Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011
Locke: a natureza insubstancial, incorpórea do espaço

John Locke combateu a ideia de substância - coisa estável, que subsiste por si mesma, como por exemplo, um cavalo - e de acidente - qualidade algo "volátil" ou fortuita que se insere na substância, no caso anterior, a cor negra do cavalo, o tamanho das crinas, a altura exacta. David Hume adoptaria a mesma posição anti aristotélica. 

 

«17. Se se pergunta (como é habitual) se este espaço destituído de corpo é uma substância ou um acidente, responderei prontamente que o ignoro, e não me envergonho  da minha ignorãncia, até que os fizeram a pergunta não me proporcionarem uma ideia clara e distinta da substância.»  (John Locke, Ensaio sobre o Entendimento Humano, volume I, pag 217, Fundação Calouste Gulbenkian).

 

Locke advoga a teoria do espaço insubstancial, extensão sem quaisquer corpos materiais.

 

«É certo que nem a solidez pode existir sem a extensão, nem a cor escarlate sem a extensão, mas isso não impede que sejam ideias distintas. Há muitas ideias que requerem outras como necessárias para a sua existência ou concepção, mas que, no entanto, são ideias muito distintas. O movimento não pode ser, nem pode conceber-se sem o espaço, e, no entanto, o movimento não é o espaço, nem o espaço é o movimento, pois o espaço pode existir sem ele: trata-se de ideias muito distintas. (...)» (Locke, ibid, pag 214).

 

«12. Primeiro: a extensão não inclui a solidez nem resistência ao movimento de um corpo, como acontece com o corpo.

« 13 . Segundo: as partes do espaço puro são inseparáveis umas das outras, de tal modo que a continuidade não pode ser interrompida, nem real nem mentalmente. (Locke, ibid, pag 215)»

 

«...podemos conceber tão facilmente o espaço sem solidez como podemos conceber o corpo ou o espaço sem o movimento, ainda que seja muito duvidoso que o corpo e o movimento possam existir sem espaço. Mas quer se considere o espaço somente como uma relação da existência de outros seres situados à distância, quer se pense que devem entender-se literalmente estas palavras do mui sábio rei Salomão. "Porque se o céu e o céu dos céus não te podem conter" (III Reis VIII, 27) ou aquelas mais enfáticas do inspirado filósofo S.Paulo: "nele vivemos e nos movemos, e existimos" (Actos XVII, 28) é assunto que deixo à consideração de cada um». (Locke, ibid, pag 225; o negrito é posto por mim).

 

Ao duvidar que o espaço seja substância, isto é, algo em si mesmo que serve de suporte para outras entidades, Locke abre uma porta para abandonar a concepção realista do mundo, segundo a qual o espaço e o tempo são realidades em si exteriores, em geral, às mentes humanas.

 

No entanto, questione-se Locke: como podem dois entes estar à distância um do outro sem haver espaço e este ser apenas uma relação? Não é a distância um pedaço de extensão?

 

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 13:34
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