Domingo, 7 de Agosto de 2016
Equívocos nos manuais da Didáctica «50 lições de filosofia, 10º e 11º ano » - (Crítica de Manuais Escolares-LVII)

 

 

 

Alguns equívocos subsistem nos manuais do professor «50 lições de filosofia, 11º ano» e «50 lições de filosofia, 10º ano» da Didáctica Editora, de Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho.

 

HÁ CONHECIMENTO SEM CRENÇA , AO CONTRÁRIO DO QUE SUSTENTA O MANUAL DO 11º

 

Sobre a definição da filosofia analítica àcerca do conhecimento como «crença verdadeira justificada» diz o manual:

 

«A crença é condição necessária do conhecimento.»

 

«Acreditar é um estado mental ou psicológico de convicção ou de adesão a algo. A crença ocorre, portanto, na mente de alguém. Mesmo que as crenças sejam acerca de objectos exteriores, nem por isso elas deixam de se encontrar apenas na mente do sujeito que acredita. Se digo que acredito que o Benfica será campeão no próximo ano, estou apenas a exprimir o que vai na minha cabeça, até porque aquilo que o Benfica conseguirá no próximo ano é algo que ainda nem sequer aconteceu.» (Aires Almeida e Desidério Murcho, «50 lições de filosofia, 11º ano » Didáctica Editora, pág. 108). .

 

Há conhecimento sem crença, ao contrário do que afirmam Aires Almeida e Desidério Murcho: o conhecimento sensorial, por exemplo. O cão, tal como o homem, conhece o calor do verão ou o frio do inverno sem acreditar - sente apenas. A crença pressupõe um pensamento ou um princípio de pensamento - disto não se apercebem os filósofos analíticos e a grande massa amorfa dos docentes que os seguem. Kant cometeu grossa asneira ao sustentar que o conhecimento só existe no entendimento, em resultado da união deste com a sensibilidade. Intelectualizou o conhecimento, o que é uma visão parcelar.

 

Ora os dois tipos extremos de conhecimento que se tocam no fechar do círculo - a sensação e a intuição inteligível - não pressupõem nenhuma crença, são involuntários, irracionais, ocorrem simplesmente. Excluem a crença: ambos são certeza «totalitária». Não preciso de crença no vermelho do sol poente que neste momento desfruto: sinto-o na minha retina. Não tenho crença na bondade dos vírus das vacinas a «prevenir» doenças: sei, por intuição inteligível, que são nocivos ao corpo humano.

 

A crença implica pensamento, um certo distanciamento entre o sujeito e o objecto - daí o «ver para crer» - ao passo que o conhecimento pleno é a pura adesão do sujeito ao objecto, acto no qual a crença se dissipa.

 

Em Platão, a crença é a pistis, que faz parte da doxa ou opinião. Ao nível da episteme (raciocínio científico) ou da noese (apreensão intuitiva do arquétipo) não há crença, há certeza. A certeza é inimiga da crença. Crer em Deus é não ter a certeza absoluta da Sua existência ou dos Seus predicados. Conhecer é estar com as coisas sem crença, é ter intimidade intelectual ou sensorial com essas coisas, materiais ou espirituais, sem duvidar, sem o biombo da crença.

 

Quando se diz que o conhecimento é crença verdadeira comete-se um erro de paralaxe filosófica.

 

UMA NOÇÃO CONFUSA DE ESSENCIALISMO

 

Sobre essencialismo, lê-se no manual do 11º ano:

 

«Essencialismo contemporâneo

 

«Poderia Kant não ter sido um filósofo? É natural pensar que sim, pois ele poderia ter-se dedicado à pintura, por exemplo, ou a qualquer outra actividade. Mas poderia Kant ter sido mais do que ele mesmo? A resposta, também natural, é que não, pois isso viola as leis da lógica.»

 

«O que dizer, contudo, da hipótese de Kant não ter sido humano? Se defendermos que as únicas verdades necessárias são as verdades que podemos conhecer a priori, estamos obrigados a dizer que não é uma verdade necessária que Kant era humano,ou seja, estamos obrigados a dizer que ele poderia não ter sido humano.Porquê? Porque não podemos saber a priori que ele era realmente humano:só a posteriori podemos saber disso.»

 

«Os filósofos essencialistas contemporâneos consideram que do facto de não podermos saber a priori que Kant não poderia não ter sido humano não se conclui correctamente que ele poderia não tê-lo sido. De modo  que precisamos de outras razões a favor da ideia de que poderia tê-lo sido. Os essencialistas defendem que não há bons argumentos a favor dessa ideia e que é mais natural pensar que ele não poderia não ter sido humano. E esse será outro exemplo de uma verdade necessária a posteriori.»(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, «50 lições de filosofia, 11º ano » Didáctica Editora, pág. 244). .

 

Eis um texto extraordinariamente confuso: não se define essência, nem essencialismo.  Não se sabe o que os autores entendem por filósofos essencialistas. O exemplo é razoavelmente obscuro. Aires Almeida e Desidério Murcho revelam-se aqui  obscurantistas.  É uma insensatez dizer que Kant poderia ser não humano se, à partida, ligamos o nome de Kant a famílias, a um cidadão prussiano do século XVIII. É uma contradição nos termos: Kant, nome humano, suscitaria a suspeita de que a pessoa que o usa é não humana. É confundir o terminológico, a ordem da linguagem, com o ontológico, a ordem do ser - um velho truque dessa sofística contemporânea que dá pelo nome de filosofia analítica...

 

É similar a dizer: «O quartzo poderá ser um não mineral» ou «a galinha poderá não ser um animal». São «habilidades» retóricas,  argumentação vazia, dissociando artificialmente o significante do significado, do referente Só a Kaballah estabelece a ligação necessária entre o nome e a coisa, ao contrário da linguística de Saussure que postula o «laço arbitrário», casual, entre significante e significado.

 

Os autores do manual exaltam a «descoberta» de Saul Kripke segundo a qual há verdades necessárias a posteriori e alegam que «Hume concluía que as verdades científicas eram contingentes só porque eram conhecidas a posteriori.» ( 50 lições de Filosofia, 11º ano Filosofia, pag 243). Ora isto não é verdade em toda a sua extensão: Hume considerava a matemática como um conjunto de verdades científicas, não contingentes, necessárias, a posteriori. O número ou proporção de quantidade,´que fundamenta a matemática, é uma das sete relações filosóficas - poderíamos dizer: categorias - inscritas na mente do sujeito, segundo Hume. Ora, não há contingência nas operações matemáticas, em geral.

 

Hume escreveu, reafirmando o carácter necessário das verdades da álgebra e da aritmética:

 

«Restam portanto a álgebra e a aritmética como as únicas ciências das quais podemos levar uma cadeia de raciocínios até um certo grau de complicação, conservando contudo uma perfeita exactidão e certeza. Estamos de posse de um critério preciso que nos permite ajuizar da igualdade e proporção dos números; e, conforme estes correspondem ou não ao critério, determinamos-lhes as relações sem qualquer possibilidade de erro» (David Hume, Tratado da Natureza Humana, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, pág. 105; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Não foi, pois, Saul Kripke o primeiro a posttular verdades científicas universais e necessárias a posteriori. Hume já o fizera. E muitos outros, como por exemplo, os materialistas dialéticos vinculados ao empirismo. Acontece que Desidério Murcho e Aires Almeida não abordam nos seus manuais as filosofias de esquerda como o marxismo, o anarquismo, o socialismo revolucionário - só vêem o lado pragmático norte-americano e britânico da filosofia institucional, filosofias «apolíticas» de direita ou centro,  e nem tudo vêem- e não conhecem as posições ontognosiológicas de outras correntes. Por isso não admira que errem ao escrever que Saul Kripke foi o primeiro a teorizar as verdades universais a posteriori...

 

OS SUBJECTIVISTAS NEGAM QUE A BELEZA ESTEJA NOS PRÓPRIOS OBJECTOS?

 

Sobre subjectivismo e objectivismo, diz o manual do 11º ano:

 

«Chama-se subjectivistas àqueles que respondem que apenas conta o que cada sujeiro sente: a justificação dos juízos estéticos tem um carácter subjectivo. Quando perguntam a um subjectivista: «Por que razão dizes que aquele objecto é bonito?» ele responde «Digo que aquele objecto é bonito porque eu sinto prazer a olhar para ele».

«Por sua vez, chamam-se objectivistas aos que respondem que tudo o que conta são as características dos próprios objectos: afirmamos que um objecto é bonito ou feio porque tem certas propriedades que o tornam realmente bonito ou que o tornam realmente feio.» (50 lições de Filosofia, 11º ano Filosofia, pag 125). 

 

Os subjectivistas negam que a beleza esteja nos objectos? Não, necessariamente. Apenas afirmam que cada mente possui uma forma única, singular de captar a beleza objectiva dos objectos. Portanto, para os subjectivistas a beleza pode estar simultaneanente no objecto exterior e na mente humana que o apreende. Não é isto o que os autores deste manual afirmam.

 

UMA TAUTOLOGIA NA DEFINIÇÃO DE OBJETIVISMO

 

Este manual do 10º ano define objetivismo do seguinte modo: `

« A tese central da teoria objetivista é que alguns juízos de valor são objetivos. Isto significa que quando uma pessoa ou uma sociedade condena ou aceita um dado juízo de valor pode estar enganada, tal como acontece com os juízos de facto. » (...)

«Por exemplo, nos finais do século XIX, na Europa, discutia-se se as mulheres tinham o direito de votar. Mas hoje acreditamos que o juízo de valor de que as mulheres devem ter o direito de votar é objectivamente verdadeiro»

(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, «50 lições de filosofia, 10º ano » Didáctica Editora, pág. 57)-

 

Objetivismo é alguns juízos de valor serem objetivos? Isto é uma tautologia. O que significa serem objetivos? Desidério, Aires e Célia não sabem explicar. Objectivo significa duas coisas: que está fora das mentes humanas e é visível ou patente a todas ou quase todas (exemplo: as mulheres votam em eleições gerais em quase todos os países no século XXI, o rio Tejo separa Lisboa de Almada e do Barreiro); que está dentro das mentes humanas mas é compreendido de igual modo por todas ou quase todas (exemplo: É objectivo que 7 adicionado de 5 tem como resultado 12).

 

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Quarta-feira, 6 de Julho de 2016
Vénus predestina que, em 10 de Julho de 2016, Fernando Santos sinta grande alegria

 

 

 

.A vitória de Portugal sobre a Polónia no campeonato Europeu de Futebol, em 30 de Junho de 2016, não me surpreendeu. Está predestinado, de acordo com a teoria da astrologia histórica que utilizo e desenvolvo, que, em 10 de Julho de 2016, o selecionador de Portugal Fernando Santos experimentará uma grande alegria.  Nesse dia, Vénus passará em 27º do signo de Caranguejo sobre o Júpiter de nascimento de Fernando Santos, em 27º de Caranguejo, em 10 de Outubro de 1954. Ora Vénus sobre Júpiter é ouro sobre azul...é fonte de expansão, alegria.

 

Não se pode garantir infalivelmente que tal signifique o triunfo de Portugal na final do Europeu... 

 

O combate, feito de silenciamento censório e críticas mordazes e pueris, movido por toda a comunidade «científica» contra a astrologia científica, combate desigual levado a cabo pelas televisões, as editoras de ciência como a Gradiva e a Fundação Francisco Manuel dos Santos os respetivos filósofos de pacotilha (Carlos Fiolhais, David Marçal, Desidério Murcho, Aires Almeida, etc.) é uma manobra obscurantista que visa impedir o conhecimento pelo público da teoria da predestinação de matriz planetária que nós, e muito poucos no mundo, desenvolvemos.

 

Eles, tal como Popper, dizem representar a ciência contra a «pseudo ciência da astrologia» mas Daniel Benett, filósofo norte-americano, nascido em 27 de Março de 1942, apologista do construtivismo social (a ciência é uma construção, não uma verdade objetiva como a paisagem de árvores diante de nós) escreveu:

 

«Os cientistas às vezes tentam iludir-se, achando que as ideias filosóficas são apenas, na melhor das hipóteses, ornamentos ou comentários parasitas sobre os difíceis e objetivos triunfos da ciência, e que eles mesmos estão imunes às confusões às quais os filósofos dedicam as suas vidas, tentando resolvê-las. Mas não existe ciência livre de filosofia; existe apenas ciência cuja bagagem filosófica é embarcada sem passar pela vistoria». (A perigosa ideia de Darwin).

 

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Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2015
Aires Almeida e Desidério Murcho: janelas para a confusão

 

 Em «Janelas para a filosofia», Aires Almeida e Desidério Murcho, autores de manuais escolares do 10º e 11º ano de escolaridade em Portugal, membros influentes do «lobby» da filosofia analítica que inclui Ricardo Santos, João Branquinho, Pedro Galvão, Sara Bizarro e outros académicos, ensaiam uma exposição sobre os problemas centrais da filosofia. Acontece que as janelas que aqueles dois autores abriram dão para o pátio da sofística e, acidentalmente, para a planície vasta da filosofia, olhada de viés, neste livro.

 

UMA EQUÍVOCA DEFINIÇÃO DE RELATIVISMO

 

Um dos erros teóricos de Almeida e Murcho patentes neste livro, seguindo aliás o célebre Peter Singer, é o seu conceito de relativismo. Escrevem:

 

«1. Relativismo

«O relativismo defende que os juízos de valor são relativos às sociedades. Quando uma sociedade condena ou aceita um dado juízo de valor não pode estar enganada. Isto contrasta com os juízos de facto...» (Aires Almeida, Desidério Murcho, Janelas para a Filosofia, Gradiva, Novembro de 2014, pág. 40; o destaque a negrito é colocado por mim).

 

Esta definição é parcialmente incorrecta: diz que os juízos de valor variam de sociedade para sociedade, o que é verdade, em princípio, mas oculta ou escamoteia o facto de relativismo ser a variação de valores no interior de uma mesma sociedade, segundo as classes sociais, os grupos políticos, religiosos e artísticos.  É relativismo haver em Portugal uma lei que consagra o casamento de gays e lésbicas e uma maioria social que condena este tipo de casamento, é relativismo haver dentro da mesma sociedade portuguesa defensores dos valores de esquerda e defensores dos valores de direita, religiosos católicos, islâmicos, budistas, agnósticos e ateus,etc.

 

A frase «Quando uma sociedade condena ou aceita um dado juízo de valor não pode estar enganada», incluída na definição de relativismo, é um verdadeiro absurdo. É apresentar relativismo como um dogmatismo absolutista e prova a debilidade do pensamento de Aires Almeida e Desidério Murcho, pseudo-filósofos que fazem «copy paste» de Simon Blackburn, de Peter Singer e outros. Eles não pensam: dizem coisas sem nexo como, por exemplo, que "segundo o relativismo, uma sociedade não pode estar enganada ao condenar ou aceitar algo"...

 

A PSEUDO-REFUTAÇÃO DA DEFINIÇÃO DE CONHECIMENTO COMO «CRENÇA VERDADEIRA JUSTIFICADA»

 

Edmund Gettier refutou, aparentemente, a definição clássica de conhecimento como «crença verdadeira justificada». Almeida e Murcho dão razão a Gettier e escrevem:

 

« Vejamos um exemplo diferente do de Gettier mas que estabelece o mesmo resultado filosófico. A Rita é apreciadora de carros antigos e tem reparado no Citroen boca-de-sapo estacionado num dos lugares reservado à administração, na garagem do edifício da empresa onde trabalha. Ela forma a crença de que um dos administradores da empresa tem um boca-de-sapo. Algum tempo depois, a Rita veio a descobrir, com grande surpresa, que o boca-de-sapo que viu era afinal de um morador daquela zona que se aproveitava para estacionar discretamente ali o seu estimado carro. O morador oportunista só tinha conseguido estacionar ali o seu cargo simplesmente porque o segurança julgava ser o boca-de-sapo de colecção que, por coincidência, a administradora Paula possuía. Até ter sido apanhado».

«O que mostra esta história? Em primeiro lugar, mostra-nos que a Rita formou uma crença verdadeira: que um dos administradores tem um boca-de-sapo. Em segundo lugar, que a Rita tem uma justificação razoável para esta crença: ela própria viu um boca-de-sapo vários dias estacionado num lugar onde apenas podem ser estacionados veículos dos administradores.(...) Parece, pois, que a Rita tem uma crença verdadeira justificada mas não tem conhecimento. Isto parece mostrar que não basta que uma crença verdadeira esteja justificada para haver conhecimento.»(Aires Almeida, Desidério Murcho, Janelas para a Filosofia, Gradiva, Novembro de 2014, pág. 180-181; o destaque a negrito é colocado por mim).

 

Qual é o erro de raciocínio de Gettier, de Almeida e Murcho relativo a este exemplo da Rita?

 

É o facto de considerarem que a Rita tinha uma crença verdadeira justificada ao saber que uma administradora tinha um Citroen boca-de-sapo e que um destes automóveis estava estacionado no lugar reservado junto ao edifício da administração da empresa. Pobres Gettier, Almeida e Murcho!  A Rita não tinha uma crença verdadeira justificada porque não conhecia a matrícula do boca-de-sapo da administradora Paula e, portanto, não podia garantir, com segurança que o boca-de-sapo, afinal pertença de um vizinho, pertencesse à administradora. Portanto, o argumento de Gettier/ Aires/ Desidério  é uma pseudo-refutação da tese de que o conhecimento  é crença verdadeira justificada: o conhecimento da Rita é insuficiente, não está justificado.

 

 

FALTA DE CLAREZA SOBRE O QUE SÃO OBJECTIVISMO E VALORES OBJECTIVOS

 

Escrevem Almeida e Murcho:

«Valores objectivos

«O objectivismo defende que alguns valores são objectivos (e não que todos o são). Isto significa que quando uma pessoa ou uma sociedade condena ou aceita um dado juízo de valor pode estar enganada, tal como acontece com os juízos de facto.» (Aires Almeida, Desidério Murcho, Janelas para a Filosofia, Gradiva, Novembro de 2014, pág. 44; o destaque a negrito é posto por mim).

 

O facto de ser falível  a condenação por uma pessoa de um juízo de valor, isto é, o facto de uma pessoa se poder enganar nesse juízo, não acarreta que este juízo seja objectivo. A definição de objectivismo dada por estes autores é obscura. Afirmar que objectivismo é o facto de que« quando uma pessoa ou uma sociedade condena ou aceita um dado juízo de valor pode estar enganada» é um absurdo. Desidério Murcho e Aires Almeida são incapazes de fornecer uma definição clara de objectivismo dos valores: metem-se por vielas escuras e obscuras do pensamento, onde não há a luz da clareza racional. Não sabem distinguir objectivismo intra-anima ( por exemplo: o número 7 só existe nas mentes humanas mas é objectivo por ser comum a quase todas as mentes) de objectivismo extra-anima (por exemplo: o Mosteiro dos Jerónimos existe em Belém, como edifício de pedra, e é fisicamente objectivo).

 

Escrevem ainda no mesmo estilo retorcido de contornar as definições claras:

 

 

«Para compreender melhor o objectivista, temos de compreender melhor o próprio conceito de objectividade. Há várias concepções de objectividade, mas a mais relevante no que respeita à natureza dos valores considera que a imparcialidade é uma condição necessária da objectividade. O que isto significa é que os juízos de valor que são objectivos são imparciais. Por exemplo, imaginemos que a Daniela defende o juízo de valor de que quem tem olhos azuis deve ter mais direitos do que os outros. Quando lhe perguntamos porquê, responde, com toda a honestidade, que tem olhos azuis, e por isso essa medida iria beneficiá-la. É óbvio que a justificação do seu  juízo de valor não é imparcial»

(Aires Almeida, Desidério Murcho, Janelas para a Filosofia, Gradiva, Novembro de 2014, pág. 44; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Há aqui incoerências: Desidério e Aires falam em haver vários conceitos de objectividade, mas não explicitam mais que um, a imparcialidade, e isto é vaguismo; os juízos de valor objectivos não são imparciais, porque são juízos de valor, mas estes dois autores proclamam a sua imparcialidade; o exemplo da Daniela e do seu juízo parcial de favorecer quem tem olhos azuis está envolto numa nuvem de ambiguidade, não se percebe, com clareza, se ilustra o objectivismo ou o subjectivismo dos valores. 

 

Almeida e Murcho não pensam dialecticamente, escarnecem da autêntica filosofia: escrevem de forma elíptica, rodeando o cerne dos assuntos, à maneira dos filósofos analíticos actuais. São o exemplo da anti-filosofia entronizada nas universidades portuguesas e brasileiras e nas grandes editoras que as secundam. Que leva a Gradiva de Guilherme Valente a editar estes frágeis pensadores?  Ah, pois: o professor Aires Almeida é o responsável da secção de filosofia da editora Gradiva...Pode ser um pensador medíocre, mas tem poder editorial.

 

Se querem mergulhar na confusão e citar definições erróneas, no todo ou em parte, assimilem e citem acriticamente o conteúdo deste pobre livro «Janelas para a Filosofia».

 

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Sexta-feira, 11 de Julho de 2014
Conhecimento proposicional não contém crença?

 

No Prefácio de « A Ética da Crença» afirma Desidério Murcho:

 

« Todo o conhecimento proposicional - assim como a crença - é uma relação entre uma pessoa que conhece e uma proposição ou verdade conhecida.» (Desidério Murcho in Prefácio de «A ética da crença», Bizâncio, pág 33)

 

Vemos que Murcho separa artificialmente crença de conhecimento proposicional. Ora, muito deste  último inclui a crença, como por exemplo, o seguinte conhecimento proposicional: «Cada molécula de água é composta de dois átomos de hidrogénio e um átomo de oxigénio». Também o conhecimento proposicional «A economia é a força propulsora essencial da história social e política» inclui crença, isto é, conteúdo especulativo, incerto, já que há outras teses sobre a causa determinante da evolução histórico-social.

 

TODO O CONHECIMENTO PROPOSICIONAL É FACTIVO? 

 

Murcho sustenta que tanto o conhecimento proposicional, teórico ou teórico-prátivo, como o conhecimento por contacto, sensorial, são factivos, o que é um erro no que respeita ao primeiro deles:

 

« Dado que tanto o conhecimento proposicional como o conhecimento por contacto são factivos, o mesmo argumento aplica-se a refutar a ideia de que a fé poderia ser conhecimento por contacto.» (Desidério Murcho in Prefácio de «A ética da crença», Bizâncio, pág 49)

 

Ora, há muito conhecimento proposicional que não é factivo, isto é, não está ancorado em factos sólidos da experiência, irrefutáveis. Por exemplo, o seguinte conhecimento proposicional: «A matéria escura constitui 96% da massa do universo. O Big Bang ocorreu há cerca de 15 000 milhões de anos e consistiu na explosão de um pequeno ponto de matéria-energia dando origem ao universo». Nada disto é factual, factivo: não passam de especulações. É um conhecimento especulativo, duvidoso, o que contraria a tese antidialética de Desidério Murcho de que «todo o conhecimento é factivo».

 

A astrofísica actual é profundamente metafísica: e os mesmos que crêem na teoria das cordas e do Big Bang como Carlos Fiolhais, Desidério Murcho, Guilherme Valente e tantos outros são os que, paradoxalmente, duvidam da causalidade planetária dos factos sociais  ou lançam anátemas sobre o determinismo e o fatalismo planetários. É impossível demonstrar que o universo tem 10 ou 30 dimensões mas estas mentes atentas e veneradoras do «saber científico» crêem que se pode demonstrar.  É muito mais fácil demonstrar que a Alemanha é finalista do campeonato do mundo de futebol, em 13 de Julho de 2014 porque Marte está em 23º de Balança e Quirón em 17º de Peixes nesse dia, uma vez que, por analogia, a Alemanha Federal foi campeã mundial em 7 de Julho de 1974 quando Úrano estava em 23º de Balança e Júpiter em 17º de Peixes mas aquelas mentes «iluminadas» (iluminati?) não crêem na factualidade astronómico-histórica.

 

Afinal, acredita-se em fórmulas astrofísicas metafísicas (argumento da autoridade) e rejeita-se os factos empíricos palpáveis...O positivismo lógico e o conjecturalismo de Popper não passam de metafísica do avesso porque negam a ciêmcia da astrologia histórica, empírica e comprovável. Não é qualquer astrologia, claro: somente a astrologia histórico-social desenvolvida neste blog e em livros nossos.

 

NÃO EXISTE ÉTICA DA CRENÇA

 

Aliás, contrariando o título deste livro, importa notar que não existe ética da crença. A crença é um processo de cognição metaético: acontece espontaneamente, de forma «técnica», não ética. Os chamados «filósofos analíticos» metem a ética e a lógica proposicional em todo o seu discurso e no limitado horizonte do seu pensamento porque a inteligência neles é escassa para irem mais longe: o pensar ontológico e gnosiológico profundo é-lhes estranho.

 

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Quinta-feira, 15 de Maio de 2014
A pseudo-objecção de Gettier à definição de conhecimento como «crença verdadeira justificada»

 

Edmund Gettier, filósofo norte-americano nascido em 1927, é muito considerado pelos pequenos pensadores analíticos desde João Branquinho, Ricardo Santos, Desidério Murcho, Manuel Garcia-Carpinteiro, Aires Almeida, António Horta Branco, Bruno Jacinto, Sara Bizarro a Simon Blackburn e Nigel Warburton, que parecem dar-lhe o estatuto de um Descartes do século XX devido ao seu artigo «Is justified true belief knowledge?» de 1963. Eliott Sober, no artigo «O que é o conhecimento?», publicado em «Crítica na rede», explana as objecções de Edmund Gettier e Bertrand Russell à definição de conhecimento como «crença verdadeira justificada»:

 

«Em 1963, o filósofo Edmund Gettier publicou dois contra-exemplos para a teoria CVJ (Crença Verdadeira Justificada). O que é um contra-exemplo? É um exemplo que contradiz o que diz uma teoria geral. Um contra-exemplo contra uma generalização mostra que a generalização é falsa. A teoria CVJ diz que todos os casos de crença verdadeira justificada são casos de conhecimento. Gettier pensa que estes dois exemplos mostram que um indivíduo pode ter uma crença verdadeira justificada mas não ter conhecimento. Se Gettier tiver razão, então as três condições indicadas pela teoria CVJ não são suficientes.
Eis um dos exemplos de Gettier. Smith trabalha num escritório. Ele sabe que alguém será promovido em breve. O patrão, que é uma pessoa em quem se pode confiar, diz a Smith que Jones será promovido. Smith acabou de contar as moedas no bolso de Jones, encontrando aí 10 moedas. Smith tem então boas informações para acreditar na seguinte proposição:

 

a) Jones será promovido e Jones tem 10 moedas no bolso.

 

Smith deduz, então, deste enunciado o seguinte:

 

b) O homem que será promovido tem 10 moedas no bolso.

 

Suponha-se agora que Jones não receberá a promoção, embora Smith não o saiba. Em vez disso, será o próprio Smith a ser promovido. E suponha-se que Smith também tem dez moedas dentro do bolso. Smith acredita em b, e b é verdadeira. Gettier afirma também que Smith acredita justificadamente em b, dado que a deduziu de a. Apesar de a ser falsa, Smith tem excelentes razões para pensar que é verdadeira. Gettier conclui que Smith tem uma crença verdadeira justificada em b, mas que Smith não sabe que b é verdadeira.»

 

«O outro exemplo de Gettier exibe o mesmo padrão. Um sujeito deduz validamente uma proposição verdadeira a partir de uma proposição que está muito bem apoiada por informações, embora esta seja falsa, apesar de o sujeito não o saber. Quero agora descrever um tipo de contra-exemplo à teoria CVJ na qual o sujeito raciocina não dedutivamente.»

 

«O filósofo e matemático britânico Bertrand Russell (1872-1970) refere um relógio muito fiável que está numa praça. Esta manhã olhas para ele para saber que horas são. Como resultado ficas a saber que são 9.55. Tens justificações para acreditar nisso, baseado na suposição correcta de que o relógio tem sido muito fiável no passado. Mas supõe que o relógio parou há exactamente 24 horas, apesar de tu não o saberes. Tens a crença verdadeira justificada de que são 9.55, mas não sabes que esta é a hora correcta.» (Eliott Sober, «O que é o conhecimento?», in «Crítica na rede», tradução de Paula Mateus)

 

O «grande» Gettier erra, "astronomicamente". O erro de Edmund Gettier é fácil de desmontar: Smith não tem conhecimento de algo que ainda não sucedeu e é contingente, apenas alimenta uma expectativa sobre a promoção de Jones. Portanto, não tem crença verdadeira justificada. Tudo o que Smith sabe é conjectural, não se verificou. As 10 moedas que, por coincidência, alberga no bolso, tal como Jones, não são justificação, ponto de apoio seguro, para prever o futuro profissional. A crença de Smith nas declarações do patrão não são crença em uma verdade, mas crença em palavras de outrém. Ora os seres humanos desdizem-se com frequência.

 

A argumentação de Gettier de que «Smith tem crença verdadeira justificada em que Jones será promovido» é estúpida: é do mesmo tipo que dizer que a crença de milhões de apostadores no euromilhões é uma crença verdadeira justificada mas não é conhecimento. Ora, a crença dos apostadores não é justificada cientificamente nem é verdadeira, em geral: é uma intuição subjectiva. Não há justificação racional para que uma pessoa jogue nos números 8,13, 22, 27, 37  no mesmo concurso em que outras apostam nos números 2,3, 30, 35, 48.

 

O erro de Bertrand Russell é muito simples: a sua crença de que são 9.55 horas é verdadeira mas não está justificada porque não leva em conta a possibilidade de o relógio estar avariado e parado, por mero acaso, a indicar aquela hora. O conhecimento de Russell é meramente acidental, resulta de uma coincidência cronológica, de um acaso...Para estar justificado, precisaria de assentar numa lei (funcionamento permanente do relógio marcando a mesma hora que o Big Ben de Londres, etc) e em uma verificação global naquele momento, o que não sucede.

 

Tanto Gettier como Russell argumentam falaciosamente ao considerar justificadas pensamentos e asserções que o não estão. Há uma gradação no termo justificação, há vários degraus de justificação, de que estes pensadores unilaterais não se dão conta.

Ao propagarem a "descoberta" de Gettier como um "avanço filosófico" os filósofos analíticos e a multidão de professores de filosofia acríticos que os seguem revelam-se razoavelmente estúpidos. Só alguém estúpido, desatento às sinuosidades da retórica, pode maravilhar-se ante a falácia de Gettier. Não raciocinam, deixam-se arrastar por uma retórica de aparência lógica. Ao usarem malabarismos de linguagem como os termos «justificado»  «justificação», mal aplicados, os defensores da objecção de Gettier conseguem seduzir os incautos, mas perdem-se em pseudo-raciocinios.

 

Fechem-se as faculdades de filosofia! Estão dominadas por catedráticos que envergonham a grande filosofia, meros prestigiditadores de palavras, inteligências de um mediano cinzentismo, ovelhas do mesmo rebanho "analítico" que manobra a Sociedade Portuguesa de Filosofia e quase todas as editoras portuguesas de manuais ou ensaios filosóficos. Os grandes pensadores clássicos, aristocratas do pensamento (Platão, Aristóteles, Hegel, Max Scheler, Freud, etc) foram substituídos por uma plebe ou «canalha» filosófica com a cultura do «certificado de doutoramento» e das «acções de formação com créditos», herdeira da inquisição medieval dominicana.

 

Os dominicanos, tal como os "analíticos" de hoje, amavam imenso a lógica que os protegia de certas intuições metafísicas, de um pensar inquietante e livre. As mesmas mentes "asininas" que veneram a objecção de Gettier proíbem a investigação de astrologia histórica (astronomia aplicada a factos sociais e históricos), etc. Os medíocres estão no poder, com a armadura dos doutoramentos e o trono das cátedras! Fizeram das universidades - que deviam ser universitas, acolhedoras dos diversos saberes-  igrejas sectárias onde o saber universal está ausente, onde se censuram as posições críticas e antagónicas... O criptofascismo "racionalista", que tudo converte em proposições lógicas com símbolos, reina. É a idade das trevas da filosofia...

 

O conhecimento  falível - não todo o conhecimento - é, de facto, quase sempre, crença, verdadeira justificada e, nalguns casos, é crença subjectiva ao acaso (exemplo: os totalistas do euromilhões) . Mas há o conhecimento infalível, que é a pura apreensão epistémica ou noética da realidade e não é crença mas certeza pura como, por exemplo, "dois é metade de quatro", "o mundo exterior existe contíguo ao meu corpo".  

 

 

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Quarta-feira, 2 de Abril de 2014
Acuso Gil, Pacheco, Boaventura, Lourenço, Barreto, Pulido, Fiolhais, as televisões e a universidade

 

Acuso José Gil, José Pacheco Pereira, Boaventura Sousa Santos, Eduardo Lourenço, António Barreto, Vasco Pulido Valente, Marcelo Rebelo de Sousa, Francisco Pinto Balsemão, Alexandre Franco de Sá, Manuel Vilaverde Cabral, Fátima Campos Ferreira, Desidério Murcho, António Pedro Mesquista, António Manzarra, Viriato Soromenho Marques, José Mattoso, João Medina, Miguel Gonçalves, Carlos Fiolhais, as televisões e a universidade portuguesa, brasileira e mundial em geral de serem ignorantes àcerca do determinismo planetário na vida política e social e de transmitirem, através da indiferença ou da apologia contrária, a ideia de que «não há ciência astrológica  e não é sério fazer pesquisas nesse domínio».

 

Acuso-os de serem cúmplices ou mentores do grande silêncio (fascista) que os grandes media e as grandes editoras lançam sobre a astrologia histórico-social, confundindo-a com a astrologia comercial e «mística».

 

Acuso-os de ignorarem e, mesmo depois de informados, não se pronunciarem sobre factos objectivos como a regularidade ou lei de Júpiter em Virgem, uma vez em cada 12 anos, gerar um triunfo da direita liberal ou conservadora em Portugal como atestam os seguintes exemplos: em 27 de Setembro de 1968, com Júpiter em 20º do signo de Virgem, Marcelo Caetano, líder da ala reformista da direita fascista portuguesa assume o cargo de primeiro-ministro dada a invalidez física de Oliveira Salazar;  em 2 de Dezembro de 1979, com Júpiter em 9º do signo de Virgem, a Aliança Democrática de Sá Carneiro e Freitas do Amaral vence as eleições legislativas em Portugal;  em 5 de Outubro de 1980, com Júpiter em 25º de Virgem, a Aliança Democrática do primeiro-ministro Sá Carneiro e o PSD insular vencem, de novo, as eleições legislativas em Portugal; em 6 de Outubro de 1991, com Júpiter em 4º-5º do signo de Virgem, o PSD, do primeiro-ministro Cavaco Silva, vence com maioria absoluta - 135 deputados eleitos num total de 230 - as eleições legislativas em Portugal,

 

Acuso-os  de ignorarem e, mesmo depois de informados, não se pronunciarem sobre factos objectivos como a regularidade ou lei de Júpiter no signo de  Peixes (arco de 30º, de 300º a 330º da eclíptica) uma vez em cada 12 anos, gerar um triunfo da esquerda liberal ou socialista ou comunista em Portugal como atestam os seguintes exemplos: de 24 de Agosto a 28 Setembro de 1820, com Júpiter em 20º-16º do signo de Peixes, a revolução liberal triunfa em Portugal, com a sublevação de grupos de militares, inspirados pelo Sinédrio, organização maçónica; de 7 de Julho de 1832 a 28 de Janeiro de 1833, com Júpiter em 28º-18º- 27º do signo de Peixes, ocorre a instalação do exército liberal de D. Pedro IV no Porto e defesa persistente da cidade contra o exército absolutista de D.Miguel, com o desembarque na praia de Labruge, em Matosinhos (7-8 de Julho) e a entrada do exército liberal de 7500 homens de D. Pedro na cidade do Porto onde se fortifica (9 de Julho), o assalto geral  dos miguelistas ao Porto repelido pelos liberais com 2.000 mortos para cada lado (29 de Setembro); em 25 de Abril de 1974, com Júpiter em 10º de Peixes, um levantamento militar do movimento dos capitães (MFA) derruba a ditadura fascista de Américo Tomás e Marcelo Caetamo e abre portas à revolução social.

 

Acuso a burguesia portuguesa, os seus agentes políticos e culturais (PSD, PS. CDS, jornalistas, directores de informação, professores de filosofia e história, etc) de impedir o povo de conhecer as regularidades astronómico-sociais que permitem a previsão de múltiplos acontecimentos porque  dá jeito a essa burguesia manter a população na obscuridade. Acuso os mestrados e doutoramentos conferidos nas universidades, burguesas ou «populares», de constituirem fraudes parciais na medida em que rejeitam a causalidade zodiacal dos factos históricos. Acuso os partidos de esquerda não burguesa (em Portugal: o PCP, o BE, o MRPP, o POUS, etc) de participarem no mesmo «complot» que visa silenciar a verdade sobre a modelação da história social e política pelos movimentos planetários.

 

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Quinta-feira, 2 de Maio de 2013
Equívocos nos exercícios do livro de apoio ao «Lições de Filosofia 10º ano» da Didática Editora, parte II (Crítica de Manuais Escolares- LI)

 

O livro de apoio ao manual «Lições de Filosofia 10º ano» de Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, da Didáctica Editora, está recheado de  exercícios que apresentam como "correctas" respostas ambíguas ou erróneas a questões de escolha múltipla.

Continuemos  a analisar os equívocos de algumas das perguntas de escolha múltipla (uma só resposta certa de entre quatro hipóteses) gizadas por Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho.

 

No banco de questões, capítulo XV, figuram as seguintes:

 

«1. Em qual das seguintes opções é formulado um problema filosófico...

a. O que levará algumas pessoas a matar outras?

b. Será que as pessoas que matam outras se sentem satisfeitas com isso?

c. Matar alguém é sempre errado?

d. Matar alguém em Portugal pode levar à cadeia? ».

 

(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, Livro de apoio ao manual «Lições de Filosofia 10º ano», pagina 99)

 

Segundo o manual, só a resposta 2-c é correcta.

 

Crítica minha: Tanto a resposta 2-a como as resposta 2-b e 2-c estão correctas. Por que razão a pergunta 2-a não seria filosófica?

Vê-se que  é filosófica se a explicitarmos do seguinte modo: o que levará algumas pessoas a matar outras, uma possessão diabólica instantânea, o determinismo planetário, uma natureza permanentemente homicida inerente ao ser humano? E por que razão a pergunta 2-b não será filosófica? Nota-se que o é se a explicitarmos deste modo: será que as pessoas que matam outras se sentem satisfeitas com isso porque o instinto de prazer engloba o instinto de assassínio ou, pelo contrário, não sentem satisfeitas mas manipuladas por uma "força oculta"?

 

«20. Os libertistas defendem que...

A. nada na natureza é causado.

B. o determinismo e o livre-arbítrio  são compatíveis.

C. o deterninismo e o livre-arbítrio não são compatíveis.

D. tudo na natureza é fruto do acaso.»

 

(ibid, pag. 102)

Segundo os autores, só a resposta 20-C está certa.

 

Crítica minha: A pergunta recoloca um vórtice de confusão no seio da filosofia analítica. Esta não tem uma definição unânime de libertismo. Uma parte dos adeptos diz que libertismo é o livre-arbítrio existir num mundo àparte do determinismo biofísico, a outra parte diz que existe livre-arbítrio e, ao mesmo tempo, indeterminismo na natureza. Se se aceitar este segundo ponto de vista, as respostas 20-A e 20-D estão correctas. Em qualquer uma das interpretações, a resposta 20-B está correcta, porque o libertismo nunca é um incompatibilismo, nele o livre-arbítro compatibiliza-se sempre com a natureza, seja esta regida por leis fixas ou caótica. A resposta 20-c está, pois, errada.

 

 É de lastimar que os estudantes sejam alvo deste tipo de perguntas, muitas das quais mal concebidas. Há inúmeras injustiças na avaliação da capacidade filosófica dos alunos devido ao pensar unilateral e equívoco destes autores da escola da filosofia analítica. É possível conceber um outro programa de filosofia de 10º ano, mais substancial e equilibrado do que o actual, que contemple aspectos do platonismo, do aristotelismo,  da filosofia medieval, do cartesianismo, do empirismo inglês, do kantismo, do hegelianismo, do marxismo, da fenomenologia, da filosofia analítica - sem a preponderância desta, como sucede actualmente - do holismo.

  

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Sexta-feira, 26 de Abril de 2013
Equívocos nos exercícios do livro de apoio ao «Lições de Filosofia 10º ano» da Didática Editora (Crítica de Manuais Escolares- L)

 

O livro de apoio ao manual «Lições de Filosofia 10º ano» de Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, da Didáctica Editora, apresenta numerosos exercícios que dão como "correctas" respostas ambíguas ou erróneas a questões de escolha múltipla. É ridículo e assustador o espírito unilateral dos «analíticos» que sujeitam, nos exames nacionais de filosofia, os alunos a questões deste teor, muitas delas arbitrárias. Os exames nacionais, nos moldes em que hoje são feitos, são a ditadura dos impensantes da filosofia analítica sobre as inteligências filosóficas dos alunos. A filosofia analítica é, neste campo prático, de avaliação de argumentos, o fascismo filosófico subjectivista.  

 

Dizem alguns que «a filosofia analítica é mais prática e compreensível aos alunos do secundário do que a "outra"», a tradicional, rica em conceitos metafísicos (substância, essência, acidente, género, espécie, forma, matéria, etc) . É puro engano!

 

Vejanos algumas das perguntas de escolha múltipla (uma só resposta certa de entre quatro hipóteses) gizadas por  Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho:

 

«Escolha a opção correcta (Teste 3):

 

2. Os juízos descritivos...

a. Descrevem as coisas tal como são.

b. Visam descrever as coisas tal como são.

c. São sempre verdadeiros.

d. São normativos.

 

(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, Livro de apoio ao manual «Lições de Filosofia 10º ano», pagina 81)

 

Segundo o manual, só a resposta 2-b é correcta.

 

Crítica minha: Tanto a resposta 2-a como a resposta 2-b estão correctas. Por que razão os juízos descritivos não descrevem as coisas como são? Se está um dia de céu carregado de nuvens escuras, acaso o juízo «O céu está neste momento cheio de nuvens escuras» não descreve a atmosfera terrestre visível tal como é?

 

4. Os juízos normativos...

a. Visam adequar a realidade ao nosso pensamento.

b. Visam adequar o pensamento à realidade.

c. Adequam a realidade ao nosso pensamento.

d. Adequam o pensamento à realidade.

 

(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, «Livro de apoio ao manual «Lições de Filosofia 10º ano», pagina 81)

 

 Segundo o manual, só a resposta 4-a é correcta.

 

 

Crítica minha: Dependendo do ponto de vista - de os valores éticos serem objectivos e reais fora de nós, ou subjectivos -as quatro respostas estão certas. Por que razão estariam erradas a resposta 4-b e 4-d? O juízo normativo da religião cristã «É dever do cristão orar a Deus porque tal produz sempre benefícios na sua vida» é uma adequação do pensamento à realidade(metafísica) de Deus (hipótese 4-d) ou visa adequar o pensamento à realidade de Deus(hipótese 4-b).

As diferenças microscópicas de sentido entre estas duas frases não chegam para dizer que uma está certa e a outra não. O «pensamento» destes autores é, por demais, ridículo e arbitrário...

 

 

5. Segundo a teoria subjectivista...

a. Todos os valores são relativos aos sujeitos.

b. Alguns valores são relativos aos sujeitos.

c. Os valores são discutíveis.

d. Os valores são convenções sociais.»

(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, Livro de apoio ao manual «Lições de Filosofia 10º ano», pagina 81)

Segundo os autores, a única resposta certa é a «5-a».

 

Crítica minha: Há duas respostas certas: a "5.a"  e a "5-b". Se quisermos a primeira é subjectivista radical, a segunda é subjectivista moderada.

 

«6.- Segundo a teoria relativista...

a. Todos os valores são relativos às sociedades.

b. Alguns valores são relativos às sociedades.

c. Os valores são discutíveis.

d. Os valores são subjectivos. » 

 

(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, Livro de apoio ao manual «Lições de Filosofia 10º ano», pagina 81)

Segundo os autores, a resposta correcta é a 6-A.

 

 

Crítica minha: A resposta correcta é a 6-B. O relativismo não se restringe às diferenças de valores de sociedade para sociedade mas alarga-se às diferenças de valores no seio da mesma sociedade. Por exemplo, os valores estéticos dos «góticos» - vestir de negro ou lilás,roxo e carmesim, de modo a ter um visual vampiresco, renascentista ou medieval, com correntes, usar os cabelos desalinhados ou desfiados - são diferentes dos valores estéticos dos empregados bancários - vestir blazer, camisa e gravata, nos dias de trabalho. Portanto alguns valores são relativos às sociedades, vistas em bloco, e outros valores são referentes a segmentos dessas sociedades (os ecologistas, os comunistas, os punks, os «góticos», os escuteiros, os católicos, etc).

 

«7- Segundo a teoria objectivista..

a) Todos os valores ´são objectivos

b) Alguns valores são objectivos.

c) Os valores não são discutíveis.

d) Os valores têm uma origem divina.

 

(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, Livro de apoio ao manual «Lições de Filosofia 10º ano», pagina 82).

Segundo os autores, só há uma resposta correcta: 7-a.

 

Crítica minha: Há duas respostas correctas, a 7-a, que poderia designar-se objectivismo radical, e a 7-b, que poderia nomear-se como objectivismo moderado.

 

 

«8- Um juízo de valor objectivo é sempre

a. Imparcial

b. Consensual

c. Evidente.

d. Absoluto.»

 

 

(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, Livro de apoio ao manual «Lições de Filosofia 10º ano», pagina 82, Didáctica Editora). Segundo os autores, a única resposta correcta é 8-a.

 

Crítica minha: As respostas 8-b e 8-c estão correctas, a 8-a não. Que é um juízo de valor objectivo? ´Há duas definições diferentes deste:

 

A) É uma proposição intersubjectiva, não imparcial, de carácter ético ou estético ou científico, que emana de uma maioria sociológica. Exemplo: «O estalinismo foi uma ditadura totalitária sobre o povo russo» é um juízo de valor objectivo mas não imparcial.

B) É uma proposição indiscutível, imparcial, de carácter ético estético ou científico. Exemplo: « O quadrado de oito é sessenta e quatro».

 

Vê-se, pois, que a imparcialidade só é condição de alguns juízos objectivos, não de todos. Ao invés, a consensualidade (8-b) e a evidência (8-c) são características de todos os juízos objectivos.

 

 

 

No Teste 4, após um texto sobre a moral de Kant (grupo II) perguntam os autores:

 

«1.2) O que distingue os imperativos hipotéticos dos categóricos?

Resposta: «Os imperativos categóricos distinguem-se dos imperativos hipotéticos, porque são obrigações absolutas, como «Não mintas!», ao passo que os hipotéticos são condicionais, como «se não quiseres ser apanhado, não mintas».

 

(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, Livro de apoio ao manual «Lições de Filosofia 10º ano», pagina 85 e 87).

 

Crítica minha: É uma resposta parcialmente equívoca, que não define o imperativo categórico, a não ser por ter um carácter moralmente obrigatório. Mas também se poderia encontrar um imperativo hipotético moralmente obrigatório do tipo:«Sobrevive, por qualquer meio!». Esta questão nem o próprio Kant resolveu...A propósito, importa ler a crítica penetrante de Max Scheler à ética formal de Kant contida no «Ética», de Scheler.

 

Os imperativos categóricos distinguem-se dos hipotéticos porque os primeiros se formulam do seguinte modo: «Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo desejar que ela se torne uma lei universal». Exemplo: «A minha máxima pessoal é pensar filosofia com clareza , assim vou divulgar as minhas reflexões filosóficas e propiciar que todos difundam as suas reflexões filosóficas no espaço público universal». Ao passo que o imperativo hipotético não tem um fim universal, uma intenção de abranger a humanidade de forma equitativa, mas uma finalidade egoísta. Exemplo: «Vou escrever artigos filosóficos não para esclarecer o universo dos interessados no mas para me tornar famoso».

 

E no teste 7 lê-se:

 

«8- Uma resposta ao problema do mal é a de que...

a. A existência do mal é necessária para a existência do livre-arbítrio.

b. Parece que existe mal no mundo, mas não se trata realmente de mal.

c. Se Deus existe, não poderia existir mal no mundo.

d. Sem Deus, todo o mal seria permitido».

 

(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, Livro de apoio ao manual «Lições de Filosofia 10º ano», pagina 97).

 

Segundo os autores, a resposta correcta é a 8-a.

 

Crítica minha: as quatro respostas 8-a, 8-b. 8-c e 8-d estão correctas. Na verdade dizer que parece existir mal no mundo mas isso é ilusão (8-b) é uma resposta que alguns biologistas e alguns religiosos oferecem ao problema do mal. Dizer que se Deus existe, não poderá existir mal no mundo (8-c), logo Deus não existe, é a resposta de muitos ateus. Dizer que sem Deus, todo o mal seria permitido (8-d) é uma resposta generalizada dos teístas. Esta questão é um exemplo nítido de como os "analíticos" são de visão estreita: vêem a árvore, mas não a floresta.

 



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Quarta-feira, 24 de Abril de 2013
Equívocos no manual «Lições de Filosofia, 10º Ano» da Didáctica Editora ( Crítica de Manuais Escolares - XLIX)

 

O manual «Lições de Filosofia 10º ano» de Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, da Didáctica Editora,  incorre nos habituais erros da filosofia analítica sobre as correntes da acção humana no plano do livre-arbítrio, determinismo e indeterminismo. .

 

CONFUSÕES SOBRE LIBERTISMO E SEU SUPOSTO INCOMPATIBILISMO


 

Escrevem Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho:

 

«A teoria libertista combina duas teses: primeiro, que o determinismo é incompatível com o livre-arbítrio; segundo, que temos livre-arbítrio. Estas teses estão relacionadas: segundo o libertista, nem tudo está determinado precisamente porque temos livre-arbítrio» (Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 38, Didáctica Editora; o destaque a negrito é posto por mim).

 

 

Esta definição é uma incoerência, no seu conjunto: se nem tudo está determinado - ou seja, por exemplo, o movimento da água evaporando-se da superfície terrestre, condensando-se em nuvens e precipitando-se sobre a Terra é determinismo, o envelhecimento dos organismos vivos obedece a determinismos, etc - é porque temos livre-arbítrio, ou seja, há compatibilidade entre determinismo e livre-arbítrio. Se ambos existem, são compatíveis no quadro global da realidade. A compatibilidade é uma coexistência, não é necessariamente uma fusão ou interpenetração. Logo, é um erro dizer que o libertismo é um incompatibilismo - é um chavão, uma frase feita, sobre a qual não se opera reflexão.

 

E a definição de libertismo dada neste manual é, substancialmente, a mesma do compatibilismo ou determinismo moderado porque ambas admitem um livre-arbítrio e determinismo, e em ambas o livre-arbítrio pode agir contra o determinismo. Duplicação sob nomes diferentes, erro de raciocínio. É como dizer sobre uma dada estrada inclinada: «esta estrada que sobe não é a mesma estrada que desce».

 

Heráclito, do fundo dos séculos, ensina estes confusos «pensadores» analíticos: «o caminho que sobe e o caminho que desce são um e o mesmo». O caminho que sobe poderia ser o «libertismo» e o caminho que desce o «determinismo moderado». São, segundo estas definições, a mesma coisa, ora enfatizando verbalmente a liberdade, ora enfatizando o determinismo.

 

SOMOS SEMPRE CONSTRANGIDOS POR SITUAÇÕES ANTERIORES?

 

Lê-se neste manual:

«Comparemos as duas situações seguintes:

 

Situação 1. O João escolhe ficar em casa a estudar em vez de ir ao cinema.

Situação 2. O João é obrigado pelos seus pais a ficar em casa a estudar.

 

O determinista moderado defende que na situação 1 a acção do João é livre porque nada o obrigou a escolher uma coisa em vez de outra. Mas defende que na situação 2 a escolha de João não foi livre, porque foi obrigado pelos pais a ficar em casa. Contudo, a única diferença entre 1 e 2 é o tipo de constrangimento em causa. Na situação 2, o João é constrangido pelos pais. Na situação 1, é constrangido pelos acontecimentos anteriores.» (Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 42, Didáctica Editora).

 

Como se pode demonstrar que na situação 1 é constrangido pelos acontecimentos anteriores? Não pode. Sucede que, naquele momento, João acha que se vai aborrecer com o filme e por isso escolhe ficar em casa. É isto ser constrangido por acontecimentos anteriores?

 

É possível ainda argumentar contra a tese deste manual que «na situação 2 a escolha de João não foi livre, porque foi obrigado pelos pais a ficar em casa» com o pensamento de Sartre de que «nunca fomos tão livres como debaixo da ocupação alemã»  em 1940-1944 porque aí podíamos escolher sem meias tintas: resistir ao nazismo ou colaborar com ele. De facto, se João ficou em casa «obrigado» pelos pais foi porque não quis assumir a sua liberdade de rebeldia. Logo, a sua aceitação foi de livre vontade, derivou do exercício do livre-arbítrio porque, a menos que estivesse trancado no quarto e a chave da porta da parte de fora, preferiu a submissão do «animal doméstico». Podia ter saído de casa, desafiando a vontade dos pais. A sua decisão foi livre, apesar da condicionante. O mar da liberdade move-se sempre entre as rochas de condicionantes, mas a água flui, vai e vem, mesmo contornando as rochas ou submergindo-as.

 

ERROS NAS DEFINIÇÕES DE RELATIVISMO E OBJECTIVISMO

 

A definição de relativismo enferma do habitual erro da filosofia analítica:

 

«A tese central da teoria relativista é que os juízos de valor são relativos às sociedades. Quando uma sociedade condena ou aceita um determinado juízo de valor não pode estar enganada. Isto contrasta com os juízos de facto.» (Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 54, Didáctica Editora; o destaque a negrito é da minha autoria).

 

Esta definição é falsa e incoerente. A sociedade francesa, até há um mês atrás condenava, maioritariamente, e rejeitava, juridicamente, a legalização dos casamentos gays e lésbicos e a adopção de crianças por casais homossexuais. Era, portanto, «relativista» segundo, o raciocínio dos autores deste manual e «não podia estar enganada». .. Há dias, em 23 de Abril de 2013, por votação na Assembleia Nacional francesa, com 331 votos a favor (socialistas, comunistas e outra esquerda) e 225 votos contra (direitas), foi aprovada a lei autorizando o casamento de gays e lésbicas e a adopção por estes de crianças. Isto, sim, é relativismo, variação de posição/ verdade teórica, axiológica, jurídica. E nega a definição de relativismo dada acima segundo a qual «quando uma sociedade condena ou aceita um determinado juízo de valor não pode estar enganada.» Esta definição do manual  é absolutismo e não relativismo.

 

Por outro lado, Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho persistem em ignorar, por limitação de inteligências ou subserviência  face às cúpulas universitárias ou ambas as coisas, que relativismo é o mosaico de opiniões e ideias no seio de uma mesma sociedade. É relativismo haver ecologistas, comunistas, conservadores, sociais-democratas, católicos, ateus, agnósticos, benfiquistas, sportinguistas, portistas, etc, cada um com a sua ideologia e valores.

 

Sobre objectivismo escreve o manual:

 

«A tese central da teoria objectivista é que alguns juízos de valor são objectivos; o objectivismo não defende que todos os juízos de valor são objectivos. Isto significa que quando uma pessoa ou uma sociedade condena ou aceita um dado juízo de valor, pode estar enganada, tal como acontece com os juízos de facto.»

(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 57, Didáctica Editora; o destaque a negrito é da minha autoria).

 

Esta definição peca por vagueza. É tautológica: objectivismo é... juízos de valor objectivos. Não se diz com clareza o que é objectividade, que esta se divide em duas modalidades: extra anima e intra anima. Coitados, não sabem, não têm precisão no pensamento... A dialética é, para eles, uma estranheza.

 

Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho continuam petrificados nas suas erróneas definições, atrelados ao frágil pensamento de Thomas Nagel, John Searle, Peter Singer e outros, apesar de lerem este blog há anos e terem obrigação de rectificar os seus gritantes equívocos em filosofia. Nada a fazer.. O poder corrompe. Os mestres e doutorados nas universidades estabelecem, em regra, entre si um pacto de silêncio e aceitação dos erros uns dos outros.

 

Antes de tudo, «há que preservar a autoridade sobre os alunos, não pôr em dúvida as cátedras, e estar nas boas graças da opinião pública (im)pensante», dos editores e jornalistas, da classe dominante.  Assim pensam os antifilósofos, dominados por um pragmatismo estreito de ganhar dinheiro com manuais das grandes editoras e popularizar a superficial filosofia analítica que os faz "ser alguém" no mundo burguês dos títulos universitários e das certificações.

 

 

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Segunda-feira, 19 de Março de 2012
David Hume considerava a matemática um conhecimento a priori? (Crítica de manuais escolares - XLI)

 

Diversas imprecisões sobre David Hume são veiculadas nos manuais de filosofia para o ensino secundário. Um exemplo é o do manual «A arte de pensar» da Didáctica Editora, no qual se lê que «David Hume reconhece que há conhecimento a priori»:

 

 

«A priori e a posteriori»

 

«Os exemplos mais óbvios de verdades necessárias são as verdades matemáticas, as quais se limitam a exprimir relações de ideias. Mas são também conhecidas a priori, pois basta-nos usar o conhecimento para conhecê-las ou o raciocínio dedutivo para demonstrá-las. Por sua vez as verdades sobre questões de facto são contingentes e são conhecidas a posteriori, defende Hume. Mas o que significa tudo isto? »

«Significa que o conhecimento a priori, apesar de absolutamente certo, não é acerca do mundo, pois a sua verdade é independente de qualquer observação do mundo. Portanto, Hume reconhece que há conhecimento a priori, mas acrescenta que este conhecimento não é substancial, no sentido em que nada nos diz sobre o que existe fora do pensamento, nem nos diz como são as coisas no mundo. Isso só a posteriori podemos sabê-lo. » (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, pag. 158, Didáctica Editora; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Ora, David Hume disse exatamente o oposto: em matemática, não há conhecimentos a priori. Vejamos o que escreveu:

 

«Geralmente, os matemáticos alegam que as ideias que lhes servem de objeto são de natureza tão refinada e tão espiritual que não entram na concepção da imaginação, mas devem ser compreendidas por uma visão pura e intelectual, de que só as faculdades da alma são capazes. A mesma opinião anda espalhada pela maior parte da filosofia e é principalmente utilizada para explicar as nossas ideias abstratas e para formar a ideia de um triângulo que, por exemplo, não seja nem isósceles, nem escaleno, nem se restrinja a um determinado comprimento e proporção dos lados. É fácil de ver por que é que os filósofos gostam tanto desta teoria das percepções espirituais e refinadas: é que por este meio encobrem muitos dos seus absurdos e podem recusar submeter-se ao juízo das ideias claras, recorrendo a ideias obscuras e incertas. Porém, para destruir este artifício não temos senão que refletir no princípio tantas vezes repetido de que todas as nossas ideias são cópias das nossas impressões.»( David Hume, Tratado da natureza humana, pags 106-107, Fundação Calouste Gulbenkian; o destaque a negrito é colocado por mim).

 

 

Hume diz que é um absurdo pretender, como o fazem muitos matemáticos e filósofos, que as ideias abstratas são obtidas por uma visão pura e intelectual, que não derivam de dados empíricos, isto é, que são obtidas a priori. Para Hume, esta teoria das percepções espirituais ou refinadas, a priori, esquece que as ideias são sempre singulares e a ideia de triângulo isósceles é cópia de impressões sensíveis de um triângulo isósceles determinado. Não há, segundo Hume, ideias nem cálculos matemáticos a priori, ao contrário do que acima afirmam os autores de «A arte de pensar».

 

HUME É CÉTICO OU NÃO?

Escreve ainda a «Arte de pensar»:

 

 

«Cepticismo moderado»

 

«Apesar das suas conclusões céticas, Hume não é um cético. Isto porque, ao contrário dos céticos, Hume defende que não devemos abandonar as nossas crenças intuitivas na existência do mundo exterior ou na existência de relações causais reais. Isto porque abandonar as nossas crenças tornaria a nossa vida impossível e poria em causa o nosso instinto de sobrevivência.» (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, pag. 163, Didáctica Editora; o destaque a negrito é posto por mim).

 

 

Assim, segundo este texto, Hume produz conclusões céticas mas não é um cético. É cético e não é cético, diz a «Arte de pensar». É um pouco confuso, convenhamos...Quererão os autores dizer que Hume é cético em algumas áreas e dogmático noutras? É preciso ser claro. Em quais? É realista? É idealista? Sobre isto, a «Arte de Pensar» é omissa. Basta dizer que é cético? Não, porque, pelos vistos, o nevoeiro do ceticismo não cobre a totalidade das afirmações de Hume.  

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 09:25
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