Domingo, 19 de Janeiro de 2014
A lógica imperfeita de Ayer: opor realismo ingénuo a teoria causal da percepção

Alfred Julius Ayer (Londres, 29 de Outubro de 1910- Londres, 27 de Junho de 1989), um dos filósofos analíticos mais célebres do século XX, positivista lógico, estabeleceu distinções imperfeitas do ponto de vista lógico-dialéctico. Uma delas é a oposição realismo ingénuo- teoria causal da percepção.

 

Escreveu:

 

«O herdeiro natural do realismo ingénuo é a teoria causal da percepção. Para ela se volta a maior parte dos convictos de haver base para sustentar que os objectos físicos não são directamente percebidos. Até certo ponto já a consideramos ao tratar da forma causal do argumento da ilusão. O ponto de partida é provar a ciência que os objectos ordinariamente percebidos, o mundo das cores, ruídos, aromas, do senso comum é criação nossa. De isto se infere ou que não há objectos físicos ou, mais vulgarmente, que eles estão disfarçados. Nesta concepção, embora percebamos objectos físicos, não os percebemos em seu estado natural; nunca aparecem em público sem retoque. Não podemos eliminá-lo pois a nossa presença é responsável pela sua existência, mas podemos teoricamente descontá-lo. »(A.J. Ayer, O Problema do Conhecimento, Editorial Ulisseia, pág. 94; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Note-se a ambiguidade da frase:«Não podemos eliminá-lo pois a nossa presença é responsável pela sua existência...». Como pode a nossa presença ser responsável pela existência do objecto? Isso só acontece no idealismo - em Berkeley, David Hume ou Kant, por exemplo - em que a mente produz o objecto "físico".  Ora estamos a tratar do realismo crítico - que Ayer designa por «teoria causal da percepção» - em que o objecto físico existe mesmo, no real exterior a nós, ainda que não o percebamos integralmente como é, e como tal não somos responsáveis pela existência dele...

 

Sublinho que revela falta de clareza opor a realismo ingénuo a denominação teoria causal da percepção. O termo causal pertence ao género etiológico e o termo realismo ingénuo pertence ao género ontognosiológico. As denominações não são contrárias, não pertencem ao mesmo género. Causalidade perceptiva e realismo ingénuo são definições colaterais, não se excluem. O deficiente raciocínio dialéctico de Alfred Julius Ayer é seguido, acriticamente, por dezenas de milhar de professores de filosofia.

 

Aquilo que Ayer designa por "teoria causal da percepção"  deve ser designado, em nome do rigor de pensamento, por realismo crítico, doutrina que, numa das suas versões, de Descartes e Locke, sustenta que as cores, sabores, cheiros, dureza não existem nos objectos físicos exteriores à nossa mente mas apenas existem nesta (qualidades secundárias) sendo os objectos exteriores compostos de forma, tamanho, número e movimento e uma matéria ténue e indeterminada (qualidades primárias).  

 

Porque o realismo ingénuo é uma teoria tão causal quanto o realismo crítico: para o primeiro, o objecto físico externo, com a sua forma, cor, tamanho, grau de ductilidade, etc., é a causa da percepção interna do objecto a qual inclui forma cor, tamanho, grau de ductilidade, similares ao objecto exterior, tipo imagem de espelho.

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

 

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 22:03
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