Sexta-feira, 10 de Abril de 2009
A filosofia é sofisticada? E não é mais profunda que a química e a matemática?

Em artigo do seu blog A Filosofia no Ensino Secundário, intitulado «10 falsas questões  mais habituais sobre a filosofia» escreve Rolando Almeida, um dos membros do grupo «crítica na rede»:

 

«Em filosofia não tem de se ser mais profundo do que em matemática ou química. Em primeiro lugar deve-se privilegiar a clareza que nem sempre coincide com facilidade, dependendo do estudo que se realize. Obviamente se estamos a falar de filosofia como eu estou a falar neste texto, não se exige profundidade alguma. Exige-se clareza e rigor. A ideia da profundidade em ciência e filosofia, diz respeito à sofisticação dos problemas em análise. Se estamos numa área como a Lógica Modal, envolvendo a discussão de conceitos como possibilidade e necessidade, o mais provável é que a discussão não seja muito acessível a quem não possui qualquer preparação em filosofia. A mesma questão é atribuível a uma qualquer investigação em física ou química. Mas, regra geral, estas teorias mais profundas podem ser expostas a um nível mais intuitivo. E porque é que existe esta necessidade de explicar aos mais leigos os problemas mais sofisticados? Por uma razão muito simples. Somos seres limitados no tempo e um dia alguém vai ter de continuar os nossos estudos, desenvolvendo-os e possibilitando novas descobertas, por isso temos de ensinar aquilo que sabemos ou condenamos o saber à sua morte. Depois porque um filósofo só descobre as fragilidades das razões que oferece em favor das suas teses se um outro o puder estudar e refutar.» (Rolando Almeida)

 

É óbvio que, ao contrário do que sustenta Rolando Ameida, em filosofia se tem de ser mais profundo que em matemática e em química - o que é uma tarefa para a elite dos filósofos autênticos. Se a filosofia não descer às raízes, à substancia oculta da química e da matemática, não pode constituir-se em epistemologia destas, nem pode aspirar a ser uma visão de síntese, holística. 

 

Rolando Almeida contradiz-se, ademais, ao dizer que ao falar de filosofia, do modo que o faz, «não se exige profundidade» alguma mas sim «clareza e rigor». Na verdade, clareza e rigor pressupõem profundidade de pensamento. Profundidade de pensamento e simplicidade de exposição deste são apanágio dos grandes pensadores, não do vulgo dos professores de filosofia.

Ao qualificar a «profundidade filosófica» como sofisticação, Almeida desliza sem o saber para o glaciar da sua verdade: sofisticação designa subtileza excessiva, falsificação (vem de sofística; ver Dicionário de Língua Portuguesa, 6ª edição, Porto Editora). A filosofia profunda não é sofisticada.

 

Sofisticados (sofistas, pseudofilósofos) são os que,  mediante uma terminologia complicada, pretendem, sem clareza nem rigor, arvorar-se em «filósofos, lógicos modais e proposicionais,» antepondo as suas regras fragmentárias do «pensar» à perfeição conteudal do pensar.

O «simplex» filosófico que Rolando de Almeida advoga é, no fundo, a outra face do cientismo - essa pretensão  que a ciência dominante ostenta de ser intocável, de explicar tudo por «factos científicos», de ser  tão ou mais profunda que a filosofia e blindada à investigação desta.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 


 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 22:24
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Novembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
24
25

26
27
28
29
30


posts recentes

João Bereslavsky: a homos...

Reflexões de Novembro de ...

Quando se tornará a Catal...

Cátaros do século XXI: o ...

Reflexões de Outubro de 2...

Aristóteles: Deus, causa ...

Rui Rio deverá vencer San...

Teologia cátaro-bogomila:...

Teologia cátaro-bogomila:...

Teologia cátaro-bogomila:...

arquivos

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds