Quarta-feira, 8 de Junho de 2016
Realidade independente e realidade aderente em Hartman

Hartman, um grande filósofo alemão (20 de Fevereiro de 1852- 9 de Outubro de 1950)  falou em ser em si de ordem ideal independente e de ser em si aparente.

 

«O verdadeiro ser-em-si de ordem ideal aparece de duas formas:

Pode definir-se a primeira como uma idealidade independente. Isto quer dizer que o ser ideal não se apresenta como inerente a qualquer outra coisa, ou como devendo repousar necessariamente sobre qualquer coisa diferente; por conseguinte, ele não aparece como uma essência pertencente a um ser real. Os objectos desta natureza são sem dúvida irreais e contudo existem em si e ao mesmo tempo, se os encaramos do ponto de vista da esfera a que pertencem, existem por si, quer dizer que são independentes, autónomos; não têm necessidade de se apoiar numa realidade que não seja de ordem ideal.»

 

«É uma idealidade deste género que possuem todas as estruturas que constituem a lógica pura e as matemáticas, o direito ideal e a esfera dos valores (pouco importa que se trate de valores vitais, éticos, estéticos ou ainda de outros, se é que existem).  (...)

 

«Gnoseologicamente falando, a idealidade "independente" deve distinguir-se da idealidade "aderente". Como o nome indica, esta só aparece inerente a um real, como essência de um real. Sem dúvida, a teoria pode pode destacá-la, separá-la, «colocá-la entre parenteses». Mas esta separação, trata-se em primeiro lugar de a efectuar: ela nunca é dada completamente feita. (...)

 

«É desta idealidade que relevam as essências, as leis, as relações essenciais descobertas pela fenomenologia, pouco importando, ademais, o seu conteúdo. A diferença entre "as essências de actos" e as "essências de objectos" é aqui secundária. (...) O físico e o psíquico são igualmente reais; pertencem um e outro a uma esfera comum, a esfera da realidade ôntica. Só as suas estruturas categoriais são diferentes. (...)

«Há ainda muitas outras coisas a ter em conta na idealidade "aderente".»

 

(Nicolai Hartmann, Les principes d´une Métahysique de la Connaissance, Tome II, pag 198,199, 200 Aubier, Editions Montagne, Paris; o bold é colocado por nós )

 

 

Em primeiro lugar, Hartman contradiz-se, ao menos em aparência: fala de objectos irreais que existem em si mesmos. Se existem, não são totalmente irreais pois existir é um modo da realidade. Hartman responderia que existe a irrealidade. O que significa que, segundo ele, a realidade é a existência física adicionada de algo mais. Esta é a visão de Hegel: a mera existência física não torna as coisas reais. Se um homem se vestir de faraó do Egipto e andar assim na rua hoje em dia é um existente mas não é real porque o tempo dos faraós já passou - a menos que se considere que a rainha de Inglaterra é descendente dos faraós do Egipto e utiliza a simbologia e os processos de dominação política destes (tese exposta no youtube por Spirit online TV).

 

Os números são uma idealidade independente que não aparecem como essência de um real? Não me parece que Hartmann esteja completamente certo. Será necessário clarificar o que Hartman entende por essência. Aparentemente, ele interpretava essência em sentido aristotélico: forma comum imutável e eterna, eidos (exemplo, a essência ÁRVORE) imanente a cada uma das ÁRVORES físicas existentes no planeta, embora admitindo, platonicamente, realidades ou formas inteligíveis, suprafísicas, subsistentes por si mesmas. Estas não seriam designadas por essências de algo. Os números são simultaneamente categorias ideais e categorias do real-material e vital. O número é uma forma genérica, isto é, uma «forma» sem forma específica.

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 10:39
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