Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010
Aristóteles e o tempo como número do movimento e do repouso

Aristóteles afirmou, na linha do seu mestre Platão, que as coisas eternas, imóveis e imutáveis, escapam ao tempo. Este segundo Platão, era a "imagem móvel da eternidade"  mas, segundo Aristóteles, é o "número do movimento". É o movimento que faz envelhecer as coisas e não o tempo, que é apenas o «cronómetro» desse movimento.

 

«Por outro lado, "ser no tempo" é ser afectado pelo tempo, e assim costuma-se dizer que o tempo deteriora as coisas, que tudo envelhece pelo tempo, e que o tempo faz esquecer, mas não se diz que se aprende pelo tempo, nem que pelo tempo se chega a ser jovem e belo; porque o tempo é, por si mesmo, mais precisamente, causa de destruição, já que é o número do movimento, e o movimento faz sair de si o que existe.» (Aristóteles, Física, Livro IV, 221 a, 30; 221 b, 5; o negrito é de minha autoria).

 

Note-se a expressão «o movimento faz sair de si o que existe». Como não ver nela uma inspiração para a filosofia de Hegel que abundantemente falou do «sair de si»  e do «ser fora de si»? Não é por acaso que Hegel nutria uma manifesta admiração por Aristóteles.

Assim, o tempo é, de certo modo, subjectivo ou intersubjectivo. É o medidor intelectual do movimento mas não é este. E ao referir-se, num tom platónico, às coisas que são sempre, isto é aos arquétipos, na concepção de Platão, ou às formas eternas e imóveis incorporadas no mundo material, segundo Aristóteles, este escreveu:

 

«É evidente que as coisas que são sempre, enquanto são sempre, não são no tempo, já que não estão contidas no tempo, nem o seu ser é medido pelo tempo. Um sinal disto é o facto de que o tempo não as afecta, já que não existem no tempo.»

«E posto que o tempo é a medida do movimento, será também a medida do repouso, já que todo o repouso está no tempo. Porque ainda que o que está em movimento tem que mover-se, nem tudo o que está no tempo se tem de mover, já que o tempo não é um movimento, mas o número do movimento, e o que está em repouso pode ser também no número do movimento; porque nem tudo o que está imóvel existe em repouso, mas somente o que está privado de movimento mas pode ser movido por natureza, como se disse antes.» (Aristóteles, Física, Livro IV,  221 b, 5-10; o negrito é posto por mim)

 

Aristóteles admite, habilmente, que o tempo mede o movimento e o repouso mas erra, aparentemente, ao dizer que todo o repouso está no tempo. As formas imóveis e eternas transcendem o tempo e estão em repouso (êremía, stásis), - a menos que este último termo só se aplique às coisas da .natureza dotadas de movimento e haja outro termo para designar a imobilidade absoluta, como será o caso na terminologia aristotélica.


E de facto, numa passagem mais adiante, Aristóteles mostra que circunscreve o termo repouso aos entes da natureza física:


«Portanto, tudo o que não existe nem em movimento nem em repouso não existe no tempo, porque « ser no tempo» é «ser medido pelo tempo», e o tempo é a medida do movimento e do repouso.» (Aristóteles, Física, Livro IV,  221 b, 20-23; o negrito é posto por mim)


www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 22:31
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4 comentários:
De f.limpo.queiroz a 24 de Setembro de 2010 às 08:22
Vejo que o Diogo diverge de Aristóteles ao considerar o tempo como movimento ao passo que o filósofo grego o considerava o "número do movimento", uma afecção deste. Um debate interessante.


De Diogo a 24 de Setembro de 2010 às 04:41
O tempo é movimento, é energia, tudo o que não faz parte não existe,o tempo é uma bussula, mede distâncias em qualquer universo, estamos, porque estamos a "X" tempo de um "y". Ponto final. Universos paralelos? Talvez... Ate la precisamos de tempo!


De Pedro a 28 de Novembro de 2013 às 21:30
Francisco, gostei muito do seu texto. Gostaria de saber especificamente de qual versão/edição da Física de Aristóteles você retirou suas citações, pois quero usá-las em um artigo que estou escrevendo. Se puder me passar a referencia completa e confirmar a exatidão de sua citação ficaria extremamente grato.

Atenciosamente,
Pedro


De Francisco Limpo Queiroz a 29 de Novembro de 2013 às 00:12
Ora bem, Pedro, ainda bem que apreciou este texto. A versão de que foram traduzidas para português as passagens citadas é a versão espanhola:

Aristóteles, Física, Biblioteca Clássica Gredos, Editorial Gredos,,203; ano de 2008,Madrid , primera reimpressión

Introducción,traductión ynotas de GUILLERMO R. DE ECHANDÍA

Na página 61, Introdução reza assim:
«Esta tradução da Física fez-se sobre o texto grego estabelecido por Sir David Ross (Oxford, 1936), como todas as que se fizeram em Espanha desde então.»

Veja agora os pormenores das páginas e numerações do texto:

«Por outro lado, "ser no tempo" é ser afectado pelo tempo, e assim costuma-se dizer que o tempo deteriora as coisas, que tudo envelhece pelo tempo, e que o tempo faz esquecer, mas não se diz que se aprende pelo tempo, nem que elo tempo se chega a ser jovem e belo; porque o tempo é, por si mesmo, mais precisamente de destruição, já que é o número do movimento, e o movimento faz sair de si o que existe.» (Aristóteles, Física, Livro IV, 221 a,30; 221 b; 5 , pag 280 da edição Gredos, o negrito é de minha autoria).

«É evidente que as coisas que são sempre, enquanto são sempre, não são no tempo, já que não estão contidas no tempo, nem o seu ser é medido pelo tempo. Um sinal disto é o facto de que o tempo não os afecta, já que não existem no tempo.»
«E posto que o tempo é a medida do movimento, será também a medida do repouso, já que todo o repouso está no tempo. Porque ainda que o que está em movimento tem que mover-se, nem tudo o que está no tempo se tem de mover, já que o tempo não é um movimento, mas o número do movimento, e o que está em repouso pode ser também número do movimento; porque nem tudo o que está imóvel existe em repouso, mas somente o que está privado de movimento mas pode ser movido por natureza, como se disse antes.» .» (Aristóteles, Física, Livro IV, pag 221 b; 5-10 , pag. 280-281 da edição Gredos, o negrito é posto por mim)

Posso confirmar a exactidão da citação. Domino bem a língua castelhana e não creio ter errado na tradução. A introdução está muito bem escrita por Echandía.

Cumprimentos e que produza um artigo de elevada qualidade


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