Terça-feira, 23 de Setembro de 2014
Inconsistências de Olavo de Carvalho

 

 

Olavo de Carvalho (Campinas, Brasil, 29 de Abril de 1947) é um jornalista, conferencista e filósofo brasileiro, católico de direita, anticomunista, adversário da globalização e da elite global (Trilateral, grupo de Bilderberg, maçonaria Skull and Bones, etc) que domina a política, a cultura e a economia mundial. Tem razão em muitas das suas críticas às fragilidades e à corrupção da democracia parlamentar brasileira que classifica de «governo de ladrões». Mas não tem razão ao colocar-se na posição de um catolicismo fascista, que justifica a ditadura militar brasileira (1964-1985), latifundista e católica, igualmente corrupta, embora dispondo de véus de censura que ocultam a podridão das classes dirigentes. Algumas das suas ideias expressas no seu site figuram abaixo.

 

LIMITAR-SE A PERCEBER BEM A TEORIA DE UM FILÓSOFO É ENTERRAR A FILOSOFIA?

 

Escreveu Olavo de Carvalho:

 

«Note-se a imensa diferença que existe entre adquirir pura informação, por mais erudita que seja, sobre as idéias de um filósofo, e levá-las à prática fielmente, como se fossem nossas, no exame de problemas pelos quais sentimos um interesse genuíno e urgente. A primeira alternativa mata os filósofos e os enterra num sepulcro elegante. A segunda os revive e os incorpora à nossa consciência como se fossem papéis que representamos pessoalmente no grande teatro do conhecimento. É a diferença entre museologia e tradição. Num museu pode-se conservar muitas peças estranhas, relíquias de um passado incompreensível. Tradição vem do latim traditio, que significa “trazer”, “entregar”. Tradição significa tornar o passado presente através da revivescência das experiências interiores que lhe deram sentido. A tradição filosófica é a história das lutas pela claridade do conhecimento, mas como o conhecimento é intrinsecamente temporal e histórico, não se pode avançar nessa luta senão revivenciando as batalhas anteriores e trazendo-as para os conflitos da atualidade.» (Olavo de Carvalho, Quem é filósofo e quem não é, Diário do Comércio, 7 de Maio de 2009).

 

Há aqui uma incompreensão de Olavo de Carvalho, um crítico do pragmatismo: considera, erradamente, que ter informação exacta sobre a teoria de um filósofo  "mata os filósofos e os enterra num sepulcro elegante". Mas, em filosofia, compreender é mais importante que aplicar. E Olavo chama à compreensão "museologia", opondo-a à tradição que é transmissão de saberes do passado. Esquece que há filosofias ou partes de filosofias que nem sequer se podem aplicar porque são interpretações sem consequências práticas. Por exemplo, compreender na ontognoseologia de Kant o que é númeno (Deus, alma, imortal, etc) e o que é fenómeno (exemplo: mesa, árvore, raposa, mão, casa) não implica aplicar, mas apenas constatar.

 

Pegar nas ideias de um filosófo e «levá-las à prática fielmente, como se fossem nossas, no exame de problemas pelos quais sentimos um interesse genuíno e urgente» é, segundo Olavo de Carvalho, a atitude correcta, a tradição no sentido de entrega e transmissão. Mas porque temos de levar à prática as ideias do filósofo, se muitas vezes elas já estão descontextualizadas, se já se passaram séculos? Hegel chamou a atenção para o facto de que  os platónicos e os neoacadémicos dos séculos XV e XVI, no Renascimento italiano, não reproduziam com verdade os discípulos de Platão ou os membros da Nova Academia dos séculos IV ou III antes de Cristo na Grécia. Eram imitações, fora do contexto do mundo antigo.

 

Quem nos obriga a militar por essas ideias? O que os marxistas do século XX - Lenin, Stalin, Mao Ze Dong, Che Guevara, etc - fizeram foi «levar à prática», com maior ou menor fidelidade, as ideias de Karl Marx. E não deturparam Marx? Levar à prática garante a fidelidade aos princípios?

 

NÃO SE DEVE ESTUDAR A FILOSOFIA POR AUTORES?

 

Olavo de Carvalho teoriza ainda o seguinte:

 

«Não estude filosofia por autores, mas por problemas. Escolha os problemas que verdadeiramente lhe interessam, que lhe parecem vitais para a sua orientação na vida, e vasculhe os dicionários e guias bibliográficos de filosofia em busca dos textos clássicos que trataram do assunto. A formulação do problema vai mudar muitas vezes no curso da pesquisa, mas isso é bom. Quando tiver selecionado uma quantidade razoável de textos pertinentes, leia-os em ordem cronológica, buscando reconstituir mentalmente a história das discussões a respeito. Se houver lacunas, volte à pesquisa e acrescente novos títulos à sua lista, até compor um desenvolvimento histórico suficientemente contínuo. Depois classifique as várias opiniões segundo seus pontos de concordância e discordância, procurando sempre averiguar onde uma discordância aparente esconde um acordo profundo quanto às categorias essenciais em discussão. Feito isso, monte tudo de novo, já não em ordem histórica, mas lógica, como se fosse uma hipótese filosófica única, ainda que insatisfatória e repleta de contradições internas. Então você estará equipado para examinar o problema tal como ele aparece na sua experiência pessoal e, confrontando-o com o legado da tradição, dar, se possível, sua própria contribuição original ao debate.»(Olavo de Carvalho, Quem é filósofo e quem não é, Diário do Comércio, 7 de Maio de 2009).

 

Náo se deve estudar filosofia por autores? Mas´isso é segmentar, fragmentar o pensamento de um autor. Se escolhemos o tema cosmologia e só estudarmos em Platão a cosmologia e nada mais, ficamos a conhecer a divisão platónica em três mundos - o do Mesmo (acima do céu visível), o do Semelhante (céu visível) e o do Outro (Terra, mundo sensível) - mas ficamos, provavelmente, a ignorar a teoria de Platão exposta no Crátilo, das palavras como «pinturas» das ideias, a teoria das três partes da alma (nous, tymus e epitimia) e a teoria dos três estratos sociais da pólis (filósofos-reis, guerreiros e população em geral). Logo, carecemos de uma perspectiva holística sobre cada autor, perspectiva que é, deveras, importante.

 

PS- Se é professor ou estudante de filosofia, história, astrologia ou demais ciências, porque não começa a compreender os movimentos planetários e a astrologia histórico-social e libertar-se da crucial ignorância a que o votaram nessa matéria? Adquira na nossa loja online www.astrologyandaccidents.com as nossas obras.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 20:01
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