Domingo, 27 de Novembro de 2016
Teste de filosofia do 11º ano de escolaridade (Novembro de 2016)

 

 

 

Além da lógica aristotélica, é abordada neste teste a dialética, lógica do movimento. Muito poucos professores de filosofia conhecem as leis da dialética, que não são mencionadas em nenhum manual de filosofia para o ensino secundário do 10º e 11º anos de escolaridade em Portugal, o que evidencia duas coisas: a ignorância dos autores de manuais nesta matéria; o domínio avassalador nas universidades da filosofia analítica, corrente que, de um modo geral, ignora a dialética e exprime indirectamente a ideologia dos imperialismos norte-americano e britânico no ensino de massas e na cultura mundial, interessados em omitir a metafísica cristã e o debate político com o socialismo reformista, o socialismo marxista, o estalinismo, o anarquismo.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B

25 de Novembro de 2016. Professor: Francisco Queiroz

I

“Alguns médicos são adeptos da vacinação.

Os laboratórios farmacêuticos são adeptos da vacinação.

Os laboratórios farmacêuticos não são médicos.”

1-A) Indique, concretamente, três regras do silogismo formalmente válido que foram infringidas na construção deste silogismo.

1-B) Indique o modo e a figura deste silogismo.

                                                                        II

“Um só caminho nos fica – o Ser é! Existem milhares de sinais de sinais demonstrativos de que o Ser é incriado, imperceptível, perfeito, imóvel, eterno, não sendo lícito afirmar que o Ser foi ou que será, porque é Ser a todo o instante, uno e contínuo…(Parménides de Eleia)

2-A) Explique o que é o Ser segundo Parménides, com base no texto e em outras fontes, e relacione Ser com realismo, idealismo e fenomenologia.

2-B) Diga em que se diferencia a noção de ser em Parménides da noção de ser em Hegel. Justifique

 

3) Relacione, justificando:

 

3-A) Falácia depois de por causa de, falácia da composição e Indução amplificante.

 3.B) Lei do Salto Qualitativo e Três formas de Estado ou Três Mundos na fase da humanidade, em Hegel

3-C) Lógica Formal, Lógica Material e Argumentação.

 

CORREÇÃO DO TESTE COM A COTAÇÃO TOTAL DE 20 VALORES

 

I

A) Três regras infringidas da validade do silogismo acima foram: de duas permissas afirmativas não se pode extrair uma conclusão negativa; nenhum termo pode ter maior extensão na conclusão do que nas premissas (alguns médicos na permissa maior/ nenhuns médicos, na conclusão); o termo médio (adeptos da vacinação ) tem de ser tomado pelo menos uma vez universalmente e está tomado apenas no sentido de «alguns» e não de «todos». (VALE TRÊS VALORES).

 

1-B) O modo do silogismo é IAE, a figura é PP (predicado e predicado refere-se à  posição do termo médio nas premissas) ou 2ª figura.(VALE UM VALOR).

 

2)  A ontologia de Parménides de Eleia diz que a única realidade é o ser, um ente uno, imóvel, imutável, esférico, invisível, imperceptível, eterno, que não foi nem será porque é eternamente o mesmo e diz que «ser e pensar são um e o mesmo». A mudança das cores, o nascimento, o crescimento, o decrescimento e a morte, a sucessão das estações do ano e todas as mudanças são aparências, ainda que o ser possa estar subjacente a elas, escondido atrás delas. A interpretação realista desta  frase «ser e pensar são um e o mesmo». é: o pensamento é idêntico ao ser, é espelho do ser material ( e aqui podemos «ler» o ser como realismo, doutrina que sustenta que o mundo de matéria é real em si mesmo). A interpretação idealista da mesma frase é: o ser é pensamento, nada existe fora da ideia absoluta que é o ser, e o mundo de matéria, com a mudança das estações do ano, o nascimento e a morte não passa de ilusão (idealismo é a teoria que afirma que o mundo material é irreal é como um sonho dentro da minha ou das nossas imensas mentes). A fenomenologia é a doutrina céptica no seu fundo que afirma que a mente humana e a matéria são correlatas não se sabendo se o mundo material existe em si mesmo ou não. (VALE QUATRO VALORES)

 

2-B) Para Parménides, o ser é invisível, imóvel, imutável, exclui as aparências empíricas. Para Hegel, o ser é invisível e visível consoante as épocas, é mutável, inclui as aparências empíricas (o verde das árvores, o calor do sol, etc) e   desdobra-se em três fases, segundo a lei da tríade: fase lógica, Deus sozinho antes de criar o universo o espaço e o tempo (é a tese ou afirmação, o primeiro momento da tríade); fase da natureza, na qual Deus se aliena ou separa de si mesmo ao transformar-se em espaço, tempo, astros, pedras, montanhas, rios, plantas e deixa de pensar (é a antítese ou negação, o segundo momento da tríade); fase da humanidade ou do espírito, em que a ideia absoluta/Deus emerge com a aparição da espécie humana, que é Deus encarnado evoluindo em direção a si mesmo, por sucessivas formas de estado, desde o despótico mundo oriental até ao mundo cristão da Reforma protestante onde todos os homens são livres (é a síntese ou negação da negação) (VALE TRÊS VALORES).

 

3-A) A falácia depois de por causa de é o erro de raciocínio  que atribui uma relação necessária de causa efeito a dois fenómenos vizinhos por acaso (exemplo: «Há 10 dias vi um gato preto e caí da bicicleta, há 5 dias vi outro gato preto e perdi a carteira, ontem vi um gato preto e o meu telemóvel avariou, logo ver gatos pretos dá-me azar). A falácia da composição é aquela que faz uma generalização errónea, passa abusivamente de um ou poucos exemplos para uma conclusão geral (exemplo: «Cristiano Ronaldo é um dos dez melhores futebolistas do mundo, Cristiano é do Real Madrid, logo a equipa do Real inclui os dez melhores futebolistas do mundo») é uma indução precipitada, ao contrário da indução amplificante ou científica que é a generalização, segundo uma lei necessária, de numerosos exemplos empíricos particulares (exemplo: «fizemos milhares de experiências juntando um ácido e uma base e deu sempre um sal, neutro, mais água, logo induzimos que a mistura de um ácido e uma base gera um sal e água»).  O que todas têm em comum é que generalizam, mal ou bem, a partir de um ou alguns casos particulares.  (TRÊS VALORES).

 

3.B) A lei do salto qualitativo postula que a acumulação lenta e gradual em quantidade de um dado aspecto de um fenómeno leva a um salto brusco ou nítido de qualidade nesse fenómeno.O progresso da humanidade na terceira fase do ser, segundo Hegel, exprime-se através de três formas de estado sucessivas- no início, o despotismo oriental, em que só um homem é livre, o imperador de direito divino ou o faraó,  séculos depois o estado greco-romano, em que só alguns homens são livres e servos e escravos não são livres e por último o estado do cristianismo reformado por Lutero em que todos os homens são livres de examinar a Bíblia sem a manipulação do clero católico romano, completado em 1789-1799 pela revolução francesa que implantou a democracia baseada na liberdade, igualdade e fraternidade. 

Dentro de cada fase/estado vai havendo, lentamente, uma mudança quantitativa lenta até que num dado instante se produz um salto grande. Exemplo: na Idade Média, ainda pertencente ao mundo greco-romano sob o domínio do catolicismo na Europa, crescem as heresias que se opõem aqui e ali ao papado romano que não deixa livres os camponeses e outras classes. A reforma de Lutero é o salto brusco de qualidade que cria um centro religioso  oposto a Roma, inaugurando a fase do estado cristão reformado. (VALE QUATRO VALORES). 

 

3-C) Lógica formal é a ciência do pensamento formalmente correcto ou válido, independentemente do seu conteudo concreto. Lógica material é a aplicação da lógica formal à natureza biofísica e às ideias concretas (exemplo: tem lógica material dizer a abelha comeu mel mas não tem lógica informal dizer o mel comeu a abelha). A argumentação ou arte de encadear juízos e raciocínios, com certa dose de subjetividade ou intersubjectividade (ideologia), visando convencer um auditório, implica lógica material e lógica formal. (VALE DOIS VALORES).

 

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Domingo, 29 de Setembro de 2013
Hegel: a matéria é um universal, é lei e não coisa

 

Na sua obra fundamental «Fenomenologia do espírito», Hegel define a matéria como um princípio universal, semi indeterminado. A forma seria então o factor de individualização.  

 

Isto parece opor-se a Aristóteles e a Tomás de Aquino que sustentaram ser a matéria o princípio de individuação, aquilo que deforma, ao aplicar-se à matéria, uma mesma essência ou forma específica (eidos) e cria este e aquele indivíduo singular (Sócrates e Heráclito teriam a mesma essência ou forma específica, que é homem, mas a matéria de cada um deles estabeleceu as singularidades, o nariz achatado de Sócrates diferente do de Heráclito, etc).  Escreveu Hegel:


«E assim também a relação entre ácido e base e o seu movimento mútuo constituem uma lei, na qual estas contraposições se manifestam como corpos. Sem embargo, estas coisas separadas não têm nenhuma realidade; a força que as dissocia não pode impedi-las de entrar de novo em um processo, já que não são senão esta relação. Não podem, como um dente ou uma garra, permanecer para si e mostrar-se de este modo. O facto de que a sua essência consista em passar de um modo imediato a um produto neutro é o que faz do seu ser um ser superado em si ou um universal; e o ácido e a base só possuem verdade como universais. Assim, pois, do mesmo modo que o vidro e a resina podem ser tanto electricidade positiva como negativa, o ácido e a base não se acham vinculados como propriedade a esta ou àquela realidade, mas que cada coisa só é ácida ou básica relativamente; o que parece ser decididamente ácido ou base adquire nas chamadas "sinsomatías" a significação contraposta relativamente a outro. Deste modo, o resultado das experiências  supera os momentos ou as animações como propriedades das coisas determinadas e liberta os predicados dos seus sujeitos. Estes predicados devêm, como de verdade o são, encontrados somente como universais; em razão de esta independência recebem, portanto, o nome de matérias, que não são nem corpos nem propriedades, e há que guardar-se muito, com efeito, de chamar corpos ao oxigénio, etc, à electricidade positiva e negativa, ao calor, etc. »

 

«A matéria, pelo contrário,  não é uma coisa que é, mas o ser como universal ou em modo de conceito. A razão que é ainda instinto estabelece esta atinada diferença sem a consciência de que , ao experimentar a lei em todo o ser sensível supera precisamente, assim, o seu ser somente sensível e de que ao apreender os seus momentos, como matérias, a sua essencialidade converte-se para ela em algo universal e enuncia-se, nesta expressão, como algo sensível não sensível, como um ser incorpóreo e, sem embargo, objectivo».

 

(Hegel,Fenomenología del espíritu, pag 155-156, Fondo de Cultura Económica, México; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Esta é uma grande passagem de Hegel, de grande profundidade, sobre a dialética: o ser das coisas é transitório e aguenta-se ou firma-se no seu contrário, com o qual dá o salto para um novo estado; a matéria não é uma coisa que é mas o ser como universal, dado que é o substrato de todas as transformações ou mudanças de forma de cada ente concreto. .

 

Cada um dos contrários é susceptível de passar ao outro ou a um estado intermédio: o ácido e a base, que são termos relativos, produzem um sal ou neutro. A matéria é lei e não coisa, com a ressalva de que a lei atravessa a coisa, todas as coisas. E a matéria aparece definida em dois planos: como ser universal, sensível (exemplo: o ar que há por toda a parte, a terra que pisamos e cheiramos) e como conceito (exemplo: o ar concebido como mistura de oxigénio, azoto, hidrogénio, gases raros, etc). Como sempre, a dialética do ser e do conceito ou reflexão do ser.

 

É notável ainda a tese de Hegel de que há um instinto da razão que leva esta, por exemplo, a generalizar que todas as pedras caem para a Terra ao serem largadas no ar, uma vez que nos limitamos a fazer esse tipo de experiências 100, 1000 ou 50 000 vezes e a generalização que daí parte é por instinto ou intuição da razão. Assim a indução (amplificante) não é cem por cento lógica, racional, mas tem a sua quota parte de pressentimento, instinto.

 

Karl Popper e Heidegger, entre outros, atacaram a dialética sem a compreender verdadeiramente: nenhum deles possuía a profundidade de Hegel que foi, talvez, o Aristóteles dos nossos dias.

 

Os filósofos analíticos, com as suas divisões intelectualmente imperfeitas - por exemplo, Simon Blackburn com a sua divisão das correntes metaéticas em determinismo duro/ determinismo moderado/ libertismo/ indeterminismo, sem conseguir encaixar o "libertismo" no determinismo nem no indeterminismo... - também se revelaram incapazes de pensar de forma genuinamente dialetica.  Thomas Nagel, Kripke ou Peter Singer não foram nem são capazes da profundidade e da riqueza conceptual de Hegel.

 

 

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Domingo, 5 de Agosto de 2012
Identidade de género, identidade de sexo: a classificação anti dialética em voga

 

Ao classificar o comportamento sexual e a anatomia de cada pessoa usa-se, habitualmente, dois conceitos: identidade de género e identidade de sexo. É uma divisão confusa, "analítica", não dialética. O facto de praticamente ninguèm a pôr em causa mostra bem a pobreza do pensamento racional, filosófico, sociológico, reinante no mundo das universidades e dos grandes media.

 

 

Diz-se, por exemplo: um travesti gay, isto é, um homem que se veste de saias, ligas, se maquilha de modo feminino a fim de ter actos sexuais genitais com homens «é de sexo masculino e de género feminino». Mas como classificar um travesti/ crossdresser não gay, como o realizador de cinema norte-americano Edward Wood Junior (10 de Outubro de 1924- 10 de Dezembro de 1978) que vestia saias e sutiã porque isso o excitava (fetichismo, auto-erotismo) e tinha por objecto sexual exclusivo as mulheres? Segundo a classificação em voga, Edward Wood Jr seria de sexo masculino e género feminino. É uma caracterização confusa: isso em nada o distingue do travesti ou do crossdresser (termos homólogos) gay que recebem a mesma qualificação. Tem que haver uma classificação melhor que distinga o travesti Edward Wood, heterossexual, de  qualquer travesti, ocasional ou não, homossexual ou bissexual.

 

Usando o pensamento dialético que hierarquiza géneros e espécies num duplo sentido vertical e horizontal - as universidades portuguesas, brasileiras e britânicas  não possuem nenhum grande especialista em dialética, ao contrário deste imodesto blog - encontramos três patamares de "ser-essência":

 

A) O mais elevado é sexo anatómico, isto é, masculino, feminino e hermafrodita. É um universal supra-genérico.

B) O intermédio, logo abaixo, é género - heterossexual , homossexual, bissexual - definível com base no comportamento físico-sexual e social.

C) O inferior é espécie, uma divisão do género, que o particulariza, e temos então seis espécies: "normal" (não travesti) heterossexual e travesti heterossexual (Edward Wood Júnior por exemplo) são as espécies do género heterossexual; "normal" (não travesti) bissexual e travesti bissexual são as espécies do género bissexual; "normal" homossexual e travesti homossexual são as espécies do género homossexual.

 

As espécies são construídas a partir da interseção dos géneros homossexual, heterossexual e bissexual com os géneros travesti e não travesti, ou seja, vestido segundo o padrão "normal". Assim um travesti gay é de sexo masculino, género homossexual, e espécie travesti homossexual ao passo que Edward Wood Júnior é (era) de sexo masculino, género heterossexual e espécie travesti heterossexual.

 

É evidente que há problemas metafísico-psicanalíticos difíceis de resolver. Há quem defenda que as mulheres em geral, ao usarem calças e certo tipo de camisolas, são travestis, ao menos parcelarmente, porque as calças seriam vestuário masculino típico. Se se aceitar esta classificação, a espécie travestismo (heterossexual) aumenta em mais de um bilião de pessoas e  fica, talvez, a ser a espécie mais numerosa no seio do género heterossexual.

 

Repito: falar de género masculino e de género feminino e não de género heterossexual, homossexual e bissexual é lançar a confusão e não discernir até onde é possível discernir, pois masculino e feminino são supra-géneros, originariamente expressos na anatomia e só secundariamente expressos no comportamento sexual (género) e no tipo de vestuário mais comportamento (espécie).

 

Para clarificar toda esta complexidade, cada pessoa deve ser caracterizada em 3 níveis : 1) Sexo biológico (masculino: dispõe de pénis; feminino dispõe de vagina e seios protuberantes); g

2) Género ou atração sexual por (tipo de comportamento sexual: hetero, homo ou bi).

3) Aparência ( maquilhagem ou não, uso de roupa masculina ou feminina, travestismo e androginia ou não travestismo).

A verdadeira filosofia analítica, dotada de poder de análise real, é a dialética e não essa amálgama de correntes, centrada sobretudo na análise de linguagem, baptizada de "filosofia analítica" de que Wittgenstein, Russel, Blackburn, Quine, Rawls e outros foram expoentes.

 

Nós, os dialéticos  que cremos na predestinação absoluta inscrita no Zodíaco, somos melhores que vocês, seres impensantes que dominais as cátedras universitárias, os congressos de professores de filosofia, as editoras e os grandes media, e vos intitulais "filósofos" e "arautos da racionalidade"! Os vossos doutoramentos nada ou quase nada valem, são máscaras, títulos de nobreza comprados no seio do vosso grupo social. Sobrevalorizam injustamente, não espelham, verdadeiramente, o nível intelectual, mediano, a que conseguis elevar-vos, que é o vosso.

 

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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012
Questionar Kant,: por que razão a categoria de causa-efeito não está no mesmo grupo que a de necessidade-contingência?

 

Kant definiu, de modo  imperfeito,doze categorias ou conceitos puros do entendimento que permitem moldar e pensar os fenómenos. Como categorias da  relação colocou:

 

Inerência e subsistência

(substantia et accidens)

 

Causalidade e dependência

(causa e efeito)

 

Comunidade

(acção recíproca entre

o agente e o paciente)
 

(Kant, Crítica da Razão Pura, página 111, Fundação Calouste Gulbenkian).

 

E como categorias da modalidade Kant definiu as seguintes:

 

Possibilidade-Impossibilidade

Existência - Não-existência

Necessidade-Contingência.

 

Por que razão sendo a necessidade a lei de causa-efeito uniforme e infalível não figura nas categorias da relação, junto da causa-efeito, mas sim nas da modalidade? A causa-efeito é género e a necessidade - as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos nas mesmas circunstâncias - é uma sua espécie. Outra espécie deste género causa-efeito é a contingencialismo ou indeterminismo - nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas não produzem sempre os mesmos efeitos.

 

Era pois mais lógico que Kant tivesse enunciado umas categorias da regularidade ou da causalidade que seriam:

 

Causa-efeito.

Causa-efeito uniforme e infalível (necessidade),

Causa-efeito falível (contingência).

 

Kant não possuía um pensamento completamente dialético em matéria de categorias do entendimento que permitisse arrumar estas de forma perfeitamente racional..  

 

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Quarta-feira, 15 de Junho de 2011
O ser, como género supremo, engloba o nada

 

Qual é o género supremo de todos? É o ser. O ser,  na sua máxima extensão ou abrangência, é nada enquanto essência, ou seja, não é, mas é algo, existe, enquanto existência. Por isso a frase de Hegel «o não-ser, enquanto é este momento imediato igual a si mesmo, é, por seu lado, a mesma coisa que o ser» (Hegel, Lógica I, LXXXVIII) deve ser interpretada com cuidado: ontologicamente, o ser nunca pode ser nada (não-ser absoluto), porque é, existe, mas eidologicamente, o ser pode ser nada na medida em que está vazio de determinações, de qualidades, de essência. O ser contém o nada mas o nada não contém o ser. «Nada» é espécie do género supremo ser. Este divide-se em ser algo determinado ou ser «quê» (essência) e nada (privação de essência). Pode pois dizer-se que o nada é ou existe, seja no plano físico ou, ao menos, no plano das ideias, do imaginário. O nada é espécie do género supremo ser-existência pura.

 

A frase de Parménides «o Ser é, o não ser não é» aplica-se, com propriedade, ao ser indeterminado, ao existir puro, porque este paira acima de todos os géneros e espécies e engloba-os a todos. Só o ser puro, sem conteúdo definido, engloba tudo e assim impede a existência do não-ser extrínseco a ele. Há aqui um princípio do segundo excluído: tudo se inclui no ser, não há alternativa a este. A dialéctica está mais alta do que a lógica porque é a síntese absoluta e holística. O mais importante na dialéctica não é a sequência temporal tese-antítese- síntese - este é um dos seus modos possíveis - mas a sequência ontológica síntese-antítese-tese, ou seja, o uno divide-se em dois princípios contrários. É a oposição e não a superação o traço mais relevante da dialéctica. As leis do uno e da luta de contrários são ontologicamente anteriores à lei da tríade formulada por Hegel. O método dialéctico não se reduz à visão hegeliana. Nem implica que a tese surja antes da antítese como postula Hegel: surgem ambas ao mesmo tempo, em sincronia. A lei da tríade hegeliana não é uma lei universal única: a vida revela que muitas vezes a tese não vai directamente à antítese mas sim indirectamente através da mediação, de um intermédio. Na tríade platónica, que é, de certo modo, o seu inverso, os contrários surgidos ao mesmo tempo - tríade sincrónica, ao contrário da de Hegel que é diacrónica- geram em simultâneo o intermédio, a síntese.

 

Parménides confundiu o ser-existir com o ser-essência e aqui começou o pântano da confusão na ontologia tradicional. O ser-existência não é finito, como sustentou Parménides, nem infinito, mas ambas as coisas; não é eterno, como postulou Parménides, nem efémero, mas ambas as coisas; não é homogéneo, como Parménides quis, nem heterogéneo mas ambas as coisas; não é imóvel nem móvel, mas ambas as coisas; não é exclusivamente perceptível nem exclusivamente imperceptível, mas ambas as coisas .

 

Quando Parménides escreveu: «Um só caminho nos fica - o Ser é! Existem míriades de sinais de que o Ser é incriado, imperceptível, perfeito, imóvel e eterno, não sendo lícito afirmar que o Ser foi, ou que será, porque é Ser a todo o instante, uno e contínuo. (...) Havendo um extremo limite, o Ser é perfeito, parece uma esfera perfeita, equilibrada» operou a transformação do ser-existência num ser-essência eterno, um cosmos fechado, que possui o duplo carácter de essência e de existência. Ser-existir não implica a eternidade e, ao  contrário, ser-essência - uma esfera que permanece imóvel por muito tempo, por exemplo - induz, através da temporalidade, a ideia do eterno como componente do ser-existir. Ora, isto é um equívoco.

 

 

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Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010
A liberdade social pode aumentar incessantemente?

Será possível aumentar indefinidamente a quantidade de liberdade existente numa dada sociedade nacional e no mundo inteiro? Esse é um problema da economia ontológica. A liberdade real, existente, é diferente da liberdade em potência, teoricamente possível. Os «direitos humanos» à escala universal são uma meta, uma realidade imaginária, não uma realidade física e social, concreta. É como dizia Aristóteles a respeito do infinito: este só existe em potência, não em acto. A dialéctica ensina-nos que «um divide-se em dois»: a liberdade universal divide-se em liberdade das forças ou ideologias tipo A versus liberdade das forças ou ideologias tipo B. Uma vez que os contrários existem em todos os domínios, a liberdade de cada um dos contrários do mesmo par, na medida em que colidem entre si, ver-se-á alterada: cresce para uns e reduz-se para outros.

 

Assim, por exemplo, o alargamento das liberdades para os estudantes, proporcionado pelas leis que regem a escola contemporânea - não poderem ser insultados nem fisicamente agredidos pelos professores nas aulas nem ser expulsos da sala, não serem expulsos do sistema de ensino caso ameacem ou agridam um professor, etc - implica uma diminuição da liberdade dos professores. O aumento das liberdades para a classe capitalista, como por exemplo, o despedimento laboral arbitrário, sem justa causa, dos trabalhadores, implica uma correspondente redução das liberdades destes. A liberdade mundial de comércio e circulação de capitais e pessoas implica, na presente conjuntura, a redução das liberdades e regalias sociais existentes na Europa e a ampliação das liberdades das burguesias ascendentes na China e noutras zonas da Ásia. A liberdade de gangs ou sectores marginais se moverem na periferia ou mesmo no interior das grandes cidades, assaltando pessoas, agredindo e atemorizando moradores, é correlativa da diminuição das liberdades destes, os quais prescindem, muitas vezes, de sair de casa à noite, de criticarem livremente os que os ameaçam, etc.

 

A liberdade mundial parece obedecer à lei da balança: quando um prato sobe, o outro desce. É por isso que a liberdade nunca pode ser vista unilateralmente: como liberdade económica, por exemplo. O liberalismo económico conduz a desigualdades acentuadas e, portanto, à opressão dos pobres, mas a liberdade política universal, traduzida nas revoluções populares que fundem parcialmente  o poder de Estado com o movimento revolucionário de massas, conduz à opressão dos ricos e dos empresários mais criativos.

 

Em termos espirituais e culturais, parece um dado adquirido que a quantidade de liberdade existente no mundo é maior do que a quantidade de liberdade existente no século XVII e no século IV. Mas a liberdade de espírito pode desenvolver-se até certo ponto, em conexão com uma redução das liberdades físicas (o espaço de que se dispõe para viver, os alimentos, o conforto) e político-sociais (a assistência social, o emprego, o direito à greve e ao protesto em geral, etc). Portanto, o problema permanece: pode a liberdade, como  um todo, aumentar indefinidamente no mundo?

 

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Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010
Um equívoco de São Tomás: «tudo o que está na espécie está, como não delimitado, no género»

São Tomás de Aquino não possuía uma visão absolutamente dialéctica das relações género-espécie e espécie-indivíduo:

 

«Pelo contrário tudo o que está na espécie está também, como não delimitado, no género. Portanto, se o animal não fosse tudo o que o homem é, mas apenas uma sua parte, ele não poderia ser-lhe atribuído, pois nenhuma parte que o integre se pode atribuir ao seu todo.» (Tomás de Aquino, O Ente e a Essência, Contraponto, pag 76)»  

 

Ora, não é verdade que tudo o que está na espécie tenha de estar contido no género. Uma espécie integra-se simultaneamente em vários géneros, facto que o Aquinate parece não ter discernido claramente. Por exemplo, a espécie homem integra-se no género animal, juntamente com as espécies paquiderme e ave, mas, diferentemente destas, a espécie homem integra-se no género "ser racional", juntamente com os anjos e outras criaturas de inteligência abstracta. Isto é dialéctica, visão multifacetada e móvel de cada realidade. Portanto a frase do texto do Aquinate acima deve ser rectificada assim: tudo o que está na espécie está também, como não delimitado, repartido pelos diferentes géneros em que essa espécie se encaixa.

 

Do mesmo modo, nem tudo o que está contido no indivíduo está contido na espécie. Por exemplo, a inteligência de seres humanos mongolóides não é comum à espécie humana, não é característica intrínseca desta

 

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