Quarta-feira, 19 de Abril de 2017
O existencialismo hedonista de Osho

Eis algumas das teses fundamentais do filósofo Osho (11 de Dezembro de 1931/ 19 de Janeiro de 1990), um místico libertário que une a mística com uma aguda racionalidade prática, coincidente em larga medida com as visões de Nietzshe e Freud sobre o ser humano. O seu existencialismo é hedonista porque visa desfrutar o prazer da vida aqui  e agora, nomeadamente o prazer da sexualidade livre, rejeitando as religiões em geral, o clero e o seu conteúdo anti sexual e punitivo da humanidade.

 

É IMPOSSÍVEL APERFEIÇOARMO-NOS, ACEITEMO-NOS COMO SOMOS

Osho sustenta ser impossível modificar a nossa essência original. A educação e a censura social que recebemos apenas recalca pulsões primordiais em nós.

 

«Uma das verdades mais duras de reconhecer é que continuamos a ser os mesmos - seja o que for que façamos, continuamos a ser os mesmos. O "aperfeiçoamento" não existe. O ego fica todo desfeito porque vive através do aperfeiçoamento, da ideia do aperfeiçoamento, da ideia de chegar um dia a algum lado.(...)»

«No momento em que se aceita a si próprio, fica aberto, fica vulnerável, fica receptivo. No momento em que se aceita a si próprio, deixa de haver necessidade de qualquer futuro, porque deixa de haver necessidade de aperfeiçoar seja o que for. E então tudo é bom tal como é.»

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pag 105 ).

 

O AMOR É LIVRE, TRAZ A LIBERDADE, NÃO DEVE EXIGIR FIDELIDADE (LEALDADE) NEM CASAMENTO

 

Sendo o amor um sentimento irracional, total, que vem e desaparece sem que se conheçam as leis temporais que o regem, não pode ser cristalizado, aprisionado no casamento. Se o for, morre. O casamento na medida em que é uma argola, um instrumento de posse de outra pessoa rouba a liberdade e ser pessoa é ser livre.

 

«O amor é uma experiência perigosa, porque se é possuído por algo que é maior que você. E que é incontrolável, não o pode produzir por encomenda. Uma vez terminado, não há maneira de o trazer de volta, tudo o que pode fazer é fingir, é ser hipócrita. (...)

«O amor traz a liberdade. A lealdade traz a escravidão. Na aparência, são iguais; no seu âmago, são exactamente o oposto. A lealdade é representar: você foi educado para isso. O amor é rebelde: toda a sua beleza reside na sua rebeldia. Vem como uma brisa cheia de fragâncias, enche-lhe o coração e, de repente, onde havia um deserto, há agora um jardim cheio de flores. E você não sabe de onde vem e não sabe que não existe maneira de o fazer vir; vem sozinho e fica enquanto a existência o quiser.(...)

«O casamento conhece a lealdade, lealdade ao marido e, porque é formal, está nas suas mãos...mas não é nada comparável ao amor, nem sequer é uma gota de orvalho no mar que é o amor»

«Contudo, a sociedade sente-se muito contente com a lealdade porque pode confiar nela. O marido sabe que pode confiar em si, confiar que amanhã lhe será tão leal como hoje. O amor não é de fiar. E o fenómeno mais estranho é que o amor pressupõe confiança, mas não é de fiar. Naquele momento é total, mas o momento seguinte fica em aberto. Poderá crescer dentro de si, mas poderá igualmente evaporar-se de si. O marido quer uma mulher que seja sua escrava para toda a vida. Ele não pode ficar dependente do amor, tem de criar alguma coisa que se pareça com amor, mas fabricado pela mente do homem.» 

 (Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pp 100-101; o destaque a negrito é posto por nós).

 

«As pessoas não podem ser possuídas. Se tentar possuí-las, matá-las-á, elas tornar-se-ão coisas. Uma pessoa significa liberdade. O nosso relacionamento com os outros não é realmente um relacionamento "eu-tu", bem no fundo não passa de um relacionamento "eu-isso". O outro é apenas uma coisa a ser manipulada, a ser usada, a ser explorada. É por isso que o amor se torna cada vez mais impossível, porque o amor significa considerar o outro como uma pessoa, como um ser consciente, como uma forma de liberdade, como uma coisa tão valiosa como nós». (...)

«O marido existe para si próprio, a esposa existe para si própria. Uma pessoa existe para si própria: é isso que significa ser uma pessoa.» 

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pp 136-137; o destaque a negrito é posto por nós).

 

SER VERDADEIRO, AO MENOS COM O SER AMADO, COM A FAMÍLIA E AMIGOS

 

A mentira não compensa, distorce o ser de cada um - salvo raras excepções. claro. Osho disse:

 

«O amor é participação, por isso, pelo menos com os seres amados, não seja falso. Não estou a dizer para ser verdadeiro na praça pública, porque isso criaria problemas desnecessários neste preciso momento. Mas comece com o amante, depois com a família , depois com as pessoas que estão mais afastadas de si. A pouco e pouco aprenderá que ser verdadeiro é tão belo que estará disposto a perder tudo por causa disso.»

 

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pag 66; o destaque a negrito é posto por nós).

 

 

DEUS É O MAIS FRÁGIL E INSTANTÂNEO DE TODOS OS ENTES

Osho fala de Deus um pouco à maneira da gnose cátara em que o Deus da Luz, criador das almas, é impotente para agir sobre a matéria, sobre o mundo de matéria criado por Satã :

 

«Só uma mente poética pode compreender a possibilidade de Deus, porque Deus é o mais fraco e mais sensível dos seres. É por isso que é o altíssimo; é a flor suprema. Floresce, mas floresce apenas numa fração de segundo. Essa fração de segundo é conhecida como "o presente". Se deixa passar esse momento - e esse momento é tão pequeno que tem de estar muito intensamente atento - só então será capaz de o ver, de outro modo passar-lhe-á ao lado.  Está sempre em flor - floresce em cada momento; mas não o pode ver, a sua mente está atravancada com o passado e o futuro»

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pp 121-122; o destaque a negrito é posto por nós).

 

É fácil perceber que Deus, segundo Osho, não é o ente dos castigos e dos mandamentos do Velho e Novo Testamento, do Alcorão, do Bhagavad-Gita, etc. Nem expulsou Adão e Eva do Paraíso nem criou o Inferno porque senão seria maldoso. É o oposto do Deus de Kierkegaard que não se identifica com o estádio estético, com o viver o momento como um Don Juan conquistador de mulheres. O deus de Osho é Deus alegria, que desfaz os casamentos, as relações aborrecidas e põe a liberdade acima do amor.

 

DEIXEMO-NOS SER VULNERÁVEIS, A VIDA É UM FLUIR, NÃO HÁ NADA A ALCANÇAR, A VIDA É DEUS

 

Osho defende que se devem abandonar posturas rígidas que anunciam violência e sobranceria e ser vulneráveis. E viver a vida plenamente, na base da não violência, porque não há nenhum Deus além da natureza viva e da sua beleza (panteísmo).

«Lao Tse diz:

«Quando um homem nasce, é frágil e sensível; quando morre, fica insensível e rígido. Quando as coisas e as plantas estão vivas, são macias e maleáveis; quando estão mortas, são quebradiças e secas. Por conseguinte, a insensibilidade e a rigidez são as companheiras da morte; e a suavidade e a sensibilidade são as companheiras da vida

«Portanto, quando um exército é obstinado, perderá em batalha. Quando uma árvore é dura, será cortada. O grande e o forte pertencem à parte de baixo. O suave e o fraco pertencem à parte de cima.» 

«A vida é um rio, um fluir, uma continuidade sem princípio nem fim. Não vai a lado nenhum, está sempre aqui. Não vai de um lado qualquer a outro lado qualquer, vem sempre daqui para aqui. Para a vida, o único tempo é agora e o único lugar é aqui. Não há uma luta para alcançar, não há nada para alcançar.» (...)

«Pode viver a vida de duas maneiras: pode fluir com ela - e então também você será majestoso, terá uma graça, a graça da não-violência, sem conflito e sem luta. Então terá uma beleza infantil, semelhante à da flor, macia, delicada, incorrupta. Se flui com a vida, você é religioso. É isso que a religião significa para Lao Tsé e para mim».

«Habitualmente, religião significa uma luta com a vida, por Deus. Habitualmente, significa que Deus é a meta e a vida tem de ser negada e combatida. A vida tem de ser sacrificada e Deus tem de ser alcançado. Essa religião habitual não é nenhuma religião. Essa religião habitual é apenas parte da mente inferior, violenta e agressiva

«Não existe Deus para além da vida; a vida é Deus. Se nega a vida, nega Deus, se sacrifica a vida, sacrifica Deus. Em todos os sacrifícios, só Deus é sacrificado. George Gurdjieff costumava dizer - parece um paradoxo, mas é verdade - que todas as religiões são contra Deus. Se a vida é Deus, então negar, renunciar, sacrificar é ir contra Deus.»

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pp 111-112; o destaque a negrito é posto por nós).

 

PARA A EXISTÊNCIA, TUDO É IGUAL, NÃO HÁ SUPERIOR NEM INFERIOR, A VAIDADE É INÚTIL

 

A moral de Osho é naturalista e a sua filosofia, à semelhança do estoicismo de Marco Aurélio, destaca o carácter efémero e rápido da existência: podemos morrer a qualquer instante, a nossa importância familiar, social ou profissional desaparece de um momento para o outro.

 

«A palavra animal não é, em si mesma, má. Significa simplesmente estar vivo; deriva de anima. Qualquer um que esteja vivo é um animal. Mas ensinou-se ao homem: "Não sois animais; os animais estão muito abaixo de vós. Vós sois seres humanos". Deram-lhe uma falsa superioridade. A verdade é que a existência não acredita nem no superior mem no inferior. Para a existência, tudo é igual - as árvores, as aves, os animais, os seres humanos. Na existência, tudo se aceita absolutamente como é, não há condenação.»  

«Se aceitar a sua sexualidade sem quaisquer condições, se aceitar que o homem  e todos os seres que há no mundo são frágeis, porque a vida é um fio muito fino que se pode  quebrar a qualquer instante...Uma vez aceite isto, deixará cair imediatamente todo o falso ego - de ser Alexandre, o Grande, ou Mohamede Ali, o três vezes grande - basta compreender que todas as pessoas são belas na sua banalidade e que todas  as pessoas têm as suas fraquezas, que fazem parte da natureza humana, porque não somos feitos de aço...»                                                                                                         

(Osho, Intimidade, confiar em si próprio e no outro, Pergaminho, Cascais 2002,  pag. 9; o destaque a negrito é posto por nós).

 

 

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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2017
Teste de filosofia do 10º ano (14 de Fevereiro de 2017)

 

 Eis um teste de filosofia do ensino secundário em Portugal, a contra-corrente do modelo simplista da filosofia analítica hegemónico entre os docentes de filosofia. Os conteúdos deste teste de filosofia referentes a alquimia, cabala e princípio das correspondências macrocosmos-microcosmos integram-se na rubrica «Os grandes temas da filosofia» e são relativos a uma visita de estudo ao centro histórico de  Sevilha em que se faz hermenêutica de monumentos antigos e seus pormenores artísticos.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C

14 de Fevereiro de 2017. Professor: Francisco Queiroz

I

“A filosofia da alquimia, que aceita a ideia de Adão Kadmon ser o antepassado dos humanos e as noções de pleroma, kenoma e hebdómada, sustenta a divisa «solve e coagula» e a existência de três princípios/ substâncias do universo material. Na Grande Obra Alquímica, que traduz a lei dialética do devir, há quatro fases correspondendo uma ave a cada uma. O axis mundis dos primitivos implica percepção empírica, conceito empírico e intuição inteligível e liga entre si vários mundos.”

                                                                                                         

  1. Explique, concretamente este texto.

 1) Relacione, justificando:

 A)Seis ou mais esferas da árvore cabalística dos Sefirós, as respectivas qualidades, e planetas, por um lado, e emanacionismo.

 B) Oito direções do espaço, respectivas áreas de vida e elementos ou partes da natureza na filosofia do Feng Shui, por um lado, e lei da contradição principal, por outro lado.

 

C) Vontade autónoma e vontade heterónoma e dois eus na moral de Kant, por um lado, hedonismo em Stuart Mill, por outro lado.

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

 1) A filosofia da alquimia, doutrina esotérica, hermética que sustenta o processo da Grande Obra ou criação laboratorial da pedra filosofal que concederia a imortalidade ao homem, dotando-o de um corpo astral desmaterializado como o mítico Adão Kadmon (metade homem e metade mulher), defende que há três princípios/ substâncias originárias do universo, o enxofre ou homem vermelho (princípio masculino), sólido, o mercúrio filosófico ou mulher branca (princípio feminino), volátil, e o sal, neutro. A divisa «solve e coagula» significa dissolver o enxofre, sólido, e coagular o mercúrio líquido ou gasoso que se esparge pelas esferas celestes de forma a obter o equilíbrio e a pedra filosofal, ou lapis vermelho. O pleroma é o mundo divino, da luz, o mundo dos éons ou dos arquétipos perfeitos, o kenoma é o vazio, das trevas e da matéria exterior ao pleroma, a hebdómada é o mundo das sete esferas planetárias que tem a Terra no centro, criado por Deus ou pelo demiurgo (deus inferior) no seio do kenoma para alojar Adão que, ao sair do Éden atraído por Lúcifer, se materializou e perdeu Sofia, a sua metade espiritual  (VALE QUATRO VALORES).As quatro fases da Grande Obra Alquímica que visa produzir o elixir da longa vida ou pedra filosofal em laboratório são: nigredo, ou fase negra, da putrefação da matéria transformada no laboratório a que corresponde o corvo; albedo, ou fase branca de separação das impurezas, a ave é o cisne; citredo, ou fase multicolor, de alguma dominancia do amarelo limão, a ave é o pavão; rubedo, ou fase vermelha na qual se dá a produção da pedra filosofal cuja ave é a fénix. A lei do uno sustenta que tudo se relaciona e isso exemplifica-se no facto de estas quatro fases da Grande Obra estarem ligadas entre si num processo de continuidade. (VALE TRÊS VALORES). O axis mundis ou eixo do mundo ou pilar cósmico liga, nas cosmologias dos povos primitivos, três mundos, o mundo subterrâneo dos mortos ao mundo terreno dos vivos e este ao céu dos deuses, na vertical do lugar, a partir do umbigo do mundo, que é, muitas vezes, o centro da aldeia ou da cidade. A percepção empírica, isto é, o acto da visão, da audição, do tacto, etc, mostra-nos um pau comprido na vertical ou um pilar de pedra ou uma árvore ou uma montanha, o conceito empírico é a ideia formada com a abstração das percepções empíricas - exemplo: fecho os olhos e penso na árvore como axis mundis - e a intuição inteligível é a ideia metafísica,instantânea - exemplo: «ver» como que num flash o axis mundi lá no alto dos céus a tocar o corpo de um deus» (VALE TRÊS VALORES).

 

2-A) A árvore das Sefirós (Esferas) é o diagrama do universo, segundo a Cabala (ensinamento secreto) judaica, uma «heresia» do judaísmo como religião de massas. Essa árvore de 10 esferas, que são 10 qualidades que emanam de Deus (emanacionismo),  é composta de um triângulo  em cima, onde a presença de Deus é directa, expressa  nas sefirós Kéther- Chokmah- Binah, dois triângulos invertidos debaixo deste, onde já não há a presença directa de Deus mas sim dos arcanjos e dos anjos,  e um ponto isolado no fundo.

                               KÉTHER (Coroa)

                                Planeta: Úrano

                                Esfera nº 1

                                 Cor : Indefinida

 

BINAH:                                               CHOCKMAH

Esfera nº 3                                          Esfera nº 2

Inteligência                                          Sabedoria

Feminina                                              Masculina

Saturno                                                Neptuno

Cor Negra                                           Cor iridescente

 

GUEVURAH                                          CHESED

Esfera nº 5                                             Esfera nº 4

Justiça                                                    Misericórdia

Marte                                                       Júpiter

Cor: Vermelho                                        Cor Azul

 

                                     THIPHERET

                                      Esfera nº 6.

                                      Beleza.

                                      Sol.

                                      Cor: amarelo ouro.

                                      (VALE TRÊS VALORES)

 

 O emanacionismo é a teoria segundo a qual a criação emana, brota como água a jorrar de uma fonte, do princípio único (a bica da fonte) de tal modo que a radiação vai enfraquecendo à medida que se afasta da fonte: o universo é como uma escadaria em direção à matéria pura, muito afastada da fonte que é o espírito. A árvore da Cabala revela isso mesmo: Malkut, o Reino Material, é a última, directamente oposta a Kéther, Coroa, que tem a presença de Deus. (VALE TRÊS VALORES).

 

2) O Feng Shuei é uma filosofia chinesa geocósmica, holística, que sustenta a correspondência entre pontos cardeais (N,S,E,O) e os quatro pontos colaterais (NE,SE, SO, NO), as áreas de vida social e pessoal, alguns animais e cores.

 

NORTE. TERRA.  Tartaruga negra. A profissão, os negócios. Audição. Inverno. Meia noite, velho Yi ( máximo Yin ou máxima escuridão e frio).

NORDESTE. MONTANHA. Área de estudos e vida escolar.

ESTE, TROVÃO. Dragão verde. Crescimento, família. Cor verde. Visão. Nascer do sol. Jovem Yang.

SUDESTE. VENTO, MADEIRA. Dinheiro, riqueza material.

SUL.FOGO. Fénix. Fama. Fala. Cor vermelha. Verão. meio dia, velho Yang (máximo Yang ou máxima luz e calor).

SUDOESTE.TERRA. Sudoeste (ou Centro, segundo algumas interpretações). Serpente. Cor: amarelo. Fim do verão. Casamento, amores.  Sabor. Meio da tarde. Igual proporção de Yang e Yin.

OESTE. ÁGUA., Lago. Oeste. Tigre branco. A criatividade, os filhos. O olfato. Outono. Cor branca. Pôr do sol. Jovem yin (algum frio e humidade). 

NOROESTE.  CÉU. Os protectores, os amigos influentes.

 O princípio das correspondências microcosmo-microcosmo da filosofia hermética sustenta que o que está em baixo é como o que está em cima, há uma analogia entre o microcosmo ou pequeno universo e o macrocosmo ou grande universo. Assim sucede com o FengShuei: por exemplo, o Norte (macrocosmos) corresponde à profissão da pessoa (microcosmos) e à Tartaruga Negra (microcosmos), etc. A lei da contradição principal estabelece que um sistema de múltiplas contradições (em rigor: contrariedades) é redutível a uma só grande contradição, chamada principal, agrupando num dos polos algunas contradiçoes, e no outro as restantes. Assim podemos determinar a seguinte contradição principal: de um lado, o Este e o Sul, ambos Yang, e os respectivos pontos colaterais Sudeste e Sudoeste; do outro lado, o Oeste e o Norte, ambos Yang e os pontos colaterais Nordeste e Noroeste. (VALE TRÊS VALORES)

 

C) A vontade autónoma reside no eu numénico, ou eu racional, na doutrina de Kant, e permite  a cada pessoa universalizar a sua máxima ou princípio subjetivo, agir de acordo com o imperativo categórico que cada um gera no seu eu racional: trata cada ser humano como um fim em si mesmo, alguém digno de respeito, e nunca como um meio para chegares a fins egoístas. . A vontade heterónoma situa-se no eu fenoménico ou eu empírico e é governada por interesses materiais, instintos e paixões contrárias ao eu racional. O hedonismo é a teoria que identifica o prazer com o bem e a dor com o mal, Stuart Mill defende a felicidade para a maioria dos envolvidos numa dada situação e isso não coincide com o imperativo categórico de Kant que contempla todos por igual e não busca necessariamente o prazer.  O princípio moral de Mill tem algo de imperativo hipotético (o prazer) e algo de imperativo categórico (o serviço aos outros). VALE TRÊS VALORES).

 

 

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Sexta-feira, 29 de Julho de 2016
O ateísmo espiritualista de Osho

Osho ou Bhagwan Shree Rajneesh (Kuchwada, Índia 11 de Dezembro de 1931- Puna, Índia, 19 de Janeiro de 1990) filósofo e místico indiano, defende que Deus nunca existiu, que a reencarnação é lei geral da existência, que a sexualidade é a energia libertadora mais poderosa  e que o homem que se apercebe disso e medita racionalmente atinge o estado de um Buda ou iluminado:


 «É absolutamente necessário que Deus esteja morto. Mas eu quero que compreenda o meu ponto de vista. Foi bom Friederich Nietzsche ter declarado que Deus estava morto. Eu declaro que ele nunca nasceu. É uma ficção criada, uma invenção, não uma descoberta (..)
«Eu quero destruir todos os sistemas de crenças, todas as teologias, todas as religiões. (…) A verdadeira medicina não é um sistema de crenças; a verdadeira medicina é a meditação (Osho, A conspiração de Deus, Editora Pergaminho, pp. 50-51).

E acrescenta:

«O padre sabe perfeitamente que Deus não existe. Ele é a única pessoa que o sabe perfeitamente. Mas é a sua profissão; ele vive de explorar as pessoas. Por isso, persiste em afirmar que Deus existe. Deus é o seu negócio. E quando é uma questão de negócio, é uma questão de subsistência. »

«E há milhões de padres, pertencentes a diferentes religiões. Há diferentes tipos de padres em cada país, mas todos eles exploram as pessoas a oferecer-lhes consolo. "Este casamento vai ser ótimo." E todos os casamentos são uma tragédia. Eu nunca vi um casamento que fosse uma comédia. »

«As pessoas só podem ser felizes se não forem casadas- Assim têm uma certa liberdade. É a partir desta liberdade que decidem permanecer juntas, não a partir de um contrato ou negócio qualquer, ou por serem forçadas pela sociedade. Não por causa de nenhuma lei - mas por causa de amor. - estão juntas apenas por amor e quando o amor falha...»

«E tudo falha, lembre-se. É ficção dos poetas que o amor é eterno. Não, o amor que você conhece não é eterno, e o amor que os poetas conhecem não é eterno; desvanece-se. Mantém-se se os amantes não se encontrarem.»

 

(Osho, A conspiração de Deus, Editora Pergaminho, pp. 276-277; o negrito é posto por nós).

 

O CASAMENTO ABERTO OU O FIM DA MONOGAMIA

Osho ataca todas as religiões na medida em que pregam a repressão sexual («Não cometas adultério», «Não penses em outras mulheres ou homens mas apenas no teu cônjugue», «Não vestirá o homem de mulher nem a mulher de homem») fechando as pessoas no casamento monogâmico que traz o sentimento de posse, o ciúme, a raiva no seio do casal.

 

«Se a sociedade fosse governada por gente inteligente - e não por gente que apenas deseja explorar - que procurasse satisfazera sua natureza até ao limite possível, o ciúme não existiria. A esposa compreenderia que, de vez em quando, o seu marido precisasse de outra mulher, "exatamente como eu também preciso de outro homem", E isso é perfeitamente natural. Somos todos seres humanos.»
 «Onde está o mal de mudarmos de parceiro de ténis todos os dias? Há motivos para ciúmes? Claro que não.» (...)

 

«Quando não há ciúme não há raiva (...) Não acha que isso permitirá que a amizade cresça entre duas pessoas?» Um homem que conceda liberdade à sua esposa, uma esposa que conceda liberdade ao seu marido, isso implica a existência de uma grande amizade, de uma grande intimidade.»
 «A mulher pode dizer ao marido como era o outro homem. O marido pode descrever à mulher como eram as coisas com a outra mulher. Não precisam de esconder. A amizade torna possível este tipo de proximidade e intimidade. Porém as sociedades do passado nunca quiseram que isso acontecesse. Queriam que as pessoas vivessem na rotina: unir uma mulher e um homem para sempre é iniciar uma peregrinação em direção ao tédio consumado. Estas pessoas entediadas, sofredoras não podem revoltar-se. Não podem atingir o clímax da inteligência: o tédio não pára de destruir qualquer espécie de possibilidade.» (OSHO, O livro do sexo, Pergaminho, pp. 208-209).

 

Osho critica não só o casamento por interesse material, difundido na Índia, como o sexo animal puro fácil que impera no Ocidente do «amor ivre»:

«O amor confia sempre ou então chega à conclusão de que a confiança não é possível e parte de uma maneira agradável; sem lutas nem conflitos. O sexo cria o ciúme; encontre, descubra o amor. Não faça do sexo a questão principal - porque não o é.»
«A Índia perdeu esssa possibilidade com os casamentos de conveniência; o Ocidente está a perdê-la devido ao "amor livre". »

«A Índia perdeu a capacidade de amar, porque os pais eram muito calculistas e menipuladores. Não permitiam que os seus filhos conhecessem o amor: isso é perigoso, ninguém sabe no que vai resultar. Foram muito espertos e, devido a essa esperteza, a Índia desperdiçou a sua possibilidade de amar.»«No Ocidente, as pessoas estão todas muito revoltadas, são demasiado jovens; não são espertas - são demasiado jovens e acriançadas. Tornaram o sexo uma coisa livre, disponível em todos os cantos e esquinas; não há necessidade de ir muito longe para descobrir o amor, basta gozá-lo e terminar num instante seguinte.»

 

«Através do sexo, o Ocidente está a perder-se; através do casamento, perdeu-se o Oriente. Mas, se estiver alerta, não precisa de ser oriental nem ocidental.» (OSHO, O livro do sexo, pp 236-237; o negrito é colocado por nós)

 

 

A NATUREZA BISSEXUAL DE TODOS OS SERES HUMANOS

 

Osho proclamou a bissexualidade psíquica como natureza de todos os seres humanos. Portanto, há que aceitar a diversidade dos comportamentos sexuais, com toda a liberdade, e rejeitar todas as religiões e os respectivos deuses na medida em que estas reprimem ou condicionam a sexualidade livre e espontânea e castram psiquicamente homens e mulheres.

 

«O Tantra diz que todos os homens e mulheres são bissexuais. Um homem não é simplesmente um homem. Á sua maneira, é também uma mulher. O mesmo se aplica à mulher. No seu íntimo, esconde-se um homem. Donde, todo o indivíduo, homem ou mulher, é bissexual. O oposto está escondido na camada mais profunda.»
 «Na meditação profunda, dá-se um orgasmo sexual - não com alguém exterior a si, mas com o seu pólo interior oposto. É ali que se encontram: o seu lado feminino e o seu lado masculino. Esse encontro é espiritual e não físico. O yin e o yang interpenetram-se» (Osho, O livro do sexo, pág. 213).

 

 

A CONSCIÊNCIA INDIVIDUAL É IMORTAL, DEUS NÃO EXISTE

 

Mas o ateísmo de Osho pressupõe a imortalidade da consciência humana

 

«A morte não destrói nada. Os cinco elementos do corpo são reabsorvidos de volta para a sua origem, e quanto à consciência há duas hipóteses: se não conheceu meditação, irá passar para outro ventre; se conheceu a meditação, se conheceu a sua eternidade, passará para o cosmos e desaparecerá na vastidão da existência. E esse desaparecimento é o momento alto da vida, em que se unifica com a sua origem, em que regressa e desaparece nela. »
«A religião autêntica não precisa de nenhum Deus, não precisa de nenhum padre. Não se esqueça: basta que explore o seu mundo interior.
«Essa exploração é o que eu chamo Zen. Em sânscrito chama-se dhyran; em chinês chama-se ch´an; em japonês chama-se zen. Mas é a mesma palavra. Dirigir-se ao seu interior, alcançar o ponto a partir do qual pode olhar, uma porta que se abre para o cosmos divino. Nesse ponto, você é um buda» (Osho, A conspiração de Deus, Pergaminho, pp. 279-280, o negrito é adicionado por nós).

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Domingo, 25 de Janeiro de 2015
Ambiguidade de Hannah Arendt sobre o «ser»

 

Hannah Arendt (14 de Outubro de 1906- 4 de Dezembro de 1975), judia alemã, discípula de Heidegger, usou, como este, a palavra «ser» com uma certa ambiguidade:

 

«A destruição do conceito antigo de ser só foi levada até ao meio. Kant destruiu a velha identidade do ser e do pensamento e com ele a ideia da harmonia préestabelecida entre o homem e o mundo. O que não destruiu, o que implicitamente preservou, foi o não menos antigo conceito, intimamente ligado à ideia de harmonia do ser preexistente cujas leis, em todos os casos, se impõem aos homens. » (Hannah Arendt, Compreensão política e outros ensaios, Antropos, Outubro de 2001, pág. 52; o destaque a negrito é posto por mim.)

 

Por que razão Kant só "destruiu metade do velho conceito de ser"? A que ser se refere Hannah Arendt: ao mundo material com suas leis? A Deus, espírito primordial? Não esclarece. Ambígua, tal como o seu mestre Martin Heidegger...É este o tipo de discurso habitual dos retóricos que triunfam entre as nuvens da imprecisão no céu institucional da filosofia.

 

A visão germanófila da filosofia, que Heidegger e Hannah Arendt possuíam,  apaga o papel do bispo irlandês George Berkeley, predecessor de Kant, e verdadeiro autor, no século XVII, da revolução idealista que destruiu a exterioridade do ser, entendido como mundo de matéria, face ao pensamento, incluindo-o dentro deste último, reduzindo-o a ideia.

Kant é um imitador de Berkeley que desdenha este, falsificando o seu pensamento.

 

Prossegue H. Arendt:

« Sem dúvida, o homem de Kant tem a possibilidade de determinar os seus actos na base da sua boa vontade; ora esses actos encontram-se, eles próprios, submetidos à lei da causalidade, uma esfera essencialmente estranha ao homem. A partir do momento em que um acto do homem sai da esfera subjectiva, entra na esfera objectiva que é a causalidade, perdendo assim a sua qualidade de liberdade (...)»

«Quando Kant fez do homem o senhor e a medida do homem, rebaixou-o simultaneamente à condição de escravo do Ser. Cada um dos filósofos que se lhe seguiram a partir de Schelling, protestou contra esta degradação. A filosofia moderna ocupa-se ainda hoje com esta humilhação do homem acabado de se emancipar. É como se ainda o homem nunca se tivesse elevado tanto nem caído tão baixo...» (Hannah Arendt, Compreensão política e outros ensaios, Antropos, Outubro de 2001, pág. 93.o destaque a negrito é posto por mim. ) 

 

Há vários erros de Hannah Arendt nestes textos. 

 

Um deles consiste em que a liberdade não se limita à esfera subjectiva, como diz Hannah, mas objectiva-se em acções políticas, económicas, etc., da esfera exterior: um sinal da liberdade, relativa, do povo grego, é a votação de 25 de Janeiro de 2015 que dá a vitória ao Syriza. Portanto, a liberdade entra na lei da causalidade social, exterior, e influi ou retorce esta enquanto lhe for possível.

 

Ao definir a lei da causalidade, como «uma esfera essencialmente estranha ao homem» Hannah Arendt equivoca-se: sendo o homem composto por dois «eu», o numénico e o fenoménico, encontra-se, este último, isto é, o eu corpóreo, físico, sujeito às leis de causalidade da fome, da sede, respiração, sono e vigília. Portanto, a causalidade necessária é inerente ao corpo humano que é parte integrante do homem. Não é estranha ao homem, como sustenta H.Arendt.

 

A afirmação «Quando Kant fez do homem o senhor e a medida do homem, rebaixou-o simultaneamente à condição de escravo do Ser.» é absolutamente ambígua, inconsistente. Que Ser é este? A natureza física? Deus? Ou nem um nem outro, como sustentava o seu mestre Heidegger, sem contudo definir o ser que caracterizava como «o mais próximo e o mais distante»? Arendt não é clara, joga na ambiguidade do termo.

 

Hannah Arendt não passa de uma vulgar filósofa de segunda categoria, ao alcance dos medianos que hoje dominam a quase totalidade das cátedras de filosofia.

 

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Sexta-feira, 10 de Outubro de 2014
Sobre a crítica de Orlando Braga ao taoísmo

 

Orlando Braga, um intelectual monárquico e católico do Porto, um polemista temível, autor de blogs com críticas inteligentes e desassombradas à ideologia da globalização  dos Bilderberg e da Trilateral e ao fascismo bonapartista dos mundialistas, à «apostasia do papa Francisco»,  e a muitos aspectos da vida política e cultural portuguesa, publicou em 6 de Outubro de 2014 o post «Erros do taoísmo» no seu blog espectivas.worldpress.com. Aí escreveu:

 

«.Depois de estudar as religiões (ou as “filosofias místicas orientais”, como está na moda dizer-se em vez de “religiões”) do Oriente, cheguei à conclusão de que o catolicismo é a forma religiosa mais evoluída. Temos, por exemplo, o Taoísmo que está na moda nos meios culturais de certas “elites”. Os conceitos de Yang e Yin partem do princípio de que “os opostos se complementam”, por um lado, e por outro lado de que “os opostos se anulam no Tao”. » (Orlando Braga)

 

Crítica minha: os opostos anulam-se no Tao? Não é verdade. O Tao não se divide em opostos enquanto origem, unidade primordial, princípio metafísico: mas, enquanto movimento «sinusoidal» da natureza divide-se em dois contrários, está composto de oscilações permanentes, de Yang (dilatação, calor, subir, fluxo, espírito) e de Yin (contração, frio, descer, refluxo, matéria), verão (Yang)- inverno (Yin), dia (Yang)-noite (Yin), diástole (Yang)- sístole (Yin), fluxo da onda (Yang)-refluxo da onda (Yin). Os opostos não se anulam, antes geram-se mutuamente no Tao, o que coincide com as doutrinas de Heráclito e Hegel do perpétuo devir como luta de contrários.

 

O TAOÍSMO NEGA A TRANSCENDÊNCIA?

Escreve ainda Orlando:

«Jesus Cristo não negou a existência dos opostos; pelo contrário, chamou-nos à atenção para eles. Mas Ele apelou para a transcendência, para além da imanência: os opostos eram por Ele considerados meios (para algo transcendente) e não fins em si mesmos (como acontece no Taoísmo). » (Orlando Braga)

 

Crítica minha: é um pouco confuso dizer que o taoísmo considera os opostos como fins em si mesmos e que não apela para a transcendência. O taoísmo não nega a transcendência: convida a contemplá-la como zona de obscuridade que é. E neste campo coincide com os cabalistas judaicos que falam do Ein-Sof (o Nada incognoscível) que é a divindade além do Deus revelado (Iavé, Eloim, etc) e com os místicos alemães que falam de Deus e da deidade como mestre Eckhart. No taoísmo, definido como um quietismo místico individualista («dominar o sopro vital pelo espírito é ser forte», escreveu Lao Tse) a alma sobe em direcção ao Tao, a Mãe do universo.

Lao Tse (601-517 a.C), filósofo do taoísmo escreveu:

 

«O Tao que se procura alcançar não é o próprio Tao;

o nome que se lhe quer dar não é o seu nome adequado.»

 «Sem nome, representa a origem do universo;

com um nome, torna-se a mãe de todos os seres.

Pelo não-ser, atinjamos o seu segredo;

pelo ser, abordemos o seu acesso.

Não-Ser e Ser saindo de um fundo único só se diferenciam pelos seus nomes.

Esse fundo único chama-se Obscuridade.

Obscurecer esta obscuridade, eis a porta de toda a maravilha.»  (Lao Tse, Tao Te King, Editorial Estampa, pag 13)

 

Sem os ritos do confucionismo chinês, religião de Estado, o taoísmo preconiza uma ascese que não é pura imanência mas a contemplação metafísica da natureza e o abandono do estudo livresco e da carreira política, a meditação («Aquele que fala não sabe/ aquele que sabe não fala. Cerra a tua abertura/fecha a tua porta/ cega o teu gume/ desata todos os nós/ funde numa só luz todas as luzes - diz Lao Tse) de tal modo que o santo poderia atingir uma "ilha dos bem aventurados" - do mesmo tipo da ilha de Avalon, onde estaria o Santo Graal, na quarta dimensão, como, possivelmente, Orlando Braga acreditará. Isto não é transcendência?

 

A LUZ COMO ONDA NÃO SE OPÕE À LUZ COMO FEIXE DE PARTÍCULAS? OS CONTRÁRIOS NÃO SE COMPLEMENTAM?

 

Escreve ainda Orlando Braga:

 

«Por outro lado, segundo o Cristianismo original, “aquilo que se opõe não se complementa”: dizer que “duas coisas que se opõem se complementam”, é uma contradição em termos. Só se complementam duas coisas que têm afinidades entre si, embora diferentes entre si. “Complementaridade” significa “diferença”, mas não propriamente “oposição”.

Por exemplo, a complementaridade onda / partícula, na física quântica, não significa que a onda se “oponha” à partícula: significa, em vez disso, que são estados diferentes de existência que encontram, na complementaridade, uma forma de ser. E se a existência se resumisse aos opostos (como defende o Taoísmo e Heraclito), não faria sentido a existência dos neutrões do átomo, que não se opõem a nada. » (Orlando Braga, «Erros do taoísmo», espectivas.worldpress.com; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Orlando Braga não intuiu a lei dialética da unidade de contrários: em cada ente ou fenómenos há uma luta de contrários os quais, apesar de se oporem entre si, formam uma unidade (complementaridade).  Aliás, na estrutura da luz, onda opõe-se a partícula: a luz não pode ser onda e partícula sob o mesmo aspecto ao mesmo tempo (princípio da não contradição). O termo opostos em Aristóteles tem uma acepção bastante mais vasta do que a que Orlando Braga lhe dá: contrário, contraditório, relativo e privativo. Aristóteles escreveu:

 

«E se a contradição, e a privação, e a contrariedade e os termos relativos são modos de oposição e o primeiro de eles é a contradição e se na contradição não há termo intermédio, enquanto que pode havê-lo entre os contrários, é evidente que contradição e contrariedade não são o mesmo.» (Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1055 b, 1-5)

 

 O neutrão é um intermédio de protão e electrão e opõe-se a ambos como semi-contrário - noção que já desenvolvi em outros posts deste blog. Há, por conseguinte, intermédios no modo de pensar dialético, o terceiro termo, a síntese existe. Convém esclarecer que um dos princípios do taoísmo é «em todo o Yang, há um pouco de Yin; em todo o Yin há um pouco de Yang» o que, traduzido em exemplos, dá fórmulas inquietantes como : em todo o homem, há um pouco de mulher; em toda a mulher, há um pouco de homem; em toda a bondade, há um pouco de maldade; em toda a maldade, há um pouco de bondade; em toda a democracia, há um pouco de totalitarismo; em todo o totalitarismo, há um pouco de democracia; em toda a monarquia há um pouco de república, em toda a república há um pouco de monarquia.

 

O NÃO-SER É UMA FORMA DO SER?

 Afirma ainda Orlando Braga:

 

«Finalmente, e ao contrário do que defende o Taoísmo, os opostos não se anulam, porque se isso fosse verdade, teríamos que considerar, por exemplo, o Ser e o Não-ser em pé de igualdade de valor, isto é, teríamos que pensar que seria possível, por exemplo, a existência uma oposição entre o Ser e o Não-ser que redundasse na anulação dos dois. Ora, o Não-ser é uma forma de Ser; e por isso não pode haver uma oposição entre dois conceitos sendo que um deles está contido no outro.
O misticismo, em qualquer religião ou doutrina, só tem valor e é credível se partir de um princípio de respeito pela racionalidade e pela lógica. Foi também esse um dos legados que Jesus Cristo nos deixou através, por exemplo, das suas parábolas. » (Orlando Braga; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Crítica minha: o não ser não é uma forma de ser. Já Parménides disse: «O ser é, o não ser não é...». Ser e não ser excluem-se mutuamente. O não existente não é uma forma de existente, pura e  simplesmente está fora do círculo existencial. Quando o taoísmo fala em que o Tao abarca o ser e o não-ser, refere-se a ser e não-ser determinados (ser verão, não-ser verão, etc)  e não a ser em abstracto. Porque ser e não ser, em abstracto, sem determinações, excluem-se em absoluto. Quanto à racionalidade e à lógica do evangelho de Cristo, que Orlando Braga enaltece, parece estar ausente em passagens do evangelho como esta:

 

«Eu vim trazer fogo à Terra, e que quero eu, senão que ele se acenda? Eu, pois, tenho de ser batizado num batismo, e quão grande não é a minha angústia, até que ele se cumpra? Vós cuidais  que eu vim trazer paz à Terra? Não, vos digo eu, mas separação; porque de hoje em diante haverá, numa mesma casa, cinco pessoas divididas, três contra duas e duas contra três. Estarão divididas: o pai contra o filho, e o filho contra seu pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra sua nora, e a nora contra sua sogra. (Lucas, XII: 49-53)

 

O taoísmo é místico em certa vertente, mas muito racional em outra. Se conhecesse o carácter político conservador do taoísmo de Lao Tse, que preconiza uma «ditadura sensata» sobre o povo, dando a este condições económicas dignas, talvez Orlando Braga não minimizasse esta filosofia em que, provavelmente, Salazar se inspirou. E sabe-se que Orlando alinha pela contra-revolução monárquica popular contra os excessos da esquerda e a deriva do centro para a esquerda. Eis o conselho de Lao Tse:

 

«Rejeita a sabedoria e o conhecimento,

o povo tirará cem vezes mais proveito.
 
«Rejeita a bondade e a justiça,
 
o povo voltará à piedade filial e ao amor paternal.
 
Rejeita a indústria e o seu lucro,
 
os ladrões desaparecerão.»
 
«Se estes três preceitos não forem suficientes,
 
ordena o que se segue:
 
«Distingue o simples e abraça o natural,
 
reduz o teu egoísmo
 
e refreia os teus desejos». (Lao Tse, in Tao Te King)

 

 Orlando Braga é prosélito do catolicismo e «de uma penada» liquida ou minimiza, sumariamente, o valor de outras religiões. Compreendo-o: também fui educado no preceito de que «ninguém se salva fora da igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo». Mas, racionalmente, há que estudar as outras religiões sem clubismo, tanto quanto possível. Do cristianismo, só podemos dizer que gerou a democracia contemporânea baseada no sufrágio universal e gerou-a sobretudo pela via do protestantismo,  que contestou a inquisição e o papado romano.

 

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Segunda-feira, 6 de Outubro de 2014
Incoerências de Aristóteles sobre a verdade e o lugar da verdade

Sobre o que é a verdade, Aristóteles escreveu:

«A falsidade e a verdade não se dão, pois, nas coisas (como se o bom fosse verdadeiro, e o mau imediatamente falso) mas sim no pensamento e, tratando-se das coisas simples e do quê-é (tó tí), nem sequer no pensamento.» (...) «E posto que a combinação e a divisão têm lugar no pensamento e não nas coisas, e o que é neste sentido é distinto das coisas que são em sentido primordial (pois o pensamento junta ou separa seja o quê-é de uma coisa, seja a qualidade, seja a quantidade, seja alguma outra determinação sua) o que é no sentido de "é acidentalmente" e "é verdadeiro" há-de deixar-se de lado.»

(Aristóteles, Metafísica, Livro VI, Capítulo VI, 1027 b, 25-30; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Que significa esta tese aristotélica? Que os objectos físicos, em si mesmos, não são verdadeiros nem falsos. Uma planície de sobreiros no Alentejo não é verdadeira nem falsa mas o juízo «Esta planície do Alentejo está recheada de sobreiros» é verdadeira. Isto é, obviamente, errado porque reduz a noção de verdade ao juízo, excluindo dela a intuição sensível (exemplo: planície enquanto a vejo) e a intuição inteligível (exemplo: átomo, mundo de espíritos invisíveis e imperceptíveis).

 

É absurdo dizer que o conceito «Deus» não é verdade nem mentira e que o juízo «Deus existe» é verdadeiro ou falso porque a própria intuição intelectual «Deus» é verdadeira já no plano da imaginação. Dizer que o conceito não é verdadeiro nem falso mas que o juízo, que integra esse e outros conceitos, é verdadeiro ou falso abre a porta à incongruência do pensamento. As coisas ou são verdadeiras ou falsas, não há terceira via: a falsidade é a não verdade, contrapõe-se à verdade como o não-ser ao ser. Não há uma zona neutra entre verdade e erro, como supunham Aristóteles e, no século XX, Bertrand Russel e os adeptos da filosofia analítica anglo-saxónica. A neutralidade expressa no cepticismo ("Não sei se é verdadeiro ou falso que X...") é um modo gnosiológico não um modo ontológico ("As coisas X e Y ou são reais ou irreais..").

 

Aristóteles afasta-se do realismo modal - ou pelo menos reduz o âmbito deste - ao considerar que a combinação e a divisão não existem nas coisas mas apenas no pensamento. Ora, no pôr do sol, há uma combinação de cores - azuis, rosas, laranjas, vermelhos - que se vai alterando a cada momento, uma combinação objectiva, real em si mesma, que está para lá do nosso pensamento.

 

Quando acima refere as "coisas simples" e as "coisas que são em sentido primordial" Aristóteles refere-se, certamente, às formas eternas que Platão designa por Ideias, os arquétipos. Elas existem, pois, fora do pensamento e da realidade física. Como platónico «envergonhado», Aristóteles admite que o quê-é  (exemplo: a forma conceptual de cavalo, de triângulo, de número quatro, etc.) existe mas não nas coisas físicas nem no pensamento - o que equivale a dizer que existe em um mundo objectivo suprafísico ou infrafísico, metafísico, antes de haver coisas físicas. Isto é platonismo, com a diferença de que Aristóteles aboliu o lugar do mundo inteligível acima do céu visível e transferiu-o «para baixo», para lugar nenhum.

 

 

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Sábado, 5 de Outubro de 2013
Reflexões gnósticas cristãs para inquietar os agnósticos

 

 1- O CORPO BELO DE UMA MULHER É UM ÍDOLO - Platão chamava ídolos às imagens- fantasma, sombras de objectos reais colocados atrás dos prisioneiros, que estes viam projectadas na parede da caverna onde estavam presos desde a nascença. Ora, o corpo belo de uma mulher é um ídolo - por que se há-de amar as belas e não as feias? Assim, o acto sexual é uma pura e agradável idolatria. Deus e o tempo vingam-se dessa idolatria: as mulheres outrora belas ganham rugas, engordam, ficam com os seios e a barriga flácidos. Que havemos de amar nelas senão a alma invisível, já que o corpo é corruptível?

 

2- AS MULHERES SÃO TODAS FEIAS, se comparadas com a beleza da Virgem Maria ou Éon Sofia na gnose de Valentim.

 

3- SE UMA ESPOSA IMPEDE O MARIDO DE ORAR À VIRGEM Maria, e se  zanga quando ele vai a uma missa cristã ou entra numa igreja, dizendo «Tu não gostas suficientemente de mim», ele deve divorciar-se. Pois o amor à Virgem é mais importante que o amor à esposa, à namorada, à amante.

 

4- EU APENAS CONSIGO NAMORAR uma mulher jovem e bela que reze permanentemente - não de forma egoísta - e que diga: «Como sou feia em comparação com a vossa beleza, Santa Virgem Maria!» E que não me exija nada fora da visão religiosa e mística.

 

5- OS FILÓSOFOS ANALÍTICOS, POSITIVISTAS LÓGICOS e outros limitam o conhecimento à visão, ao cheiro, à audição e ao tacto e à razão submetida a eles. Por isso dizem: «A Virgem Maria é pura imaginação, não tem sentido sequer supor que existe». Ignoram que o coração é também uma fonte de conhecimento.E como podemos fiar-nos na «racionalidade» destes filósofos, se nem sequer a sua limitada inteligência lhes dá a intuição e a compreensão racional da Astrologia histórico-social, de como os planetas deslizando no Zodíaco controlam por completo os actos humanos e biofísicos na Terra?

 

 6- ORAR E SOBREPOR-SE À AUTOCOMISERAÇÃO - Se orarmos permanentemente a Cristo e à Virgem Maria e desprezarmos o nosso ego sedento de popularidade entre a vasta massa, carícias e luxos, elogios de amigos e familiares, ultrapassaremos os lamentos, a autocomiseração e atingiremos um apreciável patamar de tranquilidade/ felicidade.

 

7- OS MEUS VERDADEIROS AMIGOS possuem sempre um lado traiçoeiro, irónico, ainda que leve. Detecto isso, sem grande esforço. É por isso que só tenho amigos de conveniência, interesseiros, instáveis, excepto, claro, Jesus Cristo e a Virgem Maria que não precisam de mim e por isso amam-me.

 

8- O AMOR DO HOMEM A UMA MULHER é, em regra, uma questão vaginal. O resto é retórica, poesia. ilusão.

 

9- É INCONCILIÁVEL SERVIR A DEUS E AO MUNDO - Se queremos uma vida mundana e feliz, repleta de prazeres e movimento - é a tendência natural de cada um - afastamo-nos de Deus, a grande Escuridão visível que tem dentro a Luz. Se servimos a Deus, apagamo-nos para o mundo social, em certa medida, e fracassamos nalguns campos ou em todos. Não há como resolver isto, a menos que Deus seja o mundo visível, sensível, palpitante de emoções.

 

10- AO ESPÍRITO DE FORNICAÇÃO chamamos amor, AO INTERESSE DE CONVIVER chamamos amizade.

 

11- O AMOR É UM SENTIMENTO GERAL - Não se ama ninguém em particular, a não ser acidentalmente. O universal serve-se do particular mas ab-roga-o, anula-o, quando assim o entende, como diria Hegel. Por isso se amo esta mulher agora poderei a qualquer momento amar outra. Essencialmente, não amo nenhuma das duas, porque são finitas, limitadas e limitam-me.

 

12- DEUS NÃO TEM O PODER TODO SOBRE O MUNDO DA MATÉRIA- Com tantos males e ruindade no mundo, derivados do instinto de sobrevivência de cada um e do deus do Mal (o Diabo), não pode dizer-se que Deus manda na história do mundo nos seus mais ínfimos pormenores. O mal está incluído na Ordem Cósmica. Voltamos pois à tese gnóstica: a tua alma é criação do Deus Superior e do Eón Sofia (a Santa Virgem Maria) e o teu corpo é criação do demiurgo, um deus inferior, que alguns identificam com Iavé e outros com Satã. Ou este não será o demiurgo mas uma entidade inferior e obscura do mundo subterrâneo, os Infernos... Metafísica!

 

13- BELEZA -És bela, jovem, estás a sair ou já saíste da adolescência. Maquilhas-te, produzes-te, vives preocupada com a higiene do corpo e a elegância e exotismo da roupa que usas. E com a alma interior? Lavas esta com bons pensamentos e orações? Ou praticas bullying sobre outras colegas, dizes mal delas, procuras roubar-lhes os namorados, fazes sexo com quem não amas por pura animalidade, fumas charros e estouras gradualmente o teu cérebro são, tomas como ídolos o Justin Bieber, a Madonna, o Marilyn Manson? Que importa a tua beleza exterior se ainda não és bela interiormente?

 

14- FIZESTE AS TUAS ORAÇÕES AO ALTÍSSIMO, HOJE? - Não fizeste? Então que esperas? Podes ser ceifado da vida a qualquer instante, por um acidente interno ou externo. Coloca-te na presença de Deus e fala Lhe. Se tivesses a infelicidade de morrer hoje, arderias anos seguidos no Purgatório, com sofrimentos idênticos aos do Inferno.

 

«Isso é meter medo às pessoas! - dizes - Não aceito esta religião». Mas se o amigo que vai a conduzir o carro que te transporta insiste em acelerar a 140 quilómetros/ hora, não é teu dever meter-lhe medo, dizendo »Olha que podemos sofrer um acidente gravíssimo e morrer ou ficar paraplégicos»? Também tu vais a 140 quilómetros à hora na tua vida - de bar em bar, de bebida em bebida, de charro em charro, de namorada em namorada, de ameaça em ameaça a quem não gostas, de concerto em concerto musical, de negócio menos honesto a negócio menos honesto - e não paras para ver o essencial: a divindade sustenta-nos a cada instante e devemos louvá-La.

 

15- O AMOR E A SENSUALIDADE - Frequentemente o que se chama de amor está contaminado pela sensualidade. Não é amor: é desejo sexual, excitação hormonal, sensação de prazer imediato e cego. As mulheres sabem disso e muitas vezes deixam-se ir na onda... A verdadeira amizade quase não existe neste mundo. Quase nenhum dos meus amigos do facebook é meu amigo... É apenas fachada, um vago interesse de saber algo.

 

16- CADA DIA ESTÁS MAIS PERTO DE ENFRENTAR DEUS e nem te dás conta. A tua dívida em pecados - injúrias sobre os outros, manipulação, silenciamento das capacidades dos que te são superiores na profissão ou no pensar,  exploração, etc - é sustentável? Como vais conseguir pagá-la, se não orares já?

 

17- POR MAIS AMOR QUE FAÇAS SEXUALMENTE BEM EXECUTADO, não conseguirás prender a alma da tua (teu) parceira (o). Por isso, as relações dos casais são instáveis, submetidas à lei da contingência. Mas o Amor de Cristo não é instável: nele não corres risco.

 

18- HÁ UMA CONTRADIÇÃO ENTRE SER SANTO E SER REVOLUCIONÁRIO SOCIAL - Os anarquistas espanhóis, cujos ideais de dignidade humana e igualdade social ainda hoje perfilho em grande parte, queimaram em 1936-1937 centenas de igrejas e capelas e executaram padres e freiras, atitudes anti clericais que abomino. Sou, portanto um atípico simpatizante do anarquismo que reza a Deus e à Virgem Maria, entidades não anárquicas, vértices das hierarquias celestes.

 

Há esta fractura insanável entre ser revolucionário social e ser cristão (gnóstico, católico, protestante, etc). O PCP sempre foi muito mais cuidadoso nas relações com a igreja católica e outras igrejas do que a extrema esquerda trotskista, anarquista, maoísta, guevarista, internacional situacionista. Lembro-me de que esta corrente, em 18 de Junho de 1975, cercou o patriarcado de Lisboa que fechara a Rádio Renascença ocupada pelos trabalhadores revolucionários e entrou em luta, com apedrejamentos, contra o cordão humano de católicos que formou um escudo em redor do edifício do patriarcado.

 

Os comunistas genuínos estão próximos de Cristo mas não rezam nem veneram Cristo em espírito e caem na idolatria dos Lenine, Estaline, Mao Ze Dong, Kim Il Sung, Fidel Castro, falsos deuses de pés de barro. Globalmente, o comunismo ateu é uma  religião «humanista», materialista, assente na veneração divinizadora do «faraó» vermelho, isto é, o líder do «proletariado» e é uma impostura científica: como todo o ateísmo, fecha as aberturas a outros mundos invisíveis, com a agravante de que persegue ou pode perseguir cultos religiosos e metafísicos.

 

O padre Francisco da Cruz (29 de Julho de 1859- 1 de Outubro de 1948) tem, provavelmente, maiores poderes de intercessão junto de Deus do que o líder do PCP Álvaro Cunhal (10 de Novembro de 1913- 13 de Junho de 2005) mas não está excluída a hipótese de Cunhal ser um santo não católico. Na verdade, só por «milagre» o PCP mantém ainda em Portugal uns 12% do eleitorado e bastiões operários e autárquicos importantes, 39 anos após a revolução popular de 1974-1975. Cunhal será um «Santo António vermelho»?

 

19- A PROPÓSITO DA MÚSICA «PANIS ANGELICUS» DE CÉSAR FRANK- O verdadeiro pão dos anjos é, não a hóstia consagrada - esta é-o por reflexo - mas o redondo branco-ouro da alma da pessoa que a vai tomar, com devoção. É um pão interior, supersubstancial, como diziam os cátaros.

 

20- ANTES DE DEITAR PEÇAM AO VOSSO ANJO DA GUARDA que vele por vós, pelos familiares e pela casa. Não costumam fazer isso? Que raio de vida espiritual é a vossa, se não utilizais os poderes reais do invisível mas vedes televisão até às duas da madrugada? A oração é tão eficaz como a faca de cortar a carne ou a batedeira eléctrica. É mesmo mais eficaz do que estes objectos materiais: ela corta e despedaça a «matéria» psíquica do Mal.

 

 

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Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013
Confusões de José Reis sobre ser e ver em Kant, Hegel e Heidegger

No seu livro «Nova Filosofia», publicado em 1990, José Reis, um catedrático de filosofia da universidade de Coimbra, produz um vórtice de confusão sobre o que são ser e ver nas doutrinas de Kant, Hegel, Heidegger e outros filósofos. Aferrando-se ao pressuposto idealista de que o ver do sujeito tem a primazia sobre o ser dos objectos físicos exteriores, Reis revela-se incapaz de perceber, verdadeiramente, o ponto de vista de alguns filósofos consagrados como Kant e Hegel.

 

Uma tese basilar de Reis, de recorte fenomenológico, decalcada de «O ser e o nada» de Sartre, é a de que não há conhecimento.

 

«E agora sim, se não há conhecimento e se, como é óbvio, também não o havia ao princípio, como surgiu ele? Se ao princípio não havia nem sujeito nem objecto, não havia nem o ver de um lado nem o ser para ver do outro, antes só havia o ser já visto (que, por ser já visto, recordemo-lo, dispensa o ver) como surgiram eles? É o problema: o problema da origem do conhecimento, com toda a história subsequente.» (José Reis, Nova Filosofia, pag 169, Edições Afrontamento, Porto).

 

Sustentar que o conhecimento não existe porque não há a dualidade sujeito-objecto é dizer:

A) Que havia ou há o autoconhecimento instintivo,. que não admite dúvida, por intuição.

B) Ou, em alternativa,  que há apenas as coisas, desaparecendo o sujeito. Esta é, explicitamente, a posição de José Reis.

 

É, numa certa interpretação, a tese de Parménides de que «ser e pensar são um e o mesmo», o pensamento é o autoconhecimento do ser. Isto é, no fundo, a tese de Heidegger de que o conhecimento é a desocultação do ser, ser que vive em grande parte dentro do ser-aí ou consciência individual de cada homem. José Reis não parece sublinhar a paternidade heideggeriana desta tese que ele mesmo veicula.

 

Mas enquanto Heidegger mantem como fontes de investigação o passado e o futuro, Reis reduz o ser a uma mera percepção-inteleção actual (nem sequer existe o «eu») e ao respectivo referente visível (as coisas: a casa, o automóvel, etc) no momento presente, suprimindo o «ser para ver», a metafísica, o prescrutar a transcendência ou simplesmente o desconhecido:

 

«O ser é já visto, não só sempre mas também de si mesmo, e, não há, em absoluto, mais ver nenhum. (...) Quando se tiver percebido - justamente através dessa fórmula - que não havendo mais nenhum ser para ver (quer no tempo, quer de si mesmo) também não há mais ver nenhum, será claro que tudo o que há é tão-simplesmente o ser e que podemos, que podemos, que devemos, pura e simplesmente varrer o ver do nosso vocabulário.  Se se quiser, e entretanto, substitua-se o ver por haver; embora nem sempre dê frases particularmente elegantes (sobretudo se se mantèm o sujeito do ver: eu vejo a porta= eu há a porta), poderá ajudar-nos a compreender o que há.

«Não desapareceu tudo portanto. Só desapareceu o para ver e consequentemente o ver, do ser para ver.» (José Reis, Nova filosofia, pag 128, Edições Afrontamento; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Temos, pois, uma ontologia instantaneísta actualista: tudo o que existe está no agora, visível e palpável. Nem Deus cabe nisto. Nem a consciência humana geradora do mundo material, como no idealismo de Berkeley, Kant e outros, subsiste. É o materialismo do instante presente.

 

 

 

UMA INCOMPREENSÃO SOBRE A REVOLUÇÃO KANTIANA NA GNOSIOLOGIA

 

Sobre Kant, José Reis escreveu, após distinguir, sem exemplificar, númenos de fenómenos:

 

«A representação foi pois, historicamente, o grande problema do conhecimento. Já que este último, no seu essencial, isto é, no ver e no ser para ver, é uma impossibilidade que em si nada tem a ver com a representação, poderia sem dúvida chegar-se à sua destruição sem se passar por esta representação. Mas isso é o reino dos possíveis, não é o real; o que é facto é que foi pela representação que tal aconteceu: foi por ela que em Descartes se descobriu o ver e foi por ela que em Kant se descobriu o ser como o absolutamente outro.» (...)

«E então o nosso problema agora é este: onde está a revolução kantiana? Já o dissemos. Em ter descoberto o ser como o absolutamente outro.» (José Reis, Nova Filosofia, páginas 203-204, Edições Afrontamento; o destaque a negrito é posto por mim).

 

 

Tomemos o ser no seu sentido mais plenamente usado em filosofia: essência permanente, principial e eterna. Note-se que Reis fala no "ser" sem o definir claramente. Chama-se a isto vagueza, imprecisão conceptual.

 

 É um erro dizer que «a revolução kantiana consiste em ter descoberto o ser como absolutamente outro». É justamente o inverso que sucedeu: a revolução gnosiológica de Kant consistiu em reduzir o universo das coisas materiais a mera criação da mente humana, a um conjunto de fenómenos (montanhas, mesas, rios, animais, corpos humanos, etc) interiores à vastíssima mente humana. O ser permanente e eterno para Kant é dual: por um lado, é os númenos; e por outro lado, é o espírito de cada homem composto de sensibilidade (onde se formam os fenómenos materiais), de entendimento (onde se formam os conceitos e juízos de base empírica como, por exemplo, o conceito de casa, ou de base matemática a priori, como, por exemplo, o juízo "Dois mais sete é igual a nove") e de razão transcendental (onde se formam as ideias de Deus, liberdade, alma imortal e de outros númenos).

 

Por conseguinte,  Kant descobriu e postulou, na linha do idealista George Berkeley, o homem como inventor e criador, dentro da sua imensa mente, da matéria, do mundo material - idealismo. Logo, o ser para Kant não é absolutamente outro: se exceptuarmos os númenos, o ser para Kant é o sujeito cognoscente em si mesmo, pois não é posto ou criado por Deus, mas é autosubsistente e nele, no seu campo perceptivo chamado sensibilidade, se geram as paisagens urbanas e rurais ou marítimas e os entes visíveis.

 

NA TEORIA DE KANT, O HOMEM CRIA OS FENÓMENOS, NÃO OS RECEBE

 

José Reis supõe erroneamente que, na doutrina de Kant, o homem recebe os fenómenos, como imagem distorcida, dos númenos. Escreve:

 

«A substância, em Kant, não é como ainda em Locke, uma coisa criada por Deus à imagem e semelhança da Sua ideia, uma coisa exterior à ideia que dela tem Deus, mas, ao contrário, há só a ideia. Criar, com efeito, é ver originariamente.  Por isso, a substância pelo seu lado positivo (nós só a pensamos de forma vazia) se chama númeno. E por isso o que nós conhecemos se chama fenómeno, aquilo que nos aparece: nós, ao contrário de Deus, cujo ver cria as coisas, só as recebemos.  Para Deus, não pode haver coisas: aquilo que, aparecendo-lhe, lhe seria transcendente.»(José Reis, Nova Filosofia, pag 201)

 

Ao contrário do que sustenta José Reis, para Kant, não há só a ideia, não há só uma ideia: Deus. Há vários númenos ou ideias reais, objectivas mas incognoscíveis: Deus, almas racionais, liberdade, mundo como um todo. Reis atribui a Kant a tese de que «o ver de Deus cria as coisas». É um erro. Para Kant, que nisto é distinto de Hegel e de Berkeley, Deus não criou as coisas, os céus, os mares, as árvores, os animais, o corpo do homem. Estas coisas são criações do sujeito cognoscente, de cada espírito humano, dotado de formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo),  de fornas a priori do entendimento (categorias e juízos puros),  e de ideias da razão, metafísicas, livres.

Sobre o espaço, por exemplo, Kant sustentou que ele é criação subjectiva do sujeito homem e não de Deus:

 

«a. O espaço não representa qualquer propriedade das coisas em si, nem essas coisas nas suas relações recíprocas; quer dizer que não é nenhuma determinação das coisas inerentes aos próprios objectos e que permaneça mesmo abstraindo de todas as condições subjectivas da intuição. (...)

« b. o espaço não é mais do que a forma de todos os fenómenos dos sentidos externos, isto é, a condição subjectiva da sensibilidade, única que permite a intuição externa.» (Kant, Crítica da Razão Pura, pag 67, Fundação Calouste Gulbenkian)

 

 

Ademais, o texto de Reis acima sofre de incoerência: Deus «cria as coisas ao ver originariamente», mas para Ele, «não há coisas porque lhe seriam transcendentes. 

 

KANT ERA REALISTA?

 

José Reis considera erroneamente Kant um realista:

 

«Significa, em primeiro lugar, que Kant continua um realista, e um realista que não vê nada do problema cartesiano, porque nem a absoluta alteridade do ser (para além da sua simples transcendência) o leva a duvidar da sua existência.» (José Reis, Nova Filosofia, pag. 204, Afrontamento; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Um realista postula que a matéria é exterior aos espíritos humanos e subsistente por si mesma, seja criada por deuses ou não. Kant, que se intitulou «realista empírico» que é o mesmo que «idealista transcendental»,  negou a realidade da matéria em si mesma:

 

«Deve, portanto, haver certamente algo fora de nós a que corresponde esse fenómeno a que chamamos matéria. Porém, na qualidade de fenómeno, não está fora de nós, mas simplesmente em nós, como um pensamento» (Kant, Crítica ds Razão Pura, pagina 362, Fundação Calouste Gulbenkian; o negrito é posto por mim).

 

Kant é idealista: a matéria é como pensamento, isto é mera sensação. Kant duvida do ser material como duvida do ser espiritual transcendente, o númeno. Foi, portanto, mais longe que Descartes. Este colocou a res extensa - a forma espacial, sem cor, nem peso, nem cheiro, nem densidade - fora da mente do sujeito ou res cogitans e, nessa medida ainda figura no campo do realismo, quase idealista, mas Kant colocou dentro da res cogitans a res extensa. Reis é que não percebeu, deveras, a ontognosiologia idealista de Kant.

 

 

HEGEL DESTRUIU O SER ABSOLUTAMENTE OUTRO?

 

José Reis escreveu ainda sobre a doutrina de Hegel:


 

«§ 71  Hegel


 

«E estamos em Hegel. Que levando a sério o ser absolutamente outro de Kant, o destruiu. E o destruiu, sem dúvida, em nome do ver: é porque ele é nada para nós que ele é nada. Mas, precisamente, esse ver é só suposto, não é tematizado e em consequência problematizado. O problema em Hegel, tal como em Kant, é só o da recepção-alteração do ser. É porque esse ser, ao ser recebido em nós, se altera radicalmente, que ele é nada. (...) O ser não se destrói pois porque pura e simplesmente não se vê - o ver nem se tematiza -  mas porque, tendo de ser recebido, é em absoluto alterado. (...)»

 

«Hegel, como pós-kantiano que é, passa pois também completamente ao lado do verdadeiro problema do conhecimento. O seu sistema, por mais monumental que seja, continua a ser um desvio. Se Hegel não se desviasse, se tematizasse o vere prestasse atenção ao que efectivamente se vê (para só nos referirmos ao problema do conhecimento) nem sequer daria o primeiro passo.» (José Reis, Nova Filosofia, pag. 205, Edições Afrontamento; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Há diversos erros capitais neste texto de Reis. Começa por não definir o que é para Hegel, o ser.

 

Ora este termo tem dois sentidos para o grande filósofo alemão: ser-existência que na sua pureza absoluta é igual ao nada, porque apenas é, sem qualidades nenhumas; ser-essência universal ou ideia absoluta em Hegel -ou Eu Absoluto, não humano - que é prévio ao ver humano e se desdobra em três fases, a do ser em si (Deus antes de criar o universo, o espaço e o tempo) , a do ser fora de si (panteísmo: Deus transformado em astros,montanhas, plantas e animais, ou seja, em natureza biofísica) e a do ser para si (panenteísmo: Deus renascido em humanidade que progride em direção à liberdade de espírito. Nada disto José Reis compreendeu.

 

 

A frase «O ser não se destrói pois porque pura e simplesmente não se vê» é uma adulteração do pensamento de Hegel: a humanidade - os antigos aristocratas e escravos  gregos e romanos, os senhores feudais e os servos da Idade Média, os artífices da Renascença, o proletariado moderno - é o ser para si, o ser que volta a si, e é e foi visível e tangível.

 

A frase «(o ser) tendo de ser recebido, é em absoluto alterado» é incompreensível no quadro da doutrina de Hegel. Recebido por quem, se a própria humanidade, o sujeito cognoscente é ser, é uma parte do ser?

 

Hegel escreveu:

«Deus é a Ideia absoluta da razão, não um ser-posto, fantasia, não simplesmente algo de possível; é Ideia necessária não posta por um pensar estranho.

«O conhecimento de Deus é imediato e mediato»  ( Georg Friederich Hegel, Propedêutica Filosófica, pag 235, Edições 70, Lisboa) .

 

«Deus é 1. o ser em todo o ser, simplesmente primeiro e imediato. Este ser é apenas a abstração de toda a determinidade, o indeterminado, o imóvel (Hegel, ibid, pag. 336).

 

«A natureza vegetal é o começo do processo individual ou subjectivo de autoconservação ou efectivamente orgânico que, no entanto, não possui ainda a força plena da unidade individual, porque a planta, a qual é um indivíduo, possui apenas partes que podem, por seu turno, considerar-se como indivíduos independentes.» (Hegel, Propedêutica filosófica, pag 52, Edições 70; o destaque a bold ).

 

Nestes excertos de Hegel há a teoria realista do conhecimento, culminando 1800 anos de história das igrejas cristãs: a natureza vegetal é anterior ao homem, Deus não é uma fantasia, uma possibilidade, é uma realidade anterior aos homens e geradora destes que são incarnação de Deus, na terceira fase. E neste ponto Hegel é radicalmente diferente de Kant visto que este duvida da existência de Deus que rotula de númeno, ser incognoscível. Como pode José Reis dizer que Hegel, que lhe é superior intelectualmente, passou ao lado do verdadeiro problema do conhecimento? Em Hegel, o ser suplanta o ver e este é apenas uma dimensão do ser. Isto é uma ontologia e uma teoria do conhecimento: uma ontognosiologia, a que Hegel chama «idealismo absoluto» mas que, em rigor, é um ideal-realismo.

 

HEIDEGGER QUIS PENSAR O SER COMO NADA OU RECONHECEU O PODER DE O SER NADIFICAR?

 

Sobre Heidegger escreve José Reis :

 

 «Heidegger quis e bem pensar o ser como nada, porque quis pensar o ser antes do ver. E levado por essa evidência que conhecer é ver o que antes não se via, manteve, com uma consciência absolutamente tranquila, apesar de se tratar de um nada, o seu projecto até ao fim». (José Reis, Nova Filosofia, pag. 213; o destaque a negrito é posto por mim ).

 

Não é exacto que Heidegger pensasse o ser como nada. O ser tem uma estrutura, tem regras próprias que impõe ao homem:

 

«O ser é a protecção que guarda o homem em sua essência ex-sistente, de tal maneira, para a sua verdade, que ela instala a ex-sistência na linguagem. É por isso que a linguagem é particularmente a casa do ser e a habitação do ser humano.» (Heidegger, Carta sobre o humanismo, pag. 118, Guimarães & C.ª Editores, Lisboa). 

 

Se o ser é uma protecção do homem não é um nada, obviamente. E se vive na linguagem como sua casa é porque é o conjunto de referentes da linguagem ou, pelo  menos, as regras internas linguísticas. O nadificar ou reduzir a nada, próprio de um momento da dialética, exerce-se no seio do ser mas não é todo o ser. Escreveu Heidegger:

 

 

«O nadificar desdobra o seu ser no ser, e de maneira alguma, no ser aí, na medida em que este ser aí é pensado como a subjectividade do ego cogito(...)

«O nadificar no ser é essência daquilo que eu nomeio o nada. Por isso, porque pensa o ser, o pensar pensa o nada.» (Heidegger, Carta sobre o humanismo, pag. 116-117, Guimarães & C.ª Editores, Lisboa; o destaque a negrito é posto por mim).

 

    

Os grandes filósofos são raros nas cátedras universitárias de hoje. E José Reis não é um grande filósofo, sem embargo de ser uma inteligência acima da média entre os académicos. A grande maioria das cátedras são dominadas por indivíduos medianos, razoavelmente ou mesmo altamente eruditos, mas intelectualmente confusos, em maior ou menor grau, com apreciável poder retórico. Na área da filosofia, pode dizer-se que as universidades são inimigas da grande filosofia, da verdade, pois os absurdos, as deturpações do pensamento original de certos filósofos e os lugares-comuns são frequentes nas teses de doutoramento e nas lições de cátedra.

 

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Segunda-feira, 19 de Março de 2012
Teste de filosofia do 11º ano de escolaridade em Portugal (final do 2º período)

 

Eis um teste de filosofia de 11º ano de escolaridade que trata com substancialidade e razão dialética a temática " O conhecimento e a racionalidade científico-tecnológica".

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja

 

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

 

Março de 2012            Professor: Francisco Queiroz   

 

I

 

«Chamamos a estas faculdades entendimento e razão; esta última, sobretudo, distingue-se propriamente e, sobremodo, de todas as forças empiricamente condicionadas, porque examina os seus objetos segundo ideias, determinando, a partir daí o entendimento ».

 

 (Kant , Crítica da Razão Pura», pag. 471)

 

 

 

1-1) Explique a frase do texto acima.

 

1-2) Explique, segundo a gnosiologia de Kant, o que é e “onde” existe o númeno e onde e como se forma o fenómeno sobreiro.

 

1-3) Explique onde e como se forma o juízo empírico «os sobreiros estão na planície».

 

 

 

II

 

 

2) Relacione, justificando:

 

 

 

A)  Os quatro passos do percurso gnosiológico de Descartes desde a dúvida hiperbólica,  e ser em si e ser para si na teoria de Hegel.

 

B) Anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend e conjeturas na ciência em Popper.

 

C) Finalidade dos diversos tipos de movimentos dos entes no cosmos segundo Aristóteles e Vontade em Schopenhauer.

 

D)  Realismo crítico em Descartes e idealismo em David Hume.

 

E)  Verificacionismo/ Corroboracionismo segundo Karl Popper e o positivismo lógico e  causação /necessidade em David Hume.

 

F)  Ciências hermenêuticas/ Ciências empírico-formais, por um lado, e método hipotético-dedutivo, por outro lado.

  

 

 

 CORREÇÃO DO TESTE (COTADO PARA 20 VALORES)

 

 

1-1) A razão é a faculdade das ideias, conceitos metafísicos, incondicionados, e é a faculdade dos princípios: pensa os númenos e a estrutura do entendimento a priori. O entendimento é a faculdade dos conceitos, a priori (exemplo: número dois, unidade) ou a posteriori (exemplo: átomo, cão), e a faculdade dos juízos, puros ou empíricos: pensa os fenómenos mas não sente. O entendimento recebe os dados empíricos da sensibilidade, a razão não. As forças empíricamente condicionadas, isto é, sujeitas a leis da natureza ou do espírito são a sensibilidade com os fenómenos e o entendimento com as suas formas a priori, categorias e juízos puros. Estão, pois fora da razão que é incondicionada, livre. (VALE DOIS VALORES).

 

 

1-2) O númeno, objeto metafísico incognoscível, como Deus e mundo (como totalidade), está, em princípio, fora do espírito humano que se compõe de três níveis essenciais, a sensibilidade, o entendimento e a razão. O fenómeno está dentro da sensibilidade, no espaço ou sentido externo, no caso de fenómenos físicos como árvores, casas, rios. O fenómeno sobreiro forma-se deste modo: do exterior ao espírito, o númeno afeta a sensibilidade e cria nesta um caos de matéria, de intuições, a que o espaço e o tempo, como formas a priori da sensibilidade, vão dar forma e enquadramento temporal e assim surge o sobreiro. (VALE TRÊS VALORES)

 

 

1-3) O juízo empírico "os sobreiros estão na planície"  forma-se no entendimento do seguinte modo: em primeiro lugar, a imaginação reprodutora transporta para o entendimento as intuições empíricas de sobreiro e de planície que são transformadas em conceitos empíricos pelas categorias de unidade, pluralidade, realidade, etc. Estes conceitos acedem à tábua de juízos puros e aqui são unidos em forma de juízo afirmativo «S é P». (VALE DOIS VALORES).

 

 

2-A) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos: 1º Dúvida hiperbólica ( «Duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo uma vez que quando sonho tudo me parece real»); 2º Idealismo solipsista («Penso, logo existo» como mente); 3º Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe); 4º Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, existe fora de mim»). Podemos dizer que o segundo passo («Existe a minha mente») conjugado com o quarto passo («Existe o meu corpo e o mundo físico») formam o ser-para-si da doutrina de Hegel, que significa a humanidade, o homem, que é a Ideia absoluta voltando a si mesma. E o terceiro passo («Existe Deus») significa o ser em si, a Ideia absoluta antes de criar o universo. (VALE TRÊS VALORES).

 

2- B) O realismo crítico em Descartes é a doutrina segundo a qual existe um mundo de matéria real em si mesmo fora das mentes humanas destituído de qualidades secundárias (cores, sons, cheiros, sabores, calor, frio, prazer, dor), consistindo apenas em qualidades primárias ou geométricas. Assim, por as árvores não são duras nem moles, não têm cor, só têm qualidades primárias: figura, matéria impenetrável indeterminada, número, movimento. O idealismo de David Hume vai mais longe do que o idealismo parcelar de Descartes, uma vez que afirma que os objetos materiais são apenas ideias confirmáveis por impressões de sensação, isto é, existem na nossa perceção, mas não necessariamente no mundo exterior cujo conteúdo é incognoscível para nós. Hume insiste, ademais, na impermanência das coisas, no caráter fictício de substância, objeto permanente: é a nossa imaginação que atribui a continuidade a um mesmo objeto em tempos diferentes. (VALE DOIS VALORES)

 

2- C) No mundo sub-lunar de Aristóteles, a finalidade do movimento dos corpos, que nunca é circular, é o regresso à origem do seu constituinte fundamental: assim, a pedra lançada na esfera do ar cai em direção à esfera da Terra, que é a sua origem, porque as pedras integram a terra. No mundo celeste, estrelas e planetas giram em círculos agarrados às suas esferas de cristal com o objetivo de tentar alcançar Deus, o pensamento puro que está fora do universo e funciona como motor imóvel. A vontade em Schopenhauer é a força criadora do universo material e podemos, nesta complexa comparação com o universo de Aristóteles, identificá-la quer com as esferas do mundo sub-lunar, alvos do movimento dos corpos e de certo modo "criadoras" destes movimentos, quer com Deus, que não criou o mundo mas desperta o movimento das esferas celestes. (VALE DOIS VALORES)

 

2-D) O anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend é a teoria segundo a qual o motivo de haver ciências universitárias proeminentes que excluem ciências antigas (medicina natural, astrologia, etc) ou práticas religiosas e mágicas é o interesse egoísta dos "cientistas" e académicos e industriais do setor em auferirem de prestígio e grandes financiamentos por parte dos Estados e a visão filosófica deficiente desses cientistas e académicos. Assim, o anarquismo de Feyerabend defende a pluralidade de métodos e a improvisação ad hoc de novos métodos e exige que todas as ciências e rituais não científicos de comprovada utilidade sejam postos em plano de igualdade e sujeitas a testes, a controlos, que eliminem a ideologia dominante. Popper, por sua vez, reconhece que todas as ciências de base empírica são conjuntos de conjeturas ou suposições mas aceita hierarquizá-las, provisoriamente, dizendo que são melhores as que resistiram aos testes de falsificabilidade, e não põe em causa a medicina oficial alopática, classifica a astrologia como "superstição" e afasta a acusação de «má intenção e abuso de poder» que Feyerabend faz aos círculos científicos e tecnocráticos dominantes hoje. (VALE DOIS VALORES)

 

2- E) O verificacionismo é, segundo Popper, impossível de comprovar porque estende, por indução amplificante, alguns casos empíricos (uma amostra) a todos os casos . Assim, verificacionismo e indução amplificante são sinónimos na perspetiva do positivismo lógico: por exemplo, observar 1000 pedaços de quartzo e constatar que em todos  há uma estrutura cristalina trigonal composta de tetraedros de sílica autoriza proclamar que em todo o quartzo existente no mundo há uma estrutura trigonal. Popper discorda desta indução amplificante e prefere dizer que o estudo dos 1000 pedaços de quartzo corroborou ou confirmou nesses casos e só nesses (corroboracionismo) a estrutura trigonal do quartzo, mas não verificou esta.

David Hume é um percursor de Popper ao teorizar que o princípio do determinismo, segundo o qual nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos, denominado causação, não é real na natureza porque há muitas excepções ou porque é impossível verificar a totalidade dos casos da lei, mas é apenas uma construção da nossa mente, uma das sete relações filosóficas. (VALE DOIS VALORES)

 

2-F) As ciências hermenêuticas ou sociais são aquelas que não assentam num rigoroso determinismo, quantificável, mas sim em teses mais ou menos metafísicas, desdobrando-se em várias interpretações ( hermenêutica, arte da (boa) interpretação de textos e símbolos diversos) sobre um mesmo tema. A psicanálise, por exemplo, é uma dessas ciências: a hipótese de os meninos de 3 a 5 anos de idade sentirem o complexo de Édipo (desejo de matar ou afastar o pai e casar com a mãe) não se verifica em todas as sociedades, segundo Margaret Mead, logo não é universalmente induzível. De um modo geral, estas ciências hermenêuticas não utilizam o método hipotético-dedutivo que comporta quatro fases: a observação, a hipótese (e sua matematização numa fórmula), a dedução da fórmula (para casos concretos) e a experimentação. Ao contrário, às ciências empírico-formais, isto é, construções racionais matematizadas a partir de uma infinidade de dados sensoriais, aplica-se perfeitamente o método hipotético-dedutivo.  (VALE DOIS VALORES)

 

 

Nota para a correção: nas perguntas de relacionação entre dois ou mais conceitos, a cotação para cada resposta dada deve obedecer a um princípio de premiar o aluno que estuda e sabe as definições separadamente: assim deverá receber 50% a 60% da cotação da pergunta desde que defina correctamente os conceitos, embora não consiga interligá-los.

 

 

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Terça-feira, 28 de Setembro de 2010
Incoerência em São Tomás: Deus é apenas existência mas possui perfeições (essência)

No "Ente e a Essência" Tomás de Aquino confundiu, em Deus, a essência com a existência, o theo ou Inteligência suprema, criadora ou não,  com o tó on ou seja o ente, o ser :

 

«Há com efeito uma realidade, Deus, cuja essência é o seu próprio existir. Por esta razão, Por esta razão, há alguns filósofos dizem que Deus não tem quididade ou essência, uma vez que a sua essência se não diferencia do seu existir. Daqui se segue que ele não entra em nenhum género, porque tudo o que entra num género tem de ter quididade, além do seu existir, pois a quididade ou a natureza de um género ou de uma espécie compreende, enquanto que o existir se diversifica pelos vários indivíduos. Se dizermos que Deus é somente existir, não temos de cair no erro dos que afirmaram que Ele é esse universal pelo qual todas as coisas existem formalmente. De facto este existir que é Deus é de uma consideração tal que nenhuma adição lhe pode ser feita.»(Tomás de Aquino, O Ente e a Essência, Contraponto, pag 92)

 

 

Segundo São Tomás, Deus é pura existência mas não é o ser mais comum, o universal de Aristóteles, um dos transcendentais. Se fosse o ser mais comum que penetra em todas as coisas, Deus perderia, em certa medida, o estatuto supremo que só o distanciamento, lá no Alto, Lhe dá. Dizer que a essência de Deus é a sua existência é confundir o quid ou tó ti (o quê é, a talidade, o definido)  com o  tó on (o que é, o ente, o existente indefinido). São Tomás cai neste paradoxo e tenta superar a ambiguidade de Deus não ter essência dizendo o seguinte:

 

«De modo semelhante, ainda que seja apenas existir, não devem faltar-lhe as restantes perfeições . »  (Tomás de Aquino, Ibid, pag 93).

 

O raciocínio é paradoxal: Deus é apenas existir, mas ao mesmo tempo é omnipotência, bondade absoluta, sabedoria absoluta, justiça absoluta, beleza absoluta, misericórdia absoluta, etc. Portanto, Deus não é somente existir, possui uma essência que emerge da existência. Tomás de Aquino patina na neve da incoerência teórica.

 

 

 

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