Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010
A solução de uma aporia: onde situar as formas eternas e incorruptíveis, na teoria de Aristóteles

Um dos problemas filosóficos que nunca terá sido resolvido e exposto com total clareza por Aristóteles e seguidores é o do lugar das formas específicas, eternas e incorruptíveis. Onde se situam, por exemplo, as essências homem, cavalo, rosa, em toda a eternidade, se Aristóteles negava o mundo inteligível de Platão?


Há, a respeito de cada coisa física, uma forma corruptível- a do composto forma-matéria; por exemplo, a forma da maçã, que se degrada com o tempo-  e uma forma incorruptível e eterna, a forma da espécie (eidos)- neste caso, a quididade ou essência geral "maçã" . Ambas são focadas no seguinte texto de Aristóteles:

 

«Porque o sujeito primeiro parece ser substância (ousía) em supremo grau. Como tal menciona-se, em um sentido, a matéria (hylé), e em outro a forma (morfée, em terceiro lugar, o composto de ambas (e chamo matéria, por exemplo, ao bronze, e forma, à figura visível, e composto de ambas, à estátua como conjunto total); de modo que, se a forma específica é anterior à matéria e mais ente que ela, pela mesma razão será também anterior ao composto de ambas.» (Aristóteles, Metafísica, Livro VII, 1029 a).

 

Assim, por exemplo, a forma específica de maçã é anterior a esta e a todas as maçãs concretas e à matéria vegetal de que são feitas as maçãs. A forma específica (eidos, às vezes logos) é, pois, incorruptível.

 

«E, posto, que a substância é de duas classes: o todo concreto (sinolón) e o conceito/ forma (logos), (no primeiro caso a substância compreende o conceito junto com a matéria, enquanto que no segundo é o conceito em sentido pleno) as que se tomam  no primeiro sentido são corruptíveis (pois também são engendráveis) mas no conceito não há corrupção possível (já que tampouco há geração, pois não se gera a essência de casa, mas sim desta casa).»  (Aristóteles, Metafísica, Livro VII, 1039 b).

Mas onde residem as formas específicas se Aristóteles nega haver um mundo de essências aparte dos objectos físicos?

 

Há quatro hipóteses:


A) As formas específicas eternas estão na mente divina. Esta solução seria formulada, por exemplo, por São Boaventura na Idade Média mas não parece estar implícita no pensamento de Aristoteles. Na verdade, se isso ocorresse, Deus que é o pensamento puro, transformar-se-ia numa causa eficiente, isto é, num deus-artesão "criador" ou modelador do mundo. Ora, o Deus aristotélico não "sujou as mãos" a moldar objectos físicos ou as suas essências, como o Demiurgo de Platão.


B) As formas específicas eternas estão na mente humana.


C) As formas específicas eternas estão, de forma perene, nos objectos físicos. Aristóteles nega explicitamente esta hipótese, até porque os objectos físicos em geral se corrompem, duram somente algum tempo. É óbvio que a forma específica dimossauro estava em cada um dos dinossauros que existiram na Terra mas, agora que estes desapareceram, em que lugar estará a essência eterna dinossauro?


D)  As formas específicas eternas estão na matéria-prima indiferenciada, a hylé, que ainda não existe mas «é» sem forma, embora sem imprimir as suas formas nela, sem agir sobre a hylé. Do mesmo modo que as fôrmas de plástico com que as crianças moldam barcos, flores e outros objectos na areia molhada ( simbolizando esta a hylé) podem estar depositadas sobre esta ou enterradas nesta sem ainda terem produzido compostos (barcos, flores e outros objectos de areia). De algum modo, isso parece implícito na seguinte frase:

 

«A substância, com efeito, é a espécie imanente, de cuja união com a matéria precede a que chamamos substância concreta...» (Metafísica, Livro VII, 1037 a; o negrito é nosso).

 

É esta última hipótese (D) a única que parece corresponder à solução aristotélica - as formas estão àparte dos objectos físicos, mergulhadas no mundo virtual da matéria prima. Por isso, o aristotelismo é um platonismo invertido, em que os arquétipos incidem de baixo para cima e não o inverso.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 21:41
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