Sexta-feira, 26 de Agosto de 2011
Equívocos sobre Libertismo e Determinismo Moderado na prova intermédia de 10º ano para o exame de Filosofia

 

O livro de exercícios «Filosofia para a prova de exame do 10º ano», de Luís Rodrigues, é um amontoado de confusões teóricas que impede os estudantes e professores de filosofia de divisarem claramente os contornos e o conteúdo de diversos conceitos e teses fundamentais na ética e metaética. Luís Rodrigues, como os outros autores de manuais de filosofia para o 10º ano em Portugal, propaga a errónea tese de Simon Blackburn de que são 4 as teorias sobre livre-arbítrio e determinismo: determinismo radical, determinismo moderado, libertismo e indeterminismo. A definição de libertismo é imensamente confusa e traduz a mediocridade que impera no ensino da filosofia em Portugal. Se a maioria dos professores de filosofia ensina deste modo os seus alunos, é a prova de que os antifilósofos, os preguiçosos ou inábeis do pensamento são a maioria na docência desta disciplina. Não admira: ser professor de filosofia não é ser filósofo necessariamente.

 

CONFUSÃO NA DEFINIÇÃO DE LIBERTISMO: NÃO É INDETERMINISMO NEM DETERMINISMO (VIOLA O 3º EXCLUÍDO), É «IMCOMPATIBILISMO» MAS COMPATÍVEL COM O DETERMINISMO

 

 

Escreveu Luís Rodrigues:

 

27. O libertismo é sinónimo de indeterminismo?

«Não. Segundo os libertistas, o determinismo é falso (o que significa que algumas acções são livres, não são causalmente determinadas] e o indeterminismo também.  Isso significa que nem todas as acções são o desfecho necerssário de causas anteriores (negação do determinismo) ou o resultado do acaso (negação do indeterminismo)? Em ambos os casos, as acções dependem da nossa vontade. Não fazemos o que queremos fazer (não somos livres) porque não controlamos os acontecimentos.» (Luís Rodrigues, Filosofia para a prova intermédia do 10º ano, pag. 31, Plátano Editora)

 

O primeiro erro de Luís Rodrigues é não definir correctamente determinismo. Em vez de afirmar que se trata do princípio segundo o qual nas mesmas circunstâncias as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos - definição simultaneamente sincrónica e diacrónica - Luís Rodrigues fornece-nos uma definição unilateralmente diacrónica de determinismo: desfecho necessário de causas anteriores, cadeia de acontecimentos vinda do passado. Ora o determinismo é, por exemplo, neste preciso instante a luz solar embater nas moléculas do ar em múltiplos lugares da Terra, dispersar-se e dar a todos os que observam o céu a intuição de cor azul neste instante - e isso não implica necessariamente as causas e efeitos remotas do passado mas apenas a instantaneidade presente. A dimensão de simultaneidade - muitas causas idênticas produzindo efeitos idênticos entre si ao mesmo tempo - falta na definição do pequeno filósofo  Blackburn e do seu imitador Luís Rodrigues.

 

Em segundo lugar, Rodrigues, tal como Blackburn e Desidério Murcho, violam o princípio do terceiro excluído ao colocar o libertismo fora da totalidade da contradição determinismo (campo A)/ indeterminismo (campo não A). O libertismo, se não é determinismo, tem de ser necessariamente indeterminismo. Não há terceira hipótese. Mas isto é incompreensível para as mentes anti dialécticas destes autores e de grande parte dos professores de filosofia que os reproduzem, acriticamente. Ora o libertismo é de facto indeterminismo tal como o livre-arbítrio e o acaso na natureza biofísica. Basicamente, as coisas reduzem-se a uma dualidade: necessidade (não liberdade) e liberdade ou acaso. Quem não for capaz de reduzir as correntes a esta dualidade e à tríade dela decorrente não sabe pensar filosoficamente, com rigor.

 

Em terceiro lugar, Luís Rodrigues e Blackburn não se dão conta que a sua definição de libertismo é a mesma, ao menos parcialmente, que a definição que fornecem de «determinismo moderado». Aliás, deveriam meditar: se o determinismo é "moderado", isto é, limitado, contrariado, quem o limita? O livre-arbítrio, ou seja, a característica essencial que eles mesmos atribuem ao libertismo.

 

Em quarto lugar, Rodrigues afirma que o libertismo é um incompatibilismo mas contradiz-se ao postular que esta corrente admite acções determinadas (obedientes ao determinismo), logo é compatível com o determinismo:

 

«O libertismo não diz que não há acções determinadas - uma constipação é uma acção determinada por factores que escapam ao nosso controlo - mas somente que algumas acções não são o desfecho necessário de causas anteriores. Há acontecimentos que estão fora do nosso controlo, mas nem todos os acontecimentos estão fora do nosso controlo.» (Luís Rodrigues, ibid, pag 31; o negrito é posto por mim).

 

Se o libertismo admite que há acções determinadas, é um compatibilismo: é compatível com essas acções e, sendo assim, é o mesmo que determinismo moderado, ou seja, determinismo ladeado por livre-arbítrio. (exemplo: as ondas do mar fortíssimas arrastar-me-ão se entrar no mar a fundo mas tenho a liberdade de entrar ou não no mar.

 

A definição de libertismo só poderia ter consistência se negasse em toda a extensão a existência do determinismo na natureza biofísica e no espírito. Mas nem Blackburn nem Luís Rodrigues e amigos intuem esta divisão dialéctica, perdidos na hiper compartimentação dos seus conceitos.

 

 

A SUPOSTA DIFERENÇA ENTRE DETERMINISMO MODERADO E LIBERTISMO, SEGUNDO RODRIGUES: O LIVRE-ARBÍTRIO BASEADO NAS CRENÇAS E NOS DESEJOS E O LIVRE-ARBÍTRIO BASEADO NO «EU»...


 

 

Para Luís Rodrigues, imerso nas confusões teóricas do seu mestre Simon Blackburn, a diferença essencial entre o determinismo moderado e o libertismo, para além do primeiro não enfatizar a influência dos acontecimentos anteriores e receber o incompreensível título de «incompatibilismo», residiria no facto de o livre-arbítrio pilar do primeirro assentar nos desejos e crenças do sujeito e o livre-arbítrio pilar do segundo estar  consubstanciado no eu:


 

«O determinista moderado concebe a liberdade de outro modo: livre é a acção que tem como causa os desejos e crenças de um indivíduo, isto é, uma acção cuja causa não são forças externas ao agente. » (Luís Rodrigues, ibnid, pag 30).

«Aqui o libertista responde que os seres humanos não são seres simplesmente naturais porque as deliberações dos agentes humanos são acontecimentos mentais. Nem todos os acontecimentos do universo são o efeito do tipo de causas estudadas pelos físicos e pelos biólogos. Os seres humanos, como pensava Kant, são seres com um estatuto diferente e nem todas as suas acções seguem as leis que regem o comportamento das plantas, minerais e outros animais. Não escolho livcrementer ter agora tensão arterial elevada ou cumprir a lei da gravidade. Contudo, escolho livremente se caso ou não, se leio um livro ou uma revista. Embora essas decisões possam ser influenciadas por vários factores, não são causalmente determinadas por condições anteriores (estados psicológicos anteriores ou factores externos).» (Luís Rodrigues, ibid, pags 31-32; o negrito é colocado por mim).

 


Poderá separar-se, como supõem Rodrigues e Blackburn,  os estados psicológicos internos e as crenças do sujeito, «fundamentos» da decisão livre no «determinismo moderado», do «eu livre do determinismo» , suposto «fundamento» do libertismo? Não, não pode. O eu não existe separado das suas crenças e estados psicológicos, logo a distinção desenhada por Rodrigues acima é uma miragem, um equívoco. Por que razão Blackburn e o seu discípulo Luís Rodrigues classificam Kant de libertista e não de determinista moderado, se Kant afirma que o eu fenoménico (o corpo e os seus desejos) está submetido às leis da natureza biofísica?

 

 

Tanta confusão teórica em autores de manuais, que possivelmente modelarão a prova de exame nacional de filosofia, deve ser discutida e expurgada. Torna-se necessário um movimento nacional de professores de filosofia para varrer a deletéria influência dos Desidério Murcho, Luís Rodrigues, Aires Almeida, Pedro Galvão e outros no ensino da filosofia em Portugal. o que significa, no mínimo, deixar de adoptar os manuais da Lisboa Editora, da Plátano Editora e da Areal Editores, veículos dos erros daquele grupo de docentes. Apenas os filósofos, que são muito poucos entre os professores de filosofia, têm direito a elaborar as provas nacionais de exame. Tudo o resto é erro, burocracia, "estalinismo" logicista analítico (que em Portugal, parafraseando o título do livro de Lenine O esquerdismo, doença infantil do comunismo, recebe o nome de desiderismo, a doença senil do logicismo) , triunfo dos incompetentes. 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 10:20
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