Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011
Incoerências de John Locke sobre modo e substância

 

John Locke não é claro na distinção entre os diferentes tipos de ideias: à ideia de triângulo chama, por exemplo, ideia complexa, mas às ideias de uma dúzia e de vintena chama ideias simples ou modos simples... Não é coerente.

 

«Às ideias resultantes de várias ideias simples unidas chamos ideias complexas, tais como a beleza, a gratidão, um homem, um exército, o universo. » (John Locke, Ensaio sobre o Entendimento Humano, página 202, Fundação Calouste Gulbenkian).

 

Locke divide as ideias complexas que resultam da união de ideias simples em três grupos: os modos, as substâncias, as relações. E escreve:

 

«4. Em primeiro lugar, chamo modos a essas ideias complexas que, embora compostas, não contêm em si a suposição de que subsistem por si próprias, mas são consideradas como dependências ou atributos de substâncias. Tais são as ideias expressas pela palavra triângulo, gratidão, assassínio, etc. (...).

 

«5. Há dois tipos de modos que merecem uma consideração à parte.

      «Primeiro, há alguns que são apenas variações ou combinações diferentes de uma mesma ideia simples, sem mistura de qualquer outra. Por exemplo, uma dúzia, uma vintena, que não são senão as ideias de outras tantas unidades diferentes que foram somadas. A estes chamo modos simples, porque estão compreendidos nos limites de uma ideia simples.»

     «Segundo, há outros que são compostos de ideias simples de diversas espécies, que se uniram para formar uma só ideia complexa. Por exemplo, a beleza que consiste numa certa composição de cor e figura, que deleita o espectador; e também o roubo que, sendo a mudança oculta da posse de algum objecto sem o consentimento do dono, contém, como é evidente, uma combinação de várias ideias de diferentes espécies. A estes chamo modos mistos

 

«6. Em segundo lugar, as ideias das substâncias são aquelas combinações de tipo simples que se presume representarem diferentes coisas particulares que subsistem por si próprias, nas quais a ideia suposta ou confusa de substância, tal como é, aparece sempre como a primeira e principal. Deste modo, se à ideia de substãncia se une a ideia simples de uma certa cor esbranquiçada esbatida, com certos graus de peso, dureza, ductilidade e fusibilidade, obtemos a ideia de chumbo. De igual modo, uma combinação de ideias de uma certa figura, com capacidade de mover-se, pensar e raciocinar, unidas à de substância, produz uma ideia geral de homem. Entre as substâncias, há também duas espécies de ideias, uma, de substâncias singulares, na medida em que existem separadas, tais como as de um homem ou de uma ovelha; outra, de várias substâncias reunidas, tais como um exército de homens ou um rebanho de ovelhas. Estas ideias colectivas de várias substâncias assim reunidas são, cada uma delas, uma só ideia, como é a de um homem ou de uma unidade.»

 

«7. Em terceiro lugar, a última espécie de ideias complexas é a que chamamos relação, e que consiste na consideração e comparação de uma ideia com outra.» (John Locke, ibid, pags 203-205; o negrito é colocado por mim).

 

 

Como é que John Locke pode considerar o triângulo como um atributo de uma substância mas não como substância? Há alguma confusão nisso. Tomemos um exemplo.

O frontão é um conjunto arquitectónico, de origem greco-romana,  em forma de triângulo que em regra, decora a fachada superior de edifícios, sendo composto por uma cimalha (base do triângulo) e duas empenas (os lados do triângulo que se cruzam no vértice superior). A substância frontão é um triângulo com textura ou conteúdo de pedra, cimento, madeira ou outro material de construção civil: o triângulo não é um mero atributo do frontão, é o contorno da sua essência, parte determinante desta. A essência do frontão - uma substância primeira (proté ousía) na terminologia de Aristóteles - é a forma de triângulo impressa na matéria, a forma individuada.

 

Triângulo é uma essência mas inessencial quando se define o género figura geométrica. As espécies são essências mas cada uma delas é por si só inessencial dentro da definição do género.


 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 18:07
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Agosto 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17

21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


posts recentes

Herbert Marcuse: o caráct...

Breves reflexões de Agost...

Area 15º-20º de Cancer y ...

Posições de Júpiter em Ma...

Deleuze e Guattari: as tr...

Júpiter em 17º de Balança...

Astrología y accidentes a...

O idealismo é contra a au...

La guerra civil de España...

Breves reflexões de Julho...

arquivos

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds