Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2017
Teste de filosofia do 11º ano (1 de Fevereiro de 2017)

 

 Eis um teste de filosofia para o 11º ano do ensino secundário em Portugal.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B

1 de Fevereiro de 2016. Professor: Francisco Queiroz

I

“.O espaço não é um conceito empírico extraído de experiências externas…O entendimento faz a síntese do diverso da intuição empírica e é condicionado, ao passo que a razão é incondicionada e produz antinomias» (Kant, Crítica da Razão Pura)

 

1) Explique estes pensamentos de Kant.

 

 2) Explique, como, segundo a gnosiologia de Kant, se formam o fenómeno ESCOLA, o conceito empírico de ESCOLA e o juízo a priori «Cinco mais seis é igual a onze».

      

3) Relacione, justificando:

A) As sete relações filosóficas em David Hume e as formas a priori da sensibilidade e do entendimento na teoria de Kant

B) As três res e três tipos de ideias em Descartes

C) Holismo e astúcia da razão em Hegel.

D) Idealismo, empirismo, teoria da tábua rasa e ideias de «eu», «alma» e «substância» em David Hume.

 

1) O espaço não é um conceito empírico extraído de experiências exteriores porque para o idealista Kant o espaço é a priori, existe antes de qualquer objecto físico, como sendo o lado externo, exterior ao nosso corpo, da sensibilidade. (VALE DOIS VALORES).O entendimento, faculdade que pensa os fenómenos mas não os sente, faz a síntese do diverso das intuições porque recebe milhares de intuições sensoriais de fenómenos (exemplo: muitas imagens de rosas brancas, vermelhas, etc) que sobem ao entendimento e este com as categorias de pluralidade, unidade, realidade, etc, reduzem-nas a um conceito único de rosa. É condicionado porque a sua atenção está centrada no mundo visível dos fenómenos (comboios a circular, salários dos trabalhadores, etc). A razão, faculdade que pensa os númenos ou objectos incognoscíveis (Deus, imortalidade da alma, a totalidade do mundo, não os objectos físicos) é livre, incondicionada porque vai além da experiência e entra na metafísica, pode «inverter» a ordem da natureza e imaginar que o filho nasça antes da mãe, etc. Balança ao gerar as antinomias, leis ou teses opostas, como por exemplo «Deus existe, Deus não existe, a liberdade existe, a liberdade não existe» (VALE TRÊS VALORES).

 

 

2) O númeno ou objecto metafísico afecta de alguma maneira a sensibilidade fazendo nascer nesta um caos empírico de matéria indeterminada e as formas a priori de espaço (figuras, extensão) e tempo (duração, simultaneidade, sucessão) moldam essa matéria transformando-a no fenómeno escola, que é o objecto visível ou coisa para nós. As imagens do fenómeno são levadas pela imaginação às categorias de unidade, pluralidade, realidade e outras do entendimento ou intelecto ligado ao mundo empírico e aí são reduzidas à unidade, a um conceito único de escola. Na forma a priori do tempo, na sensibilidade existem os números cinco, seis, onze e outros, estas intuições são elevadas ao entendimento, às categorias de unidade, pluralidade, totalidade, necessidade e estas categorias com a ajuda da tábua de juízos puros, em particular do juízo apodíctico, produzem o juízo a priori «Cinco mais seis é igual a onze» (VALE TRÊS VALORES).

 

3) A) As sete relações filosóficas são, segundo David Hume: identidade, semelhança, relações de tempo e de lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. É discutível saber se são noções a posteriori, ou seja, que surgem na experiência sensorial e não antes desta, ou se são formas a priori, isto é, estruturas vazias que estão antes da primeira experiência. As formas a priori da sensibilidade, em Kant, são: o espaço, cujo conteúdo é extensão e figuras geométricas, e o tempo, cujas determinações são duração, sucessão, simultaneidade e números.

É fácil detectar correspondências entre Hume e Kant: as relações de tempo e de lugar, em Hume, correspondem ao espaço e tempo à priori em Kant; a proporção de quantidade ou número, em Hume, equivale aos números contidos no tempo, em Kant.

 

As categorias, em Kant,  são formas a priori do entendinento, isto é, mecanismos inatos do pensamento, anteriores a toda a experiência sensorial, como por exemplo, unidade, pluralidade e totalidade (categorias da quantidade). São 12 e constituem a seguinte tábua:

«TÁBUA DAS CATEGORIAS»

I

Da quantidade:

Unidade

 Pluralidade

   Totalidade

           2                                                                                   3

Da Qualidade                                                              Da relação

Realidade                                                                    Inerência e subsistência

Negação                                                                      ( substancia et accidens)

Limitação                                                                    Causalidade e dependência

                                                                                                     (causa e efeito)

.....................................................................................Comunidade

                                                                                    (acção recíproca entre

                                                                                     o agente e o paciente)

                                                                         4

Da Modalidade:

Possibilidade-Impossibilidade

Existência-Não-existência

Necessidade-Contingência

 

 

Podemos fazer corresponder a relação filosófica de causação (determinismo), em Hume, à categoria de necessidade (lei infalível de causa-efeito)  em Kant. Também podemos estabelecer correspondência entre a relação filosófica de identidade e a categoria de inerência e subsistência (substância e acidente). As formas a priori do entendimento incluem as categorias e os juízos puros (afirmativos, negativos, assertóricos, apodícticos, etc) que são doze (VALE TRÊS VALORES).

 

B) As três res ou substâncias primordiais em Descartes são: a res divina, Deus, espírito criador do universo, fonte das outras duas; a res cogitans ou pensamento humano sobre ciências, filosofia, senso comum, etc; a res extensa, isto é, a matéria, abstracta e indeterminada, constituída por comprimento, largura e altura dos corpos, destituída de cor, som, cheiro. Os três tipos de ideias são : inatas, nascem connosco (ideias de triângulo, corpo, número, etc); adventícias, isto é, percepções empíricas; factícias, isto é, forjadas na imaginação. Podemos fazer corresponder as ideias adventícias à res extensa, por exemplo, ou as inatas, conforme o ponto de vista.(VALE QUATRO VALORES).

 

C) Holismo é a teoria que diz que a verdade é o todo e que o comportamento de cada parte só pode ser explicado em função do Todo. A astúcia da razão universal é a utilização das ambições pessoais de cada homem de Estado pela razão extra hunana ou Deus  de modo a fazer avançar a história para onde a razão quer. Sendo a astúcia da razão uma estratégia holística de manipular os homens ela é holismo, (VALE DOIS VALORES).

 

D) O idealismo, isto é, a doutrina que diz que o mundo material exterior à mente humana não existe, é ilusório, é base da teoria de Hume. Por exemplo, o"eu" em David Hume não é uma realidade, mas uma ideia ilusória, uma vez que somos apenas uma corrente de percepções empíricas a que a memória e a imaginação atribuem um núcleo invariável chamado «eu». Do mesmo modo, a   substância (exemplos: as substâncias cadeira ou nuvem) é uma ideia fabricada pela nossa imaginação servindo-se das sete relações filosóficas que são disposições sensório-intelectuais a priori da mente humana: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. A ideia de permanência, de continuidade entre as percepções empíricas forja as ideias de eu e de substância. As relações de tempo e lugar não estão em objectos materiais fora de nós mas são um modo de ver e pensar inerente à nossa mente - e isto é idealismo. David Hume é empirista  porque sustenta que as nossas impressões de sensação ou percepções empíricas (exemplo: a visão de um gato, o sabor da açorda alentejana) são a fonte das nossas ideias. Sustenta a teoria da tábua rasa que diz que ao nascer a mente humana vem vazia de conhecimentos. (VALE TRÊS VALORES).

 

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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2016
Fenomenalismo: equívocos de Johannes Hessen

 

Hessen sustenta que há um intermédio entre o realismo e o idealismo chamado fenomenalismo. E apresenta, equivocamente, Kant, como exemplo dessa corrente. Hessen escreveu:

 

«O fenomenalismo (de phaenomenon= fenómeno, aparência) é a teoria segundo a qual não conhecemos as coisas como são em si, mas como se nos apresentam. Para o fenomenalismo, há coisas reais mas não podemos conhecer a sua essência. Só podemos saber «que» as coisas são, mas não «o que» são. O fenomenalismo coincide com o realismo quando admite coisas reais; mas coincide com o idealismo quando limita o conhecimento à consciência, ao mundo da aparência, do que resulta imediatamente a impossibilidade de conhecer as coisas em si» (Johannes Hessen, Teoria do Conhecimento, Arménio Amado- Editor Sucessor, Coimbra, 7ª edição, 1978, páginas 108-109; o bold é posto por nós)

 

A definição de fenomenalismo dada acima viola o princípio da não contradição, não se pode ser realista e idealista em simultâneo no mesmo aspecto: para Hessen, no fenomenalismo, a matéria é real, as coisas são reais (isto é exterior à mente; realismo) e o conhecimento é limitado à consciência(e isto, diz ele, é.. idealismo). Mas esta última posição não é idealismo, ao contrário do que afirma Hessen. É realismo crítico, porque a matéria está lá, existe de facto, embora oculta por um «vidro fosco».

 

E quanto a Kant, este nunca afirmou que a matéria é real, ao contrário do que pensava Hessen e do que pensam os catedráticos de filosofia actuais. Kant escreveu:

 

«Devíamo-nos, contudo, lembrar de que os corpos não são objectos em si, que nos estejam presentes, mas uma simples manifestação fenoménica, sabe-se lá de que objecto desconhecido; de que o movimento não é efeito de uma causa desconhecida, mas unicamente a manifestação fenoménica da sua influência sobre os nossos sentidos; de que, por consequência, estas duas coisas não são algo fora de nós, mas apenas representações em nós; de que, portanto, não é o movimento da matéria que produz em nós representações, mas que ele próprio (e portanto também a matéria que se torna, assim, cognoscível) é mera representação.» (Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, nota de rodapé das pags 363-364: o bold é nosso).

 

A Hessen passou despercebido o carácter idealista da doutrina de Kant quando escreveu:

 

«Desta maneira, não temos já perante nós a coisa em si, mas a coisa como se nos apresenta, ou seja o fenómeno.»

«Isto é, em breves palavras, a teoria do fenomenalismo, na forma como foi desenvolvida por Kant. O seu conteúdo essencial pode resumir-se a três proposições: 1. A coisa em si é incognoscível. 2. O nosso conhecimento permanece limitado ao mundo fenoménico. 3. Este surge na nossa consciência porque ordenamos e elaboramos o material sensível em relação às formas a priori da intuição e do entendimento.» (Johannes Hessen, Teoria do Conhecimento, Arménio Amado- Editor Sucessor, Coimbra, 7ª edição, 1978, páginas 110-111; o bold é posto por nós).

 

Neste texto acima, não há nem uma palavra sobre a natureza da matéria física, se é real ou irreal, que é aquilo que distingue realismo de idealismo.

 

Fenomenalismo não é uma posição ontológica, como realismo e idealismo. É uma posição gnoseológica. Não é, portanto, um intermédio de realismo e idealismo mas uma corrente ou qualidade colateral adicionável a qualquer uma delas. Em termos metafóricos: se idealismo e realismo produzem juízos sobre a existência da cadeira «que está ali», fenomenalismo é a cortina que oculta ou desvela a cadeira. Há o ser (realismo, idealismo) e o ver (fenomenalismo/ naturalismo). Há um fenomenalismo realista - o realismo crítico de Descartes, por exemplo, a matéria é exterior mas não tem peso, nem cor, nem grau de dureza, nem cheiro, etc. - e um fenomenalismo idealista - o idealismo transcendental de Kant, a matéria é ilusão dentro da sensibilidade, os númenos não são matéria. Há ainda um fenomenalismo céptico - a fenomenologia de Heidegger que,  apesar de formular o conceitos de ser e ser-aí e de mundo, não se decide sobre a realidade da matéria.

 

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Quarta-feira, 20 de Abril de 2016
Hegel: a oposição entre a obra e a consciência

 

Na sua obra «Fenomenologia do espírito», Hegel estabelece dois polos, a realidade ou ser e a consciência, e uma transição ou mediação entre ambos que é o operar (obrar), a negatividade do ser imediato :

 

«Tal é o conceito que forma de si a consciência, que está certa de si mesma como absoluta interpenetração da individualidade e do ser; vejamos se este conceito se confirma pela experiência e a sua relidade [ Realität] coincide com ele. A obra é a realidade que a consciência dá; é aquilo em que o indivíduo é para a consciência o que é em si, de tal modo que a consciência para a qual o indivíduo devém na obra não é a consciência particular, mas a consciência universal, a consciência, na obra, transcende em geral o elemento da universalidade, o espaço indeterminado do ser. A consciência a que se remonta a partir da sua obra é de facto, a consciência universal  - porque devém em negatividade absoluta ou o obrar em oposição - relativamente à sua obra que é o determinado; a consciência vai, pois, além de si mesma, enquanto obra e é por si mesma o espaço indeterminado que não se encontra cheio pela sua obra» (Hegel,Fenomenología del espíritu, pag 237, Fondo de Cultura Económica, México; o destaque a negrito é posto por mim).

 

O termo consiência não se resume ao indivíduo senciente e pensante. A consciência deste é a particular. Ora Hegel refere-se à consciência universal que está na origem tanto do objecto material (o ser) como da consciência individual. A sua ontologia é espiritualista - o espírito divino é eterno e gerador da matéria, seu ser-outro - e realista ou ideal-realista.  Hegel afasta-se do idealismo material de Kant: em Kant o fenómeno (árvore, casa, animal) nunca chega a ser um fora de si em relação ao espírito humano, está sempre dentro deste (idealismo material), embora na sua zona quase periférica (o espaço ou sentido externo), ao passo que em Hegel a matéria é um fora de si em relação à Ideia (realismo).

 

Não parece clara a afirmação de que «a consciência, na obra, transcende em geral o elemento da universalidade, o espaço indeterminado do ser» a menos que se interprete universalidade como generalidade abstracta e se pretenda significar que a consciência ao materializar a partir de si uma obra - exemplo: construir uma casa com tijolos e cimento- está a ultrapassar a generalidade abstracta, o mero projecto por concretizar.

 

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Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2016
Fenómeno e intuição empírica: alguma confusão em Kant

Apesar do seu brilhantismo no raciocínio, Kant desceu ao magma de alguma confusão de ideias no que respeita à definição de fenómeno e de intuição. O filósofo alemão definiu assim fenómeno:

«O objecto indeterminado de uma intuição empírica chama-se fenómeno». (Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, pag. 61).

 

É óbvio que Kant distingue entre fenómeno - por exemplo, cadeira - e intuição do fenómeno - ver ou tocar a cadeira, neste exemplo. Mas o que constitui o fenómeno? As intuições empíricas e, essencialmente, as intuições puras: a figura e a extensão.  E alguns conceitos a priori. O fenómeno, como por exemplo, bicicleta, cão ou nuvem nada é em si mesmo: é apenas uma figura sem cor, nem som, nem cheiro, nem matéria, inscrita num espaço que é irreal, intuição a priori. Kant é um idealista ontológico: os objectos materiais não existem fora do espírito humano, são complexos de sensações e intuições tridimensionais. Não há, por exemplo, cavalo-númeno e cavalo-fenómeno, como pensa a generalidade dos estudiosos de Kant. O cavalo é apenas representação de algo incognoscível. Kant escreveu:

 

«Assim, quando separo da representação de um corpo o que o entendimento pensa dele, como seja substância, força, divisibilidade, etc., e igualmente o que pertence à sensibilidade como seja a impenetrabilidade, dureza, cor, etc, algo me resta ainda dessa intuição empírica: a extensão e a figura. Estas pertencem à intuiçao pura, que se verifica a priori no espírito, mesmo independente de um objecto real dos sentidos ou da sensação, como simples forma da sensibilidade.»(Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, pag. 61).

 

Ora este texto desmonta o objecto real dos sentidos ou fenómeno mostrando que não passa de um complexo de intuições formais (figura, espaço)  e de conceitos A cor, a dureza, de uma bicicleta não pertencem à bicicleta: são sensações, intuições empíricas, modos ilusórios de percepcionar esse veículo que é fenómeno. O carácter unitário da biclicleta como aglomerado de peças metálicas é um conceito do entendimento, é a categoria de substância e acidente, não está na bicicleta. E o problema coloca-se: ao vermos uma bicicleta que está fora do nosso corpo físico mas dentro da nossa mente que o circunda e constitui o espaço, estamos a ter um conjunto de intuição empíricas e sensações (visão  da cor, sensação da dureza do metal ou do selim, etc) de um fenómeno que se reduz a intuições empíricas geométricas (as linhas da bicicleta), a uma matéria indeterminada (algo que não tem cor, nem peso, nem cheiro, nem ductilidade) e a conceitos (substância única e divisível em partes).

 

Assim, a noção de intuição empirica funciona ambiguamente em Kant: é a matéria do fenómeno («Dou o nome de matéria ao que no fenómeno corresponde à sensação» diz Kant; mas uma matéria absolutamente abstracta, como a hylé de Aristóteles, pois a cor, o cheiro, o som, a sensação de dureza são meras sensações, aparência), o objectivamente «real para nós» e é a percepção da matéria desse fenómeno, percepção esta que já inclui cor, som, cheiro, grau de dureza, etc. Note-se ainda que, seguindo a teoria das qualidades primárias e secundárias de Descartes, Kant estabelece duas modalidades de intuição empírica enquanto percepção, distinguindo sensação (subjectiva, ilusória) de intuição (objectiva):

 

«O sabor agradável de um vinho não pertence às propriedades objectivas desse vinho, portanto de um objecto mesmo considerado como fenómeno, mas à natureza especial do sentido do sujeito que o saboreia. As cores não são propriedade dos corpos, à intuição dos quais se reportam, mas simplesmente modificações do sentido da vista que é afectada pela luz de uma certa maneira. O espaço pelo contrário, como condição de objectos exteriores, pertence necessariamente ao fenómeno ou à intuição do fenómeno». (Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, pag. 69, nota de rodapé; o destaque a negrito é de minha autoria).

 

Neste caso, o sabor e a cor de um vinho seriam a intuição subjectiva e o vinho a intuição objectiva e o fenómeno. Mas o que é o vinho sem cor, nem sabor?

 

Em suma, a contradição de Kant reside no facto de expulsar do fenómeno para o campo das sensações (intuições do fenómeno) e para o campo dos conceitos aquilo que realmente o caracteriza: a  cor, o sabor, a dureza, a matéria concreta de que é feito (no caso de árvore: madeira e folhagem), tornando o fenómeno uma figura fantasmagórica, um esqueleto sem carne, pura forma num dado tempo.

 

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Sábado, 7 de Março de 2015
Teste de filosofia do 11º A (Fevereiro de 2015)

 

 

 

Eis um teste de filosofia do 11º ano de  escolaridade em Portugal, evitando as perguntas de escolha múltipla em que o aluno coloca um X na hipótese que supõe estar certa e é dispensado de desenvolver ideias por palavras suas.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A
23 de Fevereiro de 2015. Professor: Francisco Queiroz

 

.”.O espaço não é um conceito empírico extraído de experiências externas…O entendimento faz a síntese do diverso da intuição empírica e é condicionado, ao passo que a razão é incondicionada» (Kant, Crítica da Razão Pura)

 

1) Explique estes pensamentos de Kant.

 

2) Explique, como, segundo a gnosiologia de Kant, se formam o fenómeno NUVEM, o conceito empírico de NUVEM e a antinomia «O mundo teve um princípio, o mundo nunca principiou».       

 

3) Relacione, justificando:

A) Facto Bruto/ Facto Científico, racionalismo e obstáculo epistemológico em Gaston Bachelard.

B) Conjectura, indução (amplificante), verificação, corroboração e falsificabilidade na teoria de Popper.

C) Fenomenologia, Realismo Crítico de Descartes e Epokê.

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE ESCRITO (COTADO PARA 20 VALORES)

1) O espaço é uma forma a priori da sensibilidade, isto é, uma estrututa subjectiva vazia onde se inserem os corpos materiais e que está antes de os objectos materiais nascerem com a experiência. O espaço é a parede externa e o grande reservatório externo da sensibilidade onde cabe o universo inteiro com planetas, galáxias e mares. Por isso, não é empírico,  mas sim puro, anterior a toda a experiência (VALE DOIS VALORES). O entendimento, faculdade que pensa os fenómenos, sintetiza a diversidade das intuições empíricas em cada conceito empírico que produz: exemplo, as imagens de múltiplas árvores (fenómenos) formadas na sensibilidade ascendem ao entendimento que usando a categoria de pluralidade e, sobretudo, a de unidade, as reduz a um só conceito (imagem abstracta intelectual) de árvore. O entendimento é condicionado pelos fenómenos da sensibilidade - exemplo: o fogo, o céu, a água a correr, o movimento do sol no céu reflectem-se nos juízos e conceitos - e pela sua estrutura interna de regras: as categorias (unidade, pluralidade, totalidade, realidade, limitação, negação, etc) e os juízos puros (afirmativos, negativos, assertóricos, etc). A razão, faculdade que pensa livremente os númenos, a metafísica, é incondicionada: ela pode pensar que Deus gerou o mundo ou o inverso, que o mundo gerou Deus. É assim que a razão gera a antinomia - as afirmações contrárias entre si - «O mundo teve um princípio, o mundo nunca principiou» (VALE QUATRO VALORES).

 

2) Segundo a gnoseologia de Kant, o fenómeno nuvem  forma-se na sensibilidade, no espaço exterior ao meu corpo físico, do seguinte modo: de '«fora» da sensibilidade, os númenos afectam esta fazendo nascer nela um caos de matéria (exemplo: madeira, ferro, areia, etc, em um magma) que as duas formas a priori da sensibilidade, o espaço (com figuras geométricas) e o tempo (com a duração, a sucessão e a simultaneidade) moldam, fazendo nascer uma ou mais nuvens. O entendimento, com as categorias de unidade, pluralidade, necessidade, confere consistência ao fenómeno nuvem.

 

O  conceito de NUVEM forma-se no entendimento, faculdade que pensa mas não sente, do seguinte modo: a imaginação, situada entre a sensibilidade e o entendimento, transporta desde aquela a este as imagens de NUVEM e as categorias do entendimento de pluralidade e unidade recebem as diversas imagens e transformam-na numa só imagem abstracta, o conceito empírico de NUVEM

razão, dado que não se apoia em factos empíricos,  e se aventura no desconhecido, especulando,  gera a antinomia - as afirmações contrárias entre si - «O mundo teve um princípio, o mundo nunca principiou» sem conseguir chegar a uma conclusão. (QUATRO VALORES).

 

3) A) Facto bruto é um facto empírico, não meditado e questionado racionalmente. Exemplo: a cor da erva é verde e a do céu diurno é azul, o mármore é frio, a lã é quente. O racionalismo é a doutrina segundo a qual a razão é a fonte principal ou única de conhecimento desprezando as percepções empíricas. É pelo raciocínio (racionalismo) que o facto bruto é transformado em facto científico, isto é , num facto racional ou empírico-racional: a cor do céu diurno não é azul, o azul exste apenas no interior da nossa mente; o mármore não é frio, é bom condutor de calor e rouba calor à mão que nele pousamos, etc. O obstáculo epistemológico em Bachelard é todo o entrave ao conhecimento científico: a primeira impressão,  o realismo natural ( o mundo exterior como parece ser: o céu é azul, o mármore é frio, etc, o preconceito do senso comum, a falta de tecnologia apropriada (exemplo: a falta de telescópios, microscópios, reagentes químicos, máscaras antigás, fatos de amianto, bússolas, aparelhos de refrigeração, etc.). Pode dizer-se que o racionalismo enfrenta o obstáculo epistemológico que, muitas vezes, é um facto bruto, uma primeira impressão sensorial.(VALE TRÊS VALORES).

 

3) B) Conjectura é uma suposição, uma hipótese. O conjecturalismo é a teoria de Popper segundo a qual as teorias das ciências empíricas, as leis induzidas, não passam de suposições, de hipóteses falíveis, pois é impossível verificar todos os casos concretos correspondentes a dada lei ou tese. Assim, por exemplo, a tese de que o átomo de enxofre tem 16 electrões é uma mera hipótese e não uma verdade indiscutível. A indução (amplificante) é a generalização de alguns exemplos empíricos similares de modo a construir uma lei universal e necessária. Popper rejeita este raciocínio indutivo dizendo que só seria legítimo se fosse possível a verificação de todos os casos correspondentes a essa lei induzida, mas só é possível a corroboração, isto é, a confirmação de alguns casos. O falsificacionismo é a teoria de Popper segundo a qual uma teoria «científica» deve ser falsificada, posta em questão, através de testes experimentais rigorosos e de discussão racional, e ser aceite provisoriamente enquanto resistir a esses testes. O método hipotético-dedutivo baseia-se na indução amplificante, inferência que Popper não aceita como válida, e tem quatro fases: observação, hipótese, dedução da hipótese e confirmação ou não. (VALE QUATRO VALORES).

 

3) C)  O realismo crítico de Descartes sustenta que há um mundo real de matéria independente das mentes humanas e estas o captam de modo parcialmente ilusório: as cores, os sons, os sabores, a dureza, os sons (qualidades secundárias) não existem nas árvores, nas montanhas e em outros objectos fora de nós, só existem na nossa mente atingida, nos orgãos dos sentidos, por partículas vibratórias exteriores que nos fazem ver vermelha uma rosa que, de facto, é incolor; os tamanhos, as formas, a extensão são reais, são as qualidades primárias, reais, objectivas, dos corpos. A fenomenologia, ao contrário do realismo, não garante que exista um mundo de matéria real exterior à nossa mente: limita-se a postular que a mente e o mundo material são correlatos. Neste sentido, a fenomenologia faz uma epokê, isto é, uma suspensão do juízo  (de existência): «Não sei se a cadeira e a mesa que ali vejo existem em si mesmas, fora da minha mente».  (VALE TRÊS VALORES).

  

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Sábado, 11 de Agosto de 2012
Confusões de Eduardo Lourenço sobre Kant: não há intermédio entre fenómeno e númeno?

 

Eduardo Lourenço, filósofo universitário e prémio Pessoa em 2011, debateu-se, em parceria com a generalidade dos filósofos e catedráticos de filosofia, numa maré turva de incompreensões sobre a ontognosiologia de Kant. Escreveu àcerca do cogito (eu pensante) em Kant:

 

«Afastada a hipótese do cogito como númeno põe-se o problema: como  Kant não conhece intermediário entre o númeno e o fenómeno, é o cogito um fenómeno? Isso seria confundir o conhecimento psicológico com o transcendental - o cogito é a própria condição dos fenómenos e não um entre eles.  A sua maneira de existir será então a duma pura forma de ligação dos conceitos com as intuições, a ação de subsumir o singular no universal.»

(Eduardo Lourenço, Heterodoxias I, página 117, Gradiva; o negrito é colocado por mim).

 

 

Não há intermediário entre fenómeno e númeno na gnoseologia de Kant e este desconhecia um tal intermediário, como garante Lourenço? É óbvio que há: é a própria sensibilidade que é cega para o exterior do espírito humano, ou seja, está «às escuras» em relação aos númenos que flutuam ou subsistem fora dela, como Deus e mundo como totalidade, mas recebe um difuso e imperceptível «contacto» destes. Na Crítica da Razão Pura, Kant afirma que o númeno afecta de alguma maneira a sensibilidade e em consequência disso esta fabrica o fenómeno. Portanto, a sensibilidade, na qual vivem os fenómenos como as ilhas no mar, é o intermediário entre estes e os númenos.

 

Surpreendente é que o laureado Eduardo Lourenço não se aperceba que o cogito em Kant é o conjunto do entendimento - intelecto que pensa os fenómenos, o mundo da natureza física- e da razão - intelecto que pensa a metafísica, o ilógico, os númenos. E se admite que a função do cogito é «subsumir o singular no universal» como não detecta que quem faz isso é o entendimento e que este é cogito?

São estes intelectuais de segunda água, de pensamento fragmentado, antidialético, confusos e pomposos nos seus doutoramentos, como Eduardo Lourenço, que dominam a filosofia institucional, os grandes media.

 

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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
Teste de filosofia 11º ano de escolaridade em Portugal (meio do segundo período letivo)

 

Vejamos um teste de filosofia do 11º ano de escolaridade em Portugal, suscetível de ser dado a meio do segundo período letivo, no modelo que preconizo para suscitar alunos cultos e criativos, .

 

 Escola Secundária com 3º ciclo Diogo de Gouveia, Beja

 

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

 

 Fevereiro de 2012        Professor: Francisco Queiroz       

 

I

 

« Ninguém pode pretender, com razão, conhecer alguma coisa da causa transcendental das nossas representações do sentido externo…(Kant , Crítica da Razão Pura»)

 

1-I)      Explique a frase do texto acima.

 

2-I)      Explique, segundo a gnosiologia de Kant, onde e como se forma o fenómeno árvore, as cores verde e castanha da árvore e o juízo «A árvore é muito antiga».

 

3-I)      Explique a relação entre fenómeno e númeno, e, entre ambos, por um lado, e a sensibilidade, o entendimento e a razão, por outro lado.

 

II

 

«Não temos ideias perfeitas de nada senão das percepções. Uma substância é inteiramente diferente de uma percepção. Não temos pois nenhuma ideia de substância. A inerência a qualquer coisa é, segundo se supõe, necessária como suporte das nossas percepções. Nada parece necessário para servir de suporte à existência de uma percepção.» David Hume (Tratado do Entendimento Humano, pag 280)

 

 

 

2-1) Explique este texto reportando-o a realismo ontológico, idealismo ontológico, ceticismo, empirismo, racionalismo. Segundo este texto de Hume, parece-lhe que o empirismo conduz necessariamente ao realismo ontológico?  Justifique.

 

 

 

2-2)  A posição de Hume sobre inerência e substância é a mesma de Kant? Justifique.

 

III

 

3)Relacione, justificando:

 

 

 

3-1-           O ser-aí em Heidegger e as três fases da Ideia absoluta em Hegel, uma das quais  corresponde  àquele.

 

 

3-2-           Idealismo transcendental em Kant, e o idealismo volitivo de Schopenhauer e ideal-realismo em Hegel.

 

 

3-3-           Metafísica, categorias em Kant e sete relações filosóficas em Hume.

 

 

 

 

 

 

 

CORREÇÃO DO TESTE (COTADO EM 20 VALORES NO TOTAL)

 I

 

I-1) Ninguém pode conhecer nada da causa transcendental - isto é, a priori - das nossas representações do sentido externo, isto é, dos objetos que vemos e tocamos no espaço, que é o sentido externo, porque essa causa é o númeno, o objeto real, incognoscível, exterior, em princípio, ao espírito humano composto de sensibilidade, entendimento e razão (VALE DOIS VALORES).

 

I- 2) O fenómeno árvore forma-se na sensibilidade, segundo Kant,  e do seguinte modo: os númenos ou objetos metafísicos transcendentes ao espírito humano afetam a sensibilidade, fazendo nascer nesta um caos de sensações, e as formas a priori da sensibilidade, o espaço (figuras geométricas, extensão) e o tempo, vão moldar esse caos material dando-lhe a forma de uma árvore (fenómeno). Esta última está fora do nosso corpo físico mas dentro da nossa sensibilidade e as cores verde e castanha da árvore não pertencem a esta mas ao modo de o eu percepcionar o fenómeno. Assim, se a árvore é ilusória - idealismo kantiano: a árvore não é uma coisa em si, desaparece se morrermos - as cores da árvore são duplamente ilusórias. O juízo «a árvore é muito antiga» forma-se no entendimento a partir da tábua dos juízos puros que são proposições vazias dotadas de certas formas e da tábua das categorias ou conceitos puros. Em primeiro lugar, as imagens do fenómeno árvore ascendem da sensibilidade, através da imaginação e são reduzidas à unidade pela categirias de unidade, pluralidade, causa-efeito, etc: forma-se o conceito de árvore. E as imagens de árvores muito antigas são igualmente enviadas ao entendimento e são transformadas no conceito empírico «árvore antiga». Aplica-se a tábua dos juízos a estes dois conceitos ligando-os através do verbo ser e surge o juízo empírico:«A árvore é muito antiga.» (VALE TRÊS VALORES).

 

I- 3)  O fenómeno é o objeto visível e palpável que nasce na sensibilidade por duas causas: uma externa, o númeno ou objeto metafísico, real e incognoscível (Deus, mundo como totalidade, etc) que afeta de fora a sensibilidade, fazendo nascer nesta o caos da matéria: outra, interna, as formas a priori do espaço (figuras, extensão) e do tempo que dão a forma ao fenómeno. (Não me refiro aqui ao númeno possivelmente interior ao espírito humano, mas impenetrável, que seria alma imortal do sujeito cognoscente).

 O entendimento não sente mas pensa o fenómeno e atribui-lhe unidade, necessidade, mas não pensa o númeno: o entendimento é a inteligência concreta virada para o campo da experiência. A razão desconhece os fenómenos e os conceitos empíricos do entendimento, pensa apenas os númenos que desconhece e que estão fora dela e do espirito humano. É a faculdade metafísica e filosófica por excelência. (VALE TRÊS VALORES)

 

2-1) Ao dizer "não temos ideias perfeitas de nada senão das percepções"  Hume revela-se empirista (as perceções sensoriais são a fonte dos conhecimentos) e ao acrescentar "não temos pois nenhuma ideia de substância" Hume situa-se ou como cético (teoria que, em certa modalidade, duvida da existência da matéria) ou como idealista (teoria que afirma que o mundo material está na nossa mente, não existe fora desta). Ao dizer a "inerência a qualquer coisa é, segundo se supõe, necessária como suporte das nossas perceções" Hume parece estar a criticar o racionalismo (doutrina que diz que as nossas ideias fundamentais são construídas pela razão, desprezando os dados da experiência) porque este, em regra, supõe que o acidente ou traço fortuito, ocasional, repousa sobre uma base sólida, a substância. Hume rejeita pois o realismo, doutrina da existência de um mundo material fora das mentes humanas. (VALE TRÊS VALORES)

 

2-2) Em Kant a inerência e subsistência é uma categoria, ou seja, uma forma a priori do entendimento: substância e acidente, por assim dizer, o castiçal (subsistência) que suporta a vela (inerência) e a vela nesse inserida, . As categorias são anteriores`a experiência, são a priori. Em Hume, a inerência parece não existir: « Nada parece ser necessário para servir de suporte à existência de uma perceção». Portanto, Kant e Hume sustentam posições diferentes nesta matéria. (VALE UM VALOR)

 

3-1) O ser-aí, na teoria de Heidegger, é cada homem, na sua situação, na sua verdade íntima e peculiar. Liga-se à terceira fase da teoria da ideia absoluta de Hegel. Segundo este, o motor da história universal é a ideia absoluta ou Deus que atravessa três fases: a do Ser em si, ou Deus sozinho como espírito, antes de criar o espaço, o tempo e o universo; a do Ser fora de si, ou Deus alienado em natureza física, mineral, vegetal ou animal; a do Ser para si, que começa com o surgimento da humanidade que é Deus incarnado voltando a si, à fase do espírito puro. Esta última fase é a do ser aí (Dasein) ou cada homem na sua circunstância. (VALE TRÊS VALORES)

 

3-2) Idealismo transcendental em Kant: a matéria é mera representação no sentido externo ou espaço, a sua causa remota é o númeno ou objeto metafísico, o espaço e o tempo são transcendentais ou a priori, estão inerentes ao sujeito. Idealismo volitivo em Schopenhauer: é bastante semelhante ao de Kant, a matéria é irreal, representação no sentido externo mas a causa da matéria é a vontade inconsciente do sujeito ou da espécie humana. Ideal-realismo em Hegel:o mundo material existe fora das mentes humanas mas as formas da natureza são ideias da Mente Divina. (VALE DOIS VALORES).

 

3-3) Metafísica é a região dos entes ou supostos entes invisíveis, impalpáveis, além da experiência física e sensorial. As sete relações em David Hume sao uma espécie de categorias ou formas que organizam a experiência tal como as doze categorias ou conceitos puros de Kant, ainda que as primeiras não possam existir fora dos atos e circunstâncias concretas.

Em Kant, as categorias são os moldes vazios dos conceitos empíricos, que sintetizam os dados recebidos da sensibilidade (experiência) e interpretam estes. São doze: unidade, pluralidade, totalidade; realidade, negação, limitação; inerência e subsistência (substância e acidente), causalidade e dependência (causa e efeito), comunidade (ação recíproca entre o agente e o paciente); possibilidade-impossibilidade, existência- não existência, necessidade-contingência.

Em Hume, as sete relações filosóficas são: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação.  Há algumas equivalências óbvias: a causação (causalidade determinista) em Hume equivale à necessidade em Kant; a unidade e a pluralidade em Kant equivalem à proporção de quantidade ou número, em Hume (VALE TRÊS VALORES).  

 

Nota para a correção: nas perguntas de relacionação entre dois ou mais conceitos, a cotação para cada resposta dada deve obedecer a um princípio de premiar o aluno que estuda e sabe as definições separadamente: assim deverá receber 50% a 60% da cotação da pergunta desde que defina correctamente os conceitos, embora não consiga interligá-los.

 

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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012
Schopenhauer compreendeu bem Kant

 

Ao contrário da generalidade dos académicos de hoje, que interpretam Kant como um realista crítico ou realista fenomenológico (exemplificando como interpretam Kant: há fora de mim uma árvore material que é númeno, incognoscível, e a árvore que eu vejo é fenómeno, representação) Schopenhauer compreendeu muito bem o sentido da expressão "realismo empírico" em Kant. Escreveu:

 

«Sem embargo, o idealismo transcendental não disputa de maneira alguma ao mundo existente a sua realidade empírica, mas diz unicamente que esta não é incondicional, posto que tem por condição as nossas funções cerebrais das quais resultam as formas de percepção, quer dizer, tempo, espaço e causalidade; que por conseguinte, essa mesma realidade empírica não é mais que a realidade de um fenómeno.» (Arthur Schopenhauer, Historia de la filosofía (de los Presocraticos a Hegel) , pag 65, Editorial Quadrata).

 

E escreveu ainda:

 

« Vemos pois que Locke desconta da qualidade das coisas em si que recebemos de fora, o que é ação dos nervos dos sentidos; este é princípio simples, compreensível e indiscutível. Mas neste caminho deu Kant, mais tarde, o grande passo gigantesco  descontando também o que é ação do nosso cérebro (de essa massa nervosa relativamente muito maior) pelo qual se reduziram então todas as supostas propriedades primárias a secundárias, e as supostas coisas em si, a simples fenómenos, mas ficando então a verdadeira coisa em si despojada de aquelas propriedades e como uma quantidade completamente incógnita, como um verdadeiro x.» (Schopenhauer, ibid, pag 118; o destaque a negrito é de mimha autoria).

 

Ao falar da redução das qualidades primárias (forma, tamanho, movimento, extensão, substância indefinida)  a qualidades secundárias (as que só existem na nossa percepção, na nossa mente) Schopenhauer acentua bem o idealismo de Kant, em que a matéria é interna ao espírito humano. No entanto, é de assinalar que Kant manteve, na esfera idealista do espírito,  a distinção das qualidades primárias- que no seu sistema são intersubjetivas, apenas empiricamente reais (realismo empírico) - e das qualidades secundárias - cor, cheiro, sabor, calor e frio, grau de dureza, etc, - que no seu sistema são subjetivas, absolutamente irreais.  

 

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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
Heidegger inverteu o conceito tradicional de fenómeno

 

Heidegger inverteu o sentido tradicional da palavra fenómeno (phainomenon= o que aparece, o visível, audível e palpável, em grego).  :

 

« O conceito fenomenológico de fenómeno entende por "o que se mostra" o ser dos entes, o seu sentido, suas modificações e derivados. E o mostrar-se não é um mostrar qualquer, nem muito menos o que se diz "aparecer". O ser dos entes é o que menos pode ser algo atrás do qual esteja algo que não apareça.»

«"Atrás" dos fenómenos da fenomenologia, não está essencialmente nenhuma coisa, mas sim, pode estar, oculto o que pode tornar-se fenómeno. E precisamente porque os fenómenos não estão dados imediata e regularmente, é necessária a fenomenologia. Encobrimento é o conceito contrário de "fenómeno". 

«A forma na qual os fenómenos podem estar encobertos é variada. Em primeira instância, pode estar encoberto um fenómeno no sentido de estar ainda não descoberto. (...)»

«"Fenoménico" chama-se ao que se dá e é explanável na forma peculiar de enfrentar o fenómeno, daqui o falar-se de estruturas fenoménicas. "Fenomenológico" diz-se de tudo o que entra na forma de mostrar e explanar e o que constitui os conceitos requeridos nesta disciplina.»

« Fenómeno em sentido fenomenológico é só aquilo que é ser, mas ser é sempre ser de um ente: daqui que quando se visa libertar o ser, seja necessário fazer comparecer o ente na forma apropriada.» (Martin Heidegger, El Ser y el tiempo, páginas 46-47)

 

 

Kant já havia distinguido fenónemo de aparência - exemplo: o vinho é um fenómeno, mas a cor e o sabor do vinho são aparências - de tal modo que se poderia dizer que o fenómeno é um objeto ilusório ou semi-real, acidental, algo inaparente. Se em Kant o fenómeno é "o objeto indeterminado de uma intuição empírica" e se situa na sensibilidade, no espaço ou sentido externo, em Heidegger o fenómeno - não falamos do fenómeno psíquico mas dos fenómenos janela, casa, Estado, etc - situa-se no mundo, fronteira do eu com os objetos reais - «janela» entre o eu e os objetos exteriores, já que o cão e a abelha não têm mundo, só o homem possui mundo - ou é o conjunto de objetos intemporais e transmundanos equivalentes aos númenos em Kant e aos arquétipos em Platão.

 

A inversão do conceito tradicional de fenómeno feita por Heidegger é paralela a outras inversões terminológicas operadas por este pensador alemão : com Heidegger, existência deixa de ser o ato ontológico (o estar, a presença indeterminada) de qualquer essência e passa a ser a essência de cada ente, a forma fundamental, o ser plasmado no ente determinado. Heidegger quis notabilizar-se mudando, se não as regras do jogo do pensar filosófico, ao menos as fichas, a terminologia. Estava no direito de o fazer. Mas não foi transparente ao explicar estas mudanças terminológicas e isso rendeu-lhe uma aura suplementar de veneração junto do público que gosta do que é misterioso e admira o que não entende.  

 

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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012
Luís Rodrigues e Luís Gottschalk não compreendem o idealismo de Kant (Crítica de Manuais Escolares- XL)

 

No seu manual para o ensino secundário, adotado em dezenas ou mesmo centenas de escolas em Portugal, Luís Rodrigues demonstra, à semelhança de Karl Popper, de Bertrand Russell e dos professores universitários portugueses e estrangeiros em geral, uma incompreensão fundamental da ontognosiologia de Kant. Escreve Rodrigues:

 

«Assim todo o conhecimento começa com a intuição sensível, ou seja, com a recepção de dados ou impressões sensíveis mediante duas formas com as quais a sensibilidade está equipada: o espaço e o tempo. Intuir é, portanto, receber dados empíricos, espacializando-os e temporalizando-os.»

 

«Exemplificando:

 

«Um automóvel passa frente à minha casa ao meio-dia, fazendo muito barulho e buzinando constantemente. O automóvel provoca em mim uma determinada impressão sensível. Eu recebo esta impressão sensível de uma determinada forma, isto é, espacializo-a e temporalizo-a porque me refiro ao barulho do automóvel como verificando-se em frente à minha casa (espacialização) e a uma determinada hora (temporalização). Assim, vê-se que a intuição sensível consiste em estabelecer uma relação espácio-temporal entre as impressões sensíveis (sensações) provenientes das coisas (por exemplo, do automóvel).» (Luís Rodrigues, Filosofia 11º ano, Plátano Editora, página 198, consultor, Luís Gottschalk; a letra a negrito é um sublinhado meu).

 

O erro de Luís Rodrigues é não perceber que o automóvel não é uma coisa exterior ao espírito humano mas uma construção dentro deste, um fenómeno cuja consistência é ideal-sensorial, ou seja, é um conjunto de intuições empíricas geradas no espaço que constitui a «mente exterior do sujeito». Rodrigues e Gottschalk interpretam Kant como se este fosse um realista ontológico - no caso: como se o automóvel existisse fora do espírito do sujeito e circulasse por uma rua exterior ao espírito humano- quando Kant é um idealista ontológico ou idealista transcendental, isto é, alguém que diz que os objetos materiais são conjuntos de sensações ou ideias forjadas na parte da minha mente que extravasa o meu corpo físico e engloba o universo inteiro.

 

Que diz Kant sobre a matéria que compreende, no caso que estamos a considerar, a chapa, o volante, o motor, os estofos, os pneus do automóvel? Que a matéria é uma simples representação, um conjunto de imagens e conceitos no nosso espírito:

 

«Com efeito, a matéria cuja unidade com a alma levanta tão grandes dificuldades não é outra coisa que uma simples forma ou um simples modo de representação de um objeto desconhecido, formado por aquela intuição que designamos por sentido externo. Deve, portanto, haver algo fora de nós a que corresponde esse fenómeno que chamamos matéria.» (Immanuel Kant, Crítica da razão pura, páginas 361-362, nota de rodapé, Fundação Calouste Gulbenkian; a letra a negrito é colocada por mim).

 

A matéria não é um «em si». Não é algo que exista independente de nós. O fenómeno (automóvel, casa, gato, etc) não está fora de nós, do nosso eu-espírito-cosmos: está somente fora do nosso corpo físico. Mas Rodrigues e Gottschalk apresentam-nos o automóvel, que é matéria, como coisa em si, independente de nós. É ainda um erro falar nas «impressões sensíveis (sensações) provenientes das coisas (por exemplo: o automóvel) », coisas estas que estariam fora de nós. Os objetos fora de nós (númenos) não nos enviam sensações: estas são produzidas na nossa sensibilidade, dentro de nós, sob o influxo de uma desconhecida excitação exterior emanada dos númenos, o que é diferente.

 

Este equívoco de supor que segundo a gnosiologia de Kant, há um objeto material fora de nós é geral no meio dos professores universitários e leva-me a interrogar: há verdadeiros filósofos nas cátedras universitárias de hoje ou apenas reprodutores, algo inábeis porque deformantes, da tradição filosófica?  

 

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