avançada em que milhares de automóveis atravessam a cada minuto as ruas de uma cidade, os túneis e viadutos, fazendo ruído e poluindo o ar com gases. Os homens do mito tinham uma medicina holística com a utilização de plantas curativas que purificam o sangue e qualquer orgão do corpo, e reflectida ainda na medicina dos séculos XVII-XIX que usava métodos tradicionais como medir as pulsações, ou utilizar as sanguessugas para chuparem sangue das pessoas e reduzir os riscos de AVC. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) Segundo a gnoseologia de Kant, o fenómeno cortiça forma-se na sensibilidade, no espaço exterior ao meu corpo físico, do seguinte modo: de «fora» da sensibilidade, os númenos afectam esta fazendo nascer nela um caos de matéria (exemplo: madeira, ferro, areia, etc, em um magma) que as duas formas a priori da sensibilidade, o espaço (com figuras geométricas) e o tempo (com a duração, a sucessão e a simultaneidade) moldam, fazendo nascer um ou mais fenómenos de cortiça. O entendimento, com as categorias de unidade, pluralidade, necessidade, confere consistência ao objecto/fenómeno cortiça. Não existe númeno cortiça, cortiça  é fenómeno na sua totalidade. O  conceito de cortiça forma-se no entendimento, faculdade que pensa mas não sente, do seguinte modo: a imaginação, situada entre a sensibilidade e o entendimento, transporta desde aquela a este as imagens de barco e as categorias do entendimento de pluralidade e unidade, realidade, recebem as diversas imagens e transformam-na numa só imagem abstracta, o conceito empírico de cortiça.

O juízo «dezanove adicionado de dez perfaz vinte e nove» forma-se no entendimento puro, na tábua dos juízos, após este receber as intuições puras de números 10, 19 e 29 que residem no tempo a priori, na sensibilidade, e transformá-las, pelas categorias de unidade, pluralidade, erc, em conceitos puros de 10, 19 e 29 (VALE QUATRO VALORES).

 

3-A) Imre Lakatos, epistemólogo húngaro, aceita igualmente a indução amplificante e defendeu que a ciência se estrutura em Programas de Investigação Científica (PIC). Cada um destes tem três níveis: o núcleo duro, conjunto das teses imutáveis; o cinto protector, conjunto das teses revisíveis, que podem ser rectificadas ou substituídas; a heurística, conjunto dos métodos de investigação livre, teórica e prática, que pode confirmar ou anular o PIC. Descartes defendeu haver ideias inatas (as ideias de círculo, triângulo, número, corpo, alma, Deus), a priori, indubitáveis como o núcleo duro. Defendeu haver ideias adventícias ou percepções empíricas (exemplo: rosa vermelha, vento quente, sabor doce) que não são absolutamente fiáveis como o cinto protector porque podem ser revistas. Defendeu também haver ideias factícias ou de imaginação livre (exemplo: um cavalo com orelhas de elefante) que podem assimilar-se à heurística ou pesquisa livre. (VALE QUATRO VALORES).

 

3-B) O positivismo lógico do círculo de Viena considera sem sentido a metafísica e afirmações desta como «Deus criou o Paraíso e o Inferno e pune os maus» porque não podem ser comprovadas empiricamente. Para este positivismo, só os factos empíricos ( exemplo: maçã, tornado, etc) e as suas relações lógico-matemáticas são verdade e a indução amplificante - generalização segundo uma lei necessária de alguns casos empíricos semelhantes entre si - é perfeitamente legítima. Karl Popper ao contrário de Kuhn, não acha que os paradigmas sejam incomensuráveis entre si, escolhe provisoriamente um em detrimento de outros, mas sustenta que as ciências empíricas ou empírico-formais não passam de conjuntos de conjecturas, hipóteses. Na linha de David Hume, Popper duvida da indução amplificante, achando que há sempre excepções a uma dada lei da natureza e considera ser impossível verificar essa lei pois teríamos de estudar centenas de milhar ou milhões de exemplos concretos. Popper diz que só é possível a corroboração ou confirmação de alguns exemplos através da testabilidade, isto é, realização de testes experimentais que se integram no princípio da falsificabilidade (todas as ciências são potencialmente falsas). No positivismo lógico, aceita-se a indução amplificante, geradora de teses, dogmas. Em Popper não há dogmas, certezas infalíveis, as teses da ciência são conjecturas ou hipóteses refutáveis (VALE QUATRO VALORES).

 

3-C) O realismo crítico é a teoria que afirma que há um mundo material anterior às mentes humanas e independente destas que o captam de maneira distorcida. O realismo crítico em Descartes consiste em postular o seguinte: há um mundo de matéria exterior às mentes humanas, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, forma, tamanho, número, movimento. As cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da minha mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios de partículas exteriores já que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. .Assim, a rosa não é vermelha, é apenas forma e tamanho. O ramo de rosas é apenas formas, tamanho e um certo número de unidades, não tem cor, nem cheiro, nem peso. O mármore não é frio nem duro, o céu não tem cor. Podemos dizer que a doutrina de Einstein é um realismo crítico na medida em que sustenta as seguintes teses, entre outras, contra-intuitivas, contra as aparências:

1) O espaço e o tempo não são realidades separadas, existe o espaço-tempo variável de lugar a lugar, não há um tempo absoluto universal.

 

2) O espaço-tempo não é feito de planos sobrepostos e linhas rectas como sustenta a geometria euclidiana e a física de Newton, é irregular e encurva na proximidade de grandes massas (exemplo: a esfera de metal deforma o lençol esticado, criando uma cova no centro).

 

3) A luz cuja velocidade é 300 000 quilómetros por segundo acompanha acurvatura do espaço tempo, não viaja em linha recta (um raio de luz lançado em direção a uma estrela tenderia a voltar à Terra dado que o universo é fechado) 

4) Quem viajasse a uma velocidade próxima da da luz envelheceria muito mais lentamente do que os habitantes da Terra;

 

5) A massa de um corpo aumenta com o aumento da sua velocidade de deslocação.

 

Kuhn defendeu incomensurabilidade dos paradigmas é a impossibilidade de medir exactamente o valor de cada doutrina científica e das suas rivais: não se pode dizer, por exemplo, que o heliocentrismo é melhor que o geocentrismo, em termos globais, ainda que se possa dizer que, neste ou naquele aspecto (exactidão/experimentação, fecundidadesimplicidade, etc) um deles é superior ao outro. É compatível com a teoria das revoluções científicas em Kuhn. Esta consiste em afirmar que as ciências se desenvolvem segundo a lei do salto de qualidade: durante décadas ou séculos uma ciência é aceite pela comunidade científica e designa-se por ciência normal mas vão-se acumulando lentamente anomalias até que surge um paradigma ou modelo teórico oposto, chamado ciência extraordinária que acaba por substituir a ciência até então dominante (revolução científica). O princípio da incerteza de Heisenberg estabelece ser impossível conhecer em simultâneo a velocidade e a posição de um electrão ou partícula do mesmo género microfísico: ou se conhece a velocidade ou se conhece a posição, o que sugere a nuvem electrónica, uma «fotografia» de um turbilhão.

 

Pode dizer-se que a teoria da curvatura do espaço tempo de Einstein  foi uma ciência extraordinária que se transformou por uma revolução científica, de acordo com Kuhn, em paradigma dominante (VALE QUATRO VALORES).

 

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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2016
Reflexões pessoais de Outubro de 2016

 

 

Eis algumas reflexões despretensiosas que surgem ou ressurgem no fluir dos dias outonais.

 

TATUAGENS. Não sou a favor das tatuagens. Pedi a uma amiga querida que não se tatuasse. A tatuagem é, para os cristãos evangélicos, a marca da Besta de que fala o livro do Apocalipse de São João. Ser tatuado é estabelecer um vínculo «inapagável» com um acontecimento da vida ou uma entidade real humana ou mitológica. Para mim, a principal razão de ser contra as tatuagens é a de que injectam tinta na pele, que é o nosso terceiro pulmão, e infectam células e o sangue. A pele respira, elimina pelas glândulas sebáceas ou sudoríparas, e nas zonas tatuadas não respira bem. Certos cancros de pele derivam de tatuagens muito extensas. Mas a tatuagem é também um sinal de pertença a um grupo, a uma ideologia e o problema é que a vida de cada um muda, desliga-se desse grupo ou ideologia mas a tatuagem fica lá a exprimir uma opção que já se abandonou. E quanto a mim e a alguns psicanalistas, tatuar-se pode representar não amar o seu corpo, ser auto destrutivo/a. Que as minhas amigas tatuadas me desculpem mas para mim a tatuagem é anti erótica. Um corpo jovem de mulher, de pele branca ou morena sem tatuagens, é o cume do templo do erotismo, deslumbra, atrai.

 

AO ENTRAR EM CASA, TIRO SEMPRE OS SAPATOS E CALÇO CHINELOS. É uma medida de higiene, praticada, entre outros, por japoneses e suecos. Faz o mesmo! Já pensaste na porcaria que é transportares nas solas dos teus sapatos para o teu quarto, para a tua sala de jantar e outros compartimentos, restos de excrementos de cão, gato, etc, sem que te apercebas? IMPÕE ESSA NORMA DE HIGIENE PARA TODOS, em tua casa! Chinelos para todos, frente à porta da rua, no interior!

 

ANTÓNIO ZAMBUJO E MIGUEL ARAÚJO SÃO CANTORES ANTI PODER OU EMBAIXADORES DA CLASSE DOMINANTE? Ambos cantaram, de 27 a 29 de Outubro de 2016, em três espectáculos no Teatro Pax Julia em Beja, apinhado. Zeca Afonso era um cantor anti poder.. E quantos o são, em Portugal? Os Xutos e Pontapés fizeram uma única canção de crítica ao engenheiro Sócrates... Os artistas em Portugal terão medo do poder político e financeiro que lhes paga muitos dos concertos?

 

A ELEIÇÃO DE GUTERRES PARA SECRETÁRIO-GERAL DA ONU É MÁ PARA PORTUGAL E A EUROPA. António Guterres aderiu ao Clube de Bilderberg na primeira metade dos anos 90 e pouco depois, vencia, como líder do PS, as eleições de 1 de Outubro de 1995 e ascendia a primeiro-ministro de Portugal. O clube de Bilderberg, a que pertencem Marcelo Rebelo de Sousa, Pinto Balsemão, Paulo Portas, José Sócrates, Ricardo Espírito Santo, Pedro Santana Lopes, Henry Kissinger, Btll Clinton, é o tenebroso clube dos mais ricos do mundo, reune anualmente e planeia o lançamento de guerras e o governo mundial, diminuindo através de manobras da banca e de leis aprovadas nos parlamentos, o poder de compra da classe média, da classe operária, precarizando o emprego dos jovens, viciando estes em telemóveis e telejogos, drogas, etc. O pseudo catolicismo humanista de Guterres é uma farsa,,,

 

PADRES E PASTORES PROTESTANTES SÃO DESNECESSÁRIOS, O ÚNICO MEDIADOR ENTRE O HOMEM E DEUS (SE ESTE EXISTIR) É CRISTO. O PAPA FRANCISCO É UM JESUÍTA MAÇON IDOLATRADO, UM ADORADOR DE LÚCIFER, O PORTADOR DA LUZ. A igreja católica é, com as outras igrejas cristãs, islâmicas, budistas, hindus, jainistas, xintoístas, etc, uma organização de controle de massas que, objectivamente, ajuda o capitalismo a desenvolver-se, os ricos a ser cada vez mais ricos. A adoração que os católicos têm pelo papa Francisco, ex cardeal Jorge Bergoglio, membro da maçonaria, que adora Lúcifer, o anjo caído que defendeu o homem contra Iaveh, o demiurgo deste mundo, é absolutamente idólatra e é anti Cristo. O papa é um ídolo, é o bezerro de ouro - o Vaticano está cheio de ouro - de que fala a Bíblia. Ouvir o papa, com a sua linguagem melíflua e efeminada, é ouvir a versão soft dos senhores da guerra na Síria, no Iraque, do grupo de Bilderberg, etc. O papa não proíbe aos católicos serem soldados que vão matar nas frentes de guerra imperialista, logo está ao lado dos EUA, do Reino Unido, da França e da Alemanha imperialistas.

Se queres orar, dirige-te directamente a Jesus, que nem sequer morreu na cruz, como diz o evangelho apócrifo de Pedro. A salvação é individual, não carece de qualquer sacramento - confissão, comunhão, batismo são inúteis, servem apenas o crescimento burocrático do clero, só a fé salva - se é que há salvação e vida no «além».

 

A ARISTOCRACIA OPERÁRIA. É um conceito leninista: uma camada de operários muito bem pagos pelo facto de realizarem certos trabalhos especializados. Uma minha colega indigna-se contra exemplares desta espécie: «Um homem, com ajudante, foi montar uma salamandra a minha casa. No final do serviço feito em menos de dois dias levou ...400 euros. Eu disse; «Isso é um roubo. É um terço do meu salário». Canalizadores, electricistas, pedreiros ganham bem a vida se forem honestos - e ganham demasiado bem em termos monetários se forem desonestos, como sucede com uma boa parte deles.

 

TODOS ESTES CONCERTOS MUSICAIS DE MULTIDÕES ( O ROCK AND RIO, O FESTIVAL DA ZAMBUJEIRA DO MAR, O MEO ARENA CHEIO, ETC) SÃO FALSAS SOLIDARIEDADES ENTRE AS PESSOAS. É uma felicidade transitória, sem continuidade. Gostas de ser rebanho e de sentir a multidão a «apoiar-te», mas ninguém te apoia. Só a tua amada/o, o teu familiar íntimo, o teu raro amigo/a te apoiam.... e até certo ponto Para quê seguires a estúpida opinião dos outros e preocupares-te com o que dizem de ti em vez de ouvires a tua voz interior, o teu «daimon»? Permanece só, para poderes, livremente, ajudar ou amar outras pessoas.

 

NÃO PERCEBO PORQUE SE AMA ESTA MULHER E NÃO AQUELA. À partida, olhamos uma multidão de mulheres e são incognoscíveis no seu interior: não vemos o seu pensamento, a sua alma oculta. Então porque me apaixono por esta? Porque tem o olhar mais lindo ou o sorriso mais lindo e é bastante jovem. É, pois, pela emoção estética, não pela ética nem pela agudeza da inteligência, que nos apaixonamos. Parece injusto, não?

 

RURAL BEJA- A primeira noite da «Rural Beja», feira outonal de vinhos, queijos, frutos secos e outros produtos, música e arte equestre na cidade de Beja, em 6 de Outubro de 2016, foi brilhante: um magnífico concerto musical dos Stranglers, que temiam tocar numa cidade pequena. Já na  madrugada de 8 de Outubro atuou no palco exterior a banda portuguesa HMB: foi, em minha opinião, uma banalidade, um concerto muito inferior ao dos Stranglers. Em ambos os concertos fui o «senhor tapa ouvidos»: ouvi as músicas todas com os dedos a fechar com os lóbulos das orelhas, os ouvidos. O som é ensurdecedor, brutal, ilegal. Onde estão as autoridades que controlam a saúde pública?

Na Rural Beja revêem-se velhos amigos e amigas. Alguém me diz: «Esta feira é mais nossa, dos bejenses, do que a Ovibeja de Maio. E ainda por cima é gratuita, ao contrário da Ovibeja.»

 

UM NOVO AMOR- Um novo amor é quase sempre refrescante para a planície seca das nossas almas. Um amigo meu diz: «O que é preciso é mudar de mulher». A fase da paixão ou do encantamento mútuo sem paixão é o melhor que há. Cada caso é um caso e cada um saberá avaliar. Mas é preciso viver hoje porque amanhã já podes ter morrido.

 

SINCRONISMOS ONTOFONÉTICOS . Em 4 e 5 de Outubro de 2016, as ideias de ROSA, FREIXO e NUNO estão em foco: no dia 4, a propósito do festival de cinema de Berlim, revejo a data de assassinato por militares direitistas da revolucionária marxista ROSA Luxemburgo, em Janeiro de 1919; no dia 5, desloco-me a Serpa onde encontro o meu amigo britânico Christopher, que me mostra a sua filha Elle ROSE, com 17 dias de idade, e converso com Carlos, um jurista de Setúbal que diz que não há duas pessoas iguais e que o mal dos portugueses é serem pessimistas e não ousarem mostrar a criatividade e o valor que possuem e terem medo de ser individualistas e livres da censura social, desloco-me a ROSAL de la Frontera e daqui viajo para Sobral de Adiça onde vejo NUNO, agricultor, e fico retido por avaria técnica não conseguindo ir a Safara onde há 2 anos e 2 meses colhi uma ROSA no jardim público em noite de festa, o telejornal da TVI exibe o deputado do CDS NUNO Magalhães e o secretário-geral do PSD José Matos ROSA, FRAZER (evoca: FREIXO) Stodart é um dos cientistas de nanotecnologia vencedores do prémio Nobel da Química, falo com Fábio ValFREIXO, de Moura.

 

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Segunda-feira, 29 de Fevereiro de 2016
Teste de Filosofia do 11º ano, turma B (Fevereiro de 2016)

 

Eis um teste de filosofia fora do estereótipo dos testes que os autores dos manuais escolares da Porto Editora, Leya, Santillana, Areal Editores, etc, divulgam. E sem questões de escolha múltipla que, frequentemente, são incorrectamente concebidas por quem não domína o método dialético e desliza para a horizontalidade da filosofia analítica vulgar. Só os professores que conseguem afastar-se do modelo de testes que os manuais de filosofia, estereotipados, difundem, têm possibilidade de ser verdadeiramente bons. Há uma radicalidade de pensamento que só o individualismo radical atinge.

 

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B

24 de Fevereiro de 2016. Professor: Francisco Queiroz.

 I

"Feyerabend criticou o método das conjecturas e refutações de Popper, em particular pela posição deste face à astrologia e à medicina hopi, e declarou que os homens da idade da pedra, inventores dos mitos, «livres do jugo da especialização, estavam conscientes da grande quantidade de relações entre os homens e entre estes e a natureza». Afirmou ainda Feyerabend, anarquista epistemológico, que, hoje, com o racionalismo fragmentário actual, mera ideologia, « temos uma religião sem ontologia, uma arte sem conteúdos, e uma ciência sem sentido»

 

1)Explique, concretamente este texto

 

2)Explique como, na ontognoseologia de Kant, se formam o fenómeno CEGONHA e o conceito empírico de CEGONHA.

 

2) Relacione, justificando:

A) Positivismo lógico do círculo de Viena e indução amplificante, por um lado, corroboração e testabilidade em Karl Popper, por outro lado.


B) B) Método hipotético-dedutivo, ciências empírico-formais e ciências hermenêuticas


C) Fenomenologia, realismo crítico e cepticismo 

 

D) Sete relações filosóficas e idealismo em David Hume . 

 

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

1) Feyerabend criticou Popper por este reduzir as ciências a conjuntos de conjecturas que são aceites provisoriamente e depois refutadas, isto é, rejeitadas com argumentos e testes experimentais. E criticou Popper por considerar pseudo-ciências a astrologia e a medicina hopi  (os hopis são uma tribo índia dos EUA que veneram a natureza, usam plantas para a cura em ligação com a oração ao deus criador). Feyerabend insistiu em que a visão especializada, fragmentária, das actuais ciências dos séculos XIX a XXI perdeu a percepção holística, global dos fenómenos. O homo sapiens primitivo conhecia a vida de forma global (intuição holística), não estava fragmentado em saberes particulares como o homem de hoje. Os homens do mito estavam livres do jugo da especialização que hoje impera: um engenheiro civil, especializado, só sabe temas de engenharia civil, nada sabe sobre a cura pelas plantas dos seus cálculos renais e de outras doenças e nada sabe sobre as fases da lua e os seus efeitos sobre as sementeiras e colheitas (VALE TRÊS VALORES). As ciências actuais são baseadas num racionalismo fragmentário - teoria que afirma ser a razão a principal fonte de conhecimento, mas não a razão holística que tudo abarca como por exemplo movimentos dos astros e deuses, racionalismo esse que fragmenta o conhecimento, separa o estudo do fígado do estudo do coração, separa o facto histórico-social terrestre do facto astronómico celeste, etc.  Essas ciências nasceram com o emergir da burguesia industrial e financeira actual e por isso estão impregnadas de ideologia - sistema de ideias e valores de uma classe social- burguesa. A ciência e a tecnologia do automóvel como veículo de transporte individual ou familiar insere-se na ideologia individualista da burguesia: «Enriquece, compra um carro próprio, viaja livremente». Feyerabend era anarquista epistemológico, isto é, sustentava a igualdade de base entre todas as doutrinas, que é necessário acabar com o domínio exclusivo da medicina química oficial, da biologia oficial (evolucionismo de Darwin) da electrónica, etc, porque são ideológicas, defendem certas classes e grupos sociais, visam aumentar lucros da grande indústria Que significa dizer que hoje temos uma religião sem ontologia?  Significa que temos um conjunto de ritos cujo simbolismo profundo já perdemos, em cuja filosofia já não penetramos. Por exemplo, ignoramos que o facto de a pia de baptismo de antigas ser . Constroem-se hoje igrejas com uma arquitectura moderna ignorando o número de oiro (1,618), número mágico de proporção entre o comprimento e a largura e a altura de um compartimento. Que significa dizer que hoje impera uma arte sem conteúdos? Significa, por exemplo, que uma tela branca salpicada de pontos vermelhos é um quadro sem conteúdo, um significante sem significado. Que significa dizer que há uma ciência sem sentido? Significa, por exemplo, que há uma medicina que não percebe o sentido da febre - acção de autodefesa do organismo, expulsando as toxinas através do suor ou de urinas escuras - e manda reprimir os sintomas, tomando anti piréticos.( VALE TRÊS VALORES).

 

2) O númeno ou objecto metafísico afecta de alguma maneira a sensibilidade fazendo nascer nesta um caos empírico de matéria indeterminada e as formas a priori de espaço (figuras, extensão) e tempo (duração, simultaneidade, sucessão) moldam essa matéria transformando-a no fenómeno cegonha, que é o objecto visível ou coisa para nós. As imagens do fenómeno são levadas pela imaginação às categorias de unidade, pluralidade, realidade e outras do entendimento ou intelecto ligado ao mundo empírico e aí são reduzidas à unidade, a um conceito único de cegonha (VALE TRÊS VALORES).

 

3-A) O positivismo lógico do círculo de Viena considera sem sentido a metafísica e afirmações desta como «Deus criou o Paraíso e o Inferno e pune os maus» porque não podem ser comprovadas empiricamente. Para este positivismo, só os factos empíricos ( exemplo: maçã, tornado, etc) e as suas relações lógico-matemáticas são verdade e a indução amplificante - generalização segundo uma lei necessária de alguns casos empíricos semelhantes entre si - é perfeitamente legítima. Karl Popper opõ-se ao positivismo lógico pois, na linha de David Hume, duvida da indução amplificante, achando que há sempre excepções a uma dada lei da natureza e considera ser impossível verificar essa lei pois teríamos de estudar centenas de milhar ou milhões de exemplos concretos. Popper diz que só é possível a corroboração ou confirmação de alguns exemplos através da testabilidade, isto é, realização de testes experimentais (VALE TRÊS VALORES).

 

3-B) O método hipotético-dedutivo baseia-se na indução amplificante, inferência que Popper não aceita como válida, e tem quatro fases: observação, hipótese, dedução matemática da hipótese e verificação experimental com confirmação ou não da hipótese. As ciências empírico-formais são as ciências da natureza biofísica - química, física, astronomia, biologia, geologia - e baseiam-se em leis necessárias ou tendencialmente necessárias e por isso assentam na indução amplificante. As ciências hermenêuticas, ou seja, as que se baseiam em interpretações mais ou menos subjectivas e leis estatísticas - psicologia, sociologia, história, economia, - não recorrem ou recorrem pouco à indução amplificante (VALE TRÊS VALORES).

 

3.C) O realismo crítico é a teoria segundo a qual a matéria é real e exterior às nossas mentes mas estas não espelham como ela é. O realismo crítico de Descartes é a teoria qiue sustenta que há um mundo real de matéria exterior às mentes humanas composto de uma matéria indeterminada, sem peso nem dureza/moleza, apenas formado de figuras geométricas, movimento, números (qualidades primárias, objetivas), sendo subjectivas, isto é exclusivamente mentais, as cores, os cheiros, os sabores, as sensações do tacto, o calor e frio (qualidades secundárias, subjectivas). A fenomenologia é a ontologia que sustenta não saber se o mundo material subsiste ou não fora das mentes humanas. O cepticismo é a corrente que duvida do que vai além dos dados empíricos imediatos ou até mesmo deste. A fenomenologia possui um fundo cético e o realismo crítico, na medida em que duvida de alguns dados dos sentidos, também (VALE TRÊS VALORES).  

 

2-D) O idealismo, isto é, a doutrina que diz que o mundo material exterior à mente humana não existe, é ilusório, é base da teoria de Hume. Por exemplo, o"eu" em David Hume não é uma realidade, mas uma ideia ilusória, uma vez que somos apenas uma corrente de percepções empíricas a que a memória e a imaginação atribuem um núcleo invariável chamado «eu». Do mesmo modo, a   substância (exemplos: as substâncias cadeira ou nuvem) é uma ideia fabricada pela nossa imaginação servindo-se das sete relações filosóficas que são disposições sensório-intelectuais a priori da mente humana: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. A ideia de permanência, de continuidade entre as percepções empíricas forja as ideias de eu e de substância. As relações de tempo e lugar não estão em objectos materiais fora de nós mas são um modo de ver e pensar inerente à nossa mente - e isto é idealismo (VALE DOIS VALORES)

 

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Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2015
A «heterossexualidade natural da mulher», uma invenção dos esclavagistas sexuais masculinos

 

 Segundo a ideologia feminista a tese de que as mulheres são, na sua grande maioria, heterossexuais por natureza é uma falsidade, uma criação da ideologia patriarcal que domina desde há séculos a sociedade mundial. Toda a sociedade está construída de forma a tornar a mulher num objecto sexual do homem, numa escrava ou numa prostituta legal que é, afinal, a sua condição de esposa, «fiel ao marido, mãe e esteio do lar», santificada pelas igrejas católica, mórmon, judaica, etc. Ninguém nasce mulher, afirmam algumas feministas, - nasce-se com seios e vagina mas isso não basta para ser mulher - porque a categoria de mulher faz parte da divisão em classes da sociedade, sendo homem a classe opressora e mulher a classe oprimida.

 

O facto de milhares de mulheres ameaçadas de morte e agredidas com frequência por maridos e ex maridos, namorados e ex namorados não terem proteção policial vinte e quatro horas por dia em Portugal e na generalidade dos países e não verem na prisão os seus maltratadores é a prova de que as leis e a sua aplicação, o direito e a administração de justiça estão sob o poder masculino que encobre ou desculpa a violência dos homens sobre as mulheres. Escreve uma autora feminista:

 

«Isto nos permite conectar aspectos da identificação das mulheres tão diversos como as amizades das meninas de oito ou nove anos, tão íntimas e impudentes, e as associações daquelas mulheres dos séculos doze e quinze, conhecidas como Beguines, que “dividiam e alugavam casas umas para as outras, as deixavam de herança para suas companheiras de quarto… casas baratas subdivididas nas áreas dos artesãos da cidade”, que “praticavam a virtude cristã por si mesmas, vestindo-se e vivendo de maneira simples e não se associando com homens”, que ganhavam a vida como fiandeiras, doceiras, enfermeiras, ou mantinham escolas para meninas, e que conduziram – até a Igreja as forçarem a dispersar – uma vida independente tanto do casamento quanto das restrições dos conventos. Isso nos permite conectar estas mulheres com as mais celebradas “Lésbicas” da escola de mulheres ao redor de Safo do sétimo século A.C., com as irmandades e redes econômicas presentes entre mulheres Africanas, e com irmandades Chinesas de resistência ao casamento – comunidades de mulheres que recusaram o matrimônio ou que, se casadas, frequentemente se recusavam a consumar o casamento e logo abandonavam seus maridos – as únicas mulheres na China que não tiveram seus pés amarrados e que, segundo Agnes Smedley, festejavam os nascimentos de meninas e organizavam greves bem-sucedidas de mulheres nas fábricas de seda. Isso nos permite conectar e comparar exemplos individuais díspares de resistência ao casamento: por exemplo, o tipo de autonomia reivindicado por Emily Dickinson, uma mulher branca genial do século XIX, com as estratégias disponíveis a Zora Neale Hurston, uma mulher negra genial do século XX. Dickinson nunca se casou, teve amizades intelectuais bem tênues com homens, viveu autoenclausurada na casa distinta de seu pai e passou toda a sua vida escrevendo cartas apaixonadas a sua amiga Kate Scott Anthon. Hurston casou duas vezes, mas logo abandonou seus dois maridos, enfrentou um longo caminho da Flórida para Harlem e para a Universidade de Columbia, daí para o Haiti, e finalmente de volta à Flórida, movendo-se para dentro e para fora do patronado branco e da pobreza, do sucesso profissional e do fracasso. Suas relações de sobrevivência foram todas com mulheres, começando com sua mãe. Essas duas mulheres, em suas circunstâncias imensamente diferentes, resistiram ao casamento, comprometidas com seu próprio trabalho e com sua pessoalidade, mas depois foram caracterizadas como “apolíticas”, arrastadas para homens com qualidades intelectuais. Para ambas, as mulheres forneceram a fascinação e o apoio constantes em vida.»

https://antipatriarchy.wordpress.com/author/antipatriarcado/

 

Monique Wittig, escritora, poetisa e militante lésbica-feminista, nascida na França em 1935, escreveu no seu célebre ensaio «O pensamento hétero»:

 

«Os discursos que acima de tudo nos oprimem, lésbicas, mulheres, e homens homossexuais, são aqueles que tomam como certo que a base da sociedade, de qualquer sociedade, é a heterossexualidade. Estes discursos falam sobre nós e alegam dizer a verdade num campo apolítico, como se qualquer coisa que significa algo pudesse escapar ao político neste momento da história, e como se, no tocante a nós, pudessem existir signos politicamente insignificantes. Estes discursos da heterossexualidade oprimem-nos no sentido em que nos impedem de falar a menos que falemos nos termos deles. Tudo quanto os põe em questão é imediatamente posto de parte como elementar. A nossa recusa da interpretação totalizante da psicanálise faz com que os teóricos digam que estamos a negligenciar a dimensão simbólica. Estes discursos negam-nos toda a possibilidade de criar as nossas próprias categorias. Mas a sua ação mais feroz é a implacável tirania que exercem sobre os nossos seres físicos e mentais.
Ao usarmos o termo demasiado genérico “ideologia” para designar todos os discursos do grupo dominante, relegamos estes discursos para o domínio das Ideias Irreais; esquecemos a violência material (física) que diretamente fazem contra as pessoas oprimidas, violência essa produzida pelos discursos abstratos e “científicos”, assim como pelos discursos dos mass media.»

 

«Sim, a sociedade hétero está baseada na necessidade, a todos os níveis, do diferente/outro. Não pode funcionar economicamente, simbolicamente, linguisticamente ou politicamente sem este conceito. Esta necessidade do diferente/outro é uma necessidade ontológica para todo o aglomerado de ciências e disciplinas a que chamo o pensamento hétero. Mas o que é o diferente/outro se não a(o) dominada(o)? A sociedade heterossexual é a sociedade que não oprime apenas lésbicas e homossexuais, ela oprime muitos diferentes/outros, oprime todas as mulheres e muitas categorias de homens, todas e todos que estão na posição de serem dominadas(os). Para constituir uma diferença e controlá-la é um ato de poder, uma vez que é essencialmente um ato normativo. Todos tentam mostrar o outro como diferente. Mas nem todos conseguem ter sucesso a fazê-lo. Tem que se ser socialmente dominante para se ter sucesso a fazê-lo. »(Monique Wittig, O pensamento hetero; o destaque a bold é posto por nós).

 

Os próprios manuais de filosofia em vigor no ensino público em Portugal e em outros países evitam tematizar esta questão em pormenor,  o que demonstra que a filosofia oficial não é livre mas ressuma ideologia machista, opressora das mulheres. 

 

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Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2014
Teste de filosofia do 11º A (Dezembro de 2014)

 

 Eis um teste de filosofia de final de 1º período lectivo, em Beja, Portugal, onde a filosofia atingiu, no plano mundial, o mais alto grau, ao conceber por leis histórico-astronómicas a presdestinação de todas as coisas - um teste sem perguntas de escolha múltipla que, habitualmente, espelham a pobreza do pensamento de uma grande parte dos docentes e dos autores dos manuais escolares.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A
12 de Dezembro de 2014. Professor: Francisco Queiroz

 

 I

“Algum idealismo é realismo crítico”.
 “A falácia do falso dilema é realismo crítico”.
“ O idealismo não é falácia do falso dilema”.


1-A) Indique, concretamente, três regras do silogismo formalmente válido que foram infringidas na construção deste silogismo.

.
1-B) Com base nas definições respectivas, mostre como ambas as premissas deste silogismo estão erradas no seu conteúdo, isto é, estão materialmente erradas.

 

2) Exponha os quatro passos gnoseológicos que celebrizaram Descartes a partir da dúvida hiperbólica, defina e aplique a lei da contradição principal a este conjunto.

 

3 ) Relacione, justificando:

 

A) Res cogitans em Descartes e ideia de “eu” em David Hume.

 

B) Ciências empírico-formais, ciências hermenêuticas, retórica e ideologia.

 

4) Interprete o seguinte texto e mostre dois sentidos possíveis para o termo “ser”:

 

« Existem miríades de sinais demonstrativos de que o Ser é, incriado, imperceptível, perfeito, imóvel e eterno, não sendo lícito afirmar que o Ser foi ou que será…. Ser e pensar é um e o mesmo.» (PARMÉNIDES).

 

CORRECÇÂO DO TESTE COTADO PARA UM MÁXIMO DE VINTE VALORES

 

1-A) Eis três regras do silogismo formalmente válido que foram violadas: o termo médio (neste caso: realismo crítico) tem de ser tomado pelo menos uma vez, universalmente; nenhum termo pode ter na conclusão maior extensão do que nas premissas, ora o termo idealismo é universal na conclusão e particular na primeira premissa (algum idealismo); de duas premissas afirmativas não se pode extrair uma conclusão negativa. (VALE DOIS VALORES).

 

1-B) O idealismo ontológico é a doutrina segundo a qual o mundo de matéria é um conjunto de ideias ou sensações a flutuar na mente de um ou vários sujeitos e por isso não se inclui no realismo, doutrina que diz que o mundo de matéria é real em si mesmo e exterior às mentes humanas. O realismo crítico defende que o mundo de matéria exterior é real em si mesmo mas não o percepcionamos sem deformação (exemplo: vemos uma rosa vermelha, mas o vermelho só está na nossa mente não na rosa). (VALE DOIS VALORES). O idealismo, corrente ontognoseológica, não é a falácia do falso dilema porque esta é uma disjunção lógica entre dois termos um dos quais está contido no outro, ora o ontológico não deve confundir-se com o lógico-formal ( exemplo da falácia do falso dilema: "Ou és ser humano ou és homem alentejano")  (VALE DOIS VALORES).

 

2) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos:

 

Dúvida hiperbólica ou Cepticismo Absoluto( «Uma vez que quando sonho tudo me parece real, como se estivesse acordado, e afinal os sentidos me enganam, duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo »).

 

Idealismo solipsista («No meio deste oceano de dúvidas, atinjo uma certeza fundamental: «Penso, logo existo» como mente, ainda que o meu corpo e todo o resto do mundo sejam falsos»).

 

Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe). 

 

Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, de figuras, tamanhos, números, movimentos, existe fora de mim»). Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é. Descartes, realista crítico, sustentava que as qualidades secundárias, subjectivas, isto é, as cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores e que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos e uma matéria indeterminada. 

 

A lei da contradição principal estabelece que um sistema de múltiplas contradições se pode reduzir a uma só grande contradição, constituída por dois grandes blocos ou pólos e deixando, às vezes, uma zona neutra na fonteira entre ambos os pólos. Neste caso, a contradição principal pode ser concebida de várias maneiras: num pólo, a dúvida absoluta (1º passo)  e no outro polo o conjunto idealismo solipsista/ idealismo não solipsista/ realismo crítico que possuem certo grau de certeza em comum; em um polo os dois idealismos (2º e 3º passos) e no outro polo o realismo crítico (4º passo) ficando o cepticismo absoluto na zona intermédia ou neutra; em um polo o realismo crítico, no polo oposto o conjunto cepticismo absoluto/idealismos  (VALE CINCO VALORES).

 

3-A) A res cogitans, em Descartes, é o pensamento humano, é uma realidade (a filosofia, as ciências, o senso comum) ao passo que o "eu" em David Hume não é uma realidade, mas uma ideia ilusória uma vez que somos apenas uma corrente de percepções empíricas a que a memória e a imaginação atribuem um núcleo invariável chamado «eu». (VALE TRÊS VALORES).

 

3-B) Ciências empírico-formais são aquelas que se baseiam em factos da experiência desvendando as leis necessárias, infalíveis, que os ligam e atravessam. Exemplo: a física com a lei da gravidade, a química com a relação ácido-base, a biologia, a geologia, etc. Habitualmente, supõe-se que estas ciências são neutras, estão isentas de ideologia, isto é, interpretações do mundo intersubjectivas, próprias de certas classes sociais e grupos étnicos (exemplo: cristianismo, budismo, liberalismo, comunismo, europeísmo, pan-arabismo, filosofias da igualdade de direitos universais ou do domínio da aristocracia sobre a plebe são ideologias).  Ciências hermenêuticas são aquelas que se baseiam em factos empíricos interpretando-os segundo princípios e intuições subjectivas, cheios de simbolismos, sem leis infalíveis (exemplo: a psicanálise e o complexo de Édipo, a filosofia, a história e o papel dos grandes homens, a sociologia, a antropologia, etc). Sendo retórica a arte de argumentar ou demonstrar certas ideias ou teses, a retórica está presente em ambos aqueles tipos de ciência, em especial nas hermenêuticas que são marcadamente ideológicas - por exemplo, a teoria marxista da histórica que postula que as sociedades caminham todas em direcção ao comunismo, ou sociedade igualitária sem Estados, é muito mais ideológica do que a teoria da evolução das espécies de Darwin na biologia ou do que o cálculo integral em matemática, este último isento de ideologia (VALE QUATRO VALORES).

 

4) Há um número infinitamente grande (miríades) de sinais que demonstram que o Ser - essência esférica do universo - não foi criado por ninguém, não foi nem será porque é eternamente o mesmo, sem alterações. É perfeito e invisível, inaudível, por isso só pode ser apreendido pelo pensanento racional - daí que ser e pensar sejam um e o mesmo. O ser pode ser ideia ou pode ser algo material, o texto não é esclarecedor. Dois sentidos do Ser são: existência infinita no tempo; essência ou forma geral do universo. (VALE DOIS VALORES).

 

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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012
Teste de filosofia do 10º ano de escolaridade-I (Dezembro de 2012)

Eis um teste de filosofia do 10º ano de escolaridade em Portugal, explorando as potencialidades de um programa que confere elevada autonomia a um professor do secundário.  

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA B

4 de  Dezembro de 2012.            Professor: Francisco Queiroz

I

“O fatalismo e o determinismo sem livre-arbítrio ( vulgo: determinismo radical) são doutrinas muito semelhantes mas distinguem-se na questão do acaso. As noções de arquétipo, de participação e de ascese, na teoria de Platão, implicam dogmatismo e, para alguns pensadores, exprimem  subjectivismo. “

 

1) Explique concretamente este texto.

 

II

2) Relacione, justificando:

A)  Indução amplificante e lei do salto qualitativo.

B)  Forma, matéria e substância individual, em Aristóteles, e três termos do silogismo regular.

C) Dedução, filosofia e ideologia.

 

III

 

3)Disserte sobre o seguinte tema, de modo a estabelecer quatro correspondências:

   “As quatro causas de um ente segundo Aristóteles e as quatro esferas de valor segundo Max Scheler

 

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA UM TOTAL DE VINTE VALORES

 

1) O fatalismo é a corrente que sustenta que todos os acontecimentos estão predestinados e não existe acaso nem livre-arbítrio humano. O determinismo radical, ou sem livre-arbítrio, sustenta que o homem não tem liberdade de escolha e que tudo se rege por leis necessárias de causa-efeito, havendo, no entanto, lugar para o acaso que impede a predestinação absoluta. (VALE TRÊS VALORES). As noções de Arquétipo, uma forma eterna e perfeita, existente acima do céu visível, no mundo inteligível, que serve de modelo ao mundo sensível da Terra e aos homens, de Participação, ou seja, a imitação que os entes da matéria são em relação aos arquétipos e de Ascese, ou seja, a ascensão da alma, estando vivo o corpo, ao mundo inteligível mediante a filosofia, a matemática, a ginástica, a música, implicam dogmatismo, isto é, crença, ter certezas ( sobre os arquétipos, a participação, etc). Segundo alguns, estas noções exprimem subjectivismo, isto, é uma visão íntima e particular da verdade, que varia de pessoa a pessoa e que, em muitos casos, se identifica com ilusão, fantasia. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) A) Indução amplificante é o raciocínio que transforma alguns exemplos empíricos similares numa lei universal infalível ( exemplo: « 10 doentes do estômago melhoraram com a dieta de bananas e leite magro, logo a totalidade dos doentes de estômago do mundo melhorará com a mesma dieta»). O salto qualitativo é a passagem de dez exemplos a milhões de exemplos possíveis similares e corresponde à lei que se enuncia assim: a acumulação gradual e lenta, em quantidade, de um factor num fenómeno ( neste caso: o conhecimento médico-dietético de alguns casos) leva a que num dado instante se produza um salto de qualidade (neste caso: a teoria geral) nesse fenómeno. (VALE DOIS VALORES).

 

2) B) O silogismo regular é um raciocínio dedutivo de três frases que possui três termos: maior, médio e menor. Associam-se dois a dois em cada uma das três proposições do silogismo. Exemplo:

      «Os homens são animais.

       Platão é homem.

       Platão é animal.»

 

Neste silogismo o termo maior é animal, o médio é homem e o menor é Platão.

 

Aristóteles defendia que a substância individual - equivalente, no silogismo ao termo menor (Platão) - é um composto que resulta da união da forma da espécie, o eidos - neste caso: homem, a forma comum homem - com a matéria-prima universal (hylé), absolutamente indeterminada, isto é, sem forma. Por exclusão de partes, o termo maior do silogismo corresponde, de certo modo, à matéria-prima indeterminada, que não tem limites, e é mais extensa que a forma. (VALE TRÊS VALORES).

 

2)C) A dedução é um raciocínio em que a conclusão está implícita nas premissas e processa-se por necessidade lógica, de uma premissa  geral a uma conclusão particular ou do geral ao geral. A filosofia, pensamento racional e intuitivo que visa descobrir o lado oculto do mundo, do ser humano e da existência e interpretar o lado visível, usa muitíssimo a dedução porque raciocina continuamente. A ideologia é um sistema de ideias e valores próprio de um grupo social, de uma classe social, de um povo, de uma civilização: a ideologia do capitalismo, a ideologia do comunismo, a ideologia hippie, a ideologia gótica, a ideologia islâmica, a ideologia cristã, etc . Podemos dizer que a ideologia é uma filosofia particular, mas não toda a filosofia. (VALE TRÊS VALORES)

 

3) As quatro causas de um ente, segundo Aristóteles, são: formal, material, eficiente e final. Max Scheler estabeleceu quatro esferas ou modalidades de valor e em cada uma delas valores de coisa, de função e de estado:

- Esfera dos valores sensíveis (prazer e dor físicos, agradável e desagradável, sendo o útil e o inútil valores de referência). Corresponde à causa material (matéria constituinte de algo), em Aristóteles, porque os valores de coisa são estritamente materiais. Exemplo: nesta esfera, sopa de feijão é um valor de coisa, apetite e capacidade digestiva é um valor de função e sensação de saciedade com o estômago cheio ou semi cheio é um valor de estado.

- Esfera dos valores vitais ( sentimento do nobre e do vulgar, coragem e cobardia, saúde e doença, juventude e velhice, sentimento de vitória ou de derrota, ciúme, inveja). Corresponde à causa eficiente, porque esta é a fabricante do ente e a coragem, a vontade de vitória são fabricantes, motores de actos. Exemplo: nesta esfera, um castelo ou cidade a conquistar pelas armas é um valor de coisa, apetite guerreiro e capacidade de luta  é um valor de função e sentimento  de vitória ou de derrota após a batalha é um valor de estado.

-Esfera dos valores espirituais ( bem e justo,mau e injusto, ética; belo e feio, estética; verdadeiro e falso, filosofia, e como domínio derivado, ciências ). Corresponde à causa formal em Aristóteles, porque esta é o modelo de cada coisa ou fenómeno.  Exemplo: nesta esfera, o livro «Metafísica» de Aristóteles é um valor de coisa, a capacidade de ler e entender as suas teses é um valor de função e sentimento  de sabedoria filosófica alcançado é um valor de estado.

- Esfera dos valores do santo e do profano ( deuses ou Deus ou espíritos eternos, numa perspectiva; o universo sem Deus nem deuses, noutra perspectiva). Corresponde à causa final em Aristóteles, porque Deus ou a matéria geradora de tudo são a finalidade das especulações. Exemplo: nesta esfera, o santuário cátaro de Montsegur é  um valor de coisa, a capacidade de sentir o divino ou o mágico desse lugar montanhoso é um valor de função e o sentimento  de integração com a divindade ou o cosmos inteiro, alcançado aí, é um valor de estado. (VALE CINCO VALORES; OUTRAS RESPOSTAS CORRECTAS SÂO POSSÍVEIS)

 

 

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Sexta-feira, 12 de Novembro de 2010
Solidão ontológica

Nunca se abandona o estado de solidão ontológica: cada um de nós existe só, ligado por duas correntes - a vida sensorial e afectiva e a intelecção - ao cosmos, de que é um fragmento. Mesmo as pessoas que mais amamos um dia desligam-se de nós - ou por lonjura geográfica, ou por morte ou doença, ou apenas por saturação psicológica. É duro encarar a vida nessa perspectiva. Por isso rodeamo-nos de amigos e familiares, de conhecidos, de admiradores, tecemos redes de contacto social de modo a esquecer, na medida do possível, a solidão ontológica que nos subjaz. A ideologia do herói que se sacrifica por um ideal, algo que o transcende - o monje que jejua e ora ao deus imaginado com autenticidade, o soldado que se sacrifica no campo de batalha, o militante de base que oferece ao partido o seu sacrifício - repousa na ilusão do colectivismo ou organicismo colectivista ontológico: o indivíduo funde-se com a família, o partido, a comunidade local, a pátria mas essa fusão é inconsistente, em maior ou menor grau, porque ser indivíduo é estar em solidão ontológica.

 

O amor físico, sexualizado, é talvez a tentativa mais premente de romper o círculo de fogo da solidão ontológica. Mas essa mesma solidão reafirma-se na insatisfação, na discordância ou na mudança de parceiro sexual: deseja-se uma renovação, um passo mais para a perfeição, que seria o alojar-se por completo na alma do ser amado, possuindo ao mesmo tempo esta. As grandes comunhões de alma obtidas na multidão - os concertos musicais, as manifestações de rua por uma causa, a assistência a jogos de futebol, a cerimónias religiosas, touradas, etc - não destroem a solidão ontológica de cada um mas sim a solidão psicológica, no instante, produzindo aquilo a que Nietzschze chamava a embriaguez dionisíaca.

 

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Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010
A liberdade social pode aumentar incessantemente?

Será possível aumentar indefinidamente a quantidade de liberdade existente numa dada sociedade nacional e no mundo inteiro? Esse é um problema da economia ontológica. A liberdade real, existente, é diferente da liberdade em potência, teoricamente possível. Os «direitos humanos» à escala universal são uma meta, uma realidade imaginária, não uma realidade física e social, concreta. É como dizia Aristóteles a respeito do infinito: este só existe em potência, não em acto. A dialéctica ensina-nos que «um divide-se em dois»: a liberdade universal divide-se em liberdade das forças ou ideologias tipo A versus liberdade das forças ou ideologias tipo B. Uma vez que os contrários existem em todos os domínios, a liberdade de cada um dos contrários do mesmo par, na medida em que colidem entre si, ver-se-á alterada: cresce para uns e reduz-se para outros.

 

Assim, por exemplo, o alargamento das liberdades para os estudantes, proporcionado pelas leis que regem a escola contemporânea - não poderem ser insultados nem fisicamente agredidos pelos professores nas aulas nem ser expulsos da sala, não serem expulsos do sistema de ensino caso ameacem ou agridam um professor, etc - implica uma diminuição da liberdade dos professores. O aumento das liberdades para a classe capitalista, como por exemplo, o despedimento laboral arbitrário, sem justa causa, dos trabalhadores, implica uma correspondente redução das liberdades destes. A liberdade mundial de comércio e circulação de capitais e pessoas implica, na presente conjuntura, a redução das liberdades e regalias sociais existentes na Europa e a ampliação das liberdades das burguesias ascendentes na China e noutras zonas da Ásia. A liberdade de gangs ou sectores marginais se moverem na periferia ou mesmo no interior das grandes cidades, assaltando pessoas, agredindo e atemorizando moradores, é correlativa da diminuição das liberdades destes, os quais prescindem, muitas vezes, de sair de casa à noite, de criticarem livremente os que os ameaçam, etc.

 

A liberdade mundial parece obedecer à lei da balança: quando um prato sobe, o outro desce. É por isso que a liberdade nunca pode ser vista unilateralmente: como liberdade económica, por exemplo. O liberalismo económico conduz a desigualdades acentuadas e, portanto, à opressão dos pobres, mas a liberdade política universal, traduzida nas revoluções populares que fundem parcialmente  o poder de Estado com o movimento revolucionário de massas, conduz à opressão dos ricos e dos empresários mais criativos.

 

Em termos espirituais e culturais, parece um dado adquirido que a quantidade de liberdade existente no mundo é maior do que a quantidade de liberdade existente no século XVII e no século IV. Mas a liberdade de espírito pode desenvolver-se até certo ponto, em conexão com uma redução das liberdades físicas (o espaço de que se dispõe para viver, os alimentos, o conforto) e político-sociais (a assistência social, o emprego, o direito à greve e ao protesto em geral, etc). Portanto, o problema permanece: pode a liberdade, como  um todo, aumentar indefinidamente no mundo?

 

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