Quarta-feira, 14 de Maio de 2014
Equívocos no manual «Novos contextos, Filosofia 11º ano», da Porto Editora (Crítica de Manuais Escolares- LXIV)

 

 

Vários equívocos matizam o manual do professor Novos contextos, Filosofia 11º ano, de José Ferreira Borges, Marta Paiva e Orlando Tavares,  da Porto Editora.

 

 

OS JUÍZOS A PRIORI SÃO SEMPRE UNIVERSAIS E NECESSÁRIOS?

 

Sobre juízos a priori lê-se no manual:

 

«Juízos cuja verdade pode ser conhecida independentemente de qualquer experiência, tendo, portanto, origem no pensamento ou na razão.»

 

CARACTERIZAÇÃO

«Estes juízos são universais - no sentido em que não admitem qualquer excepção, sendo verdadeiros sempre e em toda a parte - e necessários - são verdadeiros em quaisquer circunstâncias, e negá-los implicaria entrar em contradição. »

 (José Ferreira Borges, Marta Paiva e Orlando Tavares,  Novos contextos, Filosofia 11º ano, Porto Editora, pág. 142.

 

Esta definição, válida na filosofia de Kant, não tem rigor em toda a extensão do panorama filosófico. O juízo a priori de um psicopata que está prestes a cometer o primeiro assassinato é do seguinte teor: «Matar uma pessoa indefesa e desprevenida é bom, vai fortalecer o meu ego». Podemos dizer que este juízo é universal e necessário? Não, porque só se aplica ao universo dos psicopatas. A maioria das pessoas formula um juízo a priori - ou a posteriori - oposto:« Se eu matasse alguém indefeso sentir-me-ia muito mal».  Por conseguinte, muitos juízos a priori não são universais e necessários.

 

O PIRRONISMO É UM CEPTICISMO RADICAL, COMO O DE DESCARTES? HUME CRÊ NO MUNDO EXTERIOR?

 

Escreve o manual:

 

«Hume afasta-se do ceticismo radical ou pirrónico. Se duvidássemos de tudo, se abandonássemos a crença na realidade do mundo exterior e no princípio da causalidade (mesmo que este não tenha um valor objectivo), cairíamos numa hesitação constante e a vida prática tornava-se insuportável. »

(José Ferreira Borges, Marta Paiva e Orlando Tavares,  Novos contextos, Filosofia 11º ano, Porto Editora, pág. 175).

 

«Distinguimos o cepticismo absoluto ou radical do cepticismo mitigado ou moderado. Pirro de Élis terá sido o fundador do primeiro. Para ele, é impossível qualquer conhecimento.»

(José Ferreira Borges, Marta Paiva e Orlando Tavares,  Novos contextos, Filosofia 11º ano, Porto Editora, pág. 179).

 

Não consta que Pirron perfilhasse um cepticismo radical, eliminador de todas as certezas. Os cépticos clássicos não duvidam dos dados dos sentidos mas sim das extrapolações, das inferências da razão e da imaginação. Escreve Rodolfo Mondolfo:

 

«Os primeiros cépticos, PIRRÓN e TIMÓN, colocam três problemas capitais para o sábio: qual é a natureza das coisas; que atitude devemos assumir face a elas; que resultará de essa atitude. À primeira questão respondem (desenvolvendo motivos do relativismo de Heráclito e Protágoras): nós só conhecemos o que sentimos; podemos afirmar o fenómeno tal como nos aparece, por exemplo, que o mel nos parece doce, mas não que tal seja o ser em si. E por isso, a resposta à segunda questão é que devemos reconhecer e seguir os fenómenos, mas suspender o juízo sobre o que está oculto (a coisa em si); desta maneira temos no fenómeno o critério necessário para a conduta prática, sem presumir possuir o inalcançável critério da verdade objectiva.» (Rodolfo Mondolfo, Breve Historia del pensamiento antiguo, Editorial Losada, Buenos Aires, 1953, pág. 75)

 

Ora. Hume era, sem dúvida, um céptico pirrónico oscilando para o idealismo; às vezes, era um idealista. O fenomenismo de Hume não é senão um pirronismo do século XVIII, amadurecido e complexificado, com reflexões vindas do budismo, do nominalismo medieval, do idealismo de Berkeley.  

 

Quanto à afirmação do manual de que Hume não abandonou a crença no mundo exterior é falsa. Vejamos o que diz Hume:

 

«Não temos ideias perfeitas de nada senão de percepções. Uma substância é inteiramente diferente de uma percepção. Não temos pois nenhuma ideia de substância.(...) Nada parece necessário para servir de suporte à existência de uma percepção.»

 

(David Hume, Tratado da Natureza Humana, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, pág 280).

 

As percepções flutuam sozinhas, por si mesmas. Não assentam em corpos materiais exteriores. Portanto, Hume descrê do mundo exterior, ao contrário do que diz o manual.

 

A REALIDADE NÃO É VERDADE?

 

Alguma nebulosidade existe na distinção entre verdade e realidade neste manual onde se lê:

 

« Na maioria das vezes o conceito de "realidade" surge como sinónimo de "verdade" ,mas trata-se de conceitos distintos, embora estreitamente relacionados. Num certo sentido, a realidade surge como algo que, independentemente do sujeito, está aí para ser conhecido.»

(José Ferreira Borges, Marta Paiva e Orlando Tavares,  Novos contextos, Filosofia 11º ano, Porto Editora, pág. 263).

 

Realidade e verdade são conceitos distintos, embora ligados intimamente? Em certo sentido, sim, quando verdade é aletheia, desocultação, movimento em direcção à realidade. Mas em outro sentido, não, porque se fundem e são o mesmo, a realidade é verdade objectiva, verdade extra humana.

 

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 00:02
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