Quinta-feira, 25 de Maio de 2017
Teste de filosofia do 11º ano (19 de Maio de 2017)

 

Contrariamente à nossa posição habitual de não fazer perguntas de escolha múltipla nos testes de filosofia a que se responde com uma simples cruz, construímos, por razões de disciplina comunitária uma matriz comum solicitada pela Inspeção Geral de Ensino, um teste em que entra este tipo de perguntas.

 

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B

19 de Maio de 2017 Professor: Francisco Queiroz

 

GRUPO I (10 pontos x 5, 50 PONTOS)

Em cada questão, indique a única resposta correcta de entre 4 hipóteses

 

1) O idealismo gnoseológico ou ontognoseológico é a corrente que sustenta que…

 A. A matéria física está dentro do universo e fora da mente humana

B A ideia e a matéria são uma e a mesma coisa.

C- A matéria física está fora da nossa mente e do nosso corpo.

D- A fenomenologia é o mesmo que o pragmatismo. 

 

2) Paul Feyerabend sustentou que:

A) A metafísica deve ser abolida.

B) As ciências universitárias estão livres de ideologia e de interesses de lobbies.

C)Não se devem experimentar métodos fora do que a universidade permite.

D) Devem-se improvisar métodos ad hoc.

 

3) No método hipotético-dedutivo

A) Rejeita-se a indução amplificante

B) Aceita-se a indução amplificante

C) Não se usam fórmulas matemáticas

D) Não se recorre à experiência, à observação directa de factos..

 

4)O idealismo não solipsista objectivo sustenta que

A) A matéria é real em si mesma

B) A matéria não é real em si mesma e cada um a inventa ou vê a seu modo pessoal.

C) A matéria não é real em si mesma e todos a inventam ou veem de igual modo.

D) O cepticismo é a única teoria válida.

 

5)O princípio da falsificabilidade em Popper:

A) Impede que se escolha qualquer teoria como científica

B) Não impede que se escolha uma teoria em cada ciência na condição de ela ser tida como conjectura

C) É a mesma coisa que o princípio da incerteza de Heisenberg

D) Afirma que não há demarcação entre astrologia e astrofísica, valem o mesmo.

 

GRUPO II (60 +40 pontos)

1). Explique concretamente o seguinte texto:

 

«Revisibilidade e falsificabilidade na teoria de Popper coadunam-se com as noções de obstáculo epistemológico e ultra-objecto da teoria de Gaston Bachelard. A incomensurabilidade dos paradigmas defendida por Thomas Kuhn não parece concordar com o positivismo lógico».

 

2)Explique os três estádios da existência segundo Kierkegaard e a afirmação «Deus é, não existe, o homem não é, existe».

 

GRUPO III (50 pontos)

Explique concretamente o seguinte texto:

«O ser-aí de Heidegger equivale ao ser-para-si de Sartre mas o primeiro transporta o ser ao passo que o ser-para-si carrega o nada. Para Heidegger o cuidado, o porvir e o ser-para-a-morte são traços do ser-aí e o ôntico opõe-se ao ontológico

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 200 PONTOS (20 VALORES)

 

GRUPO I (50 PONTOS)

 

1-B)......................................10 PONTOS

2-D).......................................10 PONTOS

3-B).......................................10 PONTOS

4-C)........................................10 PONTOS

5-B).........................................10 PONTOS

 

GRUPO II (60+ 40 PONTOS)

1) A revisibilidade, isto é, a qualidade inerente às teorias científicas de verem as suas teses alteradas, revistas ou mesmo anuladas de todo, segundo Popper, coaduna-se ou harmoniza-se com a noção de ultra-objecto em Bachelard, que é um objecto empírico-racional, invisível no todo ou em parte, concebido pela razão (exemplo: os átomos, os quarks e leptões; os buracos negros e a matéria escura do cosmos): a razão idealiza o ultra-objecto e revê de tempos a tempos esse conceito. O princípio da falsificabilidade em Popper sustenta que todas as teorias científicas são conjecturas, hipóteses que podem vir a revelar-se falsas e isso liga-se a obstáculo epistemológico que é todo e qualquer entrave ao conhecimento científico (por exemplo: a primeira experiência, algo enganadora; o preconceito; a falta de microscópios, computadores, telescópios e outros aparelhos necessários, etc) e que, por isso, falsifica o conhecimento. (VALE 30 PONTOS). A incomensurabilidade dos paradigmas é a impossibilidade de medir e comparar globalmente dois ou mais paradigmas, de os medir no seu todo. Por exemplo, é incomensurável preferir o heliocentrismo ao geocentrismo e vic-versa. Ora o positivismo lógico, doutrina que sustenta que a verdade se limita aos factos empíricos e suas relações lógico-matemáticas, pondo de parte a metafísica, não defende essa incomensurabilidade: opta pelo paradigma da indução amplificante contra o paradigma conjecturalista anti-indutivo de Karl Popper e Khun...(VALE 30 pontos).

 

2)Segundo Kierkegaard, filósofo existencialista cristão, há três estádios na existência humana: estético, ético e religioso. No estádio estético, o protótipo é o Don Juan, insaciável conquistador de mulheres que vive apenas o prazer do instante, e sente angústia se está apaixonado por uma mulher e teme não a conquistar. O desespero é posterior à angústia: é a frustração sobre algo que já não tem remédio ou que se esgotou. Ao cabo de conquistar e deixar centenas de mulheres, o Don Juan cai no desespero: afinal nada tem, o prazer efémero esvaiu-se. Dá então o salto ao ético: casa-se. No estado ético, o paradigma é do homem casado, fiel à esposa, cumpridor dos seus deveres familiares e sociais. Este estado relaciona-se com o essencialismo, doutrina que afirma que a essência, o modelo do carácter ou do comportamento vem antes da existência e condiciona esta. A monotonia e a necessidade do eterno faz o homem saltar ao estádio religioso, em que Deus é o valor absoluto, apenas importa salvar a alma e os outros pouco ou nada contam. Abraão estava no estádio religioso, de puro misticismo, quando se dispunha a matar o filho Isaac porque «Deus lhe ordenou fazer isso». O estádio religioso é o do puro existencialismo, doutrina que afirma que a existência vive-se em liberdade e angústia sem fórmulas (essências) definidas, buscando um Deus que não está nas igrejas nem nos ritos oficiais. Neste estádio, o homem casado pode abandonar a mulher e os filhos se «Deus lhe exigir» retirar-se para um mosteiro a meditar ou para uma região subdesenvolvida a auxiliar gente esfomeada. A escolha a cada momento ante a alternativa é a pedra de toque do existencialismo. Kierkegaard acentuava a noção de angústia, essa liberdade bloqueada, essa intranquilidade que surge antes ou durante muitos actos decisivos (exemplo: a angústia do aluno antes de saber a nota do teste, a angústia da mãe antes do parto, etc). Kierkegaard situa o paradoxo no interior do estado religioso e diz que se deve amar e seguir a vontade de Deus apesar de não compreendermos esta. (VALE TRINTA PONTOS).a afirmação «Deus é, não existe, o homem não é, existe» significa que Kierkegaard atribui ao termo «ser» e «é» o sentido de eternidade e imutabilidade, própria de um Deus incriado e indestrutível, e ao termo «existe» os sentido de nascimento/crescimento/eclínio/morte e alteração a cada momento, traços da condição humana (VALE 10 PONTOS).

 

 

GRUPO III (50 PONTOS)

1) O ser-aí é cada homem na sua subjectividade que carrega dentro de si o ser, isto é, a essência geral do universo e da humanidade e equivale ao ser-para-si que, em Sartre, é a consciência pensante, distinta do ser em si que é o mundo dos corpos (árvores, automóveis, animais, etc ) - que carrega em si o nada porque Sartre afirma que, ao nascer, não somos nada, psíquicamente falando, nem bons nem maus (VALE 20 PONTOS). Para Heidegger, o cuidado ou cura (sorge) é a preocupação em que vive o homem a cada instante de ter alimento, habitação, executar um trabalho com competência, agradar às outras pessoas, ter família e dinheiro, cuidar dos filhos, etc. O porvir é o sentido do futuro que engloba expectativas, esperanças, projectos. O ser-para-a-morte é a consciência de que se morrerá (finitude) um dia, novo ou velho, e isso condiciona as escolhas da vida humana. O ôntico é a realidade aparente (exemplo: eu e o mundo somos realidades separáveis, quando eu morrer o mundo permanece, realismo natural) e o ontológico é a realidade profunda, oculta (exemplo: o meu eu é indissociável do mundo exerior, fenomenologia). (VALE 30 PONTOS)

 

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Sábado, 5 de Novembro de 2016
Teste de filosofia do 11º ano de escolaridade (Novembro de 2016)

 

Em Portugal, nem todos os professores de filosofia cedem ao reducionismo de fazer perguntas de escolha múltipla (indicar uma única resposta como certa de um total de quatro hipóteses) para testar os conhecimentos do aluno no campo da filosofia. Um x colocado na hipótese correcta citada na folha de teste escrito pode demonstrar que o aluno sabe...ou que acertou à sorte ... ou que copiou pelo colega do lado.

  

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B

2 de Novembro de 2016. Professor: Francisco Queiroz

I

“Alguns sindicalistas não são anarquistas.

Alguns operários são sindicalistas.

Logo, os operários são anarquistas.”

 

1-A) Indique, concretamente, três regras do silogismo formalmente válido que foram infringidas na construção deste silogismo.

 

1-B) Indique o modo e a figura deste silogismo.

 

2)Construa o quadrado lógico das oposições à seguinte proposição:

«Os alentejanos são portugueses».

 

3)Distinga realismo crítico de Descartes do idealismo não solipsista objetivo e da fenomenologia.

 

4)Tendo como primeira premissa a proposição «Se passar de ano, vou a Londres», construa:

 

         A) Um silogismo condicional modus ponens.

         B)Um silogismo condicional modus tollens.

    

5) Distinga a indução amplificante/científica, da dedução e do raciocínio de analogia.

 

6) Defina e construa um exemplo de cada uma das seguintes falácias: depois de por causa de, ad misericordiam, de composição, ad hominem, ad ignorantiam.

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

A) Três regras infringidas da validade do silogismo acima foram: de duas premissas particulares (alguns...alguns) nada se pode concluir; nenhum termo pode ter maior extensão na conclusão do que nas premissas (alguns operários / os (todos) operários); o termo médio ( sindicalistas) tem de ser tomado pelo menos uma vez universalmente e está tomado apenas no sentido de «alguns» e não de «todos». (VALE TRÊS VALORES).

 

1-B) O modo do silogismo é OIA e a figura é SP (sujeito e predicado refere-se à  posição do termo médio nas premissas) ou 1ª figura.(VALE UM VALOR).

 

2) O quadrado lógico é o seguinte:

 

Os alentejanos são portugueses.  Nenhum alentejano é português.

(TIPO A- Universal Afirmativa)      (TIPO E- Universal Negativa)

 

 

Alguns alentejanos são portugueses. Alguns alentejanos não são

                                                             portugueses

(TIPO I - Particular Afirmativa)       (TIPO O -  Particular negativa)

 

As proposições A e E são contrárias entre si. As proposições I e O são subcontrárias entre si. As proposições I e O são subalternas respectivamente a A e E. A proposição A é contraditória com O e a proposição E é contraditória com I. (VALE DOIS VALORES)

 

3) O realismo crítico de Descartes é a teoria qiue sustenta que há um mundo real de matéria exterior às mentes humanas composto de uma matéria indeterminada, sem peso nem dureza/moleza, apenas formado de figuras geométricas, movimento, números (qualidades primárias, objetivas), sendo subjectivas, isto é exclusivamente mentais, as cores, os cheiros, os sabores, as sensações do tacto, o calor e frio (qualidades secundárias, subjectivas). O idealismo não solpsista ou pluralista e objetivo é a teoria que sustenta que o mundo material é ilusório, existe apenas dentro de uma multiplicidade de mentes humanas e cada uma delas constrói esse mundo de modo igual às outras ( «A torre de Belém que eu invento/vejo  é igual à torre de Belém que tu inventas/ vês»), A fenomenologia é a ontologia, nem realista nem idealista, mas cética no seu fundo, que sustenta não saber se o mundo material subsiste ou não fora das mentes humanas. (VALE QUATRO VALORES).  

 

                  

4) a)  Se passar de ano, vou a Londres.

          Passei de ano.

          Logo, vou a Londres.     (VALE UM VALOR)

 

4.b)  Se passar de ano, vou a Londres.

         Não fui a Londres.

         Logo, não passei de ano.

         (VALE UM VALOR)

 

 

5) O raciocínio de analogia é a inferência que estabelece uma senelhança de forma, função ou posição entre entes muito diferentes entre si. Exemplo: o homem é análogo a uma árvore, os pés equivalem às raízes, os braços aos ramos. Isto implica realmente uma dose de imaginação superior A indução amplificante é a generalizaçao de alguns exemplos empíricos segundo uma lei necessária, infalível. Exemplo. Verificamos 250 árvores implantadas no solo e todas tinham raízes, logo induzo que os milhões de árvores implantados no solo da Terra terão, necessariamente, raízes. A dedução  é a inferência que parte de uma premissa geral para chegar, apenas pela necessidade lógica apoiada na memória, a uma conclusão geral ou particular. Exemplo: «Todas as árvores têm raízes, os pinheiros são árvores, logo os pinheiros têm raízes» (VALE TRÊS VALORES).

 

6) A falácia depois de por causa de é o erro de raciocínio  que atribui uma relação necessária de causa efeito a dois fenómenos vizinhos por acaso (exemplo: «Há 10 dias vi um gato preto e caí da bicicleta, há 5 dias vi outro gato preto e perdi a carteira, ontem vi um gato preto e o meu telemóvel avariou, logo ver gatos pretos dá-me azar).  (VALE UM VALOR).A falácia ad misericordiam é o vício de raciocínio que apela à misericórdia para anular ou postergar uma decisão ou medida de justiça racional. Exemplo: o aluno diz «Senhor professor, sei que nunca tive uma única nota positiva ao longo do ano e que a média dos meus testes escritos é 7 valores mas, por favor, dê-me um 10 como nota final porque senão o meu pai não me deixa passar férias no estrangeiro e fico deprimido. Tenha compaixão.» (VALE UM VALOR). A falácia da composição ou indutiva é aquela que generaliza, de forma abusiva, da parte para o todo. Exemplo: «André Silva é um jogador de excepcional qualidade. André Silva é futebolista do Futebol Clube do Porto. Portanto, os jogadores do Futebol Clube do Porto são de excepcional qualidade.» (VALE UM VALOR). A falácia ad hominem é aquela que desvia a argumentação racional para o campo do ataque pessoal ao adversário (exemplo: «Ele´ganhou o concurso para gestor de empresas, mas é gay, vamos impedi-lo de subir a gestor da empresa»).(VALE UM VALOR). A falácia do apelo à ignorância é a que raciocina sobre um fundo desconhecido e o usa de forma tendenciosa, sustentando que uma tese fica demonstrada se a não se conseguiu demonstrar a sua contrária (exemplo: Nunca ninguém demonstrou que Deus existe, logo Deus não existe).(VALE UM VALOR)

 

 

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Quarta-feira, 20 de Julho de 2016
Não há ser a priori nem ser a posteriori, como sustentou Hartmann?

Nicolai Hartmann, (Riga, Letónia, 20 de fevereiro de 1882 - Göttingen, 9 de outubro de 1950) destacado fenomenólogo, escreveu:

 

«O que é a priori não pode ser transcendente nem incognoscível, posto que pela sua própria essência, pertence ao conhecimento como tal. Mas esquece-se que há aspetos no ser nunca podem pertencer ao conhecimento como tal; não podem, portanto, ser nem a priori nem a posteriori. A distinção entre o a priori e o a posteriori é uma distinção gnosiológica, não ontológica. Ela não tem nada a fazer com as categorias como tais. Só intervém quando se trata do conhecimento das categorias. Dizer que a causalidade é a priori é mais ou menos tão sensato como dizer que a justiça é azul. Mas ao contrário podemos muito bem dizer que o conhecimento da causalidade é a priori

 

(Nicolai Hartmann, Les principes d´une méthaphisique de la connaissance, Tome I, pag 342 , Aubier, Editions Montaigne, Paris, 1945; o negrito é posto por mim).

 

Os termos a priori ( termo latino : partindo daquilo que vem antes) e a posteriori (termo latino: o que vem depois de...; o que vem depois da experiência) podem aplicar-se ao ser (ontologia) e não apenas ao conhecer (gnosiologia).

 

A causalidade é a priori na natureza biofísica, uma região ontológica: existimos, somos o efeito de causas psicobiológicas e sociais. Cada um de nós é a posteriori em relação aos antepassados e à bionatureza anterior ao nosso nascimento.

 

Na «Metafísica», Aristóteles fala da anterioridade na ordem do ser das qualidades simples em relação aos seres compostos: a brancura é, na ordem do ser, anterior ao campo branco e ao lenço branco ou ao cavalo branco. Ora um dos ingredientes da causalidade é a anterioridade da causa em relação ao efeito. O outro é o da eficiência ou acção da causa no sentido de produzir aquele efeito.

 

Na teologia, Deus ou deuses é a priori em relação à generalidade dos entes do mundo (pessoas humanas, animais, árvores, montanhas, céu) e estes são a posteriori em relação a Deus.

 

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Sexta-feira, 22 de Abril de 2016
O surrealismo de Heidegger no conceito de distância

 

Heidegger designou cada homem, a consciência individual de cada pessoa como o "ser aí" (Dasein). Mas este pensador alemão, nazi numa dada época, fora do comum na sua perspicácia, entrou no surrealismo, na liquidificação e confusão de conceitos, quando escreveu em «Ser e tempo»:

 

«O "ser aí" se mantém, enquanto "ser no mundo", essencialmente em um des-afastar. Não pode cruzar nunca este desafastamento, a lonjura do "à mão" para ele mesmo. A lonjura de algo "à mão" relativamente ao "ser aí" é sem dúvida algo que ele pode encontrar diante de si como distância, ao precisá-la em relação de uma coisa concebida "diante dos olhos" no sítio ocupado anteriormente por ele, "o ser aí". Este pode atravessar posteriormente o intervalo da distância mas só fazendo da própria distância uma distância des-afastada. O "ser aí" conseguiu tão pouco cruzar o seu des-afastamento, que mais precisamente o foi refazendo e refaz constantemente, porque ele mesmo é essencialmente des-afastamento , quer dizer, espacial. O "ser aí" não pode ir e vir dentro do círculo dos seus des-afastamento do caso, só pode mudar uns por outros. O "ser aí" é espacial naquele modo de descobrimento do espaço do "ver em redor" que consiste em conduzir-se relativamente aos entes que estão diante de si espacialmente assim des-afastando-os constantemente (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 123, Fondo de Cultura Económica; o destaque a bold é posto por nós).

 

Desafastamento é o mesmo que aproximação ou que imobilização ou congelamento da distância. Ao fixar o meu olhar numa montanha distante, estou a desafastá-la, a travar a sua desaparição do meu horizonte visual.  Heidegger entra em contradição quando afirma que cada homem, isto é, o "ser aí" «não pode cruzar nunca este desafastamento, a lonjura do "à mão" para ele mesmo» e, mais à frente, diz sobre o ser aí: «Este pode atravessar posteriormente o intervalo da distância mas só fazendo da própria distância uma distância des-afastada».

Primeiro, o ser aí não pode atravessar a distância que o separa dos entes em redor, por último já pode fazendo-o posteriormente. Porquê, posteriormente? E como se faz da distância uma distância desafastada ? Distância é um fenómeno objectivo ou é uma construção subjectiva do «ser aí»? Ao caracterizar o ser aí «essencialmente como des-afastamento, isto é, espacial» Heidegger identifica, o espaço com o desafastar. Mas não há espaço no afastamento? Nada disto é claro na prosa de Heidegger, muito avaro em exemplos concretos.

 

O que é fazer da distância uma distância desafastada, se afastamento está incluído no próprio conceito de distância? É possível encurtar a distância por meios extrasensoriais e intelectuais? Sim, se falarmos no domínio da telepatia e da clarividência. É possível desafastar os 305 quilómetros entre Porto e Lisboa ou estes são inamovíveis, reais, independentes do ser aí?

 

Heidegger brinca com as palavras, torna-as obscuras, dotadas de sentidos diversos, faz poesia e apresenta isso como ciência fenomenológica mas isso não mostra como a realidade é. O reino do verbo sem referentes sólidos é o grande pecado da filosofia: fala-se ou escreve-se «caro», com certa obscuridade, e escrevem-se livros de títulos sonantes, tiram-se doutoramentos. Desde que se tenha verbosidade retórica pode chegar-se às mais «altas teorias» e o público, que não entende, venera e cala-se. Heidegger era um filósofo? Sim, mas enquanto escritor surrealista, era um charlatão inteligente, em matéria de ontognoseologia...A filosofia está cheia de catedráticos pseudo-racionais.

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publicado por Francisco Limpo Queiroz às 08:59
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Sexta-feira, 18 de Março de 2016
Teste de Filosofia do 11º ano, turma C (Março de 2016)

 

Eis um teste de filosofia fora do estereótipo dos testes que os autores dos manuais escolares da Porto Editora, Leya, Santillana, Areal Editores, etc, divulgam. E sem questões de escolha múltipla que, frequentemente, são incorrectamente concebidas por quem não domína o método dialético e desliza para a horizontalidade da filosofia analítica vulgar.

 

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA C

14 de Março de 2016. Professor: Francisco Queiroz.

 I

 “Bachelard afirma que «a opinião não pensa, traduz necessidades em conhecimentos» e que «na ciência nada é dado». A ciência normal e a ciência extraordinária, segundo Kuhn, são paradigmas incomensuráveis. Feyerabend, anarquista epistemológico, sustentou que, hoje, com o racionalismo fragmentário dominante, mera ideologia, « temos uma religião sem ontologia, uma arte sem conteúdos, e uma ciência sem sentido».."

1)Explique, concretamente este texto

 

2)Explique como, na ontognoseologia de Kant, se formam o fenómeno CHUVA e o juízo a priori «Os três ângulos internos de um triângulo somam 180 graus».

 

3) Relacione, justificando:

A) Positivismo lógico do círculo de Viena, por um lado, e falsificacionismo de Karl Popper, por outro lado .


B) Internalismo e externalismo nas Ciências Empírico-Formais e nas Ciências Hermenêuticas.


C) Núcleo Duro e Cinto Protector na teoria de Lakatos sobre a ciência e obstáculo epistemológico na teoria de Gaston Bachelard-


D)  Realismo crítico, fenomenologia, e idealismo em David Hume.

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

1) A opinião, isto é, o senso comum, não pensa, isto é, traduz necessidades em conhecimentos, fabrica a explicação que mais lhe convém. Exemplo: a maioria das pessoas que sentem frequentes dores de cabeça não perdem tempo a investigar a causa dessas dores, tomam um comprimido de farmácia que faz desaparecer o sintoma mas não a causa que lhe está subjacente. Na ciência nada é dado porque tudo ou quase tudo é construção racional. Exemplo: a teoria do espaço-tempo de Einstein, que diz que o espaço encurva na proximidade de grandes massas não nos é dada pelos orgãos dos sentidos, é pensada na razão (VALE UM VALOR). A ciência normal é a ciência oficial, dominante, em cada época ou sociedade, o paradigma (modelo teórico ou teórico-prático) aceite pela grande maioria . Nos séculos XV-XVI era, na astrofísica europeia, o geocentrismo. A ciência extraordinária é a ciência dos dissidentes, que combate a ciência oficial e procura tomar o lugar desta. No século XVI, na cosmologia, era o heliocentrismo de Copérnico e Galileu. A incomensurabilidade dos paradigmas é a impossibilidade de medir exactamente o valor de cada doutrina científica e das suas rivais: não se pode dizer que o heliocentrismo é melhor que o geocentrismo, em termos globais, ainda que se possa dizer que, neste ou naquele aspecto (exactidão/experimentação, fecundidade, etc) um deles é superior ao outro  (VALE DOIS VALORES). Segundo Feyerabend as actuais universidades funcionam como igrejas dotadas de «infalibilidade ciêntífica». Ele critica os filósofos e académicos que acham que a ciência é a nossa religião, o que  significa que a mentalidade científica actual é dogmática como a teologia, acreditando em dogmas que não podem ser postos em causa, como por exemplo, « O Big Bang deu-se há 15 000 milhões de anos e foi o começo do universo», «as vacinas conferem imunidade», «os astros não comandam o comportamento humano». Os cientistas de hoje são os bispos e papas da nova religião da ciência. Por isso, Feyerabend proclama-se anarquista epistemológico: no anarquismo não há chefes e assim devia ser no campo das ciências, a astrologia, a medicina hopi, a cura através dos cristais, a dança da chuva deveriam ser disciplinas universitárias a par da física, da medicina alopática, da biologia molecular. As ciências actuais nasceram com o emergir da burguesia industrial e financeira actual e por isso estão impregnadas de ideologia - sistema de ideias e valores de uma classe social- neste caso, a burguesia. A ciência e a tecnologia do automóvel como veículo de transporte individual ou familiar insere-se na ideologia individualista da burguesia: «Enriquece, compra um carro próprio, viaja livremente».

Que significa dizer que hoje temos uma religião sem ontologia?  Significa que temos um conjunto de ritos cujo simbolismo profundo já perdemos, em cuja filosofia original já não penetramos. Por exemplo, ignoramos que o facto de a pia de baptismo de antigas igrejas e catedrais ser octogonal é porque o oito significava a oitava esfera que, em alguma gnose, era a esfera de Sofia, a Virgem Maria do cristianismo, a Stela Maris representada na rosa dos ventos ou estrela de oito pontas que orientava os navegantes (as almas) perdidos . Constroem-se hoje igrejas com uma arquitectura moderna ignorando o número de oiro (1,618), número mágico de proporção entre o comprimento e a largura e a altura de um compartimento. Que significa dizer que hoje impera uma arte sem conteúdos? Significa, por exemplo, que uma tela branca salpicada de pontos vermelhos é um quadro sem conteúdo, um significante sem significado. A arte abstracta é sem conteúdo. Que significa dizer que há uma ciência sem sentido? Significa, por exemplo, que há uma medicina que não percebe o sentido da febre - acção de autodefesa do organismo, expulsando as toxinas através do suor ou de urinas escuras - e manda reprimir os sintomas, tomando anti piréticos. (VALE QUATRO VALORES).

 

2-A)  Segundo a gnoseologia de Kant, o fenómeno chuva forma-se na sensibilidade, no espaço exterior ao meu corpo físico, do seguinte modo: de '«fora» da sensibilidade, os númenos afectam esta fazendo nascer nela um caos de matéria (exemplo: água, ferro, areia, etc, em um magma) que as duas formas a priori da sensibilidade, o espaço (com figuras geométricas) e o tempo (com a duração, a sucessão e a simultaneidade) moldam, fazendo nascer uma ou mais fenómenos de chuva. O entendimento, com as categorias de unidade, pluralidade, necessidade, confere consistência ao fenómeno galo. Não existe númeno «chuva», «chuva» é fenómeno na sua totalidade.(VALE UM VALOR E MEIO).

O juízo a priori «A soma dos três ângulos de um triângulo é 180 graus» forma-se no entendimento por acção das categorias de unidade, pluralidade, totalidade com dados a priori vindos da sensibilidade. a imagem de triângulo vinda da forma a priori do espaço, os números (180, etc) vindos da forma a priori do tempo. (VALE UM VALOR E MEIO)

 

                  

3. A) O positivismo lógico do círculo de Viena considera sem sentido a metafísica e afirmações desta como «Deus criou o Paraíso e o Inferno e pune os maus» porque não podem ser comprovadas empiricamente. Para este positivismo, só os factos empíricos ( exemplo: maçã, tornado, etc) e as suas relações lógico-matemáticas são verdade e a indução amplificante - generalização segundo uma lei necessária de alguns casos empíricos semelhantes entre si - é perfeitamente legítima. Karl Popper opõe-se ao positivismo lógico pois, na linha de David Hume, duvida da indução amplificante, achando que há sempre excepções a uma dada lei da natureza e considera ser impossível verificar essa lei pois teríamos de estudar centenas de milhar ou milhões de exemplos concretos. Popper diz que só é possível a corroboração ou confirmação de alguns exemplos através da testabilidade, isto é, realização de testes experimentais. Falsificacionismo de Popper significa que as teorias científicas não passam de conjecturas, hipóteses, falsificáveis, isto é potencialmente falsas.(VALE TRÊS VALORES).  

 

3-B)  O internalismo, posição sustentada por Lakatos, é a doutrina segundo uma teoria já é ciência mesmo que confinada a um só cientista, o seu autor, desde que apresente coerência interna e a experimentação a confirme, ao passo que o externalismo diz que uma teoria só é ciência se obtiver o assentimento externo do resto da comunidade científica, do governo e ministério da ciência, das revistas da especialidade, dos fóruns televisivos, do grande. As ciências empírico-formais são as ciências da natureza biofísica - química, física, astronomia, biologia, geologia - e baseiam-se em leis necessárias ou tendencialmente necessárias e por isso assentam na indução amplificante. As ciências hermenêuticas, ou seja, as que se baseiam em interpretações mais ou menos subjectivas e leis estatísticas - psicologia, sociologia, história, economia, - não recorrem ou recorrem pouco à indução amplificante. Mas tanto umas como outras podem ser validadas segundo o internalismo ou segundo o externalismo, ainda que a tendência mais frequente seja ligar o internalismo às hermenêuticas, subjectivas, e o externalismo às empírico-formais, objetivas (VALE TRÊS VALORES)

 

3-C) Imre Lakatos, epistemólogo, defendeu que a ciência se estrutura em Programas de Investigação Científica (PIC). Cada um destes tem três níveis: o núcleo duro, conjunto das teses imutáveis; o cinto protector, conjunto das teses revisíveis, que podem ser rectificadas ou substituídas; a heurística, conjunto dos métodos de investigação livre, teórica e prática, que pode confirmar ou anular o PIC. O obstáculo epistemológico em Bachelard é todo o entrave ao conhecimento científico: a primeira impressão,  o realismo natural ( o mundo exterior como parece ser: o céu é azul, o mármore é frio, etc, o preconceito do senso comum, a falta de tecnologia apropriada (exemplo: a falta de telescópios, microscópios, reagentes químicos, máscaras antigás, fatos de amianto, bússolas, aparelhos de refrigeração, etc.). Pode dizer-se que o racionalismo enfrenta o obstáculo epistemológico que, muitas vezes, é um facto bruto, uma primeira impressão sensorial. Como o obstáculo epistemológico leva, dialeticamente, à rectificação parece relacionar-se com o cinto protector em Lakatos, isto é, com as teses revisíveis (VALE DOIS VALORES) . .

 

.

3-D- O realismo crítico é a teoria segundo a qual a matéria é real e exterior às nossas mentes mas estas não espelham como ela é. O realismo crítico de Descartes é a teoria qiue sustenta que há um mundo real de matéria exterior às mentes humanas composto de uma matéria indeterminada, sem peso nem dureza/moleza, apenas formado de figuras geométricas, movimento, números (qualidades primárias, objetivas), sendo subjectivas, isto é exclusivamente mentais, as cores, os cheiros, os sabores, as sensações do tacto, o calor e frio (qualidades secundárias, subjectivas). A fenomenologia é a ontologia que sustenta não saber se o mundo material subsiste ou não fora das mentes humanas. O idealismo é a corrente que afirma que o universo material não é real em si mesmo mas está dentro da nossa mente, como imagens e ideias. Por exemplo, o"eu" em David Hume não é uma realidade, mas uma ideia ilusória, uma vez que somos apenas uma corrente de percepções empíricas a que a memória e a imaginação atribuem um núcleo invariável chamado «eu». Do mesmo modo, a   substância (exemplos: as substâncias cadeira ou nuvem) é uma ideia fabricada pela nossa imaginação servindo-se das sete relações filosóficas que são disposições sensório-intelectuais a priori da mente humana: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. (VALE DOIS VALORES)

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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2015
Teste de filosofia do 11º B (Outubro de 2015)

 

.Eis um teste do 11º ano de filosofia, o primeiro do primeiro período lectivo, numa escola secundária onde se pensa em profundidade, no Baixo Alentejo e em Portugal. .

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B

28 de Outubro de 2015.

Professor: Francisco Queiroz

 

I

“Alguns operários são sindicalistas.».

Alguns sindicalistas não são anarquistas.

Logo, os operários são anarquistas.”

 

1-A) Indique, concretamente, três regras do silogismo formalmente válido que foram infringidas na construção deste silogismo.

1-B) Indique o modo e a figura deste silogismo

 

2) Construa o quadrado lógico das oposições à seguinte proposição«Os alentejanos são democratas».

 

3) Distinga realismo crítico de Descartes do idealismo não solipsista objetivo e da fenomenologia.

 

4) Aplique o princípio do terceiro excluído ao conjunto destas 3 correntes.

 

5) Tendo como primeira premissa a proposição «Se passar de ano, vou a Sevilha», construa:

 

A) Um silogismo condicional modus ponens

 

B) Um silogismo condicional modus tollens.

 

6)Construa um silogismo disjuntivo Tollendo/ ponens tendo como premissa inicial a frase «Ou és ateu ou és crente em divindades».

 

7) Distinga a percepção empírica, intuição inteligível, e do juízo.


 CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

1-A) Três regras infringidas da validade do silogismo acima foram: de duas premissas particulares (alguns...alguns) nada se pode concluir; nenhum termo pode ter maior extensão na conclusão do que nas premissas (alguns operários / os (todos) operários); o termo médio (alguns sindicalistas) tem de ser tomado pelo menos uma vez universalmente. (VALE TRÊS VALORES).

1-B) O modo do silogismo é IOA e a figura é PS (predicado e sujeito é a posição do termo médio nas premissas) ou 4ª figura.(VALE DOIS VALORES).

 

2) O quadrado lógico é o seguinte:

 

Os alentejanos são democratas           Nenhum alentejano é democrata.

(TIPO A- Universal Afirmativa)              (TIPO E- Universal Negativa)

 

 

Alguns alentejanos são democratas.      Alguns alentejanos não são democratas.

(TIPO I - Particular Afirmativa)                (TIPO O -  Particular negativa)

  

VALE TRÊS VALORES                                          

 

3) O realismo crítico de Descartes é a teoria qiue sustenta que há um mundo real de matéria exterior às mentes humanas composto de uma matéria indeterminada, sem peso nem dureza/moleza, apenas formado de figuras geométricas, movimento, números (qualidades primárias, objetivas), sendo subjectivas, isto é exclusivamente mentais, as cores, os cheiros, os sabores, as sensações do tacto, o calor e frio (qualidades secundárias, subjectivas). O idealismo não solpsista ou pluralista e objetivo é a teoria que sustenta que o mundo material é ilusório, existe apenas dentro de uma multiplicidade de mentes humanas e cada uma delas constrói esse mundo de igual às outras ( «A torre de Belém que eu invento/vejo  é igual à torre de Belém que tu inventas/ vês), A fenomenologia é a ontologia que sustenta não saber se o mundo material subsiste ou não fora das mentes humanas. (VALE CINCO VALORES).

 

4) O princípio do terceiro excluído diz que uma coisa ou uma corrente de pensamento pertence ao grupo A ou ao grupo não A, excluindo a terceira hipótese. Comparando as três correntes da pergunta anterior pode enunciar-se assim: ou se é realista, afirmando a certeza de um mundo material extramental, ou não se é realista negando isso (idealismo) ou duvidando disso (fenomenologia).  (VALE TRÊS VALORES)-

 

5) a)  Se passar de ano, vou a Sevilha.

          Passei de ano.

          Logo, vou a Sevilha.     (VALE UM VALOR)

 

5.b)  Se passar de ano, vou a Sevilha..

         Não fui a Sevilha.

         Logo, passei de ano.

         (VALE UM VALOR)

 

6)  Ou és ateu ou és crente em divindades

     Não és ateu.

     Logo és crente em divindades.  (VALE UM VALOR)

 

7) A intuição intelígivel é uma apreensão imediata de algo metafísico, invisível, que pode até não ser real. Exemplo: a intuição de Deus, dos quarks e leptons, etc. O juízo  é uma articulação lógica de dois ou mais conceitos mediante uma forma verbal, é uma frase simples que afirma ou nega algo. Exemplo:«Beja é a capital do Baixo Alentejo». A percepção empírica é um conjunto ordenado de sensações visuais, auditivas, tácteis, olfactivas. Exemplo: «Vejo esta paisagem de oliveiras e sinto uma suave brisa no rosto». (VALE DOIS VALORES).

 

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Segunda-feira, 26 de Outubro de 2015
Teste de filosofia do 11º ano, turma C (Outubro de 2015)

 

.Eis um teste do 11º ano de filosofia, o primeiro do primeiro período lectivo, numa escola secundária de vanguarda no campo da filosofia e em outros, no Baixo Alentejo e em Portugal. .

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA C

26 de Outubro de 2015.

Professor: Francisco Queiroz

 

I

“Alguns operários são sindicalistas.».

Alguns sindicalistas são marxistas.

Logo, os operários são marxistas..”

 

1-A) Indique, concretamente, três regras do silogismo formalmente válido que foram infringidas na construção deste silogismo.

 

1-B) Indique o modo e a figura deste silogismo

 

2) Construa o quadrado lógico das oposições à seguinte proposição«Os alentejanos são bons cantores».

 

3) Distinga realismo crítico de Descartes do idealismo não solipsista subjetivo e da fenomenologia.

 

4) Aplique o princípio do terceiro excluído ao conjunto destas 3 correntes.

 

5) Tendo como primeira premissa a proposição «Se for ao aeroporto de Beja viajo de avião», construa:

 

A) Um silogismo condicional modus ponens

 

B) Um silogismo condicional modus tollens.

 

6) Construa um silogismo disjuntivo Tollendo/ ponens tendo como premissa inicial a frase «Ou és sportinguista ou és benfiquista» 

 

7) Distinga a intuição inteligível, do raciocínio e do conceito empírico.


 CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

1-A) Três regras infringidas da validade do silogismo acima exposto foram: de duas premissas particulares (alguns...alguns) nada se pode concluir; nenhum termo pode ter maior extensão na conclusão do que nas premissas (alguns operários / os (todos) operários); o termo médio (alguns sindicalistas) tem de ser tomado pelo menos uma vez universalmente. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

1-B) O modo do silogismo é IIA e a figura é PS (predicado e sujeito é a posição do termo médio nas premissas) ou 4ª figura.(VALE DOIS VALORES).

 

2) O quadrado lógico é o seguinte:

 

Os alentejanos são bons cantores    Nenhum alentejano é bom cantor

(TIPO A- Universal Afirmativa)          (TIPO E- Universal Negativa)

 

 

Alguns alentejanos são bons cantores.Alguns alentejanos não são bons cantores

(TIPO I - Particular Afirmativa)              (TIPO O -  Particular negativa)

  

VALE TRÊS VALORES                                          

 

3) O realismo crítico de Descartes é a teoria qiue sustenta que há um mundo real de matéria exterior às mentes humanas composto de uma matéria indeterminada, sem peso nem dureza/moleza, apenas formado de figuras geométricas, movimento, números (qualidades primárias, objetivas), sendo subjectivas, isto é exclusivamente mentais, as cores, os cheiros, os sabores, as sensações do tacto, o calor e frio (qualidades secundárias, subjectivas). O idealismo não solpsista ou pluralista e subjectivo é a teoria que sustenta que o mundo material é ilusório, existe apenas dentro de uma multiplicidade de mentes humanas e cada uma delas constrói esse mundo de modo diferente das outras ( «A torre de Belém que eu invento/vejo não é igual à torre de Belém que tu inventas/ vês), A fenomenologia é a ontologia que sustenta não saber se o mundo material subsiste ou não fora das mentes humanas. (VALE CINCO VALORES).

 

4) O princípio do terceiro excluído diz que uma coisa ou uma corrente de pensamento pertence ao grupo A ou ao grupo não A, excluindo a terceira hipótese. Comparando as três correntes da pergunta anterior pode enunciar-se assim: ou se é realista, afirmando a certeza de um mundo material extramental, ou não se é realista negando isso (idealismo) ou duvidando disso (fenomenologia).  (VALE DOIS VALORES)-

 

5) a)  Se for ao aeroporto de Beja, viajo de avião.

          Fui ao aeroporto de Beja.

          Logo, viajei de avião.     (VALE UM VALOR)

 

5.b)  Se for ao aeroporto de Beja, viajo de avião.

         Não viajei de avião.

         Logo, não fui ao aeroporto de Beja   (VALE UM VALOR)

 

6)  Ou és sportinguista ou és benfiquista.

     Não és sportinguista.

     Logo és benfiquista.  (VALE UM VALOR)

 

7) A intuição intelígivel é uma apreensão imediata de algo metafísico, invisível, que pode até não ser real. Exemplo: a intuição de Deus, dos quarks e leptons, etc. O raciocínio é uma articulação lógica de juízos que desembocam numa conclusão. Exemplo: As lareiras acesas deitam fumo/ Há fumo a sair pela chaminé daquela casa/ Logo, a causa deve ser uma lareira com lenha ou carvão a arder. O  conceito empírico é uma ideia nascida das percepções empíricas, do que vemos, tocamos, ouvimos. Exemplo: a ideia de girassol, nascida de eu ter visto um campo de girassóis (VALE DOIS VALORES).

 

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Segunda-feira, 15 de Junho de 2015
Erros no Exame Nacional de Filosofia de 15 de Junho de 2015

 

O exame final nacional de filosofia do ensino secundário em Portugal, 11º   ano de escolaridade, prova 714/ 1ª fase, realizado em 15 de Junho de 2015, enferma de erros teóricos. Eis alguns desses erros na versão 2 da Prova 714/1ª fase, nas questões de escolha múltipla em que só se dá como correcta uma das quatro opções.

 

GRUPO I

 

«2. Em qual das seguintes opções é referida, de forma inequívoca, uma acção:

(A) A Mariana foi picada por um mosquito.

(B) O Rui esqueceu-se de tirar o boné da cabeça.

(C) Um mosquito picou a Mariana.

(D) A professora mandou o Rui tirar o boné.»

 

Crítica minha: Os critérios de correção apontam que a resposta D é a única certa. Mas a resposta C está igualmente certa: picar uma pessoa é uma acção... de um animal, um mosquito. Há três tipos de acções: da natureza geofísica (exemplo: a erupção de um vulcão), dos animais inumanos (exemplo: o leão persegue e mata a gazela) do homem (exemplo: um condutor atropela involuntariamente uma pessoa). Se o autor do exame queria que só a resposta D fosse certa, a pergunta devia falar de acção humana e não somente de acção. Não é ridículo considerar acção o facto de um homem comer frango e não considerar acção o facto de um leão comer uma gazela? É assim o espírito minucioso e míope, sem visão global, dos analíticos...

 

«6. Segundo a UNICEF, devido à epidemia de ébola que, em 2014, atingiu o continente africano, 4 000 crianças perderam ambos os pais e 13 000 crianças perderam um dos pais. Portanto, a epidemia de ébola causou 17 000 orfãos em África.»

O argumento anterior é:

(A) um mau argumento de autoridade.

(B) um bom argumento de autoridade.

(C) uma indução a partir de um número insuficiente de casos.

(D) uma indução a partir de uma amostra representativa.»

 

Segundo os critérios de correção a resposta correcta é a opção B: é um bom argumento da autoridade já que a Unicef tem prestígio na matéria.

 

Crítica minha: nenhuma das respostas está correcta. Embora a Unicef invocada seja uma autoridade mundial no problema das crianças, e pareça que se trata de um bom argumento de autoridade, o essencial do argumento está na correção da operação matemática referente aos meninos e meninas que ficaram orfãos ou  duplamente orfãos de África em 2014. Trata-se de uma indução completa, sem salto no vazio, isto é, de uma inferência que consiste em  chegar ao resultado por enumeração, contando a totalidade dos casos singulares. Ou, se se quiser, trata-se de uma dedução - a operação matemática 4 000 + 13 000= 17 000 é uma dedução, não necessita de uma amostra empírica- fundada numa indução completa ou contagem exaustiva de todos os elementos de um conjunto. Se o autor da prova queria que a opção B fosse a resposta correta devia te-la formulado assim: «um argumento de autoridade e uma dedução fundada numa indução completa».

 

«7. Considere os textos seguintes:

        1. A ciência está na base das tecnologias que mudaram as nossas vidas. Por conseguinte, para que o avanço tecnológico não abrande, os investimentos da ciência não devem ser reduzidos.

         2. Após a Segunda Guerra Mundial, importava assegurar a recuperação económica dos países europeus envolvidos. Além disso, os líderes das principais nações europeias pretendiam impedir um novo conflito armado. Foi esta dupla ambição que esteve na origem da União Europeia.

 

(A) 1 e 2 são textos argumentativos.

(B) 1 e 2 não são textos argumentativos.

(C) 2 é um texto argumentativo; 1 não é um texto argumentativo.

(D) 1 é um texto argumentativo; 2 não é um texto argumentativo.»

 

A resposta considerada correcta nos critérios de correção é a (D).

Crítica minha: A resposta correcta é a A: ambos os textos, um e dois, são (parcialmente) argumentativos, se por argumentativo se entende uma afirmação ideológica, que exprime o ponto de vista de uma classe social, de um grupo cultural, político ou religioso, ou de um povo, não sendo absolutamente neutra ou isenta. Ao dizer «para que o avanço tecnológico não abrande, os investimentos da ciência não devem ser reduzidos»  está-se a argumentar, no texto 1, a favor do investimento com dinheiro nos programas científicos e tecnológicos, e isto é ideologia do capitalismo, privado ou estatal, posição que não merece o acordo dos grupos ecologistas defensores do «crescimento zero», da paralisação do fabrico de automóveis, barcos, aviões, telemóveis, postes de energia eléctrica, etc. Ao dizer no texto dois que «Após a Segunda Guerra Mundial, importava assegurar a recuperação económica dos países europeus envolvidos. Além disso, os líderes das principais nações europeias pretendiam impedir um novo conflito armado» está-se a argumentar com as intenções supostamente pacifistas dos líderes europeus como base da criação do Mercado Comum Europeu, o que é discutível, isto é, argumentativo. Alguns dirão que as burguesias francesa e alemã tinham por objectivo não uma recuperação económica dos países comunitários mas um aumento da sua hegemonia no mundo e a realização do máximo lucro..

 

«8. Em qual das opções seguintes se apresenta um exemplo do conhecimento a priori?

(A) Sei que nenhum irmão é filho único.

(B) Sei qual é o meu nome.

(C) Sei que alguns pais não são casados.

(D) Sei que idade tenho.»

 

Os critérios de correção apontam como resposta «certa» a opção A

 

Crítica minha: nenhuma das respostas é correcta. O que é o conhecimento a priori? É aquele que se opera independentemente das sensações, das percepções de objectos do mundo empírico. Segundo Kant só os conceitos matemáticos e alguns da física pura são a priori: os conceito de números Dois, Três, Quatro, etc., são a priori e os juízos «Três mais Quatro é igual a Sete» ou «Dois Vezes Dois é igual a Quatro» são a priori, mas os conceitos de «Irmão» de «Filho Único», de «Pai», de «Idade» , de «Casado», de «Nome» e o juízo «Ter irmãos implica não ser filho único» são a posteriori, isto é, derivam da experiência sensorial, de pessoas e situações qiue vemos e ouvimos. Ora, em todas as quatro frases acima citadas há conceitos a posteriori.

 

Os critérios de correção apontam como resposta «certa» a opção A. Mas a frase «Sei que nenhum irmão é filho único» é tão a priori - se assim me posso exprimir; em rigor não é a priori - como a frase C «Sei que alguns pais não são casados». Ser irmão implica não ser filho único e ser pai, em muitos casos, implica não ser casado.

 

«9. Identifique o par de termos que permite completar a afirmação seguinte.

       A dúvida cartesiana é_________; por isso, Descartes não é um filósofo____________

(A) metódica...racionalista

(B) metódica.....cético

(C) hiperbólica....empirista

(D) cética..... empirista.»

 

Os critérios de correção da prova apontam como única opção correcta a resposta B: A dúvida cartesiana é metódica  por isso, Descartes não é um filósofo cético.

 

Crítica minha: há duas respostas certas, as opções B e C, e não apenas uma. A opção C diz o seguinte:  «A dúvida cartesiana é hiperbólica   por isso, Descartes não é um filósofo empirista». Isto está correto. O que é a dúvida hiperbólica? É aquela que se estende a tudo e duvida mesmo do próprio corpo físico do sujeito e do eu pensante. Formula-se assim: «Os sentidos , fonte da verdade segundo o emprismo, enganam-me e é possível que tudo o que vejo, toco e penso não exista, duvido da existência das árvores, das casas e cidades,  da paisagem , da realidade dos animais, dos homens, dos céus e da terra, de Deus, das verdades matemáticas e outras e do meu próprio eu. Ora esta dúvida hiperbólica faz com que Descartes não seja um filósofo empirista já que estes dão crédito às percepções empíricas e tomam-nas como a base, ao contrário de Descartes. 

 

 

A existência de tantos erros neste exame nacional é a prova da incompetência da universidade portuguesa na área da filosofia, porque a tutela da comissão que fabrica a prova nacional de filosofia é, tanto quanto se sabe, da universidade portuguesa. Fechem-se as faculdades de filosofia porque os doutoramentos e as cátedras - dignidades «clericais» que não existiam no tempo de Platão e Aristóteles - são centros de poder pessoal onde reinam incompetentes adeptos da filosofia analítica, do positivismo lógico ou da fenomenologia que distorcem, em regra, a verdade da qual julgam ser donos. Precisa-se de uma revolução estudantil-operária como a de Maio de 1968 em França, em que os estudantes destituem os catedráticos da burguesia, os papas da igreja laica que é a universidade das humanísticas (filosofia, história, sociologia, antropologia, etc.), carregados de ideologia contra a dialética, a  ciência da astrologia histórica, as medicinas naturais, etc.

 

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Sábado, 7 de Março de 2015
Teste de filosofia do 11º A (Fevereiro de 2015)

 

 

 

Eis um teste de filosofia do 11º ano de  escolaridade em Portugal, evitando as perguntas de escolha múltipla em que o aluno coloca um X na hipótese que supõe estar certa e é dispensado de desenvolver ideias por palavras suas.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A
23 de Fevereiro de 2015. Professor: Francisco Queiroz

 

.”.O espaço não é um conceito empírico extraído de experiências externas…O entendimento faz a síntese do diverso da intuição empírica e é condicionado, ao passo que a razão é incondicionada» (Kant, Crítica da Razão Pura)

 

1) Explique estes pensamentos de Kant.

 

2) Explique, como, segundo a gnosiologia de Kant, se formam o fenómeno NUVEM, o conceito empírico de NUVEM e a antinomia «O mundo teve um princípio, o mundo nunca principiou».       

 

3) Relacione, justificando:

A) Facto Bruto/ Facto Científico, racionalismo e obstáculo epistemológico em Gaston Bachelard.

B) Conjectura, indução (amplificante), verificação, corroboração e falsificabilidade na teoria de Popper.

C) Fenomenologia, Realismo Crítico de Descartes e Epokê.

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE ESCRITO (COTADO PARA 20 VALORES)

1) O espaço é uma forma a priori da sensibilidade, isto é, uma estrututa subjectiva vazia onde se inserem os corpos materiais e que está antes de os objectos materiais nascerem com a experiência. O espaço é a parede externa e o grande reservatório externo da sensibilidade onde cabe o universo inteiro com planetas, galáxias e mares. Por isso, não é empírico,  mas sim puro, anterior a toda a experiência (VALE DOIS VALORES). O entendimento, faculdade que pensa os fenómenos, sintetiza a diversidade das intuições empíricas em cada conceito empírico que produz: exemplo, as imagens de múltiplas árvores (fenómenos) formadas na sensibilidade ascendem ao entendimento que usando a categoria de pluralidade e, sobretudo, a de unidade, as reduz a um só conceito (imagem abstracta intelectual) de árvore. O entendimento é condicionado pelos fenómenos da sensibilidade - exemplo: o fogo, o céu, a água a correr, o movimento do sol no céu reflectem-se nos juízos e conceitos - e pela sua estrutura interna de regras: as categorias (unidade, pluralidade, totalidade, realidade, limitação, negação, etc) e os juízos puros (afirmativos, negativos, assertóricos, etc). A razão, faculdade que pensa livremente os númenos, a metafísica, é incondicionada: ela pode pensar que Deus gerou o mundo ou o inverso, que o mundo gerou Deus. É assim que a razão gera a antinomia - as afirmações contrárias entre si - «O mundo teve um princípio, o mundo nunca principiou» (VALE QUATRO VALORES).

 

2) Segundo a gnoseologia de Kant, o fenómeno nuvem  forma-se na sensibilidade, no espaço exterior ao meu corpo físico, do seguinte modo: de '«fora» da sensibilidade, os númenos afectam esta fazendo nascer nela um caos de matéria (exemplo: madeira, ferro, areia, etc, em um magma) que as duas formas a priori da sensibilidade, o espaço (com figuras geométricas) e o tempo (com a duração, a sucessão e a simultaneidade) moldam, fazendo nascer uma ou mais nuvens. O entendimento, com as categorias de unidade, pluralidade, necessidade, confere consistência ao fenómeno nuvem.

 

O  conceito de NUVEM forma-se no entendimento, faculdade que pensa mas não sente, do seguinte modo: a imaginação, situada entre a sensibilidade e o entendimento, transporta desde aquela a este as imagens de NUVEM e as categorias do entendimento de pluralidade e unidade recebem as diversas imagens e transformam-na numa só imagem abstracta, o conceito empírico de NUVEM

razão, dado que não se apoia em factos empíricos,  e se aventura no desconhecido, especulando,  gera a antinomia - as afirmações contrárias entre si - «O mundo teve um princípio, o mundo nunca principiou» sem conseguir chegar a uma conclusão. (QUATRO VALORES).

 

3) A) Facto bruto é um facto empírico, não meditado e questionado racionalmente. Exemplo: a cor da erva é verde e a do céu diurno é azul, o mármore é frio, a lã é quente. O racionalismo é a doutrina segundo a qual a razão é a fonte principal ou única de conhecimento desprezando as percepções empíricas. É pelo raciocínio (racionalismo) que o facto bruto é transformado em facto científico, isto é , num facto racional ou empírico-racional: a cor do céu diurno não é azul, o azul exste apenas no interior da nossa mente; o mármore não é frio, é bom condutor de calor e rouba calor à mão que nele pousamos, etc. O obstáculo epistemológico em Bachelard é todo o entrave ao conhecimento científico: a primeira impressão,  o realismo natural ( o mundo exterior como parece ser: o céu é azul, o mármore é frio, etc, o preconceito do senso comum, a falta de tecnologia apropriada (exemplo: a falta de telescópios, microscópios, reagentes químicos, máscaras antigás, fatos de amianto, bússolas, aparelhos de refrigeração, etc.). Pode dizer-se que o racionalismo enfrenta o obstáculo epistemológico que, muitas vezes, é um facto bruto, uma primeira impressão sensorial.(VALE TRÊS VALORES).

 

3) B) Conjectura é uma suposição, uma hipótese. O conjecturalismo é a teoria de Popper segundo a qual as teorias das ciências empíricas, as leis induzidas, não passam de suposições, de hipóteses falíveis, pois é impossível verificar todos os casos concretos correspondentes a dada lei ou tese. Assim, por exemplo, a tese de que o átomo de enxofre tem 16 electrões é uma mera hipótese e não uma verdade indiscutível. A indução (amplificante) é a generalização de alguns exemplos empíricos similares de modo a construir uma lei universal e necessária. Popper rejeita este raciocínio indutivo dizendo que só seria legítimo se fosse possível a verificação de todos os casos correspondentes a essa lei induzida, mas só é possível a corroboração, isto é, a confirmação de alguns casos. O falsificacionismo é a teoria de Popper segundo a qual uma teoria «científica» deve ser falsificada, posta em questão, através de testes experimentais rigorosos e de discussão racional, e ser aceite provisoriamente enquanto resistir a esses testes. O método hipotético-dedutivo baseia-se na indução amplificante, inferência que Popper não aceita como válida, e tem quatro fases: observação, hipótese, dedução da hipótese e confirmação ou não. (VALE QUATRO VALORES).

 

3) C)  O realismo crítico de Descartes sustenta que há um mundo real de matéria independente das mentes humanas e estas o captam de modo parcialmente ilusório: as cores, os sons, os sabores, a dureza, os sons (qualidades secundárias) não existem nas árvores, nas montanhas e em outros objectos fora de nós, só existem na nossa mente atingida, nos orgãos dos sentidos, por partículas vibratórias exteriores que nos fazem ver vermelha uma rosa que, de facto, é incolor; os tamanhos, as formas, a extensão são reais, são as qualidades primárias, reais, objectivas, dos corpos. A fenomenologia, ao contrário do realismo, não garante que exista um mundo de matéria real exterior à nossa mente: limita-se a postular que a mente e o mundo material são correlatos. Neste sentido, a fenomenologia faz uma epokê, isto é, uma suspensão do juízo  (de existência): «Não sei se a cadeira e a mesa que ali vejo existem em si mesmas, fora da minha mente».  (VALE TRÊS VALORES).

  

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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2015
Teste de filosofia do 10º B (Fevereiro de 2015)

 

Os temas de alquimia incluídos neste texto conexionam-se com a visita de estudo a Sevilha que o liceu de Beja (ESDG) realiza anualmente. Nenhum manual do 10º ano de filosofia do ensino secundário em Portugal inclui textos sobre alquimia, filosofia hermética, astrologia - temas obrigatórios para quem queira pensar a sério filosofia -  o que diz da qualidade bastante medíocre desses manuais. E diz do clima de monolitismo cinzento e da estreiteza de horizontes impostos pelos catedráticos de filosofia analítica e fenomenologia que dominam a universidade e a construção de manuais escolares do 10º e 11º ano. Vive-se um clima de censura na universidade portuguesa e mundial, pretensamente racionalista, comparável à censura da inquisição: é proibido, dentro das universidades, pensar e investigar os astros como causa dos acontecimentos sociais e políticos!

 

A maioria dos actuais professores universitários são incompetentes, anti filosóficos. A universidade está infiltrada de doutorados que são alunos «marrões» que fizeram «copy paste» de trabalhos dos «mestres», fizeram o «beija-mão», pagaram milhares em propinas e foram cooptados. Os doutoramentos em filosofia enfermam de erros graves, em regra, e superabundam em verniz retórico. É um show-off. Vamos ao nosso teste que, certamente, ensina algo a muitos desses ignorantes donos de cátedras e autores ou co-autores de manuais escolares, agentes da burguesia inculta e endinheirada que domina o Estado e o sistema de ensino.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA B
9 de Fevereiro de 2015. Professor: Francisco Queiroz

 

"Os alquimistas falavam em dois princípios originais da matéria e da Grande Obra, aos quais se aplicam as noções de Yang e de Yin. O templo cristão na idade média foi construído segundo o princípio das correspondências microcosmo-macrocosmo, que exprime a lei dialética do uno. Alguns dizem que isto é puro subjectivismo, outros são cépticos sobre a gnose e preferem o pragmatismo pois detestam os factos metafísicos.”

 

1) Explique, concretamente este texto.

2) Relacione, justificando:

A) As quatro fases do processo alquímico e respectivas aves- símbolos, por um lado, e os quatro arkês segundo Pitágoras de Samos, por outro lado.

B) O imperativo categórico em Kant e o princípio moral do utilitarismo de Stuart Mill.

3) Enuncie a lei dialética da contradição principal e aplique-a a três ou quatro esferas (sefirós) da Árvore da Vida da Cabala judaica. 

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE ESCRITO (COTADO PARA 20 VALORES)

1) Os dois princípios de que os alquimistas falavam são o princípio masculino, representado pelo enxofre e pelo salitre, sólidos, designado de «homem vermelho» e o princípio feminino, o mercúrio filosófico, líquido e volátil, designado de «mulher branca». No taoísmo, yang significa princípio masculino, dilatação, calor, verão, vermelho, som e yin significa princípio feminino, contração, inverno, azul ou branco, silêncio. Embora o yang corresponda de modo geral ao enxofre e o yin ao mercúrio, a correspondência não é perfeita porque no taoísmo o sólido é o feminino e na alquimia o sólido é o masculino. (VALE TRÊS VALORES) O templo cristão da idade média obedecia ao princípio hermético das correspondências «o que está em baixo é como o que está em cima, o microcosmo espelha o macrocosmo»: o templo é um microcosmo que espelha o macrocosmo, o corpo gigantesco de Cristo que atravessa o universo. Na planta da catedral, a  abside corresponde à cabeça de Cristo, o transepto aos braços abertos, o altar ao coração, as naves ao tronco e pernas. A catedral tinha a abside virada a Leste, onde nasce o Sol, símbolo de Cristo. A lei do uno diz que tudo se relaciona: Cristo com o Sol e com o templo em pedra, por exemplo. Outra expressão deste princípio é a correspondência entre a catedral e a natureza física envolvente: o altar equivale à montanha sagrada, as colunas às árvores, as abóbadas ao céu, as janelas de vitrais às estrelas e planetas, as paredes aos desfiladeiros, a pia baptismal aos lagos e mares (VALE  TRÊS VALORES). Alguns dizem que isto é puro subjectivismo, isto é, verdade para uma só consciência - portanto discutível, aparentemente ilusão - outros são cépticos, isto é, duvidam da gnose, doutrina dualista que diz que há dois princípios na origem do universo, o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas, o Espírito e a Matéria, e preferem o pragmatismo, ou seja, a doutrina que diz que a verdade está nos factos empíricos reais e na sua utilidade e que põe de parte a metafísica, os ideais utópicos, pois detestam os factos metafísicos, que estão além do mundo empírico quotidiano como «deus», «paraíso e inferno», «reencarnação da alma», etc (VALE TRÊS VALORES).

 

 A) As quatro fases do processo alquímico e respectivas correspondências com a teoria de Pitágoras - esta é uma interpretação entre outras - são:

1ªNIGREDO ou fase negra, da putefração do cadáver. A ave é o corvo. Pode equiparar-se ao ponto que em Pitágoras representava o número um (Do vazio veio um ponto).

2ªALBEDO ou fase branca, da separação das impurezas.A ave é o cisne. Pode equiparar-se, na teoria de Pitágoras, à linha recta que representa o número dois e se forma da separação em dois do ponto, pontos que se vão afastando.

 

3ªCITREDO ou fase amarela e polícroma. A ave é o pavão. Pode equiparar-se ao plano, número três, segundo Pitágoras, que se formou quando um ponto se destaca da recta e se projecta sobre ela através de infinitas rectas. É esta multiplicidade de cores, onde existe Sol e Lua, que irá originar o lapis da última fase.

 RUBEDO ou fase vermelha na qual se produz o lapis ou elixir da longa vida ou pedra filosofal que permite ao homem regressar ao estado adâmico, adquirir um corpo andrógino desmaterializado, que atravessaria as pedras e a matéria densa e viveria no Paraíso Terrestre. A ave é o pelicano ou a fénix. Pode equiparar-se, na teoria de Pitágoras, ao tetraedro ou pirâmide de três lados, porque este sólido é o mais completo dos arkhês. 

(VALE QUATRO VALORES)

 

B) O imperativo categórico é a verdadeira lei moral em Kant, é formado na razão ou eu numénico, que se opõe aos instintos corporais e ao eu fenoménico ou inferior. Enuncia-se assim: «Age de modo a transformares a tua máxima em princípio universal, como se fosse uma lei universal da natureza que não beneficia em particular ninguém, nem sequer a ti mesmo». Este imperativo é formal e autónomo, varia de pessoa a pessoa no seu conteúdo concreto. Para uns, o imperativo é dar sempre esmola aos pedintes, para outros é nunca dar esmola nem aceitar esmolas.

O princípio moral de Stuart Mill é o da maximização social do prazer: é bem promover a felicidade da maioria dos envolvidos numa situação, mesmo à custa da infelicidade da maioria ou do próprio autor da acção.

Teoricamente,  é imoral, na doutrina de Kant, expropriar 20 famílias que vivem em casas de um bairro que a câmara municipal da cidade quer destruir para aí fazer uma circular rodoviária exterior para satisfazer 20 000 famílias que vivem nessa cidade porque cada pessoa é um fim em si mesma e deve-se aplicar a todas a mesma lei respeitando a sua dignidade. Mas, segundo a ética de Stuart Mill seria legítimo destruir esse bairro porque a felicidade da maioria (20 000 famílias) se sobrepõe à felicidade da minoria (20 famílias). Ainda que se classifique habitualmente a moral de Kant como «deontológica», centrada no dever («déon»), e a de Mill como «teleológica» («télos» é finalidade. em grego), centrada nos resultados da acção, a verdade é que esta última é igualmente «deontológica» porque para Mill os fins não justificam qualquer meio, há princípios morais a respeitar. (VALE QUATRO VALORES).

 

C) A lei dialética da contradição principal consiste em reduzir um conjunto de contradições a uma só composta por dois blocos, passando a ser secundárias entre si todas as contradições no interior de cada um dos blocos ou polos. Exemplo: na 2ª Guerra Mundial, a URSS aliou-se à Inglaterra, aos EUA, ao Canadá, Brasil e formaram o bloco dos Aliados, e a Alemanha aliou-se à Itália e Roménia fascistas e ao Japão formando o bloco do Eixo. A árvore da Vida, cabalística é composta por dez esferas ou sefirós que exprimem as qualidades conhecidas de Deus- porque há um Deus inatingível e incognoscível, o Ein Sof, ou Nada Infinito. A forma da árvore é um hexágono tendo por baixo um triângulo de vértice para baixo e no final, abaixo do triângulo,  uma esfera isolada. Podemos escolher três esferas, duas do lado direito da árvore - a Sabedoria (Hocmah) e a Misericórdia (Chesed) - e uma do lado esquerdo - a Justiça- Severidade (Gueburah).. Neste caso a Justiça, de um lado, opõe-se à Sabedoria e à Misericórdia, do outro. (VALE TRÊS VALORES)

 

 

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