Sábado, 30 de Abril de 2011
Sobre a concepção de verdade em Bertrand Russel

 

Em «Os problemas da filosofia», Bertrand Russel escreveu:

 

«1. A teoria da verdade deve ser tal que admita o seu contrário, a falsidade. Alguns filósofos, e não poucos, deixaram de satisfazer adequadamente a esta primeira condição: construiram teorias segundo as quais todo o nosso pensar deveria ser verídico, o que os pôs nas maiores dificuldades para arranjar um lugar para a falsidade. A este respeito, deve diferir a teoria da crença da teoria da intimidade, já que no caso da intimidade não é necessário tomar em conta a existência de um contrário. » 

 

«2. Evidente parece que se não houvesse crença, nada poderia haver que fosse falso, nem tão-pouco haver verdade, no sentido em que a verdade é correlativa da falsidade. Se imaginarmos um mundo só de matéria, não haverá nele lugar para o falso; e, embora se contivessem nesse mundo aquilo a que podemos chamar "factos", não haveria nele verdade alguma, no sentido da palavra "verdade" em que esta última designa coisas da mesma espécie que as falsidades. O verdadeiro e o falso são, de facto, propriedades das crenças e das asserções; e, por isso, um mundo de pura matéria, não contendo crenças nem asserções, não teria verdades nem falsidades

 

«3. Cumpre, porém, observar em contraposição ao que acabamos de dizer aí que o verdadeiro e o falso de qualquer crença depende de algo exterior à crença

 (Bertrand Russell, Os problemas da filosofia, pag 186-187,Arménio Amado, Editor Sucessor, Coimbra, 1974; o negrito é colocado )

 

Há alguma confusão em Bertrand Russell sobre este tema. O verdadeiro e o falso não são apenas propriedade das crenças e das asserções. A verdade não se restringe ao juízo, à asserção, à afirmação ou negação de algo. A verdade está já contida, de forma originária ou embrionária, nas intuições intelectuais ou conceitos que compõem o juízo. O clarear da verdade será o juízo - definição de um conceito, asserção ligando dois ou mais conceitos- ou o raciocínio - articulação lógica e inferencial de dois ou mais juízos.

 

Mas há um anoitecer ou uma noite da verdade, anterior ao juízo,  que é as essências das coisas ou as próprias coisas,que são verdades em si mesmas, intuíveis. Exemplo: o número dois é um conceito - ou um arquétipo para os platónicos - automaticamente verdadeiro, sem dar lugar a falsidade. Se digo «Hoje há nuvens no céu» já há «grãos» de verdade nos conceitos de nuvem, céu e hoje, - e esses «grãos» não admitem nenhuma falsidade em si mesmos - mesmo que a afirmação seja falsa, no contexto histórico. Neste caso, a falsidade está na oposição entre a essência-frase e a existência-referente/ situação real.

 

Se identificarmos o termo verdade com realidade e o termo falsidade com irrealidade, é óbvio que não há terceira via, isto é, não há coisas que não são verdadeiras nem falsas.

 

A suspensão do juízo de existência é uma suspensão do conhecimento da verdade, mas não é, no plano eidológico, estar fora da dicotomia verdade-falsidade. No plano das essências, formas estáveis ou imóveis desligadas da existência, por posição ou por abstracção, não há falsidade: a matéria é tão real como a anti-matéria; o comunismo igualitário e portador de liberdades individuais é idealmente, eidéticamente, real, ainda que seja falso no plano existencial, isto é, impossível de colocar em prática. Dito de outro modo: há ideias que são verdades no plano ideal e mentiras, irrealidades, no plano existencial, físico-social.

 

A  verdade sofre  níveis  distintos de oposição:

 

A) No plano da essência ideal, como verdade-essência ou eidética, é sempre verdade, apesar de possuir contrários que não a anulam mas que com ela coexistem (exemplo: o belo ideal é real nesse plano, não é anulado pelo feio ideal, e vice-versa). É o reino do imutável, perene. 

 

B) No plano da existência ou essência materializada, como verdade ontológica, existencial, é em curtos períodos, ou mesmo a cada instante negada, alterada, ou falsificada pelo seu contrário eidético-ontológico ( exemplo: o político incorruptível cede a pressões de um lobby, isto é, deixa de ser incorruptível; a saúde dá lugar à doença, etc).

 

AS SENSAÇÕES ESTÃO FORA DO BINÓMIO VERDADE-FALSIDADE, COMO SUSTENTOU RUSSELL?
A noção de verdade não é unívoca, ainda que numerosos pensadores a tenham como tal.
Russell escreveu:

«Os dados-dos-sentidos reais não são verdadeiros nem falsos. Uma mancha de cor que eu vejo tão somente existe; não pertence à espécie daquelas coisas que são verdadeiras ou que são falsas. É verdade que essa mancha existe; verdade que tem uma certa forma, certo grau de luminosidade; verdade, ainda, que está cercada de certas outras cores. A própria mancha, porèm, como todas as outras coisas que pertencem ao mundo dos sentidos, é de natureza radicalmente diversa do que é verdadeiro e do que é falso, e por isso é a rigor impróprio o dizermos dela que é verdadeira. Assim, quaisquer verdades evidentes de si que possamos obter pelos sentidos devem ser diferentes dos dados sensíveis através dos quais as alcançamos.» (Bertrand Russel, Os problemas da filosofia, página 178; o destaque a negrito é da minha autoria).

Há aqui um erro: a mancha de cor, e os dados dos sentidos (sense data) em geral, são verdadeiros na tela da psique, isto é, na sua existência. Podem ser falsos na relação com outras essências, imersas na existência exterior, não psíquica, isto é, por exemplo: pode a côr vermelha da rosa ser apenas uma impressão psíquica e não haver vermelho “lá fora” no objecto físico rosa, desprovido de cores.

Se dissermos que a mancha de cor não é verdadeira, negamos a intuição sensorial, fonte primordial da verdade.Portanto, os dados dos sentidos são verdadeiros em si mesmos, podendo ser falsos na sua relação com o todo que os transcende. Ou seja: a verdade depende do contexto (mente, mundo dos objectos físicos, etc) em que se insere. A verdade não implica necessariamente a correspondência da percepção sensorial ou do pensamento com o mundo físico exterior: pode ser interna à própria crença, identificar-se com esta, especialmente ao tratar-se de crença empírica ou sensorial. Verdade e crença coincidem praticamente ao nível sensorial.

Há, portanto, três fontes de verdade:
1) Os orgãos dos sentidos.
2) A razão (incluindo a linguagem, o discurso).
3) O mundo exterior –independente, na concepção realista, do sujeito percipiente.A verdade como aletheia – desocultação - é simultaneamente dada pela coerência (empírico-racional) e pela correspondência entre a percepção e o pensamento, por um lado, e o (suposto) mundo exterior por outro.

Russell escreveu:

«Assim, embora a verdade e a falsidade sejam propriedades das nossas crenças, são não obstante propriedades extrínsecas, em um certo sentido; porque a condição de verdade da crença é algo que não envolve quaisquer crenças, ou (em geral) qualquer espírito, mas tão somente os objectos da crença. Um espírito que crê, crê veridicamente quando há um todo complexo correspondente, todo que não envolve o dito espírito mas unicamente os seus objectos. Esta correspondência garante a verdade; a sua ausência, pelo contrário, redunda em falsidade.Deste modo explicamos simultaneamente que as crenças: (a) dependam dos espíritos para a sua existência; (b) não dependam dos espíritos para a sua verdade.» (…)
«Assim uma crença é verdadeira quando há um facto correspondente à crença; e falsa, pelo contrário, quando não há facto correspondente.»«Comprovam-se por aí que os espíritos não criam a verdade ou a falsidade. Eles criam as crenças; porém, criadas as crenças, não está na alçada do espírito o fazê-las falsas ou verdadeiras, excepto no caso especial em que se referem a coisas porvindouras que estão no poder de realização da pessoa que nelas crê, como seja por exemplo, o fazer uma viagem. O que dá verdade à crença é sempre um facto, facto que não envolve de maneira alguma (excepto em casos especiais) o espírito da pessoa que tem a crença.»(Bertrand Russel, Os problemas da filosofia, página 198-199).
O que é um facto? É um dado consistente dos sentidos, adicionado ou não de uma interpretação teórica, justificado ou não racionalmente. Uma árvore diante de mim é um facto, mas uma ideia de árvore é um conceito, uma idealização do facto sensorial-corporal que é a árvore. O facto científico já não é um facto puro mas um facto-conceito, um facto teorizado. Neste texto, Russell distingue crença de facto mas, na realidade, o facto nem sequer é crença ou é uma crença sensorial ou racional-sensorial de tal forma sólida que parece destituído do carácter falível de qualquer crença.
A verdade é sempre a estrutura e a consistência existencial das coisas ou das ideias e teorias. Verdade significa existência: no plano puramente subjectivo ou no plano objectivo e físico. Uma verdade no plano subjectivo pode ser mentira no plano objectivo porque as leis de correspondência interior-psíquico / exterior-físico não funcionam neste ou naquele caso. Há assim a verdade-conceito e a verdade-imagem, subjectivas, a verdade-facto, independentemente de haver humanidade. ou verdade-percepção empírica sólida, objectiva. Assim, a verdade objectiva é dupla, reforçada: supõe, ou não, a existência de uma verdade subjectiva (ideia, teoria) e de uma verdade objectiva (que engloba o objecto físico ou facto exterior e os fios de correspondência com a verdade subjectiva).

Quando dizemos que uma coisa não é verdadeira nem falsa cometemos um paralogismo: não existe nada fora do valor verdadeiro/ falso; uma coisa só «não é» verdadeira nem falsa quando a tratamos de um ponto de vista sectorial, isto é, quando a circunscrevemos ao domínio em que é possível dizer, no imediato, se é verdade ou falsidade. Assim o fez o positivismo lógico ao postular que a metafísica, em particular juízos como “Deus existe e é o criador do universo e da vida” e “a reencarnação é um fenómeno metafísico generalizado e obedece à lei do carma”, não é verdadeira nem falsa mas “sem sentido”. Porém, de facto, a metafísica tem de ser verdadeira ou não verdadeira (falsa): o positivismo lógico não fez mais do que adiar a decisão, pô-la entre paréntesis, ao restringir o campo da verdade-falsidade à experiência possível.

Também Aristóteles ao garantir que a verdade se encontra no juízo e não no conceito, erra parcialmente. Aquilo que está “fora da dialéctica verdade-falsidade” é, para Aristóteles, as essências (eidos) ou formas comuns (exemplo: cavalo, nuvem, homem). Mas estas são, em si mesmas, a nosso ver, verdade –e segundo Aristóteles, são, sem ter como contrário a falsidade. Mera aparência.

 

As essências encontrar-se-iam, supostamente, fora do ringue onde se defrontam a verdade e a falsidade num lugar onde, aparentemente, não podem ser contestadas pela falsidade. De facto podem, porque é possível, por exemplo, imaginar a essência homem com um corpo exterior de homem e, por dentro, vasos sanguíneos e tecidos não de carne e ossos mas de palha e metal, e imaginar a essência nuvem como nuvem na aparência exterior e sala de um restaurante no interior. Portanto, até o conceito é lugar de verdade.

Verdade é realidade existencial subjectiva (irrealidade) ou objectiva. Devem ser, pois, distinguidas as duas faces da moeda da verdade: a interna e a externa, tendo esta , em princípio, um poder de sobreposição em relação à outra.

Se Russell diz que a côr verde não é verdadeira nem falsa por ser um dado dos sentidos, erra: para garantir a verdade não é necessária justificação racional, basta o testemunho indelével dos sentidos. É óbvio que, no caso das ciências, que se adentram na «gruta» metafísica do universo, das espécies biológicas, da composição invisível da matéria, etc, o testemunho dos sentidos é insuficiente para determinar a verdade e a construção racional-imaginária é indispensável. Temos, pois, a verdade a brotar de duas fontes: os sentidos e a razão-imaginação, conexionados como as duas pontas de um compasso por um ponto referencial que designamos de mundo exterior.

É possível extrinsecar a verdade da crença: nem toda a verdade, do ponto de vista humano, transubjectivo, é crença ( união do objectivo exterior ou do objectivo interior/ideal com o subjectivo) – por exemplo, não é crença a verdade do que foi o planeta Terra há 5 milhões de anos, verdade em si mesma, sem observador humano - mas numerosas crenças não são verdades objectivas.

A verdade objectiva, absolutamente independente da humanidade e dos sujeitos percipientes individuais, isto é, a verdade como não crença, é, pois, possível. Quando se descreve a Terra, ou os números como arquétipos em si, antes do aparecimento do homem está-se, talvez, a pressupor, inconscientemente, uma mente pré-humana, cósmica, no acto de apreender a paisagem da Terra com dinossauros ou glaciares muito extensos e sem seres humanos. Mas é legítimo sustentar que a verdade não pressupõe sempre a relação do pólo objectivo, exterior, físico e vital, com subjectividades ou com uma transubjectividade oculta.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 08:37
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