Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011
David Hume e a negação do livre-arbítrio

 

Lendo o «Tratado da Natureza humana», conclui-se que David Hume não acreditava no livre-arbítrio, no pleno sentido da expressão, isto é, na capacidade de escolher livremente em cada circunstância uma atitude ou caminho a empreender. Hume distinguiu dois tipos de liberdade:

 

«Poucas pessoas são capazes de distinguir entre a liberdade de espontaneidade, conforme se lhe chama nas escolas, e a liberdade de indiferença, entre a liberdade que se opõe à violência e a que significa negação da necessidade e das causas. O primeiro sentido da palavra é mesmo o mais corrente; e como é apenas esta espécie de liberdade que nos preocupamos em salvaguardar, os nossos pensamentos se têm dirigido sobretudo para ela e têm-na quase universalmente confundido com a outra.» (David Hume, Tratado da natureza humana, pag 474, Fundação Calouste Gulbenkian).

 

Provavelmente, Heidegger designaria a primeira destas liberdades por liberdade ôntica, de superfície, sensível, e a segunda - caso postulasse a sua existência - por liberdade ontológica, profunda, estutural. E prossegue Hume:

 

«Podemos imaginar que sentimos liberdade em nós, mas um espectador pode correntemente deduzir as nossas acções dos nossos motivos e do nosso carácter; e, mesmo que não possa, em geral conclui que poderia; se conhecesse perfeitamente todas as circunstâncias da nossa situação e do nosso temperamento e os recursos mais secretos da nossa compleição e disposição. Ora isto é a própria essência da necessidade, de acordo com a precedente doutrina.» (Hume, ibid, páginas 475-476; a letra negrita é por mim colocada).

 

Assim, Hume postula um determinismo bio-psico-sociológico em cada pessoa que anula o livre-arbítrio desta. Cada pessoa é regida pela necessidade, isto é, a lei infalível de causas e efeitos conjuntos que se manifesta nos diversos planos da vida (amadurecemos e envelhecemos necessariamente, sentimos fome necessariamente após algumas horas ou dias em jejum, oscilamos necessariamente entre a actividade e o repouso em cada dia; sentimos necessariamente atracção sexual por certo tipo de pessoas e aversão sexual por outro tipo, etc).

 

A massa popular e os parafilósofos crêem que somos livres. Os filósofos de profundidade, em regra, não.

 

David Hume é abordado praticamente em todos os manuais de filosofia do 11º ano do ensino secundário em Portugal - e poderia sê-lo nos manuais de 10º ano que tratam dos valores éticos e do problema do livre-arbítrio - mas nenhum deles, que me conste, foca este aspecto da doutrina de Hume que conjuga o indeterminismo ontológico - o carácter, o eu fixo não existe em cada pessoa, é construção da imaginação, tal como a causação ou lei necessária de causa-efeito não existe na natureza biofísica, é por nós imaginada -  com o determinismo psico-activo ou ético-prático de cada indivíduo - ponderamos várias hipóteses mas somos subtilmente coagidos a seguir uma, aquela e nenhuma outra.

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 10:41
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