Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011
Questionar George Steiner: a palavra rompeu com o mundo, na modernidade?

George Steiner, filósofo, professor universitário de literatura e poesia e crítico literário, nascido em 23 de Abril de 1929,  sustenta que o carácter da modernidade consiste na ruptura entre a palavra e o mundo. Por modernidade - ou pós modernidade, segundo outros - entende o simbolismo, o dadaísmo, o surrealismo, o estruturalismo, o relativismo contemporâneo em geral, o mundo onde os cânones estéticos e culturais se fragmentaram e pulverizaram num arco-íris. Escreveu:

 

«O cepticismo tradicional, o desafio poético à «dizibilidade" do mundo são eles próprios actos de linguagem e construções verbais. Pressupõem plenamente o acesso à inteligibilidade, à coerência narrativa, aos meios de persuasão dos instrumentos lexicais, gramaticais e semânticos que veiculam as suas dúvidas e negações. (...) Inconsistente nos seus próprios termos, na medida em que aspira à expressão, o cepticismo aceitou o pacto com a linguagem.»

«A minha convicção é que este pacto foi quebrado pela primeira vez, num sentido fundamental e consequente, na cultura e consciência especulativa europeia, centro-europeia e russa das décadas que vão de 1870 aos anos Trinta deste século. É a ruptura da aliança entre a palavra e o mundo que constitui uma das muito poucas revoluções do espírito na história do Ocidente e que assim define a própria modernidade.» (...)

 

«Em resumo, a primeira fase, que se estende desde os inícios da história e da expressão de ideias (com os pré-socráticos) até á última parte do século XIX, é a do Logos, do dizer do ser. A segunda fase é a que se lhe segue. Configurações e modalidades de operação decisivas da nossa condição moral, filosófica, psicológica, da nossa estética, das interacções plásticas entre a consciência e a pré-consciência, das relações entre as economias da necessidade e do desejo, por um lado, e das imposições sociais, por outro, deverão ser doravante entendidas como ocorrendo "depois da Palavra"» (George Steiner, Presenças Reais, páginas 89-90, Editorial Presença; o negrito é por mim colocado).

 

 

 

O que quer dizer Steiner com o «ocorrer depois da Palavra»?  Isso nunca ocorreu nem ocorrerá, a menos que atribua à Palavra o sentido de Bíblia, Vedas ou outro «livro sagrado» ou a menos que se refira à mera visualização de imagens - um filme sem palavras, uma estátua sem legenda. A palavra será sempre o correlativo da imaginação, da representação humana, a pedra angular do discurso. Declarar que há ou profetizar que haverá em vasta escala ou à escala total, na Terra o período «depois da Palavra» é uma ilusão. Veja-se a internet, onde apesar da profusão de imagens audiovisuais, é ainda a palavra, o discurso, que impera.

 

Julgo que não há ruptura alguma entre a palavra e o mundo, entendido em sentido amplo. O que há é a abertura do leque polissémico da palavra a vários mundos, quase todos ideais ou imaginários. O surrealismo, por exemplo, liga a palavra e a metáfora ao mundo onírico. Rompe apenas com o mundo natural, real - e na verdade, nem é a palavra que rompe, porque ao dizer «cavalo de água» o sentido de cavalo continua a ter o referente cavalo no mundo real  e o sentido de água continua a ter como referente o líquido incolor que povoa os oceanos, rios e lagos. A ruptura com o mundo real é feita pela expressão «cavalo de água», que transfigura os seus elementos, ambos reais. É o discurso que opera a ruptura, e não a palavra isolada. .

Rompendo com o mundo real sensível, a palavra organizada em discurso nunca rompe, em definitivo, com os mundos imaginários e ideais.  

 

A ROSA IDEAL POSSUI ESPINHOS E INCLUI A PALAVRA ROSA

 

 

Steiner isola o significante do significado, a forma fonética do referente que ela visa, tal como Saussure. E aponta o simbolismo hermético do poeta francês Mallarmé (1842-1898) como pioneiro :

 

 

 

«Esta mudança manifesta-se pela primeira vez no afastamento operado por Mallarmé da linguagem relativamente aos seus referentes exteriores e na desconstrução operada por Rimbaud da primeira pessoa do singular. Estas duas operações, e tudo o que implicam, minam os alicerces do edifício hebraico-helénico-cartesiano que albergava a ratio e a psicologia da comunicação na tradição do Ocidente. Por comparação com esta ruptura, até mesmo as revoluções políticas e as grandes guerras na Europa contemporânea se reduzem, arrisco-me a sustentá-lo, a fenómenos de superfície.»

 

 

«A palavra rosa não tem haste, nem pétala nem espinhos. Não é cor-de-rosa nem vermelha nem amarela. Não cheira. De per se, é um marcador fonético inteiramente arbitrário, um signo vazio. Nada, quer na sua sonoridade (mínima!), quer no seu aspecto gráfico, nos seus elementos fonéticos, história etimológica ou funções gramaticais, corresponde a seja o que for que julguemos ou imaginemos ser o objecto da sua referência puramente convencional. Deste objecto "em si próprio", da sua "verdadeira" existência ou essência, não podemos, como Kant nos ensinou, dizer estritamente coisa nenhuma. A fortiori, a palavra rosa não pode instruir-nos.» (George Steiner, ibid, pag 91).

 

 

 

Há aqui uma confusão de Steiner. A palavra rosa não possui haste e pétalas no plano ontológico-material, real, mas possui haste e pétalas mentais, no plano eidético-mental. É inseparável de uma imagem, uma vez dada a língua, ou seja, a articulação entre a voz/grafia e os objectos referentes. Sou da opinião de Platão, no «Crátilo»: as palavras, na sua estrutura de letras e fonemas, são pinturas dos objectos físicos exteriores. Rosa diz-se de uma matriz comum ROS/ RUZ em variadas línguas: roos em holandês, rosa em português, catalão, castelhano, italiano, rose em francês, norueguês e inglês, róza em polaco, rósza em húngaro, ruza em croata, ruze em eslovaco... . Mas há objecções: rosa diz-se steg em dinamarquês, gül em turco, ökade em sueco, triantáfilo em grego, trandafir em romeno, tela em maltês, objecções que fortalecem a posição dos que defendem a arbitrariedade do signo linguístico face ao significado. Seja como for é admissível que haja uma limitada pluralidade de significantes (palavras), entre eles ROS/RUS,  para designar o objecto rosa. É óbvio que estou a especular: afirmo que não há uma infinidade de significantes fonéticos para o objecto ROSA, mas apenas alguns. E pode provar-se o contrário?

 

Ao referir Kant, Steiner comete uma ambiguidade: supõe que a rosa-objecto é um númeno, isto é, um ente incognoscível, e que a palavra rosa está impossibilitada de descerrar o reposteiro que o oculta. A verdade é que Kant  não nos diz que a rosa seja incognoscível. Conhece-se o fenómeno rosa: uma planta dotada de haste, pétalas, espinhos. Rosa não é númeno, pois tem forma, ocupa espaço e está no tempo.

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 23:09
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