Terça-feira, 20 de Junho de 2017
Equívocos no Exame Nacional de Filosofia 714 de 19 de Junho de 2017

 

 Eis mais um exame nacional de filosofia no ensino secundário em Portugal, a prova 714 de 19 de Junho de 2017,  mal concebido por partidários da filosofia analítica, corrente que possui um forte lobby académico junto do Ministério da Educação. Um traço comum aos autores do exame é a sua incapacidade em pensar e hierarquizar dialeticamente os temas, as questões e as respostas - dialética implica as noções de contrário, semi contrário e colateral, noções estranhas a estes senhores, mestres ou doutorados.Vejamos as questões equívocas que retiram, injustamente, 10, 20, 30, 40, 50 ou mais pontos a alunos que pensam bem e responderam bem.

 

Comecemos pelas questões de escolha múltipla em cada uma das quais há quatro hipóteses de resposta sendo apenas considerada certa uma das hipóteses.

 

GRUPO I

2. Leia o texto seguinte.

Tal como os estudos experimentais mostraram, [...] fazemos o que fazemos por causa do que aconteceu [...]. Infelizmente, o que aconteceu deixa poucas pistas observáveis, e os motivos para fazermos o que fazemos [...] ultrapassam, assim, largamente o alcance da autoanálise. Talvez seja por isso […] que o comportamento tem sido tão frequentemente atribuído a um ato de vontade que o desencadeia, produz ou cria.

B. F. Skinner, Recent Issues in the Analysis of Behavior, Columbus,

Merrill Publishing Company, 1989, p. 15 (adaptado)

 

De acordo com o texto,

(A) temos livre-arbítrio, porque o nosso comportamento tem origem num ato criativo da vontade.

(B) podemos inferir que temos livre-arbítrio, ainda que as pistas observáveis sejam poucas.

(C) pensamos ter livre-arbítrio, porque a nossa capacidade de autoanálise é limitada.

(D) os estudos experimentais permitem concluir que o livre-arbítrio molda o nosso comportamento.»

 

CRÍTICA NOSSA: em primeiro lugar o texto de Skinner não fala em livre-arbítrio, faculdade que inclui discernimento racional e deliberação, mas em vontade, que é uma coisa diferente. Um cão tem vontade de comer um osso mas não usa livre-arbítrio para esse acto. Logo, as quatro hipóteses estão erradas ao abordarem o livre-arbítrio.

Mas admitindo que Skinner se referisse ao acto de vontade como um acto de livre-arbítrio haveria duas respostas certas a B e a C: são praticamente indistinguíveis uma da outra.

 

4. Considere o argumento seguinte.

Todos os homens são imortais.

Sócrates é homem.

Logo, Sócrates é imortal.

Este argumento não é sólido porque

(A) a conclusão não se segue das premissas.

(B) é reconhecidamente falso.

(C) uma das premissas é falsa.

(D) o número de premissas é insuficiente.

 

CRÍTICA NOSSA: há duas respostas correctas, a B e a C. De facto é um raciocínio reconhecidamente falso , no qual a permissa maior é falsa.

 

5. Kuhn considera que, nos períodos de ciência normal,

(A) o progresso científico é inexistente.

(B) os cientistas aderem a diferentes paradigmas.

(C) as anomalias do paradigma são resolvidas.

(D) o progresso da ciência é cumulativo.

 

CRÍTICA NOSSA: Há duas respostas certas, a C e a D. As anomalias do paradigma normal, isto é, oficialmente instituído, vão sendo resolvidas e o progresso da ciência, cumulativo, dá-se dentro de certos limites sem que o paradigma mude. .

 

7. Em Uma Teoria da Justiça, Rawls defende que

(A) a justiça é independente da distribuição da riqueza, mas não da liberdade.

(B) a justiça consiste apenas em todos terem idênticas oportunidades e expectativas.

(C) as distribuições desiguais da riqueza são proibidas pelo princípio da diferença.

(D) o princípio da liberdade tem prioridade sobre os outros princípios da justiça.

 

CRÍTICA NOSSA: Há duas respostas certas, a B e a D. Rawls escreveu sobre os dois princípios da justiça escolhidos na posição original:

«Primeiro Princípio

«Cada pessoa deve ter um direito igual ao mais extenso sistema de liberdades básicas iguais que seja compatível com um sistema semelhante de liberdade para todos.»

(John Rawls, Uma teoria da justiça, Editorial Presença, pag 239).

Sem dúvida, a liberdade tem prioridade sobre a igualdade na distribuição da riqueza, de outro modo Rawls seria comunista, anarquista colectivista ou socialista radical, ora Rawls defendeu o capitalismo social. A hipótese D está certa. Mas a hipótese B também está correcta pois para Rawls a justiça consistia não no igualitarismo de salários e bens materiais mas na igualdade de oportunidades e expectativas: por exemplo, o filho do capitalista e o filho do operário pobre devem dispor de iguais oportunidades de acesso à universidade - o que implica atribuir bolsas de estudo ao filho do operário e não ao do capitalista.

 GRUPO IV

3. Atente no problema apresentado no caso seguinte.

Circulam já alguns automóveis autónomos, ou seja, capazes de se conduzirem a si próprios.As empresas envolvidas na produção de automóveis autónomos têm feito grandes progressos,e os problemas tecnológicos levantados pela exigência de autonomia estão quase resolvidos.Subsiste, todavia, um problema ético: os automóveis autónomos podem ser programados para, em caso de acidente iminente, darem prioridade à segurança dos seus passageiros ou, em alternativa, darem prioridade à minimização do número total de vítimas.

Qual das duas programações referidas seria adotada por um defensor da ética de Mill?»

Justifique.

 

CRÍTICA NOSSA: A questão está mal elaborada pois não coloca alternativa nenhuma: «em caso de acidente iminente, darem prioridade à segurança dos seus passageiros ou, em alternativa, darem prioridade à minimização do número total de vítimas» é exactamente o mesmo, dito de duas maneiras gramaticalmente distintas. A ética de Mill aplica-se indistintamente «às duas» situações porque o princípio da maximização do prazer implica dar a felicidade à maioria - o que parece traduzir-se na «minimização do total de vítimas» - mas também dar a felicidade a todos quando tal é possível - neste caso dar segurança a todos os passageiros.

 

Esta questão revela o pensamento confuso de quem já não deveria estar na equipa de elaboração de exames de filosofia mas está por inércia do sistema.

 

 

(CONTINUA)

 

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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2016
Um ataque contra a Filosofia: a uniformização das matrizes dos testes de filosofia

Depois de terem restaurado há uns 10 anos o exame nacional de Filosofia no ensino secundário em Portugal, os sectários da filosofia analítica anglo-norte-americana, corrente que pretende transformar-se na filosofia universal dominante, dão agora mais um passo no sentido da eliminação da liberdade pedagógica dos professores de filosofia: através do Ministério da Educação vêm agora impor, consta, a uniformização das matrizes dos testes de filosofia na mesma escola.. tendo em vista o sacrossanto exame nacional que de filosófico tem muito pouco (é quase só decorar umas teses de Descartes, Popper e Kuhn e despejar). A uniformização visa todas as disciplinas e, se bem que possa ser inócua na matemática, não o é na filosofia, disciplina da liberdade individual por excelência.

 

Cada professor deixa de ter autonomia absoluta em construir os testes escritos para as turmas que leciona. Agora terá de reunir com o grupo e submeter-se à vontade da maioria dos professores deste nesta delicada matéria que é a elaboração dos seus testes, frutos de um ensino personalizado. Filosofia é antes de mais dissidência, originalidade e criatividade de cada professor e de cada aluno. Os grupos de filosofia existem mas deixam a cada professor, se funcionam bem, a liberdade de escolher os textos que quiser dentro das amplas balizas do programa. O consenso à força, minucioso, policial, limitador, que agora se quer impor visa, objetivamente, destruir os dissidentes, os que levam os alunos a pensar mais longe de forma criativa, os que sabem mais. Uniformizar em filosofia as matrizes dos testes é instalar a ditadura dos medíocres, dos que seguem à risca manuais escolares impregnados de filosofia analítica. Não dou testes com perguntas de escolha múltipla a que se responde com uma cruz: se o meu grupo aprovar que tenho de dar testes com esse tipo de perguntas, sou obrigado a distorcer o meu método de ensino?

 

Alerta, professor de filosofia em Portugal! Não deixes que os inimigos da liberdade de pensar, com mestrados e doutoramentos em filosofia, instalados na Sociedade Portuguesa de Filosofia, em lobbies editoriais, etc., te cerceiem a liberdade de ensinar. Nós ensinamos filosofia, não somos máquinas de preparar alunos para um exame que nem sequer abarca a totalidade dos temas que damos nas aulas, exame que ademais é facultativo e que não passa de um policiamento do ensino livre.

 

Nada disto nos espanta. A estratégia dos iluminati, esse grupo de 13 famílias multimilionárias (Rockfeller, Rotschild, etc) e seus agentes que aspiram ao governo mundial único, o novo fascismo bonapartista, à religião mundial única, provavelmente o catolicismo ecuménico do jesuíta papa Francisco unido ao islamismo, que aspiram à economia mundial única, o supercapitalismo, exige a filosofia única, abolindo a dissidência.

 

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Quarta-feira, 20 de Julho de 2016
Erros na Prova de Exame Nacional de Filosofia, 714/2ª fase, de 19 de Julho de 2016

 

A prova escrita 714 /2ª Fase, exame nacional de Filosofia, de 19 de Julho de 2016, contém, como as de anos anteriores, diversos erros na construção das perguntas da escolha múltipla, que prevêem uma só resposta certa entre quatro hipóteses. Eis exemplos na versão 1 da prova, de como a mentalidade hiper-analítica dos autores, que vê a árvore e não vê a floresta, produz a má filosofia e sujeita os alunos a perguntas deficientes.

 

Grupo I

4) «Não temos livre-arbítrio, porque ter livre.arbítrio é ter o poder de escolher algo, e nós apenas temos a ilusão de que podemos escolher».

O orador que apresenta o argumento anterior incorre na falácia

A) da petição de princípio.

B) da derrapagem.

C) do falso dilema.

D) do boneco de palha.

 

Crítica minha: não há qualquer falácia na frase acima. Schopenhauer e Nietzsche, além de outros filósofos, subscreveriam perfeitamente essa frase porque não acreditavam no livre.arbítrio. Petição de princípio seria dizer o seguinte «O livre-arbítrio existe porque eu sinto que posso escolher livremente».

Vejamos outra questão.

 

8. Segundo Kant, o imperativo categórico pode ser formulado do seguinte modo: age apenas segundo uma máxima tal que

(A) ela se torne uma lei universal.

(B) ela se torne um hábito para ti.

(C) possas ao mesmo tempo querer que ela se torne um hábito para ti.

(D) possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal.

 

Crítica minha:duas respostas corretas, A e D, e não apenas uma como proclamam os critérios de correção. A diferença de conteúdo entre A e D é insignificante: os hiper-analíticos são formalistas até ao ridículo, para eles, ao contrário do que dizia Heráclito, «o caminho que sobe e o (mesmo) caminho que desce não são um e o mesmo».

Analisemos outra questão.

 

9. Kant consideraria que uma pessoa que, motivada unicamente por um sentimento de pena, ajudasse uma criança perdida na praia a encontrar os seus pais:

(A) Praticaria uma ação com valor moral.

(B) agiria em conformidade com o dever.

(C) praticaria uma ação imoral.

(D) agiria por dever.

 

Crítica minha: há três respostas certas, embora pressupondo dois ou três cenários diferentes, A, B e D. A acção de ajudar a criança teria sempre valor moral (hipótese A) - se Kant achava que mentir ou matar violava o dever então também abandonar a criança perdida na praia violaria o dever - e poderia constituir um agir por dever (hipótese D) já que a criança seria uma qualquer criança, sem distinção de sexo, classe social, raça ou idade, e, a ação se faria segundo a máxima sentimental «Restitui sempre aos pais qualquer criança perdida pois é uma coitadinha» - o sentimento se for universalizável não constitui lei moral? - e noutro cenário, poderia ser um agir em conformidade com o dever (hipótese D) porque a lei social impõe que se devolvam as crianças perdidas aos pais e a pessoa que o faz quer ficar bem vista, age por interesse egoísta. Não é uma ação imoral (hipótese C) se por imoral se entende «contra o dever».

 

10. Descartes considera que o cogito é um conhecimento especialmente seguro, porque é:

(A) obtido por um processo a priori.

(B) imune ao próprio processo de dúvida.

(C) confirmado pela experiência .

(D) o fundamento do conhecimento.

 

Crítica minha: há três respostas corretas, A,B, D, e não apenas uma. De facto, o cogito é pensado a priori, fora da experiência sensorial e isso torna-o uma certeza (hipótese A). Também o pensamento do cogito é imune à dúvida: «Eu penso, logo existo» (hipótese B). E o «eu penso, existo como mente» é o fundamento de todo o edifício do conhecimento (hipótese D).

 

É a esta lotaria, mais ou menos arbitrária, de respostas a que são sujeitos os estudantes de filosofia. Provas de exame deste teor envergonham a clareza que é apanágio da autêntica filosofia. Senhor ministro da Educação , faça o favor de mudar a equipa de autores desta prova de exame e de não ceder à pressão do desastroso lobby da filosofia analítica, um grupo de incompetentes  que hoje domina a Sociedade Portuguesa de Filosofia e certas editoras de manuais escolares.

 

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Sexta-feira, 17 de Junho de 2016
Equívocos na prova 714 de exame nacional de Filosofia, de 15 de Junho de 2016

 

 

O exame nacional de filosofia, prova 714 /1ª fase,  de 15 de Junho de 2016, apresenta inconsistências na formulação das questões de escolha múltipla, que pedem selecionar uma só «resposta correta» de entre quatro hipóteses, a exemplo de outros anos. Vejamos alguns exemplos extraídos da versão 1 da prova.

 

GRUPO I 

5. Considere as frases seguintes.

1. O italiano é a língua oficial da Itália.

2. Todos os sólidos ocupam espaço.

É correcto afirmar que:

(A) ambas exprimem conhecimento a priori.

(B) ambas exprimem conhecimento a posteriori.

(C) 1 exprime conhecimento a priori, 2 exprime conhecimento a posteriori.

(D) 1 exprime conhecimento a posteriori, 2 exprime conhecimento a priori.

Nota: A Grelha de correção oficial diz ser a resposta D a única correta.

 

Crítica: Não há resposta absolutamente objectiva e única a esta questão. É erróneo dizer que só uma destas hipóteses é correta e as outras erradas. Um empirista puro, como David Hume, dirá que todo o conhecimento é a posteriori e subscreveria como certa a hipótese B: na verdade, saber o que é a Itália implica um conhecimento proveniente da experiência, isto é a posteriori, exige ver o mapa do país com a forma de bota e ver imagens de Roma, Florença, Veneza, etc. E o facto de o italiano ser a língua da Itália é extraído da experiência porque, por hipótese, poderia ser a língua latim ou a língua inglesa o idioma oficial da Itália. De igual modo, um tal empirista puro diria que só pela observação a posteriori de cubos, esferas e outros sólidos se conclui que estes ocupam espaço.

Um empiro inatista - ou empiro-racionalista - como Kant diria que a hipótese D é a correcta: um juízo que fala da Itália, país que é um fenómeno, um objecto empírico, é a posteriori mas um juízo de geometria pura como «todos os sólidos ocupam espaço» é a priori, formado pelo entendimento puro sem recurso às sensações, ao ver ou tocar esferas ou cubos físicos, palpáveis, recorrendo apenas à intuição pura de espaço e de figuras geométricas. Os autores do exame considera, correta esta última resposta D

 

Vejamos outra questão.

 

6. Suponha que um vendedor incentiva um cliente a comprar um telemóvel nos seguintes termos.

 

«Eu, no seu caso, comprava este telemóvel. Pode parecer um pouco caro, mas os seus colegas vão de certeza ficar cheio de inveja, pois este modelo não está ao alcance de qualquer um e é o escolhido por pessoas que já têm um certo estatuto. Assim, até vai atender as chamadas dos seus amigos com mais gosto».

Este discurso é uma tentativa de

(A) persuasão racional, pois são apresentadas razões que permitem uma avaliação objetiva do produto.

(B) persuasão por meio de manipulação, pois pretende-se convencer apelando unicamente às emoções.

(C) persuasão racional, pois os factos apresentados nas premissas são evidentes e todos os reconhecem.

(D) persuasão por meio de manipulação, pois incentiva as pessoas a consumirem bens dispensáveis.

 

Nota: A Grelha de correção oficial diz ser a resposta B a única correta

 

Crítica:duas respostas corretas e não apenas uma como pretendem os autores do exame: a B e a D. Há, decerto, manipulação por via das emoções (vaidade, inveja)  no texto do vendedor acima mas há igualmente um incentivo a consumir um bem dispensável, um telemóvel caro.

 

Passemos a outra questão.

 

7. Os relativistas acerca dos valores defendem que:

(A) a correção dos juízos de valor depende da cultura e, assim, o que é correto numa cultura pode não o ser noutra.

(B) todos os valores são relativos e, por isso, nenhum juízo de valor é correto ou incorreto.

(C) nenhuma cultura tem valores coincidentes com os valores de outra cultura.

(D) a correção dos juízos de valor depende inteiramente do que é aprovado nas sociedades mais evoluídas

 

Nota: A Grelha de correção oficial diz ser a resposta B a única correta.

 

Crítica: há duas respostas corretas, A e B, ainda que a A seja mais perfeita que a B. Esta última exprime a posição de uma parte dos relativistas, aquela que desemboca no ceticismo, no nivelamento igualitário de todas as culturas.

 

O que é o relativismo? É a doutrina que diz que a verdade, os valores variam de época a época, povo a povo, cultura a cultura, classe a classe social, etc. E é só isto. A alínea A da versão 1 (a correção dos juízos de valor depende da cultura e assim o que é correto numa cultura pode não o ser noutra) é a definição correcta de relativismo.

 

A alínea B (todos os valores são relativos e por isso nenhum juízo de valor é correto ou incorreto) mistura duas definições: relativismo e ceticismo.

 

Se eu digo «No mundo há democracias liberais, fascismos, ditaduras comunistas, os regimes políticos são relativos, mas eu acho que o melhor é a democracia» estou a ser relativista sem ceticismo, com dogmatismo, estou a diferenciar. A igreja católica romana que há séculos era absolutista («ninguém se salva fora da igreja de Roma») evoluiu para um relativismo diferencial, não cético; «Pode haver salvação no budismo ou no hinduísmo, as crenças em Deus são relativas às áreas geográficas, povos, etc.,  mas a melhor religião é a de Nosso Senhor Jesus Cristo centrada no Vaticano, nem todas valem o mesmo».

 

Ora este relativismo diferencial só está implícito na alínea A da versão 1, mas é negado pela alínea B.

 

Consideremos outra questão.

 

10. Kuhn considera que há períodos de consenso e períodos de divergência na comunidade científica. O fim de um período de consenso e a consequente entrada num período de divergência devem-se

(A) ao aprofundamento do paradigma.

(B) à acumulação de anomalias.

(C) à resolução de enigmas.

(D) à atitude crítica própria da ciência normal.

 

Nota: A Grelha de correção oficial diz ser a resposta B a única correta

 

Crítica: há duas respostas corretas, A e B, e não apenas uma, a B. Não é só a acumulação de anomalias o motor da mudança de paradigmas. O aprofundamento do paradigma - surgimento de novas ideias que completam e desenvolvem o paradigma vigente - é outra fonte da revolução científica e abre, quase sempre, um período de divergências entre os cientistas. A teoria da relatividade de Einstein não comporta, originalmente, a noção de matéria escura (buracos negros como portas de um multiverso) mas discípulos de Einstein como Roger Penrose e Stephen Hawking aprofundaram o paradigma, acrescentando-lhe o conceito de matéria negra. Há aqui acumulação de anomalias? Mas este aprofundamento do paradigma instalou a divergência no seio dos astro físicos: por exemplo, Alan Grants e Ted Woods, materialistas dialéticos, não aceitam que a relatividade einsteiniana implique o multiverso.

 

O MÉTODO DA DÚVIDA NÃO É MÉTODO CRÍTICO? PORQUÊ DIFERENCIÁ~LOS?

Na questão 2 do grupo IV,  diz o seguinte:

Tanto Descartes como Popper consideram que a submissão das nossas crenças ou opiniões a um severo exame crítico é um aspecto central do método de procura da verdade. Porém, Descartes e Popper divergem quanto aos resultados da aplicação desses métodos.

Justifique as afirmações anteriores.

Na sua resposta explicite os aspectos relevantes do método defendido por Descartes e do método defendido por Popper.

A correção oficial desta prova diz o seguinte:

«Descartes recomenda o método da dúvida para procurar a verdade....

«Popper recomenda o método crítico para procurar a verdade...

Crítica minha: Esta nomenclatura é confusa. Então o método crítico de Popper não é um método da dúvida? Claro que é...A crítica pressupõe a dúvida e o dogma que sobrevive às dúvidas. E o método de Descartes não é um método crítico já que pressupõe a dúvida metódica e afirma dogmas como «Eu penso, logo existo», «Se em vez de um Deus verdadeiro existisse um génio maligno que me enganasse em tudo, eu não conheceria que o mundo é verdadeiro e de que modo o é» ? É óbvio que é...

 

Os autores desta prova de exame carecem de um verdadeiro pensamento de síntese, padecem de racionalidade fragmentária, isto é, de «ver a árvore e não ver a floresta». Estranho é que se repitam sempre os mesmos erros na concepção da prova de exame nacional de filosofia, erros que temos denunciado aqui em anos sucessivos.

 

Doutoramentos e mestrados em filosofia não dão garantias de pensamento correcto e criador. A docência universitária em filosofia, pública ou privada, está dominada por pequenos pensadores inflacionados socialmente pela retórica e a burocracia que confere títulos. A universidade é uma instituição de massas, onde o erro e uma certa mediocridade se infiltram, não é a cúpula do pensamento mais elevado.

 

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Quinta-feira, 21 de Junho de 2012
Equívocos na prova 714 de Exame nacional de filosofia de 20 de Junho de 2012

 

O exame nacional de filosofia em Portugal (Prova 714/ 1ª fase) , de 20 de Junho de 2012, possui um certo número de equívocos importantes. Nem a Sociedade Portuguesa de Filosofia nem a Associação de Professores de Filosofia detectaram os erros que, aqui, passo a explanar. O essencial no ensino da filosofia não é preparar os alunos para exame, como defendem os burocratas cinzentos, licenciados, mestres ou doutorados na disciplina,  mas sim pôr os alunos a pensar em profundidade, o que implica fornecer-lhes, de forma rica e sintética, uma vasta gama de conceitos e teorias sem censuras científicas, religiosas, políticas, etc.  

 

Não conheço, por exemplo, nenhum professor de filosofia, além de mim, que ponha em causa o dogma da vacinação e forneça textos e videos críticos sobre esse tema,  o que prova que o ensino da filosofia  nas escolas é, quase todo, uma mera extensão das ciências oficiais e não uma crítica inteligente destas. Quantos são os professores de filosofia que sabem contrapor à medicina alopática, com a sua teoria causal bacteriana e viral das doenças, a concepção neo-hipocrática holística de que as múltiplas doenças locais são manifestação de uma só doença geral, a toxe-sangue-linfa (doutrina da unicidade das doenças) e de que um mesmo alimento são (exemplo: maçãs, uvas,etc) é ´capaz de curar doenças distintas em diferentes orgãos do corpo(unicidade da terapia alimentar)? Muitíssimo poucos... A incultura epistemológica reina entre os utilizadores dos «inspectores de circunstâncias», das «derivações», que vivem na casa vazia de uma lógica formal...

 

Aliás, os patrões das grandes editoras escolares não autorizam manuais de filosofia com textos contra a vacinação porque são amigos de médicos alopatas e querem estar nas boas graças dos políticos ligados às multinacionais farmacêuticas. Assim se condiciona e limita o campo filosófico, vergando-o aos lobbies do dinheiro...

 

Basta ver como os manuais escolares enfatizam os textos e a teoria de Karl Popper, um filósofo de segunda classe, inócuo para as ciências ideologicamente dominantes, e omitem, quase sempre por completo, os textos e a teoria de Paul Feyerabend. O servilismo dos manuais escolares escritos por membros da Sociedade Portuguesa de Filosofia (Desidério Murcho, Aires Almeida, Pedro Galvão, Luís Rodrigues, Pedro Madeira, etc) face à medicina alopática, à historiografia oficial liberal , etc, é confrangedor e obedece ao princípio positivista lógico: «nós em filosofia só tratamos da análise da linguagem e da ética, as questões científicas da medicina, astronomia, biologia, etc ficam a vosso cargo, ó cientistas, escrevam e façam o que quiserem, nós não incomodamos».

 

 

DETERMINISMO NÃO É EXATAMENTE O MESMO QUE DETERMINISMO EXCLUENTE DO LIVRE-ARBÍTRIO 

 

 

Vejamos algumas questões de estrutura ou correção oficial erróneas na prova 714 (versão 1) de exame nacional de filosofia de Junho de 2012.

 

GRUPO 1. 1.

 

Leia o texto seguinte do filósofo Espinosa acerca do problema do livre-arbítrio.

 

 

Texto A

 

Uma pedra recebe de uma causa exterior que a empurra uma certa quantidade de movimento,

 pela qual continuará necessariamente a mover-se depois da paragem da impulsão externa. [...]

 Imaginai agora, por favor, que a pedra, enquanto está em movimento, sabe e pensa que é

 ela que faz todo o esforço possível para continuar em movimento. Esta pedra, seguramente, […]

 acreditará ser livre e perseverar no seu movimento pela única razão de o desejar. Assim é esta

 liberdade humana que todos os homens se vangloriam de ter e que consiste somente nisto, que os

 homens são conscientes dos seus desejos e ignorantes das causas que os determinam.

 

Spinoza, «Lettre àSchuller», in Oeuvres Complètes, Paris, Gallimard, 1954

 

 

 

Identifique a tese defendida no texto.

 

Justifique a resposta, a partir do texto.

 

 

 

Cenário de resposta:

 

A resposta integra os seguintes aspetos, ou outros considerados relevantes e adequados:

 

– identificação da tese defendida no texto como sendo a tese do determinismo;

 

– interpretação do exemplo e da conclusão do texto – aplicação do argumento da causalidade e da tese

 

da negação do livre-arbítrio.

 

 

 

Crítica minha:  Existe aqui uma confusão. A tese que Spinoza exprime não é a do determinismo em geral , princípio da conexão necessária e uniforme de causas e efeitos, mas sim a do determinismo sem livre-arbítrio a rodeá-lo, isto é, aquilo que os manuais designam como determinismo radical. O que Spinoza nega no texto é a possibilidade real de os homens interferirem nas ações em que estão lançados por causas que lhe são estranhas e o que Spinoza realça é a ilusão em que os homens vivem de possuirem livre-arbítrio.  No texto não está presente, de modo explícito,  a tese do determinismo associado ou compatibilizado com livre-arbítrio, isto é, aquilo que os manuais e Blackburn designam por determinismo moderado . Logo, dizer que a tese do texto é o determinismo é uma resposta vaga, parcialmente errónea. A resposta correcta seria: determinismo excluente do livre arbítrio (vulgo determinismo radical). 

 

A ANÁLISE SEM VISÃO DE SÍNTESE DEFORMA, ISOLA, FRAGMENTA, O QUE NÃO PODE SER ISOLADO

 

 

 

Vejamos a segunda  pergunta  do grupo I:

 

2.

 

 

Leia o texto seguinte.

 

Texto B

 

Quando Kant propõe […], enquanto princípio fundamental da moral, a lei «Age de modo que

 a tua regra de conduta possa ser adotada como lei por todos os seres racionais», reconhece

 virtualmente que o interesse coletivo da humanidade, ou, pelo menos, o interesse indiscriminado

 da humanidade, tem de estar na mente do agente quando este determina conscienciosamente a

 moralidade do ato. Caso contráio, Kant estaria [a] usar palavras vazias, pois nem sequer se pode

 defender plausivelmente que mesmo uma regra de absoluto egoísmo não poderia ser adotada por

 todos os seres racionais, isto é, que a natureza das coisas coloca um obstáculo insuperável à sua

 adoção. Para dar algum significado ao princípio de Kant, o sentido a atribuir-lhe tem de ser o de que

 devemos moldar a nossa conduta segundo uma regra que todos os seres racionais possam adotar

 com benefício para o seu interesse coletivo.

  

John Stuart Mill,Utilitarismo, Porto, Porto Editora, 2005

 

 

 

Na resposta a cada um dos itens de2.1. a 2.4., selecione a única opção adequada ao sentido do texto.

 

Escreva, na folha de respostas, o número do item e a letra que identifica a opção escolhida.

 

 

2.1.

 

 

Segundo Stuart Mill, Kant verdadeiramente valoriza:

 

(A)as circunstâncias da ação.

 

(B)o interesse da humanidade.

 

(C)o imperativo categórico.

 

(D)um imperativo hipotético.

 

 

Crítica: Os critérios  de correção dizem que a resposta certa é a B, o interesse da humanidade. Está certo mas não pode considerar-se menos certa a resposta C) , o imperativo categórico, que manda que se considere cada pessoa como um fim em si e não um meio da ação do sujeito. Portanto, há duas respostas certas e não uma. A análise sem uma concomitante visão de síntese deforma, isola e fragmenta o que não pode ser isolado, fazendo ver só árvore sem ver a floresta. 

 

MILL VALORIZA A INTENÇÃO NA AÇÃO MORAL, AO CONTRÁRIO DO QUE SUPÕEM OS AUTORES DA PROVA

 

Analisemos outra questão de escolha múltipla, o tipo de questão em que é habitual os autores, que carecem de uma visão dialética de síntese, escorregarem.

 

2.3.

 

Stuart Mill defende que uma ação tem valor moral

 

(A)sempre que o agente renuncia ao prazer.

(B)quando a intenção do agente é boa.

(C)sempre que resulta de uma vontade boa.

(D)quando dela resulta um maior bem comum.


 

Crítica minha: os critérios de correção sustentam que só a  hipótese D está correcta. Na verdade, a hipótese B está igualmente correcta porque Mill, ao contrário do que supõem os autores da prova, valoriza a intenção do agente.  Em "Utilitarismo", Mill dá o exemplo de um homem que salva um seu inimigo de morrer afogado a fim de o torturar com requintes sádicos e considera que essa ação de salvamento é moralmente má porque a intenção do agente é má. Isto prova que, em certas ações, a intenção é mais importante que o resultado prático, segundo Mill. A moral deste é deontológica, ao invés do que dizem as mentes «quadradas» dos «analíticos».  É uma deontologia, não da universalidade abstracta, mas das maiorias particulares e concretas em cada situação.

 

 

Os vesgos parafilósofos analíticos dividem a ética em três grandes correntes: ética das virtudes de Aristóteles, ética deontológica de Kant e ética consequencialista de Mill. Não se dão conta da unidade essencial destas três correntes: são todas deontológicas.  

 

A NÃO DISTINÇÃO ENTRE VALIDADE DEDUTIVA E VALIDADE INDUTIVA E AS AMBIGUIDADES QUE ISSO GERA

 

Vejamos o grupo II da prova de exame (versão 1).

 

 

2.2.

 

 

 

Num raciocínio indutivo forte, a verdade

 

 

(A)da conclusão é garantida pela verdade das premissas.

 

 

(B)das premissas torna provável a validade da conclusão.

 

 

(C)da conclusão é garantida pela validade das premissas.

 

 

(D)das premissas torna provável a verdade da conclusão.

 

 

Crítica minha: Os critérios de correção indicam que só a resposta D é correcta, o que é uma estupidez : a resposta A está também certa (exemplo: a verdade da permissa "o Sol nasce diariamente desde há milhões de anos no horizonte terrestre", garante a verdade da conclusão  "logo, hoje mais uma vez o Sol tinha de nascer no horizonte")  e a resposta B está também correcta. Note-se que se pode falar em validade formal dedutiva e em validade indutiva, substancial mas o texto e os critérios de correção não esclarecem esta distinção...Por isso, há mais que uma resposta certa.

 

DA NÃO DISTINÇÃO ENTRE IMPRESSÕES DE SENSAÇÃO E IMPRESSÕES DE REFLEXÃO, EM HUME

 

 

 

Vejamos uma questão do grupo IV da prova 714.

 

 

GRUPO IV

 

1.

 

Leia o texto seguinte.

 

Texto E

 

 

[…] Quando analisamos os nossos pensamentos ou ideias, por mais complexos ou sublimes que

 possam ser, sempre constatamos que eles se decompõem em ideias simples copiadas de alguma

 sensação ou sentimento precedente. Mesmo quanto àquelas ideias que, à primeira vista, parecem

 mais distantes dessa origem, constata-se, após um exame mais apurado, que dela são derivadas.

 A ideia de Deus, no sentido de um Ser infinitamente inteligente, sábio e bondos, deriva da reflexão

sobre as operações da nossa própria mente e de aumentar sem limites aquelas qualidades de

bondade e de sabedoria.

 

 

David Hume, «Investigação sobre o Entendimento Humano», in

 

Tratados Filosóficos I, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002

 

  

1.1.Nomeie os tipos de perceção da mente, segundo Hume.

 

 

1.2.Explicite, a partir do texto, a origem da ideia de Deus na filosofia de Hume.

 

2.Confronte as ideias expressas no texto de Hume com o racionalismo de Descartes.

 

Na sua resposta, deve abordar, pela ordem que entender, os seguintes aspetos:

 

 

inatismo;

 

valor da ideia de Deus.

 

  

Cenário de resposta

 

A resposta integra os seguintes aspetos, ou outros considerados relevantes e adequados:

 

– relação entre as impressões e as ideias e entre as ideias simples e as ideias complexas;

 

– identificação da ideia de Deus como ideia complexa que tem por base ideias simples que a mente e

 

a vontade compõem e potenciam.»

 

 

Crítica minha: nos critérios de correção não se faz a distinção entre impressões de sensação e impressões de reflexão, ambas elas tipos de percepção da mente, distinção capital na gnosiologia de Hume. Se não houvesse impressões de reflexão como os sentimentos de bondade, de respeito por todos os seres humanos, etc, seria impossível formar a ideia de Deus.

 

Verifica-se, por conseguinte, analisando o teor deste exame 714, que as provas de exame nacional de filosofia em Portugal continuam a ser elaboradas por intelectuais de segunda e terceira categorias, destituídos de racionalidade holística e de poder de análise rigorosa. Há muita falta de imaginação, rigor e criatividade na elaboração destas provas, reflexo do ensino burocrático que a grande maioria dos professores do ensino secundário e universitário ministra. 

 

Os burocratas da filosofia, pequenos Stalines do formalismo lógico, chegam ao ponto de dizer que «o programa de filosofia do 10º ano não permite que se fale nos três mundos de Platão nem nos conceitos de tó on e tó tí nem na teoria das quatro causas de Aristóteles nem no taoísmo e dualismo Yin-Yang, nem na tese do microcosmos como espelho do macrocosmos»... Na sua ânsia de atacar-nos,  aos que somos criativos e cultos no ensino da filosofia, os «stalino»-analíticos confundem deliberadamente o programa (conjunto de linhas gerais) com os conteúdos que cada professor pode e deve livremente explanar e argumentam, falaciosamente, que «Platão, Aristóteles, Hegel, a teoria dos valores de Max Scheler, realismo/idealismo, estão fora do programa» só porque este não os menciona explicitamente. O que eles não sabem é quase nada de filosofia, não pensam, e mordem-se de inveja dos que sabem, dos que pensam...

 

O grande caos mental da filosofia analítica, iniciado com a tese paradoxal de Bertrand Russel de que «há classes que são membros, isto é, partes, de si mesmas, como a classe dos objetos abstratos», não cessa de aumentar e contamina os "filósofos de cátedra", os professores do secundário e os alunos - excepto os inteligentes, que resistem.

Platão dizia que o povo não é filósofo e isso aplica-se ao povo dos professores de filosofia que é ainda uma pequena multidão, pouco destacada intelectualmente, da multidão em geral.

 

Uma pequena multidão de professores demasiado uniforme, portadora de um horizonte totalitário de «não sair do programa, uniformizar», «agnóstica», politicamente demoliberal (numa democracia sequestrada), epistemológica e cosmologicamente totalitária, rejeitando, por princípio, a astrologia determinista histórico-social e as «ciências herméticas» (Cabala, I Ching, antroposofia de Rudolf Steiner, medicinas sagradas tradicionais, etc), socialmente empenhada na ascensão através de mestrados e doutoramentos que lhe dêem prestígio e vantagens económicas. As universidades, mesmo as estatais, parecem estar a transformar-se em prostitutas que, a troco de dinheiro, vendem mestrados e doutoramentos a qualquer professor/ licenciado medianamente inteligente.

 

Assim, a estratégia dos que amam a verdade, dos autênticos filósofos, passa por denunciar as actuais universidades, ocupadas por catedráticos e professores auxiliares sem qualidades superiores de inteligência e de saber erudito e sem coragem para afrontar a tecnociência e os interesses económicos e políticos das burguesias e burocracias dominantes.

 

E criticar, com paciência e clareza racional, a esmagadora maioria dos professores do ensino secundário que repetem os mesmos clichés confusos do tipo «o utilitarismo é um consequencialismo», «as éticas de Mill e de Aristóteles não são deontológicas», «o determinismo duro, o determinismo moderado, o libertismo e o indeterminismo são as quatro correntes sobre a questão do livre-arbítrio e da acção humana», «o libertismo é um incompatibilismo», «o relativismo é incompatível com o objectivismo», etc. É uma grande maioria, relativamente impensante, de professores, medianos e medíocres.

 

Destes, alguns, anti-racionalistas confessos, porque o curto raio (ratio) de alcance do seu pensamento não lhes permite atingir e compreender a posição dos planetas no Zodíaco e correlacionar com os factos terrestres sociais e biofísicos - refiro, entre outros, Carlos Pires («Dúvida Metódica»), Sérgio Lagoa, Tiago Pita, Valter Boita, Vítor Guerreiro, Aires Almeida, Carlos Alberto Gaspar, Rolando Almeida, Olívia Macedo, António Gomes, Luis Mendes, Isabel Versos, Rui Areal - destilam sarcasmos e falácias ad hominem contra este blog e o seu autor, o que me diverte bastante, mas não me desvia da luta pela claridade do pensamento filosófico e pela verdade. Doa a quem doer.

 

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Sábado, 27 de Agosto de 2011
Equívocos de Luís Rodrigues em questões de exame nacional de Filosofia

 

O livro de exercícios «Filosofia para a prova de exame do 10º ano», de Luís Rodrigues, apresenta diversas questões de resposta errada ou incompleta, nos mesmos moldes da famigerada prova de exame nacional de filosofia de Julho de 2007. Este tipo de questões, mal formuladas em parte ou no todo, não podem ser colocadas no exame nacional de filosofia sob pena de criarem injustiças sérias na correcção dos testes. Vejamos exemplos:

 

«Seleccionar a alternativa correcta - ou as alternativas correctas quando for o caso.

 

 

1) O relativista moral cultural defende que:

a)  Não há verdades morais objectivas.

b) Todos os juízos morais são falsos.

c) Não há acções imorais.

d) Há verdades morais objectivas.

 

R:a) Não há verdades morais objectivas. »

 

(Luís Rodrigues, Filosofia para a prova intermédia do 10º ano, pag. 65, Plátano Editora)

 

 

Crítica minha: As quatro respostas estão erradas. Os relativistas culturais, isto é, aqueles que afirmam os valores de bem e mal variam de época a época e de classe a classe social, dividem-se em dois grupos: os que sustentam que não há verdades morais objectivas e desembocam, frequentemente, no cepticismo (exemplo: há o amor dentro do matrimónio swinger, há o amor no matrimónio monogâmico de mútua fidelidade, não sei qual deles é moralmente o melhor); os que sustentam que há verdades morais objectivas - as mesmas para uma vasta comunidade, como por exemplo «a pedofilia é crime moral» - e constatam essas verdades variaram ao longo dos séculos, no exemplo, verificam que a pedofilia já foi aceite na antiguidade como um «bem acessível a certas camadas de homens». Logo, as respostas a e d estão parcial mas não totalmente correctas.

 

 

Voltemos a outra questão desenhada por Rodrigues:

 

 

7a) Um valor moral é objectivo:


a) Quando é aceite pela maioria dos membros de uma cultura. 

b) Quando é verdadeiro ou falso independentemente do que alguém possa pensar àcerca do seu conteúdo.

 

c) Quando promove a tolerância entre diferentes pontos de vista.

d) Quando não é verdadeiro nem falso para um indivíduo.

 

R:b) Quando é verdadeiro ou falso independentemente do que alguém pensar àcerca do seu conteúdo.

(Luís Rodrigues, ibid, pag 67)

 

 

Ao contrário do que sustenta Luís Rodrigues, há duas respostas certas: a da alínea a e a da alínea b. O termo objectividade tem pelo menos dois sentidos: certeza partilhada pela maioria ou por uma boa parte dos membros de uma comunidade e nisso corresponde à alínea A; realidade em si mesma, independente das mentes humanas, à maneira dos arquétipos em Platão, e nisso corresponde à alínea B. Não se pode impor um único sentido ao termo objectividade, dado que possui vários, algo similares entre si.

 

8)a) Vive e deixa viver porque a cada qual a sua verdade em questões morais. Esta convicção é defendida:

a) Pelo relativismo moral cultural.

b) Pelo subjectivismo moral.

c) Pelo cepticismo moral.

d) Por quem acredita que a moral depende da religião.

R: b) Pelo subjectivismo moral. (Luís Rodrigues, ibid, pag 67).


Mais uma vez a visão unilateral de Luís Rodrigues estreita o campo das respostas válidas. O subjectivismo é, sob certo prisma, um relativismo individualista ou individuado: a verdade varia de pessoa para pessoa. As respostas A, B e C estão correctas. O relativismo da ideologia liberal-democrática preconiza que se viva e deixe viver cada um a respectiva verdade moral, isto é, abre campo à subjectividade, mas nem por isso é um subjectivismo visto que estabelece certas regras comuns como por exemplo «respeitar o direito de adversários políticos e culturais se exprimirem nas ruas e na imprensa, condenar a pedofilia, etc».Luís Rodrigues, tal como os autores em que se inspira, não sabe definir correctamente relativismo moral cultural confundindo-o com relativismo adicionado de cepticismo "igualitarista".

 

 

É indispensável que o GAVE, responsável pelos exames nacionais de Filosofia a terem lugar em 2012,  prescinda dos serviços de Luís Rodrigues e do seu grupo em matéria de elaboração de provas de exame e se oriente para quem tenha uma concepção filosófica ampla e de rigor.

 

  

 

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Terça-feira, 23 de Agosto de 2011
Quem elaborará o exame nacional de Filosofia de 2012, se o de 2007 foi gizado por antifilósofos «anallíticos»?

 

Quem irá elaborar o exame nacional de Filosofia no ensino secundário em Portugal em 2011-2012? É imperioso que não seja alguém da mesma linha ideológica de quem fez a prova de exame de 2007, prova que constituiu um verdadeiro amontoado de erros patente sobretudo nas perguntas de escolha múltipla, várias das quais continham várias respostas certas apesar de só uma ser oficialmente correcta. Os autores do exame não tinham categoria intelectual filosófica necessária, apesar dos supostos  graus de mestrado ou doutoramento que, por hipótese, ostentassem. Lembro o artigo que publiquei neste blog em 17 de Julho de 2007 apontando as inconsistências desta prova de exame que desprestigiou a filosofia lectiva em Portugal.

 

 

É imperioso que o lobby antifilosófico dito da «filosofia analítica» do qual emanou o exame de 2007 - refiro-me ao grupo de Desidério Murcho, João Branquinho, Pedro Galvão, Aires Almeida, Luís Rodrigues, etc - que parece controlar, em certa medida, editoras como a Plátano Editora, a Lisboa Editora, a Gradiva,  não seja encarregado de fazer as provas de exame deste ano. Este grupo que, durante anos classificou jocosamente o estudo da filosofia clássica de  «história da filosofia», confundindo o conteúdo com o contexto, - Desidério proclamava que ler e interpretar a «Metafísica» de Aristóteles ou os «Pensamentos» de Marco Aurélio era fazer história da filosofia e não filosofar, e nunca fez autocrítica pública desta tese errónea e medíocre -  tem mantido «sequestrado» na sua sofística «lógica» o pensamento de uma parte dos professores portugueses de filosofia do ensino secundário - os professores de mediana capacidade, que são a maioria.

 

Esperemos que o GAVE e o ministro Nuno Crato não cedam ao lobby que domina a Sociedade Portuguesa de Filosofia e que vai organizar o Congresso de Professores de Filosofia, em Setembro de 2011, com a presença do académico Simon Blackburn, pai de numerosas confusões teóricas. Há gente competente para elaborar o próximo exame de filosofia fora deste grupo antifilosófico.

 

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Segunda-feira, 3 de Julho de 2006
Erros teóricos na concepção do Exame Nacional de Filosofia (Prova 714)

 

O exame nacional de Filosofia, prova escrita 714, realizado em Portugal em 3 de Julho de 2006, contém diversos erros na estrutura das perguntas que deverão, por imperativo,  levar à sua impugnação.

 

Vejamos alguns exemplos desses erros, no que toca ao GRUPO I , (Versão 2 da prova), composto por 10 questões de resposta obrigatória, em cada uma das quais se oferecem 4 tipos de resposta  (A, B, C, D), devendo o aluno indicar uma única como certa.

 

 

A VALIDADE NÃO SE REFERE SÓ AOS ARGUMENTOS MAS TAMBÉM ÀS PREMISSAS, À PROPOSIÇÃO...

Atente-se na questão 1 do GRUPO I do dito exame (Versão 2):

«1. A validade é uma propriedade...

(A) das permissas

(B) dos argumentos

(C) das conclusões

(D) das proposições .»

 

Crítica:  Em primeiro lugar, a pergunta peca por não identificar o sentido da palavra validade: há validade em sentido formal; há validade em sentido material.

Pode responder-se  (A) e está certo. Exemplo, o raciocínio: «A água ferve somente à temperatura de 60º centígrados, à pressão atmosférica normal, na Terra;  a minha cafeteira ao lume tem água a 70º C, logo essa água já ferve» está inválido na primeira premissa porque, em condições normais, a água ferve a 100º c.  Portanto há premissas válidas e premissas inválidas.

 

Mas também se pode responder (B) e ser considerado certo: é óbvio que a validade pertence aos argumentos, como pertence às permissas e às conclusões que os compõem..

 

E também se pode responder, correctamente, (C) pois a validade é também propriedade das conclusões.  Exemplo:  o raciocínio «Os homens são mortais, Diógenes é homem, logo Diógenes é mortal»  tem uma conclusão válida mas o raciocínio «Os elefantes são paquidermes, Caetano Veloso não é elefante, logo Caetano Veloso não é brasileiro» não tem validade na conclusão.

 

Se responder (D)  o aluno igualmente dá uma resposta correcta porque há proposições válidas e inválidas.  Exemplo: A proposição «A parte é maior do que o todo em que se integra» é inválida mas a proposição «Dois adicionado de sete perfaz nove» é válida.

 

Em suma: quer responda A,B,C ou D o estudante acerta sempre. Mas assim não pensam os «filósofos» que elaboraram esta espantosa prova de exame que apenas consideram correcta a hipótese (B).  À excepção de Russell, de Ayer e de alguns outros, podemos dizer que a maioria dos pensadores analíticos, formalistas, vêem a árvore e não vêem a floresta...

 

A CONFUSÃO ENTRE ALGUNS DIREITOS E TODOS OS DIREITOS NA QUESTÃO 3...

 

Vejamos outra questão de estrutura errónea, a questão 3, grupo I, na referida prova de exame (versão 2):

 

«3. Como é que as mulheres conquistaram os direitos que têm?  Sem dúvida que foi através da luta activa, pois foi através da luta activa que conquistaram o direito de voto, foi através da luta activa que conquistaram o direito à igualdade de oportunidades no emprego, e também foi através da luta activa que conquistaram o direito de frequentar o ensino superior.»

Qual é a conclusão deste argumento?

(A) Foi através da luta activa que as mulheres conquistaram o direito de voto.

(B) Foi através da luta activa que as mulheres conquistaram o direito à igualdade.

(C) Foi através da luta activa que as mulheres conquistaram os direitos que têm.

(D) Foi através da luta activa que as mulheres conquistaram o direito de frequentar o ensino superior.»

 

Crítica: Ao contrário do que pretendiam os autores deste teste, há três respostas que estão certas, embora parcelares- (A), (B) e (D) - visto que a conclusão deste argumento se desdobra em três dimensões (voto, igualdade, ensino superior). E, contra o que parece,  há uma resposta errada: a (C), justamente aquela que os critérios de correcção oficiais apontam como.. correcta..

Na verdade, há direitos das mulheres que não foram, presumivelmente, conquistados pela luta activa: o direito a ser mãe, por exemplo, que é um direito biológico, inerente ao organismo; o direito à sedução feminina, que é um direito psico-biológico. E outros.

Para que a resposta (C) fosse correcta era preciso que a frase fosse a seguinte: (C) Foi através da luta activa que as mulheres conquistaram alguns dos direitos que têm».

 

A INCAPACIDADE DE DEFINIR INDUÇÃO FORTE

 

Medite-se, agora, noutra questão concebida confusamente, a questão 4 do grupo I (Versão 2):.

 

«4. Um argumento é indutivamente forte quando...

(A) parte do particular para o geral.

(B) a verdade das premissas torna muito provável a verdade da conclusão.

(C) é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa.

(D) parte do geral para o particular.»

 

Crítica: As quatro hipóteses estão erradas. Se o aluno responder (A) , isto é, que a indução, forte, consistente, é a que parte do particular para o geral erra por insuficiência na definição, por indiferenciação,  porque a indução fraca também parte do particular para o geral.  Exemplo de como a  indução fraca generaliza, também parte do geral para o particular: «Fui a Serpa e perguntei a cinco transeuntes em quem votavam nas eleições autárquicas, 4 disseram que no PSD e 1 no PS, portanto, induzo que a maioria dos votantes em Serpa votam PSD». Ora, a maioria dos eleitores em Serpa nas autárquicas vota CDU...

 

Se o estudante responde (B), está igualmente errado, porque numerosas induções fortes não afirmam a probabilidade mas a certeza da verdade. Exemplo: « Sou médico, já dei 2.017 injecções de insulina a diabéticos e em todos os casos a taxa de açúcar no sangue baixou, induzo, com toda a certeza, que o mesmo sucederá com o próximo diabético...». Os autores do teste estabeleceram, confusamente, que a resposta correcta» seria esta (B)...É um erro crasso.

 

As respostas (C) e (D) são, obviamente, extrínsecas à noção de indução forte.

Qual seria então a possível resposta correcta sobre a indução forte, que os autores da prova não souberam construir?  A resposta (A´) se fosse enunciada assim: parte de numerosos exemplos particulares, que não registaram excepção conhecida ou que têm raríssimas excepções, para uma tese ou lei geral...

 

EMPÍRICO CONTRAPOSTO A EXPERIMENTAL E A A POSTERIORI? A «FÉ» EM QUE A CÔR É A PRIORI ERIGIDA EM DOGMA...

 

Veja-se agora outra questão, a nº 8 do grupo I, (Versão 2) claramente errada na sua formulação porque supõe haver uma única resposta certa: 

 

«8. Sabemos que as coisas verdes são coloridas. Este conhecimento é...

(A) empírico

(B) experimental.

(C) a priori 

(D) a posteriori

 

Crítica: se o aluno responder (A) acertou: é pela via empírica (dos sentidos: visão, audição, tacto, etc) que o ser humano se apercebe que as coisas verdes são coloridas (tautologia..). Este é o ponto de vista da física dominante: a côr forma-se em nós dependendo da incidência dos raios de luz exteriores, objectivos, não é um a priori.

 

Mas se o aluno responder (B) acertou também: é pela via experimental, isto é, baseada na experiência que se descobre que as folhas das árvores são, geralmente, verdes e que são coloridas. Aliás digam-me: qual é a diferença entre o empírico e o experimental? Em certo sentido, são exactamente o mesmo.

 

E se o estudante responder (D) está igualmente correcto: constatar que as coisas verdes são coloridas é um conhecimento a posteriori, ou seja, gerado na experiência, depois de o ser humano nascer e apreender sensorialmente o mundo.

 

Em suma: respondendo (A), (B) ou (D) o aluno tem resposta correcta. Se responder (C) está também correcto, sob outra óptica filosófica - a de um certo tipo de inatismo ou apriorismo.

Mas  os autores da prova pretendem que só uma resposta é correcta.. E o mais surpreendente é que sustentam que a resposta certa é a (C) : a côr é conhecida a priori, isto é, já está inata em nós antes de vermos pela primeira vez os objectos de côr verde. Pecam portanto, por unilateralismo: erigem um determinado ponto de vista gnosiológico, legítimo, em fonte única da verdade àcerca da côr, eliminando a interpretação empirista aposteriorista, absolutamente legítima, patente nas hipóteses (A), (B) e (D). A isto chama-se intolerância antifilosófica... A questão da côr não está dirimida entre os filósofos e biólogos. É ainda uma questão de «fé»...isto é, de especulação metafísica.

Mas os autores da prova querem obrigar os professores correctores a segui-los na queda ao precipício do seu míope dogmatismo.

 

NENHUMA PROPOSIÇÃO A POSTERIORI SE CONHECE APENAS COM RECURSO À EXPERIÊNCIA...

Examinemos agora a questão 9 do grupo I, (versão 2) também mal estruturada.

«(9) Diz-se que uma proposição é conhecida a posteriori se é conhecida ...

(A) apenas por recurso ao pensamento.

(B) por todas as pessoas.

(C) apenas pelos empiristas.

(D) apenas por recurso à experiência.»

Crítica: Nenhuma destas quatro respostas é correcta. A proposição conhecida a posteriori é a que deriva da experiência sensorial, como por exemplo: «Hoje está, aqui, um dia quente de verão, de céu azul sem nuvens».

Os autores da prova supunham que a resposta (D) é a correcta mas tal não sucede. Na verdade, uma proposição a posteriori como «Está calor aqui na praia» não se conhece apenas por recurso à experiência ( «Sinto o calor na pele, a areia da praia nos pés, vejo o mar...) mas também por recurso ao pensamento porque, como proposição, implica ideias, juízo, raciocínio que se traduzem na frase.

Uma proposição factual, a posteriori, não é apenas um ver e um sentir esta coisa, esta acção: é uma estruturação pensante - recorre também ao pensamento - desses dados empíricos.

Logo, a resposta correcta seria a (D) se esta tivesse sido formulada do seguinte modo: por recurso à experiência e ao pensamento.

HÁ VÁRIAS OBJECÇÕES, E NÃO APENAS UMA, À INDUÇÃO CIENTÍFICA....

A questão 10 do grupo I (versão 2) está concebida de forma errónea ao pretender uma única resposta certa das quatro possíveis. Vejamos.

«10. A concepção indutivista de ciência enfrenta a objecção seguinte:

(A) muitas teorias científicas têm como objecto factos inobserváveis.

(B) as teorias científicas permitem fazer previsões.

(C) a observação não intervém no desenvolvimento da ciência.

(D) todo o conhecimento científico é a priori

Crítica: No quadro da pergunta, há três respostas certas a esta pergunta: (A), (C) e (D). Por concepção indutivista da ciência entende-se aquela que estabelece leis ou regularidades a partir da generalização (indução amplificante) de alguns exemplos empíricos da mesma natureza. Ora os autores da prova pretendiam que só a (A) é correcta, falhando o ângulo de visão teórica correcta, porque, por exemplo, sustentar que a observação não intervém no desenvolvimento da ciência - e Popper fá-lo no que concerne à criação das ideias científicas- é uma objecção à concepção indutivista da ciência.

 

QUE IDEOLOGIA «FILOSÓFICA» ENFORMA OS TESTES DE EXAME?

 

Há mais erros nesta prova que, oportunamente, revelaremos.

Detecta-se, no tipo de perguntas, no modo de construção da prova,  a preponderância dada pelos autores a um determinado manual: concretamente, A arte de pensar, manual de Filosofia do 11º ano, da Didáctica Editora, de Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão. A escolha das falácias Ad Misericordiam, Apelo à Ignorância e outros pormenores revelam este manual como sua fonte. A verdade é que as orientações de exame dadas aos professores de Filosofia, há meses, não referiram explicitamente estas falácias como de estudo obrigatório para exame e assim só os alunos que estudam por um dado manual de uma dada editora saem beneficiados em relação aos outros... Enfim, camaradas, Todos somos iguais, mas uns são mais iguais do que outros, como no livro de George Orwell.

 

Em tudo isto, temos um exemplo de como o lobby da (sub)filosofia  analítica em Portugal , cristalizado na chamada Sociedade Portuguesa de Filosofia, essa espécie de tecnocratas do pensamento, que fragmentam e reduzem o caule do pensar a definições laminadas, distorcidas, desconexas entre si, sem visão holística, domina o sector de concepção de exames no Ministério da Educação.

 

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publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:34
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