Domingo, 1 de Fevereiro de 2015
Divergências entre tábuas de contrários da alquimia e do taoísmo

 

Desde a mais remota antiguidade, as grandes filosofias identificaram no universo os dois princípios basilares, o masculino e o feminino, o solar e o lunar, o activo e o passivo. Mas não existe absoluta unanimidade entre os diversos esoterismos. Há algumas contradições entre as tabelas de contrários próprias da filosofia hermética, em particular, e, por exemplo, a filosofia do taoísmo.

 

Vejamos a tabela de contrários do TAOÍSMO:

 

YANG                                           YIN

Masculino                                     Feminino

Sol                                                Lua

Dilatação                                       Contracção

Fogo                                              Água

Verão (velho yang)                        Inverno (velho yin)

Primavera (jovem yang)                 Outono (jovem yin)

Vermelho                                       Azul

Movimento                                     Repouso

Som                                               Silêncio

Alto                                                 Baixo

Solve ou dissolve                           Coagula

Espírito                                           Matéria

Multiplicidade                                  Unidade

Circunferência                                 Centro

 

E agora vejamos uma, entre outras, tabela de contrários da alquimia:

 

MASCULINO                          FEMININO

Enxofre                                    Mercúrio

Corpo Sólido, Alma                  Espírito

Sol                                            Lua

Coagula                                    Solve

Calor, Secura                           Frio, Humidade

Vermelho                                    Branco, Azul

Athanor (Forno)                          Retorta                                 

 

Na tabela alquímica, vemos, por exemplo, o princípio masculino, o ácido, ligado ao estado sólido, corporal, à coagulação, a qual, na tabela do taoísmo, é um estado yin, feminino, material. O feminino é, no taoísmo, mais material e concentrado que o masculino mas sucede o inverso na alquimia em que o mercúrio filosófico, feminino, espécie de orvalho de prata, quinta-essência, espírito universal acima dos quatro elementos (fogo, ar, terra, água), é mais volátil e disperso que o enxofre e o salitre (nitrato de potássio empregue na fabricação da pólvora), símbolos do princípio masculino. Note-se que alma, na coluna da esquerda, significa alma vital (epitimia e tumus, na teoria de Platão), isto é, força que anima o corpo individual e é distinta de espírito. Este último pode ser tomado em duas acepções: como quintaessência, éter ou mercúrio filosófico, luz superior; como nous ou razão intuitiva em Platão, intelecto agente em Aristóteles, transindividual que apreende directamente Deus e os arquétipos ou formas eternas.

 

O mercúrio (feminino, na especulação alquímica) é, como se sabe, o único metal que na natureza se encontra no estado líquido, o que dá ideia da sua fluidez, e tem como número atómico 80, ao passo que o enxofre (masculino, na visão da alquimia) é um não metal, de número atómico 16, que à temperatura ambiente, se encontra no estado sólido. Os alquimistas visavam «casar o Sol e a Lua», dissolver o enxofre e coagular o mercúrio a fim de obter o lapis, a pedra filosofal burilada.

 

A ÁRVORE DAS SEFIRÓS DIVIDIDA EM TRÊS COLUNAS

 

Consideremos a tábua de contrários representada na árvore da Vida, da Kabalah judaica, árvore das Sefirós (esferas, indicadas por números, 2,4, 7 no pilar da direita e 3,5,8  no pilar da esquerda) a que a maioria dos alquimistas ocidentais concedeu importância:

 

PILAR DA ESQUERDA                   PILAR DA DIREITA 

OU DA SEVERIDADE                      OU DA MISERICÓRDIA

Binah (Inteligência)- nº3                   Hocmah (Sabedoria)-nº 2

Geburah (Justiça) -  nº 5                   Chesed (Misericórdia)-nº 4

Hod (Magnificência)-nº 8                   Netzach (Vitória) - nº 7

 

Falta, nesta tábua de contrários, colocar o pilar central, síntese dos outros dois, que é o seguinte:

                                             Kéther (Coroa)-nº 1

                                             Tiferet  (Beleza) -nº 6

                                             Yesod (Fundamento)-nº 9

                                              Malkuth (Reino na matéria)- nº 10

 

A TÁBUA DE CONTRÁRIOS DOS PITAGÓRICOS

Há outras tábuas de contrários que resumem o dualismo primordial, como a de Pitágoras de Samos e da sua escola, que Aristóteles descreve assim:

 

Limite                                                      Ilimitado

Ímpar                                                       Par

Unidade                                                   Pluralidade

Direita                                                      Esquerda

Macho                                                      Fêmea

Em repouso                                              Em movimento

Recto                                                        Curvo

Luz                                                            Obscuridade

Bom                                                           Mau

Quadrado                                                   Rectângulo

     (Aristóteles, Metafísica, Livro I, 986 a, 20-25)

 

Há, nesta tábua, algumas incoerências, ao menos aparentemente. Por que razão o macho ou princípio masculino se identifica com o repouso e a fêmea ou princípio feminino com o movimento? Isto contraria o taoísmo, segundo a qual o masculino é activo e movimento e o feminino é passivo e repouso, embora pareça coincidir com a filosofia alquímica na medida em que esta postula que o feminino é o mercúrio filosófico, volátil, sempre em movimento, e o masculino é o enxofre, sólido. Afigura-se, ademais, ser  misoginia classificar como «mau» o princípio feminino e como «bom» o princípio masculino.

 

TÁBUA DE CONTRÁRIOS DE ARISTÓTELES

 

Aristóteles procedeu à seguinte Divisão de contrários em duas colunas, num escrito perdido, que se supõe denominando Peri enantiön na lista de Diógenes Laercio:

O que é                                                  O que não é

Unidade                                                  Pluralidade

Mesmo                                                    Diverso

Semelhante                                             Dissemelhante

Igual                                                         Desigual

Repouso                                                  Movimento

 

Em «Metafísica», Aristóteles confirma esta divisão:

 

«Ademais, a segunda coluna dos contrários é privação e todos eles se reduzem a O que é e o que não é,  Unidade e Pluralidade, por exemplo, o Repouso pertence à Unidade e o Movimento à Pluralidade. » (Aristóteles, Metafísica, Livro IV, 1004b) .

 

«Como expusemos gráficamente em Divisão dos contrários, ao Uno pertencem o Mesmo, o Semelhante e o Igual, enquanto que o Diverso, o Dissemelhante e o Desigual pertencem à Pluralidade.» (Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1054a,).

 

Esta tábua de contrários aristotélica peca por ser mais formal, mais abstracta do que as tábuas de contrários da alquimia e do taoísmo: não sabemos em que colunas iria Aristóteles inserir os pares fogo-água, enxofre-mercúrio, dilatação-contração, etc.

                                                                     

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 23:33
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