Sábado, 27 de Agosto de 2011
Equívocos de Luís Rodrigues em questões de exame nacional de Filosofia

 

O livro de exercícios «Filosofia para a prova de exame do 10º ano», de Luís Rodrigues, apresenta diversas questões de resposta errada ou incompleta, nos mesmos moldes da famigerada prova de exame nacional de filosofia de Julho de 2007. Este tipo de questões, mal formuladas em parte ou no todo, não podem ser colocadas no exame nacional de filosofia sob pena de criarem injustiças sérias na correcção dos testes. Vejamos exemplos:

 

«Seleccionar a alternativa correcta - ou as alternativas correctas quando for o caso.

 

 

1) O relativista moral cultural defende que:

a)  Não há verdades morais objectivas.

b) Todos os juízos morais são falsos.

c) Não há acções imorais.

d) Há verdades morais objectivas.

 

R:a) Não há verdades morais objectivas. »

 

(Luís Rodrigues, Filosofia para a prova intermédia do 10º ano, pag. 65, Plátano Editora)

 

 

Crítica minha: As quatro respostas estão erradas. Os relativistas culturais, isto é, aqueles que afirmam os valores de bem e mal variam de época a época e de classe a classe social, dividem-se em dois grupos: os que sustentam que não há verdades morais objectivas e desembocam, frequentemente, no cepticismo (exemplo: há o amor dentro do matrimónio swinger, há o amor no matrimónio monogâmico de mútua fidelidade, não sei qual deles é moralmente o melhor); os que sustentam que há verdades morais objectivas - as mesmas para uma vasta comunidade, como por exemplo «a pedofilia é crime moral» - e constatam essas verdades variaram ao longo dos séculos, no exemplo, verificam que a pedofilia já foi aceite na antiguidade como um «bem acessível a certas camadas de homens». Logo, as respostas a e d estão parcial mas não totalmente correctas.

 

 

Voltemos a outra questão desenhada por Rodrigues:

 

 

7a) Um valor moral é objectivo:


a) Quando é aceite pela maioria dos membros de uma cultura. 

b) Quando é verdadeiro ou falso independentemente do que alguém possa pensar àcerca do seu conteúdo.

 

c) Quando promove a tolerância entre diferentes pontos de vista.

d) Quando não é verdadeiro nem falso para um indivíduo.

 

R:b) Quando é verdadeiro ou falso independentemente do que alguém pensar àcerca do seu conteúdo.

(Luís Rodrigues, ibid, pag 67)

 

 

Ao contrário do que sustenta Luís Rodrigues, há duas respostas certas: a da alínea a e a da alínea b. O termo objectividade tem pelo menos dois sentidos: certeza partilhada pela maioria ou por uma boa parte dos membros de uma comunidade e nisso corresponde à alínea A; realidade em si mesma, independente das mentes humanas, à maneira dos arquétipos em Platão, e nisso corresponde à alínea B. Não se pode impor um único sentido ao termo objectividade, dado que possui vários, algo similares entre si.

 

8)a) Vive e deixa viver porque a cada qual a sua verdade em questões morais. Esta convicção é defendida:

a) Pelo relativismo moral cultural.

b) Pelo subjectivismo moral.

c) Pelo cepticismo moral.

d) Por quem acredita que a moral depende da religião.

R: b) Pelo subjectivismo moral. (Luís Rodrigues, ibid, pag 67).


Mais uma vez a visão unilateral de Luís Rodrigues estreita o campo das respostas válidas. O subjectivismo é, sob certo prisma, um relativismo individualista ou individuado: a verdade varia de pessoa para pessoa. As respostas A, B e C estão correctas. O relativismo da ideologia liberal-democrática preconiza que se viva e deixe viver cada um a respectiva verdade moral, isto é, abre campo à subjectividade, mas nem por isso é um subjectivismo visto que estabelece certas regras comuns como por exemplo «respeitar o direito de adversários políticos e culturais se exprimirem nas ruas e na imprensa, condenar a pedofilia, etc».Luís Rodrigues, tal como os autores em que se inspira, não sabe definir correctamente relativismo moral cultural confundindo-o com relativismo adicionado de cepticismo "igualitarista".

 

 

É indispensável que o GAVE, responsável pelos exames nacionais de Filosofia a terem lugar em 2012,  prescinda dos serviços de Luís Rodrigues e do seu grupo em matéria de elaboração de provas de exame e se oriente para quem tenha uma concepção filosófica ampla e de rigor.

 

  

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 11:21
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3 comentários:
De Pedro Pinho a 5 de Abril de 2012 às 05:45
Caro Professor Francisco L. de Faria Queiroz, Viva!
O professor afirma que a primeira questão apresentada por Luís Rodrigues está mal elaborada pelo facto de existirem relativistas morais “que sustentam que há verdades morais objectivas”. A sua observação é verdadeira, mas acho que não pode ser considerada um entrave para compreensão geral da pergunta. O aluno deveria ignorar a alínea d) e responder que a alínea a) era única alínea que se adequava à resposta correcta. Isto acontece porque a pergunta fala de um relativista moral cultural, ou seja, de um relativista que assuma a diversidade cultural como um dado incontestável e defenda a necessidade de se respeitar as diferenças culturais. Nesse sentido, o facto de poder constatar que existe uma evolução numa determinada norma na minha cultura, um certo relativismo moral, não me torna, em nada, um relativista moral cultural.
Saudações filosóficas.


De Francisco Limpo Queiroz a 5 de Abril de 2012 às 09:25
Caro Pedro Pinho, agradeço o comentário.
Na minha opinião, o relativista moral cultural não tem um perfil único, o de negar a objectividade da verdade. O que é objectividade? É o carácter de uma coisa que é patente a todos de igual modo. Há verdades objetivas que mudam no tempo, isto é, são relativas à época.

É um relativista moral que aceita verdades objectivas aquele que diz o seguinte: «No século XVI, eu seria monárquico porque o ideal monárquico vigorava universalmente, era objectivo naquelas circunstâncias, no século XXI eu sou republicano porque é uma verdade objectiva que a república é o modelo de estado quase universal».

Sustento, portanto, que não há razões para se considerar que só a primeira resposta A está certa e a D não está. Ou consideramos que ambas estão certas - mas isso contraria o modelo da prova de "uma só resposta certa" - ou que as 4 estão erradas, sendo a A e a D parcialmente certas como eu disse. Saudações


De Pedro Pinho a 7 de Abril de 2012 às 03:33
Caro professor, obrigado pelo esclarecimento. Deixe-me felicita-lo pelo seu blogue, pois é uma lufada de ar fresco na Web e uma grande ajuda para os professores que se iniciam nestas caminhadas.


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