Quarta-feira, 25 de Outubro de 2017
Aristóteles: Deus, causa formal dos entes mundanos e de algum socorro a estes

Sobre a concepção de Deus em Aristóteles, o livro deste «Sobre o mundo» é esclarecedor: Deus não é o demiurgo, o construtor do mundo material, mas o arquitecto imóvel que idealiza as formas ou essências eternas como árvore, imanentes ao mundo material e anteriores a este.

 

«Deus, com efeito, é em verdade o conservador e o gerador de todas as coisas que, de certo modo, se constituem no nosso cosmos; mas não tomando a fadiga de um ser vivo que trabalha com as próprias mãos e está sujeito ao cansaço mas fazendo uso de uma força indefectível mediante a qual domina também as coisas que parecem estar mais afastadas.»

«Ele teve o primeiro e mais alto posto e, por este motivo, é chamado o altíssimo, tendo ocupado o seu assento, para dizê-lo com o poeta, "no mais alto cume" de tudo quanto há no céu. Do seu poder beneficia em grau supremo o corpo que está mais perto dele, depois o corpo que está mais perto daquele, e assim seguidamente até aos lugares em que nos encontramos. Por isso a terra e as coisas que estão na terra, ao encontrarem-se a maior distância do socorro que vem de Deus, parecem ser débeis, incoerentes, e cheias de grande confusão; sem embargo, na medida em que o divino tem, por sua natureza, a capacidade de penetrar em todas as coisas, as coisas que sucedem entre nós sucedem de maneira semelhante às que estão por cima de nós as quais, conforme estão mais próximas ou mais afastadas de Deus, participam em maior ou menor medida do seu socorro.»

«É melhor admitir - e isto é sem dúvida conveniente e perfeitamente concordante com Deus - que o poder está assente no céu, inclusive para as coisas que estão mais afastadas, e, em uma palavra, para todas as coisas quantas há, seja a causa da sua conservação, antes do que admitir que, penetrando e girando em redor dos lugares nos que não é belo nem decoroso, ela mesma se ocupe das coisas que dizem respeito à terra.»

 

(Aristóteles, Sobre el mundo, Ediciones Sigueme SAU, 2014, pp. 78-79; o destaque a negrito é posto por nós).

 

Em Aristóteles, Deus, situado no alto dos céus, já fora do cosmos mas a sua força ordenadora manifesta-se no interior do cosmos:

 

«Deus pois é para nós uma lei perfeitamente equilibrada, que não admite correção alguma, nem mudança; melhor, ainda, é mais sólida que as leis inscritas em tábuas.

«Sob a sua guia, imóvel e harmoniosa, toda a ordem do céu e da terra está regulada, repartida por todas as naturezas, baseada nas sementes que lhes são próprias, em plantas e animais e segundo os géneros e as espécies de estas. » (ibid 97-99).

 

Estes textos permitem desmascarar a interpretação de Lenine e outros discípulos de Marx segundo a qual Aristóteles se inclinaria no sentido do materialismo e Platão professaria o «idealismo» (leia-se: o espiritualismo ou existência de deuses transcendentes ao plano físico). Como se depreende do texto, há um socorro de Deus aos humanos pelo que tanto Platão como Aristóteles professariam o teísmo. A diferença está em que Platão sustentava a teoria da reencarnação e Aristóteles não. Para este último, o intelecto paciente ou passivo, que individualiza cada pessoa, extinguir-se-ia com a morte desta, sobrevivendo apenas o intelecto agente, o Logos, que é uma força impessoal, característico da espécie e que esta empresta ao indivíduo enquanto este vive.

 

Aliás para Aristóteles há um Deus imóvel, autor da ordem cósmica e lei cósmica e há os deuses que habitam na região superior do cosmos:

 

«A região superior do cosmos, contida completamente nos seus limites, morada dos deuses, é chamada céu. Estando todo cheio de corpos divinos, que costumamos chamar astros, o céu, movendo-se com um movimento eterno, com um único movimento de rotação de órbita circular se move harmoniosamente sem fim por toda a eternidade.» (ibid pág 31).

 

Os astros são, pois, corpos divinos - e será o mesmo que dizer «são deuses»? Sabe-se que o cosmos é eterno e que Deus foi a sua causa formal, o gerador das formas, mas quem foi a causa eficiente, isto é, quem plasmou essas formas na matéria e no éter celeste? Um demiurgo ou deus-operário?

 

  www.filosofar.blogs.sapo.pt

 f.limpo.queiroz@sapo.pt

 © (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 06:22
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