Quinta-feira, 20 de Outubro de 2016
Teste de filosofia do 10º ano de escolaridade, turma A (Outubro de 2016)

Eis um teste de filosofia do 10º ano que explora a rubrica «Os grandes temas da filosofia».

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA A

 

20 de Outubro de 2016. Professor: Francisco Queiroz

I

“Poderá classificar-se a teoria de Platão como um dogmatismo crítico, de teor metafísico e ético. O modo de pensar e viver dos filósofos-reis, na Polis ideal de Platão, opunha-se, pelo menos aparentemente, ao ceticismo, pragmatismo e ao subjetivismo propagado pelos sofistas.”

 

1)Explique, concretamente este texto.

 

2)Relacione, justificando

A) Yang, Yin e Tao no taoísmo

B) Mundo do Mesmo ou Inteligível, Mundo do Semelhante e demiurgo em Platão.

C) Unidade da essência e multiplicidade das aparências empíricas nas teorias cosmológicas de Heráclito de Éfeso e Anaxágoras.

D).Ascese em Platão e as teses de que «filosofar é aprender a morrer» e «o corpo é o cárcere da alma.

 

 

1) Dogmatismo crítico é toda a teoria que assenta em certezas construídas com a ajuda de dúvidas, do ceticismo, uma teoria que exigiu reflexões profundas. As teorias científicas em geral são dogmatismos críticos: afirmar que o número atómico do hidrogénio é 1 e o do oxigénio 8 exigiu experiências e cálculos matemáticos, são dogmas que passaram o crivo da crítica. O dogmatismo de Platão é metafísico, trata do invisível e inaudível, na medida em que postula que há um mundo de modelos perfeitos, imóveis e eternos (Bem, Belo, Justo, Sábio, Cubo, Esfera, Homem, Mulher, etc) acima do céu visível. É crítico porque sustenta teses que exigem muita reflexão como, por exemplo, «o tempo é a imagem móvel da eternidade», «conhecer é recordar». É ético porque fala dos modelos eternos do Bem e do Justo. (VALE QUATRO VALORES). Os filósofos-reis ou arcontes, na pólis de Platão, eram homens e mulheres, dotados de alta virtude intelectual e moral, que faziam as leis e governavam a cidade. Não podiam ter prata nem ouro nem privilegiarem os seus filhos, por isso viviam em comum e faziam troca de casais, de modo a não saber quem era o pai de cada criança. Ao inspirarem-se nos arquétipos do Mundo Inteligível rejeitavam o ceticismo, doutrina  que duvida de tudo, incluindo o mundo dos Arquétipos, o pragmatismo, doutrina que diz que a verdade se limita ao mundo empírico e prático, devendo pôr-se de parte os princípios metafísicos mais ou menos impossíveis de serem postos em prática e o subjectivismo, doutrina que afirma que a verdade não é objetiva, varia de pessoa a pessoa. Estas doutrinas eram comuns entre os sofistas, filósofos do período antropológico da Grécia antiga, em regra professores, advogados, juristas e políticos que ensinavam retórica e cobravam dinheiro (VALE QUATRO VALORES).

 

2) A) O Tao é a mãe do universo, algo de obscuro e silencioso que circula por toda a parte e é o modelo do céu e divide-se em duas ondas formando uma sinusoidal: o Yang (alto, calor, dilatação, verão, som, sol, vermelho, movimento, exterior) e o Yin (baixo, frio, contração, inverno, silêncio, lua, azul, imobilidade, interior). A sucessão dos dias e das noites, do trabalho e do repouso, das sementeiras e colheitas, representa o ritmo yang-yin, faz parte do Tao do universo. (VALE TRÊS VALORES).

 

2) B) Mundo Inteligível (kosmos noéthos) é o mundo dos Arquétipos ou modelos eternos de Bem, Belo, Justo, Sábio, Números, Homem, Mulher, etc, acima do céu visível. É incriado. Mundo do Semelhante (kosmos homóios) é o mundo do céu visível, do tempo e das operações matemáticas, composto pelo Sol e astros incorruptíveis em movimento. O demiurgo é o deus operário que fez o Mundo do Semelhante e o mundo do Outro ou Sensível, este último feito de corpos físicos corruptíveis (pedras, árvores, rios, planícies, animais, etc) tomando como modelo os arquétipos de Astro, Árvore, Montanha, Rio, etc. (VALE TRÊS VALORES)

 

2)C) Na teoria de Heráclito, há uma essência una (unidade da essência) em todas as coisas: o fogo. As árvores, as pedras, os animais, a terra, etc.,- ou seja as múltiplas aparências empíricas, as coisas que vemos e tocamos - são fogo condensado, arrefecido, às vezes liquidificado ou sublimado. Na teoria de Anaxágoras, um mesmo objecto visível, macroscópico - exemplo uma cenoura- é composto de milhares de princípios ou formas minúsculas da mesma natureza,chamados princípios homeoméricos, - a cenoura é composta de milhares de pequeníssimas cenouras invisíveis. Um mesmo princípio homemomérico - a essência fígado humano, por exemplo - pode estar presente microscopicamento na multiplicidade das cenouras, e das beringelas, que são aparências empíricas ou objectos visíveis que, ingeridas, fortalecem o fígado humano.(VALE TRÊS VALORES)

 

2) D) A ascese é a ascensão da parte superior da alma humana, o Nous, ao Mundo Inteligível, enquanto está ligada ao corpo humano vivo.  Há vários métodos de ascese: filosofia, porque esta nos ensina a morrer para os bens materiais e a fama («Que importa passares a vida a acumular ouro se ao morrer deixas tudo? Pensa, filosofa sobre a rapidez da vida»); matemática, porque se baseia na contemplação dos Arquétipos de Números Um, Dois, Três, Quatro Cinco, etc, e de Cubo, Esfera, Cone, etc; música, na medida em que nos eleva espiritualmente, não se trata de qualquer tipo de música; ginástica, em particular o ioga; jejum, na medida em que domina a gula e outras paixões do corpo. (TRÊS VALORES)

 

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Sexta-feira, 8 de Julho de 2016
O relativismo contradiz-se?

Antes de mais, o que é o relativismo ? É a concepção segundo a qual a verdade, seja a realidade material ou as teorias sobre ela, é relativa, emite raios de diferentes dimensões para diversas áreas do ser ou do conhecimento ou mede estas áreas com raios de diferentes dimensões e valorações.

O relativismo não é, em si mesmo, cepticismo. Não é, em si mesmo, relativo. Relativismo é uma noção absoluta e como tal não varia, não se contradiz, obedece ao princípio da identidade. Representa variabilidade mas, em si mesmo, é invariável. É um dogma absoluto que toda a verdade moral, política, religiosa, científica, artística, é relativa à época, à sociedade, à classe social, à etnia - neste sentido o relativismo é inatacável e invariável na sua forma essencial. O que varia é a forma acidental, existencial, do relativismo.  A forma acidental ou concreta do relativismo é um sair fora de si do absoluto da definição. E é verdade que as doutrinas ou verdades relativas, sectoriais - exemplo: o combate entre o ateísmo e a crença religiosa- se combatem entre si, se contradizem, mas isso não é o relativismo que se contradiz pois este constitui a sinopse, o quadro global dos diferentes matizes. O relativismo é como uma roda da bicicleta cujos raios estivessem todos pintados de tonalidades diferentes.

 

O absoluto do relativismo é a tese de que tudo varia e o relativo do relativismo são as formas concretas que ele assume: comunismo, liberalismo, social-democracia são expressões do relativismo sócio-económico; doutrina corpuscular da luz versus teoria ondulatória da luz são expressões do relativismo cosmofísico;  teísmo, ateísmo, deísmo e panteísmo são expressões do relativismo (ar)religioso;

 

O cepticismo anda encostado ao relativismo mas não se confundem. O cepticismo nasce no interstício entre duas emanações dogmáticas diferentes no mesmo tema. Exemplo: o casamento monogâmico cristão, ao ser comparado com o casamento aberto dos swingers e com o casamento poligâmico faz nascer a dúvida (cepticismo) sobre qual será o melhor modelo de casamento. Estão próximos mas são distintos. O relativismo é ontognosiológico, o ceticismo é meramente gnosiológico. Assim, o relativismo é dogmático flexível.

 

No relativismo, a forma geral permanece a mesma - a verdade é um mosaico - o que muda é o conteúdo das partes.

 

 

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Sábado, 19 de Março de 2016
Teste de Filosofia do 10º ano, turma B (Março de 2016)

 

Eis um teste de filosofia fora do estereótipo dos testes que os autores dos manuais escolares da Porto Editora, Leya, Santillana, Areal Editores, etc, divulgam. E sem questões de escolha múltipla que, frequentemente, são incorrectamente concebidas por quem não domína o método dialético e desliza para a horizontalidade da filosofia analítica vulgar.

 

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA B

3 de Março de 2016. Professor: Francisco Queiroz.

 I

  “A lei do salto de qualidade está presente no comportamento do mítico Adão Kadmon. A luta entre Yang e Yin exprime, a cada momento, a lei dos dois aspetos da contradição. A democracia parlamentar parece coadunar-se com a moral utilitarista de Stuart Mill, num certo aspeto, e com o imperativo categórico de Kant, sob outro aspeto.”

1) Explique, concretamente este texto.

 

2)Escolha e caracterize (qualidade, número, cor, planeta) cada uma de cinco esferas da árvore dos Sefirós e distribua-as segundo a lei da contradição principal, enunciando esta

 

3) Construa um diálogo sobre a propriedade e a gestão das empresas e sobre a democracia parlamentar entre um anarquista, um comunista leninista, um socialista democrático, um liberal, um conservador e um fascista.

 

 

4) Relacione, justificando

A) Valores ético-políticos de esquerda e valores ético-políticos de direita.

B)  Sensação, percepção empírica, conceito empírico e intuição inteligível.

C)Pragmatismo, cepticismo e metafísica

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

1) A lei do salto qualitativo postula que a acumulação lenta e gradual em quantidade de um dado aspecto de um fenómeno leva a um salto brusco ou nítido de qualidade nesse fenómeno. Adão Kadmon, metade homem e metade mulher (Sofia, a sua parte espiritual), vivia no Paraíso e pouco a pouco (acumulação quantitativa) deixou-se seduzir pelos apelos de Lúcifer, o anjo proscrito nos Infernos, e saíu do Paraíso (salto qualitativo), perdendo Sofia, a sua esposa espiritual e ficando com um corpo material. (VALE DOIS VALORES). A luta entre Yang (fogo, luz, expansão, masculino, alto, crescimento) e Yin (água, escuridão, contração, feminino, baixo, diminuição) exprime a lei que diz que numa contradição há dois aspectos em regra  desigualmente desenvolvidos, o dominante e o dominado, que trocam de posição (exemplo: de dia o Yang domina sobre o Yin e de noite o Yin prevalece sobre o Yang) (VALE DOIS VALORES). A democracia parlamentar é o regime de liberdade de imprensa, greve, religião, associação política e sindical em que o governo do país é escolhido por um parlamento nacional eleito por sufrágio livre e universal e coaduna-se com a filosofia da Stuart Mill porque este defende que se deve agir em função de proporcionar a felicidade à maioria das pessoas e a democracia é um regime de maiorias, em princípio. Também se coaduna com o imperativo categórico de Kant porque este diz «Age de modo a considerares cada pessoa como um fim em si e não um meio» e a democracia parlamentar dá a todos os cidadãos, encarados como fins em si, o direito de votar escolhendo os governantes e a política estatal. (VALE TRÊS VALORES)

 

2) A lei da contradição principal diz que um sistema de múltiplas contradições pode ser reduzido a uma só, organizando-as em dois blocos. Ora ao contemplarmos a árvore das 10 sefirós da Cabala podemos agrupar duas esferas do pilar direito - Chesed (Misericórdia, Júpiter, cor azul e número 4) e Netzac ( Vitória-Emoção, Vénus, cor verde e número 7) num bloco oposto a duas esferas do pilar esquerdo- Gueburah (Justiça, Marte, cor vermelha, número 5) e Hod (Intelecto, Mercúrio, cor laranja e número 8), ficando Thiphetet (Sol) na zona neutra, fora de ambos os blocos. (VALE TRÊS VALORES)

 

3) Anarquista: «A propriedade das fábricas e de todas as empresas deve ser dos trabalhadores. Instituímos a autogestão, isto é, a assembleia geral de todos os operários, engenheiros e contabilistas toma decisões sobre salários, investimentos, vendas, etc. O patrão desaparece e desaparece o Estado de democracia parlamentar que não é mais que ditadura disfarçada dos capitalistas.»

Comunista: «A propriedade de todas ou quase todas as fábricas deve ser do Estado, dirigido por um partido marxista-leninista, que impedirá os patrões de extorquirem a mais valia à classe operária. A democracia burguesa, que actualmente apoiamos, concorrendo às eleições e usando as liberdades de greve e manifestação de rua, deve ser substituída pela ditadura do proletariado onde não há eleições livres nem imprensa livre como no capitalismo liberal».

 

Socialista democrático/ social-democrata: «A propriedade da grande maioria das empresas deve ser privada, isto é, estar na mão dos patrões que, em certos casos, devem aceitar a cogestão. Mas há empresas de sectores fundamentais - siderurgia, electricidade, televisão, etc - que devem estar na mão do Estado democrático. Este deve impor impostos progressivos aos capitalistas de modo a ter serviço nacional de saúde e escolaridade pública gratuita até ao final do curso universitário. Defendemos a democracia parlamentar e o Estado social».

 

Liberal: «A propriedade das empresas deve ser privada pois os empresários são os criadores de emprego os motores primeiros da economia. Os subsídios de desemprego e o rendimento social de inserção deviam acabar ou ser reduzidos para estimular o mercado de trabalho. Defendo as privatizações, democracia parlamentar, a liberdade de imprensa, o capitalismo puro e duro.»

 

Conservador: «A propriedade das empresas deve ser privada pois os empresários são os criadores de emprego os motores primeiros da economia. Os subsídios de desemprego e o rendimento social de inserção deviam acabar ou ser reduzidos para estimular o mercado de trabalho. Defendo as privatizações, a democracia parlamentar, a liberdade de imprensa. Mas a democracia não deve permitir o aborto livre, o casamento de gays e lésbicas, a eutanásia: deve ser guiada por bons princípios religiosos, cristãos.»

Fascista: «As empresas devem ser de patrões nacionais e do Estado fascista e corporativo que, através da polícia política e da censura à imprensa impedirá a luta de classes, o sindicalismo livre, a imoralidade sexual. Não deve haver democracia parlamentar mas ditadura nacionalista que expulse a generalidade dos imigrantes e tenha por princípios «Deus, pátria, família» como princípios fundamentais». (VALE QUATRO VALORES).

4-A) Os valores políticos de esquerda são: o predomínio do interesse público sobre o privado, o fortalecimento dos sindicatos e do poder da classe operária e das classes médias, havendo ou não a supressão dos patrões privados enquanto classe social, o ateísmo, o agnosticismo e a dissidência religiosa, a defesa da democracia parlamentar contra o fascismo. Os valores políticos da direita são: o predomínio do interesse privado sobre o interesse público, o fortalecimento do poder dos empresários, com aumento das privatizações e da liberdade de despedir empregados, o combate ao comunismo e ao anarquismo, a defesa da igreja católica ou de igrejas protestantes e de valores religiosos e tradicionais, a manutenção ou não (neste último caso: a extrema direita fascista) da democracia parlamentar. (VALE UM VALOR).

 

4-B) A percepção empírica é a captação visual, auditiva, táctil, olfativa daquilo que está diante de nós (a visão da árvore e da planície onde estou agora, a audição do canto dos pássaros, etc). A sensação é um fragmento da percepção empírica. Exemplo: a cor verde da erva, o som do pássaro. O conceito empírico é a ideia de uma coisa ou classe de coisas obtida por abstração de percepções empíricas similares. Exemplo: «Vi cem planícies alentejanas semelhantes a esta, fecho os olhos e tenho o conceito-imagem de planície alentejana». Intuição inteligível é a captação intelectual e a-racional de algo metafísico. Exemplo: «Sinto que há Deus ou deuses». (VALE TRÊS VALORES).

 

4-C) Pragmatismo é a teoria que diz que devemos lidar, de forma útil, com os factos empíricos palpáveis e devemos pôr de parte a metafísica, os grandes princípios morais ou políticos inaplicáveis de momento. O cepticismo é a corrente que põe tudo ou uma parte das coisas em dúvida e é usado pelo pragmatismo. (VALE DOIS VALORES).

 

                  

 

 

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Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2016
Teste de Filosofia do 10º ano, turma B (Fevereiro de 2016)

 

 Os conteúdos deste teste de filosofia referentes a alquimia, cabala e princípio das correspondências macrocosmos-microcosmos integram-se na rubrica «Os grandes temas da filosofia» e são relativos a uma visita de estudo ao centro histórico de  Sevilha em que se fará hermenêutica de monumentos antigos e seus pormenores artísticos.

 

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA B

4 de Fevereiro de 2016. Professor: Francisco Queiroz.

 I

“A filosofia da alquimia sustenta a divisa «solve e coagula» e a existência de três princípios/ substâncias do universo material. O templo cristão na idade média foi construído segundo o princípio das correspondências microcosmo-macrocosmo. O não agir do taoísmo exige não só a percepção empírica mas também o conceito empírico e a intuição inteligível".

 

1) Explique, concretamente este texto.


2) Relacione, justificando:

A) Seis esferas da árvore cabalística das Sefirós, as respectivas qualidades, cores e planetas associados a cada uma, e a planta do templo cristão medieval.

 

B) As quatro fases do processo alquímico e respectivas aves, por um lado, realismo e idealismo, por outro lado

 

C)Agir por dever e agir em conformidade com o dever em Kant e três partes da alma na teoria de Platão


D)  Máxima e imperativo categórico em Kant e o princípio moral do utilitarismo em Stuart Mill.

 

3) O que é e para que serve a filosofia? Tem o direito de gerar metafísica? É dogmática? É céptica? É objetiva? É subjetiva?

Disserte sobre isto (mínimo: 7 linhas).

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

1) A filosofia da alquimia, doutrina esotérica, hermética que sustenta o processo da Grande Obra ou criação laboratorial da pedra filosofal que concederia a imortalidade ao homem, dotando-o de um corpo astral desmaterializado como o mítico Adão Kadmon (metade homem e metade mulher), defende que há três princípios/ substâncias originárias do universo, o enxofre ou homem vermelho (princípio masculino), sólido, o mercúrio filosófico ou mulher branca (princípio feminino), volátil, e o sal, neutro. A divisa «solve e coagula» significa dissolver o enxofre, sólido, e coagular o mercúrio líquido ou gasoso que se esparge pelas esferas celestes de forma a obter o equilíbrio e a pedra filosofal, ou lapis vermelho  (VALE TRÊS VALORES). O princípio das correspondências microcosmo-microcosmo da filosofia hermética sustenta que o que está em baixo é como o que está em cima, há uma analogia entre o microcosmo ou pequeno universo e o macrocosmo ou grande universo. Assim, o templo cristão da idade média obedeceu a essa lei: o macrocosmos seria um corpo gigantesco de Cristo de braços abertos que atravessaria o universo inteiro e o templo a construir seria um macrocosmos que imitaria, em forma de cruz, esse corpo macrocósmicos. A abside do templo, orientada a Este, ponto cardeal onde nasce o Sol (Cristo é o Sol espiritual) equivale à cabeça, o transepto aos braços abertos, o altar ao coração, as naves ao tronco e pernas de Cristo. (VALE DOIS VALORES) O não agir do taoísmo, isto é, o quietismo ético, doutrina que incita a ser contemplativo, a levar a vida simples de um camponês ou de um artesão e a desprezar a política, as expedições militares e as guerras, os grandes negócios e títulos universitários, exige a percepção empírica, isto é, ver tocar, saborear coisas e situações, o conceito empírico, isto é, a ideia extraída de percepções sensoriais (exemplo: o conceito empírico de guerra é abstraído das percepções de casas destruídas por bombas, corpos ensanguentados nas ruas, disparos ou espadeiradas contra pessoas). Exige também a intuição inteligível isto é um flash ou iluminação metafísica (exemplo: a intuição de que a maior virtude é seguir o Tao, o ritmo natural dos dias e das noites, etc). (VALE TRÊS VALORES)

 

2) A) A árvore das Sefirós (Esferas) é o diagrama do universo, segundo a Cabala (ensinamento secreto) judaica, uma «heresia» do judaísmo como religião de massas. Essa árvore de 10 esferas, que são 10 qualidades manifestas de Deus, é composta de um hexágono em cima, um triângulo debaixo deste e um ponto isolado no fundo. Podemos aplicar este diagrama à planta em cruz da catedral cristã fazendo coincidir Kéther, a primeira Sefiró, com a abside do templo, Binan e Guevurah com a extremidade esquerda do transepto, Hockman e Chesed com a extremidade direita do transpeto, Tiferet com o altar no pilar central.

 

                               KÉTHER (Coroa)

                                Planeta: Úrano

                                Esfera nº 1

                                 Cor : Indefinida

 

BINAH:                                               CHOCKMAH

Esfera nº 2                                          Esfera nº 3

Inteligência                                          Sabedoria

Feminina                                              Masculina

Saturno                                                Neptuno

Cor Negra                                           Cor iridescente

 

GUEVURAH                                          CHESED

Esfera nº 5                                             Esfera nº 4

Justiça                                                    Misericórdia

Marte                                                       Júpiter

Cor: Vermelho                                        Cor Azul

 

                                     THIPHERET

                                      Esfera nº 6.

                                      Beleza. 

                                      Sol                                     

                                      Cor: amarelo ouro.

                                                 (VALE TRÊS VALORES)

 

B) As quatro fases da Grande Obra Alquímica que visa produzir o elixir da longa vida ou pedra filosofal em laboratório são: nigredo, ou fase negra, da putrefação da matéria transformada no laboratório a que corresponde o corvo; albedo, ou fase branca de separação das impurezas, a ave é o cisne; citredo, ou fase multicolor, de alguma dominancia do amarelo limão, a ave é o pavão; rubedo, ou fase vermelha na qual se dá a produção da pedra filosofal cuja ave é a fénix. O realismo é a corrente ontológica que sustenta que a matéria existe em si mesma fora dos espíritos humanos. Parece corresponder à realidade dos processos alquímicos, com as retortas, o atanor (forno), etc. O idealismo é a corrente ontológica que diz que o universo de matéria não passa de um conjunto de ideias ou percepções empíricas dentro da imensa mente de um ou vários indivíduos humanos.A alquimia tanto pode ser encarada de um ponto de vista realista (exemplo: o atanor ou forno do alquimista é real, está ali, etc)  como do ponto de vista idealista ontológico (exemplo: o mundo material e o laboratório não passam de um sonho). (VALE TRÊS VALORES).

2-C) Agir por dever, na doutrina de Kant, é universalizar a sua máxima ou princípio subjetivo, agir de acordo com o imperativo categórico que cada um gera no seu eu racional: trata cada ser humano como um fim em si mesmo, alguém digno de respeito, e nunca como um meio para chegares a fins egoístas. Isto liga-se ao Nous ou parte superior, racional, da alma humana, em Platão, que contempla os arquétipos e dirige os filósofos.reis que vivem colectivamente, sem ouro nem prata, numa casa do Estado e fazem as leis. Também se liga ao Tumus ou parte intermédia da alma que representa o valor militar dos guerreiros, auxiliares dos filósofos-reis.

Agir em conformidade com o dever é cumprir a lei do Estado por medo de ser punido e liga-se à parte inferior da alma humana, a epythimia ou concupiscência, sede dos prazeres egoístas de enriquecer materialmente com ouro e prata, comer requintadamente, desfrutar vida luxuosa, etc. " (VALE DOIS VALORES).

 

2-D- O imperativo categórico ou verdadeira lei moral postula: «Age como se quisesses que a tua ação fosse uma lei universal da natureza». Resulta da universalização da máxima, da aplicação equitativa do princípio subjectivo moral de cada um ou máxima. Exemplo: se a minha máxima é «Combato a vacinação obrigatória porque as vacinas infectam o organismo» o meu imperativo categórico será «Vou difundir a ideia de que a vacinação é nociva e não me vacinarei nem as minhas filhas, quaiquer que sejam as sanções contra mim.» O princípio moral de Stuart Mill é, em cada situação, promover a felicidade da maioria das pessoas, mesmo sacrificando a minoria. Em regra, isto opõ-se ao imperativo categórico de Kant que é absolutamente equitativo e trata por igual todos os indivíduos. (VALE DOIS VALORES).

 

3) A filosofia é uma interpretação livre ou o conjunto das interpretações livres do mundo, dotadas de variáveis graus de especulação (teorização de assuntos difíceis ou impossíveis de demonstrar objectivamente). Naturalmente, gera metafísica, isto é, doutrina sobre os entes e fenómenos invisíveis e imperceptíveis, imaginários ou reais do universo (deuses, reencarnação, buracos negros do universo, ) e sobre as causas primeiras da vida e o sentido desta. A filosofia é dogmática, assenta em certezas, e simultaneamente é cética, instala-se na dúvida. É ao mesmo tempo objectiva (exemplo: os três mundos em Platão são objectivos no sentido em que podem ser compreendidos por toda a gente) e subjectiva na medida em que cada pessoa tem uma filosofia própria diferente das outras pessoas. (VALE DOIS VALORES).

 

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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2015
Teste de filosofia do 10º C (Fevereiro de 2015)

 

Os temas de alquimia incluídos neste texto conexionam-se com a visita de estudo a Sevilha que o liceu de Beja (ESDG) realiza anualmente. Nenhum manual do 10º ano de filosofia do ensino secundário em Portugal inclui textos sobre alquimia, filosofia hermética, astrologia - temas obrigatórios para quem queira pensar a sério filosofia. Um professor  de filosofia que não conheça os princípios da alquimia (o enxofre, o mercúrio e o sal), o dualismo yang-yin do taoísmo, as leis da dialética, o princípio das correspondências macrocosmos-microcosmos é um sujeito inculto, de mente quadrada, muito mais inculto que o empregado de escritório Fernando António Nogueira Pessoa, genial poeta e pensador, falecido em 30 de Novembro de 1935, em Lisboa. Hoje, vive-se um clima de censura na universidade portuguesa e mundial, pretensamente racionalista, comparável à censura da inquisição.

 

A esmagadora maioria dos actuais professores liceais e universitários de filosofia e sociologia são incompetentes, anti filosóficos. A universidade está infiltrada de doutorados que são alunos «marrões» que fizeram «copy paste» de trabalhos dos «mestres», fizeram o «beija-mão», pagaram milhares em propinas e foram cooptados. Os doutoramentos em filosofia enfermam de erros graves, em regra, e superabundam em verniz retórico. É um show-off. Vamos ao nosso teste que, certamente, ensina algo a muitos desses ignorantes donos de cátedras, agentes da burguesia inculta, superficial e endinheirada que domina o Estado e o sistema de ensino.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C
11 de Fevereiro de 2015. Professor: Francisco Queiroz

 

.”A queda de Adão levou Deus, segundo alguns filósofos, a criar a hebdómada fora do pleroma e assim passou a haver três mundos, uma vez que o inferno de Lúcifer já existia no kenoma. O templo cristão na idade média foi construído segundo o princípio das correspondências microcosmo-macrocosmo, que exprime a lei dialética do uno. Solve e coagula, divisa dos alquimistas, tal como o fluxo e refluxo da onda ou o par dogmatismo-cepticismo podem ser classificados de acordo com o dualismo Yang-Yin

 

1) Explique, concretamente este texto.

2) Relacione, justificando:

A) As quatro fases do processo alquímico e respectivas aves- símbolos, por um lado, e os quatro arkês segundo Pitágoras de Samos, por outro lado.

B) O imperativo categórico em Kant e o princípio moral do utilitarismo de Stuart Mill.

3) Enuncie a lei dialética da contradição principal e aplique-a a três ou quatro esferas (sefirós) da Árvore da Vida da Cabala judaica.

 

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE ESCRITO (COTADO PARA 20 VALORES)

1) A queda de Adão, que a bíblia apresenta como resultado de ter provado a maçã da árvore do conhecimento, consiste na perda do seu corpo glorioso, metade masculino metade feminino (Sofia, a sua parte feminina), que atravessaria as pedras e a matéria em geral: Deus tê-lo-ia expulsado do Paraíso Terrestre, na periferia do Pleroma ou mundo da Luz divina. Para evitar que Adão caísse no inferno de Lúcifer, no Kenoma ou mundo do Vazio, das trevas da matéria, Deus - ou segundo alguns; o demiurgo, um deus inferior - criou um mundo material com sete esferas planetárias, chamado Hebdómada  (a de Mercúrio, a de Vénus, a do Sol, a de Marte, a de Júpiter e a de Saturno) em redor da Terra onde ficou a viver Adão com a sua nova companheira, Eva, sujeitos às leis da matéria, da doemça e do envelhacimento e morte.  Ficou pois a haver três mundos: o Pleroma divino, a Hebdómada com a Terra no centro, e o Inferno de Lúcifer (VALE TRÊS VALORES).O templo cristão da idade média obedecia ao princípio hermético das correspondências «o que está em baixo é como o que está em cima, o microcosmo espelha o macrocosmo»: o templo é um microcosmo que espelha o macrocosmo, o corpo gigantesco de Cristo que atravessa o universo. Na planta da catedral, a  abside corresponde à cabeça de Cristo, o transepto aos braços abertos, o altar ao coração, as naves ao tronco e pernas. A catedral tinha a abside virada a Leste, onde nasce o Sol, símbolo de Cristo. A lei do uno diz que tudo se relaciona: Cristo com o Sol e com o templo em pedra, por exemplo. Outra expressão deste princípio é a correspondência entre a catedral e a natureza física envolvente: o altar equivale à montanha sagrada, as colunas às árvores, as abóbadas ao céu, as janelas de vitrais às estrelas e planetas, as paredes aos desfiladeiros, a pia baptismal aos lagos e mares (VALE  TRÊS VALORES). Solve e coagula é a divisa dos alquimistas (químicos metafísicos da antiguidade clássica e da idade média) e quer dizer dizer dissolver o masculino, sólido, o enxofre e coagular o feminino, líquido e gasoso, o mercúrio, a fim de obter o lapis ou pedra filosofal, vermelha. Os dois princípios de que os alquimistas falavam são o princípio masculino, representado pelo enxofre e pelo salitre, sólidos, designado de «homem vermelho» e o princípio feminino, o mercúrio filosófico, líquido e volátil, designado de «mulher branca». No taoísmo, yang significa princípio masculino, dilatação, calor, verão, vermelho, som e yin significa princípio feminino, contração, inverno, azul ou branco, silêncio. Embora o yang corresponda de modo geral ao enxofre e o yin ao mercúrio, a correspondência não é perfeita porque no taoísmo o sólido é o feminino e na alquimia o sólido é o masculino. O dogmatismo é a corrente filosófica que afirma existir certezas, expansão do conhecimento - nesse sentido pode equparar-se ao Yang e ao fluxo da onda - e o cepticismo é a posição filosófica que proclama a dúvida quase sobre tudo, contracção do conhecimento que se reduz ao visível e palpável imediato - neste sentido pode equiparar-se ao Yin e ao refluxo da onda(VALE TRÊS VALORES).

 

2- A) As quatro fases do processo alquímico e respectivas correspondências com a teoria de Pitágoras - esta é uma interpretação entre outras - são:

NIGREDO ou fase negra, da putefração do cadáver. A ave é o corvo. Pode equiparar-se ao ponto que em Pitágoras representava o número um (Do vazio veio um ponto).

ALBEDO ou fase branca, da separação das impurezas.A ave é o cisne. Pode equiparar-se à linha recta que representa o número dois e se forma da separação em dois do ponto, pontos que se vão afastando.

 

CITREDO ou fase amarela e polícroma. A ave é o pavão. Pode equiparar-se ao plano, número três segundo Pitágoras, que se formou quando um ponto se destaca da recta e . É esta multiplicidade, onde existe Sol e Lua, que irá originar o lapis da última fase.

 RUBEDO ou fase vermelha na qual se produz o lápis ou elixir da longa vida ou pedra filosofal que permite ao homem regressar ao estado adâmico, adquirir um corpo andrógino que atravessaria as pedras e a matéria densa e viveria no Paraíso Terrestre. A ave é o pelicano ou a fénix. Pode equiparar-se ao tetraedro ou pirâmide de três lados, porque este sólido é o mais completo dos arkhês.  (VALE QUATRO VALORES)

 

2-B) O imperativo categórico é a verdadeira lei moral em Kant, é formado na razão ou eu numénico, que se opõe aos instintos corporais e ao eu fenoménico ou inferior. Enuncia-se assim: «Age de modo a transformares a tua máxima em princípio universal, como se fosse uma lei universal da natureza que não beneficia em particular ninguém, nem sequer a ti mesmo». Este imperativo é formal e autónomo, varia de pessoa a pessoa no seu conteúdo concreto.

O princípio moral de Stuart Mill é o da maximização social do prazer: é bem promover a felicidade da maioria dos envolvidos numa situação, mesmo à custa da infelicidade da maioria ou do próprio autor da acção.

Teoricamente,  é imoral, na doutrina de Kant, expropriar 20 famílias que vivem em casas de um bairro que a câmara municipal da cidade quer destruir para aí fazer uma circular rodoviária exterior para satisfazer 20 000 famílias que vivem nessa cidade porque cada pessoa é um fim em si mesma e deve-se aplicar a todas a mesma lei. Mas segundo a ética de Stuart Mill seria legítimo destruir esse bairro porque o interesse da maioria (20 000 famílias) se sobrepõe ao interesse da maioria (20 famílias). Ainda que se classifique habitualmente a moral de Kant como «deontológica», centrada no dever («déon») e a de Mill como «teleológica», centrada nos resultados da acção, a verdade é que esta última é igualmente «deontológica» porque para Mill os fins não justificam qualquer meio, há princípios morais a respeitar. (VALE QUATRO VALORES)

 

C) A lei dialética da contradição principal consiste em reduzir um conjunto de contradições a uma só composta por dois blocos. Exemplo: na 2ª Guerra Mundial, a URSS aliou-se à Inglaterra, aos EUA, ao Canadá, Brasil e formaram o bloco dos Aliados, e a Alemanha aliou-se à Itália e Roménia fascistas e ao Japão formando o bloco do Eixo. A árvore da Vida, cabalística é composta por dez esferas ou sefirós que exprimem as qualidades conhecidas de Deus. A forma da árvore é um hexágono tendo por baixo um triângulo de vértice para baixo e no final, abaixo do triângulo,  uma esfera isolada. Podemos escolher três esferas, duas do lado direito da árvore - a Sabedoria (Hocmah) e a Misericórdia (Chesed) - e uma do lado esquerdo - a Justiça- Severidade (Gueburah).. Neste caso a Justiça, de um lado, opõe-se à Sabedoria e à Misericórdia, do outro. (VALE TRÊS VALORES)

  

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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2015
Teste de filosofia do 10º B (Fevereiro de 2015)

 

Os temas de alquimia incluídos neste texto conexionam-se com a visita de estudo a Sevilha que o liceu de Beja (ESDG) realiza anualmente. Nenhum manual do 10º ano de filosofia do ensino secundário em Portugal inclui textos sobre alquimia, filosofia hermética, astrologia - temas obrigatórios para quem queira pensar a sério filosofia -  o que diz da qualidade bastante medíocre desses manuais. E diz do clima de monolitismo cinzento e da estreiteza de horizontes impostos pelos catedráticos de filosofia analítica e fenomenologia que dominam a universidade e a construção de manuais escolares do 10º e 11º ano. Vive-se um clima de censura na universidade portuguesa e mundial, pretensamente racionalista, comparável à censura da inquisição: é proibido, dentro das universidades, pensar e investigar os astros como causa dos acontecimentos sociais e políticos!

 

A maioria dos actuais professores universitários são incompetentes, anti filosóficos. A universidade está infiltrada de doutorados que são alunos «marrões» que fizeram «copy paste» de trabalhos dos «mestres», fizeram o «beija-mão», pagaram milhares em propinas e foram cooptados. Os doutoramentos em filosofia enfermam de erros graves, em regra, e superabundam em verniz retórico. É um show-off. Vamos ao nosso teste que, certamente, ensina algo a muitos desses ignorantes donos de cátedras e autores ou co-autores de manuais escolares, agentes da burguesia inculta e endinheirada que domina o Estado e o sistema de ensino.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA B
9 de Fevereiro de 2015. Professor: Francisco Queiroz

 

"Os alquimistas falavam em dois princípios originais da matéria e da Grande Obra, aos quais se aplicam as noções de Yang e de Yin. O templo cristão na idade média foi construído segundo o princípio das correspondências microcosmo-macrocosmo, que exprime a lei dialética do uno. Alguns dizem que isto é puro subjectivismo, outros são cépticos sobre a gnose e preferem o pragmatismo pois detestam os factos metafísicos.”

 

1) Explique, concretamente este texto.

2) Relacione, justificando:

A) As quatro fases do processo alquímico e respectivas aves- símbolos, por um lado, e os quatro arkês segundo Pitágoras de Samos, por outro lado.

B) O imperativo categórico em Kant e o princípio moral do utilitarismo de Stuart Mill.

3) Enuncie a lei dialética da contradição principal e aplique-a a três ou quatro esferas (sefirós) da Árvore da Vida da Cabala judaica. 

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE ESCRITO (COTADO PARA 20 VALORES)

1) Os dois princípios de que os alquimistas falavam são o princípio masculino, representado pelo enxofre e pelo salitre, sólidos, designado de «homem vermelho» e o princípio feminino, o mercúrio filosófico, líquido e volátil, designado de «mulher branca». No taoísmo, yang significa princípio masculino, dilatação, calor, verão, vermelho, som e yin significa princípio feminino, contração, inverno, azul ou branco, silêncio. Embora o yang corresponda de modo geral ao enxofre e o yin ao mercúrio, a correspondência não é perfeita porque no taoísmo o sólido é o feminino e na alquimia o sólido é o masculino. (VALE TRÊS VALORES) O templo cristão da idade média obedecia ao princípio hermético das correspondências «o que está em baixo é como o que está em cima, o microcosmo espelha o macrocosmo»: o templo é um microcosmo que espelha o macrocosmo, o corpo gigantesco de Cristo que atravessa o universo. Na planta da catedral, a  abside corresponde à cabeça de Cristo, o transepto aos braços abertos, o altar ao coração, as naves ao tronco e pernas. A catedral tinha a abside virada a Leste, onde nasce o Sol, símbolo de Cristo. A lei do uno diz que tudo se relaciona: Cristo com o Sol e com o templo em pedra, por exemplo. Outra expressão deste princípio é a correspondência entre a catedral e a natureza física envolvente: o altar equivale à montanha sagrada, as colunas às árvores, as abóbadas ao céu, as janelas de vitrais às estrelas e planetas, as paredes aos desfiladeiros, a pia baptismal aos lagos e mares (VALE  TRÊS VALORES). Alguns dizem que isto é puro subjectivismo, isto é, verdade para uma só consciência - portanto discutível, aparentemente ilusão - outros são cépticos, isto é, duvidam da gnose, doutrina dualista que diz que há dois princípios na origem do universo, o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas, o Espírito e a Matéria, e preferem o pragmatismo, ou seja, a doutrina que diz que a verdade está nos factos empíricos reais e na sua utilidade e que põe de parte a metafísica, os ideais utópicos, pois detestam os factos metafísicos, que estão além do mundo empírico quotidiano como «deus», «paraíso e inferno», «reencarnação da alma», etc (VALE TRÊS VALORES).

 

 A) As quatro fases do processo alquímico e respectivas correspondências com a teoria de Pitágoras - esta é uma interpretação entre outras - são:

1ªNIGREDO ou fase negra, da putefração do cadáver. A ave é o corvo. Pode equiparar-se ao ponto que em Pitágoras representava o número um (Do vazio veio um ponto).

2ªALBEDO ou fase branca, da separação das impurezas.A ave é o cisne. Pode equiparar-se, na teoria de Pitágoras, à linha recta que representa o número dois e se forma da separação em dois do ponto, pontos que se vão afastando.

 

3ªCITREDO ou fase amarela e polícroma. A ave é o pavão. Pode equiparar-se ao plano, número três, segundo Pitágoras, que se formou quando um ponto se destaca da recta e se projecta sobre ela através de infinitas rectas. É esta multiplicidade de cores, onde existe Sol e Lua, que irá originar o lapis da última fase.

 RUBEDO ou fase vermelha na qual se produz o lapis ou elixir da longa vida ou pedra filosofal que permite ao homem regressar ao estado adâmico, adquirir um corpo andrógino desmaterializado, que atravessaria as pedras e a matéria densa e viveria no Paraíso Terrestre. A ave é o pelicano ou a fénix. Pode equiparar-se, na teoria de Pitágoras, ao tetraedro ou pirâmide de três lados, porque este sólido é o mais completo dos arkhês. 

(VALE QUATRO VALORES)

 

B) O imperativo categórico é a verdadeira lei moral em Kant, é formado na razão ou eu numénico, que se opõe aos instintos corporais e ao eu fenoménico ou inferior. Enuncia-se assim: «Age de modo a transformares a tua máxima em princípio universal, como se fosse uma lei universal da natureza que não beneficia em particular ninguém, nem sequer a ti mesmo». Este imperativo é formal e autónomo, varia de pessoa a pessoa no seu conteúdo concreto. Para uns, o imperativo é dar sempre esmola aos pedintes, para outros é nunca dar esmola nem aceitar esmolas.

O princípio moral de Stuart Mill é o da maximização social do prazer: é bem promover a felicidade da maioria dos envolvidos numa situação, mesmo à custa da infelicidade da maioria ou do próprio autor da acção.

Teoricamente,  é imoral, na doutrina de Kant, expropriar 20 famílias que vivem em casas de um bairro que a câmara municipal da cidade quer destruir para aí fazer uma circular rodoviária exterior para satisfazer 20 000 famílias que vivem nessa cidade porque cada pessoa é um fim em si mesma e deve-se aplicar a todas a mesma lei respeitando a sua dignidade. Mas, segundo a ética de Stuart Mill seria legítimo destruir esse bairro porque a felicidade da maioria (20 000 famílias) se sobrepõe à felicidade da minoria (20 famílias). Ainda que se classifique habitualmente a moral de Kant como «deontológica», centrada no dever («déon»), e a de Mill como «teleológica» («télos» é finalidade. em grego), centrada nos resultados da acção, a verdade é que esta última é igualmente «deontológica» porque para Mill os fins não justificam qualquer meio, há princípios morais a respeitar. (VALE QUATRO VALORES).

 

C) A lei dialética da contradição principal consiste em reduzir um conjunto de contradições a uma só composta por dois blocos, passando a ser secundárias entre si todas as contradições no interior de cada um dos blocos ou polos. Exemplo: na 2ª Guerra Mundial, a URSS aliou-se à Inglaterra, aos EUA, ao Canadá, Brasil e formaram o bloco dos Aliados, e a Alemanha aliou-se à Itália e Roménia fascistas e ao Japão formando o bloco do Eixo. A árvore da Vida, cabalística é composta por dez esferas ou sefirós que exprimem as qualidades conhecidas de Deus- porque há um Deus inatingível e incognoscível, o Ein Sof, ou Nada Infinito. A forma da árvore é um hexágono tendo por baixo um triângulo de vértice para baixo e no final, abaixo do triângulo,  uma esfera isolada. Podemos escolher três esferas, duas do lado direito da árvore - a Sabedoria (Hocmah) e a Misericórdia (Chesed) - e uma do lado esquerdo - a Justiça- Severidade (Gueburah).. Neste caso a Justiça, de um lado, opõe-se à Sabedoria e à Misericórdia, do outro. (VALE TRÊS VALORES)

 

 

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Sexta-feira, 9 de Maio de 2014
Equívocos no manual «Como pensar tudo isto? Filosofia 11ºano» da Sebenta (Crítica de Manuais escolares LXII)

 

 

Vários equívocos impregnam o manual  do professor Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano, de Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolando Almeida,  revisão científica de Sofia Miguens, da editora Sebenta

 

 

O CEPTICISMO É AUTORREFUTANTE? É INSUSTENTÁVEL?

 

Sobre o cepticismo, lê-se no manual:

 

« Objecções ao cepticismo

O cepticismo é insustentável

 

«Alguns autores encaram o cepticismo como uma posição autorrefutante. Uma perspectiva é autorrefutante quando se refuta a si mesma, isto é, quando demonstra a sua própria falsidade. Em que medida se pode considerar que o cepticismo incorre neste tipo de erro? Bem, a resposta salta à vista: é simplesmente contraditório afirmar que se sabe que o conhecimento não é possível.  Afinal de contas, se o conhecimento fosse verdadeiramente impossível nem isso se poderia saber. Mas será que isto constitui uma ameaça séria para o cepticismo?» (...)

«Há, contudo, uma crítica mais séria com a qual o cepticismo tem de lidar. No texto que se segue, Bertrand Russell, um dos mais importantes filósofos do século XX, faz notar que, embora possamos ter razões para suspender a crença em relação a este ou àquele assunto, é implausível pensarmos que temos razões para colocar em suspenso todas as nossas crenças em simultâneo.

 

"É claro que é possível que todas ou qualquer uma das nossas crenças possa estar errada, e consequentemente todas devem ser adoptadas com pelo menos um ligeiro elemento de dúvida. Mas não poderemos ter razão para rejeitar uma crença excepto com base noutra crença qualquer" . (Bertrand Russell, Os problemas da filosofia, Trad. Desidério Murcho, Lisboa, Edições 70, 2008, p.87)

 

«Com estas palavras, Russell pretende defender que, embora uma certa forma de cepticismo seja recomendada para nos prevenir de dar assentimento precipitado a algumas crenças, o cepticismo extremo é uma posição insustentável do ponto de vista racional. »

 

(Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolando Almeida, Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano,  revisão científica de Sofia Miguens,  editora Sebenta, pág. 137)

 

Esta argumentação dos autores do manual, e de Bertrand Russell, de que "o cepticismo é autorrefutante, insustentável" cai pela base se atentarmos na definição integral de cepticismo: «Corrente filosófica que afirma ser impossível o conhecimento em todos os domínios, à excepção do conhecimento da tese de que "nada se pode conhecer, tudo são aparências fugazes ou ilusões". Esta definição não se auto contradiz. A definição é a ilha no meio do mar da incerteza. O mar não submerge a ilha. Uma das falhas do pensamento analítico é a destruição da barreira entre definição e objecto definido, fazendo com que este último absorva e destrua a definição que o engloba e transcende.

 

Qual é o valor da argumentação de Russell contra o cepticismo? Nenhum. Ao dizer que «não podemos refutar uma crença a não ser que tenhamos outra» Russell não demonstra nada, faz uma profissão de fé (pistis, em grego) nos orgãos dos sentidos e nos conhecimentos erguidos a partir de estes. Ademais o cepticismo radical rejeita todos os conhecimentos/ crenças, com base na crença de que «nada se pode conhecer», portanto, cumpre a exigência de Russell no texto acima de não se ficar no vazio, sem crer em nada.

 

Por que razão podemos, segundo Russell, ser parcialmente cépticos mas não globalmente cépticos? Já sabemos que o céptico global é só 99% céptico porque aceita um único dogma, o  de que «tudo é incognoscível»; em todo o yang há um pouco de yin.  Russell não justificou a sua tese. Ninguém pode justificar o anti cepticismo de maneira categórica, excluente. É uma questão de gosto, de perspectiva. Do mesmo modo que ninguém pode refutar o comunismo leninista dizendo que «há mais liberdade individual sob o capitalismo de mercado e a democracia parlamentar». A refutação é intersubjectiva: os conservadores, os liberais e socialistas aceitam que o «leninismo é mau, ditatorial», os comunistas, vivendo em democracia capitalista, preferirão sempre a vida da Cuba leninista da "ditadura do proletariado" à vida dos EUA ou da Europa capitalista.

 

FALSA DICOTOMIA CEPTICISMO-FUNDACIONALISMO

 

O manual estabelece uma dicotomia entre cepticismo e fundacionalismo (ver gráfico da página 178, com bifurcação entre estes dois conceitos):

 

«O cepticismo é a perspectiva segundo a qual devemos suspender o juízo relativamente à verdade ou falsidade de uma proposição, pois no geral as nossas pretensões de conhecimento são injustificadas.» (...)

«O fundacionalismo rejeita a conclusão do argumento céptico da regressão infinita, pois defende que nem todas as crenças se justificam com base noutras crenças - existem crenças básicas, que são de tal modo evidentes que se justificam a si mesmas.»

 

(Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolando Almeida, Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano,  revisão científica de Sofia Miguens,  editora Sebenta, pág. 178-179)

 

 

Esta dicotomia cepticismo-fundacionismo é falsa, fruto do magma da confusão dos autores e revisora. O cepticismo pertence ao género ontognosiológico, ao passo que fundacionismo pertence ao género protológico. Não podem opor-se: são espécies de géneros diferentes. Sobre isto Blackburn, Zizeck e a multidão de autores analíticos ou fenomenológicos nada sabe. É dialéctica, no sentido mais alto do termo.

 

David Hume era céptico sobre a natureza da matéria exterior ao dizer que não se pode demonstrar que há objectos físicos como mesas, casas e montanhas, fora do nosso espírito, e ao mesmo tempo, era fundacionista ao colocar as impressões empíricas e as relações filosóficas inerentes à razão como fundamento do limitado conhecimento que o ser humano possui.

 

Os primeiros cépticos gregos Pirron e Timón eram fundacionistas uma vez que afirmavam poder conhecer as aparências - fundavam-se nas aparências - mas não a essência oculta e o sentido oculto das coisas. Assim, fundavam-se nos sentidos. Eram empiristas, de certo modo como David Hume seria séculos mais tarde.

 

 

 

A AUSÊNCIA DE REFERÊNCIA À OPOSIÇÃO REALISMO-IDEALISMO

 

Se consultarmos o glossário deste manual, não encontramos as definições de idealismo nem de realismo. Ora é impossível explicar cabalmente a gnosiologia de Descartes sem explicar e posicionar as teses do realismo e do idealismo ontognoseológico. Em 20 páginas a explicar o pensamento de Descartes, - da página 141 à página 161 - não há uma única referência aos conceitos de realismo e idealismo gnosiológicos, o que prova a fragilidade teórica do manual.

 

ERROS NAS RESPOSTAS DE ESCOLHA MÚLTIPLA

 

Como é habitual nas perguntas de escolha múltipla forjada por autores (de)formados pela escola da filosofia analítica, este manual e guias anexos contêm erros abundantes. Vejamos exemplos no «Guia do Professor,  Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano».

 

No Teste Sumativo 4, figura a seguinte questão que pede uma única resposta certa, excluindo as outras:

 

6. En filosofia recorre-se à argumentação, ao diálogo e à discussão racional para:

 

A. descobrir como as coisas realmente são.

B. descobrir como prever o futuro.

C. descobrir a opinião de cada um.

D. descobrir como as coisas são para cada um. («Guia do Professor,  Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano», pág. 32)

 

Segundo o manual, a única resposta certa é a 6-A.

 

Crítica Minha: não há uma mas três respostas certas, a 6-A, 6-C e 6-D. É absolutamente arbitrário e ilógico dizer que a filosofia visa «descobrir como as coisas realmente são»  (hipótese A) mas não visa «descobrir como as coisas são para cada um» (hipótese D). Isso é fechar a porta da subjectividade à filosofia. E está ainda certo dizer que a filosofia visa «descobrir a opinião de cada um» (hipótese C). Por aqui se pode ver a roleta russa a que os alunos estão sujeitos com uma pergunta mal concebida de várias respostas certas.

 

No Teste Sumativo 5, figura a seguinte questão que pede uma única resposta certa, excluindo as outras:

 

2. O objecto do conhecimento prático é...

A.  uma pessoa, lugar ou objecto.

B.  uma proposição.

C.  uma proposição verdadeira

D.  uma actividade.

 

Guia do Professor,  Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano», pág. 32)

 

Segundo o manual, a única resposta certa é a 6-D.

 

Crítica minha: há duas respostas certas, 6-A e 6-D. Que é o conhecimento prático? Não é apenas o saber-fazer. É também o conhecimento por contacto, isto é, a visão, audição, tacto, sabor, etc, das coisas diante de nós. Ora ver uma pessoa ou um objecto, vivenciar um lugar, é conhecimento prático. Opõe-se ao conhecimento teórico ou proposicional.

 

 

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Quarta-feira, 23 de Abril de 2014
Imprecisões no manual «Ser no Mundo, Filosofia 11ºAno» da Areal (Crítica de Manuais Escolares- LIV)

 

Diversas imprecisões pautam o manual do professor da Areal Editores «Ser no mundo, filosofia 11º ano» de André Leonor e Filipe Ribeiro, com revisão científica de Viriato Soromenho-Marques e Vera Rodrigues, sem embargo de possuir textos de boa qualidade.

 

OS EMPIRISTAS DIZEM QUE A ÚNICA FONTE DE CONHECIMENTO É OS SENTIDOS?

 

Diz o manual da Areal:

 

« Segundo os empiristas, a única fonte do conhecimento são os sentidos. O conhecimento não pode resultar da razão, dado que esta não possui qualquer informação. » (André Leonor, Filipe Ribeiro, «Ser no mundo, filosofia 11º ano», com revisão científica de Viriato Soromenho-Marques e Vera Rodrigues, Areal Editores, pág. 163; o destaque a negrito é de minha autoria).

 

Isto não é, rigorosamente, verdade. Para alguns empiristas, os radicalmente sensualistas ou sensacionistas, anti-intelectualistas, os sentidos são a única fonte de conhecimento. Mas para outros, como David Hume, os sentidos são a principal mas não exclusiva fonte de conhecimento: a razão e a imaginação são também fontes (imateriais) do conhecimento.

 

David Hume escreveu:

 

«Há sete espécies de diferentes de relação filosófica: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. Podem dividir-se estas relações em duas classes: as que dependem inteiramente das ideias que comparamos entre si e as que podem variar sem qualquer mudança de ideias. É da ideia de triângulo que deduzimos a relação de igualdade que existe entre os seus três ângulos e dois rectos; e esta relação é invariável enquanto a nossa ideia permanecer a mesma. As relações de contiguidade e distância entre dois objectos pelo contrário podem variar apenas por uma alteração de lugar, sem qualquer mudança nos objectos ou nas ideias; e o lugar depende de inúmeras circunstâncias diversas, as quais a mente não pode prever. O mesmo se pasa com a identidade e a causação.» (David Hume, Tratado da Natureza Humana, pag 103, Fundação Calouste Gulbenkian; a letra negrito é colocada por mim).

 

Afinal estas relações filosóficas vêm dos sentidos? Ou são construções da razão e da imaginação aplicadas aos dados dos sentidos e simultâneas a estes?  São construções da razão, a posteriori. Não se pode limitar o conhecimento ao dado empírico, segundo Hume e outros empiristas.

O DOGMATISMO SÓ DEFENDE QUE O CONHECIMENTO É POSSÍVEL?

 

Lê-se no manual:

 

«Entende-se por dogmatismo a posição que defende que o conhecimento é possível e que a defesa da sua impossibilidade não faz sentido. Para o dogmático, é evidente que há contacto entre sujeito e objecto e que o conhecimento que temos da realidade corresponde à verdade. Por conseguinte, é também evidente a possibilidade de apreensão da realidade por parte do ser humano. Segundo os defensores do dogmatismo, essa confiança resulta da capacidade racional do ser humano.»(André Leonor, Filipe Ribeiro, «Ser no mundo, filosofia 11º ano», com revisão científica de Viriato Soromenho-Marques e Vera Rodrigues, Areal Editores, pág 154).

 

Há uma flutuação de imprecisão nesta definição de dogmatismo. Este é a teoria das certezas, do conhecimento real, efectivo e não apenas da possibilidade do conhecimento. O probabilismo, uma síntese entre cepticismo e dogmatismo, estabelece que o conhecimento é provável, possível, - e nesse ponto é dogmatismo - mas recusa-se a determiná-lo em concreto - e aqui é cepticismo. Portanto, o probabilismo defende que o conhecimento é possível tal como o dogmatismo. Não é a possibilidade que os distingue já que é comum a ambos.

 

A frase «Segundo os defensores do dogmatismo, essa confiança resulta da capacidade racional do ser humano.» está parcialmente errada. Há empiristas, dogmáticos, que sustentam que essa confiança na verdade do conhecimento resulta da capacidade perceptiva empírica, e não da razão...

 

SÓ HÁ CONHECIMENTO VERDADEIRO? NÃO HÁ CONHECIMENTO VEROSÍMIL?

 

Vejamos agora uma tese da filosofia analítica que o manual defende:

 

«1- Só existe conhecimento se ele for verdadeiro.»

 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, «Ser no mundo, filosofia 11º ano», com revisão científica de Viriato Soromenho-Marques e Vera Rodrigues, Areal Editores, pág 147).

 

Há conhecimento da Bíblia e da ideia de Paraíso nela contida. Ora, o Paraíso é verdadeiro?  É verosímil: pode existir, de facto, embora não possamos jurar que existe. Há conhecimento mentalmente verdadeiro e potencialmente falso na realidade extra-mental. A este conhecimento chama-se verosímil, provável. A teoria da Terra Oca é um conhecimento especulativo, verosímil sobre a existência do reino de Agartha, onde viveria uma civilização de seres humanos, no interior do núcleo do planeta Terra. Não é um conjunto de proposições sem sentido, como diz o positivismo lógico.

 

Os autores do manual tomam a posição do «ou é preto ou é branco, não há tons intermédios, ou o conhecimento é verdadeiro ou não é conhecimento». É uma falácia de falsa dicotomia. Existe o conhecimento verosímil.

 

INDISTINÇÃO ENTRE DOGMATISMO INGÉNUO E DOGMATISMO CRÍTICO

 

Sobre as duas posições extremas quanto à possibilidade de conhecimento lê-se mo manual:

 

«Originariamente, podem ser identificadas duas posições extremas quanto à possibilidade do conhecimento: dogmatismo ingénuo e cepticismo radical.

Os defensores do dogmatismo ingénuo sustentam que o ser humano é capaz de conhecer. Para os defensores do cepticismo radical o conhecimento não é possível. Estas duas posições radicais contrastam com outras posturas mais moderadas. Alguns pensadores acreditam que é possível conhecer uma parte da realidade (por exemplo, os defensores do dogmatismo metafísico) outros acreditam que o conhecimento do mundo é limitado mas que a verdade existe, apesar de não nos ser acessível (posição defendida, por exemplo, pelo cepticismo moderado).»

 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, «Ser no mundo, filosofia 11º ano», com revisão científica de Viriato Soromenho-Marques e Vera Rodrigues, Areal Editores, pág 167).

 

Crítica minha: dogmatismo ingénuo está incompletamente definido ao dizer-se que «os defensores do dogmatismo ingénuo sustentam que o ser humano é capaz de conhecer»  quando a definição correcta é: «o dogmatismo ingénuo sustenta que o ser humano conhece a realidade sem duvidar das aparências». O manual não alude a dogmatismo crítico, que é o contraponto do dogmatismo ingénuo,  mas apresenta a noção vaga de dogmatismo metafísico como sendo esse contraponto. Ora o dogmatismo ingénuo inclui, em regra, o dogmatismo metafísico (Exemplo: creio no Paraíso, no Inferno e creio que a erva é verde e o céu é azul e que o Sol e a Lua se deslocam no céu ao longo do dia») ainda que exista dogmatismo metafísico crítico. Ingénuo não se opõe a metafísico mas sim a não ingénuo, crítico.

 

 

AUSÊNCIA DE DEFINIÇÃO CLARA DO BINÓMIO IDEALISMO-REALISMO 

 

Os tratados ou dicionários de filosofia, nas suas classificações das correntes gnosiológicas, fazem sempre referência,ao binómio realismo-idealismo. Este manual «Ser no mundo, 11º ano» quase omite pura e simplesmente o tema, apesar de ter uma ou outra referência transversal:

 

«Platão representa a forma mais antiga de racionalismo, ainda que normalmente seja conhecido como idealista devido à sua teoria das ideias universais.» (André Leonor, Filipe Ribeiro, ibid pág. 161).

 

Há citações de autores para definir realismo como a seguinte, que aponta o «realismo das ideias» em Platão:  

 

«Herdeiro desta tradição, a primeira concepção de um Russel segundo a qual os objectos e as relações matemáticas têm uma existência real e separada do espírito, é também um realismo (...) Através do realismo exprime-se a ideia segundo a qual o espírito não é Todo-Poderoso, que não pode por si próprio atingir ou conduzir ao verdadeiro, que a verdade se impõe sem que possamos dispor dela...» (VVAA, Dicionário Prático de Filosofia, Terramar, pp. 328-329, citado in «Ser no Mundo, Filosofia 11º», Areal Editores, pág 256).

 

Não se fornece, no entanto, a definição, ou as diversas definições, de idealismo. Isto é uma prova de debilidade teórica de autores e revisores do manual, de não dominarem a ontognosiologia, em particular a distinção entre o idealismo -nas suas várias acepções - e o realismo - nas suas várias acepções. Descartes é idealista ou realista? E David Hume? E Kant?  Apesar de abordarem a doutrina destes filósofos em alguns aspectos, os autores do manual nada dizem sobre o assunto. Presume-se que não sabem classificar como realismo ou idealismo estas doutrinas e os seus diferentes degraus.

 

 

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Domingo, 9 de Dezembro de 2012
Heidegger confundiu subjectivismo com idealismo subjectivo

Em «Caminhos de Bosque», o filósofo alemão Martin Heidegger  (26 de Setembro de 1889, Mebkirch- 26 de Maio de 1976, Friburgo) destaca a importância do sujeito, da subjectividade de cada homem, como a base da liberdade, e situa Descartes como o descobridor desse fundamento. Escreveu:

 

« A tarefa metafísica de Descartes passou a ser a seguinte: criar o fundamento metafísico para a libertação do homem em favor da liberdade como autodeterminação com certeza de si mesma. (...)

«O fundamentum, o fundamento da dita liberdade, o que subjaz na sua base, o subjectum, tem que ser portanto algo certo que satisfaça as citadas exigências essenciais. »(Martin Heidegger, La época en la imagen del mundo, in Caminos de Bosque, pag. 87).

 

E prossegue Heidegger:

 

 «Na sofística grega qualquer subjectivismo é impossível porque nela o homem nunca pode ser subjectum. Nunca pode chegar a sê-lo porque aqui o ser é presença e a verdade desocultamento».

«No desocultamento, acontece a phantasía, o chegar a aparecer o presente como tal para o homem que está, por sua vez, presente para o que aparece. Sem embargo, como sujeito representador, o homem fantasia, quer dizer, move-se no imaginário, na medida em que a sua capacidade de representação imagina o ente como aquilo objectivo dentro do mundo como imagem.» (Martin Heidegger, La época en la imagen del mundo, in Caminos de Bosque, pag. 88, Alianza Editorial, Madrid; o destaque a negrito é de minha autoria).

 

Trata-se de um equívoco sério de Heidegger.  Na sofística grega, não há subjectivismo? É óbvio que há e já em Platão o havia, em certa medida. Aliás, a fantasia não é um fenómeno somente colectivo da espécie humana: ela tem um veio singular, individualizado, diferente de pessoa para pessoa e isso não é senão o subjectivismo. A grande revolução filosófica da transferência do centro de gravidade do conhecimento, do mundo exterior para o sujeito pensante, é já efectuada pelos sofistas, nomeadamente por Górgias, se atentarmos no que sobre este escreveu Sexto Empírico em «Adversus mathematicos, 65»:

 

«No livro intitulado «Do Não-Ser, ou da Natureza» Górgias definiu três princípios a saber: primeiro, que nada existe, segundo, se algo existe é incognoscível, e terceiro, se fosse cognoscível, não poderia ser comunicado, nem divulgado. » (citação de Sexto Empírico in Pinharanda Gomes, Filosofia Grega Pré-socrática, pag.273, Guimarães Editores; o destaque a negrito é de minha autoria)..

 

O cepticismo manejado por Descartes no século XVII já foi usado por Górgias. E o subjectivismo de Górgias é patente: se algo for conhecido, não pode ser comunicado, nem divulgado, fica no interior da consciência de um só sujeito.

 

Heidegger pensou confusamente: chamou subjectivismo, corrente gnosiológica que se bifurca em subjectivismo realista ou subjectivismo idealista,  ao idealismo subjectivo de Descartes que reduz o mundo a um conteúdo imaginário da consciência solipsista («Cogito, ergo sum»).

 

E a multidão dos heideggerianos, sejam ou não docentes universitários, não descobre estes erros do mestre, porque a universidade não pensa globalmente nem pormenorizadamente, é uma instituição contra-revolucionária de instalados, de gente doutorada que se arroga possuir o «saber».  De facto, cada doutoramento é uma especialização numa área ínfima do saber e é uma falácia indutiva chamar «doutor em filosofia» a alguém que se doutorou em torno de uma obra de um autor como Martin Heidegger, Jean Paul Sartre, Peter Singer ou qualquer outro. Um "doutor" na ética utilitarista ou em Bertrand Russel não é doutor em Aristóteles, ou em Platão, ou em Hegel e em tantas centenas de filósofos consagrados e temas diversos de filosofia...

 

Heidegger não tinha um pensamento perfeito, ainda que seja superior ao comum dos filósofos. E as universidades ou cátedras que o veneram cheiram a Vaticano, na sua vénia teocrática: olham-no como o Papa da fenomenologia, o representante directo da deusa da Filosofia na Terra. Não é assim. «Ser e tempo» é um livro abundante em confusões, com linguagem razoavelmente obscura. Heidegger nem sequer compreendeu bem a ontognosiologia de Kant, à semelhança de 99% dos catedráticos, como mostrei, neste blog, no artigo «O equívoco de Heidegger ao interpretar a ontognosiologia de Kant» em 9 de Janeiro de 2010.

 

 

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Sábado, 19 de Novembro de 2011
Equívoco de Hartmann sobre subjetivismo, ser-em-si e lógica

Nicolai Hartmann, o fundador de uma ontologia analítica,  identifica erroneamente subjetivismo com idealismo:

 

«É indispensável, se se quer dar à teoria do conhecimento um fundamento ontológico, que se possa demonstrar a existência de um irracional. Sem dúvida, bastaria em rigor provar que há um ser-em-si, para cortar pela raíz todo o subjetivismo. Mas esta prova só poderia ser fornecida permanecendo nas generalidades; ela daria simplesmente o ponto de vista abstrato da realidade ôntica em geral. Isso bastaria para cortar rente todas as formas de idealismo especulativo desde que o idealismo pretende trazer uma explicação positiva da origem do ser recorrendo seja ao subjetivismo seja à lógica; mas isso não suprimiria a possibilidade do ceticismo, a epoché puramente negativa.»

 

(Nicolai Hartmann, Les principes d´une méthaphisique de la connaissance, Tome I, pag 320, Aubier, Editions Montaigne, Paris, 1945; o negrito é posto por mim). 

 

Há erros noológicos importantes no pensamento de Hartmann aqui expresso. Existir o ser-em-si não elimina o subjetivismo, isto é, a teoria segundo a qual a verdade gnosiológica, ética, estética, etc, varia de sujeito a sujeito, é moldada de forma diferente no interior de cada consciência. Existe o ser-em-si chamado aparelho de Estado - governo, parlamento, finanças públicas, corpos de polícia e exército, escolas, hospitais e as respetivas sedes físico-arquitetónicas - e há uma multiplicidade de interpretações a favor ou contra esse ser-em-si, uma multiplicidade de subjetivismos. Um defende o regresso do Estado à forma monárquica corporativa, outro à forma de monarquia liberal constitucional, outro preconiza o Estado social-democrata, outro a extinção do Estado a favor do poder popular autogestionário, etc.

 

Também não é correto colocar em disjunção subjetivismo e lógica: «recorrendo seja ao subjetivismo, seja à lógica». O subjetivismo não se opõe, por essência, à lógica: cada subjetividade desenha uma lógica própria, particular, usando princípios lógicos gerais como o princípio da não contradição. Subjetivismo opõe-se a objetivismo como contrário, lógica opõe-se a absurdo como contrário. Saibamos arrumar as espécies e os géneros nas respetivas prateleiras.

 

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