Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2016
Teste de Filosofia do 10º ano, turma B (Fevereiro de 2016)

 

 Os conteúdos deste teste de filosofia referentes a alquimia, cabala e princípio das correspondências macrocosmos-microcosmos integram-se na rubrica «Os grandes temas da filosofia» e são relativos a uma visita de estudo ao centro histórico de  Sevilha em que se fará hermenêutica de monumentos antigos e seus pormenores artísticos.

 

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA B

4 de Fevereiro de 2016. Professor: Francisco Queiroz.

 I

“A filosofia da alquimia sustenta a divisa «solve e coagula» e a existência de três princípios/ substâncias do universo material. O templo cristão na idade média foi construído segundo o princípio das correspondências microcosmo-macrocosmo. O não agir do taoísmo exige não só a percepção empírica mas também o conceito empírico e a intuição inteligível".

 

1) Explique, concretamente este texto.


2) Relacione, justificando:

A) Seis esferas da árvore cabalística das Sefirós, as respectivas qualidades, cores e planetas associados a cada uma, e a planta do templo cristão medieval.

 

B) As quatro fases do processo alquímico e respectivas aves, por um lado, realismo e idealismo, por outro lado

 

C)Agir por dever e agir em conformidade com o dever em Kant e três partes da alma na teoria de Platão


D)  Máxima e imperativo categórico em Kant e o princípio moral do utilitarismo em Stuart Mill.

 

3) O que é e para que serve a filosofia? Tem o direito de gerar metafísica? É dogmática? É céptica? É objetiva? É subjetiva?

Disserte sobre isto (mínimo: 7 linhas).

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

1) A filosofia da alquimia, doutrina esotérica, hermética que sustenta o processo da Grande Obra ou criação laboratorial da pedra filosofal que concederia a imortalidade ao homem, dotando-o de um corpo astral desmaterializado como o mítico Adão Kadmon (metade homem e metade mulher), defende que há três princípios/ substâncias originárias do universo, o enxofre ou homem vermelho (princípio masculino), sólido, o mercúrio filosófico ou mulher branca (princípio feminino), volátil, e o sal, neutro. A divisa «solve e coagula» significa dissolver o enxofre, sólido, e coagular o mercúrio líquido ou gasoso que se esparge pelas esferas celestes de forma a obter o equilíbrio e a pedra filosofal, ou lapis vermelho  (VALE TRÊS VALORES). O princípio das correspondências microcosmo-microcosmo da filosofia hermética sustenta que o que está em baixo é como o que está em cima, há uma analogia entre o microcosmo ou pequeno universo e o macrocosmo ou grande universo. Assim, o templo cristão da idade média obedeceu a essa lei: o macrocosmos seria um corpo gigantesco de Cristo de braços abertos que atravessaria o universo inteiro e o templo a construir seria um macrocosmos que imitaria, em forma de cruz, esse corpo macrocósmicos. A abside do templo, orientada a Este, ponto cardeal onde nasce o Sol (Cristo é o Sol espiritual) equivale à cabeça, o transepto aos braços abertos, o altar ao coração, as naves ao tronco e pernas de Cristo. (VALE DOIS VALORES) O não agir do taoísmo, isto é, o quietismo ético, doutrina que incita a ser contemplativo, a levar a vida simples de um camponês ou de um artesão e a desprezar a política, as expedições militares e as guerras, os grandes negócios e títulos universitários, exige a percepção empírica, isto é, ver tocar, saborear coisas e situações, o conceito empírico, isto é, a ideia extraída de percepções sensoriais (exemplo: o conceito empírico de guerra é abstraído das percepções de casas destruídas por bombas, corpos ensanguentados nas ruas, disparos ou espadeiradas contra pessoas). Exige também a intuição inteligível isto é um flash ou iluminação metafísica (exemplo: a intuição de que a maior virtude é seguir o Tao, o ritmo natural dos dias e das noites, etc). (VALE TRÊS VALORES)

 

2) A) A árvore das Sefirós (Esferas) é o diagrama do universo, segundo a Cabala (ensinamento secreto) judaica, uma «heresia» do judaísmo como religião de massas. Essa árvore de 10 esferas, que são 10 qualidades manifestas de Deus, é composta de um hexágono em cima, um triângulo debaixo deste e um ponto isolado no fundo. Podemos aplicar este diagrama à planta em cruz da catedral cristã fazendo coincidir Kéther, a primeira Sefiró, com a abside do templo, Binan e Guevurah com a extremidade esquerda do transepto, Hockman e Chesed com a extremidade direita do transpeto, Tiferet com o altar no pilar central.

 

                               KÉTHER (Coroa)

                                Planeta: Úrano

                                Esfera nº 1

                                 Cor : Indefinida

 

BINAH:                                               CHOCKMAH

Esfera nº 2                                          Esfera nº 3

Inteligência                                          Sabedoria

Feminina                                              Masculina

Saturno                                                Neptuno

Cor Negra                                           Cor iridescente

 

GUEVURAH                                          CHESED

Esfera nº 5                                             Esfera nº 4

Justiça                                                    Misericórdia

Marte                                                       Júpiter

Cor: Vermelho                                        Cor Azul

 

                                     THIPHERET

                                      Esfera nº 6.

                                      Beleza. 

                                      Sol                                     

                                      Cor: amarelo ouro.

                                                 (VALE TRÊS VALORES)

 

B) As quatro fases da Grande Obra Alquímica que visa produzir o elixir da longa vida ou pedra filosofal em laboratório são: nigredo, ou fase negra, da putrefação da matéria transformada no laboratório a que corresponde o corvo; albedo, ou fase branca de separação das impurezas, a ave é o cisne; citredo, ou fase multicolor, de alguma dominancia do amarelo limão, a ave é o pavão; rubedo, ou fase vermelha na qual se dá a produção da pedra filosofal cuja ave é a fénix. O realismo é a corrente ontológica que sustenta que a matéria existe em si mesma fora dos espíritos humanos. Parece corresponder à realidade dos processos alquímicos, com as retortas, o atanor (forno), etc. O idealismo é a corrente ontológica que diz que o universo de matéria não passa de um conjunto de ideias ou percepções empíricas dentro da imensa mente de um ou vários indivíduos humanos.A alquimia tanto pode ser encarada de um ponto de vista realista (exemplo: o atanor ou forno do alquimista é real, está ali, etc)  como do ponto de vista idealista ontológico (exemplo: o mundo material e o laboratório não passam de um sonho). (VALE TRÊS VALORES).

2-C) Agir por dever, na doutrina de Kant, é universalizar a sua máxima ou princípio subjetivo, agir de acordo com o imperativo categórico que cada um gera no seu eu racional: trata cada ser humano como um fim em si mesmo, alguém digno de respeito, e nunca como um meio para chegares a fins egoístas. Isto liga-se ao Nous ou parte superior, racional, da alma humana, em Platão, que contempla os arquétipos e dirige os filósofos.reis que vivem colectivamente, sem ouro nem prata, numa casa do Estado e fazem as leis. Também se liga ao Tumus ou parte intermédia da alma que representa o valor militar dos guerreiros, auxiliares dos filósofos-reis.

Agir em conformidade com o dever é cumprir a lei do Estado por medo de ser punido e liga-se à parte inferior da alma humana, a epythimia ou concupiscência, sede dos prazeres egoístas de enriquecer materialmente com ouro e prata, comer requintadamente, desfrutar vida luxuosa, etc. " (VALE DOIS VALORES).

 

2-D- O imperativo categórico ou verdadeira lei moral postula: «Age como se quisesses que a tua ação fosse uma lei universal da natureza». Resulta da universalização da máxima, da aplicação equitativa do princípio subjectivo moral de cada um ou máxima. Exemplo: se a minha máxima é «Combato a vacinação obrigatória porque as vacinas infectam o organismo» o meu imperativo categórico será «Vou difundir a ideia de que a vacinação é nociva e não me vacinarei nem as minhas filhas, quaiquer que sejam as sanções contra mim.» O princípio moral de Stuart Mill é, em cada situação, promover a felicidade da maioria das pessoas, mesmo sacrificando a minoria. Em regra, isto opõ-se ao imperativo categórico de Kant que é absolutamente equitativo e trata por igual todos os indivíduos. (VALE DOIS VALORES).

 

3) A filosofia é uma interpretação livre ou o conjunto das interpretações livres do mundo, dotadas de variáveis graus de especulação (teorização de assuntos difíceis ou impossíveis de demonstrar objectivamente). Naturalmente, gera metafísica, isto é, doutrina sobre os entes e fenómenos invisíveis e imperceptíveis, imaginários ou reais do universo (deuses, reencarnação, buracos negros do universo, ) e sobre as causas primeiras da vida e o sentido desta. A filosofia é dogmática, assenta em certezas, e simultaneamente é cética, instala-se na dúvida. É ao mesmo tempo objectiva (exemplo: os três mundos em Platão são objectivos no sentido em que podem ser compreendidos por toda a gente) e subjectiva na medida em que cada pessoa tem uma filosofia própria diferente das outras pessoas. (VALE DOIS VALORES).

 

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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2015
Teste de filosofia do 10º C (Fevereiro de 2015)

 

Os temas de alquimia incluídos neste texto conexionam-se com a visita de estudo a Sevilha que o liceu de Beja (ESDG) realiza anualmente. Nenhum manual do 10º ano de filosofia do ensino secundário em Portugal inclui textos sobre alquimia, filosofia hermética, astrologia - temas obrigatórios para quem queira pensar a sério filosofia. Um professor  de filosofia que não conheça os princípios da alquimia (o enxofre, o mercúrio e o sal), o dualismo yang-yin do taoísmo, as leis da dialética, o princípio das correspondências macrocosmos-microcosmos é um sujeito inculto, de mente quadrada, muito mais inculto que o empregado de escritório Fernando António Nogueira Pessoa, genial poeta e pensador, falecido em 30 de Novembro de 1935, em Lisboa. Hoje, vive-se um clima de censura na universidade portuguesa e mundial, pretensamente racionalista, comparável à censura da inquisição.

 

A esmagadora maioria dos actuais professores liceais e universitários de filosofia e sociologia são incompetentes, anti filosóficos. A universidade está infiltrada de doutorados que são alunos «marrões» que fizeram «copy paste» de trabalhos dos «mestres», fizeram o «beija-mão», pagaram milhares em propinas e foram cooptados. Os doutoramentos em filosofia enfermam de erros graves, em regra, e superabundam em verniz retórico. É um show-off. Vamos ao nosso teste que, certamente, ensina algo a muitos desses ignorantes donos de cátedras, agentes da burguesia inculta, superficial e endinheirada que domina o Estado e o sistema de ensino.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C
11 de Fevereiro de 2015. Professor: Francisco Queiroz

 

.”A queda de Adão levou Deus, segundo alguns filósofos, a criar a hebdómada fora do pleroma e assim passou a haver três mundos, uma vez que o inferno de Lúcifer já existia no kenoma. O templo cristão na idade média foi construído segundo o princípio das correspondências microcosmo-macrocosmo, que exprime a lei dialética do uno. Solve e coagula, divisa dos alquimistas, tal como o fluxo e refluxo da onda ou o par dogmatismo-cepticismo podem ser classificados de acordo com o dualismo Yang-Yin

 

1) Explique, concretamente este texto.

2) Relacione, justificando:

A) As quatro fases do processo alquímico e respectivas aves- símbolos, por um lado, e os quatro arkês segundo Pitágoras de Samos, por outro lado.

B) O imperativo categórico em Kant e o princípio moral do utilitarismo de Stuart Mill.

3) Enuncie a lei dialética da contradição principal e aplique-a a três ou quatro esferas (sefirós) da Árvore da Vida da Cabala judaica.

 

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE ESCRITO (COTADO PARA 20 VALORES)

1) A queda de Adão, que a bíblia apresenta como resultado de ter provado a maçã da árvore do conhecimento, consiste na perda do seu corpo glorioso, metade masculino metade feminino (Sofia, a sua parte feminina), que atravessaria as pedras e a matéria em geral: Deus tê-lo-ia expulsado do Paraíso Terrestre, na periferia do Pleroma ou mundo da Luz divina. Para evitar que Adão caísse no inferno de Lúcifer, no Kenoma ou mundo do Vazio, das trevas da matéria, Deus - ou segundo alguns; o demiurgo, um deus inferior - criou um mundo material com sete esferas planetárias, chamado Hebdómada  (a de Mercúrio, a de Vénus, a do Sol, a de Marte, a de Júpiter e a de Saturno) em redor da Terra onde ficou a viver Adão com a sua nova companheira, Eva, sujeitos às leis da matéria, da doemça e do envelhacimento e morte.  Ficou pois a haver três mundos: o Pleroma divino, a Hebdómada com a Terra no centro, e o Inferno de Lúcifer (VALE TRÊS VALORES).O templo cristão da idade média obedecia ao princípio hermético das correspondências «o que está em baixo é como o que está em cima, o microcosmo espelha o macrocosmo»: o templo é um microcosmo que espelha o macrocosmo, o corpo gigantesco de Cristo que atravessa o universo. Na planta da catedral, a  abside corresponde à cabeça de Cristo, o transepto aos braços abertos, o altar ao coração, as naves ao tronco e pernas. A catedral tinha a abside virada a Leste, onde nasce o Sol, símbolo de Cristo. A lei do uno diz que tudo se relaciona: Cristo com o Sol e com o templo em pedra, por exemplo. Outra expressão deste princípio é a correspondência entre a catedral e a natureza física envolvente: o altar equivale à montanha sagrada, as colunas às árvores, as abóbadas ao céu, as janelas de vitrais às estrelas e planetas, as paredes aos desfiladeiros, a pia baptismal aos lagos e mares (VALE  TRÊS VALORES). Solve e coagula é a divisa dos alquimistas (químicos metafísicos da antiguidade clássica e da idade média) e quer dizer dizer dissolver o masculino, sólido, o enxofre e coagular o feminino, líquido e gasoso, o mercúrio, a fim de obter o lapis ou pedra filosofal, vermelha. Os dois princípios de que os alquimistas falavam são o princípio masculino, representado pelo enxofre e pelo salitre, sólidos, designado de «homem vermelho» e o princípio feminino, o mercúrio filosófico, líquido e volátil, designado de «mulher branca». No taoísmo, yang significa princípio masculino, dilatação, calor, verão, vermelho, som e yin significa princípio feminino, contração, inverno, azul ou branco, silêncio. Embora o yang corresponda de modo geral ao enxofre e o yin ao mercúrio, a correspondência não é perfeita porque no taoísmo o sólido é o feminino e na alquimia o sólido é o masculino. O dogmatismo é a corrente filosófica que afirma existir certezas, expansão do conhecimento - nesse sentido pode equparar-se ao Yang e ao fluxo da onda - e o cepticismo é a posição filosófica que proclama a dúvida quase sobre tudo, contracção do conhecimento que se reduz ao visível e palpável imediato - neste sentido pode equiparar-se ao Yin e ao refluxo da onda(VALE TRÊS VALORES).

 

2- A) As quatro fases do processo alquímico e respectivas correspondências com a teoria de Pitágoras - esta é uma interpretação entre outras - são:

NIGREDO ou fase negra, da putefração do cadáver. A ave é o corvo. Pode equiparar-se ao ponto que em Pitágoras representava o número um (Do vazio veio um ponto).

ALBEDO ou fase branca, da separação das impurezas.A ave é o cisne. Pode equiparar-se à linha recta que representa o número dois e se forma da separação em dois do ponto, pontos que se vão afastando.

 

CITREDO ou fase amarela e polícroma. A ave é o pavão. Pode equiparar-se ao plano, número três segundo Pitágoras, que se formou quando um ponto se destaca da recta e . É esta multiplicidade, onde existe Sol e Lua, que irá originar o lapis da última fase.

 RUBEDO ou fase vermelha na qual se produz o lápis ou elixir da longa vida ou pedra filosofal que permite ao homem regressar ao estado adâmico, adquirir um corpo andrógino que atravessaria as pedras e a matéria densa e viveria no Paraíso Terrestre. A ave é o pelicano ou a fénix. Pode equiparar-se ao tetraedro ou pirâmide de três lados, porque este sólido é o mais completo dos arkhês.  (VALE QUATRO VALORES)

 

2-B) O imperativo categórico é a verdadeira lei moral em Kant, é formado na razão ou eu numénico, que se opõe aos instintos corporais e ao eu fenoménico ou inferior. Enuncia-se assim: «Age de modo a transformares a tua máxima em princípio universal, como se fosse uma lei universal da natureza que não beneficia em particular ninguém, nem sequer a ti mesmo». Este imperativo é formal e autónomo, varia de pessoa a pessoa no seu conteúdo concreto.

O princípio moral de Stuart Mill é o da maximização social do prazer: é bem promover a felicidade da maioria dos envolvidos numa situação, mesmo à custa da infelicidade da maioria ou do próprio autor da acção.

Teoricamente,  é imoral, na doutrina de Kant, expropriar 20 famílias que vivem em casas de um bairro que a câmara municipal da cidade quer destruir para aí fazer uma circular rodoviária exterior para satisfazer 20 000 famílias que vivem nessa cidade porque cada pessoa é um fim em si mesma e deve-se aplicar a todas a mesma lei. Mas segundo a ética de Stuart Mill seria legítimo destruir esse bairro porque o interesse da maioria (20 000 famílias) se sobrepõe ao interesse da maioria (20 famílias). Ainda que se classifique habitualmente a moral de Kant como «deontológica», centrada no dever («déon») e a de Mill como «teleológica», centrada nos resultados da acção, a verdade é que esta última é igualmente «deontológica» porque para Mill os fins não justificam qualquer meio, há princípios morais a respeitar. (VALE QUATRO VALORES)

 

C) A lei dialética da contradição principal consiste em reduzir um conjunto de contradições a uma só composta por dois blocos. Exemplo: na 2ª Guerra Mundial, a URSS aliou-se à Inglaterra, aos EUA, ao Canadá, Brasil e formaram o bloco dos Aliados, e a Alemanha aliou-se à Itália e Roménia fascistas e ao Japão formando o bloco do Eixo. A árvore da Vida, cabalística é composta por dez esferas ou sefirós que exprimem as qualidades conhecidas de Deus. A forma da árvore é um hexágono tendo por baixo um triângulo de vértice para baixo e no final, abaixo do triângulo,  uma esfera isolada. Podemos escolher três esferas, duas do lado direito da árvore - a Sabedoria (Hocmah) e a Misericórdia (Chesed) - e uma do lado esquerdo - a Justiça- Severidade (Gueburah).. Neste caso a Justiça, de um lado, opõe-se à Sabedoria e à Misericórdia, do outro. (VALE TRÊS VALORES)

  

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Quinta-feira, 28 de Agosto de 2014
Cuestionar a Hessen: ¿Subjetivismo, pragmatismo y relativismo son escepticismo?

 En su célebre tratado «Teoría del conocimiento» el filósofo alemán J. Hessen plantea las corrientes de gnoseología bajo cierta confusión. Escribió:

 

«El subjetivismo, el relativismo y el pragmatismo son, en el fondo escepticismo. La antítesis de éste es, como hemos visto, el dogmatismo. Pero hay una tercera posición, que resolvería la antítesis en una síntesis. Esta posición intermedia entre el dogmatismo y un escepticismo se llama el criticismo (...) El criticismo comparte con el dogmatismo la fundamental confianza en la razón humana. El criticismo está convencido de que es posible el conocimiento, de que hay una verdad.» (J.Hessen, Teoría del conocimiento, Espasa Calpe Argentina, Buenos Aires-México, Tercera Edición, 1944, pág. 49; lo destacado en negrito es de mí labor).

 

Nadie consiguió discernir los errores conceptuales de Hessen en este passaje. El subjectivismo, doctrina según la cual la verdad es subjetiva, íntima, propria de un solo indivíduo, variable de persona a persona es un dogmatismo: tiene la certeza de que la verdad se circunscribe a cada persona y no es para nada objetiva, común. Es cierto que el subjetivismo para constituirse empleó el escepticismo - «Tengo dudas de que hay una verdad común y universal sobre lo que sea» - pero se assentó como um dogmatismo. Subjetivismo pertenece al género dogmatismo y no al género escepticismo porque afirma una certeza: la verdad es individualizada, variable según cada persona.

 

En modo similar, relativismo, doctrina según la cual la verdad es relativa, es decir, variable con las clases y grupos sociales, países, épocas, etc., - por ejemplo: «Díos es uno y trino para los cristiano», «Díos es solo uno y único para los musulmánes», «Díos es un espejismo para los ateos», «Díos es varios diosos diferentes para los hindús»- es un dogmatismo flexible, policentrico

 

En modo similar, pragmatismo, doctrina según la cuál la verdad se halla en las cosas visibles y tangibles, empiricamente demostrables y útiles, despreciando la metafísica y los ideales inalcançables - ejemplo, «soy pragmático, estaba enamorado de una chica locutora de televisión, muy deseada por millones de hombres, pero voy a casarme con la chica de una tienda de mi barrio, mucho más assequible que la locutora que, para mí, es inalcançable»»- es un dogmatismo, a veces combinado con algún escepticismo.

 

Hessen escribe sin la suficiente claridad:

 

« En la cuestión de la possibilidad de conocimiento, el criticismo es la única posición justa. Pero esto no significa que sea preciso admitir la filosofía kantiana. Es menester distinguir entre el criticismo como método y el criticismo como sistema. En Kant el criticismo significa ambas cosas: no sólo el método del que el filósofo se sirve y que se opone al dogmatismo y al escepticismo, sino también el resultado determinado a que llega con la ayuda de ese método.»

(J.Hessen, Teoría del conocimiento, Espasa Calpe Argentina, Buenos Aires-México, Tercera Edición, 1944, pág. 50; lo destacado en negrito es de mí labor).

 

Hessen postula que el criticismo es un  término medio entre dogmatismo y escepticismo. Pero no existe ese intermedio. Dogmatismo es como ser y cepticismo es como no ser, no hay mediación entre los dos: o crees en algp o no te lo crees. Cási todo es dogmatismo: el criticismo de Kant es un dogmatismo, puesto que asegura que el espacio y el tiempo son subjetivos, esto es, formas a priori de la sensibilidad y que el entendimiento se compone de 12 categorías o conceptos puros (unidad, pluralidad, totalidad, realidad, limitación, negación, etc.) y que la razón, sin conocimiento, prescruta el mundo incognoscible de los númenos (Díos, alma, libertad, mundo como totalidad). 

 

Hessen siguió erróneamente a Kant al postular la tríada dogmatismo-escepticismo-criticismo y la tríada racionalismo-empirismo-criticismo. El criticismo no es ninguna tercera posición autónoma, sino una modalidad del dogmatismo: el dogmatismo crítico sostenido por muchos filósofos desde la Antiguedad clásica. Por ejemplo, la teoría de Demócrito de que las cosas se componem de átomos indivisibles e invisibles rodando en el vacío ya era un criticismo, un dogmatismo crítico, un realismo crítico.

 

Kant cometió también una falacia al pretender situar el criticismo entre el racionalismo y el empirismo. Criticismo es idealismo crítico y está, sin duda, en una esfera diferente de la que se basa en la dicotomía racionalismo-idealismo y esta es la esfera gnoseológica. Criticismo/ Idealismo crítico está en la esfera ontológica, del ser, y no meramente en la gnoseológica, del modo de conocer,

 

 

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Quarta-feira, 23 de Abril de 2014
Imprecisões no manual «Ser no Mundo, Filosofia 11ºAno» da Areal (Crítica de Manuais Escolares- LIV)

 

Diversas imprecisões pautam o manual do professor da Areal Editores «Ser no mundo, filosofia 11º ano» de André Leonor e Filipe Ribeiro, com revisão científica de Viriato Soromenho-Marques e Vera Rodrigues, sem embargo de possuir textos de boa qualidade.

 

OS EMPIRISTAS DIZEM QUE A ÚNICA FONTE DE CONHECIMENTO É OS SENTIDOS?

 

Diz o manual da Areal:

 

« Segundo os empiristas, a única fonte do conhecimento são os sentidos. O conhecimento não pode resultar da razão, dado que esta não possui qualquer informação. » (André Leonor, Filipe Ribeiro, «Ser no mundo, filosofia 11º ano», com revisão científica de Viriato Soromenho-Marques e Vera Rodrigues, Areal Editores, pág. 163; o destaque a negrito é de minha autoria).

 

Isto não é, rigorosamente, verdade. Para alguns empiristas, os radicalmente sensualistas ou sensacionistas, anti-intelectualistas, os sentidos são a única fonte de conhecimento. Mas para outros, como David Hume, os sentidos são a principal mas não exclusiva fonte de conhecimento: a razão e a imaginação são também fontes (imateriais) do conhecimento.

 

David Hume escreveu:

 

«Há sete espécies de diferentes de relação filosófica: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. Podem dividir-se estas relações em duas classes: as que dependem inteiramente das ideias que comparamos entre si e as que podem variar sem qualquer mudança de ideias. É da ideia de triângulo que deduzimos a relação de igualdade que existe entre os seus três ângulos e dois rectos; e esta relação é invariável enquanto a nossa ideia permanecer a mesma. As relações de contiguidade e distância entre dois objectos pelo contrário podem variar apenas por uma alteração de lugar, sem qualquer mudança nos objectos ou nas ideias; e o lugar depende de inúmeras circunstâncias diversas, as quais a mente não pode prever. O mesmo se pasa com a identidade e a causação.» (David Hume, Tratado da Natureza Humana, pag 103, Fundação Calouste Gulbenkian; a letra negrito é colocada por mim).

 

Afinal estas relações filosóficas vêm dos sentidos? Ou são construções da razão e da imaginação aplicadas aos dados dos sentidos e simultâneas a estes?  São construções da razão, a posteriori. Não se pode limitar o conhecimento ao dado empírico, segundo Hume e outros empiristas.

O DOGMATISMO SÓ DEFENDE QUE O CONHECIMENTO É POSSÍVEL?

 

Lê-se no manual:

 

«Entende-se por dogmatismo a posição que defende que o conhecimento é possível e que a defesa da sua impossibilidade não faz sentido. Para o dogmático, é evidente que há contacto entre sujeito e objecto e que o conhecimento que temos da realidade corresponde à verdade. Por conseguinte, é também evidente a possibilidade de apreensão da realidade por parte do ser humano. Segundo os defensores do dogmatismo, essa confiança resulta da capacidade racional do ser humano.»(André Leonor, Filipe Ribeiro, «Ser no mundo, filosofia 11º ano», com revisão científica de Viriato Soromenho-Marques e Vera Rodrigues, Areal Editores, pág 154).

 

Há uma flutuação de imprecisão nesta definição de dogmatismo. Este é a teoria das certezas, do conhecimento real, efectivo e não apenas da possibilidade do conhecimento. O probabilismo, uma síntese entre cepticismo e dogmatismo, estabelece que o conhecimento é provável, possível, - e nesse ponto é dogmatismo - mas recusa-se a determiná-lo em concreto - e aqui é cepticismo. Portanto, o probabilismo defende que o conhecimento é possível tal como o dogmatismo. Não é a possibilidade que os distingue já que é comum a ambos.

 

A frase «Segundo os defensores do dogmatismo, essa confiança resulta da capacidade racional do ser humano.» está parcialmente errada. Há empiristas, dogmáticos, que sustentam que essa confiança na verdade do conhecimento resulta da capacidade perceptiva empírica, e não da razão...

 

SÓ HÁ CONHECIMENTO VERDADEIRO? NÃO HÁ CONHECIMENTO VEROSÍMIL?

 

Vejamos agora uma tese da filosofia analítica que o manual defende:

 

«1- Só existe conhecimento se ele for verdadeiro.»

 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, «Ser no mundo, filosofia 11º ano», com revisão científica de Viriato Soromenho-Marques e Vera Rodrigues, Areal Editores, pág 147).

 

Há conhecimento da Bíblia e da ideia de Paraíso nela contida. Ora, o Paraíso é verdadeiro?  É verosímil: pode existir, de facto, embora não possamos jurar que existe. Há conhecimento mentalmente verdadeiro e potencialmente falso na realidade extra-mental. A este conhecimento chama-se verosímil, provável. A teoria da Terra Oca é um conhecimento especulativo, verosímil sobre a existência do reino de Agartha, onde viveria uma civilização de seres humanos, no interior do núcleo do planeta Terra. Não é um conjunto de proposições sem sentido, como diz o positivismo lógico.

 

Os autores do manual tomam a posição do «ou é preto ou é branco, não há tons intermédios, ou o conhecimento é verdadeiro ou não é conhecimento». É uma falácia de falsa dicotomia. Existe o conhecimento verosímil.

 

INDISTINÇÃO ENTRE DOGMATISMO INGÉNUO E DOGMATISMO CRÍTICO

 

Sobre as duas posições extremas quanto à possibilidade de conhecimento lê-se mo manual:

 

«Originariamente, podem ser identificadas duas posições extremas quanto à possibilidade do conhecimento: dogmatismo ingénuo e cepticismo radical.

Os defensores do dogmatismo ingénuo sustentam que o ser humano é capaz de conhecer. Para os defensores do cepticismo radical o conhecimento não é possível. Estas duas posições radicais contrastam com outras posturas mais moderadas. Alguns pensadores acreditam que é possível conhecer uma parte da realidade (por exemplo, os defensores do dogmatismo metafísico) outros acreditam que o conhecimento do mundo é limitado mas que a verdade existe, apesar de não nos ser acessível (posição defendida, por exemplo, pelo cepticismo moderado).»

 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, «Ser no mundo, filosofia 11º ano», com revisão científica de Viriato Soromenho-Marques e Vera Rodrigues, Areal Editores, pág 167).

 

Crítica minha: dogmatismo ingénuo está incompletamente definido ao dizer-se que «os defensores do dogmatismo ingénuo sustentam que o ser humano é capaz de conhecer»  quando a definição correcta é: «o dogmatismo ingénuo sustenta que o ser humano conhece a realidade sem duvidar das aparências». O manual não alude a dogmatismo crítico, que é o contraponto do dogmatismo ingénuo,  mas apresenta a noção vaga de dogmatismo metafísico como sendo esse contraponto. Ora o dogmatismo ingénuo inclui, em regra, o dogmatismo metafísico (Exemplo: creio no Paraíso, no Inferno e creio que a erva é verde e o céu é azul e que o Sol e a Lua se deslocam no céu ao longo do dia») ainda que exista dogmatismo metafísico crítico. Ingénuo não se opõe a metafísico mas sim a não ingénuo, crítico.

 

 

AUSÊNCIA DE DEFINIÇÃO CLARA DO BINÓMIO IDEALISMO-REALISMO 

 

Os tratados ou dicionários de filosofia, nas suas classificações das correntes gnosiológicas, fazem sempre referência,ao binómio realismo-idealismo. Este manual «Ser no mundo, 11º ano» quase omite pura e simplesmente o tema, apesar de ter uma ou outra referência transversal:

 

«Platão representa a forma mais antiga de racionalismo, ainda que normalmente seja conhecido como idealista devido à sua teoria das ideias universais.» (André Leonor, Filipe Ribeiro, ibid pág. 161).

 

Há citações de autores para definir realismo como a seguinte, que aponta o «realismo das ideias» em Platão:  

 

«Herdeiro desta tradição, a primeira concepção de um Russel segundo a qual os objectos e as relações matemáticas têm uma existência real e separada do espírito, é também um realismo (...) Através do realismo exprime-se a ideia segundo a qual o espírito não é Todo-Poderoso, que não pode por si próprio atingir ou conduzir ao verdadeiro, que a verdade se impõe sem que possamos dispor dela...» (VVAA, Dicionário Prático de Filosofia, Terramar, pp. 328-329, citado in «Ser no Mundo, Filosofia 11º», Areal Editores, pág 256).

 

Não se fornece, no entanto, a definição, ou as diversas definições, de idealismo. Isto é uma prova de debilidade teórica de autores e revisores do manual, de não dominarem a ontognosiologia, em particular a distinção entre o idealismo -nas suas várias acepções - e o realismo - nas suas várias acepções. Descartes é idealista ou realista? E David Hume? E Kant?  Apesar de abordarem a doutrina destes filósofos em alguns aspectos, os autores do manual nada dizem sobre o assunto. Presume-se que não sabem classificar como realismo ou idealismo estas doutrinas e os seus diferentes degraus.

 

 

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Terça-feira, 27 de Setembro de 2011
Heidegger: os entes são independentes da experiência mas a verdade não pode provar-se

 

Heidegger escreveu:

«Os entes são independentes da experiência, do saber e dos conceitos que os abrem e definem. » (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 203, Fondo de cultura económica; o negrito é colocado por mim).

 

Na doutrina de Kant, os entes cognoscíveis, isto é, os fenómenos - como por exemplo, árvore, mesa, corpo humano - não são independentes da experiência, nascem e vivem no seio desta, são construção da sujectividade. É o idealismo material de Kant. Mas Heidegger posiciona-se de maneira diferente. Os entes são independentes do conhecer humano. Mas este é barrado por um reposteiro e isso é a fenomenologia.

 

«Um cético não pode ser refutado, como tampouco pode ser "provado" o ser da verdade. O cético, se é facticamente, no modo de negação da verdade, tampouco necessita de ser refutado. Na medida em que é e compreende este seu ser, extinguiu no desespero do suicídio o "ser aí" (Dasein) e com ele a verdade. A verdade e a sua necessidade não podem provar-se, porque o "ser aí" não pode ser para si mesmo "objecto" de prova. Como não se provou que haja "verdades eternas", tampouco se provou que alguma vez tenha havido um céptico real - como crêem no fundo as refutações do ceptismo, apesar da tarefa que se propõem levar a cabo. « (Heidegger, ibid, pag 230).

 

Heidegger assegura que afirmar o ser (caso do dogmático) ou negar o ser (caso do cético) possui, em certo sentido, o mesmo grau de veracidade porque a verdade não se prova, não é objectiva, já que passa pelo crivo do "ser-aí" que é cada homem na sua circunstância. As Torres Gémeas de Nova Iorque, destruídas faticamente por aviões e bombas em 11 de Setembro de 2001, eram entes independentes do saber humano, entes diante dos olhos, mas nunca se saberá se poderiam existir sem haver humanidade, mentes humanas (realismo ontológico) ou se só podem existir indissociavelmente ligadas às mentes humanas (fenomenologia).

 

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Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010
Agnosticismo é o mesmo que cepticismo?

 

 

Agnosticismo é o mesmo que cepticismo? Será quádrupla e não tripla a estrutura geral da realidade? Agnósis significa, em grego, desconhecimento, sem conhecimento. Parece-me que há dois tipos de desconhecimento: o agnosticismo, ou seja, a privação do conhecimento; o cepticismo, ou seja, a negação do conhecimento. Mais uma vez me inspiro em Aristóteles, essa luminária genial da filosofia, que determinou duas vertentes do não ser: a privativa e a negativa. E há dois tipos de conhecimento: o dogmatismo positivo ( por exemplo: «o ser e tal ou tais entes, como o planeta terra, o electromagnetismo, a humanidade existem») e o dogmatismo negativo ( exemplo: «o ser e diversos entes como a Terra,o electromagnetismo e a humanidade não existem)».

 

A privação do conhecimento significa que nem sequer se faz ideia de que existe uma referência, um objecto, uma teoria a conhecer, numa dada área. Vive-se na pura ignorância: não há certeza, nem há dúvida. É a privação. É possível que certas tribos indígenas vivendo secularmente no meio da floresta da Amazónia ignorassem por completo, até ao século XIX ou mesmo até ao século XXI, a existência de outros povos e da civilização industrial mundial. Estariam em estado de agnosticismo puro.

 

Mas se um dos membros da tribo dissesse: «Vi, ao longe, gente estranha, com cor de pele diferente»  surgiria a dúvida, o cepticismo, na mente de alguns dos seus ouvintes. O cepticismo encerra em si algum conhecimento: o conhecimento de uma ideia, hipótese, não confirmada pelos orgãos dos sentidos, a fonte mais segura da verdade. Erram, pois, aqueles que dizem que todo o conhecimento é factivo, isto é, de factos reais, irrecusáveis. O conhecimento de hipóteses, de sonhos não é factivo, indiscutível, mas é conhecimento de algo. Aquele que duvida da existência de entidades extraterrestres conhece a hipótese de estas existirem mas nega à hipótese o transformar-se em certeza (dogma). Usa, pois, o livre arbítrio. Mas o que nunca viu nem ouviu falar de extraterrestres nem lhe ocorreu essa ideia está aquém da dúvida: não chegou sequer ao patamar do cepticismo. Está em absoluto privado do dogma, nesse campo, ao passo que o céptico sente-se vizinho do dogma e conhece o dogma sem o adoptar. Assim, há três posições: agnose (privação do conhecimento), dúvida (negação existencial de um conhecimento) e dogma (afirmação de um conhecimento).

 

  

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Sábado, 20 de Março de 2010
Contra Rorty: A impossibilidade de a linguagem funcionar sem referente, real ou ideal, e a insuficiência do ironismo

 

Richard Rorty proclamou ser necessário renunciar definitivamente «à ideia de correspondência entre as orações e os pensamentos e ver as orações como se estivessem ligadas entre si em vez de com o mundo» (R.Rorty, Philosophy and the Mirror of Nature, Princeton, Pág. 359).

 

Há aqui uma confusão de Rorty: a linguagem é o vestuário, a casa que transporta o pensamento, a pele do pensamento, por assim dizer. Excepto no caso circunstancial de ouvirmos ou lermos um discurso incompreensível numa língua estranha para nós, a linguagem é indissociável do pensamento, suscita, exprime sempre um ou múltiplos pensamentos. Portanto há sempre correspondência entre linguagem e pensamento, nos humanos: a linguagem associa-se sempre ao pensamento mas o inverso nem sempre acontece. Essa correspondência assume formas concretas muito diversas, expressas antes de mais nas línguas de cada povo: por exemplo, em francês, a frase «l ´homme est à la table» é uma expressão linguística equivalente à portuguesa «o homem está à mesa» e à inglesa «the man is at the table» mas nos três casos as palavras diferentes entre si (jogos de linguagem) designam pensamentos similares e uma mesma realidade objectiva exterior.

 

O que Rorty sugere - desfazer a correspondência da linguagem com o pensamento - é absurdo. É possível desfazer a correspondência entre uma dada linguagem e um dado pensamento e o correspondente objecto físico - ou seja, é possível mudar de jogo de linguagem, como no caso da palavra «sujeito» que na filosofia medieval designava,por exemplo, a árvore, a catedral, isto é o objecto exterior a nós e, posteriormente, passou a designar o eu, a entidade interior a mim ou a cada humano - , mas não é possível abolir a correspondência entre a linguagem em geral e o pensamento em geral. A natureza da linguagem humana é ser pensamento e revestimento do pensamento.

 

Ao contrário do que sustentam Rorty e os seguidores da «hermenêutica solidária» que entendem por representacionalismo unicamente a descrição pela linguagem de um mundo exterior objectivo, toda a linguagem é representacionalista - ou de um mundo exterior, biofísico ou social, ou de um mundo interior, psíquico e simbólico, ou de um mundo misto, interior-exterior. Linguagem é representação gráfica, verbal, táctil, mental de um objecto, situação ou qualidade, real ou irreal.

 

O coerentismo - teoria segundo a qual a verdade é não dogmática, absolutamente segura, mas plausível, definindo-se em função da coerência entre si das diversas teses sobre o incerto ou problemático mundo exterior ou interior - de que Rorty participa, desliga a verdade da correspondência com o mundo exterior mas mantém um mundo interior de conceitos e teses, fixas ou mutáveis, onde há altos e baixos relevos da verdade em graus de plausibilidade, isto é, onde a noção de correspondência palavra-ideia-objecto se mantém fora do campo físico real. .Portanto, no coerentismo mantem-se a relação de correspondência entre orações (proposições) e pensamentos que, neste caso, se reportam a objectos ideais.

 

Em Rorty, há o mesmo erro que em Popper: nivelar todas as teorias num pirronismo conjectural o que é correcto apenas como uma precaução, como um método de abordagem livre, a priori, mas não pode ser a posição definitiva. Esta terá de ser o probabilismo - a posição céptica já enunciada na antiguidade grega por Carnéades e que Popper adopta embora o negue formalmente -  ou o dogmatismo. Posicionalmente, ou seja no que respeita à posição definitiva, há teorias integralmente verdadeiras, outras parcialmente verdadeiras, em graus diversos, e outras integralmente falsas.

Metodologicamente - método como caminho para a verdade - a posição de Rorty parece correcta: ela é a ironia de Sócrates, mas não a maiêutica. Não dá à luz nada: é um cepticismo, um ironismo.

Rorty escreveu:

 

«Definirei como ironista todo aquele que cumpra três condições: (1) tem dúvidas radicais e contínuas sobre o vocabulário final que usa porque ficou impressionado com outros vocabulários, vocabulários tidos como finais pela gente ou pelos livros com que se deparou; (2) dá-se conta de que os argumentos expressos no seu actual vocabulário não podem nem reforçar nem dissolver aquelas dúvidas: (3) ao filosofar sobre a sua situação, não crê que o seu vocabulário esteja mais perto da realidade do que outros, nem que esteja em contacto com algo que não seja ela mesma. (…)»

«O ironista, pelo contrário, é um nominalista e um historicista. Pensa que nada tem uma natureza intrínseca, uma essência real e crê, por isso, que a aparição de um termo como “justo” ou “científico” ou “racional” no vocabulário final do presente não é razão para pensar que a investigação socrática sobre a essência da justiça ou sobre a essência da racionalidade levará muito mais além dos jogos de linguagem do próprio tempo. O ironista gasta o seu tempo a preocupar-se com a possibilidade de haver sido iniciado na tribo equivocada e de que lhe tivessem ensinado a jogar o jogo equivocado. (...) Sem embargo, não pode fornecer critério nenhum sobre o que consiste em estar equivocado.» (Richard Rorty, Contingency, Irony and Solildarity, II, 4, Cambridge; a letra negrita é posta por mim).

 

O erro de Rorty, na sua apologia do ironista, é de dupla face: por um lado, consiste em proclamar a impossibilidade de fornecer um critério de verdade sobre as teorias e o mundo, isto é, a impossibilidade de abandonar o cepticismo pirrónico; por outro lado, reside no facto de proclamar a inconvertibilidade mútua entre os vários vocabulários filosóficos. Isso não é verdade: o termo “idealismo” em Kant não corresponde ao termo “idealismo” em Hegel mas é possível explicar cada um deles e convertê-lo num determinado termo do outro vocabulário. Para Kant, por exemplo, a doutrina do «idealismo» de Hegel seria classificada como um «realismo transcendental» de carácter metafísico. Os jogos de linguagem representam apenas o relativismo da linguagem, da relação desta com as essências e coisas que designa, mas não traduzem o "relativismo" dessas essências e coisas.

 

Estas têm uma consistência estável, por assim dizer absoluta, apesar de poderem ser relativizadas, conexionadas de diferentes modos com diferentes coisas ou circunstâncias. Exemplo: embora o peso de um corpo, definido como a força de atracção gravítica que sofre em relação à Terra, varie com a distância do corpo ao centro da Terra, podendo ser nulo quando o corpo se encontra em órbita no espaço (relativismo do peso) a essência "peso" é absoluta, isto é, a definição do que é peso é inalterável (absolutismo ou não relativismo de peso). Em suma: em meu entender, é aceitável ser ironista provisoriamente, numa atitude propedêutica inicial, mas há que passar ao probabilismo  ou ao dogmatismo ao entrar em cada jogo de linguagem porque se descobre uma arquitectura coerente nele.

 

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Sábado, 20 de Fevereiro de 2010
O conceito dúbio de Manuel Maria Carrilho sobre perspectivismo segundo Nietzsche

Manuel Maria Carrilho não entendeu o que Nietzschze definiu como perspectivismo. Escreveu o catedrático português:

 

«O perspectivismo, ao postular a ubiquidade de interpretação, radicaliza de modo inédito e cheio de consequências o papel da linguagem. É que uma posição perspectivista não se traduz só na reivindicação da prioridade da interpretação face à ordem dos factos, mas sobretudo no carácter geral que essa prioridade apresenta e que, portanto, corta o passo ao privilégio de uma qualquer perspectiva particular.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Difusão Cultural, Pág. 92; a letra negrita é posta por mim).

 

 

 

Ora o perspectivismo, segundo Nietzschze, não postula a ubiquidade de interpretação nem tão pouco impede de privilegiar uma perspectiva particular em relação às outras . Quem postula a ubiquidade da interpretação é o holismo, que desemboca no fenomenalismo. A perspectiva é sempre mais ou menos fanática, convicta, porque é fragmento visual da realidade que se toma a si mesma como «visão total» ou «a visão mais credível». O perspectivismo é uma metaética individual: afirma que a pessoa («eu») está certa na sua perspectiva, e que esta é suprema, única. O perspectivismo funda o existencialismo – no sentido kierkgaardiano, como doutrina da liberdade do «eu» – enquanto doutrina de que a verdade é íntima a cada indivíduo e intransponível para outros. Em regra, o perspectivismo é incapaz de, por si mesmo, se colocar em dúvida. Ao fazê-lo, deixa de ser perspectivismo.

 

Que escreveu Nietzschze sobre o tema? ,

 

 

 

«Todos os nossos actos são bem, no fundo, supremamente pessoais, únicos, individuais, incomparáveis, certamente; mas desde que a consciência os traduz na sua língua, deixam de parecer assim...Eis o verdadeiro fenomenalismo, eis o verdadeiro perspectivismo, tal como eu o compreendo: a natureza animal faz com que o mundo de que nos podemos tornar conscientes não passe de um mundo de superfícies e signos, um mundo generalizado, vulgarizado» (Nietzsche, A gaia ciência, Guimarães Editores, Lisboa 1977, pag 251; a letra negrita é posta por mim).

 

  

Este texto é algo difícil de interpretar. Fenomenalismo é o mesmo que perspectivismo? Julgo que o fenomenalismo – a concepção de que não podemos atingir senão os fenómenos, o que nos aparece, sem chegarmos à essência oculta da realidade – é consequência do antiperspectivismo ou correlativo a este, ou seja, é consequência da superação do perspectivismo do indivíduo A resultante do facto de este constatar que há perspectivismos infinitos, B: C,D, E, F, etc. A meu ver, o perspectivismo, enquanto dogmatismo, está no início, é geneticamente anterior ao fenomenalismo, enquanto cepticismo parcial. Não são, pois, o mesmo: o segundo deriva dialecticamente do primeiro.

 

Nietzschze escreveu ainda:

 

 

«374- O nosso novo «infinito»- Até onde vai o carácter perspectivo da existência? Possui ela mesmo outro carácter? Uma existência sem explicação, sem «razão», não se torna precisamente uma «irrisão»? E, por outro lado, não é qualquer existência essencialmente «explicativa»? É isso que não podem decidir, como seria necessário, as análises mais zelosas do intelecto, as mais pacientes e minuciosas introspecções: porque o espírito do homem, no decurso destas análises, não se pode impedir de se ver conforme a sua própria perspectiva e só pode ver de acordo com ela. Só podemos ver com os nossos olhos; é uma curiosidade sem esperança de êxito procurar saber que outras espécies de intelectos e de perspectivas podem existir; se, por exemplo, há seres que sentem passar o tempo ao invés, ou ora em marcha para diante, ou ora em marcha para trás (o que modificará a direcção da vida e inverterá igualmente a concepção da causa e do efeito). Espero, contudo, que estejamos hoje longe da ridícula pretensão de decretar que o nosso cantinho é o único de onde se tem o direito de se possuir uma perspectiva. Muito pelo contrário, o mundo, para nós, voltou a tornar-se infinito, no sentido em que não lhe podemos recusar a possibilidade de se prestar a uma infinidade de interpretações.» (ibid, pag 287; a letra negrita é de minha autoria).

 

 

 

À tolerância ou visão holística relativista expressa na ubiquidade chama Carrilho «perspectivismo». Não é essa, parece-me, a ideia de Nietzshze. O perspectivismo não é a ubiquidade de visões, é a unilateralidade da visão de cada um. A infinidade de interpretações no seu conjunto é o antiperspectivismo, retira convicção e força aos fragmentos: cada interpretação isolada é perspectivismo. A ubiquidade é o antiperspectivismo, um ecletismo, ou melhor, um holismo que nasce em consequência da constatação do perspectivismo como hidra de muitas cabeças, uma em cada homem.  

 

 

 

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